quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Juvenal e o Dragão (Adaptação em prosa), por Iba Mendes

 


JUVENAL E O DRAGÃO

Havia seis anos que um velho camponês tinha perdido a esposa, restando para criar um filho e uma filha, com os quais morava numa humilde casinha na periferia de um antigo ducado.

Certo dia o pobre homem foi acometido de uma grave e incurável moléstia. Ciente do seu fim próximo, chamou os filhos e lhes anunciou que morreria brevemente:

– Sinto que estou prestes a deixar este mundo. Infelizmente os únicos bens que me restam são essa miserável choupana e os três carneiros que ali vedes pastando. Essa será toda a herança que vos caberão.

No dia seguinte, o velho expirou. Os dois filhos, que nesse tempo já eram adultos, combinaram então entre si o que caberia a cada um como herança:

– Como possuem o mesmo valor, você fica com os três carneiros e eu fico com a casa – disse a moça.

O rapaz, que se chamava Juvenal, não fez objeção à escolha da irmã, cujo nome era Sofia. Porém, como tinha o espírito aventureiro, anunciou que partiria pelo mundo levando seus três animais. Passado algum um tempo, Juvenal chamou Sofia e lhe falou:

– Amanhã eu pegarei meus três carneiros e sairei por esse mundão de Deus. Você precisa ir morar com o seu padrinho.

Já no outro dia, após tosquiar os carneiros e prover para si o mantimento necessário, despediu-se ele da irmã e partiu cedinho.

Seguiu então seu destino e, quando deu meio-dia, parou para descansar à sombra de um arvoredo. Enquanto isso, os três carneiros ficaram por perto pastando. Porém, sem que se fizesse anunciar eis que aparece ali um sujeito estranho. Era um caçador que passava com três cães e que também queria repousar à sombra daquelas árvores. Este, assim que parou, foi logo dizendo:

– Olá! Porventura são seus aqueles três carneiros que pastam ali atrás? Quer trocá-los por esses três cachorros? Fará, sem dúvida, um excelente negócio.

– Qual trocar! – respondeu Juvenal. – Os meus carneiros buscam eles mesmos a própria comida, ao passo que os cães, para estes terei que prover o sustento!

Ao que o outro retrucou:

– Aí é que você se engana, meu rapaz! Esses são três excelentes cães de caça. Quando estou com fome, por exemplo, digo: “Rompe-Ferro mão à obra”, e imediatamente ele traz comida para si e para mim. Cada um desses cachorros tem uma característica própria e, se preciso for, são capazes de até morrer pelo seu dono. Seus nomes são: Rompe-Ferro, Ventania e Provedor.

Embora ainda tivesse receios de ficar sem seus carneiros, Juvenal ponderou um pouco e concluiu para si que de fato os cães costumam ser amigos de verdade e que lhes poderiam ser de grande utilidade durante suas aventuras.

– Fechado o negócio!

Feita a troca, Juvenal seguiu viagem com os três cães, agora já um tanto duvidoso da verdadeira serventia desses bichos. Mais adiante sentiu fome e notou que não havia nenhum local onde pudesse comprar alimento. Foi então que se lembrou das palavras do sujeito, e disse:

– Rompe-Ferro, mãos à obra!

Imediatamente o animal foi buscar o almoço. E assim sucedeu outras vezes. Num dado momento o cão trouxe-lhe uma bonita cesta repleta de deliciosa comida. Após dividi-la com os amigos caninos, pensou ele lá consigo: “Com três bichos desses não temo nada nessa aventura”. E continuou a sua jornada.

Passado um mês, quando seguia ao pé de uma serra, observou vindo ao longe uma carruagem, e concluiu que a passagem por ali seria difícil até para dois cavalos. Olhou bem para dentro e viu sentados uma linda moça, em prantos, e um cocheiro que suspirava e que apresentava um semblante muito abatido.

– Olá, amigo! – gritou Juvenal para o homem. – Desculpe-me por perguntar, mas o que faz aqui nessas ermas brenhas esta linda princesa?

