quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Reinaldo Azevedo e a síndrome do pavão espalhafatoso



Reinaldo Azevedo e a síndrome do pavão espalhafatoso


Há de nascer no Brasil um gênio tão versátil quanto o de Reinaldo Azevedo!

Sua capacidade de perambular pelas mais diversas esferas do saber, é de fazer arrepiar cabelos até em carecas. Embora tenha formação em Letras, é capaz de tratar com desenvoltura de Física Quântica a estratégias de guerras, não obstante priorizar com mais aferro as matérias relacionadas à jurisprudência.

Conhecido na imprensa por suas críticas mordazes ao lulopetismo, sempre teve sua imagem atrelada ao que de mais radical existe na Direita brasileira, sendo por isso rotulado pejorativamente de "rottweiler", ao que objetou afirmando ser apenas um "rottweiler amoroso".  É dele o neologismo "petralha", que é uma derivação de "petista" com "Irmãos Metralha" (The Beagle Boys), designando um indivíduo sem escrúpulo, o qual não vacila em cometer todo e qualquer ato marginal à lei, como usurar, mentir, extorquir, ameaçar, chantagear, roubar, corromper etc. (“Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa”)

Em consequência de suas opiniões inflexíveis e por seu espírito notadamente polemista, granjeou em torno de si muitos desafetos, inclusive alguns do âmbito do seu próprio círculo ideológico, como o deputado Jair Bolsonaro e o filósofo Olavo de Carvalho, a quem denominou de "decadente e derrotado": " Só não digo que Olavo perdeu porque nunca houve a hipótese de ele ganhar. Este senhor lançou-se no mundo das ideias como astrólogo e vai terminar como prestidigitador, escondendo e tirando imposturas da cartola. Outro dia alguém me perguntou se ele era mesmo de extrema direita. Nem isso. É um extremista do oportunismo". Com isso ele busca esquivar-se da injusta pecha de "conservador extremista", ao mesmo tempo em que se faz apresentar como um "pensador independente", o qual não se vincula ideologicamente com os tipos caricatos do direitismo brasileiro.

Não obstante sua inegável habilidade com a palavra escrita, é frequente descompor o verbo quando na defesa do que considera correto, principalmente se o "correto" estabelece alguma relação com os seus amigos. Em maio de 2015, por exemplo, escreveu um artigo em que criticava duramente o governador Tião Viana (Acre), chamando-o de "coiote", por este enviar a São Paulo uma leva de imigrantes haitianos. O resultado foi um processo por parte do político petista, culminando numa condenação de 20 mil reais, ainda em primeira instância.

Mais recentemente o ilustre jornalista deixou enveredar-se pela crítica contundente a notáveis figuras da Lava-Jato, justificando seu pendular comportamento pelo viés da "literalidade constitucional". A frequência com que tem insistido no assunto desagradou a um grande número de admiradores, que o acusam de ter guinado para a Esquerda. Nas redes sociais, os elogios outrora tão constantes foram substituídos por xingamentos e desconexas acusações.  Ele, porém, parece não se incomodar nem um pouco com toda essa balbúrdia virtual, fazendo questão de realçar que tem quatro empregos e que não se importa com alaridos: " escrevo e falo o que quero, não o que querem que eu escreva e fale".

Ao que se afigura, porém, a questão da "legalidade" para Reinaldo Azevedo vai muito além do seu mero apreço pela Constituição.  A reboque da simples vaidade pessoal e de seu exacerbado egocentrismo, correm por fora interesses relacionados à própria atividade que exerce, na qual fica sujeito a excessos dessa mesma "legalidade". Ao se colocar contra a condenação em segunda instância, por exemplo, ele busca preservar-se de eventuais condenações e, por conseguinte, preservar àqueles a quem tanto estima. Obviamente que legalidade e moralidade nem sempre se amalgamam. Em outras palavras: "nem tudo que é legal é moral".

Reinaldo Azevedo (assim como muitos outros jornalistas da imprensa brasileira) está visceralmente comprometido com determinado facciosismo político, o que torna suas opiniões, posto que bem escritas, altamente inconfiáveis e alienantes. Junte-se a isso sua bipolaridade verbal que absorve e condena ao mesmo tempo, e sua síndrome de pavão espalhafatoso que o faz se sentir ao mesmo tempo o rei Salomão e a Lady Gaga. Certamente ele não será um Carlos Lacerda!

É isso!

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Por: Iba Mendes (Novembro, 2016)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Senhora Neigeon (Conto), de Émile Zola



 A Senhora Neigeon, de Émile Zola
Tradução de Frederico dos Reys Coutinho, publicada originalmente no ano de 1944,  pela antiga e extinta Editora Vecchi. A pesquisa, digitalização e atualização ortográfica é de  Iba Mendes (2016)
I
Faz oito dias que meu pai, o senhor de Vaugelade, permitiu-me deixar o Boquet, o velho castelo melancólico onde nasci, na baixa Normandia.
Meu pai tem ideias singulares sobre a época atual e está atrasado bem meio século. Enfim, habito agora Paris, que mal conhecia, por havê-la atravessado duas vezes. Felizmente não sou muito desajeitado. Félix Budin, meu antigo colega do liceu de Caen, assegurou, ao ver-me, que meu aspecto era excelente e que as parisienses iam ficar loucas por mim. Isso me fez rir. Mas, depois de Félix se haver retirado, surpreendi--me em frente a um espelho, a olhar meus cinco pés e seis polegadas de altura, muito risonho, com minha alva dentadura e meus olhos negros. Depois, dei de ombros, porque não sou presunçoso.
Ontem, pela primeira vez, passei a noite num salão parisiense. A condessa de p***; que é como se fosse minha tia, convidou-me para jantar. Era seu último sábado. Ela queria apresentar-me ao sr. Neigeon, um deputado de nosso distrito de Gommerville, que acaba de ser nomeado subsecretário de Estado, e que dizem estar em vésperas de ser ministro. Minha tia, muito mais tolerante que meu pai, declarou-me peremptoriamente que um rapaz da minha idade não podia desdenhar seu país, mesmo que este fosse uma república. Quer colocar-me num lugar qualquer.
— Encarrego-me de catequizar esse velho cabeçudo que é de Vaugelade — disse-me. — Deixe-me agir, meu caro Jorge.
Precisamente às sete horas, chegava eu à casa da condessa. Mas parece que se janta bem tarde em Paris; os convidados chegavam um a um, e às sete e meia nem todos haviam chegado. A condessa me disse, com ar de desespero, que não pudera conseguir o comparecimento do sr. Neigeon, a quem uma complicação parlamentar qualquer retivera em Versailles. Contudo, ainda esperava que ele aparecesse por um momento, mais tarde. Desejosa de compensar sua ausência, convidara outro deputado do nosso departamento, o enorme Gaucheraud, como o chamamos lá na terra, e que eu conhecia de uma caçada que fizéramos juntos. Esse Gaucheraud é um homem baixote, jovial, que há pouco deixou as suíças crescerem, a fim de emprestar gravidade a seu aspecto. É natural de Paris, e filho de modesto advogado sem fortuna; mas tem em nossa terra um tio rico e de muito prestígio, que ele conseguiu, não sei como, persuadir a lhe ceder uma candidatura. Eu ignorava, aliás, que ele fosse casado. Minha tia colocou-me, à mesa, ao lado de uma senhora loira e jovem, de distinto e encantador aspecto, que o enorme Gaucheraud chamava de Berta, em voz muito alta.
Os convidados, afinal, acabaram por chegar todos. Ainda estava claro o salão, que dava para o poente, quando passamos de súbito para um aposento de cortinas cerradas, iluminado por um lustre e lâmpadas. A impressão foi estranha. Por isso, enquanto nos sentávamos, conversávamos sobre os últimos jantares do inverno, que o crepúsculo torna melancólicos. Minha tia detestava isso. E a conversação eternizou-se nesse assunto, na tristeza de Paris que a pessoa atravessa ao entardecer, quando se dirige de carro para onde a convidaram. Eu me conservava calado, mas não experimentara absolutamente, tal sensação no fiacre, que todavia me sacudira impiedosamente durante perto de meia hora. Paris, aos  primeiros clarões do gás, infundira-me um desejo imenso de todos os prazeres em que ela ia arder.
