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10/25/2017

A menina bem criada (Conto), de Bento Serrano


As fadas ou A menina bem criada 

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Era uma vez uma viúva, que tinha duas filhas; a mais velha parecia-se tanto no gênio e na cara com a mãe, que quem via uma, via a outra. Ambas eram tão orgulhosas e tão desagradáveis, que se não podia viver com elas. A mais moça, que era o retrato de seu pai, pela bondade, era ao mesmo tempo uma das mais lindas raparigas que se podiam ver. Como naturalmente se ama o seu semelhante, esta mãe era doida por sua filha mais velha, e ao mesmo tempo tinha uma forte aversão para a mais nova, que mandava comer na cozinha, e trabalhar continuamente.
Entre outras coisas era preciso que esta menina fosse duas vezes por dia buscar, a uma meia légua grande de sua casa, um grande cântaro cheio de água. Um dia, que a infeliz criança estava nesta fonte, chegou-se a ela uma pobre mulher, e lhe pediu que a deixasse beber. — Pois não! minha senhora, disse esta bela menina; e dizendo estas palavras, tomou água no melhor sítio da fonte, e lha apresentou, sustendo o seu cântaro, para que ela pudesse beber mais facilmente. A boa mulher, tendo bebido, lhe disse: — A menina é tão bonita, tão boa, é tão bem criada, que não posso deixar de lhe fazer um dom. (Era uma Fada, que tinha tomado figura de uma pobre aldeã, para ver até onde iria a boa educação desta menina.) Eu dou-lhe por dom, continuou a fada, que a cada palavra que disser, sair-lhe-á da boca uma flor e uma pedra preciosa. Quando esta boa menina chegou a casa, a mãe ralhou-lhe por haver tardado tanto tempo. — Perdoe-me, minha mãe, por ter tardado. E dizendo estas palavras, deitou pela boca duas rosas, duas pérolas, e três bons diamantes. — Que é isto? disse a mãe, admirada. Quem te deu isto, minha filha? (Era a primeira vez que a tratava por sua filha.) A pobre menina contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, não sem deitar pela boca uma infinidade de diamantes. — Realmente, disse a mãe, vou mandar lá tua irmã. Vem cá, Mariquinhas, vem ver o que sai da boca de tua irmã quando ela fala; queres tu ter o mesmo dom? Vai buscar água à fonte, e quando uma pobre mulher te pedir de beber, dá-lha com muita civilidade. — Pois não! respondeu a malcriada; eu ir à fonte! — Quero que lá vás, disse a mãe, e já. Maria foi, mas resmungando. Pegou no mais bonito jarro de prata que havia na casa, e chegou à fonte. Viu logo sair da floresta uma dama magnificamente vestida, que lhe pediu água para beber. Era a mesma Fada que tinha aparecido a sua irmã, mas que tinha tomado a figura e os vestidos de uma princesa, para ver até onde iria a má criação desta rapariga. Porventura eu vim cá para lhe dar de beber? disse a malcriada orgulhosa. Era o que me faltava trazer eu um jarro de prata para dar de beber à senhora: ora beba na fonte, se quiser. — Sois bem pouco política! replicou a Fada, sem se encolerizar. Pois bem, já que é tão malcriada dou-lhe por dom, que a cada palavra que disser, sair-lhe-á da boca uma serpente e um sapo. Voltou a casa, e sua mãe gritou: — Minha filha! minha filha! então que há? — Nada, minha mãe! respondeu ela, deitando pela boca duas serpentes e um sapo. — Oh céus! exclamou a mãe; que vejo! É tua irmã que tem a culpa; há de pagar-mo. E dizendo estas palavras, correu a ela para lhe bater.
A pobre menina fugiu para a floresta vizinha. O filho do rei, que voltava da caça, encontrou-a, e vendo-a tão linda, perguntou-lhe o que ela fazia ali sozinha, e porque chorava! — Oh! meu senhor, é porque minha mãe pôs-me fora de casa. O filho do rei, que viu sair-lhe da boca seis pérolas e seis diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse de onde isto vinha. Ela contou toda a sua história. O filho do rei ficou namorado dela; e considerando que um tal dom valia mais que tudo o que se podia dar em dote a uma princesa, levou-a para o palácio de el-rei seu pai, onde casou com ela. Sua irmã fez-se aborrecer tanto, que sua própria mãe a pôs fora de casa; e esta desgraçada, depois de ter corrido bastante sem achar ninguém que quisesse recolhê-la, morreu no meio de um bosque.

O Chapeuzinho Vermelho (Conto), de Bento Serrano


O Chapeuzinho Vermelho ou A Fada e o Lobo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Era uma vez uma menina da aldeia, a mais bonita que podia haver: sua mãe adorava-a, e sua avó, que era a Fada dos jasmim, ainda mais. Esta boa mulher deu-lhe de presente um chapeuzinho vermelho, que lhe ficava tão bem, que a chamaram o Chapeuzinho Vermelho.
Um dia sua mãe, tendo feito alguns bolos, disse-lhe: — Vai ver como está tua avó, pois que me disseram que ela estava doente; leva-lhe este bolo e este pote de manteiga. O Chapeuzinho Vermelho partiu logo para casa de sua avó, que morava em outra aldeia. Passando num bosque, encontrou um lobo com cara de gente, que tinha boa vontade de a comer; mas não ousou fazê-lo, por temor de alguns carvoeiros que estavam na floresta. Perguntou-lhe onde ela ia; e a pobre pequena, que não sabia que era perigoso dar atenção a um lobo, respondeu: — Vou ver minha avó, e levar-lhe um bolo com um pote de manteiga, que minha mãe lhe manda. — Ela mora muito longe? perguntou o lobo. — Não, senhor, respondeu o Chapeuzinho, é além daquele moinho, que você vê lá ao longe, na primeira casa da aldeia. — Pois bem, disse o lobo, eu também quero ir vê-la, vou por este caminho, tu irás por aquele, e veremos quem chega lá primeiro. O lobo pôs-se a correr a toda a pressa pelo caminho mais curto; e a pequenina foi pelo caminho mais comprido, divertindo-se a colher avelãs, a correr atrás das borboletas, e a fazer ramalhetes das flores que via. O lobo não tardou muito a chegar a casa da avó, e bateu à porta: truz, truz, mas ninguém respondeu, porque a Fada dos jasmins, sabendo quem era, quis fazê-lo persuadir que não havia gente em casa.
