sexta-feira, 26 de maio de 2017

Uma viagem musical de Mário de Andrade


Uma viagem musical de Mário de Andrade

Texto publicado em 1929. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Compêndio de História da Música é o novo livro de Mário de Andrade. Grande formato, com os subtítulos em cotas à margem. Numa história da música, a primeira coisa que interessa é o método e a coordenação entre os assuntos, o tempo e o espaço. Mário de Andrade tomou-os em ordem cronológica, se assim podemos dizer, e tratou-os em conjunto, nas diversas manifestações nos vários países. Por exemplo, vejamos o classicismo. Depois de mostrar o precário dos qualificativos históricos e de dar o conceito "clássico" da música, estuda a ópera-cômica e bufa, Scarlatti, o virtuosismo italiano, a reforma da ópera, Gluck, os napolitanos discípulos de Scarlatti, a eclosão de Rameau, "genializando a tradição nacional do melodrama francês", a luta dos bufões, gluckistas e piccinistas. Passa depois para o mundo germânico, onde, no tempo, também prevalecia a influência itálica. Aparece depois a música instrumental fascinando a invenção germânica. Surgem Haydn e Mozart, a quem chama "o protótipo da musicalidade humana. Faz a crítica do espírito musical clássico e mostra como vem despontando o valor individual, que iria prevalecer no romantismo. Refere a decadência da música religiosa e por fim fala das fôrmas principais que o classicismo fixou: a sonata, a ária, a abertura e o recitativo acompanhado.
Por esse resumo de um capítulo, queremos mostrar que Mário de Andrade resolveu do melhor modo o seu método, permitindo uma visão segura do conjunto, sem seccioná-lo de país a país, ou de orientação a orientação. Naturalmente que isso faz com que certos pontos sejam tratados muito por alto, o que talvez seja insuficiente para os que não são versados na matéria. Mas o valor de um trabalho desses não está no pormenor (claro está que esse deve ser sempre certo, como acontece aqui) mas na vista-geral do fenômeno musical. É o que Mário de Andrade realiza magnificamente, num traçado de linhas mestras, que não é esboço, mas schema. O fato musical aparece em si, sem comparações nem explicações fora da música, salvo as referências de todo imprescindíveis, não traz outra finalidade senão a da própria música. Para um trabalho das proporções do Compêndio o sistema é seguro e justo. Todas as expressões são fixadas, rápidas que sejam, e se o traço em si pôde ser impreciso, tem o vigor necessário no conjunto.
Merece uma especialíssima referência o último capítulo sobre a atualidade musical. Todas as fôrmas e tentativas de variação harmônica ou melódica, todo "experimentalismo instrumental, todas as insatisfações sonoras, toda essa aparente desordem da música moderna, Mário de Andrade fixa, ponto por ponto, batendo sempre justo, embora dele se possa discordar em generalizações.
Esta notícia, não se escreve para louvar, mas, para coisa mais útil do que o desvalorizado elogio, para divulgar o novo livro desse trabalhador infatigável, que é Mário de Andrade, cuja ação intelectual cresce dia para dia. A ele havemos de voltar, numa análise mais demorada. Vamos, agora, transcrever o trecho final do último capítulo do Compêndio, para dar ao leitor vontade de lê-lo todo.
"A música moderna se prende a revelar o movimento sonoro que passa. Só o presente e o futuro são realmente tempo. O passado, por causa de ser fixo, imutável, é muito mais espacial que temporal. O passarinho bonito enquanto vive é tempo. Morto, empalhado, ele ocupa um lugar na vitrina do museu: é espaço. A Música de agora baseia a sua rezão-de-ser no que está soando no momento e adquire a sua compreensibilidade pelo que virá depois. O que passou: passou. O momento que passa, o presente, não justifica o que passou. É o passado que justifica o presente. Da mesma forma o presente justifica o que tem de vir. O crítico musical russo Boris de Schloezer chamou a música de Strawinsky de "objetivismo dinâmico"... Os músicos e literatos muitas vezes repetem e generalizam hoje essa expressão que me parece estreita (Objetivismo) e falsa (Dinamismo, por Cinematismo, movimento). Movimento sonoro, é o conceito da música atual — única arte que realiza o Movimento Puro, desinteressado, ininteligível, em toda a extensão dele. Este me parece o sentido estético, técnico e, meu Deus!... profético da música da Atualidade.
"Alfredo Lorenz no livrinho que está fazendo tanta sensação ("Musikgeschichte in Rhythmus der Generationen”, Ed. Max Hesses, Berlim, 1928) conclui exatamente o contrário: que a música moderna é polifônica e portanto espacial. Esse livro aliás tem sido mais atacado que louvado... O defeito principal dele é ter uma tese preestabelecida que a cultura do autor se esforçou por justificar. Alfredo Lorenz acha que o movimento das gerações humanas obriga a Música a mudar de conceito de 3 em 3 séculos: respectivamente Polifonia (Música-Espaço) e Harmonia (Música-Tempo). Segundo o ritmo trissecular consecutivo de Música-espaço e Música-tempo, calhou prá fase contemporânea os termos Música-espaço; e pela fatalidade da tese o escritor foi obrigado a ver espaço na música de hoje. Deus me livre de negar preocupação polifônica aos contemporâneos. Porém não tenho tese e não posso aceitar a de Alfredo Lorenz. Existe polifonia como existe harmonia, como existe melodia, como existe... tudo na música de agora. É a fusão absoluta disso tudo, a "maior intimidade entre forma e conteúdo", para me utilizar da frase de Wellesz, que implica a destruição de espaço e das suas principais circunstâncias e fenômenos, e faz da música atual nas suas manifestações mais características o livre jorro sonoro no tempo que julgo ver nela e por onde a compreendo e quero bem.
"Como é difícil explicar... Na verdade eu não pretendo ter descoberto a pólvora e sei que qualquer mal-intencionado pode me contradizer falando que toda música é tempo etc. Mas também é bobagem a gente pretender explicar pra mal-intencionados... Sejamos desinteressados, isto é, sejamos artistas!..."

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Anatole France por Maria Amália Vaz de Carvalho

Anatole France

Publicado originalmente em 1896, (In: "Pelo Mundo Fora"), pela escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho.  Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2016) 
I
Conhece porventura o leitor este mestre do estilo, que é francês e moderno, e podia ser grego e antigo?...
Conhece este discípulo de Renan, discípulo que dispõe de mais liberdade moral e de mais fogo juvenil que o seu querido e respeitado mestre? 
Anatole France é, como Renan, um charmeur, mas é mais do que ele ― um voluptuoso.

A sua filosofia, mais Renanesca do que Hegeliana, move-se fantasiosamente em um universo de ilusões. 
E as fúlgidas imagens, sempre renovadas, da sua esplêndida imaginação, reveste-as uma melancolia deliciosa e mórbida, como se ele as evocasse com a consciência de que lhe mentiam, e as adorasse perdidamente, mesmo depois de as saber fugitivas, falsas, efêmeras... 
Um dos melhores livros que ele tem escrito, e cujas edições se multiplicam com espantosa rapidez ― apesar dele o ter no pensamento dedicado aos delicados, aos happy few de que fala desdenhosamente Stendhal ― chama-se Taïs
Taïs é uma lenda dourada dos primeiros séculos cristãos, que entre parêntesis estão sendo apetecível mina de estudos literários, de poesias, de erudição e de arte.