Quando serviram as entradas, as vozes altearam-se e conversou-se sobre política. Surpreendi-me ao ouvir minha tia expressar sua opinião. As outras senhoras, aliás, estavam a par do assunto, referiam-se aos homens em evidência empregando apenas seus nomes julgavam e decidiam. Na minha frente, Gaucheraud ocupava um espaço enorme, falava muito, sem parar de beber e comer. Essas coisas não me interessavam, muitas me escapavam, e eu acabara por me preocupar apenas com minha vizinha, a senhora Gaucheraud, Berta, como eu já a estava chamando, para resumir. Ela era realmente lindíssima. Suas orelhas principalmente, pareceram-me encantadoras, umas orelhinhas arredondadas, atrás das quais se enroscavam cabelos loiros. Berta possuía uma dessas nucas perturbadoras de loira, cobertas de cabelinhos. Quando ela fazia certos movimentos com os ombros, sua blusa de decote quadrado ficava um pouco folgada atrás e eu acompanhava, do pescoço à cintura, uma leve ondulação de gata. Agradava-me menos seu perfil algo acentuado. Ela falava sobre política, com mais animação que as outras.
— Senhora, quer vinho?... Passo-lhe o sal, senhora?
Fazia-me delicado, adivinhava seus menores desejos, interpretando-lhe os gestos e os olhares. Ao sentar-se à mesa, ela me olhara, fixamente, como que para julgar-me de uma só vez.
— A política o aborrece — disse-me afinal. — Quanto a mim, enfada-me. Mas, que quer? é preciso conversar. Agora sói se conversa sobre isso nas reuniões sociais.
Depois, saltou de um assunto para outro.
— É bonita Gommerville? Meu marido queria, no verão passado, levar-me à casa de seu tio; mas tive medo, pretextei estar enferma.
— A região é muito fértil — respondi. — Há belas campinas.
— Bom! já sei o que pensar — disse ela rindo. — É pavoroso. Uma região inteiramente plana, campos e mais campos, com a mesma cortina de plátanos de longe em longe.
Quis protestar, porém ela já se desinteressara e discutia uma lei sobre o ensino superior com seu vizinho da direita, homem grave, de barba branca. Afinal, falou-se sobre teatro. Quando ela se curvava para responder a uma pergunta que lhe faziam da extremidade da mesa, a ondulação felina de sua nuca mexia comigo. No Boquet, em meio à impaciência contida de minha solidão, eu sonhara com uma amante loira; porém ela era vagarosa, com uma nobre fisionomia, e a cara de rato, os cabelinhos crespos de atrapalhavam-me o sonho. Depois, quando já estavam servindo os legumes, descambei para uma história maluca, cujos pormenores eu ia inventando progressivamente: estávamos sozinhos, ela e eu; eu lhe beijava no pescoço e ela voltava-se sorrindo; partíamos, então, juntos, para um país muito distante. Chegava-se à sobremesa. Nesse instante ela se aproximou de mim e disse-me em voz baixa:
— Passe-me aquela caixinha de confeitos, ali na sua frente.
Seu olhar pareceu-me de uma suavidade cariciosa, e a leve pressão de seu braço na manga de minha casaca me aquecia deliciosamente.
— Adoro tudo o que é feito com açúcar, e o senhor? — continuou ela, mordendo uma fruta cristalizada.
Essas simples palavras perturbaram-me, a tal ponto que me acreditai apaixonado. Como levantasse a cabeça, avistei Gaucheraud, que me olhava  conversar baixinho com sua mulher; tinha a fisionomia alegre, sorria com ar animador. O sorriso do marido acalmou-me.
Enquanto isso o jantar terminava. Não me pareceu que os jantares de Paris fossem muito mais espirituosos que os jantares de Caen. Somente Berta me surpreendia. Minha tia queixara-se do calor, e as pessoas voltaram à conversa inicial, comentaram as recepções da primavera, concluindo que só se comia realmente bem no inverno. Depois, fomos tomar café no salãozinho.
A pouco e pouco, chegou muita gente. Os três salões e a sala de jantar enchiam-se. Eu me refugiara a um canto, e minha tia, ao passar junto de mim, disse-me rapidamente:
— Não saias, Jorge... A mulher dele chegou. Ele prometeu vir buscá-la e eu te apresentarei.
Referia-se ao senhor Neigeon. Mas eu não a ouvia. Acabava de ouvir umas poucas e rápidas palavras trocadas à minha frente por dois rapazes e sentia-me perturbado. Eles estavam junto a uma das portas do grande salão, e no instante em que Félix Budin, meu antigo colega de Caen, entrava e cumprimentava a senhora Gaucheraud, o mais baixo dissera ao outro:
— Ele ainda continua com ela?
— Sim — respondera o mais alto. — Oh! uma ligação em regra. Agora, isso durará até o inverno. Nunca ela ficou tanto tempo com um só.
Isso não representou para mim grande sofrimento, senti apenas um leve choque em meu amor próprio. Por que me havia ela dito, em voz tão cariciosa, que adorava tudo que era feito de açúcar? Certamente que eu não pretendia disputá-la a Félix. Contudo, acabei por me persuadir que aqueles rapazes caluniavam a senhora Gaucheraud. Eu conhecia minha tia. Ela era muito rigorosa, não podia tolerar em sua casa mulheres faladas. Gaucheraud acabava exatamente de correr ao encontro de Félix, para lhe apertar a mão, e dava-lhe palmadinhas amistosas no ombro, envolvendo-o num olhar enternecido.
— Ah! estás aqui — disse-me Félix quando me descobriu. — Vim por tua causa... E então? queres que eu te guie?
Ficamos ambos no vão da porta. Eu bem gostaria de interrogá-lo sobre a senhora Gaucheraud; mas não sabia como fazê-lo de maneira despreocupada. Enquanto buscava uma transição, interroguei-o sobre muitas outras pessoas que me eram perfeitamente indiferentes. E ele dava-me seus nomes, fornecia sobre cada uma informações precisas. Filho de Paris, ele passara dois anos apenas no liceu de Caen, na época em que seu pai fora prefeito de Calvados. Achei que ele se estava expressando com extrema liberdade. Um sorriso vincou-lhe o lábio inferior, quando lhe pedi pormenores sobre determinadas mulheres ali presentes.
— Estás olhando para a senhora Neigeon? — disse-me ele de súbito.
Na verdade, eu estava olhando, para a senhora Gaucheraud. Por isso respondi bem tolerante:
— Senhora Neigeon? ah! Qual?
— Aquela mulher morena, junto da lareira, que está conversando com uma loira, decotada.
De fato, junto à senhora Gaucheraud, rindo-se alegremente, estava uma dama em que eu não reparara ainda.
— Ah! É a senhora Neigeon — repeti duas vezes.
E examinei-a. Era muito desagradável que ela fosse morena, porque também me pareceu encantadora; um pouco mais baixa que Berta, com um magnífico diadema de cabelos negros. Possuía olhos vivos e ternos. O nariz era pequeno, os lábios delicados, as faces tinham covinhas e indicavam uma natureza simultaneamente turbulenta e meditativa. Tal foi a minha primeira impressão. Mas, fitando-a com mais vagar, meu julgamento perturbou-se, e não tardei a vê-la miais louca ainda que sua amiga, rindo mais alto.
— Será que conheces Neigeon? — perguntou-me Félix.
— Eu, absolutamente. Minha tia vai apresentar-me a ele.
— Oh! é uma criatura nula, um perfeito tolo — continuou. — É a expressão máxima da mediocridade política, um desses tapa-buracos, tão úteis no regime parlamentar. Como não possui duas ideias próprias e todos os chefes de gabinete podem utilizá-lo, tem figurado nas combinações políticas mais variadas.
— E a mulher dele? perguntei.
— A mulher dele? Tu a estás vendo. É encantadora... Se pretendes qualquer coisa dele, corteja-lhe a mulher.
Félix, aliás, aparentava não querer acrescentar nada mais. Mas deixou-me, finalmente, perceber que a senhora Neigeon fizera a fortuna do marido e que ela continuava a zelar pela prosperidade do casal. Paris em peso apontava-lhe amantes.
— E a moça loira? — perguntei subitamente.
— A moça loira — respondeu Félix sem se perturbar — é a senhora Gaucheraud.
— Será honesta, essa?
— Sem dúvida que é honesta.
Ele revestira um ar sério que não pôde conservar; voltou-lhe o sorriso, pareceu-me até ler em seu rosto certa fatuidade que me desagradou. As duas mulheres haviam, sem dúvida, reparado que estávamos entretidos com elas, porque redobravam as risadas. Uma senhora levou Félix e eu fiquei sozinho. Passei a noite a compará-las uma com a outra, magoado e atraído, sem compreender bem, sentindo a ansiedade de um homem que receia cometer alguma tolice, aventurando-me num mundo que ainda não conhece.
— Ele é insuportável, não chega — disse-me a minha tia ao me encontrar no mesmo vão de porta. — Aliás, é sempre assim... Enfim, é apenas meia noite, a mulher dele ainda, está à sua espera.