O cocheiro, quase sem voz, narrou os fatos como se passavam:

– Não sou o culpado pelo choro dessa princesa. É que existe um reinado a cinquenta léguas daqui, onde o povo há mais de cem anos vinha sendo devorado por um terrível monstro, o qual ninguém podia vencê-lo: nem a polícia, nem o exército, nem a marinha, nem rei, ninguém... As pessoas viviam aterrorizadas e se sentiam totalmente desamparadas. O rei, por seu turno, andava sempre nervoso e aguardava a morte para qualquer momento. Um dia quando ele estava dormindo, ouviu uma voz, era o monstro que dizia: “Eu sou a fera tirana e pretendo dar uma trégua ao seu povo, se você, ó rei, prometer dar-me, apenas uma vez por ano, uma das moças do reino, levando-a a um lugar determinado, do contrário deixarei minha furna e virei devorar toda a cidade.” O pobre rei, não vendo outra alternativa, sujeitou-se às condições impostas pela desumana fera. Eis aí a razão porque estamos aqui, caro amigo. E por tirania do destino, este ano a sorte coube a esta infeliz princesa.

Juvenal que a tudo ouvia com profunda comoção, perguntou:

– Mas, afinal, onde vive esse terrível dragão?

O homem apontou o local com o dedo, e foi logo dizendo à princesa:

– Não há escapatória, senhorita! Precisa descer e ir se entregar ao monstro. Todas as outras moças fizeram assim. Se você não for até ele, necessariamente ele virá aqui buscá-la.

A pobre moça então obedeceu e saiu andando rumo ao esconderijo do dragão. Juvenal, que sentia grande compaixão da miserável donzela, chamou os três cães e a seguiram. Mas o cocheiro gritou da carruagem, atônito:

– Aonde vai, meu senhor? Não prossiga, volte depressa, senão será devorado também pela fera!

Juvenal, porém, não deu ouvidos ao apelo do outro e continuou andando na mesma direção para onde ia a princesa. De repente, sentiu como que a montanha estremecendo e imaginou que era o monstro se movendo para apanhá-la. Foi quando ouviu um urro tão espantoso que até os três cachorros se arrepiaram de susto. A fera então avançou ligeira para agarrar a moça, mas foi logo interposta pela presença do rapaz, que gritou para um dos cães:

– Rompe-Ferro, agora é com você. Preciso do seu socorro!

Este tão logo ouviu o comando do seu amo, avançou como um relâmpago na direção do dragão, e ambos, Juvenal e o cachorro, partiram como que incorporados para cima da serpente: um com um punhal e o outro com os dentes. O monstro, apesar de possuir um corpo descomunal todo coberto por um tipo de escama mais dura que o ferro, ainda assim ficou inerte diante da bravura e habilidade do moço.

De longe, horrorizada,  a pobre moça assistia  aquela horrível cena e, temendo pela derrota de Juvenal, ajoelhou-se por terra e clamou assim aos céus:

– Valei-me, Pai Poderoso! Livrai-me deste terror e não permita também que esse monstro venha devorar este pobre rapaz. Prometo, Senhor, ante os céus que, caso ele vença esta fera, prometo que me casarei com ele.

Volveu os olhos à gruta e continuou assistindo a tenebrosa batalha, cujos estrondosos urros da fera fazia tremer toda a terra em derredor.

Firme ao lado de Juvenal, Rompe-Ferro observou que debaixo da asa esquerda do monstro havia um lugar vulnerável que certamente seria fatal caso pudesse abocanhá-lo em cheio e feri-lo com a presa. Sem perda de tempo, lançou-se sobre a asa certa e conseguiu morder exatamente onde pretendia fazê-lo. O bicho esturrou alto. O cão novamente avançou e mordeu a asa pela segunda vez. Juvenal, vendo que a batalha estava ganha, sentou-se para descansar e ordenou ao amigo peludo que terminasse o serviço.

O monstro, enfim, tombou inerte.

