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11/28/2018

A casa de bonecas (Conto), de Katherine Mansfield



A casa de bonecas

De volta a sua casa na cidade, depois de uma temporada em companhia dos Burnell, a velha e querida Mrs. Hay enviara às crianças uma casa de boneca — tão grande que o carregador e Pat tiveram de levá-la para o pátio onde ficou em cima de dois caixotes, ao lado da dispensa. Como era verão, ali ficaria livre de risco. E quando fosse trazida para dentro, talvez já tivesse perdido o cheiro de tinta fresca que, na opinião da Tia Beryl, era o bastante para deixar a uma pessoa seriamente doente, mesmo mantendo o presente embrulhado. Ao desembrulhá-lo, então... "Mas que gentileza! Que generosidade de Mrs. Hay!”

 A casinha era pintada, a óleo em tom verde-espinafre, salpicado de amarelo e as duas pequeninas chaminés, coladas ao teto, em branco e vermelho; a porta, reluzente de verniz amarelo, parecia de caramelo. Quatro janelas, janelas de verdade, com uma larga lista verde separando as almofadas. Tinha até uma varandinha amarela deixando ver, ao longo da grade, bolhas de tinta endurecida.

Era realmente perfeita a casinha! Ora! que importância tinha o cheiro? Era até um prazer e uma novidade a mais.

— Vamos abri-la já!

Pat levantou o ganchinho do lado com a ponta do canivete, e a frente da casa se abriu, mostrando todo o seu interior — a sala de visitas, a sala de jantar, a cozinha e os dois quartos. Assim é que todas as casas se deveriam abrir! E por que não? Seria muito mais interessante do que espreitar pela fresta de uma porta para dentro de um modesto "hallzinho" com um porta-chapéus e dois guarda-chuvas. E é justamente isso que desejamos ver quando levamos a mão à campainha de uma porta, não é mesmo? Talvez até seja esta a maneira de Deus abrir as casas no silêncio da noite, quando sai para dar uma volta acompanhado de um anjo...

— Oh! Oh! — gritavam as garotas como se estivessem desesperadas.

O presente fora maravilhoso demais para elas. Nunca haviam visto coisa igual. Todas as paredes forradas de papel; e quadrinhos pintados sobre papel com molduras douradas e tudo. Um tapete vermelho cobria todo o soalho, exceto o da cozinha; na sala de visitas, cadeiras estofadas de vermelho, e de verde, na sala de jantar; mesas, camas cobertas de colchas de verdade, um berço, um fogão, um armário com pratinhos e um jarro grande. Mas o que mais agradou a Kézia, o que ela achou mais lindo, foi a lâmpada no meio da sala de jantar; era um primor a lampadazinha cor de âmbar com o globo branco — já cheia; pronta para ser acesa, o que não se podia fazer, é claro; dentro havia um líquido semelhante a óleo que se mexia ao ser sacudido.

Os bonecos — pai e mãe — recostados muito tesos na sala de visitas, como se tivessem desmaiados, e seus dois bebês adormecidos no andar de cima, eram, sem dúvida, grandes demais para aquela casinha. Mas a lâmpada era sem tirar nem pôr... Parecia sorrir a Kézia, dizendo-lhe: "Eu moro aqui"... Era uma lâmpada de verdade.

Na manhã seguinte, ao dirigir-se para a escola, as meninas não conseguiram andar tão depressa quanto desejavam. Ansiavam por contar às colegas a novidade, descrever a casa — enfim, por se vangloriarem dela antes de soar a sineta.

— Quem vai contar sou eu — disse Isabel — porque sou a mais velha. Vocês duas poderão dizer o que quiserem depois, mas eu serei a primeira.

Não valia a pena discutir. Isabel gostava de ser mandona, mas tinha sempre razão. Lottie e Kézia conheciam bem os privilégios conferidos à mais velha. Sem nada dizer, puseram-se a caminho apressadamente por entre os ramos de botões de ouro, que cresciam à beira da estrada.

— Eu é que vou escolher quem deve vir ver a casinha primeiro. Mamãe deu licença.

Tinha sido combinado que, enquanto a casa de boneca estivesse no pátio, elas convidariam as amigas, duas de cada vez, para virem vê-la, desde que não ficassem para o chá nem se pusessem a saltar pela casa; poderiam olhar quietinhas no pátio enquanto Isabel enumerava as maravilhas, e Lottie e Kézia contemplavam, encantadas...

Apesar de toda a pressa, porém, o som meio desafinado da sineta já se fazia ouvir no momento em que chegaram à cerca pintada de piche que separava o pátio aos meninos. Só tiveram tempo de arrancar os chapéus e entrar na fila antes de ser iniciada a chamada. Não fazia mal. Para compensar, Isabel tratou de assumir ares de importância e mistério, cochichando para as colegas mais próximas.

— Tenho grande novidade para contar na hora do recreio...

Chegou a hora da merenda e Isabel se viu rodeada. As companheiras de classe quase brigavam para abraçá-la, passear com ela, sorrir-lhe aduladoramente; enfim, parecerem amigas íntimas.

Formara-se verdadeiro cortejo sob os pinheiros, ao lado do pátio de recreio. Acotovelando-se, sacudidas por risadas infantis, as meninas fecharam um círculo apertado. Excluídas só ficaram as duas de sempre — as Kelvey; e elas sabiam que não convinha aproximar-se das Burnell.

O fato e que a escola frequentada pelas Burnell não era em absoluto a que seus pais teriam escolhido, se houvesse sido possível optar por outra. Era, porém, a única nas redondezas. Por Isso, todas as crianças da vizinhança, as filhinhas do juiz, as do médico, os filhos dos comerciantes, do leiteiro, eram forçados àquela convivência nem sempre muito recomendável. Isso para não falar nos meninos mal-educados e grosseiros. Mas era forçoso haver certo limite de tolerância — as Kelvey ficavam fora dessa linha divisória. Muitas das meninas não tinham permissão nem mesmo para falar com elas, as Burnell inclusive, e como eram estas que "davam a nota" em questão de conduta, todas as outras passaram a evitar as pobrezinhas. Até mesmo a professora tinha um modo especial de dirigir-se a elas, e um sorriso especial para as outras meninas, quando, Lil Kelvey se aproximava de sua mesa trazendo-lhe um ramalhete de flores horrivelmente vulgares.

Essas meninas eram filhas de uma mulher robusta e trabalhadora que andava de casa em casa lavando roupa. Como se isso não bastasse, havia ainda Mr. Kelvey. Por onde andaria? Ninguém sabia ao certo, mas todos diziam que estava preso. Elas eram pois filhas de uma lavadeira e um presidiário. Que bela companhia para as outras crianças! E que figuras extravagantes! Ninguém compreendia por que Mr. Kelvey as vestia de maneira tão espalhafatosa. A verdade é que os vestidos das garotinhas eram feitos de retalhos dados pelas pessoas para quem a mãe trabalhava. Lil, por exemplo, menina feia e desenvolvida, cheia de enormes sardas, ia à escola com um vestido de uma sarja verde que sobrara de um pano de mesa dos Burnell, com mangas de pelúcia vermelha, das cortinas dos Logan. Seu chapéu, colocado no alto da testa, era um chapéu de senhora que pertencera a Miss Lecky, a agente do correio. Tinha a aba dobrada atrás, e como enfeite uma grande pena escarlate. Que criaturinha grotesca! Era impossível conter o riso. E sua irmãzinha, a nossa Else, metida num vestido branco muito comprido, que mais parecia uma camisola de dormir e numas botas de menino dava a mesma triste impressão. Aliás qualquer coisa que nossa Else usasse, seu aspecto seria sempre bisonho. Era uma criança miudinha, o peito saliente, os cabelos rentes e um par de olhos enormes e solenes — uma verdadeira corujinha branca. Nunca a viram sorrir e quase nunca falava. Segurando a saia de Lil, seguia-a por toda parte. Onde quer que Lil estivesse, era sempre acompanhada de nossa Else. No recreio, na estrada, indo e voltando da escola, lá ia Lil na frente e Else atrás, segurando-a pela saia. Quando esta desejava alguma coisa ou se sentia cansada, dava um puxão em Lil e esta parava e se virava. As Kelvey sempre se entenderam muito bem.

