segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um poema de André Chennevière

Poema
De: André Chennevière
Tradução: Alphonsus de Guimarães Filho

Ah! ver o mundo pela primeira vez
Ser esse viajante que chega a uma cidade desconhecida
Onde nada  é lembrança!

Ver tudo o olhar novo de uma criança
Que se espanta, e cujos olhos têm a profundeza estranha
Desses olhares que pesam sobre o mundo.

Nada mais desejar que uma grande solidão
E que o olvido total! E ir-se embora como um animal ferido
Que vai lamber suas chagas na sombra e no silêncio!

A lágrima, de Lord Byron

A lágrima
De: Lord Byron
Tradução: M. B. Fontenelle

O lacrimarum fons, tenero sacros
Ducentium ortus ex animo; quater
Felix! in imo qui scatentem
Pectore te, pia Nimpha, sensit. 
GRAY.

I
Se há em nós simpatia,
Que nos mova amizade
Ou amor, — soe dizê-lo um olhar;
Mas o olhar nos mentia!
Diz o riso a verdade?
Só uma lágrima a pode expressar.

II
Muitas vezes o riso
É do hipócrita um meio,
Com que o ódio mascara ou o temor;
Antes quero um conciso
Ai de trêmulo seio,
Que uma lágrima orvalha — qual flor.

III
Bom sinal é ter n'alma
Compaixão, caridade;
É o mais belo louvor dos mortais!
E alcançais essa palma,
Só á viuvez, à orfandade,
À desgraça uma lágrima dais.

IV
O que aos mares se afoita,
Se em montões vendo as vagas
Sob alguma receia ficar,
Ao tufão que o açoita
Depõe n'asa mil pragas,
Porém manda uma lágrima ao mar.

V
Corre ao campo o soldado,
Corre —  a glória por norte —
Sobre o imigo a colher um laurel;
Mas o imigo prostrado
Ei-lo abraça, — e da morte
Co'uma lágrima adoça-lhe o fel!

VI
E se a justa ufania
Para ao pé de sua amada
Tão romântico assim o conduz,
Então bem se extasia
De colher na rosada
Face a lágrima que alva aí reluz.

VII
Sítio em que eu vivi moço!
Da amizade e franqueza
Mansão doce, mansão d'áureo amor!
Sabes d'alma o alvoroço
Quando disse-te, presa
A uma lágrima, o adeus de sua dor?

VIII
Bem que agora um só voto
Não mais vá de meu peito
Ao daquela a quem já tanto amei,
Sempre lembro-me e noto
Que os que outrora lhe hei feito
Co'uma lágrima dela os c'roei.

IX
De outro embora, ditosa
Viva a ingrata Maria;
Sei-lhe ainda a lembrança adorar:
Bem que foi-me enganosa,
Sei chorá-la; e em vão ria,
Co’uma lágrima a sei perdoar.

X
Meus amigos queridos,
Dentre vós me apartando,
Uma esp’rança me anima, e me diz:
“Sereis inda reunidos!
Vosso adeus é chorando?
Dai a lágrima ao encontro feliz!”

XI
Quando houver meu esp’ríto
Voado às plagas da noite,
E o meu corpo na cova jazer,
Oh! ter-me-ei por bendito
Sê no pó, que o Euro açoite,
Quem derrame uma lágrima houver.

XII
Não me erijam moimento
Pela mão da vaidade!
Não carece o meu nome asas tais
Para ao teu firmamento
Voar, Celebridade!
Uma lágrima eleva-me assaz. 

O campo da batalha, de Heinrich Heine


O campo da batalha
De:  Heinrich Heine
Tradução: Freitas e Costa

Brilhava a lua impassível
Sobre o campo da batalha,
Envolto da luta horrível
Na ensanguentada mortalha.

Jazem por terra as bandeiras
Dos que há pouco ali folgavam
E ao som das marchas guerreiras
Em mil tropéis se cruzavam.

Passaram do sono à morte
Em fero, noturno assalto,
E a vencedora coorte
Seguiu de pendões ao alto.

