terça-feira, 19 de setembro de 2017

O “menininho” do presépio (Conto), de


O “menininho” do presépio

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Olhe! Aí está um peão do major Vieira; jogo o pescoço se ele não traz invite pra ir lá, hoje, festejar o Natal, na estância!...

Eu sei!... Aquele é gauchão buenaço!

Eu, se fosse o patrãozinho, ia. Ia, só pra ver o que é uma gente de devoção.

E é que o seu major Vieira não era assim, não; pro caso que ele, em moço, até que era um virado, da gente se benzer três vezes!

O major Vieira quando era cadete haraganeava muito pela rancheria dos postos.

A estância era grande, e entre agregados e posteiros havia um povaréu; o patrão velho, pai dele, era mui esmoleiro e não gostava de, perto dele, ver ninguém com cara de fome.

Mas o diacho era que o que o velho fazia com as mãos o cadete desmanchava co'os pés...

O mocito era abusador, e mais duma feita saiu ventando de certos ranchos daqueles pagos...

Sim, que um pai cria uma filha não é pra carniça de gaudério!... Por isso é que já os antigos inventaram o casamento.

A divisa da estância, no fundo, faz uma quebrada forte, assim como o cotovelo do meu braço; nesta ponta aqui, onde está a minha mão, fica o Lagoão das Lontras, e mais pra cá passa a estrada real.

Em certos tempos a gadaria pegava a costear o lagoão e andando, andando, entrava na estrada e… adeus!

Assim perdeu-se numa primavera uma ponta de novilhos que se evaporaram como sereno...

Foi um estafaréu, na estância, por causa disto; o patrão velho ficou buzina com o capataz, que relaxou os repontes, e quase mandou lonquear um certo Miguelão, que passava todo o santo dia lagarteando na reserva do rancho, e de noite nunca parava em casa...

Parece que eu estou lhe enredando o rastro, mas não ‘stou, não; vancê escuite.

É que este Miguelão não era trigo limpo; e tinha uma filha que era uma criatura boa como uma santa, morocha linda como uma princesa. E vai, o desgraçado obrigou a menina a casar-se com um sujeito sem eira nem beira, e que diziam à boca pequena que era parceiro nas velhacadas do Miguelão.

Era um mais que mouro, e meio corcunda, e tinha um lanho grande entre a orelha e a nuca; e mal encarado, era.

Amigo! A quincha dos ranchos esconde tanta coisa como os telhados dos ricos!...

Marido e mulher davam assim uma ideia esquisita: vancê já reparou quando abre um cacho de flor num jerivá velho, de casca esbranquiçada, cheio de talos secos pendurados e um que outro pendão esfiapado, que já deu coquinhos?...

O jerivá é uma árv’e tristonha, mas quando bota um cacho de flor fica alegre, de enfeitada. Aquele pendão amarelo, lá em cima, chama os olhos da gente, parece um favo de cera, de tão limpo e dourado; chama as mandaçaias, os passarinhos, os mangangás, as joaninhas; dá cheiro que é doce; é uma boniteza pra todos os viventes.

Assim era aquele casal: ele como o jerivá velho, ela como um cacho de flor,

Ela chamava-se nhã Velinda: e chorava muito, às vezes.

Por quê? Quem sabe lá…

Depois daquele sumiço dos novilhos, o cadete Vieira passou a recorrer o campo por aquelas bandas; a bolear avestruzes por aquelas várzeas; a correr veados por aqueles meios; a caçar mulitas naquela costa; e até numa noite de breu arranjou uma perdida —. ‘Magine! mais vaqueano que sono! — mas perdida foi que soube rumbear sobre o rancho do Miguelão...

Coisas de rapaz; que a nhã Velinda, essa, era de confiança.

Lá porque era moça, quase uma criança perto do marido, lá por isso não era motivo pra qualquer um chegar-se de buçalete em mão, como se faz pra uma redomona, pra amanusear-lhe desde a tábua do pescoço até as ancas...

Mas o cadete gostava da moça numa paixão de verdade, diferente de quantas cavaleiradas estava avezado a fazer.

Era uma adoração, quase um medo de ofender a querida do seu coração; perdia a voz pra falar com ela, enredava-se nas esporas, perdia o entono de todo o seu jeito, e todo ele vivia só nos olhos quando atentava na formosura do seu rosto.