Tem o livro como personagens principais Pafnúcio, um anacoreta da Tebaida, de carne mortificada pelos longos jejuns, flagelada pelos duros cilícios, curtida pelos sóis causticantes do deserto, amachucada nas caminhadas extenuantes por sobre as penhas bravas e os quentes areais ― e Taïs, uma gloriosa e aplaudida atriz de Alexandria, bela como Vênus, e inteligente como Aspásia, e prodiga de afagos como as duas, em que esplendidamente se encarnara para enlouquecer e perder os homens. 
Pafnúcio construíra nas margens do verde Nilo uma pobre cabana feita de ramos de árvores e de lodo amassado. 
Vivia ali na penitência e na castidade; na contemplação e no ascetismo. Obedeciam-lhe e amavam-no as feras do deserto; legiões de anjos, belos como adolescentes gregos, visitavam-no de vez em quando na sua Tebaida escondida; os demônios, com figuras de animais imundos, vagavam uivando em torno dele e dos solitários que aqui e ali tinham escolhido para morada o deserto ― e tentavam em vão os santos ascetas. 
Quando eles iam de manhã encher as suas bilhas do barro ao poço que os dessedentava, viam as patas dos sátiros e dos faunos travessos impressas na movediça areia. 
Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a Tebaida era um campo de batalha, onde se travavam a toda a hora, e especialmente de noite, os maravilhosos combates do inferno e do céu. 
Mas tão profunda era a virtude desses santos cenobitas que submetia ao seu poder as próprias feras. 
Quando um solitário estava para morrer, vinha um leão abrir-lhe a cova com as garras. O santo homem, logo que conhecia por este sinal que Deus o chamava a si, ia beijar uma por uma as faces de todos os seus irmãos espirituais. 
Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia no seio do Senhor. 
Esta descrição do Deserto e das suas maravilhas, do ascetismo e das suas visões, da Tebaida e dos alucinados combates que aí as paixões humanas travavam com a perfeição ideal, todo este simbolismo humano e compreensível está traçado com mão de mestre. 
Parece nos seus lineamentos visíveis a pintura de um primitivo, tanto é certo que só o extremo requinte na Arte sabe traduzir bem a inefável simplicidade. 
Pafnúcio nascera em Alexandria, de pais nobres, e fora por eles instruído na delícia das profanas letras. Era de muito longe que ele tivera de partir, para chegar à perfeição santíssima da sua vida de anacoreta cristão. 
Um dia, porém, lembrou-se por sua desgraça espiritual, ou por seu aperfeiçoamento superior, que tinha conhecido em Alexandria uma formosa atriz chamada Taïs. 
Tão bela como a mais bela das suas visões esplêndidas do Paraíso e condenada à eternidade das penas, à perdição infernal, à ignorância absoluta do bem!...

Conhecê-la, lembrar-se nitidamente dela e não a salvar, não tentar salvá-la ao menos!...

Pafnúcio não pôde submeter-se a esta dura lei. 
Deixa, pois, o deserto, procura a cidade faustosa e tentadora onde Taïs fazia as delícias e a admiração do povo, e vai arrancar ao inferno a sua presa deslumbrante.

É necessário fazer notar que ainda bem Pafnúcio não começara a premeditar esta santa empresa, já os demônios que em figuras de chacais costumavam uivar lamentosamente em torno de sua cabana, sem contudo lhe penetrarem pela porta sempre aberta, se permitiram entrar por ela dentro, deitando-se perto dele, familiarmente, como amigos velhos. Que encontrariam os demônios na alma do velho cenobita para assim procederem?... 
A graça irônica, a comoção subtil com que estes quadros são traçados, podem ser indicados pelo comentador, mas não podem ser fielmente traduzidos por ele.

Ao pé do altivo asceta, que julga ter dentro de si força que baste a dominar as inomináveis, as onipotentes paixões humanas, e se considera com direito de desafiar o Pecado e de o vencer, há uma encantadora figura de frade laborioso e simples, que nem chega a odiar o Mal, porque lhe ignora os requintes tentadores, e que cultiva no deserto um pequenino jardim e uma horta em miniatura, aceitando o amável convívio dos bichos e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor humilde e doce a vasta natureza cheia de graças e de assombros. 
As gazelas vêm apoiar a fina cabeça inquieta nos joelhos do santo: as figueiras que ele trata dão grandes figos cheios de néctar cuja contemplação é para ele um regalo inocente. 
Este bom homem dá de conselho ao orgulhoso apostolo que se deixe de tanto zelo, pois que, vista a impossibilidade em que a gente está de emendar o mundo, mais vale emendar-se a si próprio de todos os pecados até daquele que consiste em se julgar impecável. 
Mas Pafnúcio não o quer de forma alguma atender; isto, seja dito de passagem, com alegria dos chacais seus inimigos antigos e agora seus inoportunos familiares.

***

Põe-se, portanto, a caminho. Vestido tão somente de um longo cilício, ei-lo que se dirige para o Nilo ― no desígnio de seguir a pé a margem líbica até à cidade fundada por Alexandre. 
Que deliciosa a narração desta romaria, feita pela língua de ouro de Anatole France! Há frases que cantam no ouvido como uma flauta da Jônia!... Há imagens que se desdobram diante de nós como uma evocação de magia! 
Nem a tradução literal poderia fazer pressentir o encanto rítmico, embalador, quase mórbido, de requintado que é, deste estilo em que as palavras se harmonizam em um concerto ideal, para formarem a mais suave, e subtil, e sugestiva das músicas. 
E enquanto assim se encaminha para Alexandria, Pafnúcio foge das cidades e das aldeias; tem medo de encontrar crianças a brincar na soleira das portas, mulheres paradas à beira das cisternas, sorrindo cariciosamente ao peregrino que passava, como a Nosso Senhor a Samaritana já sorrira. 
Quando, ao entardecer, a aragem passava nos tamarindos em flor, o sombrio apostolo puxava para o rosto o seu capuz escuro, tal era o receio que sentia de enternecer-se diante da beleza inefável, do divino mistério das cousas... 
Viu uma enorme esfinge egípcia talhada no rochedo de granito e obrigou-a a confessar o Santo Nome de Jesus Cristo. Encontrou um eremita búdico, todo nu, de barba branca a flutuar-lhe em ondas no peito curtido ao sol, e, depois de lhe ouvir a confissão do seu niilismo absoluto, depois de lhe escutar as blasfêmias de um ceticismo sem fim, ainda tentou convertê-lo à fé profunda que lhe abrasava o coração. 
A paisagem luminosa e estranha desentranhava-se em maravilhas; o ibis misterioso e hierático retratava no líquido espelho do rio o seu longo pescoço cor de rosa pálido; os salgueiros agitavam a múrmura folhagem argêntea; as cegonhas voavam no céu claro; e nos canaviais da margem escutava-se o grito de outras aves aquáticas. 
O vale perdia-se ao longe em ondulações verdes; as águas palpitavam como um seio de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o amor fremente e criador parecia pulular em tudo, em tudo... 
Pafnúcio, porém, só pensava na cortesã esbelta e branca, de braços cor de lírio e olhos cor de violeta, que em Alexandria representava as traições de Helena, os delírios de Fedra, o sacrifício da cândida Efigênia, ante uma turba delirante, que a sua beleza embriagava e perdia... 
II
A primeira vez que, em Alexandria, Pafnúcio avista Taïs é no teatro em que ela representava a imolação de Polixena.

Tal contra a linda moça Polixena
Consolação extrema da mãe velha
Porque a sombra de Aquiles a condena
Co'o ferro o duro Firro se aparelha...

Não se lembram do nosso Camões? Era justamente esse lance da epopeia homérica que Taïs traduzia pela mímica expressiva e perfeita, a qual, na decadência da Arte antiga, supria agora na cena, viúva dos seus grandes mestres de outrora, a alada, a divina poesia de Eurípedes e de Menandro. Taïs altiva e doce apareceu ao austero monge dando-lhe, como dava a todos que a contemplavam “o trágico estremecimento da sua fatal beleza.” 
Segue-se então a luta travada entre o asceta e todas as seduções pagãs que circundavam a cortesã esplêndida, para converter esta à religião dos pobres, dos miseráveis e dos simples. 
Taïs fora iniciada em pequenina por um escravo negro da Núbia, chamado Amés, nessa religião que reveste de tão voluptuosas delícias o sacrifício e a dor.

Tinha-a mesmo batizado, em uma época de perseguições e de angústias, o bispo proscrito de Cireno, que pela Igreja sofrera os mais horrendos martírios.

