quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Tentação

Tentação

Insistiu muito para que não fosse. Argumentava ter tido pressentimentos ruins durante toda à noite. Dizia ainda que tivera sonhos horríveis, e que por isso deveria adiar a viagem, pelo menos por hora.
- Era como se fosse a própria voz de Deus pedindo para que você, amor, desistisse dessa viagem. Não vá, por favor! implorava assim aflita ao marido, que se mantinha irresoluto na sua decisão de partir ainda naquele mesmo dia.
- Que besteira é essa agora, querida. Pressentimentos? Ora, não estamos mais na Idade Média. Sossegue, vai dar tudo certo! tentava consolá-la acariciando-a no rosto com uma das mãos.
Almoçou e foi arrumar as malas. Duas apenas. O suficiente para quinze dias longe de casa. Ela recusou-se a prepará-las.
- Não vou concorrer para essa loucura, resmungava um tanto aborrecida.
- Pois deixe que eu mesmo as arrume. Vá descansar um pouco. Precisa descansar.
Contrariada recolheu-se ao quarto. Fechou a porta e se ajoelhou ao pé da imagem de uma santa, suplicando-lhe contritamente:
- Oh, minha Virgem Maria, livrai meu  esposo de todo o mal. Protegei-o das astutas ciladas do maligno. Não permita, minha doce Senhora, que ele seja induzido à tentação...
E assim permanecia enclausurada, na esperança de que o marido, comovido com sua dor, abrisse mão voluntariamente do seu projeto. Porém, passado algum tempo, caiu em si que ele não cederia aos seus rogos, então abandonou a reclusão para tentar convencê-lo, ainda que pela última vez, a desistir da viagem.
- Se você renunciar a este seu intento, prometo-lhe um filho para os próximos meses.
Embora já estivessem casados há quatro anos, não tinham ainda filhos. A razão incidia sobre um suposto trauma que ela passou a manifestar após o falecimento, durante um parto, da sua única tia. Justificava ainda que não estava psicologicamente preparada para tamanha responsabilidade. Era preciso aguardar só mais um pouco. Ele, contudo, não aceitava os subterfúgios, e muitas vezes ameaçou pedir divórcio. Não foi adiante. Temia alguma consequência que lhe fizesse sentir culpado ou que lhe ferisse a consciência; ademais, tinha esperança que de um momento para outro ela mudasse de ideia. Seja como fosse, era melhor assim, resignava-se.
Agora estava surpreso com tão repentina propositura. Manteve-se em silêncio por alguns instantes, o bastante para ponderar uma resposta, que veio entremeada de um riso sarcástico:
- Ora, acabou-se o trauma?
As lágrimas desceram-lhe dos olhos, comovendo-o. Ele então pediu desculpas e prometeu que encurtaria sua viagem e que ficaria ausente apenas uma semana.
- Apenas uma semana, tudo bem?
Fizeram as pazes. Beijaram-se. Era a hora do adeus.
- Breve estarei de volta, querida. Não há motivo algum para inquietações. Vai ser uma viagem tranquila como as outras. Sossegue!
Beijou-lhe levemente na testa, retirando-se apressadamente em direção ao automóvel.
- Estarei rezando por você. Deus há de livrá-lo da tentação, gritou ao longe, enquanto ele dava partida no carro.
Esta última palavra causou-lhe alguma estranheza. Não queria ela dizer “perigo”? Lembrou-se então de uma passagem da Bíblia, a qual discorre sobre a fraqueza da carne e acerca da necessidade da vigilância para se vencer a tentação. “Besteira”, pensou...
Passou-se a entediada semana. Ela estava ansiosa. Há dois dias que não conseguia falar-lhe ao telefone, o qual dava sempre ocupado. Recorreu novamente à santa. Apelou também a outros santos. Rezou o padre-nosso: “E não nos deixeis cair em tentação” etc.
Havia preparado um almoço especial. Era visível seu estado de excitação. Na sacada do apartamento mirava o horizonte. Ali permaneceu até ouvir tocar o telefone. Era o marido avisando que um imprevisto de momento lhe fizera adiar a viagem. Não explicou, todavia, de que se tratava o imprevisto. Ficou apenas no “imprevisto” e no silêncio do telefone.
Telefonou na semana seguinte. Desta feita, porém, não falava em imprevistos. Dizia que os negócios se avolumaram e que por isso deveria adiar mais uma vez o seu retorno. Prometia, contudo, voltar sem falta dentro de trinta dias.
De fato cumpriu o prometido. Um mês depois regressou. O apartamento estava vazio. Havia sujeira por todas as partes. Algumas luzes acesas. As contas atrasadas sobre a mesa. A geladeira desligada e cheirando a comida em putrefação. Muitas roupas espalhadas pelo chão. A Bíblia aberta no Salmo 91. A imagem da santa quebrada. A cama desarrumada e com um travesseiro de cada lado. No espelho o desenho de um coração flechado feito com batom vermelho.
Assustado ele anda de um lado para outro. Um turbilhão de dúvidas lhe assalta a mente. Liga para o porteiro do prédio, que afirma ter visto a mulher, dias antes, saindo com uma mala e acompanhada por um homem alto, com paletó e de bigode. Não viu mais nada, disse.

Dirige-se à sacada. Contempla o horizonte. Nenhuma nuvem sombreava o céu azul. Fixa em seguida o olhar para baixo. O chão está pálido como a morte.  Caem-lhes os óculos. O céu escurece. 


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Por: Iba Mendes (Fevereiro, 2014) 

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