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5/29/2019

Pescadores (Conto), de José Vicente Sobrinho



Pescadores
Ele era de terras em que o cerúleo mar ora dormia, ora bramia, atravessado por batéis veleiros, onde pescadores iam, ora todo azul — espelho do dia — ora de prata — espelho do luar — ouvindo cantilenas de navegantes à Nossa Senhora, murmúrios de ondas que se juntavam fazendo ressaltar outras ondas. Falava com admiração do velho oceano e dizia, com voz comovida, rezas de pescadores amorenados que tinham as suas habitações na praia: um renque de palhoças que ao escurecer mostravam dentro luzes — o pescador chegado do mar contava a travessia que fizera — partido, o sol no levante róseo, chegado, no róseo poente o sol; a pescaria fora boa... ou fora má, que desgraça! No canto da palhoça, ouvia-os uma Virgem Maria, rústica e feia, muito simples, sem bordados e iluminada apenas pelos olhos dos pescadores que traziam o reflexo perene da vaga e que a olhavam crentes e cheios de fé na Santa boa que protegia os seus filhinhos e a sua companheira, quando partiam no barco, acompanhados a princípio pelos olhos amigos que ficavam em terra, acompanhados depois pelas gaivotas e pelas ondas. Uma vez houve um naufrágio.

Foi por uma noite negra, muito negra; estrelas, não as havia, e não havia lua; tudo escuro, muito escuro, e o vento chibatando o ar, fazendo chorar as arvores; quando aplacava sua fúria, os demônios soltos no espaço podiam ouvir, transidos de susto, as preces que se elevavam das palhoças, pedindo o amparo de Maria, a santa rústica, que não tinha bordados e que só era iluminada pelos olhares dos pescadores.

Um destes retardara-se no mar — o Nicolau, um grande, forte, de barba áspera e negra, espaduas largas e olhos meigos — e... Nossa Senhora da Bonança o proteja!... ainda não voltara.

A sua casa era a última, no fim da praia; encostava-se a um rochedo em cujo cimo uma cruz de pau apodrecia de tão antiga que já era, conhecida que fora pela avó do mais antigo pescador de agora — o Rui de Deus, que de envelhecer no mar ficara branquinho como ele, e que, nesta noite também, na sua casita, prostrado perante um pequeno crucifixo, pendurado em baixo de uma oreografia representando um vapor, balbuciava baixinho, um sorriso bom fazendo-lhe um raio de esperança no seu rosto ancestral: “Ô, ô! Nicolau voltará, voltará; o meu Jesus nunca faltou ao seu velho servo” — confiado como estava nesse valetudinário madeiro, nessa cruz que se esverdinhava da água da chuva, caindo sobre ela, do teto, há anos sem conta; viera-lhe da avó, a mesma que já conhecera de tradição a cruz do alto do rochedo, onde se apoiava a casa do Nicolau, o pescador perdido, donde se eleva agora uma estranha oração, a mais sincera e a que mais comove — quatro crianças e uma mulher choram e o eco chora também.

São quatro crianças que crescem e que serão pescadores, educados amando o mar livre, e ouvindo à tarde, quando no céu, que dizem que é um grande oceano, naufraga o sol, histórias de marujos, histórias de marítimos: — do marujo que se perdeu numa ilha que só o Senhor conhece e que lá viu um dia num regato calmo, sobre que se inclinava para beber, que tinham embranquecido seus cabelos e que se tinham enchido suas faces de rugas, regatos por onde, então, correram copiosas lágrimas... lá morreu e os corvos fizeram-lhe uma sepultura negra; a história do grumete noivo que, com cinco companheiros, entre os quais um irmão, vagava num mar sem limites, num batei, depois de um sinistro; acabadas as provisões, sorteando-se um a morrer, senão morreriam todos de fome, foi ele o sorteado; mataram-no; duas horas depois apareceu ao longe um tênue fio de terra; remaram jubilosos e o irmão do grumete morto, em pé, com as mãos tapando o sol, procurava distinguir que lugar era: era a sua praia- natal, feliz acaso! e em terra a noiva do grumete, tendo já distinguido o irmão de seu noivo, chorava de alegria e dizia a uma velhinha perto, que olhava em êxtase agradecido ao céu: — “Agora, velhinha mama, padre Bento nos casa; ele não morreu, seu irmão nos acena, e ele vem dentro remando, remando, e pensando em mim...” e outras, e outras histórias que Rui de Deus contava, à tarde, esperando a volta dos pescadores.

Essas crianças choram e chora sua mãe, Osmídia, a esposa dedicada; choram e rezam; o vento uiva medonho na noite tormentosa.