E toda a dulcíssima e piedosa lenda evangélica lhe fora contada baixinho, pela voz queixosa e cantante do mísero escravo negro, quando Taïs, maltratada pelos pais, sem teto carinhoso que lhe abrigasse o corpinho infantil, torturado de açoites, ia deitar-se à noite a um canto do estabulo, entre animais domésticos, com Amés perto dela ― sentado sobre os calcanhares, as pernas dobradas, o busto direito na altitude hereditária da sua raça, e o rosto negro banhado naquela divina luz de esperança e de misericórdia com que a estrela de Belém tem, durante dezenove séculos, inundado, casta e divina, os deserdados de todo o bem terrestre. 
Portanto, não a espantou em excesso a aparição do monge, depois de uma vida consagrada ao prazer, que lhe dera o tédio sem lhe dar a felicidade. 
Só um momento, durante esses vinte anos de embriaguez hiper-aguda, ela conhecera a efêmera felicidade de amar. As lágrimas que chorou tinham tido para a pobre um sabor acre e doce ao mesmo tempo. Nesse amor encontrara tudo ― até a perdida inocência e a divina puerilidade da sua fé. A bela cortesã de Alexandria realizara o delicioso pensamento do poeta, e também ela, como a Marion dos perdidos amores, podia repetir exultante:
Et l'amour m'a refait une virginité

Mas súbito esse homem, que de todos lhe parecera diverso, apareceu-lhe tal como os outros todos, e ela fugiu espavorida, para não ver mais a imagem da sua ilusão que se partira. 
Conheceu depois a glória, os aplausos, os entusiasmos, as adorações febris, que duravam uma hora e que se tinham julgado eternas. 
Por ela os filósofos se fizeram crianças crédulas; os voluptuosos tiveram a coragem do suicídio; deram-lhe tesouros os avarentos; lágrimas, os egoístas; os poetas chamaram-lhe a sua Musa; os políticos esqueceram, para se demorarem aos seus pés, o bem dos Estados e os requintes que há no prazer do mando. 
E Taïs, indiferente a todos e com todos brincando cruelmente, conservava no fundo da sua alma a recordação indistinta e vaga desse mundo misterioso de que lhe tinham revelado o encanto. 
Supersticiosa e cheia de ânsia indefinida, tinha a sede atormentadora do desconhecido, a que faz as santas, as arrependidas sublimes, e as loucas... 
Quando Pafnúcio lhe apareceu, cedeu quase que sem resistência à rude voz que a chamava para o áspero caminho dos penitentes. Para seguir o seu implacável mestre deixou os banquetes em que a aclamavam, sob os belos e poéticos nomes da poesia antiga, os homens mais opulentos e considerados da Alexandria, os poetas, os retóricos, os sacerdotes de Serapis, os dândis do tempo, preocupados como os de hoje, com a arte de amestrar belos cavalos e de enamorar belas mulheres. 
Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos que a serviam, que queimassem os seus tesouros de arte: os cofres de marfim, de ébano e cedro, que, entreabrindo-se, deixavam cair coroas, grinaldas, colares esplêndidos; e os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, as tapeçarias floridas, os leitos faustosos, os coxins macios: e as estátuas de ninfas que pareciam animadas como mortais: e o Eros ebúrneo a quem se atribuíam maravilhosas e não sabidas virtudes, e que valia o seu peso centuplicado em ouro. 
Para o seguir, desprezou os seus vestidos brilhantes; os mantos de púrpura; as sandálias de ouro; os pentes, os espelhos, as lâmpadas cinzeladas por industriosas mãos de escravos artistas; as teorbas, as liras: ― todos os instrumentos da sua sedução complicada e subtil, todas as belas cousas que representavam as recordações de uma vida de luxo, de opulência e de amor... Não a prendeu a glória de atriz estremecida; chamavam-lhe a clara estrela, a doce lua do céu alexandrino, e o rude solitário arrebatou-a falando-lhe em penitências duras e em flageladores cilícios, em lágrimas de vergonha e de amargura choradas ao pé da Cruz. 
― Mulher, dizia-lhe o monge com voz colérica, arrastando-a consigo ao longo da costa ― vê esse enorme mar azul. Nem toda a água que ele tem pode lavar as tuas manchas asquerosas! 
E enquanto ele a apostrofava com a eloquência do mais impetuoso e ardente horror, relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades de confessor, as ignomínias em que se perdera o seu corpo, que Deus fizera tão belo, Taïs seguia-o docilmente sob o sol abrasador, e por cima dos penhascosos caminhos, onde os seus pés nus, tão lindos, tantas vezes cobertos de beijos, se desfaziam em sangue. 
***
Todas estas páginas que contam o piedoso furor do apostolo, e a humildade inefável da pecadora arrependida, estão escritas com uma paixão acre e flamejante.

Vê-se bem que o inferno e todas as suas fúrias estão dentro desse orgulhoso coração de monge, que se julga acima do Pecado e que é vencido pela força irredutível de um Poder que ele negou. 
Taïs, não; essa arrependida e submissa é em Cristo que pensa e a sua alma anseia por desprender-se do impuro corpo, para subir, lavada em lágrimas, ao seio eternamente misericordioso do Homem Divino que perdoou à Madalena, e que não consentiu que fosse lapidada a mulher adúltera pelos que não tinham direito de a julgar. 
A última parte do livro está impregnada de uma ironia, delicada como tudo que sai da pena de Anatole France, mas destoante da opulência da cor e de estilo que inspiram as duas primeiras partes. 
Consiste toda ela na narração das penitências a que Pafnúcio se entrega logo que percebe nitidamente que o zelo que o levou a salvar Taïs conduzida por ele a um convento de mulheres ― não é tão puro nem tão desinteressado como na sua ilusão a respeito de si próprio ele supusera até ali. 
As penitências às vezes chegam a ser de um cômico voltaireano. Exemplo: a coluna no alto da qual, místico acrobata, ele se encarapitou um tão longo espaço de tempo, que em volta deste novo Simão o Stilita construiu-se uma grande cidade com todas as abominações mais ou menos legalizadas, que há sempre nos centros populosos. 
Pafnúcio dizia, porém, aos bispos e à brilhante clerezia, que atraídos pela fama da sua virtude rara, e dos milagres que ela operava sobre enfermos epilépticos, coxos, cegos, manetas etc., etc., vinham cumprimentá-lo e visitá-lo de muito longe:

 ― “Meus irmãos, a penitência que me imponho é nada em comparação das tentações que tenho, e cujo número e força me espantam. Um homem visto de fora é pequeno, e do alto da coluna a que Deus me elevou, vejo os seres humanos agitarem-se como formigas. Mas considerado interiormente, o homem é imenso; é grande como o mundo porque o contém em si... Tudo que se estende ante os meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas barcas sobre o rio, essas aldeias, e o que descubro ao longo de campos, de canais, de areias, de montanhas, tudo isso é nada ao pé do que eu tenho aqui dentro! Há no meu coração cidades inúmeras e desertos sem fim. E o mal, o mal e a morte estendidos por sobre essa imensidade, cobrem-na, como a noite cobre a terra. Eu sozinho contenho um Universo de pensamentos maus.” 
Falava assim, acrescenta Anatole France, porque o amor da mulher, como uma serpente, se lhe enroscara no seio. 
***

O final do livro, ou antes, a moral do livro é esta: Pressente-se a salvação da cortesã arrependida que trouxera sempre, dentro do seu corpo manchado, a saudade nostálgica do ignoto bem, a chaga aberta e sangrenta de uma aspiração insaciada ― e a perdição do apostolo orgulhoso, que dera ao seu desejo, à sua paixão terrena, a forma de um fanático proselitismo, e que tão rudemente falava às gentes do Pecado e da Virtude. 
Que quer Anatole France provar? pergunta a crítica conspícua, um pouco escandalizada desta orgia de estilo, de descrições, de paisagens, de diletantismo artístico.

Cá por mim imagino que ele não quis provar nada. 
Quis fazer divagar a sua imaginação de poeta pelos desertos onde os monges vivem penitentes e castos, e pelas cidades douradas e luxuosas onde as atrizes bebem em taças de cristal as pérolas diluídas de uma adoração voluptuosa. 
Quis levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de Alexandria, onde filósofos e poetas discreteiam com a elegância e o requinte da civilização de Bizâncio. Quis fazer-nos penetrar na alma de uma louca mulher daquele tempo, tão bela que, em ela entrando na sala do festim, coberta de flores naturais, parecia emprestar a estas a sua vida e receber delas o mimo, a frescura o encanto virginal. 
Quis ― é este o sentido profundo e filosófico do seu livro ― dizer-nos que às vezes os que apresentam mais austera virtude são os que trazem mais serpentes venenosas no coração farisaico, incapaz de indulgência e de perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, humilde, e parte de uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, pode resgatar grandes erros e lavar na fonte cristalina das suas lágrimas, muita nodoa de que o mundo, o impecável mundo, costuma fugir enojado e austero... 