Dei a volta pela sala de jantar e fui colocar-me na outra porta do salão. Fiquei, assim, atrás das duas senhoras. Ao chegar, ouvi Berta chamar sua amiga de Luísa. Luísa é um lindo nome. Ela estava com um vestido de gola alta cujos franzidos deixavam visível apenas a linha branca do pescoço, debaixo do coque espesso. Essa alvura, discreta pareceu-me, um instante, muito mais provocadora que as costas inteiramente nuas de Berta.
Depois, deixei por completo de opinar: ambas eram adoráveis e a escolha parecia-me impossível no estado de perturbação em que me encontrava.
Enquanto isso, minha tia procurava-me por toda parte. Era uma hora.
— Então mudaste de porta? — disse. — Ora, ele não virá. Esse Neigeon salva a França todas as noites... Pelo menos te apresentarei à mulher dele. Sê amável, é importante.
Sem aguardar minha resposta, a condessa pusera-me em frente à senhora Neigeon, apresentando-me e contando-lhe meus negócios, tudo numa só frase. Senti-me canhestro, mal encontrei algumas palavras. Luísa esperava, sorrindo sempre; depois, quando viu que eu nada mais dizia, inclinou-se apenas. Ambas se haviam levantado e se retiravam. No vestíbulo, onde o vestiário estava instalado, tiveram um acesso de louco riso. Esse desembaraço, esses modos provocantes, essa graça desenvolta, surpreendiam apenas a mim. Os homens afastavam-se, cumprimentavam-nas ao passar, com um misto de extrema polidez e de camaradagem mundana que me deixava estupefato.
Félix oferecera-me um lugar em seu carro. Mas escapei-me, porque desejava estar sozinho, e não tomei fiacre, feliz de caminhar a pé pelo silêncio e a solidão das ruas. Sentia-me febril, como na iminência de alguma enfermidade grave. Seria, então, uma paixão que nascia em mim? Como os viajantes que pagam seu tributo a novos climas, eu ia ser posto à prova pela atmosfera de Paris.
II
Foi na tarde de hoje que voltei a ver as duas senhoras, no Salão de Pintura, que se inaugurou justamente hoje. Confesso que sabia dever encontrá-las aí e que ficaria em grandes dificuldades para me pronunciar sobre o valor dos três ou quatro mil quadros diante dos quais passeei durante quatro horas. Félix oferecera-se, ontem, para vir apanhar-me ao meio-dia; almoçaríamos num restaurante dos Campos Elísios e depois iríamos ao Salão.
Tenho refletido muito, desde o sarau da condessa, mas confesso que isso não me clareou muito as ideias. Que sociedade estranha, a sociedade  parisiense, simultaneamente, tão polida e tão corrupta!
Não sou absolutamente um moralista inflexível, mas nem por isso deixo de me constranger à lembrança das enormidades que ouvi os homens dizerem, pelos cantos do salão de minha tia. A acreditar nas cruas palavras trocadas a meia voz, mais da metade das mulheres ali presentes conduziam-se como vagabundas; e havia, sob a urbanidade das conversas e das maneiras, uma brutalidade de apreciação que a todas despia, as mães, as filhas, maculando tanto as mais honestas quanto as mais comprometidas. Como saber a verdade no meio daquelas histórias temerárias, daquelas afirmativas do primeiro recém-vindo que decidiam sobre a virtude ou o impudor de uma mulher? A princípio eu pensara que minha tia, apesar do que meu pai falava, recebia gente bem ruim. Mas Félix garantia acontecer o mesmo em quase todos os salões parisienses; as próprias donas de casa severas tinham que se mostrar tolerantes, sob pena de suas residências deixarem de ser frequentadas. Minha primeira revolta se havia apaziguado, ficara-me apenas a necessidade sensual de me aproveitar também dessas facilidades do prazer, desses gozos oferecidos com uma graça tão perturbadora.
Havia quatro dias que eu não podia despertar pela manhã, em meu pequeno apartamento da rua Laffitte sem pensar em Luísa e em Berta, como eu as chamava familiarmente. Ocorrera comigo um fenômeno singular, eu acabara por confundi-las. Agora tinha certeza de Félix ser realmente o amante de Berta; mas isso não me magoava, pelo contrário: via nesse fato um incentivo, a certeza de me fazer amar. Por isso as associava: se haviam cedido a outros, por que não cederiam também a mim? Isso constituía o  tema constante de uma deliciosa meditação, quando eu despertava. Demorava-me na cama, gozando o calor das cobertas, virando-me vinte vezes com uma preguiça feliz dos membros. E evitava emprestar nitidez fosse ao que fosse, porque me era agradável permanecer na indecisão de um desfecho que eu elaborava sempre a meu bel-prazer. Podia; assim, requisitar quanto às circunstâncias que me entregariam um dia Berta ou Luísa, não queria mesmo saber com exatidão qual delas. Levantava-me, por fim, absolutamente certo de que me bastaria escolher, para ser o senhor de uma ou de outra.
Quando entramos na primeira sala da exposição de pintura, admirei-me da multidão considerável que aí sufocava.
— Diabo — murmurou Félix — chegamos um pouco tarde. Precisaremos trabalhar com os cotovelos.
Era uma multidão muito heterogênea: artistas, burgueses, representantes da alta sociedade. No meio de paletós mal escovados e de sobrecasacas escuras, havia vestidos claros, esses vestidos de primavera, tão alegres em Paris, com suas sedas de cores suaves e seus enfeites mais vistosos. Maravilhava-me principalmente a tranquila impavidez das mulheres, que se metiam pelos grupos mais compactos, sem se preocuparem com suas caudas; cujas ondas de renda acabavam sempre passando. Elas iam, assim, de um quadro para outro, com o mesmo passo com que atravessariam seu salão. Não há como as parisienses para conservarem uma serenidade de deusa em meio às turbas, como se as palavras ouvidas, os contatos sofridos, não pudessem alcançá-las nem maculá-las. Segui um instante com os olhos uma senhora, que Félix me disse ser a duquesa de A***; acompanhavam-na as duas filhas, de dezesseis e dezoito anos, e todas as três miravam, sem pestanejar, uma Leda, enquanto atrás delas um grupo de jovens pintores gracejavam sobre o quadro em termos muito livres.
Félix meteu-se pelas salas da esquerda, uma enfiada de grandes peças quadradas, onde a multidão era menos compacta. Uma claridade alva descia dos tetos envidraçados, uma luz forte que toldos de pano coavam; mas a poeira erguida por tantos pés em movimento fazia pairar como que uma leve fumaça acima da ondulação das cabeças. Era preciso que as mulheres fossem muito bonitas para resistirem àquela iluminação, àquela tonalidade uniforme, que os quadros, nos quatro lados das paredes, manchavam violentamente. Aqui, era uma variedade extraordinária de cores: vários tons de vermelho, de amarelo, de azul, que... não se harmonizavam, toda uma orgia de arco-íris, no ouro esplendoroso das molduras. Começava a fazer muito calor. Cavalheiros calvos, de crânio polido, passeavam resfolegando, de chapéu na mão. Todos os visitantes estavam embasbacados. As pessoas comprimiam-se em frente a certos quadros. Havia correntezas, empurradelas, debandadas de rebanho humano solto dentro de um palácio. E se ouvia o ruído contínuo dos pés no soalho acompanhado pelo clamor surdo e prolongado da multidão, rumorejante tal o mar.
— Olha — disse-me Félix — eis a grande obra de que tanto se fala!
Cinco filas de espectadores contemplavam a grande obra. Havia mulheres com "lorgnon", artistas que conversavam em voz baixa, maldosamente, um grande cavalheiro enxuto de carnes, a tomar notas. Porém eu mal olhava. Acabava de avistar, numa sala contígua, encostadas à barra de apoio, em frente ao friso, duas senhoras que examinavam, cheias de curiosidade, um pequeno quadro. A princípio foi apenas um relâmpago: sob os laços do chapéu eu avistara espessas tranças negras e todo um emaranhado de cabelos loiros; depois a visão se afastara, uma onda da multidão, cabeças em movimento, havia submergido as duas senhoras. Mas, eu juraria serem elas. Mais alguns passos, entre as cabeças
que se moviam sem parar, voltei a encontrar ora os cabelos loiros, ora as tranças negras. Nada disse a Félix, limitei-me a levá-lo para a sala contígua, agindo de modo a que ele parecesse ser o primeiro a encontrar as duas damas. Será que as vira, como eu? era de se acreditar, porque me lançou um olhar oblíquo, de fina ironia.
— Ah! que feliz encontro! — exclamou, cumprimentando-as.
As senhoras voltaram-se e sorriram. Eu esperava pelo choque desse segundo encontro. Foi decisivo. A senhora Neigeon perturbou-me, com um simples olhar de seus olhos negros, enquanto eu tive a impressão de encontrar uma amiga na pessoa de senhora Gaucheraud. Dessa vez, era a flechada. Ela estava com um chapeuzinho amarelo, coberto com um ramo de glicínia; seu vestido era de seda cor de malva, enfeitado de cetim cor de palha, um traje ao mesmo tempo muito vistoso e muito discreto. Mas só mais tarde é que atentei nesses pormenores: porque, quando a vi, ela me apareceu envolta em sol, como se fizesse luz à sua volta.
Enquanto isso, Félix conversava.
— Hen? nada de notável — dizia. — Ainda não vi coisa alguma.
— Meu Deus! — declarou Berta— é como todos os anos.
Depois, voltando-se para o friso:
— Mas vejam esse pequeno quadro que Luís descobriu. O vestido é perfeito. A senhora de Rochetaille estava com um exatamente igual, no último baile do Eliseu.
— Sim — murmurou Luísa; — apenas os fofos desciam em quadrado sobre o avental.
Puseram-se novamente a estudar o quadro, que representava uma senhora no quarto de vestir, de pé em frente a uma lareira e lendo uma carta. A tela pareceu-me muito medíocre, mas senti-me cheio de simpatia pelo pintor.
— Mas onde está ele? — perguntou Berta subitamente, procurando em torno. — De dez em, dez passos ele se perde de nós.      
Referia-se ao marido.
— Gaucheraud está lá adiante — respondeu tranquilamente Félix, que via toda a gente. — Está olhando aquele grande Cristo de açúcar, pregado numa cruz de pão doce.
De fato, o marido, com ar pacífico e desinteressado, dava por conta própria a volta às salas, com as mãos atrás das costas. Quando nos viu, veio apertarmos as mãos, disse-nos com seu ar alegre:
— Repararam? lá adiante há um Cristo de uma expressão religiosa verdadeiramente notável.
As senhoras haviam recomeçado a andar. Acompanhamo-las com Gaucheraud. A presença do marido nos autorizava a isso. Falou-se do sr. Neigeon: sem dúvida ele viria, se saísse a tempo de uma comissão, onde devia comunicar a opinião do governo sobre uma questão muito importante. Gaucheraud apoderara-se de mim e cumulava-me de amabilidades. Isso me deixava embaraçado, porque eu tinha de responder. Félix sorrira, empurrando-me levemente o cotovelo; mas eu não pudera compreender. E ele aproveitava-se de eu entreter o homenzarrão para caminhar na frente com as senhoras. Eu apanhava pedaços da conversa.
— Então, vai esta noite ao Variedades?
— Sim, aluguei um camarote. Dizem que a peça é engraçada... Levo-a comigo Luísa: Oh! quero-o!
E mais adiante:
— Está acabada a estação. — Esta inauguração de salão é a última solenidade parisiense.
— Esquece as corridas.
— A propósito, tenho vontade de ir às corridas de Maisons-Laffitte. Disseram-me que são muito bonitas.
Enquanto isso, Gaucheraud falava-me do Boquet, uma propriedade magnífica, dizia, cujo valor meu pai havia duplicado. Eu o adivinhava todo cheio de lisonjas. Mas não o ouvia, profundamente emocionado, todas as vezes que, ao parar subitamente em frente a um quadro, Luísa roçava-me com sua comprida cauda. Seu alvo pescoço, debaixo dos cabelos negros, era delicado como o de uma criança. Aliás, ela  conservava suas maneiras provocantes, e o que me aborrecia um pouco. Cumprimentavam-na muito, e ela chamava atenção com sua alegria ruidosa e os movimentos rápidos de sua saia. Voltara-se, duas ou três vezes, para me olhar fixamente. Eu caminhava num sonho, não poderia dizer quantas horas a acompanhei assim, atordoado pelas palavras de Gaucheraud, cego pelas léguas de pintura que se desenrolavam à direita e à esquerda. Tenho consciência, apenas, de que no fim já se estava mascando poeira nas salas e que eu sentia uma fadiga horrorosa, enquanto as mulheres continuavam firmes, sorridentes.
Às seis horas, Félix levou-me para jantar. À sobremesa, disse-me subitamente:
— Agradeço-te.
— O quê? — perguntei, muito surpreso.
— Tua delicadeza em não cortejares a senhora Gaucheraud. Preferes, então, as morenas?
Não pude deixar de enrubescer. Ele apressou-se a acrescentar:
— Não quero tuas confidências. Deves reconhecer, pelo contrário, que me abstenho de intervir. Acho que se deve fazer sizinho a aprendizagem da vida.
Parara de rir, estava sério e amistoso.
— Pensas, então, que ela me poderá amar? — disse eu, sem me atrever a nomear Luísa.
— Eu? — respondeu ele. — Não sei de nada. Faze como achares melhor. Hás de ver o rumo que as coisas tomarão.
— Considerei isso um estímulo. Félix retomara seu tom irônico e, sem insistir, afirmava gracejando que Gaucheraud gostaria de me ver apaixonado por sua mulher.
— Oh! não conheces o homenzinho, não compreendeste por que ele se insinuara tanto. A influência do tio dele está diminuindo em teu distrito e se ele fosse obrigado a se apresentar perante seus eleitores, gostaria muito de poder contar com teu pai... Cáspite eu estava com medo, compreendes, uma vez que lhe podes ser útil; enquanto que eu, hoje, já fui utilizado por ele.
— Mas é abominável! — exclamei.
— Por que abominável? — continuou ele com ar tão tranquilo que não pude saber se estava gracejando. — Se uma mulher deve ter amigos, tanto melhor se esses amigos puderem ser úteis ao casal.
Ao se levantar da mesa Félix falou em irmos ao Variedades. Eu vira a peça na antevéspera, porém, menti, demonstrei grande desejo de assisti-la. E que noitada encantadora! As senhoras estavam justamente num camarote que ficava em frente às nossas poltronas. Voltando a cabeça, eu podia acompanhar no rosto de Luísa a satisfação que lhe causavam os gracejos dos atores. Dois dias antes os mesmos gracejos me haviam parecido bobos. Mas agora não mais me desagradavam; pelo contrário, proporcionavam-me prazer, porque pareciam criar entre mim e Luísa uma espécie de cumplicidade galante. A peça era bem usada e ela ria principalmente das expressões audaciosas. Bastava ela estar num camarote, aquilo se tornava um desregramento permitido. Quando nossos olhos se encontravam no meio de uma gargalhada ela não baixava a cabeça. Nada me pareceu tão requintadamente pervertido; dizia comigo mesmo que três horas passadas assim, numa certa comunidade de devassidão, deviam favorecer muito meus interesses. Aliás, toda a sala se divertia, muitas mulheres, no balcão, nem mesmo se abanavam com leque.
Durante um intervalo, fomos cumprimentar as senhoras. Gaucheraud acabava de sair, pudemos sentar-nos. O camarote estava escuro, eu sentia Luísa junto a mim. Suas saias, espalharam-se, a um movimento que ela fez, e cobriram-me os joelhos. Levei comigo a sensação daquele contato, como a primeira confissão muda, que nos prendia um ao outro.
III
Passaram-se dez dias. Félix desapareceu; não encontro pretexto algum para me aproximar da senhora Neigeon. Vejo-me reduzido, para me ocupar dela, a comprar cinco ou seis grandes jornais, nos quais leio o nome do marido dela. Ele interveio na Câmara, num debate sério, e pronunciou um discurso que está sendo muito comentado. Em outros tempos eu acharia esse discurso insuportável. Hoje me interessa, entrevejo atrás das frases fibrosas as tranças negras e o pescoço alvo. Tive mesmo uma violenta discussão com um cavalheiro que mal conheço, a respeito do sr. Neigeon, cuja incapacidade defendo. Os ataques maldosos dos jornais põem-me fora de mim. Sem dúvida, esse homem é um imbecil; mas isso ainda mais prova a inteligência de sua mulher, caso ela seja, como afirmam, a boa fada de sua carreira.
Durante estes dez dias de impaciência e de idas e vindas inúteis, fui cinco ou seis vezes à casa de minha tia, esperançoso sempre de algum feliz acaso, de algum encontro imprevisto. Aliás por ocasião da minha última visita desagradei tão seriamente a condessa que não me atreverei tão cedo a tornar a vê-la. Ela se decidira a arranjar para mim um posto na diplomacia, por intermédio do sr. Neigeon; e foi grande sua surpresa quando recusei, alegando minhas opiniões políticas. O pior é que eu havia aceitado no primeiro instante, quando não amava Luísa e ainda não me repugnava o fato de dever um obséquio a seu marido. Por isso, minha tia, que não pôde compreender meu acesso de delicadeza, surpreendeu-se com o que ela chamou um capricho de criança. Então, não há legitimistas tão escrupulosos quanto eu, que representam a república no estrangeiro? Pelo contrário, a diplomacia é o refúgio dos legitimistas; eles enchem as embaixadas, prestam à boa causa um serviço útil, ocupando os cargos elevados que os republicanos almejam. Eu estava muito perplexo para responder com bons argumentos, refugiei-me num rigorismo ridículo e minha tia acabou chamando-me de louco, mais furiosa ainda pelo fato de já haver falado a respeito com o sr. Neigeon. Não importa. Luísa não julgará que eu a cortejei para obter um posto no ministério.
