sábado, 18 de abril de 2015

Sedento de glória


Sedento de glória

Sempre fora considerado um homem lúcido, íntegro e fiel cumpridor dos seus deveres, embora um tanto vaidoso e ostentando certa mania de grandeza. Estava momentaneamente solteiro, não por falta de pretendentes, mas por livre escolha, o que justificava com o jargão popular “antes só do que mal acompanhado”. Contava com trinta e cinco anos de idade, gozando de perfeita saúde e muita disposição para o trabalho e outras coisas.
De um dia para o outro, porém, acordou bradando o Grito do Ipiranga, declarou a Independência do Brasil e se autoproclamou Dom Pedro I. Seguiram-se alguns barulhos, como se estivesse a bater panelas, os quais vieram acompanhados de mais um estridente grito: “independência ou morte!”
Que estaria se passando naquela casa? indagaram entre si alguns vizinhos, que estranharam a balbúrdia, visto que, desde que para ali se mudara, amiúde ele mostrou-se uma pessoa ordeira e não dado a escândalos.
Apreensivos e tomados de espantosa curiosidade, um grupo de pessoas deliberou investigar o caso, e lá foi a fim de ver se descobriria alguma novidade. Chamaram-no algumas vezes, mas tudo ali agora estava em absoluto silêncio.
- Deve ter sido coroado imperador e está repousando em seu trono, brincou um senhor gordo e bonachão, que, naquela vila, era muito conhecido por suas pilhérias e pelo seu humor politicamente incorreto.
Alguns minutos depois a porta abriu-se. Eis ali Dom Pedro I, que trazia a fronte coberta por uma espécie de coroa, confeccionada de papelão e tingida com tinta amarela. Também segurava em uma das mãos um cabo de vassoura, que parecia representar o bastão imperial.
- Está decretada a Independência do Brasil! vociferou como que se dirigindo a súditos e soldados.
Embaraçados, os vizinhos não sabiam o que dizer. Limitaram-se a perguntar se estava tudo bem, se precisava de alguma coisa e outras semelhantes cortesias. Entretanto, o imperador sentia-se tão eufórico com a façanha, que os ignorou completamente, retornando sem demora ao conforto do seu palácio.
- Perdeu o juízo, disseram.
- É caso de Pinel, gracejou o gordo.
No dia seguinte, como se nada tivesse acontecido, apareceu ele na rua ao simples estilo dos mortais. Cumprimentou a todos e saiu para trabalhar como sempre fazia naquele mesmo horário.
Os vizinhos continuavam sem entender nada, e se mantiveram reservados quanto ao ocorrido.
- É melhor assim, concordaram entre si.
Um mês depois, porém, ouviram-se novos rumores na casa, que vieram seguidos de um novo grito:
- Viva a República!
Era o marechal Deodoro da Fonseca, que acabava de proclamar a república brasileira, destronando o velho imperador e dando fim à Monarquia.
Instantes depois apareceu ele na janela trajado de uma jaqueta escura, toda ela repleta de penduricalhos, que parecia imitar os distintivos militares. O gordo ria às escâncaras, de maneira que chamou a atenção do líder republicano, enfurecendo-o.
Nisso a porta abriu-se e ele saiu gritando, desatinado, cavalgando sobre um cavalo de pau. Os moradores afastaram-se assustados. Nessa confusão, o gordo tropeçou na calçada e caiu de bruços. Foi o tempo dele pegar um pedaço de madeira e acertar-lhe em cheio numa das pernas. Os outros acudiram o homem, o qual, mesmo sangrando, não parava de rir.
Como sucedera antes, saiu no outro dia para trabalhar sem se dar conta da desordem em que se envolvera. O gordo, mancando da perna, olhava-o de soslaio; esperava uma retratação pela pancada que levara. Mas ele não se desculpou. Apenas o cumprimentou como de costume e perguntou-lhe o que acontecera com a perna.
- Caí à toa, disse o outro rindo pelos cantos da boca.
Depois deste episódio, passou ele agir de maneira ainda mais estranha ao habitual. Tornou-se taciturno e retraído. O semblante transparecia severidade, fazendo realçar umas pregas de frustração ou coisa parecida.
Era um domingo do mês de agosto, quando amanheceu exclamando chavões de Getúlio Vargas:
- Trabalhadores do Brasil!... Hoje estais com o governo. Amanhã sereis o governo.
Os vizinhos correram lá. Desta vez, entretanto, não o chamaram nem bateram na porta. Viram-no pela janela. Lá estava ele, em pé, todo imponente e muito bem vestido de um terno preto, sobre o qual sobressaía uma tira de pano verde, que lhe servia como faixa presidencial.
- Para trás legalistas malditos, para trás! berrou como se estivesse na iminência de ser atacado. E logo depois: Avante revolucionários! Vamos à luta!
Notando a agressividade do coronel gaúcho, a vizinhança dispersou-se rapidamente, já prevendo alguma reação ainda mais ofensiva do que a anterior. Todavia, ao contrário das outras vezes, agora ele se mantinha aparentemente sereno, permanecendo trancafiado dentro de casa em total silêncio. E assim ficou durante o resto do dia até à tarde do dia seguinte, quando o gordo e mais outros dois curiosos determinaram ir até lá.

Foram precavidos e atentos a qualquer movimentação. A casa, porém, permanecia num silêncio sepulcral. Bateram palmas, nada; gritaram o seu nome, ele porém não respondia. Notaram então que a porta estava entreaberta. Empurram-na devagarinho e entraram na ponta dos pés. Encontram-no caído no meio da sala. Estava coberto por uma enorme bandeira do Brasil, cuja inscrição “Ordem e Progresso” havia sido substituída por outra, que provavelmente ele mesmo criou: "Deixo a vida para entrar na glória."

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Por: Iba Mendes (Abril, 2015)

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