Guilherme de Almeida — “A flauta que eu perdi”



Guilherme de Almeida — “A flauta que eu perdi”

Texto escrito por Prudente de Moraes Neto e publicado em 1928. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

A filosofia da unidade levou Graça Aranha a uma incoerência de que ele mesmo foi o primeiro a se espantar. Depois de caracterizar toda a arte moderna pelo objetivismo dinâmico, definido em função dessa filosofia, ele reconhece que os poetas mais livres são quase todos subjetivos. O que o fez pensar numa possível lei de constância lírica.
Exista ou não essa lei, é indiscutível, como por aí se vê, que o objetivismo dinâmico não é toda a arte moderna, mas apenas uma de suas tendências. Ou melhor, que não há propriamente uma arte moderna: há artistas modernos, coisa muito diferente. Dos nossos poetas só tem, às vezes, alguma coisa de objetivo dinâmico, esse admirável Mário de Andrade, tão universal mas tão paulista. Os outros, subjetivos todos, quando não o são, limitam-se ao objetivismo estático de certas paisagens de Ronald de Carvalho, por exemplo.
Entre eles, subjetivo por excelência, Guilherme de Almeida, em vez de integrar-se no universo, integra o universo em si, exprime o que aproveita a suas emoções e despreza o resto por inútil. Foi isso que lhe permitiu escrever estas canções a um tempo gregas e modernas. Como para esses dois efeitos concorrem os mesmos fatores, este livro de Guilherme de Almeida bem se pôde chamar de furta-cor. O que faz dele um livro moderno é talvez precisamente certo realismo rústico que lhe dá aparência de ter sido verdadeiramente escrito na Grécia, uma espécie de falsa cor local. Nele não é a arte grega que renasce ou que se conserva, como nos museus. É a vida grega, são os pastores, os bosques, as virgens, as cortesãs da Grécia que se animam e voltam a seus hábitos. Guilherme de Almeida os surpreendeu. Não procurou reproduzir-lhes os momentos solenes, de antemão ensaiados, como cenas de teatro. A flauta que eu perdi é a expressão grega de uma sensibilidade moderna. Apesar das imagens primitivas, frescas, ácidas como frutas, só um poeta moderno é capaz de escrever um poema como este.
Sobre a saudade

Na madrugada toda rósea,
eu desci ao fundo do vale verde
enfeitado de bruma,
para encher meu cântaro de argila porosa
numa água noturna
que foi o espelho das estrelas.

Quando a sede

pôs um beijo seco, de fogo, em minha boca,
eu estendi meus lábios para a argila fosca:
— e o reflexo branco de uma estreita gelada
boiava na superfície da água exilada.

Ou como este outro, onde ainda melhor se pôde observar a dupla face do livro:
O fogo na montanha
Os pastores haviam feito
de noite, um grande fogo na montanha.
Eles tinham os braços cruzados no peito
e estavam sentados na sombra incerta
e olhavam o fogo, e ouviam a história
noturna e estranha
que a chama sonora
agitada como uma língua inquieta
ia contando.
E a labareda era como uma dançarina
de cabelos livres, dançando
por entre os perfumes bárbaros de resina
e os estalos dos toros de cedro na argila,
uma dança de véus furiosos pelos ares.
— Porque ela pôs uma pupila
nos olhos vazios que não tinham olhares.

Só um poeta moderno? Só Guilherme de Almeida, artista desnorteador que quando muda de livro é como um ator quando muda de roupas para representar outro papel. A plateia a princípio estranha. Depois, vai descobrindo sob o disfarce os mesmos traços conhecidos. Em Guilherme de Almeida, o que desnorteia é a presteza da mudança. Mas sua personalidade não cabe numa simples nota. Exige um estudo mais longo, que Estética desde já se compromete a consagrar a esse maravilhoso criador de imagens, ritmos e emoções.

Oswald de Andrade: a estrela de absinto



Oswald de Andrade: a estrela de absinto (São Paulo, 1927)
Texto publicado em 1928. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


A coisa mais característica neste romance de Oswald de Andrade é a visível inteireza do homem na obra. Oswald de Andrade vive em seus bonecos. Se parece com eles. Essa constatação não é propriamente “incondicional”, vitoriosa. Mas é, em parte, muito verdadeira e de fácil poder observativo pro leitor agudo, perspicaz. Basta tomarmos como prova a figura simpática de Jorge de Alvelos, moço escultor, elegante, libertino etc.
Autobiografia? Não. Não chego a tanto. Mas a figura é escandalosamente impressionante, viva. Tão viva e tão verdadeira que a gente quase desconfia que ela é a encarnação do próprio autor. Oswald vai seguindo, com um admirável jeito penetrativo de anotador, o desenrolar dos fatos e das coisas. Sem enfarar. Deliciosamente. Sem se preocupar muito com o final da história. Como quem diz: “no fim dá certo...”
Pra maior documentação do que seja o “por dentro” de suas personagens Oswald de Andrade não hesita em fornecer-nos detalhes da vida passada deles. A meninice de Jorge no inexplorado Amazonas. Os bonequinhos de lama. Primeiros indícios de sua patente vocação prá escultura.
“Ele era como os rapazes da região que, estalada a puberdade, migram, deixando o mulherio ficar numa prévia viuvez, de coxas ardentes e semiabertas, sonhando casamentos absurdos e prostituições impossíveis.”
Temperamento ultra - sensual (Freud...) de onanista insaciável. Etc. Decadência moral, objetivada pelo excesso de “carícias habituais”. Esgotamento histérico. Nevrose etc., e — daí a descoberta de um novo mundo nos seios “em pera”, pequenininhos, de Alma. Elástica. Serpentina. Flexuosa. Pequena “escolada” enfim, como se diz. Às vezes Oswald de Andrade abandona de lado o pessoal e cai, de prancha, num estado passageiro de lirismo subconsciente. E faz poesia da boa, quase. Mal de prosador poeta. (Plínio Salgado, por exemplo). Como naquele pedaço da romaria em Pirapora. Negros dançando. Caracaxás. Pandeiros.
Um pouquinho de tristura brasileira. Pra não perder o jeito de ser triste. Poesia?
“E o coral empolgante, religioso, gritava de toda parte, por cem peitos metálicos de fêmeas e de machos, num desfalecido estreitamento de ancas e de sexos”. Gozei à beça com este pedaço. Oswald de Andrade não escreve por escrever, como qualquer sujeito interessante não. Escreve afirmando tudo muito direitinho. Suas ideias e conceitos emitidos. Sem titubear. Com firmeza. Porque sempre foi assim que ele fez. Há pedaços fortíssimos no livro em que Oswald de Andrade se revela um psicólogo formidável! Puro Rafael Lopez de Haro (com perdão dos senhores que não vão à missa do já célebre romancista espanhol).
A linguagem empregada no estrela de absinto é, sem dúvida, admirável.
E aí o autor se afirma mesmo um dos melhores prosadores nacionais. Entre antigos e modernos.
Um livro como este vale por duas vezes. Pela originalidade única do seu autor. E pelo traço forte com que ele marcará, p’rás gerações vindouras, a espaventada atitude de ousada independência espiritual de Oswald de Andrade.

José Américo de Almeida: como me tornei escritor brasileiro


José Américo de Almeida: como me tornei escritor brasileiro
Texto escrito por José Américo de Almeida e publicado em 1928. Pesquisa, transcrição e  atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Lendo os escritores estrangeiros (E note-se que detesto o paradoxo, a ironia e todas as deformações de sentido). Lendo e pensando no Brasil. Lendo e comparando. Era ver a descrição de uma paisagem exótica, vinham-me à ideia as nossas paisagens. Achava logo a diferença. Para fixar traços diferenciais não há como pôr uma coisa defronte da outra.
E assim os costumes, as paixões, etc.
Quis adotar o mesmo método no cinema, mas o cinema tem pouca variedade. E a arte dos diretores. Só os quadros noturnos servem de pontos de diferenciação.
É um processo pouco original porque muita gente já tem dito que só faz por conhecer países estrangeiros para ficar amando cada vez mais o seu país. Mas dá certo, a menos que o sujeito não tenha senso objetivo nenhum nem discernimento. Ou seja daqueles que, cuidando estarem pensando no Brasil, estão pensando é na Grécia antiga ou no mundo da lua.
O método é, porém, de aplicação dificílima. Quem se acha embebido em obra-prima da estranja não tem nenhuma vontade de alternar a atenção, desse modo, porque perde o fio da leitura, perde o tempo e perde ainda mais se, por isso, se tornar nacionalista...
E para ser escritor brasileiro ainda me faltava escrever em brasileiro.
Ora, eu nasci num tempo em que ainda se falava português no Brasil.
Inventei, assim, outro sistema: ler os clássicos (porque não posso deixar de ler Bernardes, frei Luís de Sousa etc.) por cima, como quem está traduzindo, fazendo de conta que é castelhano, procurando apenas o sentido.
(Língua pega como visgo). Não sei se dará resultado. Mas o diabo é que, além das palavras, não acho nada nos clássicos...
Paraíba do Norte, 1928.

Um poeta - Cassiano Ricardo


Um poeta: Cassiano Ricardo — “Martim Cererê” (São Paulo — 1928)

Texto escrito por A. de A. M. e publicado em 1928. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2017)
Martim Cererê não é livro inteiramente novo. Há nele várias poesias do Vamos caçar papagaios (com uma ou outra modificação ligeira) e outras cujos temas já foram explorados pelo próprio poeta em seus livros anteriores. O mesmo acontece com certas imagens e certos achados verbais.