Haveriam de rir-se de mim se eu contasse os estranhos sentimentos que experimentei nesses dez dias. Primeiro, convenci-me de que Luísa notara a perturbação profunda em que me havia lançado o contato de sua saia em meu joelho; e daí concluí que eu não lhe desagradava, uma vez que ela não se afastara imediatamente. Via nisso como que uma antecipação sensual que ultrapassava o permitido pela faceirice. Isto são notas sinceras, uma espécie de confissão com a qual nada escondo. Muitos homens, se dissessem tudo, confessariam que os ambientes mudam, mas que a mulher permanece a mesma. No amor, a mulher entrega-se ou permite que a tomem. Refiro-me às mulheres casadas, às mundanas que têm que salvar as aparências. Os homens que as desejam sentem depressa quando elas se oferecem, sob as boas maneiras da educação e o requinte do luxo. Tudo isso é para dizer que, em meu egoísmo de amante, eu achava natural uma possível ligação entre mim e Luísa. Aquela ponta de saia sobre meus joelhos era simplesmente de uma franqueza e de um arrojo encantadores.
Apenas, algumas horas depois, punha-me a duvidar, argumentava em sentido oposto. Só uma perdida poderia oferecer-se assim, eu era um tolo em pensar que uma mulher se atirava a meu pescoço mesmo estouvadamente. A sra. Neigeon não pensava em mim. Talvez tivesse amantes, mas suas ligações eram certamente mais calculadas e menos complicadas. Devia ser grande a distância entre a mulher que eu sonhara, a mulher toda instinto, obedecendo a seu prazer, e a mulher hábil, a parisiense muito dissimulada, que sem dúvida ela era.
Ela me escapou, então, inteiramente. Nem mesmo a via mais, nem mesmo sabia mais se era realmente verdade que eu estivera cinco minutos na sombra de um camarote, a senti-la viver como eu. E foi muito desditoso, a ponto de pensar um instante em voltar a me encerrar no Boquet.
Anteontem ocorreu-me, finalmente, uma ideia que me surpreendo de não haver tido imediatamente. Era de ir assistir a uma sessão da Câmara; talvez o sr. Neigeon falasse; talvez sua mulher estivesse presente. Mas estava escrito que eu ainda não veria o diabo desse homem. Ele devia falar, mas nem mesmo apareceu: dizia-se que ficara preso em não sei qual comissão do Senado. Em compensação, ao sentar-me no fundo de uma tribuna, senti um choque, ao avistar a senhora Gaucheraud na primeira fila da tribuna em frente. Ela me viu, olhou-me sorrindo. Que pena! Luísa não estava com ela. Minha alegria desapareceu. A saída, fiz por me encontrar com a senhora Gaucheraud num corredor. Ela se mostrou íntima. Félix certamente lhe falara a meu respeito.
— Será que o senhor se ausentou de Paris? — perguntou-me. Permaneci calado, revoltado pela pergunta. Eu que andava tão furiosamente pela cidade!
— É que não se consegue encontrá-lo em parte alguma. A última recepção no ministério esteve magnífica e houve uma exposição hípica maravilhosa...
Depois, perante meu ar de desespero, começou a rir.
— Vamos, até amanhã — disse ao se afastar. — O senhor estará lá, não é?
Respondi que sim, pasmado, não ousando arriscar uma pergunta, temeroso de vê-la rir novamente. Ela voltara-se e fitava-me com ar malicioso.
— Vá — murmurou ainda, no tom discreto de uma amiga que me reservasse alguma surpresa feliz.
Assaltou-me uma vontade louca de correr atrás dela, para interrogá-la. Porém ela já entrara noutro corredor e eu exaltei-me, contra o meu amor próprio que me impedia de confessar minha ignorância. Certamente, eu estava pronto a ir lá, mas onde era esse lá? A indecisão desse encontro atormentava meu espírito e eu sentia além disso vergonha por não saber o que o mundo sabia. A noite, corri à casa de Félix, disposto a obter dele, habilmente, a informação que m faltava. Félix saíra. Então, aflito, mergulhei na leitura dos jornais, no meio das informações publicadas para o dia seguinte, qual o lugar onde seria elegante as pessoas se encontrarem. Minha perplexidade aumentou, havia toda espécie de cerimônias: uma exposição de mestres antigos, um bazar de caridade num grande clube, uma missa cantada em Sta. Clotilde, um ensaio geral, dois concertos, uma imposição de hábito, sem contar numerosas corridas. Como um recém-chegado, um provinciano que tinha consciência de sua falta de jeito, poderia interpretar semelhante confusão? Eu bem compreendia que a suprema elegância era as pessoas dirigirem-se para um desses lugares; mas qual, Deus todo-poderoso? Enfim, com risco de consumir-se o dia inteiro e de ser devorado pela impaciência, caso me enganasse, ousei escolher. Parecia-me estar lembrado de certas palavras das duas senhoras sobre corridas de Maisons-Laffitte e uma inspiração impeliu-me, resolvi ir às corridas. Tomada essa decisão, senti-me mais calmo.
Que encantador cantinho de terra é esse arrabalde de Paris! Eu  não conhecia Maisons-Laffitte, que me deixou enlevado com suas casas tão alegres, edificadas numa encosta que margina o Sena. Estamos em princípios de maio, as macieiras inteiramente alvas parecem grandes ramalhetes, no meio do verde delicado dos plátanos e dos olmos.
Entretanto, senti-me no começo muito deslocado, perdido entre os muros e as cercas vivas, porque não queria perguntar  o caminho a ninguém. Tivera a satisfação de ver muita gente tomar o mesmo trem que eu; mas, entre ela não se encontravam as duas senhoras, e à medida que eu observava os transeuntes em Maisons-Laffitte, meu coração se apertava. Estava quase me perdendo, fora das habitações, ao longo do Sena, quando forte emoção me fez estacar junto a um espinheiro. A cinquenta passos, caminhando em minha direção, um grupo de pessoas adiantava-se vagarosamente e reconheci Luísa e Berta; Gaucheraud e Félix, sempre inseparáveis, vinham alguns passos atrás. Então, eu adivinhara! Isso me encheu de orgulho. Mas tão grande era minha perturbação que cometi uma verdadeira infantilidade. Escondi-me atrás do espinheiro, dominado por uma vergonha indefinível, temeroso de parecer ridículo. Quando Luísa passou, a fímbria de seu vestido roçou pelo espinheiro. Compreendi imediatamente a tolice de meu primeiro impulso. Por isso me apressei a dar uma volta e, quando os passeantes chegavam a uma dobra da estrada, surgi com o ar mais natural possível, como um homem que se julga sozinho e se entrega à meditação ao ar livre.
— Olha! é você! — gritou Gaucheraud.
Cumprimentei, fingindo grande surpresa. Houve exclamações, trocamos apertos de mão. Mas Félix ria com seu ar estranho; enquanto Berta me dirigia uma piscadela que estabeleceu entre nós certa cumplicidade. Havíamos voltado a andar, e eu fiquei com ela, atrás, alguns segundos.
— Então, o senhor veio? — disse-me jovialmente, a meia voz.
E, sem me dar tempo para responder, gracejou comigo acrescentando que eu era muito feliz por ainda ser tão criança. Eu sentia nela uma aliada. Parecia-me que ela teria uma alegria pessoal se colocasse a sua amiga em meus braços. Depois, havendo Félix se voltado para perguntar.
— Mas de que estão rindo?
— É o senhor de Vaugelade que me está contando sua viagem com uma família inglesa — respondeu ela tranquilamente.
Gaucheraud retomara o braço de Félix e arrastava-o como que para não estorvar minha conversação com sua mulher. Piquei sozinho entre Luísa e Berta, e passei assim uma hora deliciosa, naquele caminho umbroso que ladeava o Sena.
Luísa estava com um vestido de seda, clara, e sua sombrinha forrada de rosa, banhava-lhe o rosto numa claridade cálida e suave, sem uma sombra. O campo tornava-a ainda mais livre, fazia-a falar em voz alta, olhar-me de frente, responder a Berta que a provocava a conversações audaciosas, com uma insistência que mais tarde me impressionou.
— Mas dê o braço à senhora Neigeon  — acabou, por me dizer Berta. — O senhor não é cavalheiresco, bem vê que ela está fatigada.
