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11/28/2022

A árvore (Conto), de Coelho Neto


 A ÁRVORE

Dans les villes et dans les écoles l’esprit subtil et vain peut rire de l’âme de l'arbre. On n'en rit pas dans le désert, dans les climats cruels du nord ou du midi, où l’arbre est un sauveur.
On y sent bien le frère de l’home (Michelet) 

Quem, como eu, teve um dia a fortuna de dormir agasalhado por uma floresta, mais antiga que a cruz nesta formosa e moça região da América, sentiu, por certo, a mesma impressão poderosa que avassalou o meu espírito quando, ao morrer da luz forte, ao nascer da luz branda, desde a beira do rio até o íntimo da selva, correu um sussurro manso como o suspiro amoroso da vegetação. 

Os nossos canoeiros, acocorados em torno de um fogo de versas, as mãos estendidas acima da chama que as avermelhava como se as trespassasse, falava baixinho. A água lenta e cheia do rio deslizava com um leve murmúrio e, por vezes, longe, um pio de ave noturna feria o silêncio. As nossas redes oscilavam de galho a galho fazendo farfalhar a folhagem. 

Esfriava. Docemente, no céu límpido, ia a lua subindo. Já a densa fronde alta estava toda forrada de alvo e, insinuando-se pelos escassilhos, atravessando as abertas, a claridade mística escorria pelos troncos, alastrava a alfombra, brilhava na água ou estendia-se no recesso do arvoredo ribeirinho figurando maravilhosas estruturas: Aqui era um adito de capela, com o altar atoalhado, os nichos brancos, como de mármore; ali eram ruínas dos castelos — as franças semelhavam muralhas aluídas, parapeitos ameados, torres que subiam talhadas em seteiras; e clarões, salteando o negror, criavam perspectivas fúnebres e fundas recuando aquelas fantasmagorias selvagens. Além era uma alvura que se destacava, perpendicular e esguia, fincada na treva como um cipó solitário. Mais longe, disseminadamente, esplendores colgando o negrume e a água lisa e dormente do rio espelhava todos aqueles aspectos estranhos recordando-me as descrições românticas do Reno onde os poetas vão abeberar a musa elegíaca, ao longo das margens tradicionais em que perduram, como arcabouços do passado, muros negros de castelos e elfos e ondinas, à noite, esvoaçando ou bailando, redizem lendas do velho tempo ou entoam bailadas melancólicas que fazem tremer o barqueiro retardatário ou assombram e enlouquecem o afoito caçador furtivo. 

Meus companheiros dormiam; eu velava extasiado, olhando o céu por entre os ramos e parecia-me que as estrelas eram flores que desabrochavam na coma altíssima daquelas árvores. Por vezes, como se alguma se desfolhasse deixando cair uma pétala esplêndida, uma centelha descia trémula, bruxuleando e perdia-se... Vagalume errante, vagalume errante, ardentia alada dos oceanos de verdura. 

Então senti, senti bem a vida grande e misteriosa das árvores. 

A espaços era um crepitar, depois um estalido seco, e logo um hálito — era a brisa que passava... Seria a brisa ou o suspiro da selva pressaga? Pobres árvores acolhedoras, prisioneiras da terra, eu bem senti que vivíeis e vós, porque nos víeis ali, quisestes guardar reserva como o caçador surpreendido pela fera que, de bruços, contém a respiração enquanto sente o inimigo a farejá-lo. A vossa alma, que os gregos personificaram na hamadríada, não ousou deixar o recesso dos cernes, lá se ficou encolhida porque o homem cruel estava ali perto. 

Debalde o luar magnífico brilhava, debalde as auras passavam, não procurastes corresponder ao apelo do mistério e a noite correu serena e casta, só os arbustos amaram, eles, os pequeninos, eu bem os senti que se abraçavam na sombra, junto às raízes dos jequitibás portentosos; mas, pela madrugada, um perfume forte, acre, estonteante, veio até mim, perturbador como uma sedução — vinha de longe, era a respiração ofegante das árvores que se amavam na brenha virgem, era o aroma nupcial da floresta, a exalação erótica dos vegetais. Era o amor poderoso e eterno da natureza, o amor fecundo, o amor criador que passava em eflúvio pelo bosque, multiplicando a beleza, a graça, a força e o benefício. 