Centenas de moribundos
Vasquejam de espaço a espaço,
Enviando aos sidéreos mundos
O olhar merencório e baço.

E a lua brilha impassível
Sobre o campo da batalha,
Envolta da luta horrível
Na ensanguentada mortalha... 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Traduções livres de Heine por Maria Amália Vaz de Carvalho

De: Heinrich Heine
Traduções livres, por: Maria Amália Vaz de Carvalho

I
Pescadora gentil, nauta graciosa
Deixa que à terra o barco teu se acoite
enquanto cariciosa,
Do alto dos céus tranquilos, desce a noite!

Dá-me essa mão crestada e pequenina,
— Pomba quo sinto inquieta a palpitar; —
No meu peito, sem medo, a face inclina!...
Tens por ventura medo ao bravo mar?...

Pois Como ele, que impávida tu sondas
Dia a dia, tal é meu peito insano!...
Tem tormentas, marés, voragens, ondas,
E pérolas no fundo como o Oceano!...

II
Envenenaste a fonte dos meus cantos,
E como havia de não ser assim
Se a mocidade e os êxtases santo
Tu corrompeste para sempre em mim?!...

Nunca mais cantarei canções dolentes:
— Rosas nascidas no ideal jardim
Da minha juventude enamorada —
Fez-se o peito um ninho de serpentes!...
E como havia de ser assim,
se és tu quem vives nele, ó minha amada!...

III
Quando escuto saudosa e rediviva,
A doce voz do meu amar d'outrora,
Uma lenta amargura corrosiva,
Me entra no coração, que devora!...

E uma ansiedade súbita, instintiva,
Me leva então às ásperas montanhas,
Onde perpassam virações estranhas
E onde pendura os ninhos o condor;
E ali, na solidão, desfaz—se em lágrimas
A minha imensa, incomportável Dor!...

Como dorme?!..., de Lord Byron

Como dorme?!...
De: Lord Byron
Tradução: J. de Aboim

Como dorme?! Que desejo!...
Dou-lhe um beijo?
É loucura não... não dou.
Como dorme sossegada
Isolada!
Acordá-las?... Não, não vou.

Secas folhas tem por leito,
Arfa o peito
De a ver tão bela... ali!
Em seus lábios num sorriso
Indeciso
Um Éden d’amor já vi!...

Ela dome!... Vem a aragem
Da folhagem
Suas faces refrescar;
Ela dorme... Vem as aves
Mais suaves
Seu dormir acalentar!...

Ela dorme... Vem um rio
Num desvio
Junto dela refluir:
Ela dorme sossegada!
Inspirada!
Tem paz no seu dormir!...

Como dorme?!... Como é belo
E singelo
O aéreo traje seu!
Todo de linho nevado -
Desatado
Ondulante como um véu!

Linda mão tem sobre o peito
O seu leito
Range com seu respirar...
A outra... vai indolente
Tristemente
Sobre as folhas repousar.

Secas folhas se despegam
E sossegam
Sobre o seu corpo gentil:
Os olhos têm-nos fechados
E cortados
Por veias de puro anil.

O cabelo é todo louro
Como o ouro
Derretido no crisol;
Ela dorme... O arvoredo
O segredo
Deste sono oculta ao sol...

Ela dorme... sossegado,
Compassado
Lhe é do peito o doce arfar.
Por seu braço, pura neve,
Desce leve
Véu azul a ondular!...

Como dorme?!... Que desejo...
Dou-lhe um beijo?...
É loucura, não... não dou.
Como dorme sossegada!
Isolada!
Acordá-la? Não... não vou.

Dentre os lábios, num sorriso
Lhe diviso
Alvos dentes a fulgir!...
Uma voz entrecortada
E pausada
De seus lábios quis ouvir...

Oh, foi sonho! Esse belo
Meu anelo
Só cumpre em meu sonhar!...
E, demais, os meus amores
Nem às flores
flores, ousei contar!...