Isso mostra que Cassiano continua batendo na tecla Brasil. Permanece o poeta do descobrimento e da colonização sobretudo. Poeta oratório (o que denuncia sua brasilidade), e descritivo. Quando oratório ou quando descritivo sempre fortemente eloquente.
O caso de Cassiano Ricardo é um caso à parte na nossa literatura atual. Cassiano até 1925 foi inimigo violento da reação moderna. Depois (era fatal) se converteu. Houve nisso um missionário irresistível: o Brasil. Se o movimento moderno entre nós não tivesse assumido também uma feição nacionalista acredito que Cassiano continuasse inimigo dele. No Marfim Cererê a isente verifica isso facilmente: do espírito moderno que é universal o poeta aceita pouca coisa. Mas o tema Brasil do modernismo o seduz.
Por causa dele chegou a romper com o seu próprio passado literário. Na lista de suas obras publicadas constante do livro de agora não figuram A flauta de Pan, Jardim das Hespérides e os outros dois volumes anteriores a 1925. Esse repúdio aliás não tem razão de ser. E constitui uma injustiça: A flauta de Pan principalmente tem versos que são dos melhores do parnasianismo brasileiro.
Pelo que já ficou dito lá no princípio é evidente a infusibilidade de criticar Martim Cererê sem repetir uma a uma as críticas (elogios e reparos) que já mereceram abundantemente Borrões de verde e amarelo e Vamos caçar papagaios.
Eu que mesmo nos novos sempre procuro o novo, o que é novo na novidade deles, me contento em reproduzir aqui este ótimo poeminha chamado Lua cheia nº 1:
Boião d’leite
que a noite leva
com mãos de treva
pra não sei quem beber.

Mas que embora levado
muito devagarinho
vai derramando pingos brancos
pelo caminho...

Gosto tanto dessa gostosura que ouso pedir a Cassiano que não se esqueça de molhar seus livros futuros nesse mesmo leite gorduroso e cheiroso. Puro lirismo sem água.
Marfim Cererê foi impresso com bastante cuidado. Além disso tem bonitas ilustrações de Di Cavalcanti. Algumas mais que bonitas até: a da capa; a da página 19 e outras.

Guilherme de Almeida - Ideias de 1922


Ideias de 1922

Texto escrito por Guilherme de Almeida e publicado em 1929. Pesquisa,  transcrição e  atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Pediram-me os ativos organizadores do "Salão de Maio" que escrevesse, para o seu catálogo, qualquer coisa sobre a reforma artística que se operou no Brasil, em 1922, com centro em S. Paulo, e cujo eixo centrípeto e centrífugo — A Semana de Arte Moderna — continua a ser o de todo pensamento moderno do país.
Confesso que eu não saberia dizer bem, com palavras de hoje, impressões de ontem. Não teria, o que eu viesse a escrever, aquela frescura de sinceridade que têm umas notas minhas, que andei desentulhando do meu arquivo. Prefiro reproduzi-las, intactas, tais como me saíram da pena há uns quinze anos. Têm o mérito de ser espontâneas e verdadeiras, sem os inevitáveis falseamentos, as ilusões de óptica criadas pela distância do tempo.
Aí vão, pois, essas páginas... (poderei dizer "íntimas"?) que fixam o instante da renovação, esclarecendo certo equívoco que perdura ainda entre os não muito familiares com o movimento de 1922.
I
Eu tenho aqui, à minha direita, uma porção de i i i; à minha esquerda, uma porção de pingos; e, à minha frente, uma porção de papel. Os i i i não estão pingados; os pingos estão inúteis, esperando; o papel está em branco. Ora, eu preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa. Porque sim; porque preciso. Que há de ser? É claro: pôr os pingos nos i i i, em cima deste papel. É difícil, eu sei, e arriscado. Mas... quem sabe? Às vezes pôde dar certo. Si os pingos ficarem um pouco fora do lugar, eu tenho certeza, tenho uma inabalável convicção de que o amável leitor há de pensar que é erro tipográfico; o tipógrafo, que é erro de revisão; o revisor, que é erro do datilografo; o datilógrafo, que é... defeito da máquina e...
Bom. Vou começar.
O primeiro "i" não é um "i". Ou antes, é um "i" de cabeça para baixo: é um ponto de exclamação. Exclamação irregular, multiforme, variabilísima, que toma em cada boca uma entonação diferente; em cada meio uma inflexão diversa; em cada ocasião um sentido distinto. "FUTURISMO!" Porque o homem gordo e bom, que acredita em cardápios e acha que "é de cinco pessoas a lotação de cada banco", quando esbarra com o quadro ou com a página de um artista moderno, não exclama "Futurismo!" da mesma maneira com que o faz a senhora-criança de pernas cruzadas e cabeça atirada para traz da poltrona, que solta ao teto, entre os ferros-batidos e a símil-pedra de um hall frio, a baforada franzina do seu cigarro doirado. Não. Aquele senhor põe impertinências apressadas ou ódios explosivos na sua voz; ao passo que esta dama põe displicências lânguidas ou enervamentos excitantes no seu gritinho. E todo mundo, à sua maneira, vai produzindo, mais ou menos como entende e como sente, a fatal exclamação. Todo mundo, sim. O vendedor de jornais, o orador sacro, a telefonista, o conselheiro, o garçom, o leiloeiro, a normalista, o corretor, o alfaiate, o homem de clube, a dona de casa, o aviador, o ministro, a marechala, o coronel, o pastor-protestante, a menina-lulu-da-Pomerania, o deputado, o sacristão, o cometa, o astrônomo e até mesmo o escafandrista ou o bacharel — todo mundo, todo mundo sabe de cor, atualmente, essa palavra e tem uma maneira especial, própria, pessoal, individual, particular, original de pronunciá-la diante de certas coisas infelizes. " Futurismo! "
No entanto, essa palavra elástica, líquida, polifônica, camaleônica, a que a gente dá a fôrma, a cor, o som, o sentido que entende, tem, como tudo neste mundo, o seu fundo e a, sua fôrma. A sua fôrma é isso tudo que aí está — é esse agrupamento de letras (um "f", um "u", um "t", outro "u", um "r", etc...), são as entonações, as inflexões, os sentidos diferentes, dispares, que cada qual lhe empresta conforme o ambiente e a ocasião, no tempo e no espaço. Mas o fundo... Ah! o fundinho é sempre o mesmo; um único, invariável, sólido, estável, uno imutável, constante: "futurismo" entre nós, é termo pejorativo. É. Eu sei que é. É como famigerado ou guarda-chuva. Cria o ridículo, o ruim. Assobiado por lábios pintados e estendidos de desdém ou vociferado entre murros sobre o mármore das cervejarias filosóficas da meia-noite; cuspido entre dentes de ouro numa Repartição Pública, ou aromatizado na fumaçazinha azul de um khediwa num grill-room — como quer que seja, essa palavra desgraçada tem um fundo infamante, injurioso, de pouco caso ou de ódio, que a gente atira, com gestos diferentes, para um fim único: pulverizar.
Por quê? Quem havia de dizer! Por causa de um galicismo. É. Por causa de uma coisa que se chama "malentendu". Isso mesmo. Houve um mal-entendido inicial; e continuou a haver, e continua a haver e parece que continuará sempre a haver esse mal-entendido. Houve um "i" sem pingo; já se quis pôr, já se pôs mesmo o pingo naquele "i"; mas, de que serviu? A gente já se acostumou mesmo a ver o tal "i" sem o pingo indispensável e... agora é tarde. Em todo caso, nunca é mau insistir. Eu vou tentar pôr mais uma vez aquele pingo inaceitável, rebelde, naquele "i" irônico, pejorativo. Mas, atendam, pelo amor de Deus.
Eis aqui o "i": — Em fevereiro de 1909 — na Itália, um homem chamado F. T. Marinetti inventou uma coisa qualquer (isto não tem a mínima importância) a que chamou "futurismo". Muito bem.
Eis aqui o pingo: — Em junho de 1921, um dos nossos "novos", falando de outro dos nossos "novos", publicou num jornal de S. Paulo um artigo com este título: "O meu poeta futurista". Dias depois, o poeta respondeu lindamente ao artigo, explicando o que era futurismo e mostrando porque não era futurista. Mas aconteceu que toda a gente achou engraçada a palavra e montou nela: fez dela cavalo de batalha contra os "novos". Mas — aí! — nem sabia que esse cavalo era oco e tinha uma porção de guerreiros dentro; que era um bucéfalo artificial igualzinho a um célebre presente de gregos que os troianos acharam uma vez nos seus campos.
Tinha muita coisa dentro, sim. Tinha a Semana da Arte Moderna, que saiu em fevereiro de 1922; tinha "Klaxon", que saía logo depois, em maio; tinha... tinha nós todos, que diabo!
Daí, as confusões. Tantas confusões! De quem a culpa? De gregos e troianos. Porque nós também fomos muito imprudentes, irritamos muito, arre! Aquela Semana e aquele "Klaxo" foram dois poderosos fixativos para a compreensão precipitada de todo o mundo. A palavra italiana — "Futurismo" — havia sido esboçada a carvão, de leve; qualquer piparote distraído, qualquer soprozinho sutil poderia desfazê-la num segundo. Mas os fixativos involuntários aplicaram-se sobre ela — e o carvão tornou-se indelével. Agora...
II
Portanto, não somos futuristas, nem nada. Nós somos, por uma evolução lógica, por uma necessidade natural de vida, atualistas. Simplesmente atualistas. Homens, come todo o mundo. Evoluímos e vivemos no hoje de toda a gente. Existimos dentro desse hoje com todas as nossas faculdades intelectuais, com todas as nossas atividades aproveitáveis ou não, com todos os nossos propósitos, com todas as nossas crenças. E assim, do nosso lugar, assistimos à vida. Aplaudimos ou pateamos — isso é direito de todo espectador.
E, assistindo a esse espetáculo (como em todas as épocas todos os povos assistiram), tomamos intimamente o partido desta ou daquela personagem que nos é mais simpática, "torcemos", criticamos, comentamos; numa palavra, "sentimos" a peça. Ficamos, assim, sob o domínio de um pensamento, de uma tensão comum. Os nossos olhares estão todos num mesmo ponto; os nossos sentidos num mesmo objeto; ouvimos as mesmas palavras, acompanhamos os mesmos gestos. É um "estado de espírito".
Nos primeiros soluços do romantismo — há certo um século exatamente inventou-se uma expressão vaga, indefinível, para explicar isso: o "mal do século". Suspirava-se essa coisa ou com apreensão, como si se tratasse verdadeiramente de um "mal"; ou com desconfiança, como si se tratasse de uma revolta. Fosse doença ou fosse revolução — o fato é que, para estes e par a aqueles esse "mal de século" existia mesmo, era uma realidade inelutável. Pois um século mais tarde, eis que esse estado de espírito se repete.
Sente-se agora, na humanidade, uma alteração inexprimível, uma preocupação estranha e fala-se muito em "espírito moderno". Ninguém saberá definir esse espírito, localizá-lo, analisá-lo; sente-se que ele existe de fato — e nada mais E seria mesmo imprudência, até tolice, querer explicá-lo, situá-lo. Sabemos que tal quadro tal poema, tal música "são modernos" ou "não modernos". Por quê? — Impossível responder. São porque são, não são porque não são.
Assim, a gente que hoje produz artisticamente - poetas, pintores, escultores músicos — não forma escola, não tem mestres nem discípulos. O "atualismo é uma escola, não é uma doutrina: é um estado de espírito.
Ser do momento — ser de hoje. Isto é: "ser" e não "ter sido".

