quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Estalo iluminativo

Estalo iluminativo

Desde que perdeu a esposa num grave acidente de automóvel, ficou assim com ar de filósofo e introspectivo.
Passa a maior parte do tempo lendo os escritores russos, especialmente Leon  Tolstoi, do qual já leu todas as traduções para o idioma português, inclusive duas vezes o “Guerra e Paz”.
Raramente é visto conversando com alguém, e quando o faz, esforça-se para não falar de si próprio.  
Tenciona escrever um livro, um romance ambientado no século XVIII. Disse-me, certa vez, que apenas aguarda o "estalo iluminativo" para dar o pontapé inicial ao ambicioso projeto literário.   
Acerca do tal "estalo iluminativo", explicou-me que seria o momento propício, o qual não está sujeito à sua própria vontade e que não pode ser traduzido em palavras.
Antes do falecimento da mulher era uma outra pessoa, o tipo a quem se pode de fato atribuir o rótulo de “popular”, um frequentador contumaz de botecos e um grande apreciador dos destilados e de um bom vinho do Porto.
Não se sabe exatamente se a metamorfose porque passou fora consequência da dor pela perda da companheira ou se o simples resultado de suas ponderações filosóficas acerca da morte e da vida. Essa incerteza recai no fato de ter vivido um relacionamento deveras conturbado, com contínuas brigas e até momentâneas separações. Acrescente-se a isto o inusitado flagrante, no qual fora visto, uma semana após o óbito da mulher, com uma morena de encantador requebro.
Vive dos aluguéis de três casas herdadas da família. Antes era funcionário público, trabalhando como escriturário numa das repartições do Estado, até o falecimento do pai.
Mora numa casa simples, porém muito bem cuidada e elegantemente mobiliada. Visitas geralmente só em datas especiais, como no Natal, quando dá estadia a uns parentes vindos lá do Rio Grande do Norte.
Há alguns dias encontrei-o num ônibus. Ia ao médico. Sofria de gastrite nervosa e tinha frequentes crises de renite alérgica. Conversamos pouco. Perguntei-lhe se tinha intenção de contrair um novo matrimônio, ao que respondeu que sim, mas não por hora.
- Ainda aguardo aquele "estalo iluminativo", disse com certo tom de galhofa. 
Convidei-o para almoçar no próximo domingo em minha casa. Aceitou de pronto o convite. Despedimos-nos.
................................................................................................................................................
Não veio ao almoço. Ligou-me para pedir desculpas e para justificar a ausência. Dizia que estava preso a um relevante projeto. Indaguei-lhe então se se tratava daquele romance. Sorrindo, disse que sim, que se tratava de um “romance”.
É o “estalo iluminativo”! pensei.

Equivoquei-me. Era o casamento do nosso filósofo com uma senhora de origem russa, viúva e vinte anos mais velha do que ele. Amanhã seguirão de lua de mel para Moscou.

---
Por: Iba Mendes (janeiro, 2014)
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário