sexta-feira, 22 de junho de 2018

Temas Poéticos: NOITE I


À Noite

GUILHERME DE AZEVEDO
“A Alma Nova” (1874)

Eu gosto de velar a percorrer os mundos
Ó noite dos bons cânticos,
Aos lívidos clarões dos astros vagabundos
Nos êxtases românticos,

Enquanto a vil cidade, a cortesã devassa
Dos falsos ouropéis,
Com seus famintos cães, a sua lua baça
E os seus negros bordéis,

Ressona torpemente aos beijos deletérios
Dalguns velhos amantes;
— os longos hospitais e os tristes cemitérios
Que a afagam delirantes!

Contudo eu também sei que existe muito instante
De gelos, em que tu,
Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
No pobre seio nu!

Que há horas em que vens, nas úmidas cidades,
Nas choças, nos esgotos,
Cuspir cinicamente as frias tempestades
No seio vil dos rotos,

Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa
Um dia sem ter pão,
Nem dessa esfarrapada e velha populaça
Que rosna como um cão!...

Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
O manto dos horrores,
E o gládio vingador das cóleras celestes
Ó noite dos amores,

Retomas o tom puro e santo do mistério
Da pálida mulher
Que vai colher, cismando, um lírio ao cemitério
E ao campo um malmequer!

Em horas de tormenta és a mulher colérica!
Até cospes na cruz!
E formam-te espirais na coma atmosférica
As víboras de luz!

Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,
Em doce e plena paz,
É que a virtude sonha e que a desgraça dorme
Depois das horas más,

E em lúcidos cristais há cintilantes vinhos;
Os casos mais galantes;
As lânguidas canções; os belos desalinhos
E os gestos provocantes!

Ó filha do silêncio! Aos puros alabastros
Dos ombros ideais,
Se Deus arremessasse a quantidade de astros
Que em ti brilham a mais,

As pálidas visões que passam doloridas,
E um tanto contristadas,
Haviam de surgir de estrelas revestidas
Em trajos de alvoradas!

Em ti cuida escutar uns sons inexprimíveis
De lânguidas canções,
O pobre sonhador de coisas impossíveis
Que adora as solidões!

E quando o resplendor de mundos luminosos
Na tua fronte cinges,
Os gatos sensuais, elétricos, nervosos
Repousam como esfinges;

Enquanto as combustões dos lívidos cometas,
Errantes e fatais,
Consomem lentamente as grandes borboletas
Dos nossos ideais!

★★★

Ritmos da Noite

CRUZ E SOUZA
“Missal” (1893)