Tendo o lobo batido mais duas vezes, sem que lhe respondessem, supôs que a avó do Chapeuzinho Vermelho havia saído, e resolveu entrar na casa, para esperar as duas e comê-las. Assim resolvido, levantou a aldraba, e abrindo-se a porta, entrou na casa, onde não viu ninguém; porque a Fada se havia escondido em um armário, que estava à cabeceira da cama, de onde via e observava tudo. O lobo deu duas voltas pela casa, e, vendo-a sozinha, fechou a porta com a aldraba e foi deitar-se na cama da avó, à espera da primeira que aparecesse. Pouco tempo depois chegou o Chapeuzinho Vermelho, que bateu à porta: truz, truz,— Quem está aí?— O Chapeuzinho Vermelho, que ouviu a voz grossa do lobo, teve medo ao princípio; mas pensando que sua avó estava rouca, respondeu: — É sua neta Chapeuzinho Vermelho, que lhe traz um bolo e um potesinho de manteiga, que minha mãe lhe manda. O lobo gritou-lhe, amaciando a voz: — Levanta a aldraba. A pequenina levantou a aldraba, e a porta abriu-se. O lobo, vendo-a entrar, lhe disse, escondendo a cabeça debaixo dos lençóis: — Põe o bolo e o potesinho de manteiga em cima da mesa, e vem-te deitar comigo. O Chapeuzinho Vermelho foi-se meter na cama; mas ficou muito admirada de ver sua avó despida. A pequenina lhe disse: — Ó minha avó! como os seus braços são compridos!— É para melhor te abraçar, minha neta. — Ó minha avó! como as suas pernas são grandes!— É para correr melhor, minha neta. — Minha avó! as suas orelhas são bem compridas!— É para escutar melhor, minha neta. — Minha avó! que olhos tem tão grandes!— É para ver melhor, minha neta. — Minha avó! para que tem dentes tamanhos!?— É para te comer. E dizendo estas palavras, este mau lobo lançou-se sobre Chapeuzinho Vermelho para comê-la; mas estacou de repente, ficando sem movimento, porque a Fada, saindo do esconderijo, lhe tocou com a sua varinha de condão. O Chapeuzinho Vermelho deu um grito de alegria ao ver sua avó, que tirou a netinha de ao pé do lobo, mais morta que viva, pelo susto que tivera. Então disse a Fada para a netinha: — Que castigo se há de dar àquele malvado lobo, que te queria devorar?— Dê-lhe, minha avozinha, o castigo que quiser, respondeu o Chapeuzinho Vermelho. — Pois então vai para a janela, que verás o que nunca viste. Estando o Chapeuzinho Vermelho à janela, viu sair de casa o lobo, todo coberto de busca-pés (é deste tempo que data o descobrimento da pólvora) desde a ponta do rabo até à do focinho, e ouviu dizer a sua avó: — Vai, malvado, correndo por aí fora até que vás apagar o fogo no poço do moinho, onde morrerás afogado. Isto dito, começaram os busca-pés a arder, dando tiros tão medonhos, que o lobo fugiu espavorido, e julgando apagar o fogo com água, foi lançar-se ao rio, que corria perto, afogando-se justamente no poço do moinho, que desde então ficou sendo o poço do lobo.
Depois disto disse a Fada para o Chapeuzinho Vermelho: — hás de prometer-me que de hoje em diante, quando tua mãe te mandar a algum recado, não te hás de demorar pelo caminho, nem conversar com quem não conheces, dizendo-lhe o que vais fazer; e se assim o fizeres, dou-te por dom que serás mui formosa e casarás com um grande fidalgo.
E assim foi: pois crescendo o Chapeuzinho Vermelho, fez-se tão discreta e tão formosa, que foi pedida em casamento por um grande fidalgo da vizinhança, com o qual casou e viveu muito feliz.

Gratidão de um filho, ingratidão de Outro (Conto), de Bento Serrano


Gratidão de um filho, ingratidão de Outro  (Hebel)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Quem reparar um pouco, há de ver muitas vezes que o homem na velhice é tratado por seus filhos exatamente do mesmo modo, como ele havia tratado seus pais, quando eram velhos e já sem forças. E isto compreende-se bem. Os filhos aprendem com os pais; não veem nem ouvem mais ninguém, e por isso seguem o seu exemplo. Assim se verifica naturalmente o que tantas vezes se diz, e está escrito: “a bênção e a maldição dos pais vem cair sobre os filhos.”
Ouçamos agora duas histórias que se contam a propósito disto: a primeira é digna de imitação; a segunda merece ser muito meditada.
Uma vez um certo príncipe foi dar um passeio a cavalo, encontrou-se com um camponês diligente e alegre, que andava a trabalhar em um campo, e pôs-se a conversar com ele.
Dali a alguns dias soube o príncipe que o campo não era propriedade daquele homem, o qual não passava de um jornaleiro que pela módica quantia de três tostões por dia cuidava do seu amanho. O príncipe, que para os pesados encargos do governo precisava de enormíssimas somas, não podia compreender como três tostões diários eram meios bastantes para o nosso homem viver, e de mais a mais de rosto tão alegre. Este porém respondeu-lhe: “Nada me faltaria, se eu pudesse dispor de todo esse dinheiro: a terça parte chega-me bem; com um terço pago as minhas dívidas e a terça parte restante pertence às minhas economias.” O bom do príncipe ficou ainda mais admirado. Mas o camponês continuou: “O que tenho, reparto-o com meus pais, que são velhos e já não podem trabalhar, e com meus filhos, que andam por ora a aprender; àqueles pago-lhes o amor com que me trataram na minha infância, e destes espero que não me abandonarão também na minha cansada velhice.” Não é verdade que tudo isto foi muito bem dito, é ainda melhor pensado, e ainda muito melhor executado? O príncipe recompensou aquele homem de bem, olhou com desvelo pelos filhos, e a bênção que os pais lhe lançaram ao morrer, foi-lhe retribuída pelos filhos agradecidos com amor e amparo.
Havia porém outro homem que tratava tão mal seu pai, a quem a idade e as doenças tinham na verdade tornado impertinente, que o velhinho mostrou desejos de entrar em um hospital de pobres, que havia na mesma aldeia. Ali esperava ele, apesar do pouco afeto, pelo menos ver-se livre das repreensões que em casa lhe amarguravam os últimos dias da vida. O filho ingrato saltou de contente apenas soube dos desejos do pobre velho, e ainda antes de o sol se esconder por detrás das montanhas vizinhas, já eles estavam satisfeitos. Mas no hospital não encontrou ele tudo quanto desejava, e passado algum tempo pediu ao filho, como último favor, que lhe mandasse dois lençóis, para não ter de dormir toda a noite na palha estreme. Procurou este os piores que tinha, e chamando seu filho, criança de dez anos, ordenou-lhe que os levasse ao hospital.
Ficou porém admirado ao ver que o pequeno escondia a um canto um dos lençóis e só levava ao avô o outro; e apenas ele veio, perguntou-lhe porque tinha feito aquilo. O filho respondeu friamente que tinha guardado um dos lençóis para o dar ao pai, quando mais tarde o mandasse para o hospital.
Que lição tiramos daqui?
Honra teu pai e tua mãe, para que sejas feliz.