Entrementes foi acabando o ano e já era sobre o Natal.

E vai a família do patrão velho armou um presépio na sala grande da estância; e ele mesmo mandou avisar o vizindário todo que a sia-dona convidava para se cantar um terço de festa, na noite santa.

E veio tudo, velhada e crianças, moçada, namorados, e até alguns andantes, que estavam de pouso, ficaram, todos, pra louvar a Deus na noite mais pequena do ano.

O cadete andava no meio do povo caçoísta, dançarino e pisa-flores, mas no que chegou a gente do Miguelão, já se foi pondo como um céu amontoado, emburrado, de dar nas vistas.

Houve jantarola e doçaria, na sombra das figueiras.

Escureceu; a sala grande estava fechada, e as moças da estância lá dentro, preparando as luminárias; enquanto o velho e a sia-dona pauteavam com a gente sisuda, embaixo da ramada grande, em frente da casa, a gurizada corria na pega dos vaga-lumes, rodando por cima dos cachorros ou fazendo provas de burlantins, nos cabeçalhos das canetas; do galpão vinha o zunzum da peonada; na sombra do campo não se via nada, mas de lá vinham relinchos e mugidos, cracrás das corujas e uais!... dos graxains.

E no ar, como uma cerração que não se via, andava o fartum dos churrascos.

Por um segredo do destino a sia-dona mandou o cadete ver se as luminárias estavam ou não prendidas; e vai, o moço, no entrar a porta, topou de cara a cara com a nhã Velinda que saia, justamente para vir chamar os donos da casa; toparam-se as criaturas e miraram-se, num clarão que só elas viram...

As mãos se encontraram... e num de-repente, num silêncio, num tirão das suas almas, na pressa e no lusco-fusco, perto da gentama, numa relancina de corisco, as duas bocas famintas se encontraram…e um beijo, um beijo que jurou pelos dois, para toda a vida, um beijo só derrubou todas as negaças, como uma represa de açude aluída é derrubada por uma muita descida de águas...

Vê vancê, a gente sabe falar, dizer muitas enredices adocicadas, mas às vezes a palavra nem dá pra partir… e caladito no mais, um simples beijo, largado de tronco, chega ao laço, folheirito, de rebenque alçado!

Pobres! Nesse passo cruzou na mesma porta o Miguelão e bispou o caso, e decerto já lo foi xeretear ao genro, e atossicá-lo, suscitando-lhe maldades...

Mas logo escancararam as janelas e a claridade da sala alumiou o terreiro; foi um alarido de contentamento, todos se ajuntaram e a sia-dona, puxando a ponta, entrou, para principiar o rosário. E aquele bandão de gente entrou e foi-se acomodando, olhando com ar de riso pasmado, toda só dizendo: o presépio! o presépio! o presépio!

Fazia a modo uma ramada no alto de uns cerritos, e fingindo grotas e sangões e umas reboleiras; havia esparramados uns “alimais” entre boizinhos e ovelhas de brinquedo e outros enfeites; e mais uns figurões mui calamistrados, de coroa, que pareciam reis, e, pro caso, um, que era negro retinto, era o mais empacholado. E perto destes, sobre a ponta do presépio, estava então a Senhora Virgem e o Senhor São José, e entre eles, acamado numas palhinhas de milhã e uns musgos e umas penugens, estava o Menininho Jesus, ruivito e rosado, nuzinho em pêlo, pro caso como uma criancinha que não tem pecado por mostrar as vergonhinhas do seu corpinho de inocente.

Todos se ajoelharam de roda, mas foi nessa ponta do presépio que a nhã Velinda ajoelhou-se; e no costado dela, como um precipício ou um encorrentado, aí amoitou-se o cadete Vieira, talvez até para dar o seu peito em resguardo dalgum perigo...

Não lhe conto nada!... Quando pegou a cantoria do rosário e no cantante da reza a gente se foi enquartelando e emparelhando as vozes, que era uma boniteza de ouvir, por aí os olhos dela estavam como amarrotados no presépio, mas os olhos dele estavam no rosto dela, como se aí estivesse o próprio presépio, com as suas velinhas e prateados e bichinhos mimosos... era até um pecado do inferno, aquela maneira de adorar gente, ali assim, nas barbas dos santos e da Senhora Virgem e do seu Menino!...

