sábado, 11 de abril de 2015

Uma nova doutrina


Uma nova doutrina

Era meia-noite quando um anjo, humildemente trajado de mendigo, apareceu-lhe de súbito, dizendo:
– Não temas, e não te espantes. Sou Aniel, anjo santo do Senhor, e venho trazer boas novas para tua igreja.
Valdemiro Soares Macedo – era seu nome – tinha então cinquenta e dois anos de idade, com muito dinheiro, saúde e disposição de sobra para fazer crescer ainda mais o seu já imenso rebanho.
Convertera-se à religião evangélica aos vinte e sete anos, conforme ele mesmo dizia, “após ter chegado ao fundo do poço”. Alcoólatra desde os dezesseis anos, estava decidido a acabar com a própria vida, quando fora milagrosamente tocado pela divina Providência, que o libertou dos grilhões do vício e o conduziu ao caminho da salvação. Onze anos depois de convertido, fundou uma igreja a qual denominou de Igreja Planetária da Bênção de Deus, que se expandiu rapidamente, conquistando milhares de fiéis em várias partes do mundo.
Eram três os principais pilares de fé de sua denominação, que podiam ser sintetizados nas seguintes fórmulas doutrinárias: Deus cura, Deus liberta e Deus prospera. Um princípio ligava-se ao outro, de modo que, para ser curado, o indivíduo devia está liberto e, para ser liberto, ele devia assumir um compromisso com Deus, doando um terço de todos os seus rendimentos, preceito este a que chamou de trízimo, e justificava: dez por cento para o Pai, dez por cento para o Filho e dez por cento para o Espírito Santo.
A repentina chegada do anjo fez Valdemiro estremecer de espanto. Pálido e tomado de pavor ele soltou um grito e desfaleceu no chão frio, ficando ali como um morto. O mensageiro de Deus aproximou-se então dele, tomou-lhe as mãos, assoprou brandamente no seu ouvido e fê-lo saracotear como um cavalo quando ouve soar o clarim da guerra. Disse-lhe então o anjo:
– Levanta-te e põe-te em pé, pois trago uma nova doutrina para tua igreja. Escreverás as palavras da minha boca e as transmitirás a teus fiéis nos quadrantes da terra. Assim te ordena o Senhor.
Valdemiro já não duvidava que estivesse diante de um ente espiritual, contudo, não podia concebê-lo como um enviado de Deus, pois estes deviam usar roupas brancas que resplandeciam como o sol, vestes ornadas de ouro e safira. Julgou então tratar-se de um anjo caído, pois se trajava com andrajos, semelhante aos pedintes que costumava ver nas portas das igrejas a suplicar uma esmola pelo amor de Deus.
O anjo, porém, sondando a incredulidade do seu coração, agitou impetuosamente suas asas e, saltando para frente, bradou com voz de trovão:
– Por que vacilas o teu coração, e por que te voltas contra o enviado de Deus? Porventura encheu Satanás o teu coração, para que não compreendas os desígnios dos céus?
Trêmulo e compungido, Valdemiro cai de joelhos aos pés do ente divino, e exclama com os olhos cobertos de lágrimas:
– Eis-me aqui, envia-me a mim.
O anjo então abrandou sua ira, recolheu as asas e sentou-se numa cadeira que achou encostada à parede, explicando logo em seguida qual seria a nova doutrina.
Anunciava-lhe que segundo as novas ordens celestiais, ficava terminantemente proibido fazer qualquer menção ao dinheiro, quer durante o culto quer em qualquer outra circunstância. A doutrina da prosperidade deveria, pois, ser substituída pelo preceito da caridade entre os homens, e citou uma passagem do Livro de Atos, em que se diz que os cristãos prósperos da igreja primitiva vendiam o que tinham e repartiam entre os mais pobres. Valdemiro mostrou-se insatisfeito com tal doutrina, afinal, tentou argumentar, como a igreja haveria de se expandir e se sustentar sem arrecadar dinheiro? O anjo respondeu que o Senhor o proverá, assim como fez a Abraão, a Jacó, a Isaque e os profetas. E acrescentou ainda estas palavras de Jesus: “Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” Valdemiro entendeu a mensagem do anjo, mas via o texto bíblico como fora de contexto. Contudo nada disse acerca disso.
Em seguida o anjo alertou-lhe que, de acordo com esta mesma determinação divina, ele deveria ab-rogar dentre os regulamentos doutrinários da igreja, aquele que versava sobre curas e milagres. Para isso, falava o anjo, há a Medicina e os médicos, os quais deverão receber os verdadeiros louros pelo restabelecimento da saúde dos homens. Valdemiro mostrou-se visivelmente perturbado, e ressaltou que as curas e os milagres constavam na Bíblia, destacando que o próprio Jesus utilizou do seu poder para curar enfermos e até ressuscitar mortos, ao que o anjo respondeu que sim, que de fato há muitos relatos de prodígios nas Escrituras, todavia, foram eles realizados na dispensação da plenitude dos tempos, acrescentando com um sorriso que os milagres não cessaram, eles apenas não acontecem no varejo. Valdemiro resignou-se e se prontificou a obedecê-lo.
Dito isto, o anjo agitou as asas e, como um raio, ascendeu aos céus entre as nuvens.
Já no dia seguinte, Valdemiro procurou colocar em prática as novas exigências celestiais. Fez questão de realçar que a nova doutrina lhe fora revelada diretamente por um anjo que lhe aparecera todo maltrapilho e que lhe exigiu o fiel cumprimento às ordens divinas.
A mudança deu-se de maneira drástica e num curto espaço de tempo. Logo os templos tornaram-se vazios, alguns fecharam as portas, outros foram vendidos e transformados em cinemas, casas noturnas e lojas de conveniências.
Alguns membros, no entanto, persistiram na fé e aceitaram a nova doutrina como vindas do próprio Deus.

Quanto ao Valdemiro, perdeu o dinheiro, a fé e o juízo... Hoje perambula pelas ruas da cidade. 
 

---
Por: Iba Mendes (Abril, 2015)

Nenhum comentário:

Postar um comentário