quinta-feira, 13 de março de 2014

A involução do homem

A involução do homem

Milhares de anos nos separam dos remotíssimos primórdios do século XXI, quando se deu o pavoroso vaticínio do grande oráculo de Darwin, cognominado, o dedolucionista: “E boa parcela da população terá menos dedos nos pés e nas mãos!”
O presságio, outrora desacreditado e ridicularizado por seu aspecto supersticioso e vaticinador, cumpre-se finalmente ante os olhos estupefatos de uma nova era da humanidade! O mundo, hoje, gira em torno dos dedos!
Nos grandes meios de comunicação, nas banais conversas entre amigos, nas sérias discussões acadêmicas, nas escolas, nos sermões nos templos, nos diálogos corriqueiros das esquinas, nas artes em geral, um só assunto impera: os dedos! Dramaticamente, os prolongamentos articulados estão conduzindo o mundo para a mais letal das guerras!
Não obstante a sociedade esteja composta por quatro grupos de pessoas fisicamente distintas, dois deles se destacam pelo seu poder de influência e, mais acentuadamente, por serem os monopolizadores populacionais: os dedo-lucionistas e os dedo-normalistas.
Os primeiros são identificados por portarem apenas dois dedos, daí serem conhecidos por bidedistas; o outro grupo, os dedonormalistas, também chamados pentadedistas, por possuírem cinco dedos, é a maioria da população, a antiga reminiscência que ainda predomina entre os povos.
Além desses grupos dominantes, outros dois correm por fora na disputa por um espaço no governo mundial: os dedotransicionistas e os dedos-progressistas.
Os dedotransicionistas são aqueles que estão em processo de transição mutacional, estando evolutivamente entre os dedos-normalistas e os dedolucionistas. Já os dedoprogressistas são os que mais sofreram os efeitos das mutações evolutivas, vindo diretamente do grupo dos dedolucionistas.
O mundo, que na época do grande vaticínio, estava dividido entre várias nações, hoje está centralizado num único bloco, conhecido por Dedópolis, que tem como supremo mandatário o dedotário, como é chamado o presidente da organização mundial.
Desde que se formou o bloco, amiúde foi liderado pelos dedonormalistas; contudo, com o constante crescimento da população dedolucionista, o poder centralizado dos dedonormalistas principiou a abalar-se. Os dedolucionistas estavam prontos para a guerra, não suportavam mais o peso de tão grande opressão, recusando-se veementemente a fazer parte do jogo governamental e monopolista dos dedonormalistas opressores, contando inclusive com o apoio dos outros grupos minoritários, todos unidos na luta pela ascensão ao poder.
O palco da guerra estava armado. Esgotaram-se os discursos; evadiram-se as propostas; dissiparam-se os pactos e as alianças; dilapidou-se, enfim, o senso de irmandade, outrora tão bem cultivado entre os homens. Agora é a luta pela prevalência do mais forte. É o império da lei de Darwin!
A batalha tem início. Os dedonormalistas sofrem, já nos primeiros dias, uma considerável baixa. Os dedolucionistas e seus aliados marcham ferozmente rumo à capital dedo-normalista. Pede rendição imediata. Não há saída, os dedonormalistas entregam as armas. A rendição é incondicional.
Agora no poder, os dedolucionistas ditam as normas, alteram a Constituição e decretam, por maioria de votos, a amputação dos dedos excedentes. Pela nova lei, nenhuma pessoa poderia ter mais que dois dedos, tanto nos pés quanto nas mãos. Havia ainda uma cláusula que ordenava o extermínio do cidadão que não se apresentasse espontaneamente, conforme calendário médico, para o ato cirúrgico.
O êxito foi total. Em poucos meses, o mundo estava, enfim, bidedista. Era o triunfo da ciência!
Todavia, como já dizia Darwin, a evolução é um processo contínuo que se dá aleatoriamente por mutação mediante seleção natural, sem a intervenção humana. Algumas gerações depois, foram constatados casos isolados de pessoas apresentando um só dedo, que passaram a ser chamadas de unidedistas. Aos poucos, esses foram se multiplicando, passando a exercer grande influência na nova ordem mundial. Concomitantemente aos unidedistas, surgiu um outro grupo de pessoas sem nenhum dedo, os arquidedistas. Embora pequeno, tornou-se um grupo elitista, formado de homens influentes, intelectuais e grandes capitalistas. Acreditavam ser o resultado final do processo de aperfeiçoamento evolutivo.
Mediante pesados investimentos propagandistas, chegaram eles rapidamente à liderança do bloco. No poder, suprimiram as antigas leis e elaboraram uma nova Constituição, fundamentada no conceito de superioridade racial. Organizaram imensos campos de concentrações, para onde enviaram todos os que portavam dedos, sem exceção. Mais tarde puseram em prática um plano de extermínio universal. Era preciso higienizar o mundo, fazia-se necessário purificar a terra, diziam.
A continuidade do processo evolutivo, entretanto, não cessava, culminando em novas e distintas mutações. Agora havia os sem-braços, os sem-pernas, os sem-orelhas, os sem-bocas e os sem-cabeças, entre outros muitos casos estranhos e bizarros.
O insólito fato chegou às universidades e aos centros de pesquisas. Cientistas de toda parte do mundo reuniram-se para estudar o fenômeno. A conclusão foi uma só: o ser humano estava involuindo, e a ciência não podia interferir no processo. A Natureza suplantava assim o poderoso dístico darwiniano Natura non facit saltum, e ao seu reverso. Tudo era questão de tempo, e o homem, enfim, retornaria ao oceano primordial, no seu lendário estágio de ancestral comum universal.