Ofereci meu braço a Luísa, que nele se apoiou imediatamente. Mas Berta reunira-se ao marido e Félix, e nós ficamos sozinhos, mais de quarenta passos de distância. A estrada subia a encosta e nós caminhamos muito devagar. Embaixo corria o Sena, entre prados que se desdobravam como tapetes de veludo verde. Havia uma ilha, longa e estreita, cortada pelas duas pontes onde passavam trens, com um ribombar longínquo de trovoada. Depois do outro lado da água, estendia-se uma planície imensa e plantações até o monte Valeriano, cujas edificações cinzentas eram visíveis num polvilhar de sol. E o que me comovia até as lágrimas era o cheiro de primavera espalhado à nossa volta, e que subia da vegetação, dos dois lados da estrada.
— Voltará breve ao Boquet? — perguntou-me Luísa. Tive a tolice de responder não, não adivinhando que ela ia acrescentar.
— Ah! é pena porque partimos na semana que vem para os Mûreaux, a propriedade de meu marido que fica a duas léguas da sua, creio, e ele tenciona convidá-lo para nos visitar.
Gaguejei, disse que meu pai talvez me chamasse mais depressa do que eu pensava. Parecera-me sentir seu braço premir com mais força o meu. Seria então um encontro que ela estava marcando comigo? Na ideia galante que eu fazia daquela parisiense, tão livre e tão requintada, construí imediatamente um romance, uma ligação oferecida no campo, um mês de amor sob as grandes árvores. Sim, era isso, sem dúvida ela encontrava em mim os encantos do um gentil-homem do campo, queria amar-me lá longe, no meu ambiente.
— Tenho uma censura a lhe fazer — continuou ela subitamente, revestindo um ar meigo e maternal.
— Qual? — murmurei.
— Sim, sua tia falou-me a seu respeito. Parece que o senhor não quer aceitar coisa alguma de nós. Isso é muito ofensivo. Por que recusa, diga?
Corei pela segunda vez. Estava a ponto de arriscar uma declaração, de gritar. "Recuso, porque amo-a." Porém ela teve um gesto, como se compreendesse e quisesse fazer-me calar. Depois acrescentou, rindo.
— Se é orgulhoso, se faz questão de pagar obséquio com obséquio, de boa vontade aceitaremos sua proteção, em sua terra. Sabe que há a eleição de um conselheiro geral. Meu marido vai apresentar-se, mas receia ser derrotado, o que seria muito desagradável, em sua situação... Quer ajudar-nos?
Era impossível ser mais encantadora. Essa história de eleição pareceu-me um pretexto de mulher inteligente para nos encontrarmos nos campos.
— Sem dúvida que a ajudarei — respondi alegremente.
— E se conseguir fazer eleger meu marido, fica entendido que meu marido lhe dará uma ajuda?
— Negócio feito.
— Sim, negócio feito.
Entendeu-me a mãozinha, que eu apertei.
Gracejávamos ambos. Isso realmente me parecia encantador. As árvores haviam deixado de fazer sombra, o sol caía a pino no alto da encosta e nós caminhávamos em meio a um grande calor, ambos calados. Mas o imbecil de Gaucheraud veio perturbar esse silêncio, que vibrava sob o céu de fogo. Ouvira-nos falar do conselho geral e não me largou mais, contando-me a história de seu tio, manobrando de forma a se fazer apresentar a meu pai. Afinal, chegamos ao prado. Eles acharam as corridas magníficas. Eu, de pé todo o tempo, atrás de Luísa, fitei seu delicado pescoço. E que regresso adorável, com um aguaceiro inesperado! O verde da campina, sob a chuva, fizera-se ainda mais suave, as folhas e a terra cheiravam agradavelmente, tinham um cheiro, de amor. Luísa semicerrava os olhos, cansada e como que dominada pela voluptuosidade da primavera.
— Lembre-se de nosso trato — disse-me na estação, ao subir para sua carruagem que a esperava. — Nos Mûreaux, dentro de quinze dias, não é?
Apartei a mão que ela me estendia, e receio mesmo haver sido um pouco excessivo, porque pela primeira vez ela me pareceu séria, com duas rugas de desagrado nos lábios. Mas Berta parecia incitar-me sempre a ousar cada vez mais e Félix conservava seu sorriso enigmático, enquanto Gaucheraud me batia no ombro, gritando-me:
— Nos Mûreaux, dentro de quinze dias, senhor de Vaugelade... Lá estaremos todos. Que o leve o diabo!
IV
Estou de volta dos Mûreaux e meu espírito está tão cheio de pensamentos contraditórios que preciso narrar a mim mesmo o que acabo de passar ao lado de Luísa, a fim de conseguir formar uma opinião exata.
Embora os Mûreaux fiquem apenas a duas léguas do Boquet, eu conhecia pouco esse canto de nossa terra. O terreno de nossas caçadas fica para os lados de Gommerville, e como é preciso uma volta muito longa para atravessar o riozinho de Béage, eu não estivera ali dez vezes em minha vida. O outeiro, é, todavia, delicioso, com sua estrada que sobe, orlada de grandes nogueiras. Depois, no planalto, torna-se a descer e os Mûreaux ficam na entrada de um vale cujos declives depressa se apertam numa estreita garganta. A residência, uma casa quadrada do século dezessete, não tem grande importância, mas o parque é magnífico, com seus amplos gramados e o pedacinho de floresta que o termina, tão denso que as próprias alamedas foram invadidas pelos galhos.
Quando cheguei a cavalo, dois grandes cães acolheram-me com latidos e saltos prolongados. Eu avistara na extremidade da avenida uma mancha branca. Era Luísa, vestida de claro, com chapéu de palha. Não desceu ao meu encontro, ficou imóvel e sorridente, no grande patamar que leva ao vestíbulo. Seriam quando muito nove horas.
— Ah! como é encantador! — gritou-me. — Pelo menos é madrugador!... Como vê, ainda sou a única pessoa do castelo que se levantou.
Cumprimentei-a por essa bela coragem de parisiense. Ela, porém, acrescentou rindo:
— É verdade que só estou aqui há cinco dias. Nas primeiras manhãs, levantar-me-ei com as galinhas... Apenas, a partir da segunda semana, retomo a pouco e pouco meus hábitos de indolência, acabo por descer às dez horas, como em Paris... Enfim, esta manhã, ainda sou uma camponesa.
Nunca ela me parecera tão deliciosa. Em sua pressa de sair do quarto, prendera descuidadosamente os cabelos, enrolara-se no primeiro roupão que encontrou; e, muito louçã, com os olhos úmidos de sono, voltava a ser criança. Em seu pescoço esvoaçavam pequenas mechas. Eu via seus braços nus até os cotovelos, quando suas largas mangas se entreabriam.
— Não sabe aonde eu ia? — continuou ela. — Pois bem! Ia ver, naquela ramada, lá adiante, uma trepadeira de ipomeia que, parece, é maravilhosa, quando o sol ainda não fechou suas flores. Quem me disse foi o jardineiro e, como não vi a trepadeira ontem, não quero deixar de apreciá-la hoje... O senhor me acompanha, não é?
Eu sentia muita vontade de lhe oferecer o braço, mas compreendi que seria ridículo. Ela corria como uma colegial que houvesse fugido. Chegando à ramada, soltou um grito de admiração. Toda uma tapeçaria de ipomeias pendia de cima, era uma chuva de campânulas aljoforadas de orvalho, cujos matizes delicados iam do rosa vivo ao violeta e ao azul pálido. Parecia uma dessas fantasias dos álbuns japoneses, de uma graça e de um exotismo delicados. 
— Eis a recompensa, quando a pessoa se levanta cedinho — dizia Luísa alegremente.
Depois, sentou-se sob a ramada e eu me permiti instalar-me a seu lado, ao ver que ela afastava o vestido, para me dar um lugarzinho. Estava muito comovido, porque me acudia o pensamento de precipitar as coisas, tomando-a pela cintura e beijando-a no pescoço. Bem sentia que isso seria uma brutalidade de alferes que violentasse a virtude de uma camareira. Mas não encontrava nenhuma outra coisa e essa ideia me perseguia, transformava-se em uma espécie de necessidade física. Não sei se Luísa compreendeu o que se passava comigo; não se levantou, revestiu apenas um ar grave.
— Primeiro, conversemos sobre nossos negócios, não quer? — disse-me.
Zumbia-me os ouvidos e eu forcei-me a ouvi-la. Debaixo da ramada estava escuro e um pouco frio. O sol varava a folhagem das ipomeias com tênues réstias de ouro; e, sobre o roupão branco de Luísa, elas pareciam moscas de ouro, insetos de ouro que pousassem.
— Em que pé estamos! — perguntou-me ela, com ar de cúmplice.