Imediatamente Juvenal correu até a fera e arrancou-lhe dois dentes, dizendo:

– Servirão como prova de que lutei com a fera e que a matei, caso alguém venha por em dúvida minha ação.

Sofia, vendo Juvenal vitorioso, ajoelhou-se diante dele e chorando pediu-lhe que a acompanhasse até à corte imperial:

– Peço que vá comigo, para que meu pai, o rei, conheça este homem destemido que me salvou, e para que também o recompense por tão nobre ato. Todos do meu reinado reconhecerão o seu valor e o tratarão como um grande e verdadeiro herói. E eu, em reconhecimento ao que fizeste por mim e por ter libertado meu povo de tão grande opressão, ofereço de bom grado todo o meu coração.

A este pedido da moça, porém, argumentou Juvenal:

– Eu nada quero pelo que fiz. Desejo apenas que vá em paz e que seja muito feliz. Prometo-lhe, no entanto, que irei vê-la daqui a exatos três anos. Desculpe-me não poder ir agora.

Dizendo isto, Juvenal a colocou na carruagem e despediu-se.

Ela, que havia fixado bem a imagem do rapaz em sua mente, sentiu germinar no seu coração uma grande paixão por ele.

Assim que a carruagem saiu, o cocheiro, que havia assistido a luta escondido atrás de uma pedra, principiou um diálogo malicioso com a princesa:

– Vossa Alteza pagou ao rapaz pelo o que ele lhe fez?

– Tentei, mas ele se recusou a receber qualquer pagamento.

– Ele é só um aventureiro, um andarilho que vive vagando pelo mundo. Este tipo de gente não precisa de dinheiro, nem merece o seu amor. Quanto a mim, se a senhora quisesse poderia facilmente fazer a minha felicidade, bastando apenas dizer que fui eu quem matou a fera.

– Deus me livre de agir com tamanha falsidade para com quem salvou minha vida. E também não permito que um Judas vil e covarde como você venha insultar um moço tão honrado e corajoso como Juvenal.

Nisso o cocheiro parou a carruagem em cima de uma ponte, dizendo ameaçadoramente:

– Se a senhorita não fizer esse favor, agora mesmo a atiro daqui para debaixo desta ponte, no precipício. E não será tarefa difícil convencer a todos que foi a fera que a devorou. Jure, pois, agora, que negará tudo o que ele fez, e que confessará perante o rei que fui eu, o cocheiro, quem deu cabo ao monstro. Do contrário, sua vida acaba aqui.

A pobre moça, ciente que morreria por mãos tão perversas, não teve outra saída senão aceitar as condições impostas e garantiu:

– Eu juro perante Deus que farei vossa vontade. Negarei a verdade e direi a todos que foi você quem obrou a grande façanha de matar a fera.

O malvado olhou-a com um riso sardônico e disse:

– Fez muito bem, princesinha! A partir de agora serei uma grande figura na corte e todos me terão como um grande herói.

Quando a carruagem chegou, por fim, à corte, o povo parecia não acreditar no que via, tamanha era a surpresa e a alegria que sentia. Todos olhavam para o cocheiro com grande admiração, pois não entendiam como ele trouxera viva a linda princesa. O rei ficou em júbilo quando encontrou a filha salva, e imediatamente quis saber do cocheiro o que de fato aconteceu.

– Certamente majestade, contar-lhe-ei tudo exatamente como se passou. – E continuou: – Quando chegamos à furna, pedi à princesa que descesse da carruagem. Quando a vi em tamanha tristeza, senti grande compaixão da pobrezinha e então saquei do meu punhal e a acompanhei até a morada da fera. A boa princesa, contudo, pediu-me que voltasse para a corte, que ela iria sozinha para o sacrifício. Mas eu ignorei seu pedido e me dispus a defender sua vida. Neste momento notei que a montanha estremecia. Sabia que era o monstro descendo para apanhar a princesa. Ela continuou seguindo ao encontro da fera e eu fiquei um pouco afastado. Quando avistei o terrível dragão, confesso que até arrepiei meus pelos. Porém, sabia que era meu dever salvá-la e não me esmoreci diante da grandeza do inimigo. Quando este avançou para agarrar a pobre menina, senti apoderar de mim uma força até então desconhecida. Parti para cima dele e, não obstante, o monstro ter um corpo todo protegido de escamas tão duras como metal, ainda assim avancei com toda destreza sobre ele e num golpe certeiro debaixo de sua asa esquerda o matei e em seguida o degolei.