O Castelo Encantado (Conto), de Bento Serrano


O Castelo Encantado ou:  O Monte do Castelo das Fadas (Tradição Prussiana)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ao pé do rio Memer, e não longe da cidade de Tilsit, levanta-se um monte alto e redondo que se chama o monte do castelo. Há muitos e muitos anos houve ali um grande castelo, como ainda hoje se pode ver pelas ruínas das paredes, e por um fosso muito fundo e duas linhas de muralhas que estão de redor. A quem pertence e quem agora lá mora, é coisa de que ninguém sabe dar notícia, mas corre na terra uma tradição que reza que ele se aluiu de repente, e ainda hoje se mostra no cume do monte, mesmo no meio dele, um largo e escuro boqueirão, cujo fundo ainda ninguém pôde achar com cordas: diz-se que deve ter sido a chaminé do antigo castelo. Nesses muros derribados reza a mesma tradição que é guardado um tesouro imenso por um porteiro, velhinho de cabelos brancos, que já tem sido visto muitas vezes pelos viajantes que sobem ao monte, e que ninguém até hoje tem podido ir aproveitar-se dele.
Um dia andavam muitos rapazes de uma aldeia próxima de Tilsit a pastorear gado no monte do castelo. O dia ia em mais de meio, o sol queimava e os rapazes deitaram-se à sombra de um roseiral bravo e puseram-se a contar histórias. Entre outras coisas falaram no muito ouro que estava no monte por debaixo deles, e mostraram desejos de que lhes aparecesse o porteiro do castelo para irem atrás dele e deitarem mão ao tesouro. Mas mostravam esse ânimo por ser dia claro, porque nenhum deles era capaz de se deixar ficar só no monte do castelo depois de escurecer.
— Sim, dizia o mais novo, fazia-me boa conta o ouro, e ainda mais a minha mãe que está velha, corcovada e trôpega e ainda se assenta à roda de fiar, ganhando assim com muito trabalho mas honestamente o escasso pão de cada dia; que alegria não seria a dela se eu pudesse levar-lhe para casa uma boa mão cheia de dinheiro! Mas eu não quero nada com o tal fantasma do homem pequenino.
— Tolo! disseram os outros, ele não faz mal a ninguém; provavelmente descansaria e não lhe seria preciso andar a vaguear pelo monte, se alguém achasse o tesouro, porque então não teria mais que guardar.
Assim palravam eles até que um se lembrou de irem todos ao boqueirão e atirarem pedras para baixo. Mas por maiores que fossem as pedras que arrastassem até ao buraco e lançassem dentro, não ouviam cair nenhuma no fundo.
— Se houvesse uma corda bem comprida, disse Fernando que era o mais velho, e rapaz forte e animoso, poderia um de nós descer um bom pedaço, e ver se acharia alguma porta ou coisa semelhante que fosse dar onde está o ouro.
— Em casa de meu amo, disse outro, há um poço, e está uma corda no guindaste que com certeza é duas vezes tão comprida como este monte. Querem que a vá buscar? Em casa não está agora ninguém porque meu amo e minha ama saíram para longe para um batizado.
A proposta foi bem recebida por todos, menos pelo pequeno Teófilo.
— Nós, disse Fernando com os olhos afogueados, podemos talvez ser ricos com pouco custo, não precisando mais de guardar gado pelo ardor do sol; podemos mesmo comprar casa e campos e ter moços para o gado, se enchermos bem os bolsos lá embaixo. Vai buscar a corda, depois tiraremos à sorte quem há de descer à cova; os outros ficarão a segurar a corda em cima, e o que descer será içado logo que dê sinal puxando por ela.
Todos estavam muito contentes, menos o pequeno Teófilo, que como medroso se opunha aquela resolução, mas foi escarnecido pelos camaradas. Quando chegou a corda e foram lançadas as sortes, a quem tocou a vez foi justamente ao timorato Teófilo, que bem fugiria dali para longe se os camaradas não o segurassem e não o atassem à força com a corda. Gritando e bracejando, com grandes risadas dos companheiros foi lançado no boqueirão redondo e descido devagar. A ponta da corda foi atada com muita segurança ao tronco de uma árvore, e pouco a pouco foram os rapazes deixando ir cada vez mais para o fundo o seu pequeno camarada. Passados alguns minutos curvaram-se na borda do buraco e disseram: “Que vês lá embaixo, Teófilo?” Mas Teófilo só pedia que o puxassem para fora.
Afinal já não se entendia o que ele dizia: a corda, que era mais comprida do que a altura da torre da igreja de Tilsit, estava já a chegar ao fim, e ainda se sentia retesada e pesada, sinal certo de que Teófilo ainda não tinha chegado ao fundo. Mas de repente viu-se que estava bamba. Os moços do gado deram gritos de alegria, vendo que por fim estava Teófilo em terra firme: estenderam meio corpo por sobre a borda do boqueirão; chamaram e puseram-se a escutar, mas o silêncio era de mortos. Assim esperaram muito tempo, uma hora e ainda mais; agora, diziam eles, já Teófilo tem tido tempo de ver tudo e de encher os bolsos com ouro e prata. Puxaram a corda para cima, mas a corda não trazia nada. Como esperassem ainda uma hora e outra hora sem que a corda trouxesse alguma coisa acima, começaram a afligir-se e a inquietar-se. Depois correram muito pesarosos à aldeia, e com medo de castigo disseram à velha mãe doente do seu camarada perdido que Teófilo tinha trepado sozinho às ruínas do monte do castelo e de repente tinha desaparecido.
Foi grande a angústia da pobre mãe do rapaz, cuja alegria única era o seu Teófilo. Chorou e gemeu toda a noite, não houve sono que lhe fechasse os olhos, e bem quisera ela morrer para ir ter com seu filho ao céu, porque ele decerto tinha caído no fundo do boqueirão do monte do castelo, e lá estava despedaçado e morto.
Quando na manhã seguinte Fernando e os outros moços do gado levavam outra vez os rebanhos para o pasto da véspera, ainda aflitos pelo que tinha acontecido, correu Teófilo ao encontro deles na raiz do monte. Todos os seus bolsos, e o barrete, e mesmo as mãos, estavam cheias de ouro, e ele com grande alegria contou aos camaradas como tudo lhe tinha corrido bem. Disse ele:
— Logo que me senti em chão firme e que me desatei da corda, vi uma porta diante de mim e por ela entrei em uma cozinha muito grande. Ardia no lar uma grande fogueira que não fazia fumo nenhum, e em toda a parte não se via senão coisas de ouro e de prata. De repente veio direito a mim um velhinho pequeno, pegou-me na mão com muito bons modos e me disse que não tivesse medo porque me assegurava que não havia ali ninguém que me fizesse mal. Então perdi o medo, e atravessei com o bom velho muitas salas cada vez mais bonitas, onde havia montes de ouro. Então deu-me o castelão diferentes iguarias muito boas para comer, e mostrou-me uma cama em que eu podia dormir. O vinho muito doce que bebi pesou-me na cabeça, e eu dormi como um morto até que o mesmo velho pequenino me foi acordar. Então encheu-me de ouro o barrete e os bolsos tanto quanto podiam levar, e disse-me: “Guarda isto em lembrança do porteiro do castelo e trata de tua velha mãe.” E pegando-me em uma mão, abriu uma porta pequena, e quando pus os pés fora, vi o céu azul e o sol da manhã, e ouvi o sino da aldeia que tocava às ave-marias. Ele não saiu, disse-me adeus com a mão, e desapareceu. A porta por onde tinha saído não a tornei a ver. Graças a Deus, tudo foi bem até ao fim. Como minha mãe vai ficar contente!