Contei-lhe, então, a estranha mudança que acabava de notar em meu pai. Ele que, durante dez anos, investira contra o novo estado de coisas, proibindo-me de servir à República, dera-me a entender, logo na noite da minha chegada, que um rapaz da minha idade tinha deveres para com seu país. Eu atribuía à minha tia esta conversão. Deviam haver utilizado mulheres para influenciá-los. Luísa sorria, ouvindo-me. Acabou por dizer:
— Encontrei o senhor de Vaugelade há três dias num castelo vizinho, onde eu estava de visita... Conversamos. Depois, acrescentou vivamente:
— Sabe que a eleição para o conselho geral se realiza no domingo. O senhor vai pôr-se em campo imediatamente... Com. seu pai o êxito de meu marido está garantido.
— O senhor Neigeon está aqui? — perguntei, após hesitar.
— Sim, chegou ontem de noite... Mas não o verá esta manhã, porque partiu para os lados de Gommerville, para almoçar em casa de um proprietário seu amigo, muito influente.
Ela se levantara, eu ainda fiquei um instante sentado, decididamente arrependido de não lhe haver beijado o pescoço. Jamais tornaria a encontrar um cantinho tão escuro, àquela hora matinal, quando ela mal saíra da cama, e estava apenas vestida. Agora tarde demais, e senti tão bem que a faria rir se caísse a seus pés sobre a terra úmida, que adiei minha declaração para um momento mais favorável.
Aliais, na extremidade da alameda, acabava de avistar o corpanzil de Gaucheraud. Ao ver-nos sair do bosquezinho, Luísa e eu, ele deu uma risadinha. Depois, maravilhou-se com a nossa coragem em nos levantarmos tão cedo. Ele acabava de descer.
— E Berta? — perguntou-lhe Luísa — passou uma boa noite?
— Por minha fé, não sei — respondeu. — Ainda não a vi.
E, reparando em minha surpresa, explicou que sua mulher tinha enxaqueca durante o dia, quando entrava em seu quarto pela manhã. Ocupavam dois quartos; isso era mais cômodo, principalmente no campo. E concluiu tranquilamente, dizendo sem rir:
— Minha mulher adora dormir sozinha.
Atravessamos, então, o terrapleno que domina o parque e não pude deixar de pensar nas histórias devassas que é costume contar sobre a vida nos castelos. Agradava-me imaginar um ninho de elegante devassidão, amantes caminhando descalços e sem luz ao longo dos corredores, para irem reunir-se às damas em quartos discretos cujas portas ficavam entreabertas. Isso eram prazeres de parisienses perversas, prontas a se aproveitarem das liberdades do campo, que emprestavam novo vigor a sua ligação quase no fim. E, de súbito, tive a certeza de ser meu sonho uma realidade, ao ver sair do vestíbulo, Berta e meu amigo Félix, ambos indolentes, como que alquebrados, apesar da ótima noite que acabavam de dormir.
— Não está indisposta? — perguntou delicadamente Luísa a sua amiga.
— Não, obrigada. Apenas, você sabe, a mudança, isso deixa a pessoa muito nervosa... E depois, ao alvorecer, há pássaros que fazem tanto barulho!
Eu apertara a mão de Félix. E, não sei por que, pelo sorriso que as duas mulheres trocaram, enquanto Gaucheraud assoviava, de costas curvas e complacentes, acudiu-me o pensamento de que Luísa nada ignorava do que acontecia em sua casa. Ela devia ouvir à noite aqueles passos de homem ao longo dos corredores, aquelas portas abertas e fechadas com prudente lentidão, aquelas baforadas de amor que saíam das negras alcovas, e perpassavam pelas paredes. Ah! por que não lhe beijara eu o pescoço sob a ramada! Uma vez que ela tolerava tais coisas, não se teria zangado. Já eu pensava no lugar da casa por onde poderia entrar, quando viesse à noite, para subir a seu quarto. Havia uma janela baixa, à esquerda do vestíbulo, que me parecia excelente.
O almoço era às onze horas. Depois do almoço, Gaucheraud desapareceu para fazer a sesta. Abrira-se comigo e confessara que receava não ser reeleito nas próximas eleições e que tencionava residir três semanas no distrito, a fim de aí conquistar simpatias. Por isso, após haver estado em casa de seu tio, quisera passar alguns dias nos Mûreaux, desejoso de mostrar a toda a região que estava muito bom com os Neigeon; isso, pensava, devia valer-lhe alguns votos. Compreendi que ele sentia muita vontade de também ser convidado para a casa de meu pai. A desgraça era que eu parecia não gostar de loiras.
Passei em companhia das senhoras e de Félix, uma tarde muito alegre. Aquela vida de castelo, aquelas graças parisienses que se recreiam ao ar livre ao primeiro sol do verão, são realmente encantadoras. É o salão ampliador e que provoque nos relvados; não mais o salão de inverno onde as pessoas ficam excessivamente apertadas, onde as mulheres decotadas se abanam com o leque no meio de casacas pretas de pé ao longo das paredes; mas sim um salão em festas, as mulheres, trajadas de claro, a correrem livremente pelas alamedas, os homens de paletó atrevendo-se a se mostrar simplórios um abandono da etiqueta mundana, uma intimidade que exclui o tédio das conversações artificiais. Devo confessar, contudo, que as maneiras daquelas senhoras continuavam religiosas. Luísa, depois do almoço, ao tomarmos café no terraço, permitiu-me um cigarro. Berta proferia palavras de gíria, com naturalidade. Mais tarde, ambas desapareceram, com um grande ruído de saias, rindo ao longe, uma chamando a outra, dominadas por um estouvamento que me perturbava. É tolo confessar, mas esses modos novos para mim, faziam-me esperar da parte de Luísa um encontro para uma noite muito próxima. Félix fumava charutos, tranquilamente. Eu às vezes o surpreendia a me olhar com seu ar escarninho.
Às quatro e meia, falei em me retirar. Luísa imediatamente protestou.
— Não, não, o senhor não partirá. Prendo-o para o jantar... Meu marido na certa que voltará. O senhor há de vê-lo finalmente. É preciso que eu o apresente a ele.
Expliquei-lhe que meu pai estava à minha espera. Havia, no Boquet, um jantar ao qual eu precisava comparecer. Acrescentei, rindo:
— É um jantar eleitoral, vou trabalhar para a senhora.
— Oh! Nesse caso — disse ela — vá logo... E, sabe, se tiver êxito, venha buscar sua recompensa.
Pareceu-me que ela enrubescia ao dizer isto. Estaria referindo-se apenas ao posto diplomático que meu pai insiste para aceitar? Julguei poder emprestar uma significação mais carinhosa às suas palavras. Assumi, sem dúvida, um ar tão insuportavelmente presunçoso que, pela segunda vez a vi ficar séria, com aquela ruga nos lábios que lhe dá uma expressão de altivo descontentamento. Aliás, não tive tempo para refletir nessa brusca mudança de fisionomia. Quando partia, deteve-se em frente à entrada um pequeno carro. Eu já estava pensando na volta do marido. Mas só havia no carro duas crianças, uma menina de cinco anos aproximadamente e um garotinho de quatro, acompanhados por uma criada de quarto. Eles estendiam os braços, riam; e, assim que desceram, correram a se atirar nas saias de Luísa. Ela beijava-lhe os cabelos,
— De quem não essas belas crianças? — perguntei.
— Minhas! — respondeu-me com ar de surpresa.
Dela! eu não saberia exprimir o golpe que essas cinco palavras me causaram; pareceu-me que, de súbito, ela me escapava, que aqueles entezinhos cavavam com suas débeis mãos, entre mim e ela, um fosso intransponível. Como! tinha filhos, e eu de nada sabia! Não pude conter este grito brutal!
— Tem filhos!
— Sem dúvida — disse ela tranquilamente. — Eles foram ver a madrinha, esta manhã, a duas léguas daqui... Permita-me que lhos apresente: senhor Luciano, senhorita Margarida.
Os pequenos sorriam-me. Eu devia estar com um ar apalermado. Não, não me podia conformar com a ideia dela ser mãe. Isso transtornava todas as minhas ideias. Parti, com a cabeça zumbindo e ainda agora não sei o que pensar. Vejo Luísa sob a ramada de ipomeias, e vejo-a beijando os cabelos de Luciano e de Margarida. Decididamente, essas parisienses são por demais complicadas para um provinciano de minha espécie. Preciso dormir. Amanhã procurarei compreender.
V
Isto é o desfecho da aventura. Oh! que lição! Mas procuremos contar as coisas friamente.
