domingo, 7 de junho de 2015

Michael Melnik



Michael Melnik

Tinha 21 anos quando chegou ao Brasil. Viera da Alemanha, em 1948, após os horrores da Segunda Guerra Mundial.
Nasceu no dia 27 de maio de 1927, numa pequena cidade do interior da Romênia, filho de uma jovem meretriz, que o concebeu no próprio bordel, onde oferecia seus serviços desde os 15 anos de idade. Não conhecera o pai, que a mãe dizia tratar-se de um soldado do exército nacional, o qual fora defender o país contra a invasão dos russos e nunca mais voltara.
Durante o período do Estado Nacional Legionário, sob o governo de Ion Antonescu, a Romênia aliou-se a Hitler. Nessa época tinha ele 14 anos e não nutria de qualquer sentimento nacionalista pelo seu país. O que ele queria era lutar ao lado dos soldados alemães, pelos quais tinha devotada admiração.
Por ser menor de idade e a Lei não permitir que se alistasse, consultou o padre da cidade, que logo tratou de torná-lo “apto para o combate”, alterando o ano do seu nascimento no batistério. Foi assim que ingressou na Guerra, não como soldado, mas como ajudante num dos restaurantes que serviam comida ao exército alemão.
Ao fim do conflito, juntou-se ele a um grupo de imigrantes italianos, vindo com estes para o Brasil, onde conheceu a fresca e bela Elizabeth, uma jovem imigrante alemã, que também viera no fluxo migratório do pós-guerra.
Casaram-se no ano seguinte. Não se amavam. Suportavam-se. Michael era dotado de um gênio tempestuoso, ciumento e sovina. Elizabeth, ao contrário, era de um temperamento comedido, sem extremos, um pouco gastadeira e essencialmente vaidosa.
Os azedumes tornaram-se constantes já no início do casamento, agravando-se com o decorrer dos dias. Logo passou a desconfiar da mulher. Da desconfiança transitou ele para os insultos, e deste para a agressão física e severas regras, como a proibição de sair de casa sozinha e de conversar com os vizinhos, seja lá quem fosse. Acuada e se sentindo humilhada, ameaçava ir embora para casa dos pais, não aguentava mais, ao que ele reagia com uma chuva de ameaças e outras censuras injuriosas.
Era sexta-feira quando chegou e encontrou a casa vazia. Elizabeth tinha ido embora para casa paterna, levando consigo roupas e alguns objetos. Desesperado e com os olhos acesos de ódio decidiu buscá-la e trazê-la de volta, ainda que à força. Contudo, não se sabe se por temor ou se por alguma estratégia que aprendera na guerra, chegou à casa do sogro com a serena fisionomia de um manso cordeiro. Em vez de gritar e vociferar palavrões, como costumava fazer em seus frequentes acessos de cólera, conteve-se e, num gesto de extrema humildade, ajoelhou-se aos pés da mulher e lhe implorou perdão. Prometeu-lhe isso e aquilo, ao que ela cedeu, porém, admoestando-o de que seria pela última vez.
Os meses seguintes foram de paz e tranquilidade entre o casal. Michael cumpria exemplarmente seu papel de bom marido, tratando a mulher com um zelo até então nunca visto. E foi nessa atmosfera de harmonia conjugal que veio ao mundo o primeiro rebento, uma linda e robusta menina a quem deram o nome de Ingrid, que foi uma homenagem da esposa à avó materna, a qual morrera em Berlim por ocasião da ofensiva soviética, no início de 1945.
As coisas iam assim até que, num lance repentino, ele começou a implicar com as feições da menina, as quais em nenhum aspecto lhe assemelhava. A partir daí sobreveio-lhe um profundo agastamento que lhe corroía a alma e lhe fatigava a mente, foi quando aventou a hipótese de que poderia ter sido traído e se encasquetou sobremaneira com essa ideia, ruminando-a dia e noite. Em consequência disso, passou a hostilizar e maltratar a mulher, incriminando-lhe o tempo todo de traição e descaramento. Ela, por sua vez, não se defendia dessa acusação, limitando-se apenas a chorar resignadamente em seu canto.
E foi nesse ambiente de discórdia doméstica que nasceu a segunda filha. Érica foi o nome que ele mesmo escolheu, sem explicar, porém, as razões dessa preferência. A menina tinha as feições dele, os olhos azuis, os cabelos loiros, a testa grande, o queixo partido etc. Por isso concentrou nela todo o seu amor paternal, distanciando-se cada vez mais da primogênita, a quem não manifestava qualquer mimo ou apreço.
Nessa mesma situação de desentendimentos decorreram alguns meses, quando ele, sem qualquer justificativa ou explicação, anunciou que deixaria a casa. A mulher protestou, implorou-lhe que não fosse, pediu para que não desamparasse as filhas, ao que ele reagiu com indiferença e desprezo. Foi-se levando apenas as roupas e dois pares de chapéus. A pequena chorou.
Semanas depois, chegou ao conhecimento da mulher que o marido estava entocado num meretrício, onde vivia dissolutamente sob os tratos de uma prostituta velha, uma sexagenária e mãe de santo, muito conhecida no bairro pela maestria dos seus despachos e pela fama de destruidora de lares.
- Faz dele gato e sapato! diziam as más línguas, ao que ela exprimia com imensa satisfação: - Bem feito!
Ao cabo de quatro meses longe de casa, Michael adoeceu de uma infecção genital que lhe tirou a libido e lhe fez minar todos os seus brios de vigoroso macho. Foi quando deliberou voltar aos braços da mulher, de quem sentiu saudades e um princípio de desejo. Nesse ínterim, porém, ela havia se mudado para a casa de um parente no interior do Paraná, onde, segundo lhe disseram, tinha se amigado com um imigrante italiano, com o qual vivia feliz e cheia de vida.
Triste e desconsolado, comprou uma casinha humilde num lugar ermo da cidade, onde passou a viver sozinho e onde todas as noites ruminava seus remorsos e amarguras. Foi ali que prosperou, envelheceu, agonizou e morreu solitário. A filha preferida chegou na mesma noite do seu falecimento. Estava devidamente acompanhada de um bacharel em Direito. Viera prevenida para o inventário.


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Por: Iba Mendes (Junho, 2015)
 

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