Mas porém, lá da porta, outro olhar, raiado de sangue, estava vendo tudo; por certo que alguma loucura de cabeça atacou aquele cristão velho, porque, num soflagrante, sem um deus-te-salve! — o aflito aquele meneou os passos, derrubando gente, e logo o facão relampeou na direitura do coração de nhã Velinda!...

Houve um grito d’espanto pro mode o desaforo do desatinado.

— Jesus!... foi o grito de todas as bocas.

Ah! patrãozinho!... Olhe que às vezes, na luz das velas bentas, se passam coisas de deixar um golpeado qualquer mais, mais aplastado que mancarão reiúno em mão de recruta...

Quando a ponta do ferro matador estava a uma mão atravessada… a quatro dedos só da carne macia, aí — credo! louvado seja Deus! — aí rolou da sua caminha de milhã... rolou e caiu no boleado do seio da moça, na canhadita dos dois, caiu no regaço de nhã Velinda o Menininho Jesus, como uma defesa… e aí no regaço delicado ficou, como um dono na sua casa.

E o facão matador sentou, tironeado... depois recuando, “minuindo”, caiu mermado, mal seguro na mão sem força, do braço sem vontade, e o cuerudo aquele deu costas e se botou porta fora e o Miguelão com ele, boquejando.

Tempos depois se soube que o mataram, num entrevero, numa bochinchada de carreiras.

Jerivá torto não dá ripa!...

Os velhos lá ouviram do cadete e de nhã Velinda o que havia, e lá arrumaram as coisas.

O que le conto é que o seu major Vieira, ainda em cadete, se casou com a nhã Velinda, e que aquele tal Menininho Jesus ainda hoje é o figurão do oratório e é o mesmíssimo do presépio que, há mais de cinquenta anos, se arma sempre na estância, no festo do Natal.

— Não lhe parece que houve um milagre? Claro! Foi por causa do Menininho que... Se o diabinho é tão milagroso!...

Trezentas onças (Conto), de João Simões Lopes Neto


Trezentas onças

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, vim varar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.

Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.

Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato, que está nos vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda.

Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até para quebrar a lombeira… e fui-me à água que nem capincho!

Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha para um bom nado.

E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei.

Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância cedo ainda, obra assim de braça e meia de sol.

Ah!… esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, um cusco mui esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-me para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.

Por sinal que uma noite...

Mas isto é outra coisa; vamos ao caso.

Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada e latia e corria pra trás, e olhava-me, olhava-me, e latia de novo e troteava um pouco sobre o rastro; — parecia que o bichinho estava me chamando!... Mas como eu ia, ele tornava a alcançar-me, para daí a pouco recomeçar.

 Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra na ramada da estância, ao tempo que dava as — boas-tardes! — ao dono da casa, aguentei um tirão seco no coração... não senti na cintura o peso da guaiaca!

Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava, para pagamento de gados que ia levantar.

E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois uns coriscos tirante a roxo... depois tudo me ficou cinzento, para escuro.

Eu era mui pobre — e ainda hoje, é como vancê sabe... estava começando a vida, e o dinheiro era do meu patrão, um charqueador, sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...

Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:

Então patrício? está doente?

Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi uma dinheirama do meu patrão...

A lá fresca!... 

É verdade... antes morresse, que isto! Que vai ele pensar agora de mim!...

É uma dos diabos, é... mas não se acoquine, homem!

Nisto o cusco brasino deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...

Ah!... E num repente lembrei-me bem de tudo.

Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação das roupas nuns galhos de sarandi, e, em cima de uma pedra, a guaiaca e por cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma última tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada num espinho, ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça azul, que subia, fininha e direita, no ar sem vento... tudo, vi tudo.

Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um só: tocar a meia rédea, antes que outros andantes passassem.

Num vu estava a cavalo; e mal isto, o cachorrinho pegou a retouçar, numa alegria, ganindo — Deus me perdoe! — que até parecia fala.

E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado.