Elogio de Castro Alves


Elogio de Castro Alves

Discurso de Rui Barbosa, publicado em 1923. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Eis a obra de Castro Alves, senhores; e a sua obra é a sua vida. A mão da morte apagou-o dentre nós; mas a glória restituiu-o ao horizonte como a estrela da manhã para o cativeiro.
Doa, como doer aos dissecadores de gênios, o nome dele há de ligar-se indelevelmente a uma das fases mais decisivas da história nacional, e a sua poesia é bela dessa beleza indefinível, ante a qual a alma não enumera, não esquadrinha, não argumenta: comove-se, quando não ajoelha. É bella, perchê é bella.
Na graça e na cólera os seus versos lampejam frequentemente com alguma coisa de Ésquilo e Dante; com Shakespeare, o grande mergulhador do coração humano, creríamos que foi buscar alguma vez para a sua obra pérolas e monstros desse pego; compete não raro com Hugo na magnificência oriental do colorido; e, quando chora, que alma sensível não murmurará conosco:
Também sabes chorar, como Eloá!
Já vos disse, senhores: crítico não sou, nem tive em mira uma crítica. Exprimo emoções. Não quero outro comentário, nem outra consagração para o nosso poeta. Exprimo emoções; e a vossa me basta: ela me justifica, e atesta a minha fidelidade.
Agora, a justificação do decenário está em que esse sentimento vosso não se circunscreve a este recinto: retreme, como em vós, no coração do país. Senão, ouçam o seu eco na capital do Império. É que Castro Alves escreveu o poema da nossa grande questão social e da profunda aspiração nacional que a tem de resolver.
Pulsa a liberdade até nas suas canções de amor. É como se ela fosse para o bardo o que, nas primitivas crenças da Hélade, era Zeus – a natureza e a vida universal: “Zeus é o ar, Zeus é o céu, Zeus é a terra, Zeus é tudo quanto possa haver acima de tudo”. Ele sentiu, porém, que a liberdade de uma raça fundada na servidão de outra é a mais atroz das mentiras; percebeu que a história da nossa emancipação nacional estava incompleta sem a emancipação do trabalho, base de toda a nacionalidade; e fez da conjuração de Minas o berço, não só da nossa independência, como da libertação futura das gerações condenadas ao cativeiro pela política dos nossos colonizadores e pelos interesses dos traficantes. “Não mais escravos! não mais senhores. Liberdade a todos os braços, liberdade a todas as cabeças!”: é o brado que reboa da alma flamejante de Gonzaga; é a nota perene de toda a obra poética e dramática de Castro Alves.
Ora, o elemento servil é o cunho negro de toda a nossa história, e a extinção do elemento servil será a fímbria luminosa de todo o nosso futuro. A ignomínia que barbariza e desumana o escravo, conspurca a família livre, escandaliza no lar doméstico a pureza das virgens e a castidade das mães; perverte irreparavelmente a educação de nossos filhos; atrofia a nossa riqueza; explica todos os defeitos do caráter nacional, toda a indolência do nosso progresso, todas as lepras da nossa política, todas as decepções das nossas reformas, todas as sombras do nosso horizonte. O abolicionismo é a expressão da mais inflexível das necessidades sociais. Quando a uma lei destas chega o momento providencial da sua verificação, a linguagem dos que condenam como incendiária a propaganda precursora lembra a insânia do persa açoitando o Helesponto. “Ó tu, água amara”, clamavam os flageladores, “eis o castigo que nosso amo te impõe. Há de atravessar-te el-rei Xerxes, queiras ou não. Com razão ninguém te oferece sacrifícios, falso mar! pois não és mais que um pérfido rio d’água salgada”. O mar que engolira as mil e duzentas trirremes da esquadra subjugadora, ria, na sua espuma, dos fustigadores impotentes, e Heródoto reproduz-nos as apóstrofes do velho monarca oriental, indignado contra o filho, sacrílego insultador da divindade marinha. “Esperava ele, mortal, levar de vencida todos os deuses?” O acesso de pueril loucura desaparecia, para não deixar ver aos olhos do crente senão a impiedade profanadora. Mas os deuses universais hoje são as leis que regem irresistivelmente o mundo, e cuja fatalidade esmagadora não perdoa à ímpia inépcia dos violadores da ordem eterna.
Desses, felizmente, entre nós, se ainda existem, são átomos perdidos no seio da civilização brasileira: cumpre consigná-lo, não aqui, onde ninguém o ignora, mas ante o mundo, em cuja opinião errôneas apreciações e falsas notícias podem ir-nos fazendo passar como um povo ainda não convencido da ilegitimidade da escravidão e da urgência de aboli-la. Cumpre afirmá-lo ante o mundo, aonde a minha voz não pode chegar, mas a vossa chegará certamente. Diga então ela por toda a parte a verdade: diga que o Brasil não sente menos do que a Europa a perversidade e a indignidade desta instituição; que ele vê empenhada na solução deste problema a fibra mais vital do seu ponto de honra.
É um estigma que lidamos suprimir, e a cujo contato as faces desta nação, tão generosa quanto possa ser o velho mundo, purpureiam-se desse rubor sombrio que, no Paraíso da Divina Comédia, afogueava de indignação e vergonha a face do céu.
Eis o que eleva Castro Alves à altura de um poeta nacional, e bastante eminente para representar uma grande manifestação da pátria: é que a alma da sua poesia é a aspiração culminante do país. Nos seus cantos geme pela liberdade o passado, pugna o presente, e triunfa o porvir.
Desse porvir pelas perspectivas infinitas é grato aos homens de fé estender olhos ansiosos. Elas encerram inspirações inexauríveis, como a grande arte da antiguidade, em que a obra prima de Fídias, o templo de Atené, tocando o limite do gênio humano, parece ter deixado à posteridade a profecia divina da civilização. A investigação artística, fundando-se no hino homérico, buscou recompor na frontaria oriental do Parténon, gasta pelo perpassar de mais de vinte séculos e profanada pelo barbarismo cristão, a epopeia, viva no mármore, no oiro e no marfim, do mestre dos mestres: o nascimento da deusa que presidia aos destinos e representava o gênio de Atenas. Segundo a mais plausível das suas interpretações, o sublime poema de pedra exprimia “a emoção causada pelo nascimento de Minerva nas três regiões do mundo: o Olimpo, a terra e o mar. É a iniciação de uma nova ordem de coisas, traduzida de um modo simbólico e plástico ao mesmo tempo. A deusa da civilização ateniense, pura filha do espírito, surde imprevistamente entre as antigas divindades, a que vinha suceder. Conjetura-se escolhido pelo artista o momento em que, depostas por ela as armas, a admiração pela sua beleza seguiu-se entre os olímpios ao terror produzido pela sua inesperada presença. Íris e a Vitória anunciam às duas regiões inferiores a aparição de Minerva. A mensagem de Íris era benévola, e figura atrair para a deusa o grupo das divindades telúricas, numes da paz e da ordem social, benfazejas e civilizadoras. Esse grupo denotava alar-se para o sol, que se levantava no horizonte, esparzindo luz: ele significava o que vinha. Diversa era a mensagem da Vitória, endereçada às divindades marinhas, símbolos das paixões tumultuosas, brutais, ou lascivas, num estado social inconsistente. Lá se vão elas fugitivas, expelidas pela presença da filha de Júpiter, com a lua que baixa do céu para sob o horizonte, levando consigo os pérfidos prazeres e os usos supersticiosos da era bárbara.” Para mim, senhores, eis a alegoria épica da lenta evolução da nossa espécie. Esse disco de baça claridade e reflexos sangrentos, que pouco a pouco se vai recolhendo para o ocidente, sob o manto da vitória, é a tradição da conquista, da violência e da escravidão, enquanto Atené, a personificação da ciência e da arte, da humanidade e da paz, ergue-se no oriente, entornando ao longe, por toda a parte, a benevolência, o espírito e a liberdade entre os homens.
Felizes, abençoados e grandes os que, como Castro Alves, podem ser um dos raios dessa alvorada!

