quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O Cético

O Cético

Repentinamente e sem qualquer explicação passou a manifestar um pavor obsessivo pelo inferno, e de tal modo que a simples chama de uma vela causava-lhe angustiosos arrepios. Era como se fossem chispas incandescentes a alertar-lhe sobre o fatal destino dos pecadores.
Em consequência disso passou a sofrer de pirofobia, que é o medo mórbido do fogo. Não suportava cenas de incêndio, e qualquer sinal de fumaça fazia estremecer seu corpo, acelerando-lhe os batimentos do coração e lhe secando a garganta.
Não foi por outra razão que abdicou de ser bombeiro, que era o grande sonho do pai. Imaginava incêndios infernais devorando suas carnes, enquanto sirenes atordoantes anunciaria a chegada do juízo final.
Desconhece-se a exata razão que fez despertar nele todo este sentimento de angústia e pavor. Suspeita-se que principiou quando ainda era meninote, com as histórias da Literatura de Cordel, que sua avó lhe contava todos os dias antes de dormir. Também entram nesse imbróglio as aulas de catecismo, com as quais aprendeu acerca da condenação eterna dos ímpios no lago de fogo e enxofre. Acrescente-se ainda a tudo isso o seu grande fascínio por filmes de suspense e terror, especialmente aqueles produzidos por Alfred Hitchcock.
Triste e aborrecido, empenhou-se ele na superação do problema. Para isso, fez terapia, frequentou seitas e igrejas, buscou refúgio na meditação transcendental, recorreu à ioga, apelou às sessões espíritas e até praticou os rituais mágicos dos anjos. Tudo em vão. O medo das labaredas infernais perseguia-lhe a alma não obstante de todo o seu esforço para se livrar dele.
Restava-lhe ainda a opção pelo ceticismo. Foi quando passou a ler os filósofos existencialistas e niilistas. Em uma semana deglutiu toda a obra de Nietzsche. Debruçou-se ainda sobre Charles Darwin e outros cientistas da linhagem evolucionista. Leu seguidamente três vezes “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, de Carl Sagan. Por fim, rendeu-se ao ateísmo moderno após a leitura de Richard Dawkins.
Sentia-se, finalmente, livre dos grilhões do inferno. Uma vez livre de Deus, pensava, não restava nenhum motivo para se preocupar com o diabo e menos ainda com o inferno.
Queria comemorar sua libertação. Para isso convidou os amigos da faculdade para uma festa, à fantasia, a ser realizada na mansão de um abastardo tio, que lhe cedera o imóvel com a única condição de que o devolvesse na ordem em que foi entregue.
O mesmo tio financiou o evento. Era ele um próspero comerciante da cidade, proprietário de uma grande madeireira e fabricante de móveis para uso doméstico.
A solenidade foi batizada de “a bacanália”, em referência à celebração realizada na antiga Roma, em honra a Baco, o inventor mitológico do vinho. Iniciar-se-ia às 21 horas do sábado, formalizando-se a regra pela qual fosse barrada a entrada de quem não estivesse devidamente vestido a caráter.
É sábado à noite. Tem-se início à “bacanália”. O primeiro a chegar é um homem da caverna, seguido de uma bruxa e de um vampiro. O anfitrião está elegantemente vestido de bombeiro, e sua namorada de uma encantadora deusa grega. Vieram em seguida Homer Simpson, Bob Esponja e a Mulher-Gato. Adiante chegaram a Chapeuzinho Vermelho, o Chapeleiro Louco, a Noiva Cadáver, entre outros ilustres personagens da imensa fauna televisiva e cinematográfica.
Meia-noite. O ambiente está euforicamente animado. Muita bebida, som estonteante, gritos e explosões de risos realçam o aspecto carnal das bacanálias dionisíacas.
- É a festa da libertação! grita com entusiasmo o bombeiro, enquanto é deliciosamente beijado pela sua deusa grega.
Lá fora chove muito. Um forte ruído provocado por uma descarga elétrica faz apagar a luz do recinto. Mais gritos e gargalhadas. A festa continua dionisiacamente animada.
Alguém bate à porta. O anfitrião vai atender. Abre-a e dá de cara com o capeta, que traz consigo uma tocha acesa na mão. Um calafrio corre-lhe por todo o corpo. Tremendo e todo pálido, sai em disparada debaixo da chuva... Os raios cortam os céus... O cético desaparece na escuridão...

É o recomeço do seu inferno...

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Por: Iba Mendes ("Primeiros Contos", fevereiro, 2014)

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