E Teófilo correu logo à aldeia, sem dar mais ouvidos aos seus camaradas que bem queriam ouvir contar mais alguma coisa.
— Agora, disseram eles uns para os outros quando viram as grandes riquezas com que Teófilo apareceu, devemos ir também ao bom porteiro velho e trazer alguma coisa do seu tesouro. Vamos ver a quem por sorte caberá a vez de ir lá abaixo.
— Para que há de ser à sorte? disse Fernando; eu sou o mais velho de todos, e hei de ser o primeiro a descer. A quem não estiver pelo que digo, provarei que está do meu lado o direito do mais forte.
Os camaradas resmungaram, mas não se atreveram a resistir ao robusto rapaz, e por isso foi Fernando descido ao boqueirão, depois de ter primeiro tirado o seu pão da sacola pastoril, para ter onde deitar muito ouro que esperava receber do porteiro do arruinado castelo. De novo se mostrou a corda retesada quase até ao fim, e os outros a colheram sem que trouxesse nada, mas não esperaram que o camarada saísse para fora naquele mesmo dia, porque sabiam que ele tinha lá embaixo boas coisas para comer e uma cama bem fofa para passar a noite, e que lhes apareceria de manhã muito alegre, como o pequeno Teófilo, ao pé do monte. A ausência de Fernando foi pouco notada na aldeia; os companheiros levaram-lhe a casa o gado, e ele não tinha uma mãe que o chorasse.
Na manhã seguinte todos os outros cheios de impaciência saíram com o gado mais cedo do que costumavam, mas não encontraram Fernando. Esperaram um pouco, depois correram ao alto do monte, deitaram a corda ao boqueirão, e inquietos chamaram o camarada pelo nome. Mas não houve resposta. Depois ninguém tornou a ver Fernando, nem apareceu ninguém que tivesse ânimo para descer ao fundo do monte do castelo, e apanhar o tesouro que lá está enterrado.

O espelho mágico do anão (Conto), de Bento Serrano


Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Tomé e Joaninha viviam quase sós na sua pequena casinha, fora do bosque, tão sós como nunca tinham vivido. O pai era coiteiro e guarda-matas, e por isso, ou o tempo estivesse bom ou mau, passava muitos dias sem ir a casa, a guardar as florestas e a matar a caça silvestre que era para a mesa do senhor das terras. A mãe tinha morrido, e na choupana ninguém estava com os meninos senão a avó, que já via mal e ouvia pouco. A avó passava todo o dia assentada ao lar, menos quando andava coxeando pela cozinha para preparar a pobre comida para os pequenos, ou quando dormia. De dois em dois ou de três em três dias vinha Luíza, que morava na aldeia, trazer o leite, o pão e o que era mais necessário; mas passavam-se semanas sem entrar um homem na choupana.
No verão pouco cuidado dava isso aos pequenos, porque iam todos os dias à escola da aldeia, e era isso para eles um divertimento. Os pássaros faziam-lhes companhia cantando alegres; no caminho encontravam lírios ou morangos, que colhiam para venderem na aldeia ou para levarem ao mestre. Passadas as horas de aula, corriam à floresta, por onde andavam de um para outro lado com o pai, e espreitavam esquilos e cabritinhos monteses, e já uma vez tinham visto de longe um belo veado. E assim, lendo nos seus livros na escola ou colhendo avelãs nas matas, não sabiam o que era aborrecimento em todo o verão.
Mas no inverno era verdadeiramente triste, porque não podiam entrar na floresta, e tinham de estar em casa como dois ratinhos no seu buraco. O pai era obrigado a andar por fora e levava consigo Fiel, bonito perdigueiro, que era o companheiro único dos pequenos. Também, se o pai estava em casa era raro que dissesse alguma coisa; assentado à lareira, dormia ou limpava armas de caça. Em outro tempo contava a avó muitas histórias bonitas, mas então já não contava nada, e se falava era a meia voz e só consigo. Joaninha assentava-se ao pé da avó com uma roca pequena e fiava; mas era um trabalho aborrecido por não haver quem conversasse. Tomé talhava em bocados de pau figuras de cães e de lebres; mas saíam-lhe sempre mal feitas, e tantas vezes dava golpes nos dedos que perdia a paciência e deixava a obra. O que mais o divertia era fazer casinhas com pedras e bocados de pau que ajuntava; mas as casas caíam com grande barulho, e a avó dizia-lhe que não tinha jeito nenhum para aquilo. Então dizia às vezes Tomé com mau humor:
— Ora, porque não havemos nós de ser como os filhos dos ricos, como o filho de um fidalgo que uma vez passou na aldeia, ou como os do balio, que podem comer tudo que quiserem, ou como os filhos dos ciganos que andam por onde querem?
Em uma tarde, perto do Natal, tudo estava calado e triste. O azeite nos candeeiros estava quase acabado, e o caminho para a aldeia estava tão cheio de neve que Luíza não tinha podido aparecer com as coisas precisas. Não havia com que fazer arder o candeeiro. Por fortuna o luar era claro como o dia; mas os pequenos tinham medo das sombras esquisitas que o luar fazia.
Joaninha chegava-se muito para a avó, e Tomé fez o mesmo e disse à velha avó em voz alta:
— Avozinha, conte-nos hoje uma história, ainda que seja pequenina: ainda há de saber alguma.
— Não sei nenhuma, rapaz, resmungou a velha, mesmo nenhuma. Esqueceram-me todas.
— Só uma, avozinha; conte do anão da pedreira.
— Da pedreira, ah, sim, rapaz, espera; deixa ver se me lembra. Onde está a grande pedreira, embaixo no barranco era em outro tempo uma rocha forte e a prumo como um muro, de onde nunca tinha saído nenhuma pedra, e defronte da rocha havia um pedaço de terreno coberto de viçosa verdura: por debaixo moravam os anões; descia-se por degraus ao pequenino castelo da rainha dos anões, e debaixo da terra era uma cidade muito bonita. Na floresta não entravam caçadores nem cortadores de lenha nem montantes, e nos dias de sol subiam todos os anões e assoalhavam-se no musgo verde, e faziam banquetes e dançavam com muita alegria. Um dia começaram os homens de fora a levantar casas na planície, e entraram na floresta e cortaram árvores, e acarretaram grandes pedras para fora. Ficou tudo cheio da entulho de redor do belo rochedo que ficava defronte do terreno cheio de verdura, e de redor da cidade dos anões. Para que os homens não pudessem cortar mais pedras, foram os anões de noite todos juntos à floresta e cortaram pedras muito grandes e levaram-nas de rodo com toda a força até à entrada da mata. Os homens descontentes foram à rocha e fizeram saltar as pedras em pedaços, e elas caíam com grande estrondo no prado. Assim ficou toda arruinada a bonita cidade dos anões, e houve muitas lágrimas e sentimento: Os anões que não tinham sido mortos, escavaram um subterrâneo fora do bosque. Lá vivem agora, e se edificaram outra cidade é coisa que não se sabe. Desde então tem rodado para fora muitas pedras de noite; mas estão sempre a cair outras lá dentro, e todos os anos na noite de São Tomé, saem eles para verem se ainda há muitas pedras no terreno, e a quem de lá tirar nessa noite três pedras, não negam os anões coisa nenhuma que lhes seja pedida.