Lá fora a noite é estrelada e quente.
Chego da rua. A vida ferve ainda nos cafés com intensidade. No Londres, uns imbecis dourados de popularidade fácil saudaram-me, e, nessa saudação, senti o ar episcopal das proteções baratas que os conselheiros costumam dar aos jovens esperançosos.
Eu percebi o conselherismo e tive uma careta, uma grimace diabólica de ironia…
Oh! Oh! infinitamente incomparáveis os caríssimos imbecis dourados de popularidade fácil…
— No meu quarto, entro, enfim, agitado, da rua, com mil ideias, com mil impressões e dúvidas e fundamente considero, tenho tão estranhos monólogos mentais, que quase que me alucinam.
A luz da vela, em torno à sombra do quarto, põe uma claridade velada, penumbrada, quase morta.
Um retrato de Daudet, pendurado à parede, parece ter para mim uma piedade no seu fino perfil de Cristo alemão.
Ah! por que será que na hora dos estrangulamentos supremos, quando a dor nos alanceia e torna velhos, os objetos têm todos, para nós, uma feição singularmente diversa da que têm sempre – ou sinistra, ou agressiva, ou piedosa?
Por que será que nas longas noites desolação, quando uma ventania de desespero sopra por trompas de bronze do nosso peito, todas as coisas desfalecem aos nossos olhos, as perspectivas se anulam, os astros louros se apagam e a própria luz de uma lamparina ou de uma vela projeta claridade dúbia, que antes punge, que antes apunhala e dói, do que alumina!?
O coração cerra-se-nos de uma névoa triste, e, como um solitário monge, põe-se a balbuciar não sei para que mundos distantes, orações indefinidas, kiries eternos e nostálgicos, de um nebuloso sentimentalismo, que estão no fundo de todos os seres espirituais.
São fluidos íntimos, virginais, da alma, que sobem para o desconhecido; são incensos inefáveis de que está cheio o turíbulo do nosso amor e que, nos lancinantes momentos em que se desmorona para nós alguma força nobre, alguma força edificante, partem candidamente para as regiões do Ideal, país jamais descoberto e que só o pensamento logrou conhecer…
Vão lá saber qual é a tecla sombria que vibra o nosso organismo em certas horas, qual é a corda que pulsa, quais os nervos que se agitam!
Por uma impressionabilidade indizível, por um toque no orgulho, por uma mancha no cetim branco da Arte, lá fica uma nobre cabeça doente, sob a febre das nevroses, sentindo eboluir o sangue em chama e sentindo até que o cronômetro regular do pulso alterou a marcha das vibrações…
Tudo o que nos vem às ideias são princípios de demolição, de destruição, armados das rijas couraças e das agudas lanças da sua inevitabilidade.
O mundo surge-nos logo como uma formidável floresta dos tempos primitivos e só tremendos animais de uma colossal corpulência urram e bufam sanguinolentos.
E a noite, que verte fel no espírito, arrebatando-o não sei para que inferno de agitações, não sei para que tercetos do Dante, ainda mais peadas barras de chumbo arroja sobre o florido arbusto da Crença, cujas flores luminosas já a indiferença humana calcou a pés, ou a ruidosa, jogralesca multidão dos cafés desdenhosamente cuspiu em cima.
E, nessas batalhas, batalhas vivas, acres, onde o coração está eternamente a sangrar, a sangrar; nesses rudes combates, ao mesmo tempo tão puros e fidalgos, a carne é o menos que fica ferido, os músculos são o menos que se perde, os nervos o menos que se atrofia.
O que se perde de todo é a alta penetração da Vida, do Mundo e dos Homens, para terrivelmente se adquirir uma doença amarga, aguda e dilacerante, que se constitui das frias e tortuosas análises e que se chama – Psicologia.
★★★

A Noite

AUGUSTO DOS ANJOS
“Eu” (1912)

A nebulosidade ameaçadora
Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios
E urde amplas teias de carvões sombrios
No ar que álacre e radiante, há instantes, fora.

A água transubstancia-se. A onda estoura
Na negridão do oceano e entre os navios
Troa bárbara zoada de ais bravios,
Extraordinariamente atordoadora.

À custódia do anímico registro
A planetária escuridão se anexa...
Somente, iguais a espiões que acordam cedo,

Ficam brilhando com fulgor sinistro
Dentro da treva onímoda e complexa
Os olhos fundos dos que estão com medo!

★★★

Noites amadas

AUTA DE SOUZA
“Poemas”

Ó noites claras de lua cheia!
Em vosso seio, noites chorosas,
Minh’alma canta como a sereia,
Vive cantando num mar de rosas;

Noites queridas que Deus prateia
Com a luz dos sonhos das nebulosas,
Ó noites claras de lua cheia,
Como eu vos amo, noites formosas!

Vós sois um rio de luz sagrada
Onde, sonhando, passa embalada
Minha Esperança de mágoas nua...

Ó noites claras de lua plena
Que encheis a terra de paz serena,
Como eu vos amo, noites de lua!

★★★

Noite branca

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

A noite branca, a noite enluarada
É tua irmã: Aonde ela dorme? Aonde?
Em que astro canta? Em que lagoa nada?
Em que pedaço azul do céu se esconde?

Em toda parte os vossos olhos ponde;
Buscai a egípcia lúbrica e estrelada:
Há quem seu ninho de águia negra sonde?
Mar infiel, em teu seio anda enterrada?

Destino, foi assim que ma fizeste:
Pairam-lhe os sóis aos pés em muda prece;
Um peplo sideral seu corpo veste.

Donde vem tanta sombra então? Parece
Que é toda luz a pérola celeste,
E é dela que em minh’alma a noite desce.

