terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

As mãos enormes

As mãos enormes

Até então nunca havia cogitado a possibilidade de ser traído. Traição era coisa que se dava apenas com os outros: com os vizinhos, com os colegas de serviço, nas novelas, nos filmes e nos romances, como naquela famosa história contada por Machado de Assis.
- A mim, não me engana, disse certa vez, referindo-se a personagem machadiana que supostamente teria traído o Casmurro.
Em dez anos de casado sequer nutriu qualquer ciúme da mulher, que sempre se mostrou acima de qualquer suspeita, de índole inquestionável e irrepreensível nos modos de lidar com outros homens. Orgulhava-se dela, por quem mantinha uma fidelidade canina.
Agora, pela primeira vez, acendia-se-lhe uma brasa viva na cabeça, que o despertava do sono e lhe tirava o sossego. A razão desta desconfiança, porém, não se gerou de alguma cena suspeita, nem adveio da constatação de algum ato indecoroso da companheira. Em vez disso, nasceu de um sonho banal que tivera um mês atrás e que se repetira mais uma vez na última noite.
No sonho a mulher aparecia em ato libidinoso, num carro, com um sujeito barbudo e de mãos enormes e peludas. Este lhe mirava com um olhar sarcástico, ao mesmo tempo em que sorria pelos cantos da boca. O sonho lhe pareceu sórdido, e aquelas mãos tão grandes! Encasquetou-se sobremaneira com isso.
Não narrou os seus sonhos à mulher nem a mais ninguém. Mas a partir dali passou a vigiá-la, a questioná-la sobre isso e aquilo. Se ela ia ao mercado, debruçava-se à janela para espiá-la. Se porventura demorasse, ia atrás e aplicava-lhe os piores desaforos. Queria saber quem era Fulana, o que fazia Sicrana, onde morava Beltrano etc.
Sentindo-se sufocada, inquiriu-lhe ela acerca das razões porque agia daquela maneira. Não podia compreender porque de uma hora para outra passou a se comportar como um adolescente imaturo e sem qualquer pudor.
- Ora, onde já se viu isso?!
Ele então replicava que tinha os seus motivos e que estes eram suficientes para justificar todas as suas suspeitas.
- Estou de olho em você! ameaçava como se tivesse na iminência de desvendar um insidioso crime.
Naquela noite o sonho veio mais uma vez a atormentar-lhe o espírito. Lá estava o homem com suas mãos desmesuradas e repletas de pelos, e estas agora o apertavam pelo pescoço até fazê-lo perder a respiração. Acordou sobressaltado, respingando suor e todo entregue ao desespero. Olhou rapidamente para lado e deu por falta da mulher. Desceu as escadas correndo e gritando o nome dela.

Na sala encontrou somente o silêncio, um silêncio vasto, enorme, transcendente, apenas realçado pelo insistente tic-tac de um velho relógio de parede. Visivelmente fora de si, abriu a porta da rua e deu de cara com um automóvel, que dali partia em alta velocidade. Com as pernas trêmulas, vacilaram-lhe os joelhos e deixou-se cair na calçada, de onde passou a mirar fixamente o horizonte como se ali estivesse a imagem nítida de duas mãos enormes, infinitamente enormes, a acariciar com extravagante voluptuosidade os seios frondosos da esposa...


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Por: Iba Mendes (Fevereiro, 2015)

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