domingo, 26 de fevereiro de 2017

A vaca na sala



A vaca na sala

 "A vaca na sala" (Conto), de Iba Mendes

Era um dia como outro qualquer. 

Acordou pontualmente às seis horas da manhã, ainda sonolento por ter dormido muito mal durante toda à noite. Tivera sonhos horríveis, sendo que o último permanecia impregnado na sua memória como se fosse o resultado de uma criação imaginária de H. G. Wells ou como se constituísse cenas de uma trama fantástica de Steven Spielberg.

Era o mês de julho. Nesta época costumava ficar sozinho em casa, uma vez que a mulher aproveitava as férias escolares da filha para ir com ela visitar os pais que moravam no Estado da Bahia.

Aprontou-se em vinte minutos. Ia descer às escadas apressadamente quando, estupefato, avistou lá de cima uma vaca deitada bem ao pé do último degrau, na sala. O animal parecia dormir, pois tinha os olhos cerrados, posto que se mexesse de um lado para o outro com a respiração ofegante, como se tivesse também sonhando pesadelos.

Aquela circunstância lhe era tão extraordinária que por alguns instantes acreditou tratar-se do prolongamento de seus delírios noturnos. Esta conclusão se lhe afigurou ainda mais verossímil pelo fato de ter sonhado que era um enorme centauro com rosto e torso de mulher, e cujos seios, sangrando, arrastavam-se pelo chão, sendo estes sugados com voracidade por dois grandes répteis os quais se contorciam de fome e soltavam uivos dilacerantes.

Perplexo e tomado por um turbilhão de dúvidas permaneceu ali, imóvel, sem saber o que fazer. Ao cabo de dois minutos, saiu do lugar em que se achava e foi até o quarto, onde ficou andando de um lado para o outro como se tivesse perdido o juízo. Seu corpo suava e tremia. Estava pálido.

Assim esteve durante alguns minutos, quando, de súbito, retornou lentamente à escada na expectativa de que a suposta ilusão se lhe desvanecesse da vista. Ao voltar os olhos para a sala, notou porém que a vaca ainda estava lá e que já não dormia mais. O ruminante, notando a presença dele, fitou-lhe seus grandes olhos e soltou um pequeno mugido que o fez afastar apavorado.

Passados alguns instantes, já resignado, conscientizou-se de que a vaca não era fruto da sua imaginação. Ela de fato existia e estava ali afrontando sua capacidade de raciocínio, limitando sua locomoção e desafiando o seu apurado senso de lógica.

O que hei de fazer? pensou confusamente sem aventar qualquer solução.

De repente passou a resmungar palavras sem nexos como se tivesse imitando o ruminar do próprio bicho, o qual se mantinha todo o tempo deitado e de olhos arregalados, ignorando completamente toda aquela intimidação. Descalçando um sapato do pé, ameaçou lançá-lo abaixo, mas logo freou seu ímpeto agressivo diante da passividade do grande mamífero.

Contida a fúria, sentou-se num dos degraus da escada onde permaneceu em total silêncio por alguns minutos. Nisso a vaca levantou-se e ele, num salto para trás, ergueu-se também. Em pé, passou então a acompanhar fixamente cada movimento do animal, o qual, depois de um breve lapso de tempo, desapareceu por inteiro do seu campo de visão.

Sentindo-se aliviado, voltou correndo ao quarto para pegar a pasta e a chave do carro. À porta do aposento estancou atônito ao ver diante de si a mesma vaca deitada ao pé da cama dando mama a dois pequenos bezerros.



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Por: Iba Mendes (
São Paulo, fevereiro de 2017)

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