Ilusão... que?! um suspiro?!...
Eu deliro?...
D’alma não é: não ouvi...
E se é d'alma, longe Voa
Vai à-toa
De certo não é para mi’!...

Inda o sonho!... Meus ouvidos
Iludidos...
É verdade?... Não será.
O meu nome em lábios dela
Deus!... é ela!...
Que um novo mundo me dá.

Enlouqueço... Que harmonia,
Que poesia!
Batia-lhe o coração
E na voz dizia “amores
São as flores
Que tem pouca duração!”

Com seu braço torneado
Descansado
Leve o véu quis afastar;
E no seio pura neve
Pousa leve
Folha seca balouçar!...

O seu traje voluptuoso
Preguiçoso
Afastou seu lindo pé.
Que beleza peregrina!
Que divina
Oh! que mulher que ela é!...

Duvidosa cor da aurora
Que descora
Em longes de carmesim!...
Assim a meia de seda
Sobre treda
Da botinha de Cetim!

De joelhos te agradeço!
Não esqueço
O teu sonho, eu bem ouvi...
Estou louco, sim, quisera
“Se eu pudera
Ocultá-lo mesmo a ti!...

Abriu os olhos... pausadas,
Sossegadas,
Vi-lhe as pálpebras subir;
E depois eu vi dormentes,
Indolentes,
Duas pestanas cair!

Dorme ainda!... Que desejo...
Dou-lhe um beijo?...
Sou amado... Não... não dou
Dorme, dorme sossegada;
Minha amada
Acordar-te... Não... não vou!

As florinhas se soubessem, de Heinrich Heine

As florinhas se soubessem
De: Heinrich Heine
Tradução: A. E. Zaluar
As florinhas se soubessem
A dor do meu coração,
Mitigar minha aflição!
Haviam chorar comigo, 
Como estou tão magoado,

Se os rouxinóis conhecessem
Se as estrelas cintilantes
Logo em cantos d'alegria
Trocariam seu trinado.

Para esta alma consolar.
Compreendessem meu pesar,
Talvez descessem dos céus
Da dor do meu coração!

Mas nenhum destes o sabe:
Uma só tem o condão,
Uma só conhece a causa
Da dor do meu coração!

O Porto, de Heinrich Heine

O Porto
De: Heinrich Heine
Tradução: Fritz Ney

Venturoso o mortal! Ditoso o homem
que, depois de afrontar sereno e forte
todos os riscos do mar enfurecido,
logra chegar ao anelado porto,
e bem tranquilo e já destemeroso,
no Ratskeller, abrigado, senta-se,
da cidade de Bremen!

Oh! quão grande e quão formoso
o mundo Se me antolha refletido
no cristal de Roemer transbordante,
e como vário e rico microcosmo
no saboroso líquido espumante
baixa a calmar o coração sedento!
No fundo do vaso,
múltiplas coisas vejo;
passam ante meus olhos, confundidas
as raças velhas e as raças novas,
turcos e gregos, Hegel e Gans juntos,
bosques de limoeiros olorosos,
marciais e brilhantes formações,
Hamburgo e Tunes e Berlim e Schilda,
e sobre tudo o rosto da bem amada,
sua angélica cabeça
fina e dourada como o vinho do Reno.

Oh! quão formosa, quão formosa és, minha amada!
Tu és como uma rosa:
não qual a rosa de Schiraz, a terna
paixão do rouxinol que Hafim cantara
com doce som em cálidas estrofes.
não qual a rosa de Sarão triunfante,
que cantaram os bíblicos profetas;
tu és como a fresca e linda rosa
do Ratskeller de Bremen,
a rainha das rosas; mais fragrância,
quanto mais vive, a corola exala.
e o divino aroma, de delícias
encheu meu peito, levantou meu espírito,
de tal sorte embriagando os sentidos
que, se não houvesse sido pela ajuda
do dono do Ratskeller, pronto e firme,
talvez houvesse rodado pelo soalho.