Temas Poéticos: MULHER I


Hino à Mulher

LUÍS DELFINO
“Íntimas e Aspásias” (1935)

Mulher, lírio puríssimo do vale,
Eva criada, Eva renascida,
Só para amar e para ser querida,
Há perfeição acaso que te iguale?

Antes que o alento extremo o poeta exale,
Sabe que de ti sai perene a vida:
Que sendo a Virgem-Mãe preconcebida,
Ninguém na terra ou céu hoje te vale.

Há um clarão sutil e peregrino
Que em ti corre e te faz um ser divino,
Tens em ti, alma e corpo, a luz dos sóis.

Há um Deus? — És a Mãe: Ele é teu filho;
Há um Herói? — De ti lhe vem o brilho:
Mulher, ó Mãe de deuses e de heróis.

★★★

À Mulher

MANUEL DE ARRIAGA
“Cantos Sagrados” (1899)

Senhor da Força, nós, o herói lendário,
Da Terra o domador, o sábio, o forte,
Dir-se-ia que juramos ante a morte
Guerra d'irmão a irmão!...
Mais feros do que os tigres, destruímo-nos
A ferro, a fogo, a pólvora, a metralha,
Deixando, pelos campos de batalha,
O sangue, a assolação!...

Mudou agora o Eterno ao mundo a rota
Que há séculos trazia... e novos astros
Despontam no horizonte, e em nossos mastros
Mais rutilos troféus!...
Em vez da guerra truculenta e ímpia,
Impõe-nos por princípio a Paz dos Povos,
Que impávidos demandam mundos novos,
Nova luz, novo Deus!...

Fechado para sempre o férreo ciclo
Da guerra universal, obscuro berço
Do velho mundo bárbaro, inda imerso
Nas lendas dos heróis:
Compete a Ti, Mulher, filha dileta
De Deus, c'roar na Terra a grande obra,
Que em fúlgido progresso se desdobra,
À clara luz dos soes!...

Missão mais nobre à vida humana é dado:
Juntar e repartir de muitos modos,
Por cada um de nós, e em prol de todos,
Do Bem a eterna luz,
Fazendo com que caiam na nossa alma,
Qual chuva em messe loira e movediça,
Numa missão d'amor e de Justiça,
Os sonhos de Jesus!...

Em vez da Força, amor rege hoje o mundo!
E amor, tomando as galas da Beleza,
As normas de Justiça, a mãe, a deusa
Das novas gerações:
Ao teu celeste influxo, posto à sombra
Da mãe de todos nós, a Humanidade,
A paz será na Terra, e na Verdade
Os nossos corações!...

Beleza e amor, unindo-se, fizeram
Do teu mimoso ser um relicário,
Onde a mão do divino estatuário
Os sonhos seus guardou!...
D'encantos mil, conjunto incomparável!
A Deus já mereceste tal conceito,
Que só do amor divino do teu peito,
A vida confiou!...

Teu lindo rosto, espelho da sua alma,
Transporta-me a ideais de tal apreço,
Que em frente dele extático estremeço,
E ponho-me a cismar:
Se entre as ondas de graça e de beleza,
Que lançam sobre mim seus olhos ternos,
Está ou não oculto a bendizer-nos
De Deus o próprio olhar!...

Tem jus as níveas formas do teu corpo
Ao flácido veludo, à fina seda,
Primor da indústria humana que arremeda
As pétalas da flor!
Rainha! traja mantos d'ouro e púrpura,
A doce perl'a, o fúlgido brilhante,
E tudo quanto esplêndido levante
Na Terra o teu amor!

Amor se simboliza num menino,
Dos céus gentil e alado mensageiro,
Trazendo atrás de si, como um cordeiro,
Pacífico leão!
O mágico poder que a fera doma,
A força de que se arma esse inocente
És tu mulher, e a fera obediente
O nosso coração!

Cônscia de Ti, das leis da vida, impera!
E aos pés verás as almas subjugadas!
Tem mais poder que o fio das espadas,
Um riso e olhar dos teus!
Que o teu propício amor, dos céus oriundo,
Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique,
Nos faça com que a alma humana fique
Mais próxima de Deus!