A história do cocheiro pareceu tão convincente aos olhos do povo, que dali por diante ficou sendo considerado um grande herói e foi por seu ato de extrema bravura elevado à condição de fidalgo da corte.

– Pela sua bravura, meu bom amigo, por ter salvado minha filha da sanha daquele horrível monstro, concedo-te sua mão em casamento.

A princesa quando soube da promessa feita pelo pai ao vil cocheiro, ficou profundamente abalada e se arrependeu de todo o coração ter feito aquele infame juramento. Trancou-se, pois, no quarto, e de joelhos orou:

– Meu bom Pai, oh quanto tenho sofrido! Mandai, meu bom Deus, mandai Juvenal para que venha desmascarar este cocheiro vil e mentiroso. Concedei-lhe, Senhor, ao menos um aviso, para que fique ciente de tão grande traição. Ah, como eu quisera contar toda a verdade ao rei! Maldito o juramento que fiz. Por causa dele perdi minha felicidade.

Enquanto tais coisas se passavam no palácio do rei, Juvenal continuava a correr mundo, sempre tendo ao seu lado os três valiosos cães. Certa noite, num outro reinado, sonhou que se achava num suntuoso castelo, todo atapetado de flores e cheirando a inebriantes perfumes. Ele ali estava acompanhado por belas damas, todas elegantemente vestidas. Havia também no recinto um trono e nele viu sentada uma princesa. Nisto chegou uma importante autoridade, e com ele um escrivão e um padre. Disseram: “Apresse-se, cidadão, para receber a mão da princesa em casamento”. Foi quando também surgiu um homem estranho com aspecto irado e disse: “Parem agora com este casamento, pois este homem é um impostor”. O homem que disse essas palavras era o próprio Juvenal que, mesmo em sonho, puxou do punhal e lutou com o inimigo. Ao fim da luta, porém, ele notou que todas as flores estavam pisoteadas, que as damas haviam sido atiradas ao chão e que ele mesmo se encontrava preso numa parede sobre lanças e espadas. Viu, por fim, que o adversário ria às escancaras dele e que troçava do seu malogro, e que todo o povo o aplaudia com grande entusiasmo. Neste momento foi despertado do pesadelo, mas este ficou impregnado em sua mente, como se lhe quisesse anunciar alguma coisa importante. Ele pensou então consigo: “Será que a princesa me traiu? Ah, não pode ser! Tenho certeza que ela ainda me ama. E mesmo que algum covarde a tenha obrigado negar meu amor, ai dele que o matarei sem piedade! Seja o que for, muito em breve saberei toda a verdade”.

No palácio, o rei, por fim, decidiu que casaria a filha no prazo de um ano. Ela, porém, quando soube da decisão do pai, em conluio com um médico conhecido, declarou-se gravemente enferma. O cocheiro, por seu lado, estava muito aperreado por apressar o casório, tendo em vista que temia que toda a verdade fosse descoberta.

A demora no casamento levou alguns do povo a suspeitar que talvez o rei não quisesse dar a filha ao dragão, e que por isso quem pagaria o pato seria a nação, pois a fera viria destruir tudo. Outros, contudo, acreditavam de fato que o cocheiro havia dado cabo ao monstro. E desta forma as ruas se enchiam de dúvidas.

As coisas iam assim, até que o rei, muito contrariado com aquela situação, decidiu que o casamento se realizaria dali a um mês, sem mais delonga. A moça, embora já resignada, ainda acreditava na chegada de Juvenal, que a libertaria das artimanhas do chacal traidor.

Dois dias antes da data estabelecida pelo pai, houve no castelo grande movimentação de pessoas, as quais cuidavam dos preparativos: comida, enfeites, música e tudo o mais que pudesse ser feito para um esplendoroso casório.