Oh! excelente varão, oh, fiel amigo!
Sentados à mesa nós dois, juntos.
bebemos como bons irmãos.
esquadrinhamos as mais altas coisas,
os mais fundos segredos,
muitos mistérios e enigmas da vida:
nossos suspiros ambos confundimos
ternamente abraçados,
infundiu-me eloquente com suas frases
a fé que no amor tinha eu perdido,
e bebi pela paz e pela dita
de meus escondidos inimigos.
e perdoei a todos os poetastros,
pois eles por sua voz me perdoaram,
e tão devoto me senti e contrito
quo se abriram já as portas dos céus,
permitindo-me ver os doze apóstolos,
as sagradas barricas,
quo o bem predicam silenciosamente
com linguagem, não obstante, luminosa,
para todos os povos
Eles, sim, que são homens!
Por fora tão simples e tão modestos
em seus trajes obscuros do madeira,
e por dentro mais belos e radiantes
que os levitas duros sombrios
dos bem sagrados templos,
mais quo os engrilados cortezões
do rei Herodes quo se vestem do ouro
e ornam seu corpo com sangrenta púrpura.
Já sempre tinha ou dito
que o Salvador do mundo
não viveu nunca entre grosseiras gentes,
senão entro ilustre o nobre companhia.

Aleluia! Aleluia!
As palmas de Betel fendem os ares,
e a mirra do Herão, de aromas encho-os,
e o sagrado Jordão, o claro rio
ao arrastar as ondas cristalinas
estremece do júbilo,
vacila em sou curso. E minha alma,
imortal, e presa desses júbilos,
estremece e vacila, e ou com ela,
e quando aponta no oriente o dia,
meu nobre amigo, dono
do abrigo Ratskcllor de Bremen,
vacilante também, com passo trôpego,
me ajuda a que ou suba a escadaria.

Oh! insigne taberneiro! Vem o mira!
Sobre os atos das velhas casas
Os anjinhos estão todos sentados;
bêbados cantam, cantam e se riem
Tão roxinho está o sol, quo se parece
ao nariz bom purpúreo de um borracho,
com marcha indecisa,
ébria também, gira, em derredor a terra.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A despedida, de Lord Byron

A despedida
De: Lord Byron (fragmento de: “Childe Harold”)
Tradução: J. Ramos Coelho

Adeus, adeus! de minha terra as praias
Perdem-se ao longe no azular das águas:
Geme a brisa da noite, brama a vaga,
Solta a gaivota contristadas mágoas.

Do sol que no ocidente vai sumir-se
A luz seguimos que desmaia os céus;
A ele e a ti, ó terra de meu berço
Inda a vez derradeira adeus, adeus!

Em breve o rei dos astros novo brilho
Ao mundo c’o a manhã virá trazer;
E saudarei o mar e o firmamento,
Mas não o solo que me viu nascer.

Meu soberbo palácio está deserto,
Dentro dele a tristeza se assentou;
Bravias plantas pelos muros crescem;
Uiva meu cão à porta que guardou.

Chega, chega-te a mim, meu jovem pagem;
Por que choras assim? o que lamentas?
Temes das vagas o rugir medonho?
O rosto à ventania não sustentas?

Enxuga o pranto que te rega as faces;
Nosso forte navio corre ligeiro:
Apenas meu falcão o mais querido
Na apostada carreira irá primeiro. 

— Sopre o vento sem freio, ruja a vaga,
Que nem o vento, nem as ondas temo;
Contudo, meu senhor, não vos espante
Se dentro d’alma tristemente gemo.

— Porque meu pobre pai, e a tão querida
Mãe, que deu-me a existência abandonei;
Eis meus amigos a não serem eles,
A não ser Deus e vós outros não sei.

— Deu-me a bênção meu pai na despedida
Resignado na dor susteve o pranto:
Mas até quo do novo a pátria volte
A minha triste mão chorará tanto!

Basta, meu jovem pagem, a teus olhos
Ficam-lhes bem as lágrimas da dor;
Se eu nesse qual tu ainda inocente
Também teria lágrimas de amor.