Em casa do antigo marinheiro, continuam a borbulhar orações dos lábios secos de Rui de Deus. O vento foi-se aplainando, de manso, muito de manso, e o mar acalmou-se. Rui defronte do Cristo: — “Ô, ô! Nicolau voltará, voltará.”

O mar sussurrava agora, docemente escorrendo na praia, a que presenteava de conchas. Nas águas apareceu uma brancura — “A vela de Nicolau” — gritaram os pescadores, que, acalmada a tempestade, tinham vindo às portas, rendendo graças à Senhora da Bonança; não era a vela do barco do pescador: era o primeiro raio da lua nova que surgia, esbranquiçando as nuvens — desolação...

Ao longe, no leite que a lua derramava na praia de areia, negrejava um barco quebrado. Chegaram todos.

— “Meu Deus, é o Santa Osmídia. É o barco de Nicolau; pobre da mulher e dos pequerruchos, coitados!” — e calaram-se. O mar chegava aos seus pés e lambia-os. A lua parara bem por cima do barco despedaçado, onde jaziam as esperanças dos marítimos e a crença de Rui.

***

Eh! Rui de Deus, velho lobo do mar, Nicolau nunca mais voltará e a sua alma talvez já ande solta neste luar que ilumina tudo e que faz ver, lá no rochedo, a cruz que apodrece, inclinada um pouco para a praia, como que abençoando a alma do pescador, que foi sempre bom, e que, certamente, morreu pedindo à Santa Maria que protegesse a sua Osmídia e os seus quatro filhinhos... quatro filhinhos, como é triste morrer, meu Jesus!... Rui, pescador mais antigo destas praias, que não faltas a abençoar os que partem para viagens longas, Ruy, meu velho, Nicolau não voltará, não voltará...

***

Osmídia enlouqueceu. Rui de Deus quebrou o Cristo, esverdinhado de limo, e atirou-o às ondas, não sem envelhecer, em um dia, muitos dias de pesca mais. Criou os filhos de Nicolau; para pescadores? não “para pescadores, não”, dizia bem triste. Não lhes contou mais histórias de marujos e de marítimos; porém, de longe em longe, fazia-os ajoelharem-se na praia, junto à sepultura de seu pai — o grande mar — e pedirem a Deus o eterno descanso da alma do pescador morto, de espaduas largas e olhos meigos. Passava sempre por eles uma velha cantando canções de mar, com os cabelos desgrenhados como um oceano agitado — Osmídia.

A cruz do rochedo apodrecera mais. Uma noite desapareceu:

Ruy de Deus, que já não dormia sossegado como outrora, depois que perdera a sua crença, sentado à porta de sua casita, viu uma mulher subir de rastros o rochedo: — “Nossa Senhora!... Osmídia, a louca!...” persignou-se e ficou mudo a ver a louca subir; o mar soluçava, a lua pousara num braço da cruz, onde existia uma tradição sagrada, de tão velha que era.

Osmídia ajoelhou-se perto do símbolo santo, que com o tempo mais se inclinara para a terra e longo tempo assim se conservou. Levantou-se; — “Vai descer”, disse Rui, em cujas barbas o vento tremia de medo. Não; súbito abraçou o lenho podre e com ele rolou pelo espaço, dando um grito despedaçador.

O mar abriu-se, o mar fechou-se; porém, mais generoso que o antigo mar da tormenta, deu o cadáver da mãe aos seus filhos, os quatro robustos lenhadores, como os criara Rui de Deus, que num dia derrubaram um velho tronco oco de uma figueira velha e nele enterraram a louca, chorando como se ainda fossem as criancinhas que na noite da tormenta rezavam pedindo à santa rústica a volta de Nicolau.

Sobre a terra que guardou a pobre Osmídia fizeram um comoro de flores, e, como era perto da praia, o mar, á noite, levou-as todas para o túmulo do pescador.

E Rui? Rui de Deus ainda lá vive; leva o dia inteiro na porta de sua casita a olhar as ondas. Dizem pescadores aos seus filhinhos, para fazê-los dormir, que um dia ele se transformará em um penedo, em que virão bater as espumas do mar e a lua descansar nas noites compridas ... Contos de pescadores...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Conto de São João (Conto), de José Vicente Sobrinho



Conto de São João

Junho. Depois de chuvas constantes, trazidas pela lua nova, surgiu, do meio do enfado das águas, a cenografia luminosa do bom sol de São João, e a lua dos batuques, a pulquérrima lua que se cristaliza no céu sob o sopro gelado do inverno. Na fazenda de Santa Lucinda os pretos sambaram a valer nessa véspera de São João e reboaram pelas caiçaras das montanhas, e decerto que desceram até as mais esconsas criptas, os sons roucos dos tambores. Palpitavam no céu embrumado grupos perdidos de constelações.