Enquanto as meninas conversavam animadamente, as duas rondavam por ali; não se podia evitar que ouvissem. Se uma ou outra se voltava, olhando-as desdenhosamente, Lil respondia com seu sorriso apalermado e humilde; nossa Else limitava-se a olhar.

E a voz de Isabel, tão cheia de orgulho, continuava descrevendo. O tapete causou grande sensação, assim como as camas com colchas verdadeiras e o fogão com uma portinha no forno.

Quando ela terminou, Kézia aparteou:

— Você se esqueceu da lâmpada, Isabel.

— Ah! sim, — disse Isabel — há ainda uma pequenina lâmpada amarela com um globo branco, em cima da mesa da sala de jantar, igualzinha a uma lâmpada de verdade.

— O melhor da casa é a lâmpada — exclamou Kézia. Na sua opinião, Isabel não estava fazendo justiça à lâmpada, mas ninguém lhe dava mais atenção; Isabel já tinha passado à escolha das duas que deviam voltar com elas naquela tarde para ver a casa. Emmie Cole e Lena Logan foram as escolhidas; mas, quando as outras souberam que também teriam a sua vez, desdobraram-se em gentileza com Isabel. Uma por uma passavam o braço ao redor de sua cintura e a atraíam para um canto segredando-lhe:

— Sou sua amiga, Isabel.

Só as Kelvey continuavam à parte, esquecidas; nada mais havia que elas pudessem ouvir.

Passaram-se dias e quanto maior o número de meninas levadas a ver a casa mais se espalhava sua fama. Fez furor, tornou-se o único assunto. Em todas bocas, a mesma pergunta:

— Já viu a casa de boneca das Burnell? Não é linda?

— Ainda não viu? É pena!

Até mesmo a hora do jantar era dedicada aos comentários sobre a casa de boneca. As meninas, sentadas à sombra dos pinheiros, comiam grossos sanduíches de carne de carneiro e grandes fatias de bolo com manteiga. Como sempre, tão perto quanto possível, lá estavam as Kelvey; nossa Else sempre agarradinha a Lil, ouvindo atentamente e mastigando seus sanduíches de geleia embrulhados em jornal cheio de manchas vermelhas...

 — Mamãe — perguntou Kézia certo dia — posso convidar as Kelvey só uma vez?

— Claro que não, Kézia.

— Mas por quê?

— Deixe de perguntas, menina. Você sabe muito bem qual a razão.

Por fim, todas haviam visto a casa, com exceção das duas. Naquele dia o assunto já tinha perdido em parte o seu encanto. Era a hora do jantar. As meninas achavam reunidas debaixo dos pinheiros e, de repente, ao verem as Kelvey comendo, como de costume, os sanduíches que traziam embrulhados em papel, sempre arredias, sempre de ouvido atento, sentiram-se tentadas a fazer-lhes uma tremenda maldade.

Emmie Cole começou a cochichar:

— Lil Kelvey vai ser uma criada quando crescer.

— Ih! que horror! disse Isabel Burnell, olhando significativamente para Emmie, que fez com a boca um trejeito expressivo, sacudindo a cabeça para Isabel, tal qual sua mãe fazia em circunstâncias semelhantes.

— É verdade; é sim — disse ela.

Com os olhinhos lampejantes de sarcasmo, Lena Logan disse em voz baixa:

— Vocês querem que eu pergunte a ela?

— Aposto como você não tem coragem — desafiou Jessie May.

— Ora essa! eu não tenho medo delas — respondeu Lena que deu de repente um grito fino e começou a dançar defronte das outras meninas. — Olhem para mim! Olhem para mim agora! — E deslizando, escorregando, arrastando um pé e rindo com a mão na boca, foi até onde estavam as Kelvey.

Lil olhou-a e tratou de embrulhar rapidamente o resto de seu jantar. Nossa Else parou de mastigar. Que iria acontecer?

— É verdade que você vai ser uma criada quando crescer? — gritou Lena com voz fina.

Silêncio de morte. Em vez de responder, Lil sorriu o seu sorriso triste e apalermado. A pergunta não pareceu afetá-la. Que decepção para Lena. Ela não podia suportar aquilo. Pondo as mãos nas cadeiras, atirou-lhes em rosto, com desprezo:

— Seu pai está na prisão.

Era tão maravilhoso haverem tido a coragem de dizer aquilo, que as meninas se retiraram todas juntas, profundamente excitadas, tomadas de uma alegria maldosa. Uma delas encontrou uma corda e começaram a pular. Nunca pularam tão alto, correram tão depressa, nem fizeram coisas tão ousadas como naquela manhã.

À tarde, Pat levou as Burnell para casa no tílburi. Havia visitas. Isabel e Lottie, que gostavam de visitas, subiram para mudar de roupa e Kézia escapuliu pelos fundos. Não havia ninguém; a pequena começou a balançar-se no portão do pátio, quando viu aproximando-se, pela estrada, dois pequenos pontos. Foram crescendo e vinham na sua direção. Já mais próximos, pôde ver que um vinha na frente e outro atrás e reconheceu enfim as Kelvey. Kézia parou de balançar e bateu o portão como se fosse fugir. Depois parou, indecisa. As Kelvey estavam cada vez mais perto; ao seu lado, suas sombras muito compridas se estendiam pela estrada indo até aos galhos de botões de ouro. Kézia agarrou-se de novo ao portão; estava decidida; acenou para as meninas que passavam, gritando.

— Olá!

A surpresa foi tão grande que elas estacaram subitamente, Lil com o perene sorriso atoleimado, a pequena Else olhando atônita.

— Vocês podem entrar para ver nossa casa de boneca, se quiserem — disse Kézia, arrastando no chão um dos pés. Mas Lil, enrubescendo, sacudiu logo a cabeça negativamente.

— Por que não? — indagou Kézia.

Lil, prendendo a respiração, emocionada, respondeu:

— Sua mãe disse a nossa mãe que vocês não podem falar conosco.

— Ora! exclamou Kézia, sem saber o que responder. — Não faz mal. Isso não impede que vocês venham vê-la. Entrem. Ninguém está vendo.

Mas Lil sacudiu a cabeça ainda com mais violência.

— Não querem mesmo?

De repente, um puxão sacudiu a saia de Lil, que se virou. Nossa Else olhava-a implorando com seus grandes olhos, numa expressão de zanga; ela queria entrar. Por um momento, Lil olhou para a irmã, dominada por uma dúvida, mas Else sacudiu-lhe de novo a saia e ela resolveu entrar. Kézia foi na frente, seguida pelas duas, que mais pareciam dois gatos sem dono; assim atravessaram o pátio na direção da casa de boneca.

— Vejam!

Houve uma pausa. Lil respirava alto, quase bufava, enquanto Else permanecia muda como uma pedra.

— Vou abri-la para vocês verem — disse Kézia com bondade. Levantou o ganchinho e elas olharam.

— Aqui está a sala de visitas, a sala de jantar e esta é...

— Kézia!

Chi! Que susto!

— Kézia!

Era a voz da tia Beryl. As três se voltaram. Na porta dos fundos estava a tia Beryl estupefata, como se não pudesse acreditar no que via.

— Como se atreveu a trazer as Kelvey ao pátio? — perguntou com voz fria e furiosa. — Você sabe tão bem quanto eu que não tem permissão para conversar com elas. Saiam daqui, crianças, imediatamente. E não me apareçam mais.

Veio para o pátio e enxotou-as como se fossem galinhas.

— Para fora, já! — gritou, fria e orgulhosa.

Não foi necessário repetir a ordem. Envergonhadas e trêmulas, Lil, precipitada como sua mãe, e Else meio tonta, atravessaram o grande pátio e esgueiraram-se pelo portão branco.

— Menina desobediente e insuportável — disse Beryl a Kézia com azedame, fechando violentamente a casa de boneca.

Aquela tarde fora horrível. Recebera uma carta de Willie Brent, carta assustadora, ameaçando-a de, caso não prometesse encontrar-se com ele naquela tarde em Pulman’s Bush, viria a sua casa indagar qual a razão! Mas agora depois que ela havia expulsado as malditas Kelvey e repreendido Kézia severamente, sentia o coração mais leve. Aquela terrível pressão desaparecera. Voltou para casa cantarolando baixinho.

