terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O último adeus

O último adeus

Sentado numa cadeira estilo “Luís XV” fumava seu velho cachimbo de barro, pensando na vida e nas mulheres que amou.
Não foram muitas, mas o bastante para prolongadas digressões e refletidas baforadas.
Havia 15 anos que perdera sua última esposa. De lá para cá se manteve todo o tempo como um verdadeiro celibatário. Dizia que não tinha idade nem paciência para começar tudo outra vez.
- Mulher é um bicho muito bom, mas dá muito trabalho! pilheriava com alguns amigos numa mesa de bar.
Sua opção pela autoclausura não se deveu, entretanto, à falta de oportunidades. Desde sua viuvez muitas foram as pretendentes, algumas das quais, diga-se de passagem, na chamada “flor da idade”.
Não teve filhos. Quanto a isto costumava brincar, parafraseando o nosso Machado de Assis, nas suas “Memórias Póstumas”:
- Não tive filhos, e não transmitirei a nenhuma criatura o legado do meu cachimbo.
Vivia sozinho numa pequena casa na esquina de uma das mais antigas ruas da cidade. Foi ali que conheceu seu grande e verdadeiro amor. Foi ali que o perdeu para sempre. E era ali onde desejava permanecer até o seu derradeiro adeus.
Recebia poucas visitas, e tinha a seu favor uma saúde rara para a idade. Costumava afirmar que foi apenas três vezes aos médicos, e,  quando indagado sobre os motivos, respondia:
- Eu fui foi no enterro deles!
Não frequentava nenhuma religião, mas tinha na Bíblia seu livro de cabeceira. Possuía também uma pequena biblioteca com cerca de 200 livros, dos quais a obra completa de Machado de Assis e Manuel Bandeira.
Não gostava de televisão, mas tinha um apreço inestimável pelo rádio, principalmente pelas programações com músicas do seu tempo: - Não para lembrar o passado, explicava, mas para comemorar o presente, as coisas boas da vida, como o meu café e o meu cachimbo.
Nunca fora visto queixando-se ou lastimando-se por algum desregramento cometido nos tempos de outrora. Repetia sempre, fazendo uso do poeta, “que seus ombros não podiam suportar o mundo”.
- Deixo minhas culpas para vocês que se incomodam tanto com elas, gracejava.
Com o tempo, acostumou-se a esquecer de seus aniversários. Até sua idade não fazia nenhuma questão de lembrar.
- Depois dos oitenta, o que vier é lucro! galhofava com muito bom humor.
Era domingo de um deslumbrante ensolarado. Foi à feira pública comprar roupa nova e um par de sapatos.
- Arrumou namorada? indagou num tom espirituoso o dono da banca.
- Nada, vou fazer uma viagem longa, replicou com aquele seu riso singular e espontâneo.
Dias depois alguns amigos bateram à sua porta, que estava apenas encostada. Entraram assustados. Chamaram-no pelo nome. Ouviam-se apenas música. Era o rádio ligado. Percorreram cada recinto da casa. Não havia ninguém. Sobre o rádio estava o cachimbo e um pedaço de papel com o seguinte trecho de um conhecido poema de Manuel Bandeira: “Vou-me embora pra Pasárgada... Lá tenho a mulher que eu quero... Na cama que escolherei”.

Foi este seu último adeus.


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Por: Iba Mendes (janeiro, 2014)

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