Devia já ser bem tarde, quando avistei, andando, ávido de sensações, pelo meio daqueles morros, numa espécie de grota, a luz suave de um lar — um pequeno casebre ignorado e antigo. De dentro vinha o rumor da amorosa oração dos beijos, e eu, que ia por ali assim, abandonado e sofrendo os misereres do frio, estremeci de alegria, por achar tão a jeito um ninho onde pudesse descansar.

— Pã, pã, pã, belos amorosos, dai-me licença...

— Oh! sede vós quem fordes, entrai, pobre alma que andais ao frio de junho pelos morros. Entrai, que ainda resta um bocado do magusto dos, pobres...

— Oh! obrigado, mil vezes obrigado, retruquei entrando, todo esfarrapado como vinha, vestido das desusadas roupas da Fantasia, tremendo de frio, e apoiado ao cajado brutal da Verdade.

Achei sentados, um ao lado do outro, o Raimundo e a Teresa, que se beijavam em plena boca. O Raimundo, um belo caboclo crestado por vinte dezembros, de peitos largos e mãos bem rijas; para guiar gados através de ravinas; a Teresa, um pouco mais moça, bela morena de seios cheios e de olhos formosos. Um sadio par de belezas caipiras, ele com os olhos sombreados de um azul forte cravados nos dela, dois formosos olhos negros, dois formosíssimos mundos onde se recortavam as formas imutáveis dos países do amor, da ternura, da felicidade... Raimundo fitava-os mergulhado no oceano imenso do êxtase e de quando em quando, os seus lábios bem vermelhos de caboclo, acendiam nos lábios de Teresa uma porção de beijos.

Penetrando no casebre, sorri-me complacentemente. Vinha ávido de sensações e, como as achava nos arroubos não comuns de tão simples paixão rústica, fiquei silencioso, parado a um canto, fitando os dois amorosos, que continuaram logo no idílio, sem darem pela minha entrada; no canto onde parara não chegava a luz fraca do lar — um pavio embebido em querosene e que já ia acabando de queimar. Raimundo falou:

— Ora vê, Teresa, bateram na porta e não é ninguém. Entretanto pareceu-me ouvir pedir licença — pã, pã, pã, belos amorosos, permiti! — Não ouviste, Teresa?

— Ouvi... Mas, talvez ilusão do vento...

— Talvez alguma leria do hálito enluarado do bom São João...

— Que ele nos proteja, Raimundo.

E o festival dos beijos de novo começou a bailar na concha nacarada dos lábios dos caboclos. A procissão do amor prosseguiu, levando a custódia do ósculo sob o palio vermelho dos lábios. Os olhos de Teresa desmaiavam de suavidade, rendiam, amortecendo-se, uma ação de graças, espalhavam no casebre quase escuro a suprema eucaristia dos amores. A luz de querosene tremia num estrebucho lúcido, que ora alourava o chão, ora o enchia de sombras dançantes, que pareciam errar com medo do cajado da Verdade, em que, fantasiosamente, eu me apoiava, olhando, e olhando satisfeito, porque sentia as sensações que viera procurando pelos morros, perseguido polo rolar frenético dos sons roucos do batuque, que os pretos de Santa Lucinda dançavam.

Lá, no meio da epilepsia coreográfica dos ex-escravos, ficara aborrecido com o rumor enorme dos tambores, e dos pulos, e não achara sensações nenhumas, pois os rapazes, completamente absorvidos pelo furor das danças, nem se lembravam que a lua de junho é propicia para a calidez dos abraços nos corpos perfeitos das raparigas, abraços que geram ciúmes, ciúmes que geram tragédias, as quais arrebentam tormentosas junto à eclosão das rubras azaleias do inverno... Lá, no samba, não achara sensações violentas nem suaves, viera vagando pelos morros, e, afinal, encontrara, no casebre do Raimundo, qualquer coisa que me tocara as fibras do coração no idílio suavíssimo dos caboclos, que me exauria a mente de todos os dramas inúteis para contos que agradem, enchendo-a de profunda paixão pela simplicidade primitiva dos caipiras. Ali ficara, na figura estranha em que viera, vestido de antigas roupagens e apoiado ao cajado da Verdade, vendo, pensativo, o Raimundo dar beijos cálidos, beijos de dezembro, na boca sumarenta de Teresa, boca primaveril, boca de agosto...

