segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A vela azul

A vela azul

Embora confessasse publicamente sua descrença nas religiões e nos deuses, tinha por hábito acender uma vela toda sexta-feira.
Não o fazia, porém, por algum propósito místico ou religioso. E, quando questionada sobre az razões de tão estranho hábito, respondia apenas que agia assim por se sentir bem. "Só por isso", concluía.
Usava sempre vela da mesma cor, que era acesa sempre no mesmo lugar, numa pequena mesa de mogno, caprichosamente posta ao lado da cama em que dormia.
Essa prática remonta aos seus 30 anos, e não teve, na época, nenhuma motivação especial. Estava bem de saúde, ganhando um bom salário e apaixonada ou, como gostava de dizer às amigas, “loucamente apaixonada”.
Aconteceu naturalmente após um apagão na rede elétrica. Ficou tão deslumbrada e fascinada com o clarão dos cílios que nunca mais quis se desfazer dele. De lá para cá, podia faltar tudo em casa, menos velas azuis.
Não se sentia nem um pouco incomodada pelas constantes interpelações das visitas. “Ora, por que o simples ato de acender uma vela precisa significar algo especial?”, indagava aos seus questionadores.
Não pensava da mesma forma sua indiscreta vizinha do lado, que sentia muito gosto em espiar o “ritual da vela” pelas frestas da veneziana. Foi dela que partiu o boato de que a “solteirona da casa azul” realizava rituais de magia negra, e que a prova disso eram as velas que ela acendia à noite durante as sextas-feiras.
"E tem macho no meio!", alertava aos outros da vizinhança. "Mas eu vou descobrir quem é o filho do cão-tinhoso", acrescentava a gorda senhora, já com os seus nervos agitados.
E descobriu. Foi numa sexta-feira santa. Fazia muito calor.
Como de costume, a curiosa vizinha correu até a veneziana. Pela frincha observava cada movimento da janela ao lado. Munida de um binóculo que havia comprado especialmente para este fim, concentrou seu olhar no “ritual”. Percebeu que a solteirona estava acompanhada por alguém. Era um homem gordo e careca. Estava sentado de costa. Esperou mais um pouco. Ficou impaciente. “Agora!”, pensou. Reposicionou melhor a lente e viu, espantada e toda trêmula, o seu próprio marido com um isqueiro na mão a acender uma vela azul, que a esta altura já chamuscava inflamadamente na mão da outra. 


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Por: Iba Mendes (janeiro, 2014)

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