« Vem, meu servo fiel, vem a meu lado,
Que tens? Por que descora o teu semblante?
Do inimigo francês acaso enfias,
Ou do vento que sopra sibilante?

—Não sou tão fraco, meu senhor; da morte
Não julgues que ante os p'rigos esmorecera;
Porém pensando numa ausente esposa
Não é muito que o rosto empalideça.

— Perto de vossa habitação meus filhos
companheira junto ao lago moram.
O que há de ela coitada responder-lhes,
Se pelo pai que está distante choram!

Basta, meu servo, meu fiel mancebo,
Ninguém pode estranhar-te essa tristeza;
Mas eu que tenho o gênio leviano,
Rio, vendo dos mares a largueza.

Quem nos suspiros mentirosos fia
Da esposa estremecida ou cara amante?
Novo amor limpará aqueles olhos
Que choravam por nós há um instante.

Não julgues que lamento o bem passado,
Nem os perigos antever pareça,
A dor que sinto é que não deixe
Em terra nada que um só ai mereça.

Solitário eis-me agora neste mundo
Sobre o deserto, ilimitado oceano:
Tudo se esqueça, que ninguém se lembra
Também de mim, amargo desengano!

Talvez meu cão debalde à porta uivasse,
Até ser pelo estranho alimentado;
Mas se voltar a mão que o sustentara
Infiel morderá já deslembrado.

Veloz contigo pelo mar voemos,
Minha barca, eis o que a alma só deseja:
Nem me importa a que terra me conduzas,
Contanto que da pátria ela não seja.

Salve, ondas do mar azul escuro!
E quando vos perder dos olhos meus,
Salve, grutas profundas! salve, ó ermos!
Terras da minha pátria, adeus, adeus! 

Miragem, de Christina Georgina Rossetti

Miragem 
De: Christina Georgina Rossetti
Tradução: Abgar Renault
Era um sonho a esperança que eu sonhava, 
um sonho apenas; e eu desperto agora, 
num desconsolo atroz, cansada e velha, 
por amor de um sonho. 

Pendurei minha lira sobre uma árvore, 
um salgueiro-chorão dentro de um lago; 
pendurei-a sem voz, despedaçada, 
por amor de um sonho. 

Sossega, coração quase em pedaços; 
meu coração sem voz, sossega e parte-te: 
a vida, e o mundo, e eu mesma somos outros, 
por amor de um sonho. 

Quando dois corações..., de Emanuel von Geibel

Quando dois corações...

De: Emanuel von Geibel

Quando dois corações que o casto amor
Unira se separam novamente,
É tão grande, tão bárbara essa dor,
Que no mundo não há outra equivalente.
Oh, como soa triste e desolado
Esse "adeus para sempre" inesperado,
Quando dois corações que o casto amor
Unira se separam novamente!... 

Ao acautelar-me pela vez primeira
De que também tal laço se rompia,
Foi para mim o mesmo que houvera
Desaparecido o sol em pleno dia.
Ouvi com tão patética emoção
Esse “adeus” que assolou meu coração,
Ao dar-me conta pela vez primeira
De que também tal laço se rompia. 

Meus dias de clamor languidesceram
E iniciaram meus dias desolados;
Os lábios que de beijos me cobriram
Se achavam mudos, tristes e velados...
Que tão só pronunciaram claramente
Um "adeus para sempre" indiferente.
Meus dias de clamor languidesceram
E iniciaram meus dias desolados... 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Os sinos, de Edgar Allan Poe

Os sinos
De: Edgar Allan Poe
Tradução: Manuel de Souza e Azevedo

OS SINOS DE PRATA
Ouve... passa um trenó  batendo o sino.
Claro, argentino,
Em tênue som de álacre  melodia,
Vai batendo a tinir e vibra e oscila,
Se agita e oscila pela noite fria.
Entanto no alto límpida cintila
A Via Láctea num fulgor divino,
E constelando o céu em luz palpita
Seguindo num deleite cristalino,
Em ritmo musical o tempo esquivo,
Que vai correndo fugitivo,
Na trepidação do sino que se agita,
Trepida e oscila, tine e palpita,
Palpita e tine,
Tilinta e tine, tine e tilinta,
Tine e retine
Tine e tilinta.

