segunda-feira, 31 de março de 2014

O grande carimbamba

O grande carimbamba

Era o curandeiro mais afamado e respeitado de toda aquela redondeza; considerado por muitos como um homem a quem os céus privilegiaram com o dom da cura e dos prodígios. Dizia-se que até paralíticos ele fez andar. Atribuíam-lhe ainda outras proezas, tais como a de trazer os maridos de volta ou a de mandá-los para os diabos.
Além de lhe render fama e muito prestígio, seus milagres acrescentaram-lhe também uma excelente fortuna, não obstante exteriorizasse a simplicidade de um Francisco de Assis ou a pobreza de uma Madre de Calcutá.
Ausentava-se dos necessitados uma vez por ano durante trinta dias, quando fazia uma prolongada viagem, geralmente para Las Vegas nos Estados Unidos. Não era isso, porém, que fazia constar no aviso na parede do lado de fora da famosa “Tenda dos Milagres”, também denominada de “o pronto-socorro da fé”. Alertava-se ali “que o curandeiro partiria para um retiro espiritual nos lugares santos, e que logo retornaria com muito mais unção para trazer alívio aos sofredores”.
Alguns, os mais céticos, chegaram duvidar dos poderes milagrosos do grande curandeiro. Dentre eles, um próspero fazendeiro dado aos estudos de filosofia e das enciclopédias. Lançou este um desafio ao poderoso carimbamba. Dava-lhe a escritura lavrada de toda a sua fazenda caso fizesse crescer a perna do velho andarilho manco.
Todavia o feitiço virou contra o feiticeiro. Dias depois o rico proprietário de terras fora alvejado com três tiros na perna esquerda, cuja consequência imediata foi sua irreversível amputação.
A notícia espalhou-se rapidamente pelos arredores. “Não se pode zombar do homem de Deus”, afirmavam alguns; “foi castigo dos céus”, diziam outros em tom admoestatório e provocativo.
O episódio fez acrescer ainda mais a influência e o prestígio do grande feiticeiro. O jornal da cidade anunciou a chegada de alguns estrangeiros oriundos do Equador e da Venezuela, os quais peregrinavam por essas bandas em busca de cura para suas moléstias. O prefeito aproveitou-se da ocasião para tirar algum proveito dos prodígios do milagreiro. Mandou erigir uma enorme estátua de bronze em honra ao “GRANDE CARIMBAMBA”, o que lhe rendeu grande popularidade e o amplo apoio da oposição.
As ruas amanheceram em alvoroço, por causa de um anúncio afixado na porta da “Tenda dos Milagres”, o qual, em caracteres destacados, convocava a atenção pública para um evento ali denominado de “O Dia dos Milagres”, a ser realizado na grande praça da cidade. As rádios e os jornais da região se incumbiram de espalhar a notícia. Esperavam-se grandes caravanas, inclusive com devotos de outros países.
É domingo. A praça está completamente tomada de um extremo a outro. Pessoas em cadeiras de rodas, algumas deitadas em colchões, outras com muletas aglomeram-se ao redor do palco. A ansiedade e o cansaço mesclam-se nos rostos cheios de expectativa e esperança.
A chegada do milagreiro veio acompanhada de um pequeno tumulto, logo contido por uma bateria eufórica de aplausos e estridentes gritos de “viva o grande carimbamba!”.

Após o longo sermão, o curandeiro convida os enfermos para fazer “a poderosa oração da fé”. A multidão em delírio ergue as mãos para os céus. “É chegado o momento da libertação”, vocifera entusiasmado o pregador. Tem-se início a prece. A comoção é geral. Alguns doentes choram. Um paralítico tenta erguer-se da cadeira de rodas. Há desmaios e histerias. De súbito o curandeiro gira violentamente no meio do palco. Notam-se contrações musculares em todo o seu corpo. Uma espuma branca corre pela sua boca, cujos dentes ficam firmemente cerrados. Em seguida tomba no tabulado. Está morto.


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Por: Iba Mendes (Março, 2014)

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