quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A santa

A santa

Era uma mulher triste. Tinha por hábito rezar costumeiramente às 18 horas, quando tocava no rádio a “ave-maria”.
Nesse dia, contudo, ela não rezou. Havia 15 anos que não falhara um só dia sua prática habitual de devoção.
Se a causa foi o esquecimento, este deve ter sido acompanhado por alguma doença grave, posto que prometesse a Deus por meio de uma solene promessa que manteria esta regra todos os dias até o último dia de sua vida.
No dia seguinte nada havia em sua aparência que pudesse indicar sintoma de alguma moléstia; tampouco se notava alguma alteração na maneira de conduzir seus afazeres domésticos. Tudo estava como dantes, exceto seu compromisso com a “ave-maria”.
Passou-se uma semana sem rezas.
No horário em que outrora praticava suas orações, ligava o rádio para ouvir Roberto Carlos, enquanto preparava o jantar para a mãe, há muito enferma e de cama.
A mãe, embora houvesse percebido a mudança, não se atrevia a perguntar a razão, temendo alguma reação que a deixasse irritada ou que a fizesse sofrer: “Vai ver arrumou um homem”, pensava a padecente.
Não se sabe, porém, de nenhum homem; e se houvesse, tratava-se de um romance muito bem dissimulado, afinal, ela nunca fora vista em circunstâncias que pudesse denunciar um caso amoroso. Nunca.  
O fato é que já havia se passado um ano desde a sua última reza, e sem nenhuma resposta para tão súbita transformação.
Aproximando-se seu aniversário, a enfermidade da mãe agravou-se sobremaneira. Era caso certo de morte. Restavam-lhe alguns dias, talvez dois, diziam os médicos.
- Filha, você sabe que estou indo dessa pra melhor – balbuciava com gemidos a velha. - Faz um ano que algo atormenta minha cabeça; uma pergunta a qual, por receio, sempre evitei fazer, mas creio que agora é chegado o momento.
- Pergunte minha mãezinha, pergunte!
- Há 15 anos você fez um voto a Deus, lembra-se?
- Sim, minha mãe – respondeu visivelmente agitada.
- Então, há um ano que você não cumpre mais seu voto. Por que, filha?
Neste instante a enferma é acometida de uma violenta convulsão e morre. A filha, desesperada, aproxima seu rosto do ouvido da defunta e diz:

- É que nunca acreditei em Deus, minha mãe, e chora copiosamente. 


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Por: Iba Mendes (janeiro, 2014)

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