Ali logo frenteei com uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns quantos vinham de balandrau enfiado. Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas perguntas... mas engoli a língua.

Amaguei o corpo e penicando de esporas, toquei a galope largo.

O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo, já mui comprida.

A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol, muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas.

Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira, piava de manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto da luz que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, como numa despedida triste, em que a gente também não sacode os braços...

Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande, em tudo.

O zaino era um pingaço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do flete levantavam.

E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio num pajonal; depois o lusco-fusco; depois; cerrou a noite escura; depois, no céu, só estrelas... só estrelas...

O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar... lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me da minha mãe, de meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já as conheceram pelo seu nome de Marias, as Três-Marias. Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida rindo... Deus o conserve!…, sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração pena!... 

Há que tempos eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas... devagarinho, como gateando, subiram... tremiam sobre as pestanas, luziam um tempinho... e ainda quentes, no arranco do galope lá caíam elas na polvadeira da estrada, como um pingo d’água perdido, que nem mosca nem formiga daria com ele!...

Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro, passou-me na lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos:

Quem canta refresca a alma,
Cantar adoça o sofrer;
Quem canta zomba da morte:
Cantar ajuda a viver!...

Mas que cantar, podia eu!...

O zaino respirou forte e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o bagual tinha reconhecido o lugar, estava no passo.

Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.

Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo, não, que não entra em peito de gaúcho.

Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no escuro.

Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados, mais pra lá, mais pra cá... nada! nada!...

Então, senti frio dentro da alma…, o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que era!...

E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha daquela suposição.

É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!

Tirei a pistola do cinto; armei-lhe o gatilho... benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala...

Ah! patrício! Deus existe!...

No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!...

Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...

O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...

Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações... pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...

E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.

E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia como explicar o sucedido, comigo, acostumado a bem cuidar das coisas. Agora... era vender o campito, a ponta de gado manso tirando umas leiteiras para as crianças e a junta dos jaguanés lavradores — vender a tropilha dos colorados… e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse a conta... enfim, havia se ver o jeito a dar... Porém matar-se um homem, assim no mais... e chefe de família... isso, não!

E d’espacito vim subindo a barranca; assim que me sentiu o zaino escarceou, mastigando o freio.

Desmaneei-o, apresilhei o cabresto; o pingo agarrou a volta e eu montei, aliviado.

O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância. 

Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo, acuando. O zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro outros relinchos vieram.

Apeei-me no galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou, com ganas.

Então fui para dentro: na porta dei o Louvado seja Jesu-Cristo; boa-noite! e entrei, e comigo, rente o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quatro paisanos; era a comitiva que chegava quando eu saía; corria o amargo.

Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na ressolana, estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com as trezentas onças, dentro.

Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa-noite! Entonces, que tal le foi de susto?...

E houve uma risada grande de gente boa.

Eu também fiquei-me rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeva, arrolhadito aos meus pés...

Martírio de um anjo (Conto), de Sebastião de Magalhães Lima


Martírio de um anjo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Despontara risonho o dia 23 de maio de 1856. Era profundo o anil do céu. Nem uma nuvem sequer toldava o puro azul do firmamento, nem um sopro de desgosto vinha embaciar o prisma da felicidade humana.

Tudo era bulício, vida, amor!...

A natureza, revestida das magnificentes pompas da primavera, desentranhava-se em flores e frutos, revelando mais e mais a grandeza e onipotência do Criador, que avulta tanto no mais humilde inseto, como no mais esplêndido organismo.

Folgava a toutinegra no raminho frondente, dizendo-se ternos amores com o emplumado rouxinol, cujo canto mavioso repercutia em ecos longínquos o idílio melancólico da criação.

Impelida doidejava a mariposa de flor em flor, e a brisa, tépida, ciciava de mansinho ao perpassar por sobre a solitária florinha.

Em delirantes êxtases, suspirava a pudibunda donzela, sorvendo grata a vida num casto e puro anseio.

O amante, sem desfitar os olhos da fugitiva linfa, mudo contemplava, gentil, o retrato da sua amada.

E ao pobre faminto, para quem a ventura fora meteoro fugaz, no horizonte medonho da humana desdita, sorriu a furto um raio de esperança no seu espírito angustiado por cruciante dor.