Domingo, o sr. Neigeon foi eleito conselheiro geral. Após a apuração do escrutínio, ficou evidente que, sem nosso apoio, teria sido derrotado. Meu pai, que viu o sr. Neigeon, deu-me a entender que um homem tão absolutamente medíocre não seria de recear; aliás, tratava-se de derrotar o candidato radical. À noite, após o jantar, o velho homem despertou em meu pai, e ele contentou-se em me dizer:
— Tudo isso não é muito direito. Mas todos me disseram que eu trabalhava para ti... Enfim, faze o que deves fazer, quanto a mim só me resta retirar-me, porque não estou mais compreendendo.
Na segunda e terça-feira, hesitei em ir aos Mûreaux. Parecia-me que seria um tanto brutal ir tão depressa procurar agradecimentos. Aliás, as crianças não mais me estorvavam. Eu argumentara, provando a mim mesmo que Luísa era tão pouco mãe quanto possível. Não se dizia, em minha província, que as parisienses jamais sacrificavam um prazer a seus filhos, e que os entregavam aos criados para ficarem livres? Ontem, quarta-feira, todos os meus escrúpulos se dissiparam. Devorava-me a impaciência, pus-me em campo, às oito horas.
Tencionava chegar aos Mûreaux, como da primeira vez pela manhã, e encontrar Luísa sozinha, quando se levantasse. Mas, quando saltei do cavalo, um criado disse-me que a senhora ainda não saíra do quarto, sem se oferecer, aliás para ir preveni-la.
Respondi que esperaria por ela,
E, realmente, esperai duas horas a fio. Não sei mais quantas vezes dei a volta aos canteiros. De vez em quando erguia os olhos para as janelas do primeiro andar, mas as venezianas continuavam, hermeticamente fechadas. Cansado e nervoso com esse prolongado passeio, acabei por ir sentar-me sob a ramada de ipomeias. Nessa manhã, o tempo estava nublado, o sol não se esgueirava em poeira de ouro por entre as folhas. Era quase noite, em meio àquela vegetação. Eu refletia, dizia comigo que devia arriscar tudo. Minha convicção era que, caso novamente hesitasse, Luísa nunca me pertenceria. Eu me animava, evocava o que me fizera julgá-la condescendente e fácil. Meu plano era simples e eu o amadurecia: assim que ficasse sozinho com ela, tomar-lhe-ia as mãos, fingiria estar perturbado, para não assustá-la muito no começo; depois, beijar-lhe-ia o pescoço, e o mais caminharia sozinho. Pela décima vez, aperfeiçoava meu plano, quando Luísa de súbito apareceu.
— Onde está o senhor metido? — dizia alegremente, buscando-me na obscuridade. — Ah! está aí! Faz dez minutos que o procuro... Peço-lhe perdão por tê-lo feito esperar.
Respondi-lhe, com a garganta um pouco apertada, que a espera nada tinha de fastidiosa quando se pensava nela. 
— Eu o avisara, — disse ela sem parecer notar essa sensaboria — de que sou campesina apenas na primeira semana. Agora, tornei-me novamente parisiense e não posso mais deixar minha cama.
Ficara na entrada da ramada, como se não quisesse aventurar-se no negrume das folhas.
— Pois bem! Não vem? — acabou por me perguntar. — Precisamos conversar.
— Mas estamos muito bem aqui — disse eu em voz trêmula. — Podemos conversar nesse banco.
Ela ainda hesitou um segundo. Depois, corajosamente.
— Como queira. Aqui está tão escuro. É verdade que as palavras não têm cor.
E sentou-se a meu lado. Eu me sentia desfalecer. Então chegara a hora! Mais um minuto e eu lhe tomaria as mãos. Enquanto isso, sempre muito à vontade, ela continuava a falar com sua voz límpida que nenhuma emoção alterava.
— Não lhe agradecerei com frases feitas. O senhor nos deu uma boa ajuda, sem a qual teríamos levado a pior.
Eu não estava em condições de interrompê-la. Tremia e exortava-me à audácia.
— Aliás, entre nós, as palavras são inúteis — continuou ela. — O senhor sabe, fizemos um trato...
Ria ao dizer isso. Esse riso decidiu-me subitamente. Agarrei-lhe as mãos, e ela não as retirou. Eu as sentia muito pequenas e cálidas nas minhas. Ela as abandonava amistosa, familiarmente, enquanto repetia:
— Sim, não é? Cabe-me agora cumprir a minha parte.
Ousei, então, forçá-la, tirar-me as mãos para colocá-las em meus lábios. A sombra aumentara, sobre nossas cabeças devia estar passando uma nuvem; embriagava-me o cheiro forte da relva, naquele refúgio de folhagem. Mas, antes de meus lábios pousarem em sua pele, ela desprendeu-se com uma força nervosa de que eu não desconfiava, e por sua vez agarrou-me fortemente pelos punhos. Segurava-me agora, sem cólera, com a voz sempre serena, um pouco exprobativa, contudo.
— Vejamos, não cometa infantilidades — disse. — Eis o que eu temia. Permite-me que lhe dê uma lição, enquanto o tenho aqui, num cantinho?
Tinha a severidade sorridente de uma mãe que censura um garoto. ,
— Desde o primeiro dia compreendi perfeitamente. Disseram-lhe horrores a meu respeito não é?... O senhor esperou coisas e desculpo-o, porque não sabe coisa alguma sobre o nosso mundo; chegou a Paris com as ideias desta terra de lobos... Depois, ainda pensa que a culpa é um pouco minha de o senhor se haver enganado. Eu deveria fazê-lo parar, e o senhor se teria retirado a uma palavra minha. É verdade, não pronunciei essa palavra, deixei-o prosseguir, deve-me considerar uma faceira abominável... Sabe por que não disse tal palavra?
Gaguejei. A surpresa de semelhante cena me paralisava. Ela me apertava ainda mais os punhos. E acudia-me, falando-me tão juntinho que eu lhe sentia a respiração em meu rosto.
— Não lhe disse, porque o senhor me interessava e eu lhe queria dar essa lição... Ainda não compreende, mas refletirá e adivinhará. Caluniam-nos muito. Talvez façamos tudo que é necessário para isso. Apenas, está vendo, há as que são honestas, mesmo entre aquelas que parecem as mais loucas e as mais comprometidas... Tudo isso é muito delicado. Repito-lhe que refletirá e que compreenderá.
— Solte-me — murmurei todo confuso.
— Não, não o soltarei... Peça-me perdão se quer que eu o solte.
E, apesar de seu tom de gracejo, senti que se irritava, que lhe subiam aos olhos lágrimas de cólera, sob a afronta que eu lhe fizera. Um sentimento de estima, verdadeiro respeito por essa mulher tão encantadora e tão forte, avultava em mim. Sua graça de amazona em suportar virtuosamente a imbecilidade do marido, sua mistura, de faceirice e de severidade, seu desprezo pelos maus conceitos é seu papel de homem de casal disfarçado pelo estouvamento de sua conduta, faziam dela uma figura muito complexa que me infundia consideração.
— Perdão! — disse eu humildemente.
Ela, me soltou. Levantei-me logo, enquanto ela continuava tranquilamente no banco, nada mais receando da obscuridade, nem do cheiro perturbador das folhagens. E recuperou sua voz alegre, dizendo:
— Agora, volto ao nosso trato. Como sou muito honesta, pago minhas dívidas... Olhe, aqui está sua nomeação para secretário de embaixada. Recebi-a ontem de noite.
E, ao ver que eu hesitava em segurar a sobrecarta que ela me estendia:
— Mas — exclamou com uma ponta de ironia — parece-me que agora o senhor bem pode dever uma fineza a meu marido.
Tal foi o desfecho de minha primeira aventura. Quando saímos da ramada. Félix estava no terraço, com Gaucheraud e Berta. Mordeu os lábios, ao me ver chegar, segurando a nomeação. Sem dúvida estava a par de tudo e zombava de mim. Tomei-o à parte para lhe exprobrar amargamente o me haver deixado cometer semelhante falta; mas ele me respondeu que somente a experiência formava a mocidade; e, como eu lhe indicasse Berta, que caminhava à nossa frente, interrogando-o também quanto a essa, ele levantou os ombros de maneira muito significativa. Sendo assim as coisas, devo confessar que, apesar de tudo, ainda não compreendo muito bem a estranha moral do mundo, onde as mulheres mais honestas têm condescendências singulares.
O que me proporcionou o último golpe foi saber, pelo próprio Gaucheraud que meu pai os convidara a ele e sua mulher, para virem passar três dias no Boquet. Félix voltara a sorrir ao nos comunicar que regressava a Paris no dia seguinte.
Então, fugi, pretextei haver prometido formalmente a meu pai estar de volta para o almoço. Já estava no extremo da avenida, quando avistei um cavalheiro num cabriole. Devia ser o sr. Neigeon. Por minha fé! prefiro haver deixado de me encontrar com ele mais uma vez. Domingo, Gaucheraud e sua mulher virão instalar-se no Boquet. Que penitência!