A luz bruxuleou, bruxuleou, morreu. Os caboclos já deviam ter dormido; decerto que se deitaram, sorrindo, no catre esponsalício, que se abraçaram e depois dormiram, sonhando, o Raimundo com a Teresa, a Teresa com o Raimundo... Escuridão. Ao longe, quebrado nos recortes orográficos, ecoa o batuque. Faz frio. De repente começa a entrar no casebre uma fraca claridade projetada pela lua, através das fendas. Alguma nuvem que ocultava o astro, descobriu-o agora, e, assim, a escuridão vai se desmanchando numa suave cor pálida, que destaca todos os recantos do ninho dos caboclos e o catre onde dormem, com as bocas unidas num beijo que adormeceu com eles... Eu, do meu canto, faço uma sombra esguia que vergasta o chão, e minhas fantasiosas vestes confundem-se em brancura com o luar que atravessa as lendas e chega nuns leves toques encanecidos, que mostram a velhice dos astros... Uma lufada glacial entreabre a porta e a luz cai dentro do casebre numa larga réstia. De longe vem se aproximando a toada melancólica de um vilancico amoroso, que parece exprimir a tristeza de um abandono, a angústia de amores perdidos... Quando ele para, ouve-se o barulho afastado do batuque dos pretos de Santa Lucinda e, às vezes, cruzam-se no ar os dois rumores — a dor ingênua do vilancico e o batido másculo do samba.

Teresa acordou. Ferira-lhe o ouvido a cantiga e ela bem conheceu, na voz que a dizia, a voz do Alípio, o que fora seu namorado, antes de aparecer em Santa Lucinda a figura guapa do Raimundo... Estremeci, antecipando cenas violentas, e, quando o vilancico estava bem perto do casebre, pareceu-me que naquela elegia passional havia uma fibra de ódio, ódio ao caboclo Raimundo, que roubara, surgindo naqueles sítios um belo dia, a linda amada ao rude carreiro Alípio... Teresa soerguera-se, assustada, no leito dos seus esponsais com o Raimundo. Entretanto, a voz que vinha cantando era doce e romântica, e a cantiga bem tristonha... Feria a alma.

Quando o Alípio passou pelo casebre, sua sombra desenhou-se grande dentro da réstia de luar. O vilancico parara. Eu, com o cajado da Verdade pronto para traçar, no pó da estrada a história da tragédia que se ia dar então, pois a Teresa tremia vendo a sombra do antigo amado estampada ao luar, esperei... Mas, a sombra do Alípio desapareceu, e daí a pouco ouviu-se a cantiga que se ia, afastando, cheia de uma dor imensa, que parecia infiltrar-se na noite e dar melancolia a todas as coisas... Sempre, ao longe, o samba soava estranhamente na rouquidão dos tambores, e o vento, quando passava pelas árvores, dava- lhes convulsões de pranto, e parecia um grande choro cortante que vagava pelo morro, doente de frio, atacado da peste de junho ...

O vilancico, feito em rimas acaipiradas e ternas, do carreiro Alípio foi-se afastando até que se perdeu ao longe... A cabocla beijou Raimundo, que dormia tão sossegado, e começou a rezar à Senhora dos Aflitos para que levasse a serenidade ao coração do carreiro, juntamente com o amor de alguma serrana bela de matar, a fim de que a esquecesse, a ela Teresa, que adorava o seu Raimundo...

Ouvi extasiado aquelas palavras deliciosas e consoladoras, e vi cenas tão simples a que hão viera turvar, como talvez quisesse para a confecção de contos, o drama atroz do facão do rude carreiro Alípio, brilhando sob os fiapos do luar que atravessavam as fendas do casebre, e entrando de rijo no peito largo do caboclo Raimundo, à procura do coração que seduzia raparigas e que enleara Teresa — enquanto ao longe ecoasse o batuque, imitando um coro de bruxos a praguejar... Nada disso houvera e eu, extasiado, fazia tenção de narrar, o mais simplesmente que pudesse, as cenas ingênuas que vira nessa noite do bom São João, desde o milhão de beijos dos caboclos, beijos que diziam do púlpito vermelho dos lábios a prédica do amor, até a oração de Teresa, pedindo ao céu que desse novos amores ao carreiro Alípio, uma serrana morena ou uma caipira cheia de graça...

E a noite foi seguindo suavemente, num suave batismo de luar. Ascendia, como uma prece bárbara, ao firmamento, a alegria desordenada e rústica da coreia selvagem dos ex-escravos na fazenda de Santa Lucinda, e, apesar daquele rumor brutalíssimo, parecia descer do céu, nas diáfanas gazes cor de opala do plenilúnio, o olhar de Deus abençoando o mundo.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)