Quando as Kelvey estavam já bem longe da casa dos Burnell, sentaram-se para descansar num grande cano de esgoto vermelho, ao lado da estrada. Lil tinha ainda as faces ardendo; tirou o chapéu com as penas e colocou-o sobre o joelho. Como em sonho, olhavam por sobre as pastagens de feno, para além do riacho, para o grupo de virgultas onde as vacas do Logan esperavam para ser ordenhadas. Por onde andariam seus pensamentos? Nossa Else chegou-se à irmã, tocando-a mansamente. Já esquecera a brutalidade da moça. Pôs o dedo na pena do chapéu com um de seus raros sorrisos:

— Eu vi a lampadazinha — disse docemente.


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Tradução de: Marina Amaral Brandão.
Jornal Correio da Manhã, 2 de abril de 1950 (Ilustração de Yllen Kerr).
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

Folha de Álbum (Conto), de Katherine Mansfield




Folha de Álbum

Era, verdadeiramente, um personagem impossível. Tímido demais, sem nada para dizer, absolutamente. E que peso! Uma vez instalado em vosso atelier, não sabia mais como sair, até que vos fizesse quase gritar; tínheis vontade, assim que ele se retirava afinal, encabulado, de atirar em cima dele qualquer coisa enorme — o fogão, por exemplo. Mas, o curioso é que, à primeira vista, ele parecia muito interessante. Todo mundo estava de acordo. Indo ao café, à tarde, podereis descobrir um jovem magro e moreno, vestido de uma camisa azul debaixo de um paletó cinzento abotoado, sentado num canto, em frente a uma xícara de café. De qualquer maneira, essa camisa azul e esse paletó cinzento de mangas curtas lhe dava ar de rapaz resolvido a suicidar-se mar e que, na realidade, se suicidaria. Daqui a pouco ele se vai levantar, dependurar na ponta da bengala o lenço amarrado contendo a camisola de dormir e o retrato de sua mãe, sair a afogar-se. Ele cairá mesmo da beira do cais dirigindo-se para o seu navio... Tinha os cabelos pretos cortados rente, olhos cinzentos de pestanas longas, faces pálidas e uma boca que fazia beicinho, decidida a não chorar... Haveria a possibilidade de resistir, pergunto eu? A sua presença apertava o coração e, como se isso não bastasse, havia ainda aquela mania de enrubescer... Todas as vezes que o rapaz se acercava de alguém, tornava-se escarlate.

— Que é isso, querida? Sabeis qualquer coisa?

— Sim, ele se chama Ian French. Dizem que é um pintor de muito talento.

E logo uma daquelas senhoras começou por lhe dispensar os enternecidos cuidados de uma mãe. Perguntou-lhe quantas vezes recebia notícias de sua casa, se tinha bastantes cobertas para a cama e quanto de leite tomava por dia. Mas, quando ela foi ao seu atelier examinar as meias, cansou-se de tocar a campainha: ninguém abriu a porta, apesar de que ela juraria ouvir alguém respirar no interior... Desesperador!

Uma outra decidiu que seria bom que ele se apaixonasse. Puxou-o para junto de si, chamou-o "meu pequeno", apoiou-se sobre ele, para fazê-lo respirar o perfume embriagador dos seus cabelos, pegou-lhe o braço e disse-lhe quanto a vida seria maravilhosa se tivessem coragem; afinal, resolveu passar no seu atelier uma noite. Cansou-se de tocar a campainha... Desesperador!

— Esse pobre rapaz tem sobretudo necessidade de ser estimulado — declarou uma terceira. — Foram juntos aos cafés e aos cabarés, nos lugares onde se bebe qualquer coisa com o gosto de sumo de abricó de conserva, mas que custa vinte e sete xelins a garrafa e que se chama champanhe. Depois, em outros lugares tão excitantes que nem se pode dizer. A gente se senta numa escuridão horrível: justamente no lugar onde alguém foi assassinado na noite da véspera. Nem um cabelo de Ian se mexeu. Somente uma vez ele se embebedou bastante, mas em vez de se animar, conservou-se sentado, imóvel como um poste, duas manchas vermelhas nas faces, uma verdadeira imagem do "ragtime" que se tocava, a "Boneca Quebrada". Mas quando a sua companheira o acompanhou ao atelier, de volta, ele já recobrara os sentidos e despediu-se em baixo, na rua, com um "boa-noite" indiferente como se voltassem juntos da igreja... Desesperador!

Só depois de uma infinidade de tentativas — porque o espírito de bondade morre dificilmente nas mulheres — renunciaram a ele. Naturalmente elas eram ainda perfeitamente encantadoras, convidavam-no para as suas exposições, brincavam nos cafés, mas não passava disso. Quando se é artista não se tem tempo a perder com as pessoas que não correspondem às tentativas da gente, não é mesmo?

— E depois, creio sinceramente que existe nisso tudo qualquer coisa de suspeito... Você não acha? Isso não pode ser tão inocente quanto parece. Para que vir a Paris se ele quer conservar-se como um lírio nos campos? Não, eu não sou desconfiada, mas...

Ele morava num desses grandes edifícios que parecem tão românticos nas noites de chuva ou de luar, quando estão fechadas as janelas e a pesada porta e que a tabuleta “pequeno apartamento para alugar" se lê com uma inexprimível melancolia. Um desses edifícios cujo cheiro se conserva tão prosaico de um começo de ano a outro! A encarregada habita uma caixa de vidro no rés-do-chão; envolvida em um xale sórdido, remexe com a colher qualquer coisa em uma caçarola, uma espécie de erva, que ela dá ao velho cão inchado, estendido numa almofada de pérolas... Do atelier, dependurado no ar, tem-se uma vista maravilhosa. As duas grandes janelas se abrem para o rio. Ian pode ver os navios balançando-se e olhar a extremidade de uma ilhota plantada de árvores, como um buquê redondo. A janela do lado dá para outra casa ainda menor e embaixo se acha um mercado de flores. Podereis examinar as barracas em que se vendem plantas em caixas e palmas úmidas, luzentas, em potes de terra cota. Mulheres velhas andam de um lado para o outro, como tartarugas, entre flores. Certamente não havia necessidade de sair; ele poderia ficar lá, em sua janela, anos e anos, o tempo necessário para que sua barba branca caísse sobre o peitoril, e achando ainda qualquer coisa para desenhar...

Que espanto para essas ternas mulheres se elas chegassem a forçar a porta! Porque Ian French tinha o seu atelier limpo como um níquel novo. Todo ele era arranjado como para formar um desenho, uma pequena natureza morta, se preferem; as caçarolas arrumadas atrás do forno de gás, com suas tampas; a terrina de ovos, o pote de leite e o bule de chá sobre a prateleira; os livros e a lâmpada, com seu abajur de papel ondulado, em cima da mesa. Uma cortina de tecido da Índia, sobre a qual corriam leopardos vermelhos, cobria o leito de dia, e, na parede, ao lado, ao nível dos olhos quando se estava deitado, pendia um letreiro cuidadosamente impresso: “Levanta-te logo".

Quase todos os dias se pareciam uns com os outros. Enquanto a luz estava boa, ele pintava. Depois, cozinhava sua comida e punha tudo em ordem. À noite ia ao café ou então ficava em casa lendo ou fazendo orçamentos de despesas complicadas com o seguinte título: "Dinheiro com que eu devia contentar-me" e esta promessa: "Juro não gastar este total no próximo mês". Assinado: Ian French.

Nada de comprometedor nisto tudo, mas aquelas mulheres astuciosas tinham razão: havia outra coisa.