Assim contou a avó. Havia muito tempo que ela não tinha falado tanto, e estava cansada. Joaninha estava cheia de medo e chegava-se muito para ela, mas Tomé, com as faces ardentes e olhos brilhantes, pensava na história e bem quisera saber se os anões ainda apareciam.
Então Fiel ladrou fora, e entrou o pai, cansado, carrancudo e gelado; mesmo às escuras procurou alguma coisa que pudesse comer; mas a velha esquecia-se dele muitas vezes, e ele teve de deitar-se com fome. No inverno dormia a avó na alcova e Joaninha com ela, e o pai com Tomé na salinha próxima. O pai, depois de pegar a dormir, roncava toda a noite, e não havia nada neste mundo que o acordasse, só se fosse algum tiro dado na mata.
Nessa noite Tomé não podia dormir. Não era a primeira vez que ele ouvia contar a história dos anões; mas nunca tinha sabido que estavam tão perto e que ainda apareciam. Batia-lhe o coração com desejos ansiosos, pensando que podia com as riquezas dos anões alegrar aquela miserável solidão dos bosques. E faltavam só dois dias para o São Tomé!
Não pôde calar-se que não dissesse na manhã seguinte ao ouvido de Joaninha:
— Joaninha, depois de amanhã, é o dia de São Tomé; vamos tirar pedras do território dos anões.
Mas Joaninha olhou para ele com olhos espantados, e disse:
— Ora essa! Tu não vês que é só uma história do que já passou há mais de cem anos? E demais, eu morreria de medo se saísse de noite.
Tomé ficou entendendo que nada faria com aquela maricas, apesar de Joaninha ser mais velha, e calou-se com o seu projeto.
Na noite de São Tomé foi o pai cedo para casa, e antes de ter a avó apagado o candeeiro já ele dormia como uma pedra. Tomé esperou que Joaninha também adormecesse; a avó sabia ele que não o ouviria ainda que estivesse acordada. Não tardou muito que tudo fosse silêncio: ele não se tinha despido, puxou o barrete de peles para as orelhas e saiu. Fiel não estava acostumado a ver sair Tomé sozinho; e ficou muito espantado e resmungou quando Tomé lhe pôs a mão pela cabeça.
A lua ainda brilhava clara, e no bosque havia um silêncio de cemitério que assustava Tomé; mas tomou ânimo, e meteu-se com passos ligeiros e firmes ao bem conhecido caminho da grande pedreira. Não se ouvia o mais leve murmúrio quando ele entrou no barranco, e então estremeceu vendo a rocha escavada em que mal entrava um raio da lua. Com passos trêmulos foi andando até ao lugar onde tinha sido o território dos anões, e onde só havia então uma grande quantidade de pedras grandes e pequenas. Com as mãos a tremer, agarrou nas maiores que pôde levantar, e levou-as para fora.
— Quem está aí? perguntou uma voz fina, quando ele deitava fora a última.
No único lugar que a lua alumiava no barranco estava um homem muito pequeno vestido de verde, que era o que perguntava a Tomé:
— Quem está aí?
— Sou o Tomé do guarda-matas, disse ele muito embaraçado, e tirando com todo o respeito o barrete.
— Que queres daqui?
— Só queria tirar pedras para que os senhores pudessem viver aqui debaixo.
— Pouco podes fazer, disse o anão com tristeza, mas é uma boa obra que deve ser recompensada. O que é que desejas mais?
Tomé já tinha pensado em muitas coisas, mas naquela ocasião não lhe lembrava quase nada. Lembrou-se de um cavalo em que ele pudesse ir à escola, de uma pipa cheia de azeite para que sempre houvesse que arder no candeeiro, e de um saco cheio de maçãs e de nozes; mas nada disso valia o que ele tinha feito. Por fim disse gaguejando:
— Uma saca de dinheiro.
O anão perguntou-lhe:
— Então já sabes o que isso é? Que queres fazer com o dinheiro?
Tomé respondeu um pouco animado:
— Em lugar da nossa choupana, fazia uma casa grande, muito grande, ainda maior que é na aldeia a casa do monteiro; e uma cavalariça cheia de belos cavalos em que eu pudesse correr, quando tudo estivesse cheio de neve; e comprava à Joaninha um vestido novo, e um barril de azeite para não estarmos às escuras.
— E que mais? disse o anão sorrindo; hás de fazer uma casa, mas não neste escuro bosque; andarás por fora da tua terra, mas para isso não precisas de cavalo; Joaninha poderá ter o vestido novo sem ser dado por ti, e quando quiseres ter azeite bastante, vai com a tua cestinha à pedreira onde acharás com que faças azeite suficiente para arder no candeeiro em dois anos. Entendo que a saca de dinheiro não te serve de nada; ainda és muito pequeno.
— Ah, disse Tomé desanimado, a nossa vida não seria tão miserável e tão aborrecida nas grandes noites de inverno, se tivéssemos algum bonito livro de estampas.
— Lá isso, disse o anão, é coisa que pode ter bom remédio; vai descansado que depois da noite do Natal irei ter contigo e cuidarei no modo de nunca mais te parecerem longas as noites de inverno. Alegra-te, os anões sabem pagar o bem que lhes fazem.
O anão desapareceu, Tomé ficou a tremer, e foi-se embora muito mais inquieto do que tinha saído. Sem que ninguém ouvisse, levantou a aldrava de pau, entrou em casa, foi ao seu quarto, deitou-se, e toda a noite sonhou com o anão. Não quis dizer nada a Joaninha, porque ele mesmo não sabia bem o que o anão faria, apesar de esperar com ansiedade a chegada do Natal.
Chegou a noite de Natal, e não faltava alegria na cabaninha da floresta. O pai tinha trazido da aldeia grande quantidade de maçãs e de nozes, a avó tinha dado aos pequenos duas bonitas estampas que ainda achou na sua Bíblia, e na manhã do dia de festa, chegou a criada da senhora do monteiro, que era madrinha de Tomé e de Joaninha, e trouxe dois bonitos corações de pão doce, um lindo gibão novo para Joaninha, e uma jaqueta bem forrada e quente para Tomé. O pai não saiu de casa e cozinhou uma lebre. Havia muito tempo que eles não tinham vivido tão bem; mas Tomé não estava tão contente como nos outros anos, porque não sabia se o melhor ainda havia de vir.
Veio a noite e todos adormeceram, menos Tomé que se assentou na cama vestido, e pensava no que poderia trazer-lhe o seu novo amigo para passar o tempo enfadonho do sombrio inverno, quando ouviu bater de leve à porta de casa. Com algum susto e temor, mas a toda a pressa saltou da cama, e abriu ao homem pequenino vestido de verde, que não levava nada consigo senão um vidro redondo, muito brilhante e de muitas cores.
— Leva-me ao teu quarto, disse o anão, entrando e andando mais ligeiro do que Tomé.
