quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A fila

A fila

Estava nervoso e impaciente. Há duas horas velava na fila sem qualquer expectativa de ser atendido. Um cartaz afixado próximo ao local alertava que o atendimento estava suspenso por dificuldades técnicas, acrescentando ainda que não havia previsão para seu restabelecimento.

Levantou-se ansioso e trêmulo de raiva... Andou de um lado para outro... Balbuciou alguns palavrões... Por alguns instantes teve ímpetos de ir embora e desistir de tudo. Logo, porém, lembrou-se das dívidas, do aluguel atrasado, da cláusula quinta do Contrato... Então se resignou à sorte, sentou-se outra vez e enfronhou-se num silêncio triste e sufocado.

Assim permaneceu durante algum tempo, taciturno e imerso em si próprio. De repente, ergueu-se de súbito, olhou em volta de si e deu alguns passos em direção à porta, ficando estacionando diante dela por alguns minutos, mirando-a com um olhar desesperado, como se quisesse abri-la e sair em disparada pela rua à fora. Andou um pouco e, bruscamente, parou rente à parede, de onde passou a observar as pessoas ao seu redor, uma a uma, fixando seu olhar numa mulher que também aguardava na fila de espera.

Era uma senhora alta e gorda, aparentando mais de quarenta anos da idade, cujo semblante fazia transparecer uma mescla de cansaço e desespero, aspecto este que lhe chamou atenção, pois era como se fosse o retrato fiel de sua própria alma cativa e angustiada.

Esta aparente correlação de sentimentos entre ele e a estranha, amimou-o a ir ter com ela, a fim de puxar uma conversa, afinal, pensou em sua mente perturbada, não tinha nada a perder e, ademais, seria uma maneira assaz interessante de ajudar a passar o tempo.

Cautelosamente aproximou-se dela sem dizer uma só palavra, e assim esteve durante alguns minutos, quando, enfim, rompeu o silêncio, perguntando-lhe se jazia no local desde o início do expediente, ao que ela respondeu que sim, que fora a segunda pessoa a chegar e que se encontrava ali desde as quatro horas da manhã. Acrescentando ainda que não entendia porque demorava tanto para ser atendida e suspirou impaciente, o que se fez notar pela aspereza e palidez do seu rosto triste e fatigado. Ele, por sua vez, disse que, não fora a necessidade, já teria ido embora há tempo, pois não suportava filas, e só por isso é que se submetia a tão degradante aviltamento.

- É um absurdo! exclamou com a voz transtornada, completando num tom de desabafo: pagamos nossos impostos, cumprimos nossos deveres, obedecemos às leis constituídas, mas quando precisamos deles nos tratam como bichos sem qualquer dignidade.

Ela concordou com tudo, e culpou a burocracia, a incompetência dos políticos, a falta de respeito pelo cidadão etc.

As ideias e as palavras iam assim entre o desabafo dele e a indignação dela, quando repentinamente foram interrompidos por um homem de estatura mediana, pálido, barba por fazer e trajando roupa própria da repartição, o qual anunciou com voz seca e dura que o expediente se encerraria dentro de uma hora, justificando que a medida devia-se a um problema técnico que impossibilitaria a continuidade do atendimento.

Por um momento o ambiente fora tomado por exasperações de vozes, xingamentos e ameaças. Acuado e todo trêmulo, o empregado correu por um corredor escuro, e dali adentrou numa pequena sala, onde permaneceu trancafiado até cerrarem as portas do recinto.

Lá fora, o grupo dispersou-se rapidamente. Ele e ela, porém, pareciam dispostos a não arredar o pé do local. Não iriam sair dali enquanto não fossem atendidos e, caso necessário, vociferavam nervosos,  pernoitariam por lá até o dia seguinte.

Veio a noite, correram as horas e ambos conservavam-se sentados num velho banco da Praça, um ao lado do outro, num silêncio confuso e prolongado. Em certo momento, já no limiar da madrugada, como se já se conhecessem em outros tempos, fixaram os olhares entre si e sentiram um breve tremor de artérias. Então se deram as mãos, as bocas confusas tocaram-se entre batalhas de veias e reboliços de ancas, culminando numa estranha sensação de sono e delírio.

Quando acordaram pelo romper da manhã, estavam tão juntinhos que pareciam pegados. Ergueram-se num salto desesperado ante os olhares curiosos de uma fileira de gente que se retorcia como cobra e que se perdia de vista no resplendor da aurora. 


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Por: Iba Mendes (Fevereiro de 2016).

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