Para os místicos, era o glorioso regresso do homem à sua unidade absoluta e divina, quando, por fim, abandonaria seu estágio de criatura mortal e se tornaria em eterno criador; para os céticos, entretanto, tratava-se de um processo decorrente da ordem natural das coisas, regido pelas estritas leis da natureza, e nada além disso. Seja como for, o fato é que o homem seguiria assim contra sua vontade para sua própria extinção.
Grupos de pesquisas foram organizados em todo o mundo. Objetivavam descobrir uma fórmula genética que pudesse preservar a espécie humana e reverter a involução do homem. A medida era urgente, visto que tal processo seguia-se surpreendentemente acelerado.
Na Inglaterra adeptos da nova Teoria da Involução anunciaram com estardalhaço uma descoberta que poria fim a tão anunciada e inevitável degeneração humana. A notícia espalhou-se como um vírus pela face da terra. Os noticiários diziam que era iminente a clonagem do famoso naturalista Charles Darwin, o único com cabedal suficiente para reverter a história da involução humana.
E, de fato, clonaram Darwin! A quantidade de dedos era a única característica que tornava o clone distinto daquele nascido no remoto ano de 1809. De resto, era tal qual o inglês.
O maravilhoso acontecimento fez rolhas de champanha espocar em todo o mundo. Dias seguidos os noticiários traziam detalhes daquilo que denominaram de “o retorno triunfal do grande Darwin”. Decretou-se feriado internacional durante quinze dias. Aplausos, delírios e desmaios faziam parte da rotina dos noticiários da Televisão. Os historiadores e homens da ciência anunciavam o evento como o mais importante em toda a história humana.
Com o andar dos anos, substituíram a estátua da liberdade pela do libertador, como passou a ser chamado o novo personagem da ciência. Realizaram-se em sua homenagem grandes produções cinematográficas, que faziam lotar as salas de cinemas. Cunharam moedas e estamparam seu rosto barbudo nas diversas cédulas emitidas pelo governo central. Grupos religiosos trataram de incluir seu nome na Bíblia, acrescentando o quinto evangelho: o Evangelho Segundo Darwin, que era uma adaptação do Evangelho de João: “No princípio era Darwin, e Darwin era o princípio. Todas as coisas serão feitas por ele, e sem ele nada poderá ser feito...”.
Em suas frequentes aparições na TV, anunciava ele com voz retumbante a chegada de uma nova Era para os remanescentes da humanidade. “Só há uma forma de preservar nossa espécie”, dizia num acalorado discurso em praça pública: “é combatendo e eliminando as espécies degradadas e inferiores, as quais, se mantidas vivas, conduzirão fatalmente as espécies dedistas à sua total extinção.” Aplausos incessantes se faziam ouvir mundo afora.
Logo se tornou por aclamação geral o líder político absoluto do mundo. Em seu discurso de posse, parafraseou o velho Darwin, descrevendo-se, não o clone, mas a própria encarnação do inglês. “Declaro concorrência aberta para todos os homens e faço desaparecer todas as leis e todos os costumes que impeçam os mais capazes de conseguir seus objetivos e criar o maior número possível de infanto-detistas.”
Não cessavam, porém, as novas formas de mutações, que eram imediatamente eliminadas pelos “caçadores de monstros”, nome atribuído aos que se engajavam na luta do grande Darwin.
O processo involutivo, contudo, já não podia mais ser controlado, movimentando-se cada vez mais rapidamente. O libertador parecia de dedos atados. O último censo demográfico listava apenas um milhão de pessoas na face de terra. A Natureza continuava dando seus golpes. O derretimento das calotas polares tornava o espaço terreno cada vez menor. O fenômeno levou os remanescentes a se refugiaram numa grande montanha, onde fundaram a cidade que designaram de Darwinópolis, em homenagem ao célebre libertador.
Poucos sobreviveram. Entre estes estava o poderoso clone de Darwin. A morte era uma questão de tempo. Com a extinção generalizada dos animais e a degradação total do solo fértil, esgotaram-se as fontes de alimentos, restando apenas a possibilidade do canibalismo, que foi posto em prática tão logo  se apoderou dele a sofreguidão da fome.
A prática da antropofagia, aliada às inúmeras catástrofes naturais que assolaram a crosta terrestre, aniquilou, por fim, a espécie humana do seio da terra. O clonado, porém, por suas vantagens adaptativas, resistiu aos embates, tornando-se o último sobrevivente  do planeta. Se não pudera salvar o mundo, ao menos nutria a grande satisfação de ser o derradeiro a contemplá-lo e admirá-lo. Isso era tudo.

Numa tentativa desesperada pela sobrevivência, escalou o topo de um penhasco. Já velho e com suas barbas longas e brancas, contemplava de lá  a imensidão dos mares. O mundo era um grande oceano. Deixou-se encantar pela majestade das águas. Imbuído nesse encantamento e deslumbrado com a imensidão dos mares, precipitou-se subitamente sobre ele. Ainda nadou alguns metros antes de afundar-se no abismo. Era o recomeço da vida...


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Por: Iba Mendes (São Paulo, 2008)

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