Foram ao quarto de dormir em que se via tudo claramente com a luz que o vidro dava. O que lá se via era um leito velho, uma mesa manca com três pés, e duas cadeiras. O traste maior era uma alta e larga caixa, metida na parede, enegrecida pelo tempo, e que muitas vezes tinha sido um bom lugar para o jogo das escondidas. Nas costas da caixa havia um grande buraco redondo por onde Joaninha tinha medo de espreitar porque via tudo escuro.
Esta caixa foi o que deu mais nos olhos ao anão, que entrou nela pela tampa meio aberta e esteve a trabalhar e a bater lá dentro algum, tempo.
— Agora, disse ele, depois que saiu, já não haveis de passar o tempo com aborrecimento; quando as horas parecerem muito compridas, olhem pelo buraco redondo que está na caixa, seja de manhã ou seja de tarde, quando estejam sós. Adeus, rapaz; Deus te dê da sua graça.
— E antes de Tomé saber o que havia de novo, já o anão tinha saído. Tomé não entendeu bem o que tudo aquilo queria dizer, e não se atreveu a ir logo ver à caixa. Foi deitar-se ao pé de seu pai, e pensando e cismando se o anão falaria seriamente ou a gracejar, adormeceu.
Na manhã seguinte o pai saiu cedo, e Tomé não pôde calar-se, e ao pé da surda avó contou baixinho à irmã toda a sua aventura, de que ela se riu sem lhe dar crédito, mas tremendo de susto. Por fim resolveu-a a ir de tarde com ele fazer a primeira visita à caixa, e como esperavam alguma coisa, não souberam nesse dia o que era aborrecimento.
À noite, ainda o pai não tinha entrado e a avó cabeceava com sono, quando ambos se meteram na caixa cheios de ansiedade. Tomé, que era mais animoso, foi o primeiro que olhou pelo buraco onde brilhava o vidro do anão. Ah! que resplendor lhe veio bater nos olhos! Puxou logo Joaninha para si, porque a abertura era bastante larga para poderem ver ambos ao mesmo tempo. Eram maravilhas o que eles viam, e mal se podiam conter para não darem altos gritos de espanto. Viam uma grande sala, muito grande, alumiada de um modo majestoso por lustres dourados, com muitos centos de velas de cores. E uma mesa estava carregada com as coisas mais maravilhosas: soldados, de pé e de cavalo, regimentos inteiros com peças e armas, e uma cavalariça cheia de cavalos pequenos de todas as raças, e livros com ricas pinturas, e uma grande quantidade de objetos de brinquedo, que eles nunca tinham visto, e pequenas esporas de prata, e uma espingarda e espada, e um soberbo vestuário de veludo bordado a ouro. Todas estas coisas magníficas estavam dispostas sobre a mesa na melhor ordem, e ao pé havia açafatinhos e pratos com os doces mais finos.
— Ah, de quem será isto! disseram os dois irmãos suspirando.
A porta abriu-se, e entrou um rapaz esguio e pálido, que teria dez anos, e atrás dele muitas senhoras e homens da nobreza vistosamente vestidos. Tomé e Joaninha pensavam que aquelas riquezas deviam pertencer a muitos meninos, e olhavam para todos os que iam entrando na sala; mas não havia outro menino senão o que entrou primeiro, e que passou por todas aquelas coisas tão ricas sem fazer muito caso delas, enquanto que Tomé e Joaninha pregavam no vidro os olhos afogueados e parecia que queriam devorar todas aquelas maravilhas.
— Rapazes, onde estais vós? gritou fora a voz da avó.
Voltaram a cabeça assustados, e viram tudo às escuras, como era nos outros dias, e a velha caixa estava sem luz como se nada tivesse acontecido. Aos dois irmãos ainda parecia tudo um sonho quando se assentaram ao pé do candeeiro no quarto velho e defumado. Nessa noite chegaram a sentir quase alegria por a avó ser surda, porque podiam falar à vontade nas maravilhas que viram, e a cada um lembrava alguma coisa muito bonita em que o outro não tinha reparado.
— Ai, diziam eles suspirando, que boas coisas tem aquele menino fidalgo! Se nós também tivéssemos coisas assim!
E ainda diziam o mesmo quando o sono lhes fechou os olhos, para ainda lhes mostrar em sonho tanta grandeza.
Antes de ser bem dia, foi Joaninha à sala da caixa. O pai não estava em casa, e por isso podiam à vontade ir olhar pelo vidro maravilhoso. Como eles desejavam ver ainda uma vez a bela sala de ontem! Agora era à luz clara do dia, mas, era quase tão bonito como com os centos de luzes de cor: ainda havia todas as coisas ricas de ontem, mas não estavam em tão boa ordem, o menino que tinham visto estava vestido de seda deitado sobre o sofá, com alguns dos bonitos livros espalhados de redor dele, e parecia estar muito aborrecido.
Quando Tomé e Joaninha se mostravam admirados de que pudesse haver alguém que não estivesse contente com tão maravilhosas coisas, abriu-se uma porta da sala, e entrou um senhor de idade. Os meninos ouviram falar como muito ao longe, mas entendiam bem o que se dizia. O velho perguntou:
— Já está enfastiado, meu caro príncipe, de tantas coisas que fariam felizes outros meninos?
— Outros meninos! disse o príncipe; os outros meninos não estão sós, e eu já vi todas as minhas coisas que me deram.
— Mas vossa alteza bem sabe que se lhe dá companhia quando a quer ter.
— Que companhia! Vem um, e diz: “Bons dias, príncipe”; e diz outro: “Que tem príncipe?”; e brincam com o que eu tenho e conversam e riem uns com os outros; e quando lhes chega o aborrecimento, vão-se embora e eu fico só. Quem me dera sair como saem os outros meninos!
— Mas se vossa alteza quer, pode ir passear ou viajar
— Ah, sim, ir passear na sua companhia, ou andar em carro ou a cavalo acompanhado por camaristas. Que grande alegria! o que quisera era ir só e para onde me parecesse. Antes queria ser filho de ciganos do que príncipe.
Antes que Tomé e Joaninha pudessem ouvir mais nada, chamou por eles a avó. Saíram da caixa e o buraco ficou às escuras.
Muito tinham os dois irmãos que dizer um ao outro! O que eles não podiam entender era porque estava o príncipe tão impertinente.
— Ah, como nós estaríamos contentes com aquelas coisas tão bonitas! dizia Tomé suspirando.
— Sim, mas nós não estamos sós, dizia Joaninha.
— É verdade que os meninos ricos quando não estão sós, também estão contentes, dizia Tomé para si.
— Havemos de ver, dizia Joaninha, se o príncipe ainda lá está hoje à noite.
Com grande alegria passaram eles todo o dia a conversar, e a ansiedade não podia ser maior quando outra vez olharam pelo vidro.
Já não era a sala, mas sim um bosque, quase como aquele em que eles moravam, e havia no bosque um grande pedaço de terreno sem árvores onde ardia uma fogueira; em que estava estendida uma bela peça de caça brava, e de redor da fogueira muita gente esfarrapada e enfarruscada, e alguns tocadores de instrumentos que tocavam uma música alegre, e uma multidão de crianças que dançavam e saltavam com uma alegria de selvagens.