Na véspera, porém, viram chegar à cidade um viajante desconhecido, acompanhado de três bonitos cães. Era Juvenal que vinha cumprir sua promessa depois de três longos anos. Ele, assim que viu toda aquela grande agitação em torno do castelo, perguntou o que estava acontecendo ali, ao que disseram tratar-se do casamento de um grande herói, o cocheiro, que salvou a princesa da terrível fera, e que por isso recebera do rei a mão da princesa em casamento. O rapaz mostrou-se furioso com tamanho acinte e bradou em alta voz:

– Esse homem é um covarde e mentiroso, pois quem matou esse dragão fui eu.

Os guardas quando ouviram tamanho ultraje contra pessoa tão nobre do reino, o declarou preso por conspiração. Juvenal, contudo, saltou para trás e deu sinal aos cães para avançar sobre eles. Deu-se então uma terrível luta. Um dos guardas correu até o palácio e foi dar parte ao rei que um moço valente, chegado recentemente à cidade, estava fazendo grande barbaridade entre os soldados, matando grande quantidade deles.

– Ele briga por dez e ainda tem a seu favor três cães que mais parecem três panteras.

O rei pediu licença aos convidados e foi até à praça onde se dava a confusão. Lá chegando gritou ao povo:

– Quero saber quem foi a pessoa que principiou toda esta algazarra! Estou disposto a ouvi-lo.

Juvenal então, que sequer havia sofrido um arranhão na briga, chegou-se à presença do soberano e foi logo dizendo:

– Sua Alteza fique sabendo que não tenho má índole e que pretendo contar-lhe tudo exatamente como aconteceu.

O rei então conduziu o corajoso jovem a um salão nobre do palácio, para ouvi-lo sobre as razões que o levou a se envolver em tão grande algazarra e, consequentemente, atrapalhar o bom andamento do cerimonial de casamento de sua filha. A moça quando o viu entrar ali, sentiu seu coração transbordar de alegria, tanta era a emoção em saber que Juvenal a salvaria mais uma vez. O cocheiro, no entanto, ao ver o rapaz na presença do rei, sentiu suas pernas tremerem e disse consigo: “Estou perdido!”

– Diga lá, meu jovem: o que o trouxe ao meu reino e por que se envolveu nessa luta sangrenta com meus soldados?

– Grande rei! Assim que cheguei a este reino, fiquei logo sabendo que um tal herói que matou um dragão iria se casar com a princesa sua filha. Quando ouvi tal relato fiquei cego de raiva, porque tudo não passava de uma grande farsa. Sim, este suposto herói é um grande falsário, pois o tal dragão que devorava esta cidade, fui eu quem matou. Posso provar tudo. Portanto, minha luta foi justa, pois estava batalhando em defesa da verdade.  A princesa sua filha foi testemunha de tudo e pode confirmar agora mesmo exatamente o que se passou.

O rei, mais que depressa mandou chamar a moça e ordenou-a que explicasse se o moço dizia a  verdade ou se mentia, ao que ela de pronto respondeu:

– Contarei toda a verdade, meu pai! Quando cheguei à furna da fera, desci da carruagem e fui andando ao seu encontro. Este moço, que se achava naquele local, acompanhou-me juntamente com seus cães. Ao chegar à gruta, a fera avançou sobre mim, mas este corajoso moço saltou sobre ela e a matou, arrancando-lhe, para servirem de prova, dois dos seus enormes dentes. Em seguida, conduziu-me à carruagem, prometendo visitar-me dali a três anos. E seguiu sua viagem. Mas tão logo íamos voltando, o cocheiro pediu-me para que mentisse, dizendo a todos que foi ele quem havia matado o dragão. Como eu recusei fazer tão ultrajante papel, ele então me ameaçou lançar sobre o abismo abaixo de uma ponte. Não tive, pois, outra saída senão concordar com seus malignos planos. Desta forma me salvei e ele conseguiu enganar todo mundo, dizendo que venceu o dragão.