E porque se acautelavam tão pudicamente as árvores mais próximas? Porque sentiam o homem, o homem cruel, o encarniçado inimigo da sua generosa espécie. Ó se têm alma as árvores! 

Alma é amor e que maiores provas de amor queremos que nos dê a árvore? Ela é a purificadora do ar que respiramos, ela é que nos garante a fonte que jorra para a nossa sede e para a rega dos campos, ela é a fiandeira de sóis — caem-lhe na copa os raios caniculares e ela, desfiando a flama, dá apenas o calor ao que se achega à sua sombra. Ela é a medicina, ela é a beleza cercando a moradia em que vivemos, ela é a nossa confidente discreta porque é sob os seus ramos que abrimos francamente o coração deixando livres as saudades e as reminiscências. Assim é a árvore viva. 

Morta ela é tudo — o princípio e o fim: berço e esquife, e, entre esses dois polos, tudo mais é floresta: a casa e o templo, o leito nupcial e o altar, o carro que trilha os campos, o navio que sulca os mares, o cabo da enxada e a haste da lança, tudo é madeira, tudo é arvore, é a floresta. 

Matai a árvore e tereis o vagueiro. A terra tem os seus nazires: Sansão tosquiado é impotente para a vingança, as regiões devastadas tornam-se desertos. E que vemos nós por todo este vasto Brasil que era uma floresta frondosa? A destruição inclemente. E porque vai tão encarniçadamente o homem à árvore, que foi a primeira geradora do lume nos tempos remotos do pastor ariano? Porque a árvore é um ser bruto, insensível e mudo. Ah! que se atentasses bem, lenhador, à morte de árvore, tal não dirias, homem de coração. Ao primeiro golpe do machado todo o colosso treme e os passarinhos, como a gente de uma cidade abalada por um terremoto, logo desertam os ninhos. Vai o segundo golpe ao mesmo lanho, afunda-o — eis a seiva a correr, é o sangue que se esvai; outro golpe e começa a árvore a gemer surdamente, doridamente — a sua folhagem agita-se como a acenar à clemência, os seus ramos debatem-se mas o lenhador, a mais e mais empenhado na crueldade, redobra os golpes e canta. 

Em torno da que agoniza as outras parecem tremer como ovelhas num pátio de matadouro e, como se de uma a outra corra a notícia cruel, toda a floresta vibra prevendo a mesma sorte. 

Por fim, a um golpe mais rijo, um estalo responde — é o estertor da árvore e o lenhador recua e fica a olhar... Lá vem pendendo a frondosa cabeça, inclina-se e um fragor levanta-se na mata; derruba-se hirta, roçando de raspão nas companheiras, a árvore ferida e cai estrondosamente esmagando os arbustos gerados à sua sombra. Cai e agoniza e leva dias agonizando até que se lhe vão secando as folhas, encolhendo, mirrando... então sim está morta a árvore. 

E para que a sacrificas, homem de coração? Para o fogo... e secas a fonte da qual a vítima era como a ninfa protetora, e esterilizas o terreno que ela fecundava alimentando-o, como o pelicano, com o seu próprio sangue que ia nas folhas, que ia nas flores, que ia nos frutos. E, com a morte das árvores, lá se vão os animais e, em pouco, o que os descobridores viram como a região favorecida da fartura e da beleza não será mais que um campo arrasado, seco e triste, cavado em valetas que foram leitos de rios, brocado em grotas que foram nascentes e desamparado ao sol esterilizador... 