Uma tarde, sentado perto da janela lateral, ele comia ameixas, jogando os caroços sobre os enormes guarda-chuvas do mercado das flores deserto. Tinha chovido. A primeira chuva verdadeira da primavera acabava de desabar. Tudo estava salpicado de lantejoulas: o ar cheirava a brotos verdes de terra úmida. Vozes calmas, satisfeitas, ressoavam no crepúsculo. As pessoas que vinham fechar as venezianas trocavam ideias e se debruçavam para fora. Embaixo, no mercado, tudo se coloria de verde-novo. O acendedor de lampiões se aproximava. Ian reparou na casa em frente, pequena, em ruínas. De repente, como resposta ao seu olhar, duas folhas da janela se abriram e uma moça, carregando um vaso de narcisos, apareceu na minúscula sacada. Extremamente magra, vestia um avental escuro; um lenço cor de rosa envolvia-lhe a cabeça e as mangas, arregaçadas até perto dos ombros, deixavam-lhe à mostra os braços franzinos, contrastando com o pano escuro.

— Sim, está fazendo muito calor, isso vai fazer-lhes bem! E, depositando o vaso de flores, voltou-se para alguém que estava no interior, levantando as mãos para prender os cabelos no lenço. O seu olhar correu pelo mercado embaixo, depois pelo céu, sem reparar na casa da frente. Poderia não existir o lugar onde Ian French estava sentado. Depois, ela desapareceu.

O coração de Ian despencou da janela do atelier para a sacada e mergulhou no vaso de narcisos no meio de botões entreabertos e as hastes verdes. O quarto com a sacada era a sala de estar e o outro ao lado era a cozinha. Ele ouvia o barulho da louça que se lavava depois do jantar. Depois a moça se aproximava da janela, sacudiu o esfregão da louça e o dependurava num prego para secar. Nunca foi vista soltando os cabelos, cantando ou estendendo os braços para a lua, como fazem sempre as donzelas. Vestia sempre o mesmo avental escuro, o mesmo lenço cor de rosa na cabeça. Com quem vivia? Ninguém, senão ela, aparecia naquelas duas janelas. E, no entanto, ouvia-se que falava continuamente com alguém. Ele imaginou que a mãe dela estava doente, que as mulheres faziam costura, que o pai tinha morrido... Tinha sido jornalista, muito pálido, com longos bigodes; uma placa de cabelos pretos caía-lhe sobre a testa.

Trabalhando todos os dias, elas tinham continuamente com que viver, mas nunca saíam e não tinham amigos. Ultimamente, quando Ian se sentava à mesa, tomava nota de uma longa série de promessas; "Não ir à janela do lado antes de uma certa hora”. Assinado: Ian French. "Não pensar nela antes de guardar os seus pincéis no fim do dia". Assinado: Ian French.

Era bem simples: essa pessoa era a única que ele desejava conhecer, o único ser vivo do mundo, decerto que tivesse exatamente a sua idade. Não suportava as moças caçoístas e não sabia o que fazer com as mulheres feitas... ela tinha a sua idade... ela era... exatamente como ele. Sentado no seu atelier escuro, cansado, um braço caído sobre o espaldar da cadeira, olhava fixamente para a janela debaixo e se sentia junto dela. Às vezes brigavam seriamente, pois ela tinha caráter violento, uma maneira de bater os pés e de torcer as mãos no avental... furiosa! O seu riso, muito raro, só se ouvia quando contava histórias do seu absurdo gatinho que se zangava pretendendo ser um leão, quando se lhe dava carne para comer — ou outras histórias desse gênero... Mas habitualmente estavam juntos, bem sossegados, ele, sentado como está agora, e a moça, as mãos cruzadas no colo e os pés para trás. Conversavam baixinho, silenciosos e cansados, depois trabalho diário. Certamente nunca se cogitava dos seus quadros e ela detestava os seus maravilhosos retratos feitos por ele, achando que estava muito magra e muito escura... Mas como chegaria a conhecê-la? Isso poderia durar anos do mesmo jeito...

Ian descobriu então que uma, vez por semana, à tarde, ela saía para fazer suas compras. Duas quintas-feiras viu-a à janela, com uma capa fora da moda, carregando um cesto. Do lugar onde estava, era impossível ver a porta, mas, quinta-feira seguinte, à mesma hora, tomou o boné e desceu as escadas correndo. Uma luz rósea envolveu tudo, o rio estava cor de brasa e a gente, que caminhava em sentido contrário, tinha caras e mãos róseas.

Esperou-a encostado à parede da casa onde morava sem a menor ideia do que faria ou diria. "Ela vem vindo!” murmurou-lhe uma voz interior. Ela andava depressa, com passos curtos, leves; com uma das mãos carregava os cestos, com a outra segurava a capa... Não havia outra coisa senão segui-la. Ela começou por entrar no armazém e ali ficou muito tempo, depois no açougue, onde fez cauda esperando a sua vez. Ficou uma eternidade numa loja, depois comprou um limão num fruteiro. Quanto mais Ian examinava a moça, mais necessidade tinha de conhecê-la imediatamente. O seu sangue frio, o seu ar sério, a sua solidão, e até o seu de jeito de andar, como se tivesse pressa ir para longe daquela gente, tudo parecia a Ian muito natural, inevitável.

— Sim, ela é assim, pensou com orgulho. Nós nada temos de comum com essa gente.

A moça voltava agora para casa e Ian continuava sempre tão longe... Ela voltou-se bruscamente e entrou na leiteria. Através da vitrina, Ian viu-a comprar um ovo, escolhê-lo na cesta com tanto cuidado!  — um ovo avermelhado, admiravelmente formado, exatamente o mesmo que ele teria escolhido. Assim que ela saiu, ele entrou. Um instante depois, continuava a segui-la. Passaram a casa de Ian, atravessaram o mercado de flores, evitando os enormes guarda-chuvas, pisando as flores caídas e as marcas redondas deixadas pelos vasos... Ele foi seguindo de  perto, passou o umbral da porta, subiu pela escada, dando os passos ao mesmo tempo que a rapariga para não chamar a da atenção. Enfim, ela parou no patamar da escada e tirou a chave da bolsa. No momento em que a colocava na fechadura, ele saltou e postou-se diante dela. Corando, mais escalarte do que nunca, disse-lhe com um olhar duro, quase num tom de raiva:

"Desculpe-me, mas a senhorita deixou cair isto".

E apresentou-lhe um ovo.


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Tradutor desconhecido, in: Revista Vamos Ler!, 29/12/1938 (Desenho de Jerônymo)Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

11/27/2018

O Pai (Conto), de Katherine Mansfield


O Pai

Para a meninazinha ele era um ente temido e respeitado. Todas as manhãs, antes de ir para o trabalho, vinha ao quarto e dava-lhe um beijo formal, que era retribuído com um “até logo, pai!” E que sensação de alívio, de alegria ao ouvir os passos que se afastavam!

À tarde, ela ouvia na saleta a voz grossa:

— "Traga o meu chá no fumoir. Não tinham chegado os jornais? Mãe, vá procurá-los e traga as minhas chinelas.

— Kégia — dizia a mãe — se é uma boa menina venha tirar as botas do pape.

Devagar a pequena descia as escadas, mais devagar ainda atravessava a saleta e abria porta do fumoir. Ele tinha posto os óculos e olhava-a aquele olhar que ela tanto temia.

— Tire-me as botas, Kégia. Portou-se bem hoje?

— Não... sei... pai.

— Não sabe? Se gaguejar assim, irá ao médico.

Não gaguejava senão quando falava com o pai, porque estava sempre procurando as Palavras.

— Que tem? Por que está tão assustada? Mãe, faça esta menina ter outra aparência. Vamos Kégia retire a minha xícara. Cuidado! Suas mãos tremem como se fossem as de uma velha. E guarde o lenço no bolso!

— S... i... m..., pai...

Aos domingos, na igreja, sentava-se com ele no mesmo banco, ouvia-o cantar numa voz surda e tomar com um lápis notas do sermão. Dizia as orações numa voz tão grossa que pensava a meninazinha: “'Deus devia assustar-se"...

E ele era tão grande, tinha as mãos e as pernas tão compridas, que, quando entrava no quarto parecia um gigante.

Nos domingos à tarde, vovó mandava-a para o salão paramentada num vestido de veludo, para "conversar bem bonita com papai e mamãe." Mas mamãe lia "The Sketch" e papai, estirado no sofá, um lenço sobre os olhos, ficava a dormir. Ela sentava-se gravemente no banco do piano e ali ficava a bocejar até que ele acordasse e perguntasse a hora.

— Não boceje assim, Kégia. Que coisa tão feia!