OS SINOS DE OURO
Ouve... passa um noivado. Os sinos de ouro 
Batem todos em coro, 
E o tom sonoro de feliz agouro 
Mil venturas vibrando prenuncia. 
Vão pela noite, límpida e encantada, 
Soltando ao vento um vento de alegria.
Em áureas notas liquida ressoa 
Essa canção de amor, que no ar flutua, 
Enquanto a noiva, contemplando a lua, 
Sonha enlevada. 
Como na torre o som vibra e reboa, 
E se avoluma quando à terra desce, 
Sobe ao céu e recresce! 
Como em tom augural todos palpitam, 
Na exaltação em que no ar se agitam,
Todos a badalar carrilhonando. 
Carrilhonando, ecoando, ecoando
Ecoando, ecoando, 
O compasso em cadencia dando, dando, 
Alto, mais alto, dando, dando, dando! 

OS SINOS DE BRONZE 
Ouve... é o sino de bronze. Toca a fogo 
E ulula e brame em lúgubre regougo. 
Em sua turbulência que terror 
Se espalha num clamor! 
na tormentosa noite despertando 
Os ecos vêm, no bronze badalando. 
No atropelo não pode modular 
Nem compassar o som! 
Brados vão em tumulto pelo ar, 
Sem cadencia, nem tom, 
Pedindo num clamor clemência ao fogo. 
Mas a súplica é vã que é surdo o fogo. 
E crepitando em salto. 
Livre de todo o freio, 
A chama vai, alto, alto, alto, mais alto, 
Num resoluto anseio 
De agora ou nunca mais ao céu chegar; 
Enquanto os sinos a tocar, 
A tocar, a dobrar, 
Clamam num brado uníssono de dor, 
Desespero e pavor. 
Em rebate, dobrando, badalando 
Um grito de terror voa ululando, 
E o rugido do bronze, ecoando, ecoando 
Bradar ao longe até parece 
Que o fogo aumenta ou se amortece 
E que o perigo cede ou cresce 
Bramindo a voz do bronze o seu clamor 
Espalha ao longe; 
Ulula e ecoa, em lúgubre clangor, 
Ao longe, ao longe, 
Ao longe, ao longe, ao longe, ao longe, 
Ao longe, ao longe. 

OS SINOS DE AÇO 
Ouve... O sino dobrando, o sino de aço. 
Espalha pelo espaço 
Um tom solene em um lento compasso. 
E pela noite silenciosa e triste 
Flutua e vibra o som. 
Como persiste 
Melancólica ameaça no seu tom! 
Todos os sons que estrugem 
No seu côncavo rubro de ferrugem 
Não passam de um gemido. 
Sineiro solitário, 
No alto do campanário, 
O coração de certo empedernido, 
Vai dobrando, dobrando, badalando, 
Vai dobrando, dobrando, 
Vai dobrando a finado 
Num monótono tom lento e abafado 
Seu coração gelado e indiferente. 
Não é humano, não! Nada mais sente. 
Um fantasma parece 
E mecanicamente 
Vai batendo, batendo, vai tangendo 
O sino lentamente, 
Num sussurro monótono de prece, 
Num compasso monótono de réquiem, 
E se avoluma o réquiem 
No côncavo do sino, que estremece, 
Que balança e palpita 
Que geme e que se agita, 
Na cadencia do ritmo batendo 
Batendo, soluçando, esmorecendo,
Ao longe, além, além. 
Batendo lentamente, 
Ininterruptamente, 
Em continuo compasso, 
O sino de aço 
Vai batendo, batendo, vai batendo. 
Lento espalhando, lento, passo a passo, 
Além, além, além 
gemido, um soluço pelo espaço 
Além, além, além, além além, 
Além, além.