segunda-feira, 23 de março de 2015

O plano

O plano

Não se sentia humilhado somente, mas também irritado e indignado. Onde já se viu tratar um ser humano assim? pois ele verá com quantos paus se faz uma canoa!

Sentia-se arrasado e o seu coração transbordava de ódio. Não conseguia pensar em mais nada. Até a madrugada não pôde dormir, e os instantes em que cochilou foram apenas de pesadelos. Só um sentimento o dominava completamente: o de vingança!

Acordou com um maquiavélico plano na cabeça, porém não via jeito de colocá-lo em prática, pelo menos por ora. Era preciso estudá-lo melhor, analisar bem cada etapa e então partir para a ação.

De posse de papel e caneta, começou a traçar cada etapa do plano; avaliava minuciosamente os meios e as consequências, calculava os pós e os contras, o que era preciso para suplantar uma etapa e alcançar outra etc. Planejava tudo isso vislumbrando mentalmente o rosto atônito do oponente, seu semblante carregado de pavor, suas expressões de arrependimento e o gran finale, quando se via, sorrindo, cara a cara com o inimigo, que, lançado-se de bruços por terra, clamava-lhe por misericórdia.

Tais pensamentos povoavam-lhe a mente o tempo todo, alimentava-lhe o espírito e enchia-lhe de ânimo e de vontade de viver. Se algum remorso sentia, lembrava-se da injustiça que sofrera e se consolava com isso. Nada lhe importava mais, e o desejo por vingança obcecava-o de tal modo que ao mirar o espelho não via sua própria imagem, mas o reflexo vivo do outro, que lhe aparecia com um riso escancarado e grotesco, riso de puro escárnio.

Quem o conhecesse, jamais suspeitaria que fosse portador de erva tão daninha! Era comum dizer-se dele que tinha um coração de ouro; contavam-se ainda que não tinha maldade no coração e que servia a Deus com o mesmo fervor dos santos. A verdadeira religião, dizia ele, é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Por isso, gostava de fazer caridade, distribuía esmolas à porta da igreja, fazia orações pelos os doentes e necessitados e, vez ou outra, até jejuava pela causa alheia.

É bem verdade que tais sentimentos religiosos o incomodava deveras, martelavam-lhe a consciência e o acusavam diuturnamente de violação aos preceitos divinos... Tinha agora a oportunidade real de vivenciar o mandamento bíblico, de resistir à tentação maligna; todavia, o sentimento de ojeriza pelo outro o dominava inteiramente até o mais profundo da sua medula espinhal. Era algo que não conseguia dominar e para o qual apenas via uma saída: consumá-lo.

Vindicta tarda sed gravis. Assim traçou seu plano e planejou executá-lo logo na manhã do dia seguinte. Cuidou em rever cada passo, avaliou bem todas as alternativas, calculou com exatidão todos os procedimentos e concluiu, com muito gosto, que elaborara um plano perfeito. Por fim, vingar-se-ia de tão grande humilhação!

À noite não conseguia dormir. Estava ansioso por ver chegar o tão almejado dia.  Pegou no sono só de madrugada. E sonhou. Sonhou que tendo executado seu audacioso plano, fora conduzido por um anjo à presença de Deus, o qual lhe interrogou se não havia lido os santos mandamentos das Escrituras. Respondeu que sim, mas que tinha cedido às artimanhas de Belzebu e que por isso havia cometido tão execrável crime. O senhor então lhe disse: “Apartai de mim, maldito, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”.  Quando percebeu que adentrava as labaredas do inferno, deu um grito e acordou. Estava transpirando e atordoado.

De manhã, levantou-se e se ajoelhou perante a imagem de um santo. Rezou três padre-nossos e três ave-marias. Em seguida pôs-se de pé e saiu. Dava assim o primeiro passo de um plano friamente calculado...



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Por: Iba Mendes (Fevereiro, 2015)

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