Sublime era o quadro, beatifica a visão!

E qual seria o ente, cuja alma fosse aleitada por uma centelha divina, que não sentisse roubar-se-lhe a existência ao contemplar tão sublime maravilha, tão rara formosura!!...

Que Rafael seria capaz de reproduzir na tela esta estrofe melodiosa e suavíssima do Senhor, a que os homens deram o nome de — primavera!!...

Molemente reclinada em flácida alfombra, Leonor, parecera, contudo, indiferente às doçuras deste panorama, e ao brilho da sua divina poesia. Em que cismava aquele anjo de pudor?... Que fatal magnetismo a arrastara ali?

Ninguém o poderá dizer. Ao certo só sabemos que a sua alma, cheia de sublime poesia, procurara instintivamente aquela solidão, como que agrilhoada pela necessidade inata de fugir ao mundo e aos seus encantos.

Leonor chegara do Brasil havia poucos meses. Cecília, sua mãe, vendo-se viúva, com este único tesouro das suas entranhas, para logo tratar de alugar casa em Benfica, não só por ser esse o lugar da sua naturalidade, senão também pelo desejo de satisfazer às reiteradas instâncias de sua filha, que desde muito aborrecia a cidade. Ali viviam aqueles dois anjos uma vida beatifica, alentados pela mútua esperança, e identificados pelos poderosos laços do amor.

Leonor, no dia em que a encontramos, completara vinte anos: tinha, portanto, atingido essa idade sublime e misteriosa, mormente para a mulher, que, elegíaca por condição, sente o vácuo da sua existência, arrojando-se loucamente às ondas do amor, talvez, pela natural fragilidade da sua natureza.

Quem sabe, se nisto divagaria a nossa poetiza, no momento em que a encontramos no seu pitoresco jardim?

Uns vislumbres de saudade, de tristeza e melancolia animavam seu rosto naturalmente pálido. — Aqueles olhos pretos e rasgados, enturvecidos por uma névoa de languidez, provavam bem quantos e quão perigosos seriam os pensamentos que se lhe agitavam na mente.

Sua mãe viera pé ante pé, curiosa, sem dúvida, por penetrar no recôndito daquele coração. Leonor pressentiu-a, e sorriu-se. Cecília pousou seus castos lábios na angélica fronte da filha, e nela depositou, com maternal carinho, o néctar que dimanava de seu extremoso peito. Depois, tomando entre as suas as mãos daquela pomba, disse:

— Então que tens tu, minha querida filha? Tão triste e solitária no dia de teus anos! Ora anda: fala francamente a tua mãe.

— Oh! minha querida mãe, quanto lhe sou devedora! Como havia de eu estar triste, tendo-a aqui ao meu lado? Não vê que sou tão sua amiguinha, e como já estou tão alegre?

— Por quem és, Leonor, nada me queiras ocultar. Poupa-me a um sacrifício doloroso, dispensando-me a sinceridade que mereço. Compreendo a tua dor, como se minha já fosse. Tu amas, bem o sei. Tenho presenciado tudo. Nada me é estranho.

Leonor corou de involuntário receio, ao ouvir as ternas expressões de sua mãe, e por alguns minutos permaneceu em cismador enleio, como que subitamente preocupada por estranho pensamento. Recobrando, porém, a serenidade, que momentaneamente houvera perdido, prorrompeu nos termos seguintes:

— É verdade, minha mãe, nada lhe desejo nem posso ocultar. Eu amo meu primo Maurício. Amo-o com toda a pureza da minha alma, e em todo o fervor da minha existência. Uma circunstância poderosa veio, contudo, cavar um abismo entre nós, e forçar-me à dura colisão, em que, mau grado meu, me tenho conservado. Foi esse o motivo por que há mais tempo lho não declarei, intimamente convencida de que a minha bondosa mãe perdoaria mais uma vez esta falta à sua filhinha, que tanta felicidade lhe deseja.

— Julgas, talvez, que te culpo por isso; antes, pelo contrário, não podia achar mais acertada a tua escolha. Maurício é um rapaz sério, capaz de te retribuir o teu afeto, e de desempenhar no futuro a missão de um marido exemplar.