Um dia em que ela estava presa no quarto com um resfriado, disse-lhe vovó que o aniversário de papai era na próxima semana e que ela devia bordar-lhe um marcador de livros numa bonita fita. Dócil, a pequena tomou a fita sobre a qual pregou um pedaço de talagarça. Mas com que bordar? Vovó fora ao jardim.

Kégia dirigiu-se então ao quarto da mamãe à procura de lãs. Na mesa de cabeceira ela descobriu umas tiras de um bonito papel, tomou-as, cortou-as bem fininhas e foi-se muito satisfeita.

Naquela noite houve em casa um grande barulho. Tinham-se perdido as amostras de papai para o Port Authority. Procurou-se por toda a parte. Os criados foram interrogados. Por fim, mamãe foi ao quarto:

— Kégia, você não tirou uns papéis na mesa do meu quarto?

— Tirei, sim, e cortei-os.

— Quê?! Venha já à sala de jantar.

E foi levada à presença do pai que passeava agitado de um lado para o outro.

— Então?

A mãe explicou.

— Foi você? — gritou, parando em frente a criança.

—Não! Não! soluçou ela.

— Lucy, vá buscar os papéis e que esta pequena vá já para a cama.

Soluçando demais para poder explicar-se, Kégia deitou-se.

Depois o pai veio ao quarto, com uma régua ameaçadora.

— Você vai apanhar!

— Não! Não! — gritou escondendo-se entre os lençóis.

— Sente-se — disse ele, puxando-a. — Estenda as mãos. — Vai aprender a não tocar no que não lhe pertence.

— Mas... era para... o seu aniversário!

Mas a régua tombou sobre as róseas palminhas.

Horas mais tarde, enquanto vovó consolava Kégia, sentada com ela na cadeira de balanço, a garota chorava ainda.

— Para que Jesus faz os pais? — soluçou ela.

— Vamos dormir, querida! Amanhã estará tudo esquecido. Já expliquei a papai. Mas hoje ele está muito irritado para compreender.

Mas a menina não esqueceu. Quando veio o pai, escondeu as mãos atrás das costas e fez-se vermelha.

Os McDonalds viviam na casa ao lado. Tinham cinco filhos. Do jardim a meninazinha via as crianças brincando à tarde.

O pai tinha o bebê ao colo enquanto corria a rir, com os mais velhos. Então, ela decidiu que haviam diferentes espécies de pais.

Um dia mamãe adoeceu de repente e partiu com vovó num carro fechado.

A pequena ficou só com a governante. Durante o dia foi tudo bem.

Mas à hora de dormir teve medo.

— Se eu tiver pesadelo? Quando os tenho, vovó leva-me à sua cama. Não quero ficar sozinha no escuro!

— Não haverá nada. Durma quietinha e não acorde seu pai.

Mas veio o pesadelo.

Kégia via um homem com uma faca que se aproximava dela com um terrível sorriso.

—Vovó! Vovó!

Acordou. Viu o pai juro ao leito.

— Que há?

— Um homem mau! Quero vovó!

Papai tomou Kégia nos braços levou-a para o seu quarto. Na cama havia um jornal; no cinzeiro muitos cigarros. Papai retirou o jornal, lançou os cigarros na chaminé. Docemente, acomodou a criança e deitou-se ao seu lado.

Meio adormecida ainda, na impressão do pesadelo a garota aproximou-se bem, tomou uma das mãos do pai. Então sentiu-se tranquila, sem medo do escuro.

— Assim, Kégia... Aqueça seus pés nas minhas pernas.

E, cansado, adormeceu antes da filha. "Pobre papai! — pensou a meninazinha. Afinal não era tão grande assim e não tinha ninguém a olhar por ele.”

Trabalhava tanto que não podia brincar, como o vizinho. E ela estragara todos os seus bonitos papéis!

Kégia sentou-se na cama. Suspirou.

— Que há? — fez o pai. Outro sonho?

— Oh! disse a meninazinha —Minha cabeça está sobre o seu coração. Ouço-o, bater, bater... grande você tem agora, papai querido!+


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Tradutor desconhecido, in: Revista Fon-Fon, 28/03/1936.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

Euforia (Conto), de Katherine Mansfield



Euforia

Embora Berta Young tivesse trinta anos, tinha ainda desses momentos em que se quer correr em vez de andar, sair dançando pelas calçadas, atirar um arco, jogar qualquer coisa no ar e tornar a pegá-la, ou ficar quieta e rir — de nada — de nada, simplesmente.

Que se pode fazer quando se tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da rua, se é vencida, subitamente, por um sentimento de euforia — euforia absoluta! — como se se tivesse engolido de repente um brilhante pedaço do sol da tarde e ele ardesse dentro do peito da gente, mandando para fora um pequeno chuveiro de faíscas em cada partícula, em cada dedo dos pés ou das mãos?

Oh, haverá um meio de exprimir essa sensação, fora do "bêbado e desordenado"? Como é idiota a civilização! Para que dar-nos um corpo se temos que conservá-lo fechado num estojo como um violino muito raro?

— Não, violino não é bem o que eu quero dizer, pensou ela, subindo os degraus e remexendo na bolsa à procura da chave — esquecera-a, como sempre — e batendo na caixa do correio. — Não é o que eu quero dizer, porque... — Obrigado, Maria — entrou no vestíbulo. A ama já voltou?

— Sim, senhora.

— E as frutas vieram?

— Sim, senhora. Veio tudo.

— Traga as frutas para a sala de jantar, está bem?

— Vou arrumá-la antes de subir.

Estava escuro na sala de jantar e um tanto frio. Mesmo assim, Berta tirou o capote; não podia suportá-lo, pois apertava-a, e o ar frio caiu-lhe nos braços.

Mas conservava ainda no peito aquele ponto brilhante — e o chuveiro de faiscazinhas que dele saíam. Era quase insuportável; quase nem ousava respirar com receio de, abanando-o, aumentá-lo; no entanto, respirou fundo, fundo. Quase nem ousava olhar-se no espelho frio — mas olhou, e ele lhe devolveu a imagem de mulher radiante, de lábios trêmulos e sorridentes, olhos grandes e escuros e um ar de quem escuta, à espera de alguma coisa... uma coisa divina que vai acontecer... que se sabe que deve acontecer... infalivelmente.

Maria trouxe as frutas numa bandeja, uma tigela de vidro e um prato azul, lindo, com estranho brilho, como se tivesse sido mergulhado no leite.

— Devo acender a luz, Madame?

— Não, obrigada. Vejo muito bem.

Havia tangerinas e maçãs com molho cor-de-rosa, de morangos. Algumas peras amarelas, macias como seda, algumas uvas cobertas de florescências prateadas e um grande cacho de uvas vermelhas. Estas últimas ela comprara a fim de combinar com o novo tapete vermelho da sala. Sim, isso até parecia absurdo, mas fora por esse motivo que as comprara. Pensara, na quitanda: — Preciso de umas bem vermelhas para fazer com que o tapete suba até a mesa. — E, naquele momento isso lhe pareceu bastante razoável.

Após ter feito duas pirâmides dessas fulgentes formas redondas, afastou-se da mesa para aquilatar o efeito — e na verdade era dos mais curiosos. Pois que a mesa escura parecia derreter-se na luz penumbrosa e o prato de vidro e tigela azul pareciam vogar no espaço. Isso, no seu estado de espírito, é claro, era tão incrivelmente belo... Começou a rir.

— Não, não. Estou ficando histérica. — E tomou da bolsa e do capote e subiu as escadas depressa, para o quarto da filha.

A ama escaca sentada a uma mesinha pequenina dando à Bezinha o seu jantar, depois do banho. A criancinha trazia um vestido branco de flanela e um casaquinho de lá azul, e o seu belo cabelo escuro estava preso no alto da cabeça. Ergueu os olhos à entrada da mãe e pôs-se a dar saltinhos.

— Vamos, queridinha, coma como uma mocinha, — disse a Ama, movimentando os lábios de um modo que Berta bem conhecia, e que significava que ela entrara no quarto da menina em má hora.

— Ela se comportou bem, Babá?