O rei, quando descobriu a tramoia do miserável cocheiro, irou-se sobremaneira e, dirigindo-se ao traidor, declarou-lhe:

– Irás morrer cruelmente, grande patife!

Em seguida mandou chamar o carrasco e incumbiu-o para que lhe tirasse o coro ainda vivo. E assim foi feito. Por fim, o rei ordenou que se realizasse o casamento da princesa com Juvenal, e houve festas no reino durante quinze dias.

No dia seguinte ao casamento, Juvenal pediu para que fossem buscar sua querida irmã, a fim de que morasse com ele naquele reino.

Já os cães, esses quando viram que Juvenal não se deixou levar pela ambição da riqueza, apresentaram-se a ele como três lindos pássaros, pois eram encantados. Despediu-se dele e voaram pelos ares.


---
São Paulo, 10/11/2022. 

domingo, 6 de novembro de 2022

O Berrador de Capim Grosso (Lenda), de Iba Mendes

 



O BERRADOR DE CAPIM GROSSO

Conta uma lenda capim-grossense que nos primórdios da cidade, quando a antiga Rua da Librina ainda era um grande e fechado matagal, havia ali uma humilde casinha de taipa, cujo morador era um velho roceiro chamado Chico, casado com uma boa mulher e pai de dois filhos homens. Diz, ainda, a lenda que um desses filhos, o mais novo, era dotado de uma natureza perversa e preguiçosa, ao contrário do mais velho, que tinha uma índole de pura bondade e era bastante dedicado aos afazeres da roça.

Certo dia, o pai e o filho mais velho foram capinar umas terras num lugar chamado Jenipapo. O mais novo permaneceu em casa, incumbido pelo velho de cuidar da mãe doente e que, quando desse meio-dia, fosse levar para ele e o irmão o almoço e uma moringa d’água. O rapaz, que não gostou nem um pouco da ordem dada pelo pai, apenas maneou a cabeça afirmativamente e resmungou para si um palavrão, acrescentando enquanto os outros dois sumiam na estrada: “Suas pestes!” Em seguida armou uma rede e voltou dormir tranquilamente.

Enquanto isso, a pobre mulher, que sofria de uns reumatismos nas pernas, fazia tudo sozinha. A doença, porém, não a impediu de realizar suas tarefas domésticas, o que incluía matar uma galinha e preparar a comida para toda a família.

Quando deu meio-dia, a boa senhora que já havia embalado o almoço num utensílio de plástico e enchido toda a moringa com água filtrada do pote, chamou o filho e ordenou:

– Vá levar a comida pro seu pai e pro seu irmão, e depressa!

O moço, que acabara de se levantar da rede, nada disse e ficou por ali como se não tivesse ouvido a determinação da mãe. Esta, já impacientada pela preguiça do filho, gritou:

– Você não escutou não, moleque?

O preguiçoso perguntou então se não podia almoçar antes, pois estava com muita fome e ia ter de caminhar mais de meia hora sob um sol causticante. A boa mulher, porém, que naquele momento sentia fortes comichões nas pernas, impacientou-se com a malemolência do moleque, e gritou mais uma vez, furiosa:

– Ainda está aí, hein?

O rapaz, que apresentava o semblante visivelmente irritado, pegou ligeiro da sacola com o almoço, segurou a moringa pelo gargalo e saiu resmungando um dito feio, acrescentando ao longe, enquanto olhava para trás:

– Sua peste!... você vai ver...

Seguiu a passos lentos pelo caminho, mas nem bem havia andado uns dez minutos, sentiu-se exausto e, vendo uma copada árvore nas proximidades, dirigiu-se até ela e sentou-se preguiçosamente à sua sombra até suas narinas e, sem qualquer cerimônia, ele desamarrou o vasilhame e começou a devorar toda a comida. Feito isto, ergueu-se e tragou uns goles da moringa. Porém, antes de tampar a bilha d’água, teve uma ideia maligna: abaixou as calças e mijou dentro até passar toda a vontade.