— Sem dúvida, também assim o creio. Mas não lhe tenho já declarado por vezes que só me unirei eternamente a um homem de muita instrução e de grande saber?

— Isso é uma fraqueza da tua parte, que se virá a dissipar com o tempo; sendo que muitas vezes os homens mais célebres são exatamente aqueles que menos se coadunam com a índole do viver doméstico. Além disso, teu primo tem o desenvolvimento suficiente para te saber estimar; e eu morreria tranquila se um dia tivesse a dita de te ver enlaçada pelo afeto aquele que já posso apelidar — meu segundo filho.

— Oxalá assim suceda, replicou Leonor, com um disfarce feliz. O futuro só a Deus pertence. Amar a mediocridade, isso só pode ser o apanágio das mulheres vulgares. Por hoje não falemos mais nisso. Vamos antes esperar as pessoas da nossa intimidade, que decerto não perderão esta noite, para nos prestarem agradável companhia.

Dirigiram-se depois para casa, e assim correu o resto da tarde sem maior incidente.

Às nove horas da noite já se cruzavam nas salas algumas famílias, que expressamente tinham vindo festejar o aniversário natalício de Leonor, com brindes de toda a espécie. Esta não sabia como agradecer tantos e tão prolongados obséquios, que a cada passo lhe prodigalizavam os convivas recém-chegados. No entanto todos se retiravam sobejamente remunerados, com o galardão do seu peregrino talento e natural candura.

Maurício, como era de esperar, abrilhantou esta festa com a sua presença. Logo, porém, notou em sua prima um ardente desejo de o evitar. Na primeira quadrilha viu em Leonor hesitação, e que só forçada condescendência a obrigava a dançar com ele.

Não sabendo a que atribuir tão rápida transformação, recorreu a sua tia. Cecília, que a princípio vacilara em relatar o acontecido a seu sobrinho, não pôde de modo algum abafar o grito imperioso do seu coração, patenteando-lhe tanto ao vivo o pensamento de sua filha, que Maurício a custo reteve uma lágrima de saudade por aquela que já há muito dourava o horizonte de sua existência.

E quantas vezes um sorriso nos lábios oculta uma grande dor!...

Maurício, como se nada com ele houvera passado, voltou à sala, e dançou até ver a reunião completamente terminada.

Seriam duas horas da noite. Despediu-se de sua tia, e saiu. Mas, ai do mal fortunado mancebo!...

Longe de se dirigir para casa, divagou triste e pensativo pelas ruas da capital até ao alvorecer do dia, sendo a cada passo assaltado por dolorosas recordações, que lhe dilaceravam as fibras do seu apaixonado coração.

No dia imediato Maurício havia desaparecido de Lisboa!...

Deixemos agora esvoaçar quatro anos nas asas do passado, e voltemos a Benfica.

Ali reconheceremos Leonor, próxima de sua mãe, trabalhando diligentemente. Aquela flor, que há cinco anos se ostentava tão altiva e louçã, vede-a, presentemente, como vai estiolando e fenecendo, e ai dela!... se o céu, na sua infinita misericórdia, lhe não enviar o orvalho que lhe restitua o viço e frescor!

Estávamos, então, em maio de 1860, cujo mês fora assinalado pela rápida ausência de Maurício. E nisto falava a virtuosa mãe a sua filha, enxugando de quando a quando uma lágrima, que espontânea lhe rolava pelas faces. Não era tanto o desaparecimento de seu sobrinho que a afligia, como ela julgar-se a principal causa desse fatal evento.

Leonor vivificava o pesar de sua pobre mãe com gostosas consolações, que, puras e castas, brotavam de seu virginal seio.

Seriam talvez cinco horas da tarde do dia 30 de maio, quando sentiram bater à porta. Sensação particular, por aquele inesperado toque, fez estremecer mãe e filha. Mistérios há na vida humana que se não explicam. Este era um deles.

A porta da sala abriu-se, e o criado anunciou uma visita, que não queria dar o nome, mas que muito desejaria falar com a senhora.

Mandaram-na entrar.

Ora imagine o benévolo leitor qual não seria a profunda comoção, sentida simultaneamente por aquela família, vendo junto de si o sobrinho que há muito julgava perdido.