— Foi um amor a tarde inteira, murmurou Babá. Fomos ao parque e eu fiquei sentada numa cadeira, tirei-a do carrinho, veio um cachorro enorme e pôs a cabeça no meu joelho; e eia segurou nas orelhas dele e acariciou-o. Oh, a senhora precisava ver.

Berta quis perguntar se não era perigoso deixar a menina acariciar um cachorro desconhecido. Mas não ousou. Ficou-se a olhá-las, com as mãos caídas, como a meninazinha pobre diante da meninazinha rica que tem a boneca.

A criancinha tornou a olhar para ela e sorriu de modo tão encantador que Berta não pôde deixar de exclamar:

— Oh, Babá, deixe que eu acabo de dar o jantar a ela enquanto você vai recolher as coisas do banho.

— Bem, Madame, não se deva trocar de mão enquanto ela está comendo, disse Babá, ainda em murmúrio. — Isso a põe nervosa; tenho a certeza. — Que absurdo! Por que ter uma filha se ela tem que ser conservada não num estojo como um violino muito raro — mas nos braços de outra mulher?

—Oh, não: disse ela.

Muito ofendida, Babá entregou- lhe a menina.

— Agora, não vá excitá-la depois da refeição. A senhora sabe que a excita, Madame. E depois eu é que tenho o trabalho de acalmá-la!

— Graças a Deus! Babá saiu do quarto com as toalhas de banho. — Agora tenho você só para mim, minha preciosidadezinha, — disse Berta, e a criança atirou-se para ela.

Comeu com delícias, estendendo os labiozinhos para a colher e agitando as mãozinhas. Algumas vezes não deixava a colher sair; e, de outras, quando Berta tinha acabado de enchê-la, jogava-lhe o conteúdo longe, aos quatro ventos. Quando a sopa terminou, Berta foi para a lareira.

— Você é um encanto, um verdadeiro encanto disse, beijando a meiga filhinha. Eu adoro você.

E, na verdade, adorava tanto a sua Bezinha — o pescocinho dela, quando ela o esticava para a frente, os dedinhos do pé, tão delicados, parecendo transparentes à luz do fogo — que toda aquela sua sensação de euforia lhe voltou, e novamente não soube como exprimi-la — e que fazer dela.

— Estão chamando a senhora ao telefone, disse Babá, voltando triunfante e agarrando a "sua" Bezinha.

Correu para baixo. Era Harry. — Oh, é você, Ber? Olha aqui, vou chegar atrasado. Tomarei um táxi e correrei o mais que puder, mas atrase o jantar de uns dez minutos, está bem? Combinado?

— Está bem, sim, oh Harry!

— Que é que há? 

Que tinha a dizer? Nada. Queria apenas entrar em contato com ele, por um momento. Não podia gritar absurdamente: — Não achou divino o dia de hoje?

— Mas que é que há? insistiu a voz do marido.

— Nada. Está combinado, disse Berta, e desligou o aparelho, pensando no quanto a civilização era mais que simplesmente estúpida.

***

Tinham visitas para jantar. Os Norman Knights — um casal muito simpático — ele ia abrir um teatro, e ela entendia muito de decoração de casas, — um rapaz, Eddie Warren, que acabara de publicar um livro de versos e que todo mundo convidava para jantar, e uma "descoberta" de Berta, chamada Pérola Fulton. O que Miss Fulton fazia, a própria Berta não sabia. Tinham-se conhecido no clube e Berta apaixonara-se por ela, como sempre o fazia com as mulheres bonitas que tinham qualquer coisa de estranho.

O ponto mais provocante do caso é que, embora tivessem estado juntas e se tivessem encontrado inúmeras vezes e conversado muito, Berta ainda não sabia bem como classificá-la. Até certo ponto, Miss Fulton era extraordinária e maravilhosamente franca, mas a questão era esse ponto, para além do qual ela não oferecia acesso.

Haveria alguma coisa para além desse ponto? dissera Harry. — Não. Ele achara-a pesadona e fria "como todas as mulheres loires, talvez ligeiramente atacada de anemia cerebral." Mas Berta não concordara com ele; de modo nenhum.

— Não, aquele modo que ela tem de se sentar com a cabeça um pouco de lado e sorrir, há qualquer coisa por detrás daquilo, Harry, e eu preciso descobrir o que é.

— O mais provável é que seja um bom estômago, respondeu Harry.

Ele insistia em responder aos comentários de Berta assim... "passa mal do fígado, meu bem..." ou "deverá ser gases" ou “está com o fígado podre" e daí ror diante. Por algum motivo estranho, Berta gostava destas observações, e quase o admirava mais por isso.

Foi até a sala de visitas e acendeu o fogo; depois, recolhendo as almofadas uma a uma, que Maria dispusera com tanto cuidado, atirou-as de novo nas cadeiras e nos sofás. Que diferença! a sala pareceu viva, depois disso. Ao atirar a última surpreendeu-se acariciando-a de repente, apaixonadamente, apaixonadamente. Mas isso não esmoreceu o fogo que trazia no peito. Oh, ao contrário!

As janelas da sala de visitas davam para um terraço que dominava o jardim. Na extremidade, afastada, junto ao muro, havia uma pereira alta toda cheia de flores; ali estava, perfeita, serena de encontro ao céu verde-jade. Berta não pôde deixar de observar, mesmo à distância, que ela não tinha um único broto ou pétala murcha. Mais para baixo, nos canteiros do jardim, as tulipas vermelhas e amarelas, carregadas de flores, pareciam curvar-se ao crepúsculo. Um gato cinzento, arrastando a barriga, passou pelo gramado, e um outro, preto, como sombra acompanhou-o. A visão de ambos, tão intensa e rápida, deu a Berta um curioso arrepio.

— Como os gatos rastejam: observou ela, e saiu da janela e pôs-se a andar dum lado para o outro.

Como os junquilhos perfumavam a sala quente! Demais? Oh, não! E então, como subjugada, atirou-se a um sofá e apertou os olhos com as mãos.

— Estou feliz demais... demais! murmurou.

E pareceu-lhe ainda ver a adorável pereira com as suas largas flores abertas como um símbolo de sua própria vida.

Na verdade... na verdade... ela tinha tudo. Era moça. Harry e ela continuavam amando-se como sempre, viviam esplendidamente e eram ótimos companheiros. Tinham uma filhinha adorável. Não precisavam preocupar-se em matéria de finanças. Possuíam aquela casa e aquele jardim inteiramente satisfatórios. E amigos — modernos, empolgantes, escritores, pintores, poetas, gente entendida em questões sociais — o tipo dos amigos de que eles gostavam. E havia livros, e música, e ela descobrira uma costureirazinha maravilhosa, e iam para fora no verão, e a sua nova cozinheira fazia as omeletes mais formidáveis...

— Estou absurda. Absurda! Levantou-se; mas sentiu-se estonteada, inteiramente bêbada. Devia ser a primavera.

Sim, era a primavera. Agora sentia-se tão cansada que não aguentava arrastar-se pelas escadas para ir vestir-se.

Um vestido branco, um colar de contas de jade, sapatos verdes e meias. Não era de propósito. Pensara nesse conjunto horas antes de ficar parada no terraço da sala de visitas. 

As pétalas do seu vestido roçavam maciamente o chão pelo vestíbulo, ela beijou a Sra. Norman Knight, que chegara com o mais divertido dos casacos cor de laranja, com uma procissão de macaquinhos pretos em volta da barra e na frente.

Por quê? por quê? por que será que a classe média é tão Indigesta — tão — altamente desprovida de senso de humor? Meu bem, estou aqui mesmo por milagre — milagre de Norman! Pois os meus macaquinhos agitaram o pessoal do trem e um homem chegou quase a me comer com os olhos. Não ria, não estava achando graça; se ele achasse eu não importaria. Não, ficava só olhando, e isso me aborreceu horrivelmente.

— Mas o melhor de tudo, — disse Norman, ajustando um grande monóculo de aro de tartaruga no olho, — você não se importa que eu diga, hein. Face? (Em casa e entre os chamavam-se um ao outro Face e Mug). O melhor de tudo foi quando ela, sem aguentar mais, voltou-se para a mulher que ia ao lado e disse: Nunca viram um macaco antes?

— É, sim, — e a Sra. Norman Knight juntou-se à risada geral. — Não foi mesmo formidável?

