quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O peso

O peso

Não obstante ter dormido bem à noite, amanheceu com a estranha sensação de está carregando um enorme peso nas costas. Não sentia dor, mas a pressão exercida em seu corpo causava-lhe um excessivo incômodo que lhe fazia perder as forças.
Inicialmente achou tratar-se de uma simples tensão muscular, e que logo desapareceria. Na tentativa de aliviar o desconforto, tomou um analgésico e mais outros e outros, porém estes não surtiram nenhum efeito, foi quando deliberou procurar ajuda médica.
O médico o examinou, requisitou alguns exames, e o resultado mostrava que tudo estava em perfeita ordem, não havendo qualquer anomalia em seu corpo.
- Tem a saúde melhor que a minha, disse o médico em tom de galhofa.
O peso, no entanto, oprimia-lhe e de tal modo que se sentia como se estivesse transportando um volumoso pedaço de ferro ou uma grande pedra em toda a região das costas.
- É coisa da sua cabeça, diziam os amigos, na tentativa de confortá-lo e, quem sabe, arrancar-lhe do seu espírito as preocupações.
O método, no entanto, não funcionou e o homem continuava levando nas costas um peso maior que suas forças.
Recorreu então à medicina alternativa, fazendo uso dos florais de Bach, da magnetoterapia, da homeopatia, da acupuntura, entre muitas outros tratamentos disponíveis no mercado, os quais, em vez de aliviar o desconforto, fazia aumentar cada vez mais seu desespero.
Tentou ainda a psiquiatria, que buscou tratá-lo por meio dos medicamentos psicotrópicos e recomendou-lhe a terapia. Seguiu então à risca todos os procedimentos médicos, e, após inúmeras sessões no divã, não logrou qualquer resultado prático.
Decepcionado com a Medicina e com os médicos percorreu os templos religiosos, os terreiros de Umbanda, a macumba, os despachos nas encruzilhadas, as orações de fé, cirurgias espirituais, fez promessas e até se entregou ao martírio do corpo, numa tentativa desesperada de se livrar do enorme peso nas costas.
Tudo em vão, o peso continuava a subir-lhe na espinha, desde as espáduas até os rins e o seguia para onde quer que fosse. Tornou-se, pois, parte do seu próprio corpo e se conformou com ele.

Naquela noite deitou despreocupado e dormiu como uma pedra. Ao acordar notou que o peso tinha se esvaído de suas costas e que estava livre daquele corpo invisível e pesado. Sentiu-se estranho e desesperou-se.


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Por: Iba Mendes (Fevereiro, 2015)

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