sábado, 7 de março de 2015

O Fausto de Capim Grosso

O Fausto de Capim Grosso

Acabara de completar vinte e oito anos de idade. Estava radiante de alegria. Solteiro, jovem e bonito, sentia-se indestrutível e transportado a todos os céus possíveis e impossíveis. Encontrava-se, pois, naquele instante da vida em que se deseja que os ponteiros do tempo cessem e que se congelem para sempre os belos dias de juventude.
Faustino era o seu nome. Nascera em Capim Grosso, pequena cidade do interior da Bahia, filho único de um próspero comerciante e proprietário de uma grande rede de lojas do ramo de eletrodomésticos. Ao completar dezoito anos, fora mandado pelo pai a Salvador, para concluir ali seus estudos. Aos vinte e três anos de idade, retornou à cidade já bacharel em Direito, onde passou a trabalhar nas empresas da própria família.
Veio cheio de planos e ambições, contudo, não se incluía aqui o plano matrimonial. Ensoberbecia-se no fato de nunca ter se apaixonado e esnobava daqueles que diziam sonhar com um grande amor.
- Amor? Não, não nasci para as coisas do amor, dizia à roda de amigos.
Posto que estivesse bastante satisfeito com a vida, nutria ele - secretamente dentro de si - de uma angústia vulcânica, a única coisa que de fato o perturbava e que, amiúde, o fazia sentir-se melancólico e introspectivo: era o medo mórbido de envelhecer. Daria tudo, inclusive toda a fortuna que herdaria, para manter-se jovem para sempre. Não amadurecera o suficiente para lidar com as coisas da idade, e se alimentava às ocultas da mística de uma eterna juventude.
Com o tempo, a preocupação com a idade dominou-o completamente, de modo que passou a se envolver com o ocultismo, algo que ele mesmo denominou de “a ciência da arte e do mistério”, embrenhando-se nos conhecimentos secretos da maçonaria, cabala, teosofia, astrologia, alquimia e das religiões politeístas, como aquelas outrora praticadas no antigo Egito e em outras civilizações da antiguidade. Leu muito sobre os mistérios da vida, a Bíblia, os livros apócrifos, dedicando-se com mais afinco à leitura do famoso “Livro de São Cipriano”, acreditando que encontraria ali, se não uma candeia, ao menos uma pontinha de luz para a perpetuação eterna da sua juventude.
Era o dia de procissão de São Cristóvão, o santo padroeiro do local. Durante toda uma semana, a cidade enchia-se de visitantes, oriundos de localidades próximas, muitos dos quais ali compareciam apenas para usufruírem dos atrativos que em muito excediam à simples espiritualidade, tais como as quermesses, os bingos, os leilões, as gincanas, as bebidas e as comidas típicas, que os extasiavam. Dentre esses visitantes, apareceu um por nome de Goethe, homenzarrão, alto, loiro, elegantemente vestido e com acentuado sotaque alemão. Este logo chamou a atenção da cidade, não propriamente pelos seus traços físicos, mas por seu sedutor carisma e pela áurea de mistério que parecia lhe envolver.
Faustino foi um dos que mais se deixou impressionar pelo o ilustre visitador. Em consenso com a família, convidou-o para jantar à noite em sua casa. O homem aceitou de pronto. Durante toda a ceia, este se mostrou de uma cortesia exemplar. Perguntaram-lhe de onde vinha, o que fazia, quem eram seus pais e outras coisas. Ele contou várias histórias que a todos encantaram. Discorreu ainda sobre ciência, religião, filosofia e outros assuntos que fizeram o coração do  mancebo transbordar de curiosidade. Queria conhecê-lo melhor, e até aventou a ideia de está diante de um místico guru, que poderia ensinar-lhe muito mais acerca dos mistérios da vida e, quem sabe, apontar-lhe um novo horizonte para seu angustiante dilema.
Terminado o jantar, foram ambos até a biblioteca, um elegante recinto anexo à casa, e que constava de dez grandes estantes. Em três delas estavam os livros sobre Direito, da história da jurisprudência e suas inúmeras ramificações pelo mundo. Duas estantes continham os livros da Literatura Universal, os clássicos da Literatura Portuguesa e Brasileira, dentre os quais se incluíam Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa. Nas demais estantes constavam os livros sobre religião, misticismo, filosofia e sociedades secretas. Goethe examinou-os bem, retirando entre os desta última categoria, o misterioso “livro da capa preta”, o mesmo de São Cipriano. O rapaz estremeceu, enquanto o homem, sorrindo, fixava-lhe um olhar penetrante e resplandecente.