Porém ainda mais formidável era o fato de que, agora que ela tirara o casaco, parecia igualzinha a um macaco muito inteligente — como se aquele vestido de seda amarela fosse feito de cascas de bananas. E os seus brincos de âmbar pareciam nozes penduradas.

A campainha tocou. Era o magro e pálido Eddie Warren (como de hábito), em estado de agudo desespero.

— É aqui, mesmo a sua casa, certo?

— Oh, acho que sim, espero que seja, disse Berta sorrindo.

Tive uma experiência tão pavorosa com um chofer de táxi! Ele era o tipo sinistro! Não conseguia fazê-lo parar. Quanto mais eu batia e chamava, mais ele corria. E aquela bizarra figura de cabeça chata abaixada sobre o volante...

Estremeceu, tirando uma imensa “echarpe” de seda branca. Berta observou que as suas meias também eram brancas, encantadoras, aliás.

— Mas que horror! exclamou ela.

— Foi mesmo, um horror! disse Eddie, acompanhando-a à sala de visitas. Vi-me viajando para a Eternidade num táxi fora do tempo.

Ele conhecia os Norman Knight. Ia até escrever uma comédia para N. K., na ocasião em que se tratou da aberto teatro.

— Então, Warren, que é da peça? disse Norman Knight, deixando cair o monóculo.

E a Sra. Norman Knight: — Oh, Mr. Warren! que melas lindas!

— Que bom que a senhora gostou delas! disse ele, olhando os próprios pés. — Estão parecendo muito mais brancas, depois que a lua apareceu! — E voltou o rosto magro, triste e jovem para Berta. — A senhora sabe, hoje temos lua.

Ela desejou exclamar: — Estou certa de que temos, sim, sempre, sempre!

Ele era mesmo um homem encantador. Mas Face também era encantadora, curvada sobre o fogo com o vestido cor de banana, e Mug também era, fumando um cigarro e dizendo, enquanto batia a cinza com o dedo: — Por que será que o noivo está demorando?

— Ei-lo que chega.

Bum, e a porta da frente abriu-se e fechou-se. Harry gritou: — Alô, pessoal! Desço em cinco minutos. — E ouviram-no subindo as escadas. Berta não pôde deixar de sorrir: sabia quanto ele gostava de fazer as coisas a toda velocidade. Que importava, afinal, uma diferença de cinco minutos a mais? Mas ele afirmaria que aquilo tinha uma importância enorme. E faria questão de entrar na sala de visitas, extravagantemente frio e calmo.

Harry tinha tanto gosto pela vida! Oh, como ela apreciava isso nele! E a sua paixão pela luta — procurando sempre em tudo que lhe acontecia de adverso outro teste de seu poder e de sua coragem — aquilo ela também compreendia. Mesmo quando isso o tornava, aos olhos de quem não o conhecia bem, um tanto ridículo. talvez... Pois que havia momentos em que ele entrava em luta onde não havia luta de todo... Ela conversou e riu, e positivamente esqueceu-se, até o momento em que ele entrou, que Pérola Fulton não tinha ainda aparecido.

— Quem sabe se Miss Fulton se esqueceu?

— Espero que tenha esquecido, disse Harry. Não telefonou?

— Ah! está chegando um táxi agora. — E Berta sorriu com aquele arzinho de proprietária que assumia enquanto as suas "descobertas femininas" eram novas e misteriosas. — Ela vive em táxis.

— Ficará muito gorda se continuar, — disse Harry friamente, tocando a sineta para o jantar. — Isso é um perigo para mulheres loiras.

— Harry, não faça isso... avisou Berta, rindo.

Outro momento pequenino, em que eles esperaram, rindo e conversando, à vontade demais, desprevenidos demais... E então Miss Fulton, toda de prata, com uma rede de prata prendendo-lhe os cabelos de um loiro pálido, entrou sorrindo, com a cabeça um pouco de lado.

— Estou atrasada?

— Não, absolutamente, — disse Berta. Venha! — Tomou-lhe do braço e foram para a sala de jantar.

Que havia naquele contato daquele braço fresco que parecia abanar, abanar, e aumentar o calor, aumentar o calor, daquele fogo de euforia com o qual Berta não sabia o que fazer?

Miss Fulton não olhava para ela; mas é verdade que ela raramente olhava para as pessoas diretamente. As pesadas pálpebras caíam-lhe sobre os olhos, e o estranho meio-sorriso vinha e ia de seus lábios, como se ela vivesse ouvindo mais do que vendo. Mas Berta sentiu, de repente como se o mais longo e mais íntimo dos olhares tivesse sido trocado entre elas, como se uma tivesse dito à outra: Você também? que Pérola Fulton enquanto agitava a bela sopa vermelha no prato cinzento, estava sentindo exatamente o mesmo que ela.

E os outros? Face e Mug, Eddie e Harry, as colheres subindo e descendo, encostando de leve os guardanapos nos lábios, fracionando o pão, tocando de leve nos garfos e copos e conversando.

— Encontrei-a no show Alfa, aquele diabinho! Ela não só cortou o cabelo, como também parece ter cortado uma boa parte das pernas, dos braços, do pescoço e do pobre narizinho também.

— Ela não está muito ligada a Miguel Oat?

— O homem que escreveu "Amor com dentes postiços"?

— Ele quer escrever uma peça para mim. Um ato. Um homem. Resolve cometer suicídio. Explica todas as razões porque devia e porque não devia suicidar-se. E bem no momento em que ele resolve se deve ou não — cai o pano. A ideia não é má.

— Como vai chamar a peça: Perturbação de estômago?

— Acho que encontrei ideia semelhante a essa numa revistazinha francesa, desconhecida na Inglaterra.

Não, eles não compartilhavam com ela. Eram uns amores, uns amores, e ela adorava tê-los ali, na mesa, dando-lhes comida e vinho deliciosos. Ansiava por poder dizer-lhes o quanto eram adoráveis, e que grupo decorativo compunham, como combinavam bem uns com os outros e como lhe lembravam uma peça de Tchekhov!

Harry estava gostando do jantar. Era bem dele, aquilo de falar sobre comida e exaltar a sua "paixão sem-vergonha pela carne branca da lagos ta" e "pelo verde dos sorvetes de pistache, — verdes e frios como as pálpebras das dançarinas egípcias".

Quando olhou para ela e disse: Berta, este suflê está admirável! ela quase chorou de prazer como uma criança.

Oh, porque se sentia nessa noite tão terna para com todo mundo? Tudo era bom e estava certo. Tudo o que acontecia parecia encher ainda mais a sua taça transbordante de felicidade.

E no fundo do pensamento estava-lhe aquela pereira. Estaria agora prateada, sob a luz da lua daquele querido Eddie, prateada como Miss Fulton, que ali estava sentada girando uma tangerina nos dedos compridos, tão pálidos que pareciam emanar claridade.

O que ela não conseguia compreender — e que era milagroso — era como podia adivinhar o estado de espírito de Miss Fulton tão exata e instantaneamente. Pois nem por um momento duvidou de que estivesse certa a esse respeito, e em que se baseava? Um menos que nada.

— Acredito que isso aconteça muito, muito raramente entre mulheres. Nunca entre homens, — pensou Berta. — Enquanto estiver fazendo o café na sala de visitas, talvez ela "dê a sinal”.

O que queria dizer com isso ela mesma não sabia, e o que podia acontecer depois disso não podia imaginar.

Enquanto pensava assim viu-se conversando e rindo. Precisava falar porque estava louca de vontade de rir.

— Preciso ou rir ou morrer.

Mas quando notou o curioso habitozinho de Face, de puxar o vestido na frente, no corpete, como se guardasse ali uma secreta provisão de nozes, Berta teve que enterrar as unhas nas mãos para não ri demais.

Tinha acabado, afinal. — Venham ver agora a minha nova máquina de fazer café, disse Berta.

— Nós só temos uma nova máquina de fazer café uma vez em quinze dias, disse Harry. Face tomou do braço de Berta, dessa vez; Miss Fulton curvou a cabeça e acompanhou-as.

O fogo abatera-se na sala de visitas, até o ponto de tornar-se "um ninho de pequeninos fênix”, vermelho e brilhante, como disse Face.

