domingo, 21 de abril de 2013

A árvore que despencou no chão

A árvore que despencou no chão

Era uma vez uma Árvore frondosa, imponente e repleta de grandes e viçosos galhos. Todo aquele a quem era reservado a felicidade de vê-la e admirá-la, ficava como que estático e extático tamanha era sua beleza e exuberância. Por isso ela atraía a atenção de pessoas do mundo todo, sendo assunto desde os ébrios nos botequins até os doutos e mestres nos grandes centros universitários. Havia nela, por assim dizer, um certo encantamento que a tornava uma Árvore verdadeiramente única, ímpar e sem igual em toda face da terra.
E toda essa singularidade residia no fato de seus galhos serem magistralmente compostos por uma infinidade de seres vivos, todos amalgamados por uma rígida e compassada inter-relação, numa progressiva evolução rumo à suprema perfeição natural. Nos galhos de baixo achavam-se os vermes, sendo por isso considerados os seres menos dignos de todo o arbusto; a seguir vinham os répteis, depois as aves, os mamíferos e, por fim, no seu mais alto cume, aparecia ostentosamente o homem, a obra máxima da seleção natural.
O tempo passou e com ele intensificou-se o respeito e o apreço pelo insigne vegetal. Quem, por necedade ou negligência ousasse contestar sua relevância para o bem da humanidade, era de imediato silenciado ou forçado a reexaminar sua postura anátema, sob pena de prisão e tortura.
- Hereges malditos! vociferavam indignados seus audaciosos defensores. - Como ousam questionar o inquestionável? indagavam inconformados com tão grande heresia.
Mas as árvores, tais quais os homens e as flores, também envelhecem. Assim se deu com a nossa ostentosa Árvore. Os vestígios do tempo tornaram-na árida e quebradiça. Ademais, alguns mais ousados, que traziam em si certa desconfiança, resolveram, na calada da noite, investigar de perto o que de fato se passava com aquele majestoso vegetal. Essas inquirições tornaram-se frequente e, aos poucos, descobriu-se que muitos dos seus galhos foram ali implantados mediante artifícios humanos, e não como consequência da ação invisível da seleção natural, como apregoava a unanimidade acadêmica nos quadrantes da terra. Entretanto, o temor das ameaças falou mais alto. O silêncio tornou-se a regra.
Mas o tempo continuou a passar.
Foi então que num belo dia, num desses dias em que o sol parece brincar de rei, que a Árvore, pela primeira e única vez balançou. Tal acontecimento veio seguido de enorme comoção mundial, e a notícia se espalhou como um impetuoso vento pela face da terra. Milhares de pessoas vieram então vê-la, quiçá, pela última vez. Ao seu redor uma multidão de repórteres lançava aos lares a chocante imagem da ingente Árvore a balançar. Até que, de repente, num diminuto lapso de tempo, eis que o lenhoso vegetal despenca e, como água de cachoeira, desfalece no chão.
Houve choros e lamentações, e alguns até se lançaram em precipícios em profundo desespero. Mas nada se podia fazer. A grande Árvore estava por fim inerte ao chão. Logo vieram os especialistas, os quais, munidos das mais avançadas técnicas e equipamentos, tentavam desvendar a causa de o poderoso vegetal ter capitulado. As conclusões foram rápidas e sucintas:

A Árvore era uma grande farsa, e os seres que a adornavam nada mais eram do que produtos da astuta ação de certo naturalista, o qual, impelido pelo desejo de ver sua teoria estabelecida, conseguiu a proeza de torná-la real ante mesmo os mais rígidos escrutínios dos grandes sábios de terra.

---
Por: Iba Mendes (2008)

Nenhum comentário:

Postar um comentário