Felizmente começa a reinvindicação e coube à criança iniciar a santa empresa. Para responder ao machado ai está a enxada nas mãos débeis dos infantes — mas a semente é como a esmola e a Terra é como Deus: dai-lhe um grão e ela vos responderá com a centena, plantai um renovo e ela vos gratificará com o milhão e ainda com prêmios maiores que são o ar puro, a água, a sombra, a medicina e com a sua beleza — assim a árvore demonstra a sua gratidão 

Não tem alma e é grata! não tem alma e vinga-se... 

Eu, que tive a fortuna de dormir agasalhado por uma floresta, posso dizer-vos, crianças heroínas do renascimento, semeadoras benditas da segunda geração floral: fazei o bem às árvores que elas saberão corresponder à vossa caridade e lembrai-vos de que a festa que celebrais é o início de uma Redenção: renovar a flora é robustecer a Pátria da qual as florestas são os reservatórios de vida e de fortuna.

7/02/2019

A Árvore (Conto), de Raul Brandão



A Árvore

O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida – dessa corrente a que estamos sujeitos toda a vida – impelia-o para o mal. A sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem sós e a quem o tempo sobra para refletir.

– Quem és tu? – disse-lhe o Gabiru.

– Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo ninguém o saberá. Não tenho família.

– Quem te criou?

– Os ladrões.

– Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.

E enquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando de estação, para de novo mergulhar num sono profundo, o Gabiru cismava, olhando-o.

Às vezes o ladrão tornava e o filósofo repartia com ele o seu pão. Depois dizia-lhe:

– Dorme.

Mas nessa noite o Morto, mais agitado, não quis dormir. Sentados à beira um do outro falam durante largo tempo.

– Não sei por que, este tempo aflige – começa o Morto. – Não devia haver este tempo.

– Qual?

– Este, de primavera. Até na cadeia, quando numa noite assim o luar consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobressaltados. Tenho visto assassinos abalados. Havia duma vez um velho, que matou uma criança por nada, para se rir, e que numa noite destas encostou a boca às grades para respirar com sofreguidão e desatou a cantar. Este tempo tira a força.

– Escuta. Não ouves nada?

– Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os que matam inda são os que têm melhor coração.

– Tu para que roubas?

– Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o que a gente faz está escrito no livro do destino. Eu bem sei que inda hei de fazer pior quando soar a hora...

– Que hora?

– A minha hora. Todos neste mundo têm uma em que cumprem aquilo para que foram criados. Cada qual nasce para o que nasce. Há-os, por exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensas que é para roubar? Matam uma criança que nunca lhes fez mal.

– De que serve fazer mal?

– Em primeiro lugar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal, é sempre bom fazê-lo. Tenho horas em que tudo em mim – tudo! – me prega que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Às vezes sonho que mato. É sinal que a minha hora ainda não soou.

– E Deus?

– Deus foi que me criou, Deus não se importa. Que tenho eu que fazer neste mundo? Só mal. É porque Deus me criou para o mal.

– Resiste.

– Quando a gente é criada para isto, não há nada que nos impeça... Uma criança...

– Antes viver com um sonho, ignorando tudo.

– Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não vives. Morrer sem ter vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu de ser perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?... Que sabes tu de seres tu? Há instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é preciso cumprir-se um fado, com todo o nosso ser, é preciso a gente sentir-se só contra todos e no entanto prosseguir o seu destino... Andar inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...

– Mas o mal...

– Que sabes tu do mal?

– Nada.

– O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!... Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar; encher depois o peito, com o coração a estalar escondido num canto negro ou estender-se a gente no chão e sentir na boca o travor da terra!... Não respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vê-la finar-se!...

– E eu que tinha pena de ti!...

O Gabiru reflete. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e, no silêncio brando, vêem-se da trapeira os montes, o mar e as árvores, com formas de sonho.

– Pobre de ti! – diz por fim o filósofo. – Tu és a terra, tu és a terra a falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como a forja apagada e eu não, eu não, eu ardo!...

Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar.

– Não, não quero ver. Isto tira a força à gente.

– Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio, e parecendo um D. Quixote banhado de luar, um sonho que o outro não podia ver...

– Não quero... Ouve. Se uma criança tem de vir a ser como as mulheres da viela não era melhor morrer?

– Talvez.

– Não é isso que te pergunto. Não era melhor morrer?

– Não sei.

O ladrão ficou um minuto a olhá-lo calado, e depois, de repente, abalou.

Foi esta noite! foi esta noite! Há dias em que eu sinto como uma torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras estremecem impelidas. Há como uma ligação entre a Árvore e aquelas pedras. Os seus esgalhos esbranquiçados e esguios cresceram mais e ontem à tarde eu vi que a Árvore já não era a mesma. Foi quando, como agora acontece desde março, o sol lhe deixou poeira de ouro nos galhos. Vai-se o sol embora e ainda – vou jurá-lo – lhe fica sol nos ramos. Ontem à tarde parecia transformada, diríeis haver nela não sei o que de extraordinário, de irreal e de estranho – nessa Árvore só dor. Pus-me a vê-la tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e enfim descobri perdido, quase sumido, um botão tão miúdo, tão tênue... Qualquer sopro do vento levá-lo-ia para sempre.

A noite estremecia despedaçada. Uma névoa viva, torrente luminosa, arrastando consigo no alvorecer o primeiro hálito dos montes e das águas acordadas, umedecia as arestas dos muros, o granito da cidade ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pita sentiu que alguma coisa de extraordinário se passava nessa madrugada de abril: um jorro de vida brotara, uma aparição, um sonho realizara-se tornado em matéria. A própria luz dir-se-ia enternecida, estremecendo ao tocar na Árvore. Envolvia um fluido, um rastro de emoção. Erguida, enorme, transformada em flor a dor que as suas raízes tinham bebido. Com um grito o Pita viu o Gabiru pendurado num ramo.

Namorara sempre, depois do escárnio da Mouca, aquela Árvore, cismando num encontro etéreo para depois da cova. A tísica, nos últimos dias, quando a morte a tocara, não tirava dos troncos despidos o olhar absorto.

– Aquela Árvore – dizia – aquela Árvore...

Não sei se repararam... As criaturas mesmo antes da agonia pertencem mais a um outro mundo do que à terra. A matéria está já toda embebida de mistério, há mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo emudecem e põem-se a falar dentro em nós a poeira de astros de que é feita a alma.

– A Árvore! A Árvore!... – dizia ela para Sofia.

– Donde nasce aquilo – olhe – que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz... Lembra-se do ano passado que pra ali veio um passarito morar? E da sua voz? Parecia água a cair...

Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais. Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sítios que ela amara. As noites tinham já esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no escuro, de palores esquecidos...

Altas horas à janela, todo o céu pontilhado de estrelas, ouviu soluços na quietude da noite. Caía um luar enorme e a treva tácita parecia esperar escutando. Só muito ao longe, no silêncio que lhe pareceu presago, dir-se-ia que uma nascente deixara correr um fio de água – só um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Diríeis lágrimas. Pôs-se a olhar inquieto. A Árvore, mais esguia ao palor do luar, parecia transformada. Acenavam-lhe os ramos – e que voz era aquela, fina e meiga, que o chamava?... Ou seria água nascendo ou um fio de luar a correr?

Desceu três a três os degraus e ei-lo no saguão. Vestira o luar a Árvore e sob a magia da noite a eclosão fizera-se.

Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Árvore como um branco fantasma a fugir e a chamá-lo. Baixaram-se os seus troncos para o tomar e ouvindo aquela voz amiga, desfaleceu apertado, morto, levado pelos ramos...

Pela primeira vez a Árvore de saguão deitara flor, mas que flor! que simulacro de flor e à custa de que sofrimento! Cada flor era um grito – cada flor da Árvore imensa que cobria a pedra e o Hospital. Eles dois enchiam o mundo – dum lado a Árvore, do outro o Hospital.