— Não acenda a luz já. Está tão bom assim. — E abaixou-se novamente sobre o fogo. Estava sempre fria... sem o seu casaquinho de flanela vermelha, é claro, pensou Berta.

Nesse momento Miss Fulton "deu o sinal”.

— Você tem Jardim? disse a voz fria e sonolenta.

Era dito de uma maneira tão fina que tudo o que Berta podia fazer era obedecer-lhe. Atravessou a sala, afastou as cortinas, e abriu as compridas janelas.

— Veja! murmurou.

E as duas mulheres ficaram em pé uma junto da outra, olhando para a árvore delgada e florida, que, embora permanecesse tão tranquila, parecia, como a chama de uma vela, estirar-se para o alto, apontar, estremecer no ar brilhante, crescer cada vez mais enquanto elas a olhavam — quase a tocar o bordo da lua redonda e prateada.

Quanto tempo ficaram ali? Ambas presas naquele círculo de luz sobrenatural, entendendo-se perfeitamente, criaturas de um outro mundo, imaginando o que deviam fazer neste com todo esse tesouro eufórico que lhes queimava o peito e lhes caía, em flores douradas, de seus cabelos e de suas mãos?

Para sempre — por momento? E Miss Fulton murmurou: — Sim. É bem "isso".

Ou será que Berta sonhou?

Então acenderam a luz e Face fez o café, e Harry disse:

— Minha cara Mrs. Knight, não me faça perguntas acerca da minha filha. Nunca a vejo. Não me interesso nem um pouco por ela, até o momento em que ela tenha um amante. — E Mug retirou por um momento os olhos da estufa para plantas, repondo-os sob os óculos, e Eddie Warren tomou o café e depôs a xícara com uma expressão de angústia.

— O que eu quero é dar ao rapaz um espetáculo. Londres está cheia de peças novinhas em folha, ainda não escritas. O que eu quero dizer a eles é: Isto é teatro. Teatro à vista!

— Você sabe, meu caro, vou decorar uma sala para Jacob Nathans. Oh, estou tão tentada a fazer um esquema tipo peixe-frito, com os espaldares das cadeiras em forma de frigideiras e adoráveis batatas, muito chiques, bordadas nas cortinas.

— O mal dos nossos jovens escritores é que eles ainda são muito românticos. Não se pode viajar por mar sem sentir enjoo e precisar de uma bacia. Por que é que eles não têm a coragem dessas bacias?

— Um poema terrível, de uma moça violada por um mendigo sem nariz, num bosquezinho...

Miss Fulton afundou na poltrona mais baixa e mais funda e Harry ofereceu cigarros a todos. Pela maneira com que ele parou em frente dela sacudindo a caixinha de prata e dizendo asperamente: "Egípcios? turcos? da Virgínia? Estão todos misturados". Berta compreendeu que Miss Fulton hão só o aborrecia, mas que ele não gostava positivamente dela. E pelo modo com que Miss Fulton disse: "Não, Obrigada, não fumo", decidiu que ela compreendeu isso e ficou ofendida.

— Oh, Harry, por que não gosta dela? Você não tem razão. Ela é uma maravilha, uma maravilha. Além disso, como é que você pode deixar de gostar de uma pessoa que para mim significa tanta coisa? Vou tentar, logo mais, quando estivermos deitados, explicar-lhe o que está acontecendo. Aquilo de que ela e eu compartilhamos.

A essas últimas palavras algo de estranho e quase aterrorizador surgiu no cérebro de Berta. E essa coisa cega e sorridente murmurou-lhe: Dentro em pouco toda essa gente vai embora. A casa ficará quieta, quieta. As luzes estarão apagadas. E você e ele ficarão sozinhos, juntos, no quarto às escuras, a cama quente...

Ergueu-se da poltrona e correu para o piano.

— Que pena que ninguém toque! exclamou. Que pena que ninguém toque!

Pela primeira vez de sua vida Berta Young desejou seu marido.

Oh, amava-o, tinha-o amado, sem dúvida, de todas as outras maneiras, mas daquele modo não. Sempre compreendera que ele era diferente. Discutiram isso tantas vezes. A princípio ela ficara apavorada verificando que era tão fria, mas depois aquilo pareceu não ter importância. Eram tão francos um com o outro, tão bons companheiros. E isso é que havia de bom em ser um casal moderno.

Mas agora, ardentemente! ardentemente! A palavra doía-lhe no corpo ardente! Era a isso o que aquela sensação de euforia a tinha levado? Mas então...

— Minha querida, disse Mrs. Norman Knight, você sabe bem qual é a nossa vergonha. Somos as vítimas do tempo e do trem. Moramos em Hampstead. A noite foi ótima.

— Vou acompanhá-los até o vestíbulo, disse Berta. Foi ótimo vocês terem vindo. Mas não devem perder o último trem. Que horror, não é mesmo?

— Quer mais um uísque, Knight, antes de ir? perguntou Harry.

— Não, obrigado, meu velho.

Berta apertou-lhe um pouco a mão, por isso, ao despedir-se dele.

— Boa noite, adeus — gritou do degrau de cima, sentindo que esse ser que ela estava vendo despedia-se deles para sempre.

Quando voltou à sala de visitas, já todos estavam de pé para se retirarem.

— ... Então você pode ir no mesmo táxi conosco.

— Ficarei muito grato, porque assim não terei que andar de automóvel sozinho, depois da minha terrível experiência de hoje.

— Há um ponto de táxis no fim da rua. Vocês não terão que andar muito.

— Ainda bem. Vou vestir meu casaco.

Miss Fulton dirigiu-se para o vestíbulo e Berta ia segui-la quando Harry passou-lhe à frente.

— Deixe-me ajudá-la, Miss Fulton.

Berta sabia que ele devia estar arrependido pela sua rispidez, e deixou-o ir. Era um verdadeiro menino, tão impulsivo, tão simples...

Eddie e ela ficaram junto ao fogo.

— Você já leu o novo poema de Bilks, chamado "Mesa de hóspede"? disse Eddie com o seu tom macio. É formidável! Está na última Antologia. Você tem? Gostaria tanto de mostrar-lhe! Começa com um verso incrivelmente belo: "Por que há de ser sempre sopa de tomate"?

— Sim, disse Berta. E caminhou silenciosamente para uma mesa junto à porta da sala de visitas e Eddie deslizou também silenciosamente atrás dela. Tomou do livro e deu-Iho: tudo sem dizerem uma palavra.

Enquanto ele erguia o livro nas mãos, ela virou a cabeça para o vestíbulo. E viu... Harry com o casaco de Miss Fulton nos braços e Miss Fulton de costas voltadas para ele e com a cabeça curvada. Ele empurrou o casaco, pôs as mãos nos ombros dela e fê-la voltar-se violentamente. "Adoro-a", diziam seus lábios, e Miss Fulton passou-lhe os dedos de luar nas faces e sorriu-lhe aquele seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremeram; seus lábios encresparam-se em detestável sorriso, enquanto murmuravam: "Amanhã", e com as pálpebras Miss Fulton disse: "Está bem."

— Aqui está, disse Eddie. "Por que há de ser sempre sopa de tomate?" É uma coisa tão profunda, não acha? Sopa de tomate é tão terrivelmente eterna!

Se preferir, disse a voz de Harry, muito alto, do vestíbulo, posso chamar um táxi pelo telefone.

— Oh, não. Não é preciso, disse Miss Fulton, e veio para Berta e estendeu-lhe os dedos finos.

— Adeus. Muito obrigada, hein?

— Adeus, disse Berta.

Miss Fulton reteve-lhe a mão por um momento mais longo.

— A sua encantadora pereira! murmurou.

E saiu, seguida por Eddie, como o gato preto seguido pelo gato cinzento.

— Está na hora de fechar o estabelecimento disse Harry, extravagantemente frio e calmo.

— A sua encantadora pereira, pereira, pereira!

Berta correu simplesmente para as janelas compridas.

— Oh, que será que vai acontecer agora? exclamou.

Mas a pereira estava encantadora e cheia de flores e tranquila como sempre.


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Tradução de Lasinha
Revista Fon-Fon, edição de 29/12/1951.

Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)