quarta-feira, 25 de março de 2015

O fim de todas as flores


O fim de todas as flores


Rosa era seu nome. Morava na última casa de uma estreita rua da periferia da cidade. Vivia sozinha com a mãe, viúva desde os quarenta anos, de um vendedor de flores, com quem se casara contra a vontade dos pais e com quem tivera esta única filha.
A moça, embora de uma simplicidade agreste, chamava a atenção por suas formas perfeitas, pela extrema delicadeza com que tratava a todos e, principalmente, por seu peculiar gosto no cultivo e venda de flores. Sua casa era como um pequeno jardim, onde acácias, anêmonas, cravos, azaleias, lírios, begônias, violetas, orquídeas, margaridas e rosas, pareciam concorrer com sua própria beleza. Ah, quantas flores! diziam.
No extremo desta mesma cidade viviam dois belos e felizes mancebos, filhos de prósperos comerciantes, ambos de igual idade e estudantes de Biologia na mesma Universidade. Eram amigos desde a infância, morando um e outro na mesma rua, onde cresceram juntos e onde conheceram Rosa, uma das muitas vendedoras da famosa Feira das Flores, evento muito conhecido na cidade e que atraía a presença de muita gente importante de toda aquela região.
- Que flor mais bela! galanteou um.
- Que flor mais linda! emendou o outro.
Trocaram olhares, palavras, gracejos e telefones. Enamoraram-se dela!
A amizade entre os dois moços era aquela que resiste aos anos e da qual se diz que apenas a morte tem o poder de separar. Um era como se fosse a extensão do outro, tal era a natureza do vínculo afetivo que os unia. Se fossem irmãos, diriam que provieram da divisão de um mesmo óvulo fecundado.
A moça manifestou-lhes gratidão e os convidou a voltarem outras vezes. Ainda acharam tempo para falar sobre flores, plantas e outros assuntos do ramo da botânica. Voltariam, disseram.
E voltaram.
A partir daí as visitas tornaram-se frequentes e a amizade entre eles criou raiz e floresceu como as próprias flores. Da amizade frutificou também o amor, e deste rebentou os espinhos, que fez sangrar os corações dos moços, os quais disputavam agora a mesma flor, a mais bela flor, Rosa, a vendedora de flores. A amizade, outrora tão cultivada entre eles, perdeu o viço, a cor e o brilho... murchou... De amigos floridos, inimigos desfolhados.
Ela se viu ferida entre abrolhos. Cultivava o amor de um, mas não queria eriçar de mágoa o coração do outro. Confusa, deixou-se irrigar de tristeza, desistiu das flores e foi vender perfumes. A casa, que antes exalava os aromas das flores, agora cheirava a Natura.
Que fim levaram todas as flores? perguntava a mãe, os vizinhos, os amigos... perguntavam todos.
Triste, recolhia-se ao seu quarto, sem flores, onde chorava, chorava muito...
Num dia desses de lágrimas, recebeu a visita de um dos moços, aquele a quem amava. Ele declarou-lhe amor eterno e lhe trouxe de presente uma joia valiosa que comprara na Europa. Ela pediu que a poupasse de mais tristezas. Ele foi-se...

O tempo passava depressa e não desabrochava nela a alegria de viver. Recolhida em seu quarto triste e sem flores, visitou-lhe o outro numa tarde dessas de lágrimas, o qual também lhe declarou amor eterno e lhe trouxe de presente uma flor, uma exuberante rosa vermelha. Então os olhos dela brilharam, suas mãos tremeram e seu coração disparou. Neste instante os seus lábios tocaram os lábios dele, e se amaram, e construíram um jardim, e receberam flores, e plantaram flores, e colheram flores, e venderam flores... e foram cobertos com flores.


---
Por: Iba Mendes (Março, 2015)

Nenhum comentário:

Postar um comentário