★★★

A Mulher

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

Há pelos mundos um pendor divino
da luz para o céu, da viração para a flor,
do fio d'água para as campinas verdes,
de nossas almas... respondei, amor!
Do berço à cova, do sorriso à lágrima
ha sempre um sonho que nos chama e quer.
E nós caímos descuidados, presos
nos róseos dedos de gentil mulher.

Podem as auras não abrir os lírios,
o rio, o mar não refletir o céu:
mas dentro em nós, ai! não há flores mortas,
se amor as cobre com dourado véu...
Visão perpétua, borboleta branca,
o amor tem azas mas se foi prender...
no sol? na treva? na amplidão? no abismo?...
nos róseos dedos de gentil mulher.

Por isso quando nós, crianças doidas
interrogamos do porvir o mar,
colhendo louros — onde as urzes nascem,
pedindo aromas — ao deserto altar;
não são bem d'alma as ilusões criadas
tem pouca vida o que se fez nascer,
se não prendemos, como estrela, o sonho
nos róseos dedos de gentil mulher.

E se a esperança não mentir, se alegres
vermos o fruto do trabalho após;
se pressentimos o futuro cheio
dessa ventura que palpita em nós;
essas primícias — que nos deu a glória,
as flóreas palmas — que o porvir nos der,
engrinaldadas, oh! serão por eles...
os róseos dedos de gentil mulher.

E como a vida é esse misto enorme
de pranto e riso, de veneno e flor,
quando a lufada nos lançar à noite,
mártir às feras, peregrino à dor;
então assoma junto a nós, sublime,
um vulto, a esposa que nos vê sofrer...
E Deus suspende uma esperança ainda
nos róseos dedos de gentil mulher!

★★★

Mulheres

CRUZ E SOUZA
“Missal” (1893)

