sábado, 20 de abril de 2013

Um australopithecus no meu quintal

Um australopithecus no meu quintal

Tinha acabado de me levantar e, como diria Bandeira, tomado o café que eu mesmo preparei. Abrir e a porta, e eis uma estonteante surpresa! Um australopithecus sentado sobre um velho muro na mesma posição do “Pensador” de Auguste Rodin.
E agora? ponderei mentalmente perplexo: Telefonar para a polícia ou chamar um darwinista especializado nesse tipo de bicho?
Não era a primeira vez que via um australopithecus. Quando tinha cinco ou seis anos de idade e morava no meio do mato, lembro-me de ter visto um ser igualzinho a esse, com a diferença de que aquele não estava assim tão introspectivo.
Não, não irei acionar a polícia. Talvez seja o caso de convidá-lo para tomar café e, quem sabe, saborear mais tarde um bom churrasco ao som de “A Conquest of Paradise”. Os australopithecus devem ter um gosto muito especial por churrasco!
Mas, e se ele no seu instinto ainda animalesco arremessar contra mim suas garras afiadas? Meu Deus!
Um turbilhão de ideias aflorou minha mente confusa. Embora temeroso e apreensivo, pus-me em sua direção, na expectativa de que ele fosse, se não o próprio neandertal, ao menos seu ancestral mais próximo.
- Bom dia, senhor australopithecus, falei com voz embargada pela satisfação inesperada de topar com a figura de quem estudei nos livros da minha juventude.
Ele permanecia estático e todo absorvido em si mesmo, assim tão excêntrico quanto os velhos filósofos. Insistir:
- Bom dia, senhor australopithecus!
Encarando-o ergui minha mão para cumprimentá-lo. Ele, porém, não se mostrava disposto a monólogos ou cortesias. Que fazer? pensei aflito.
Neste instante um pardal que disputava com os pombos os restos de um pão sobrevoou-lhe:
- A vida do homem é como a sombra de um pássaro que nos sobrevoa, balbuciou introspectivamente.
Fiquei atônito. Estava bem diante de um australopithecus filósofo!
Perguntei-lhe então se tinha lido isso no Talmude ou se havia extraído sua sábia meditação de algum dos antigos filósofos gregos. A partir daí entramos no mundo dos livros, e muitos nomes foram citados. Estranhamente, porém, em nenhum momento ele fez menção da pessoa de Charles Darwin nem do seu livro “A Origem das Espécies”. Curioso, indaguei-lhe:
- E Charles Darwin, o que tens a dizer deste eminente filósofo?

Neste instante ele ergueu-se de súbito e caminhou na direção do vento, desaparecendo em seguida como um zumbi numa noite de sexta-feira.


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Por: Iba Mendes (2008)

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