— Ah, isto é muito divertido, dizia Tomé.
Mas Joaninha abanava a cabeça porque não lhe agradava o que via. Um rapaz daqueles ciganos chegou com um grande saco cheio de frutas secas, e todos os pequenos o receberam com gritos de alegria, e ele despejou o saco no chão. Todos se atiraram às frutas secas como quem tinha fome e comeram a bom comer. Depois começaram outra vez a saltar e a cantar desentoados, e Tomé começava a sentir desejos de também ir saltar com eles, quando o pai que chegava de fora os chamou para o quarto.
Toda a noite teve Tomé os ciganos na imaginação, de maneira que deu cuidado a Joaninha que pensava que Tomé podia muito bem sair de casa de noite e fugir para os ciganos. Mesmo a dormir cantava Tomé o que tinha ouvido tocar aos ciganos.
Muito cedo, antes de acordar o pai, foi Tomé olhar pelo vidro, sem esperar por Joaninha, que só passado algum tempo é que foi ter com ele. O que viram era ainda o verde prado do bosque, mas já não havia festa. Era de manhã, a fogueira estava apagada, e os ciganos corriam para todos os lados muito aflitos e desvairados. Chegaram soldados e todo aquele barulho e desordem acabou pela prisão dos ciganos que eram acusados de roubos. Com agudos gritos viram os pequenos dos ciganos que os soldados levavam à força seus pais e suas mães, e que outros soldados os levavam a eles para outra parte. Tomé e Joaninha não tiveram ânimo para ver mais e desviaram os olhos do vidro. Joaninha disse depois a Tomé:
— Ainda querias ser filho de cigano para ter aquela vida livre que eles tem?
— É verdade, disse Tomé desanimado, quem rouba não pode ter uma vida livre.
— Os meninos ricos, tornou Joaninha, decerto passariam melhor vida, se não vivessem tão sozinhos como o príncipe.
À noite não puderam ir para a caixa das vistas maravilhosas porque a avó nunca lhes deu tempo de saírem da cozinha, e o pai foi para casa muito cedo. Por isso ainda mais desejavam que chegasse a ocasião de poderem lá tornar.
Quando essa ocasião chegou, viram um quarto muito bonito, não tão admirável como a sala do príncipe, mas muito mais bonito do que o quarto da madrinha, com alcatifas de várias cores e belos quadros nas paredes. O quarto estava cheio de lindas coisas para brincarem meninos e meninas. Um bonito quarto de bonecas, com senhoras e senhores muito bem vestidos, com sofás, cadeiras e caminhas pequenas, e uma cozinha cheia de louças brancas, panelas e pratos, muito mais do que havia na cozinha da avó; bonecas pequenas e grandes, quase da altura de Joaninha, berços e cadeirinhas; e de outro lado um castelo com soldados, e uma loja muito enfeitada com uvas secas, amêndoas, confeitos e figos, e um carro com baús e sacos, e lindos livros de estampas; em uma palavra, eram quase tantas coisas como tinha o príncipe. Tomé e Joaninha não cabiam em si de contentamento e admiração.
Então entraram no quarto os donos de todas aquelas riquezas, que eram duas meninas e um menino. Parecia que vinham de passear. As meninas correram para as bonecas e o menino para a loja. Uma foi com um dinheiro pequenino e brilhante comprar doces ao irmão, a outra começou a vestir as suas bonecas de uma caixinha cheia de ricos vestidos e chapeuzinhos.
Ah, como ficaram tristes Tomé e Joaninha quando a avó os chamou para a ceia, e como sonhavam, a dormir e acordados, com aquelas bonitas coisas, e como correram na manhã seguinte à caixa para continuarem a ver como eram felizes os três irmãos!
Mas já não era tudo tão bonito no quarto; as bonecas estavam no chão, e uma das meninas estava a chorar e a gritar; tinha deixado de noite as bonecas no chão e a porta do quarto aberta; a gata tinha entrado, tinha brincado com a boneca, e rasgou-lhe os vestidos de seda e estragou-lhe as cores.
— A culpa é tua, gritou um dos meninos, porque não puseste as coisas em ordem.
— Eu é que não tive culpa nenhuma, gritou a outra.
E nisto correram aos empurrões para a loja, e entraram em desordem por causa de um pão de açúcar que as meninas queriam ter na sua cozinha e o irmão não queria que se tirasse da loja. A questionar e a gritar entraram as meninas na loja, e muitos dos vidros do doce foram deitados ao chão: o menino cheio de cólera correu à cozinha e deitou tudo ao chão, e quebrou a bonita louça que lá havia. Então foram tantos os gritos e queixas que Tomé e Joaninha não quiseram ver mais.
Tardou muito tempo que eles pudessem tornar a ver pelo vidro. Quando chegou a ocasião, o que viram foi um lindo quarto e uma mesa com quinquilharias, bolos doces, uma bela torta, confeitos e pasteis. Estavam lá duas meninas, e parecia que era o dia dos anos de uma, que era a que tinha recebido todas aquelas coisas. Não ralhavam nem se zangavam uma com a outra como tinham feito os outros meninos, mas também não se podia dizer que tinham boa saúde e que estavam satisfeitas. Dizia uma:
— Que te parece, Ema, vamos comer um bocadinho da tua torta?
— Eu não, Sofia; antes queria maçãs.
— Maçãs! pois tu não sabes que o senhor doutor proibiu que comêssemos fruta?
— Ah! também a torta me faz mal, e a avó foi que ma mandou; e os doces fazem-me doer os dentes e foram mandados pela tia.
— Então vamos brincar para o jardim, tornou Sofia.
— Pois sim, vamos; e levo o meu chapéu novo. Iam para sair quando apareceu a mãe e perguntou:
— As meninas onde querem ir?
— Vamos só um bocadinho para o jardim, manhã.
— Deus nos livre disso: no jardim está um vento muito frio e a terra muito úmida. Nada, nada. Ema viria de lá com dores de dentes e Sofia com a tosse. Deixem-se estar aqui. Eu vou levar daqui para fora todas estas coisas, porque já comeram muito, e Sofia devia agora tomar o seu remédio.
A menina Sofia fez uma careta de enjoo quando ouviu falar no remédio. Joaninha não quis esperar até que ele chegasse e deixaram tristes o vidro e a caixa.
Não faltava a Tomé e a Joaninha que dizer e em que pensar a respeito do que tinham visto.
— Diz-me cá, Tomé, perguntou Joaninha, parece-te que são infelizes todos os meninos que vivem no mundo?
— Não, acudiu logo Tomé, eu acho que não pode ser. Se o príncipe não vivesse tão só...
— Isso sim; e se os filhos dos ciganos tivessem bons pais; e se os três irmãos não tivessem tão mau gênio; e se as meninas não fossem doentes... Olha, quem é bom e de bom gênio e tem saúde, vive contente.
— Mas quem é pobre e só como nós? perguntou Tomé.
E Joaninha não soube o que havia de responder-lhe.