Magnólias de aroma lépido, finos astros, que elas sejam, olhos faiscantes, como águas dormentes de delicioso Danúbio que a luz sonoriza e doira, humildes e imperiosas, ninguém jamais saberá o mistério que as envolve…
Amar e gozar as nebulosas mulheres, mergulhar, engolfar a alma infinitamente, inefavelmente, em repouso, como num harmonioso luar, sem sobressaltos e ansiedades, na alma enevoada que elas ocultam sempre, só é dados às naturezas vulgares, que amam com a carne, que amam com o sangue apenas, no ímpeto brutal de todos os instintos, com a luxúria viva da carne, que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica.
Os que a amam e gozam sensualmente, à lei da sexualidade, não lhes ouvem a vaporosa música embriagante do vinho dos encantos da voz e do sorriso; não lhes sentem o perfume delicado de úmidas bocas purpúreas, de níveos colos cor de camélia, de volumosos seios macios como a alava plumagem fresca de um pássaro real; não lhes percebem o amoroso ansiar de etéreas cintilações d’estrela nos olhos indagadores, que atravessam, costumam passar em visão, pesados de luz, com um brilho aceso e fagulhante de preciosas e raras pedrarias, as geladas noites brumosas do ciúme…
Para esses, que só as possuem sexualmente, elas trazem um deleite, um atrativo, como no Oriente o fumo, que dá prazeres insubstituíveis, voluptuosas graças de viver, atila e acende a imaginação, faz abrir e flamejar, incomparavelmente, de todos os pontos do mundo, os mais inauditos sóis do Espírito…
Esses, ainda outros ou todos, poderão decerto inundar-se no esplendor da beleza das mulheres, fruir delas toda a fremente carícia, possuí-las, dominá-las sem hesitação e embaraços estranhos.
Para todos elas não terão sombrias torcicolosidades de serpentes, anseios, anelos indecifráveis, enigmas tremendos, que nos deixam deslumbrados, extáticos, na mais intricada rede de perplexidade.
Elas serão para todos o eterno feminino, leve, simples, fácil a conquista, fácil a vitória, tendo para os homens os arrastamentos prontos de um animal que se abandona à lubricidade.
Ninguém saberá ver nas mulheres esse complicado segredo de nervos, que ora se patenteia claro penetrável e que ora mais se condensa, se intensifica de obscuridade, torturando, afligindo, vago, abstrato como a dor e por isso ainda mais terrível, mais esmagador e frio…
Só um ser, consubstanciado de todas as angústias, de todas as incertezas e dilaceramentos do espírito, um ser contemplativo, amargurado pelas análises, ferido sempre pela observação, pelas ideias que sangram e vivem perpetuamente a martirizá-lo, para seu gosto excêntrico e único, só esse ser as compreenderá, mudo e solene, encerrado na solidão dos seus pensamentos, como um missionário, alheio às exterioridades dos corpos delas, às linhas, ou só as amando por sentimento estético e analisando continuamente, sondando, perscrutando o feminino organismo dúbio.
Só a psicologia desse ser, que é o artista, saberá ver fundo o delicado ser das mulheres e penetrar nas sutilezas, nas direções variadíssimas e múltiplas que toma o seu espírito, à maneira das aves que voam alto, sem rumo, além, indefinidas na distância…
Esse poderá querê-las muito, adorá-las com outra chama sagrada; mas nunca as poderá amar carnalmente, friamente com os nervos – porque aparecerá sempre o analista sufocando o afeto espontâneo que não se delimita nem regulariza, o entendimento artístico, que ama a Forma, destruindo o fator humano que fecunda a carne, que perpétua a Espécie.
Quanto mais elas forem complexas, segredantes, tanto mais a análise se manifestará mais arguta, mais penetrante, de um modo experimental, nu, amplo; e as mulheres, afinal, ficarão diante do artista, como documentos palpitantes de uma dada natureza, provas flagrantes de paixões veementes, de desejos, de vontades, de uma infinidade de atributos e qualidades radicalizadas na alma feminina e que o pensamento do artista investiga, conhece, põe para fora, à toda a luz, como se expusesse, na presença do mundo, explicando a função de cada um, os milhares de glóbulos de sangue que circulam no organismo humano.
A dor de tudo isso, porém, a pungitiva dor de tudo, é que o artista não pode, assim como todos, espontaneamente amar.
Ele ama um golpe de luz, um olhar, a fascinação de uns cabelos quentes, a polpa virgem de uns seios, a graça idealizante e alada de um sorriso, o talho vermelho de uns talhos frescos, o tom das elegâncias fidalgas dessas flores escarlates das Babéis de ouro, que passam na corrente das civilizações e na febre, no delírio dos luxos fortes.
Vendo para dentro de si, como para o fundo de um mar prodigioso, ele domina com o olhar perscrutante, inquieto, que apanha de pronto as situações, a maravilhosa ductilidade das mulheres, vendo também perfeita e singularmente o que se dá dentro delas, as suas inquietudes, as suas paciências, os seus receios, os seus caprichos inesperados, as suas volubilidades doentes e curiosas, as suas resoluções bruscas, os seus ímpetos de leoa, os seus enternecimentos ingênuos e monocórdios, os seus momentos horríveis de crises hiper-histéricas, sem causa determinada, sem assinalamentos de origem, mas assoberbantes, convulsos e que de repente cessam como vieram, para tornarem ainda, mais desabridos e persistentes.
