quinta-feira, 26 de março de 2015

Fugitivos


Fugitivos

Não tinha culpa se ganhava tão pouco, afinal, tentava justificar-se, foi obrigado a trabalhar desde cedo e só agora é que tinha tempo suficiente para prosseguir nos estudos e tentar novas oportunidades.
- Não bastam as humilhações porque tenho passado todos esses anos? desabafava embravecido à esposa igualmente furiosa, que lhe pedia divórcio e que não arredava o pé de tal resolução.
- Suportei dez anos essa vida. Chega! não quero mais isso... Vou me embora!
Disse isso sem derramar uma só lágrima. Saiu em seguida sem levar nada e sem dizer para onde ia.
Não voltou mais.
Ele a esperou durante uma semana, quando só então resolveu procurá-la. Não estava com a mãe nem em casa de parentes. Telefonou ainda para algumas de suas amigas, mas todas foram unânimes em negar qualquer contato com ela nos últimos dias. Restou-lhe, pois, ir à delegacia, onde registrou um boletim de ocorrência, alegando o desaparecimento da esposa.
É preciso dizer que durante esse tempo, não sentiu saudades da mulher, nem da sua comida, nem dos seus escassos beijos. Ademais, já estava familiarizado com as tarefas domésticas habituais, tais como lavar e passar roupas, entre algumas outras. Desta forma, acostumou-se rapidamente à nova vida de solteirão, embrenhando-se na leitura dos velhos livros que ainda não lera.
É preciso dizer ainda que era professor em uma escola pública, onde lecionava aula de Literatura e Língua Portuguesa em período integral. Gostava do que fazia, embora se sentisse explorado e reclamasse com frequência do minguado salário. De fato, ganhava pouco e mal podia manter as despesas da casa. A mulher era gastadeira e desperdiçava quase metade dos seus rendimentos com sua vaidade pessoal, na compra de cosméticos e roupas de marca.
Era ela dez anos mais nova que ele, e nunca quis ter filho, sem revelar, porém, a razão disso, não obstante ele suspeitasse tratar-se de mera vaidade, “para não criar barriga”, é o que ficou sabendo por intermédio de uma de suas amigas.
Já havia passado um mês que a companheira havia saído de casa, e ainda não tinha notícia de seu paradeiro. A polícia aventou algumas hipóteses. Conjecturaram que ela poderia ter fugido com alguém ou até mesmo que poderia está morta. É preciso ter em conta todas as alternativas, concluiu.
A possibilidade de viuvez o deixou um tanto melancólico, não que nutrisse de amores pela mulher, mas, afinal, são dez anos de vida em comum e isso, à mercê da frieza de sentimentos, significava alguma coisa. Não era tão insensível a ponto de não se deixar comover com a ideia da morte de alguém, ainda mais se tratando de própria mulher!
Os dias foram passando, as semanas, os meses, oito meses, ao cabo dos quais, a mulher apareceu de súbito. Era feriado. Ele estava em casa. Ao vê-la chegar, empalideceu e recuou para trás assustado. Ela estava mais gorda, quase obesa, a barriga enorme.
- Estou grávida, disse com tal naturalidade que parecia ter acordado com ele naquela manhã. E acrescentou antes que ele pudesse abrir a boca:
- E você é o pai. Pode pedir o DNA!

Ele ergueu-se de salto, trêmulo e com o olhar sobressaltado. Deu alguns passos e entrou no quarto sem dizer uma só palavra. Apareceu logo em seguida e saiu rapidamente pela porta da rua sem levar nada e sem falar para onde iria.


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Por: Iba Mendes (Março, 2015)
 

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