À noite a avó adormeceu cedo, mas eles mal se atreviam a ir ao vidro receando que acabasse por coisas tristes. Contudo sempre foram. Desta vez chegaram a gritar ambos ao mesmo tempo em voz um pouco alta: Isto é o nosso quarto e nós nele!
E na verdade assim era, mas o quarto era mais alumiado e mais alegre, estava com mais ordem e mais asseio e limpeza, as vidraças sujas estavam bem lavadas, na janela havia em vasos um par de plantazinhas da floresta, como Joaninha as conhecia bem, de umas que nasciam mesmo com a neve; em uma gaiola de vimes, como Tomé já tinha visto fazer aos rapazes da aldeia, saltava um passarinho, que parecia estar melhor naquele quarto agasalhado do que estaria livre ao ar frio, porque cantava e trinava que era um gosto ouvi-lo. E a avó assentou-se à roda de fiar e Joaninha ao pé dela e Tomé a pequena distância e não estavam aborrecidos e tristes como era dantes; e cantavam uma bonita canção que já tinham aprendido na escola e que nunca se tinham lembrado de cantar em casa. Cantavam tão suavemente que a avó, que percebia alguma coisa, piscava os olhos de contentamento. Por fim quando acabaram de cantar, o Tomé que eles viam lá dentro pegou em um grande livro que já há muito tempo estava cheio de pó no sobrecéu da cama da avó, desde que ela nem com as lunetas podia ler. Tomé e Joaninha olhavam espantados, porque era verdade que sabiam ler, mas ler em casa era coisa em que nunca tinham pensado. O Tomé do vidro começou a ler em voz alta de maneira que a avó o ouvia; ao princípio não foi tão correntemente como o verdadeiro Tomé teria lido, mas não tardou que fosse melhor. Era a história de São José, que os meninos já tinham ouvido, mas já há muito tempo, e agora parecia-lhe tão cheia de novidade e de beleza que ao Tomé do vidro escutavam com toda a atenção, até que se ouviu um latido de cão. Era também exatamente como o latir do Fiel.
E a Joaninha que se via lá dentro levantou-se, pôs um par de sapatos velhos ao calor do lume e dependurou também ao calor do lar uma jaqueta velha do pai, e quando o pai entrou com Fiel, tirou-lhe Tomé a jaqueta molhada e pegou-lhe na espingarda, e Joaninha deu-lhe os sapatos quentes e a jaqueta bem enxuta.
Tomé e Joaninha olhavam pasmados para aqueles cuidados com que trabalhavam as suas imagens dentro do vidro. Até então tinham visto o pai entrar e sair sem ao menos pensarem em cuidar dele. O pai que eles viam pelo vidro estava muito admirado daqueles cuidados de seus filhos e mostrava-se muito mais meigo do que o verdadeiro pai costumava ser. Ele assentou-se à mesa, e Joaninha tinha uma ceia bem quente no lar, coisa que nunca lhe tinha lembrado, porque também a avó nunca pensava nisso, e o pai batia-lhes no ombro, o que ele nunca tinha feito, e começou a falar da mãe que Deus tinha levado para si, e que também cuidava muito dele; e tudo isso encantava tanto Joaninha e Tomé que não tinham vontade de tirar os olhos do vidro: mas a avó chamou por eles para se deitarem.
Na manhã seguinte começaram Tomé e Joaninha a viver uma vida muito diferente. Joaninha limpava e espanava, punha tudo em ordem e lavava a janela, de maneira que a avó, a quem aquilo parecia um sonho, perguntava: Então isto agora é uma igreja?— Como ainda não era tempo de flores, Tomé levou do bosque alguns ramos verdes de faia, com os quais adornou muito bem a sala. Depois ajudaram de boa vontade a avó a fazer o almoço, coisa que nunca tinham feito, e quando o comeram soube-lhes melhor do que nos outros dias. Depois assentou-se Joaninha com a roca ao pé da avó, e Tomé subiu a uma cadeira e abriu a Bíblia, que estava cheia de pó como a que viram pelo vidro, e começou a soletrar. A avó escutou com muita atenção, e quando ele começou a ler correntemente e ela ouviu pela primeira vez da boca de seu neto a palavra de Deus, o seu coração cheio de anos sentiu-se mais novo, e ela ergueu as mãos ao céu, e não tirava de Tomé os seus olhos arrasados de lágrimas de alegria. Tomé ficou muito contente vendo o efeito da sua leitura e lia cada vez com mais fogo, e Joaninha escutava e fiava e não reparava como a manhã se passava depressa, até que a avó, que tinha o relógio na cabeça, se levantou para cozer as batatas. Então levantou-se Tomé e disse: Espere, avozinha, que eu ajudo-a.
Foram ambos os netos tirar água ao poço e a avó não cabia em si de alegria. Nunca tinham comido tão boas batatas. De tarde lembrou-lhes cantar, e começaram baixinho, e depois foram subindo a voz, e a avó escutava ao princípio como se sonhasse, e sorria com um contentamento como há muitos anos não tinha tido.
Como passaram satisfeitos até que o pai chegou! E como ele se mostrou admirado daqueles cuidados que via nos filhos e que nunca mais vira desde que sua mulher fora para a sepultura. Aqueceu-se com a roupa que eles lhe deram, e encantado com aquelas meiguices dos meninos começou a contar muitas coisas da sua querida Margarida que estava no céu. A avó escutava com grande alegria e de tempos a tempos dizia alguma coisa. Antes de irem deitar-se disse ela ao pai: Tu deves ver como Tomé lê bem.
E foi buscar o seu velho livro de orações da noite. O pai, que já há muitos anos não se lembrava de orações, escutou com viva alegria, e a voz de Tomé levava-lhe as santas palavras ao coração, que se abria para Deus. Quando Tomé fechou o livro, ergueu o pai as mãos ao céu e rezou.
Tomé e Joaninha nunca dormiram um sono tão doce como nessa noite.
Depois a mocidade foi passando, mas as boas obras davam alegria ao coração, o bom anjo da oração tinha entrado em casa, e fazia daquela sossegada choupaninha um templo da paz e do amor.
Os meninos não tinham desejos de tornar a olhar para o espelho do anão, porque entendiam que não lhes podia mostrar coisas melhores do que aquela sua vida caseira, principalmente quando veio a branda primavera, e eles pensaram como haviam de dar alegria à sua casinha no próximo inverno.
Disseram-me que Tomé, passados anos, quando o pai e a avó já eram mortos, tinham corrido algumas terras, e veio a ser um hábil e robusto carpinteiro que ajudou a construir muito bonitas casas e fez para si uma casinha muito aprazível. Joaninha tinha ido para casa do padrinho, e veio a ser uma menina muito prendada e depois uma esperta aldeã e boa mãe de filhos saudáveis.

Os dois irmãos viveram sempre contentes com a sorte que Deus lhes deu, e quando viam de longe casas ricas, ou ricos vestidos ou custosas gulosices, diziam consigo: Aquilo talvez seja de um pobre príncipe, ou de algum menino de mau gênio ou de alguma Ema doente.