As mulheres, para o artista, para e estesia exigente, requintada, são apenas um elemento de sugestão estética amoldável às necessidades artísticas do sugestionado. Elas falam, abrem-se mesmo ao amor em rosas fecundas de sinceridade, dizem os ardores apaixonados, as recônditas sensações, a vida íntima dos eu afeto; mas o artista as ouvirá, como artista que é, a frio, simulando interesse, formando já, mentalmente, com as palavras delas, com essa confissão franca, pura e sentida, embora, verdadeiras páginas de emoção e estilo.
E, no entanto, ele as quererá amar muito, eternamente e sem reservas, abrir-lhes os braços ao amor, com todas as forças másculas, vigorosas e livres de homem, com a firmeza mais casta dos carinhos e das ternuras, estremecendo-as, idolatrando-as.
Mas, um ligeiro contato apenas, um leve roçar de lábios, um abraço desfalecido, murcho, algumas frases balbuciadas materialmente, ao acaso – e aí estará de novo o mentalizado, o espiritual, descendo a investigações, medindo cada gesto e cada olhar, inquieto, aflito com a expressão de um toque de luz numa trança de cabelos, que ele quer levar para a sua Obra ou preocupado com o fino Sèvres que fulgurou uma noite em certo boudoir, faiscando centelhas d’astro.
Contudo, quando esse luminoso torturado as vê descendo ou subindo os átrios claros de palácios festivos, altas Walquírias de neve nas pompas orgulhosas das sedas que roçagam, como que fica preso, magnetizado por aqueles aromas fluidos, vivendo na auréola majestosa do clarão que elas de si desprendem; e então, como na cauda constelada e rojante, os fulgores sedosos levam aspirações, sonhos que ficam errantes e que quereriam talvez subir ou descer, opulentamente, como as deusas resplandecentes, os mesmos festivos palácio de átrios claros.
Entretanto, não é aí o amor, o sentimento que se manifesta ainda na alma artística; não é uma expansão afetiva – mas uma verdadeira expressão d’arte, um desejo de posse, que logo invade as naturezas dominadoras, altivas, onde as ideias predominam, atuando, fatais e intensas, nos fenômenos da Vida, os mais elementares ainda.
O que excita o artista, seja nos átrios claros de palácios ou em toda a parte, é simplesmente a Forma, é toda essa roupagem deslumbrante que faz as mulheres parecerem auroras boreais; o que lhe incita a pensar nelas, a desejá-las, é a plástica olímpica, o onipresente esplendor das curvas cinzeladas, os mármores coríntios, o alabastro dos corpos flóreos... O que o surpreende, deixa atraído e fascinado é o ar gelado da carne alva das loiras, que deliciam, o ardente sol tropical da carne tentadora das morenas, que cheiram a sândalo e matas.
Amar as mulheres, profundamente, com simplicidade, com singeleza, sem cuidados latentes de observá-las a toda hora, com os mínimos detalhes, linha por linha, traço por traço, sem essa preocupação doente que as exigências provocam, não é para a concentração, para a contenção nervosa dos falangiários da Arte, que, de todas as coisas, querem arrancar o germe de que necessitam, o pólen que lhes é mister para a fecundação de sua Obra.
A linguagem feminina, algumas fiorituras das frases passageiras constituem, de certo modo, um tecido primoroso, os fios delicadíssimos com que a Arte contextura, urde a tecelagem da Forma.
Mas o desolado psicologista do Pensamento não as pode amar com intensidade e desprendimento espirituais, sem as querer observar sempre, desataviá-las das plumagens garridas e ver-lhes, à luz, o que elas sentem e pensam de nebuloso…
Por isso é que muito naturalmente, por intuição própria, elas percebem que não poderão jamais amar os artistas, tendo até para eles uma repulsão como que instintiva e sendo mesmo indiferentes às suas solicitações mais veementes e calorosas.
Vendo-se a cada instante o objeto das interpretações deles, reveladas através de seus pensamentos tão recatados como os seus seios, os pudores dos seus corpos angélicos, em tantas páginas dilacerantes e impiedosas, as mulheres não buscam sistematicamente os artistas para amar, feridas nos seus orgulhos melindrosos, nas suas vaidades excessivas e principescas, nas suas finas susceptibilidades de formosos seres triunfantes e inaccessíveis.
Só raramente, por singularidade, uma ou outra mulher ama o artista, quando já acaso existe nela qualquer corrente de simpatia mental, qualquer relação de afinidade que estabeleça entre ambos uma claridade e harmonia de sentimentos mais ou menos congêneres, equilibrados.
★★★

Mulher Nova

LUIZ DELFINO
“Imortalidades” (1941)

Qualquer pequena coisa a remodela,
Como dar tom mais doce à velha trova:
E ei-la outra Vênus, que saiu da cova,
E outra estranha beleza se revela.

Uma nova mulher irrompe dela
Em gesto novo, em atitude nova,
Como se recebesse de um Canova
Etéreo golpe, que a tornou mais bela.

Cantou Helena? é outra: alguns instantes
Mais quero ouvi-la, e lhe pedir conselhos
Ante seus olhos, — dois gentis diamantes.

E entre os seus risos de corais vermelhos,
Misturados com pérolas brilhantes,
Preso aos seus pés... preso aos seus pés de joelhos...