quinta-feira, 7 de julho de 2016

O sestro

O sestro

Tinha a estranha mania de sempre cheirar a mão quando cumprimentava os outros. Inicialmente esperava a pessoa se afastar e só então saboreava sua peculiar excentricidade. Com o tempo, porém, a prática tornou-se irresistível e passou a executá-la às escâncaras, sem nenhuma cerimônia e bem na frente de quem lhe estendia a mão. A abstinência dos cumprimentos tácteis era para ele um verdadeiro suplício, e de tal modo o atormentava que não se constrangia em apertar a mão de estranhos como se os conhecessem, e muitas vezes fora por isso chamado de louco.

Se o hábito em si já causava estranheza e repulsa entre as gentes, acrescente-se a isso o fato de se tratar de uma pessoa de renomado prestígio intelectual, formado em Psicologia pela Universidade de São Paulo, com doutoramento em Psicologia Social pela Universidad Nacional de Colombia.

Embora se desconheça absolutamente a motivação psicológica que o arrastou à prática de tão esquisito sestro, sabe-se que teve início pela primeira vez durante um pomposo evento, em que esteve presente o Governador do Estado, que o cumprimentou com um caloroso aperto de mão. Cheirou, gostou e não parou nunca mais! Tinha então 32 anos de idade.

Obviamente que um costume assim tão bizarro fez suscitar comentários maldosos e generalizações infundadas. Há quem dizia, por exemplo, que o cacoete do psicólogo era a prova cabal de que a Psicologia tinha a mesma utilidade que aparelho para desentortar bananas. Quanto aos próprios colegas de profissão, esses geralmente preferiam se calar sobre o assunto, seja por respeito à autoridade do doutor, seja por simples constrangimento. Alguns, no entanto, para evitar situações de embaraço, buscavam contornar a situação evitando cumprimentá-lo com aperto de mão, limitando-se apenas às cortesias verbais.

Aconteceu que um dia, tendo ele almoçado, dirigiu-se ao seu consultório, onde o aguardava um novo paciente, um homem magro e ruivo, elegantemente vestido e aparentando 50 anos de idade ou um pouco mais que isso. Este assim que o viu apertou-lhe calorosamente a mão, levando-a imediatamente ao nariz e cheirando-a com tão grande entusiasmo que de pronto chamou atenção do Psicólogo, o qual, por alguns instantes, até se esquecera do seu próprio vício olfativo. Seguiu-se uma pausa de alguns segundos, quando o paciente estendeu-lhe novamente a mão, e, enquanto levava esta em direção ao nariz, disse-lhe um tanto sem jeito:

- Então, doutor, esse é o meu problema!


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Por: Iba Mendes (Julho, 2016)

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