- Queres de fato saber quem eu sou? perguntou-lhe sorrindo, como se já soubesse a resposta.
Agitado e cheio de pavor, Faustino deixa-se cair, sem voz, sobre um velho sofá de couro. Respira fundo e, após alguns segundos, responde com a voz trêmula:
- Sim, sim, és Lucius!
- Pois aqui estou, replicou-lhe este sorrindo com ar de satisfação íntima.
O rapaz permaneceu imóvel por algum tempo. Queria falar, a voz, porém, sumiu-lhe novamente da boca. Um frio desceu-lhe pela espinha, enquanto seus pelos eriçaram-lhe por todo o corpo e o suor cálido caía-lhe em bagas pela testa.
O misterioso homem acercou-lhe lentamente e balbuciou-lhe algumas palavras obscuras e sedosas no ouvido. Estas pareceram revigorar-lhe os ânimos, fazendo com que o moço se erguesse de súbito, como se estivesse preparando voo para as alturas. Neste instante, as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se e riam-se como se fossem bons e velhos amigos.
Daí em diante, por espaço de alguns anos, sucedeu-lhe uma enxurrada de acontecimentos. O pai e a mãe faleceram num acidente de automóvel. De posse da herança, foi passear na Europa, retornando três meses depois: feliz e tão jovem quanto antes. Já em sua cidade, assumiu o controle das empresas do pai, expandiu os negócios com a incorporação de outras sociedades e passou a encabeçar a lista dos homens mais ricos do Brasil.
Quanto ao seu dilema com a velhice, desde o diálogo da biblioteca, dissiparam-se-lhe todos os medos e preocupações. Sua atenção agora se dirigia exclusivamente a questões do amor. Casamento era assunto que não se via em sua agenda, apesar da imensa procissão de pretendentes. Evitava falar do assunto e se enfadava com os que insistiam em lembrá-lo.
- O quê? casar? Não, não nasci para marido, repetia entediado aos que teimavam em querer mandar-lhe ao matrimônio.
Com o passar do tempo, um fato começou a prender a atenção dos habitantes da cidade. Apesar dos anos longos e desvairados, Faustino parecia não envelhecer. Alguns atribuíam esta proeza a fartura de dinheiro que tinha, a qual lhe dava acesso aos mais sofisticados avanços da medicina no âmbito da estética. Outros, contudo, levantaram a suspeita de que ele havia feito um pacto com o diabo, e que por isso não envelhecia.
Ao completar cinquenta anos de idade, já um pouco mais gordo, mas mantendo a mesma aparência de trinta, relaxou-se em suas preocupações com as coisas do amor. Foi nessa época que conheceu Margarete, uma linda e fresca viúva, que lhe cativou o coração e lhe fez esquecer todo o passado. Apaixonou-se loucamente por ela, e só para ela queria viver e dedicar-se.
Na noite em que completaria cinquenta e cinco anos de idade, estava esplendorosamente feliz e realizado. A casa estava repleta de convidados, gente de todos os lugares, pessoas da alta sociedade capim-grossense, grandes fazendeiros, comerciantes e políticos.
Ao final da festa, conduziu a amada até sua casa, voltando logo em seguida deslumbrantemente feliz. Entrou no quarto para dormir, apagou a luz e deitou-se, pensando na vida e na mulher que tanto amava.
De repente, como se lhe surdisse uma cobra, apareceu num vapor de fumaça, um homem alto, loiro e com forte sotaque alemão. Era Goethe, que portava nas mãos um documento escrito em tinta rubra, ao fim do qual assinava com o próprio sangue: FAUSTINO CARNEIRO RIOS.
- Vim trazer-lhe a conta, disse-lhe ele com um sorriso sarcástico que se fez ecoar pela casa inteira.
Faustino ergueu-se sobressaltado da cama. Seus olhos pareciam saltar para fora, como se estivesse na iminência da própria morte. Neste momento lembrou-se do diálogo que tivera na biblioteca, do livro da capa preta, do pacto que assinara, do compromisso que assumira... Lembrou-se de Margarete.

Goethe soltou uma formidável gargalhada e se esvaiu, deixando para trás lágrimas e fumaças.



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Por: Iba Mendes (Fevereiro, 2015)

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