sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O sonho estranho

O sonho estranho

Teve um sonho tão estranho!
Mas era apenas um sonho, e sonhos só fazem algum sentido para as gentes supersticiosas ou para os devotos de Freud, o que de modo algum era seu caso.
Ora, não era a primeira vez que tivera um sonho assim tão excêntrico e bizarro. Há uns três meses sonhara que carregava um enorme caramujo nas costas, até se transformar num deles. Em outra ocasião, sonhou que vivia uma personagem de um dos livros do escritor Franz Kafka, uma espécie de barata humana. E mais recentemente sonhou que era Carmen Miranda e que estava sentada sobre o Cristo Redentor, no Corcovado. Portanto, não havia nenhuma razão para tornar este sonho um caso singular em relação aos demais. Era apenas um sonho entre tantos outros. Devaneios da mente. Fantasias, simplesmente.
Arrumou-se e saiu para trabalhar como sempre fazia, sem nenhuma preocupação ou cuidados adicionais. Não se benzeu nem pediu proteção aos santos.
Enquanto andava veio à mente um caso contado por uma senhora num programa de televisão. Dizia esta que havia sonhado com a morte do marido num acidente de automóvel, o que aconteceu logo no dia seguinte e em circunstâncias bem análogas às do seu pesadelo. Lembrou-se ainda de um filme que assistira com um antigo namorado, intitulado “A Ciência dos Sonhos”, aliás, um filme muito besta, dizia mentalmente enquanto seguia seu caminho.
Como de hábito, entrou numa banca de jornal para comprar sua revista semanal, e não resistiu ao sedutor colorido de um opúsculo que tinha por título “O maravilhoso livro dos sonhos”. Levou ambos.
No ônibus, ia pegar a revista para ler, mas se deixou seduzir pelo livrinho. Abriu-o procurando no índice o vocábulo pertinente ao que sonhara à noite. Leu menos de duas páginas e estremeceu como se acordasse sobressaltada daquele mesmo pesadelo. Tomada de aflição, lança o livro pela janela do coletivo, enquanto busca olvidar da mente o que acabara de ler.
Na empresa, não conseguia pensar em mais nada. O sonho parecia incendiar sua mente como sarça ardente, e de tal modo que sentiu como se estivesse ficando louca. Saiu desesperada sem avisar a ninguém. Queria chegar logo a casa, deitar-se e esperar findar aquele dia horrível.
Chegou esbaforida e assustada. Mal entrou atirou-se sobre o sofá, onde adormeceu com a mente cheia de pensamentos ruins.
À meia-noite acordou aos gritos. Sentia como se estivesse sendo perseguida por algum malfeitor. Correu às portas e janelas, para garantir que realmente estavam fechadas. Repetiu isso várias vezes, desesperada.
Acordados pala persistente balbúrdia, alguns vizinhos se dirigiram até lá. Chamaram pelo seu nome. Ela não respondeu. Bateram na porta. Ela não abriu. Ouviam-se apenas sons penetrantes e estridentes, como se fossem os berros de um animal que se encontra acuado diante de seu violento predador.

O dia amanheceu com uma viatura da polícia na calçada. Dentro de casa havia um silêncio sepulcral. Logo a seguir veio uma ambulância. Desceram dois homens vestidos de branco, os quais, juntamente com o policial arrombaram a porta. Entraram. Subiram às escadas. Empurram a porta do quarto. Lá estava ela deitada sobre a cama, com os olhos esbugalhados, a cabeça raspada e nua, completamente nua... do mesmo modo como estava no sonho.


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Por: Iba Mendes (janeiro, 2014)

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