domingo, 22 de fevereiro de 2015

O otimista

O otimista

Era um leitor voraz de livros de autoajuda e acreditava que o pensamento positivo podia mudar o mundo.
“O segredo de uma vida feliz está na sua mente”! Este era seu mantra diário, o lema que norteava suas ações e sua filosofia de vida. Para ele, o pensamento positivo era como um ímã que atrai as coisas boas. Por isso nunca se ouvia dele frases do tipo: “estou péssimo”, “a vida é complicada”, “meu chefe é insuportável”, entre outras de igual teor. Vigiava-se o tempo todo para não cair na tentação da negatividade.
Toda essa sua disposição de espírito manifestava-se nas situações mais corriqueiras da vida. Ao levantar-se abria a janela e dava bom-dia às árvores, saudava os passarinhos e agradecia aos céus pela luz do sol e pelo aroma das flores. Quando almoçava, repetia três vezes: obrigado, obrigado, obrigado! Esforçava-se para não se encher de ira ou qualquer outro sentimento que tomava por negativo ou ruim.
Tinha ele 25 anos de idade, com boa saúde e uma situação financeira estável, ganhando o suficiente para sustentar seu otimismo e sua coleção de best-sellers.
Estava solteiro – provisoriamente – dizia. Muitas foram as pretendentes, no entanto, nenhuma delas satisfez seu exigente “teste de positividade”. Não queria cair nas amarras de uma mulher pessimista, cujos conceitos destoassem daqueles pelos quais tanto lutou e com os quais pretendia chegar ao mais elevado “topo do sucesso”. Queria compartilhar seus ideais ao lado de alguém “que fosse do tamanho dos seus sonhos”, uma mulher que fosse capaz de despertar ideias otimistas, que estivesse disposta a superar todos os desafios e que se dispusesse a viver a vida em sua total plenitude.
Mas já dizia o poeta que, “quem nunca foi ferido zomba das cicatrizes”. O mundo maravilhoso que construía através da leitura dos consagrados livros de autoajuda principiou a desmoronar quando perdeu o emprego e caiu em depressão. As fórmulas prontas, as dicas e os macetes que aprendera e com os quais acreditava poder superar as procelas da vida pareciam não funcionar ou não surtiam nenhum efeito. E, para agravar ainda mais a situação, fora acometido de hemorroidas, que faziam minar todas as suas forças físicas e mentais.

Com a ajuda da Medicina superou os distúrbios psíquicos e se livrou das terríveis veias dilatadas. Vendeu sua coleção de livros e se embrenhou no ceticismo. Casou-se com Ana Lúcia, que só queria ser feliz e ter muitos filhos.


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Por: Iba Mendes (Fevereiro, 2015)

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