Graça aranha por Augusto Frederico Schmidt


Graça aranha por Augusto Frederico Schmidt

Texto escrito por Augusto Frederico Schmidt e publicado em 1930. Pesquisa, transcrição e  atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Inegavelmente foi um momento magnífico. Momento de entusiasmo, de ânsia por liberdade... No fundo o entusiasmo não se sabia de onde vinha. Nem havia escravidão, antes pobreza tão somente. Mas foi um instante de ilusão. Graça Aranha é que foi o ilusionista. E ninguém melhor do que ele para este papel. Tinha chegado da Europa e era bonito. Cabelos quase brancos e um ar de civilização e de simplicidade.
Graça Aranha! Foi a primeira vez que o vi, no dia da sua conferência da Academia. Vestia um terno verde. Caminhando para o "Petit Trianon" eu dizia que Graça Aranha não tinha o direito de falar. Ia mal prevenido. Para mim (idade, a idade) o modernismo era algo de confuso, de diferente de tudo, uma como que modificação geral nos espíritos e nos costumes. Que o autor de Canaã, espírito que já era conhecido é que fosse o profeta, não ia muito comigo. No entanto com que entusiasmo o ouvi falar se erguendo vibrante contra o espírito colonial da Academia. Pareceu-me que subitamente se escancaravam numa casa há muito fechada e escura, as janelas dando para uma paisagem clara, vasta, com voos de pássaros num céu muito azul.
Coelho Neto, protestou espartanamente. Então Graça Aranha foi carregado. O terno verde do mestre. Esperança de qualquer coisa. "Façam vocês agora, jovens", disse ele para um grupo de exaltados. Um dos exaltados era eu. Tão moço ainda era eu! Pensei em fazer. Sim, fazer, realizar. Escrever obras formidáveis.
Depois o meu momento de exaltação. E nada mais. No entanto, houve felicidade. Como o Brasil, a mocidade precisava de quem a agitasse! E Graça Aranha a agitara.
Quando saíram as cartas de Machado de Assis e Joaquim Nabuco, com o admirabilíssimo estudo, prefacio de Graça Aranha, bem que senti decepção. Era algo de clássico, de perfeito, de permanente. Onde a modernidade?
Foi assim que não compreendi o modernismo de Graça Aranha. E como eu tantos! O modernismo desandou em brasilidade, e em outras coisas assim que se foram seguindo, sempre inúteis. Alguma coisa permanecerá do que se fez nesse período, da conferência para cá? Parece que não.
"Façam vocês agora". No entanto Graça Aranha é que fez. A Viagem Maravilhosa está quase chegando. Graça Aranha principia de novo a centralizar toda a curiosidade intelectual, aliás tão pequena, no seu livro.
Creio que de novo o carregaremos como na tarde da Academia. Que se apresente de verde. E que agite este marasmo que se estabeleceu de novo, cheio de novidadezinhas insignificantes. De tentativas frustas.
Graça Aranha precisa se voltar, sempre vibrante, e agora, também contra o modernismo academizante, contra o modernismo do pra, contra o modernismo falsamente espirituoso, que faz ironia por impotência. Modernismo vazio, sem lirismo.
Qual o Brasil não tem remédio mesmo! Não é de falta de liberdade que sofremos, antes pobreza!
Que me perdoe o MOVIMENTO BRASILEIRO esta amargura, este ceticismo. Quem diz o que sente...