Quando ele chegou à roça, o pai e o irmão já o aguardavam ansiosos e mortos de fome. Com um ar malicioso e diabólico, entregou tudo ao pai e se afastou. O velho, que de nada desconfiava, abriu o embrulho e, atônito, encontrou ali apenas ossos e uns restos de arroz misturado com feijão e farinha.

– Que brincadeira é essa? – perguntou indignado.

– Isso o quê? – respondeu o mandrião.

– Cadê a comida que sua mãe mandou? Por que só tem osso?

Ele então fez um gesto de ombro, e completou:

– Foi só isso que ela mandou.

Ao que o velho, tomado de ira, avançou até ele e gritou:

– Foi só isso mesmo que ela me mandou? E como você explica esses ossos?

Após sentar-se num tronco de arbusto, ele respondeu serenamente:

– Hoje apareceu um homem barbudo lá em casa e os dois ficaram conversando por um longo tempo, até se abraçaram e se beijaram. Quando foi meio-dia serviu o almoço para ele, que comeu tudo, e o resto ela mandou pro o senhor.

O irmão mais velho, que assistia incrédulo à cena, e que de antemão conhecia o caráter torpe do outro, objetou ao pai que a mãe jamais faria uma coisa daquela, e completou interrogativo: “Há caroço nesse angu!”

O outro, no entanto, fez um ar sério, e disse ao pai em tom de ironia:

– Corra lá que o senhor ainda o encontrará em casa com ela.

O pobre do homem tomou então a resolução de ir averiguar tudo. Mas ai dele se tivesse mentindo! Antes de sair, porém, abriu a moringa e encheu a boca de água, cuspindo logo em seguida, desesperado.

– Que significa isso? Quem foi que mijou nessa moringa? Foi também o desgraçado do homem?

O filho apenas afirmou que sim com a cabeça, e o pai saiu às carreiras para casa, e ele o seguiu.

Quando o velho chegou a casa e a adentrou bruscamente, viu de fato um homem sentado à mesa, tendo um matolão de couro aberto sobre ela. Sem nada perguntar, ele pegou dum punhal que trazia à cintura e desferiu um golpe brutal sobre outro, que rolou pelo chão todo ensopado de sangue. Em seguida, correu até a mulher e a agarrou fortemente pelos braços, indagando com voz de trovão:

– Pensa que sou cachorro para roer ossos?

A pobre mulher, que não compreendia nada aquela situação, dirigiu-se ao filho perverso e perguntou o que significava tudo aquilo, ao que ele, sem um pingo de pejo no rosto, confirmou tudo o que havia dito ao pai:

– Sim, pai, ela mandou dizer que o senhor se contentasse com os ossos e ainda pediu para o homem mijar dentro da bilha.

O marido, louco de indignação, não hesitou em pegar do mesmo punhal e cravá-lo várias vezes sobre o coração da companheira. Esta, porém, ainda agonizando, fixou o olhar no filho e lhe lançou esta terrível praga:

– Maldito serás para sempre! Jamais morrerás e tua alma perambulará perpetuamente por essas terras, e berrarás feito um animal louco toda sexta-feira, até que por fim o diabo te conduza à sua tenebrosa morada.

Lançada esta maldição sobre o rebento, a pobre senhora espirou sob a ponta do punhal sangrento.

Um vizinho que ouviu toda a algazarra, correu até lá e deu de cara com o apavorante desfecho.

– A sem-vergonha me traiu com esse canalha! – tentou explicar o marido ao amigo. Ao que este, boquiaberto, explicou:

– Miserável homem! Este que você assassinou é um boticário de Jacobina que veio oferecer remédios à sua esposa. Eu que indiquei sua mulher, pois sabia que ela estava doente.

Daí a dias encontraram o marido enforcado numa árvore. O filho mais velho ficou tomando conta das terras. Quanto ao mais novo, desde aquele dia desapareceu do povoado.

Quando nas noites de sexta-feira se ouve um berro pelas redondezas, diz-se que é o Berrador pagando por seus pecados. 


---
São Paulo, 06/11/2022