terça-feira, 14 de abril de 2015

Além da Taprobana


Além da Taprobana

Estava lendo Camões quando o telefone tocou. Era uma voz de mulher. Dizia que tinha algo importante para falar e me implorava para que apenas a escutasse. Não queria conselhos nem dinheiro emprestado, nem qualquer outra coisa.
- Apenas me escute, dizia como se estivesse acabado de encontrar o gigante Adamastor.
Neste momento estava eu além da Taprobana, seguindo por mares nunca dantes navegados e já chegando ao Cabo das Tormentas. Um tanto confuso e espantado, indaguei do seu nome, ao que ela disse que saberia mais adiante pelo próprio teor da conversa, e falou ainda que contava muito com minha compreensão. Em seguida suplicou-me para que não desligasse o telefone, pois se tratava de algo do meu interesse, e me pedia desculpas pelo incômodo, e repetia que só procedia assim por se tratar de um assunto de excepcional relevância.
Eu disse-lhe que tudo bem, e fiz-me envolver pela misteriosa voz desta musa secreta, prontificando-me a ser todo ouvidos. Ela me agradeceu a paciência, pedindo para que não fosse interrompida, pois o que tinha para dizer era deveras sucinto, e não me custaria mais que alguns breves minutos. Dito isto, principiou a falar...
Há vinte anos que nos conhecemos, quando éramos estudantes de Letras, lá pelo ano de 1995. Lembro-me de você como se fosse hoje. Era magro e tinha um nariz pontudo, os cabelos lisos e pretos. Quanto tempo!
Lembra-se daquele dia em que nós dois, ambos eufóricos, líamos Os Lusíadas em voz alta lá na Praça do Relógio? Você lia uma estrofe e eu outra, até nos cansarmos de tanto ler. Depois íamos para a lanchonete e nos esquecíamos das aulas. Ah, doces lembranças!
Você me chamava de Terpsícore, pois gostava de me ver dançar, e dançávamos juntos, e ríamos juntos e nos transbordávamos de amor. Então você me beijava deliciosamente, e me abraçava cheio de poesia, e me recitava poemas, e me prometia eterno amor. Queria tanto que se lembrasse desses nossos momentos!
E, por fim, trago à memória o nosso último encontro. Lembra? Você estava ansioso, pois era seu último dia na faculdade. Notei que estava um pouco triste, mas não me falou a razão da sua tristeza. Da minha parte, estava transbordando de felicidade por sua causa. Ah, quanta expectativa nutria dentro de mim!
Chorei muito quando me disse que iria visitar seus pais. Embora me garantisse que voltaria em breve, ainda assim chorei. Alguma coisa dentro de mim parecia dizer que era o fim de tudo, que não nos veríamos mais. E foi com esse pressentimento ruim que nos despedimos. Você se foi e nunca mais voltou, nem me deu notícias. Por quê? Isso eu nunca soube.
Há dois meses encontrei por acaso uma de suas amigas dos tempos de faculdade, que deu notícias suas e me cedeu o seu telefone. Queria que soubesse que, passados vinte longos anos, ainda o amo profundamente, e talvez muito mais que antes. Se isso é loucura, vá lá, que seja! O fato é que o amo, apesar de tudo e do tempo.
Qual a relevância dessa conversa?
Bom. Estou desenganada pela Medicina. Tenho ainda alguns meses de vida, talvez uns dois ou três, foi o que me disseram os médicos. Quisera muito vê-lo antes de partir. Esse é meu anseio supremo. Sei que deve ter suas ocupações, mas...
Interrompi a conversa prometendo vê-la imediatamente ainda no dia seguinte.
E lá fui navegando na minha triste nau a ver minha antiga Terpsícore. Será que dançava ainda?
Estava tomado de estranhos sentimentos. O remorso corroía minha alma, e cheguei a sentir vergonha de mim mesmo. Nada justificava tão longo silêncio! Era como se estivesse navegando em rota oposta aos dos lusíadas, indo de Melinde à Mombaça. O Velho do Restelo parecia me interpelar, tentando convencer-me a não prosseguir viagem, e me acusava de vil infâmia. Por um instante pensei em desistir de tudo, em abster-me de vê-la, porém, após ferrenha luta comigo mesmo, triunfei sobre o vil tentador e seguir avante com o socorro das musas.
Ela me esperava à porta. Estava linda, não obstante seus quarenta e três anos de idade. Trajava um vestido longo e todo azul. Não se mostrava triste, em vez disso, parecia espargir luz pelos olhos, e sorria como uma noiva que ansiosa aguarda o noivo no altar.

Entrei. Havia flores por toda a casa, flores de várias cores e tipos. Escutei uma exuberante melodia. Era o Danúbio Azul. Então de repente ela começou a dançar, e girava de um a outro lado, e erguia as mãos para o alto, e suspirava, e murmurava expressões de amor. Sem dizer nada, tomei-a pela cintura, beijai-a escandalosamente, e dançamos, e nos amamos pela noite adentro. Pela manhã acordei como se estivesse na Ilha dos Amores. Ela porém não estava mais lá... Tinha ido ao Concílio dos Deuses.

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Por: Iba Mendes (Maio, 2015)

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