Crônicas de Malazarte


Crônicas de Malazarte
Texto escrito por Mário de Andrade e publicado em 1923. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Deu-se agora um fato muito importante na minha vida: fim trinta anos. Que tenho eu tom isso! dirá o leitor que sabe livros e se presa. Com efeito: não tem nada. Eu é que tenho. Não basta? Malazarte sempre me repete: Intelectual, nunca te preocupes com preceituário dos leitores. São vaidades. Leitor que se presa é absolutamente desprezível.
Esta maneira de pensar de Malazarte me agrada, embora lembre Wilde — e eu não seja grande admirador das "Intenções" Para mim Wilde é artista eminentemente caduco. Peneirando bem só me ficaram o "De Profundis" e a balada. O resto envelhecerá. Já envelheceu. Não se lê três vezes. —Cale-se! — Hei de falar. Não se lê três vezes. Todo esse artificialismo sem dor, aquela idolatria sem crítica pela Grécia, o paradoxo à força, a coleção das suas personagens de estufa, etiquetadas como avencas raras... Wilde reeditou essa coisa curiosa, que às vezes é moda, mas não é fonte: o dandismo artístico. Outros leões houve na história das letras. Fáceis exemplos Camões. Goethe. Nabuco. Há distinção. Wilde transplantou o almofadismo para a região das letras; e si Byron e Musset foram leões entre a elegância do tempo, leões foram também na poesia. Mas este leão derradeiro não é significado extensivo da palavra. Faz metáfora. Foram leões de lirismo pelos atributos que do leão animal transladaram para o verso: potência viril, tumultuária beleza, generosidade. Há generosidade nos leões? Foram leões na poesia, como Napoleão é fondre masculinizado, le foudre — exemplo invariável de gramáticas francesas.
Abandono Wilde. Se continuo nesta parolagem associativa será não acabar mais. Ora eu ainda tenho assunto e penso que crônicas devem ter fim, embora se qualifique de crônico isso que nunca mais acaba, como por exemplo insultar modernistas. Eis aí crônica doença que a milhares de milênios perdura, com a mesma agitação e ararice. Para esta última não há remédio. É ingênita. Agitação no entanto é coisa que a velhos não fica bem. Uma certa calma prudencial, apesar de realmente não existir por dentro, pôde esconder essa agitação. Deve fazê-lo. Sobre isso, com seu pacato e delicioso dizer. Baltazar Castiglioni deixou-nos boa advertência no "Cortesão". Aos velhos a serenidade assenta, avisa o italiano, e aos moços é certo que leveza e jovialidade vão bem, como predicados de juventude que são.
Eu, por mim, preferi sempre a companhia dos moços. Aprendo nela muito mais. A velhice espeta no canavial da conversação o espantalho da experiência. Afugenta. Ninguém aprende pela experiência dos outros. Isto ê certo. Doutra fôrma a História não seria um eterno repetir-se e os homens uma continuada lamentação. Que cabeça, examinando os atos passados dos membros que lhe obedeceram, não dirá: Se me fosse dado voltar para trás, agiria doutra maneira? Mas si toda a vida a experiente velhice andou a avisar essa cabeça que a estrada real perlustrada era notoriamente um descaminho!... Qual! a experiência só de nós nos vem.
Ainda por cima os velhos nos apresentam o espantalho sob um aspecto didático, única maneira de fazer a experiência para sempre aborrecida. Raro homem volta aos estudos de escola. Virgílio muito pouco é lido, por causa duma tempestade latina e umas "horrentia Martii arma" engolidos malbaristamente aos escolares 13 anos de nossa vida. J à li na escola!... Então a gente compra Macedo, Wilde, Fogazzaro e outros inéditos franceses.
Tenho um ginásio imaginário na cabeça em que os alunos estudam filosofia em Nietzsche, latim em Petrônio, psicologia em Geraldy e Bourget. As tragédias que adepto são de Bataille, Ibsen, Maeterlinck e Suderrmann. Ali se aprende o português em Guerra Junqueiro, em Silvio Romero e na Revista da Língua Portuguesa. Deste jeito meus alunos se aborrecem de coisas pernósticas, de coisas inutilmente nebulosas e simbólicas, de maus versos, maus romances, e nunca mais quererão escrever mal o português. Mas é um ginásio apenas imaginário. Não tenho inclinação para diretor de consciências, como se vê.
Pensas que isso me entristece? Ao contrário! Sou aluno. Inveterado aluno. Escolhi para me bacharelar nas ciências e nas letras as doutas preleções dos moços. Adoro a mocidade! Principalmente a minha. Apeguei-me a ela. Agarrei-a com tais unhas que agora, creio, não me deixará nunca mais. Assim seja! Respeita-se a velhice... Por quê! Nada vejo de respeitável nessa máquina que já não sofre e sentencia. Eminentemente repleta de si e incapaz de errar. Admiro os erros e os que sofrem de seus próprios erros. Admiro a mocidade que erra e sofre. Eu canonizei a mocidade — essa mártir dos entusiasmos.
Estou a afirmar todas estas verdades irritantes por uma razão capital para mim: fiz trinta anos. Considero esta idade importantíssima. Comparam-na ao verão... Chamam-na de outono... Que embrulho, essa baldeação trimestral de estações! Não entendo delas neste Brasil primaveral. E positivamente não quero saber si colheitas se fazem no verão ou no outono. Isto são metodizações europeias, que muito bem mostram o depauperamento muscular e espiritual do velho mundo. Daí essa necessidade de metodizar os atos, própria de velhos e depauperados. A Europa é um sanatório onde por meio de termas e hormone, artes e homens buscam se revigorar em vão. Ora, apesar de sete anos mais moço vivo a cantar como Whitman:
 “I, now thirty-seven years old in perfect health... "
Em pletórica saúde, pois não! Graças vos sejam dadas, Higea, filha de Esculápio! Por tudo isso não gosto mais da Europa, que é sanatório e tem 4 estações.
A idade não deve ter estações, nem trinta anos é outono ou verão. Isso de infâncias, juventudes, idade adulta, velhice... prédicas de sanatório! Há semente mocidade. Porção delas! Cada nova década é uma... Primeira mocidade... Segunda mocidade... Isso me comove. Comove, porque uma era nova desperta para mim, nesta quarta mocidade em que Outubro me transporta. "Era nova" a muitos se antojara palinódia... Que palinódia essa! Não dei para neoclássico nem para arrependido. Vou para diante, apenas isso.
Dirão também que estou a falar de mim? Estou. Mas, embora já me aborreça o paradoxo, falar de mim é falar dos outros também. Mas creio que não sou lá muito são de espírito. Volto a afirmar essa verdade, porque me lembro das palavras de Shestov: O homem são de espírito, inteligente ou imbecil, na realidade não fala de si, mas do que pôde ser necessário e útil aos outros. Mas, pergunto eu, quem é são de espírito? Que coisa é útil na Terra? A demais falar de si, falar dos outros... Tudo o mesmo. Nem nós, homens diferentes deste mundo, somos tão diferentes assim. A questão se limita a volumes de narizes e morais. Qual a diferença entre os homens? Um tem dois milímetros quadrados menos de nariz, outro maior cubagem na moral. Mas todos nós temos nariz e moral. E é por causa destes recipientes que quando digo Eu, o leitor entende tratar-se dele. Por causa de termos sem exceção, moral e nariz, homens somos todos um universal, como aprendi a dizer nessa fantasia linda e inútil, posta por vocês no departamento das ciências e por mim no departamento das malazartes, a Filosofia.
É verdade que nas minhas crônicas se mede o tamanho de meu nariz. Mas não posso andar por aí medindo narizes de leitores. Seria indiscreto. Mostro o meu, aos 30 anos. O leitor que observe si ele é maior ou menor que o seu. Vá lá! Quanto? Dois milímetros? Pois sejam dois milímetros. Mas o leitor aprendeu por si, e por comparação, que é ainda a melhor maneira de pensar. Substituamos o verbo pensar por experimentar, que também é da primeira conjugação. Tantas coisas e tão contrárias se têm pensado, que não tenho mais nenhum gosto em conjugar o verbo. Ponho decidido: EXPERIMENTAR.
Talvez isto seja culpa do século, que pela ciência experimental se conduz. Epstein lançou agora a Lirosofia, segundo ele, o dernier bateau abordado em plagas de humanidade, para substituir pensamento e experiência. Mas eu ainda não me dou bem com a nova mesinha do sanatório francês. Sou passadista — confesso, desde os tempos eruptivos do desvairismo. Ainda continuo no verbo experimentar e digo ao leitor: Mediste os dois narizes. Adquiriste experiência e por ti mesmo a adquiriste. Pois que te faça bom proveito! E continuo a lembrar os meus 30 anos.
Entrei para a quarta mocidade! Um sem-número de imagens comovidas ronda no meu ser profundo. É uma poracê maravilhosa na clareira da mata. São juruparis, caaporas e uiaras a bailar. Saltam anhangás das moitas, surgem maraguinganas das fumaças odorantes da fogueira. Filtra-se a Lua através da folhagem, adensando nos troncos e nos festões dos cipoais arquiteturas invisas. Que Partenões de mármore e ardentes policromias! Que Santos Apolinários do ouro e ultramarino! Oca rupestre onde sapateia o guau do passado, do presente e do futuro. Vitórias, nobrezas, bondades e... Ambições imorredouras, orgulhos imorredouros erros morituros e amores dum só dia... Tudo surge, dança e volve e volta, numa fantástica orgia de entusiasmos. Eu tremo. Ambições imorredouras me constringem! São elas que me fazem viver. Sufocam-me os orgulhos? Mas são eles que, enquanto a carne faz o seu ofício e me traz melancolizado e desgostoso, como diria Frei Luís de Souza, me dão esse pincel que agora anda a pintar sorrisos nos meus próprios lábios. Amores dum só dia? Como as rosas. Que trocara os rosais de Paulicéia por flores artificiais? A rosaseca. Outra nasce. "Improbe amor, quid non mortalia pectora cogis!" Os erros morituros me saúdam... A luta principia. Escorre sangue. Rubro agora. Negro adiante. Gritos. Cadáveres, num acervo de redes, poeiras e lágrimas. Morrem os erros. Mas que punição maior para este césar enfastiado! O espetáculo vai recomeçar. Os erros, sei que renascerão! Alimpam-se da lama ensanguentada, curam-se das chagas, apagam o sulco das lágrimas; e novamente belos, aprazíveis, convidativos voltarão! E eu sei que voltarão! Oh!..
Meu Deus! sou a mais discutível das tuas obras-primas!...
Qual! Tudo isso é mentira! fantasia!

Sou cronista e escrevo coisa leves. O leitor risone essas linhas que falam de anhangás impossíveis e de reciários errores. Tudo isso é domínio de lenda. Imaginações! Malazartismo!
Malazartismo? Belazarte me olha e me saúda. Ergue aquele chapeuzinho duro de Carlito, que deu para usar. — Mário, um cigarro. — Perdoa Belazarte, ainda não te vira! Ele acende o cigarro. Atira-o fora, distraído. Queima o dedo e fuma o pau do fósforo. Saúda outra vez. Sacode os ombros. Vai-se embora.
Penso: Belazarte nunca fuma... Por que agora fumou?...