Maurício tinha chegado naquele dia de Paris, onde, a grandes e penosos sacrifícios, fora buscar uma solida instrução com o único intuito de realizar a sua felicidade futura, unindo-se a sua prima pelos laços matrimoniais. Cursava, então, o terceiro ano de engenharia, e viera passar as férias a Lisboa.

Leonor, ao ouvir dos saudosos lábios de seu primo a narração circunstanciada dos motivos, que o levaram a executar tão heroico projeto, sentiu aumentar-lhe gradualmente aquela paixão latente, que há muito ardia em seu peito. Ele, atento ao benévolo acolhimento e fraternal regozijo, que então lhe dispensaram, não duvidou em declarar-se a sua cândida prima, que o atendeu com meiguice e amor.

Rápido se passou o tempo de férias. De dia para dia se iam identificando aqueles dois corações, que tinham nascido para muito se amarem. E, semelhante a um grande rio, já não haveria dique capaz de lhe vedar o seu correr impetuoso.

O amor verdadeiro e puro é uma irradiação do sublime, e como tal uma aspiração constante para as regiões do absoluto.

Os esponsais ficaram tratados, e por eles Maurício voltaria dentro em dois anos formado, e sobejamente instruído para melhor poder satisfazer as nobres e santas aspirações de sua prima.

O leitor melhor poderá imaginar qual não seria a violenta agitação dos dois amantes ao dizerem-se o adeus da despedida. Um drama íntimo, impossível de descrever-se, e que só poderá ser bem apreciado por aquele que, no decurso da sua vida, se encontrar algum dia em idênticas circunstâncias.

Porém o bom senso de Maurício, e sobretudo a necessidade, que nele falava mais alto do que a voz de seu apaixonado coração, estimulou-o a prosseguir na vereda tão briosamente encetada, ainda através dos maiores obstáculos.

Partiu, levando a saudade gravada no íntimo do peito, e a esperança a refulgir-lhe por entre as perspectivas de um risonho porvir.

Ao entrar nesta parte da verídica narrativa, que intentamos esboçar, julgamos mais conveniente satisfazer a curiosidade da amável leitora, transcrevendo para aqui fielmente a limitada correspondência que se trocou entre Maurício e sua prima.

É o que vamos fazer.

CARTA 1ª (de Maurício a Leonor)

Paris, 1860.

Nem eu sei como relatar-te a minha viagem. Feliz teria ela sido, por certo, se te tivesse visto sempre a meu lado. Mas... não digo bem... a tua terna imagem acompanhou-me sempre. Na onda, que preguiçosa ia beijar a fulva areia; na estrela, que à noite cintilava nos céus; no espaço, que infinito se me atulhava; por toda a parte, enfim, meu anjo, a tua melancólica figura vinha sempre afagar a minha tétrica existência, e contornar uns doces eflúvios de amor no meu angustiado espírito.

Oh!... e quem me dera poder hoje abraçar-te, e depois num êxtase delirante, dizer-te: — Leonor, benéfica luz dos meus olhos; amo-te, adoro-te, sou teu. Mas um dia virá em que te poderei dizer desafogadamente: — agora, por toda a vida, meu amor, jamais me verás longe de ti!

Louco, que eu sou, na verdade! Insensato!... a dispor do futuro, como se meu já fora. Embora! Deus é bom! Não sejamos incrédulos! Ele, que na sua infinita bondade não esquece o desgraçado agonizante no leito da dor, por certo não consentirá que uma negra nuvem venha toldar o puro azul do nosso céu.

Leonor, por quem és, envia-me o bálsamo para as saudades que me oprimem o coração. — Maurício.

CARTA 2ª (resposta de Leonor)

Benfica, 1860.

A tua carta veio encontrar-me agonizando nas vascas de uma paixão febricitante.

Um dia sorriu-me o Oasis mimoso no deserto da vida, acerquei-me dele extenuada de fadiga, e com o meu pobre coração dilacerado por uma luta gigante, que me fora impossível evitar. Julgava ser aquele o alento para prosseguir na minha espinhosa tarefa!... Ilusão!... Sinto-me fraca, e não sei se terei forças para resistir às agitações febris que hoje me dominam.

Pede a Deus, meu bom amigo, me prolongue os dias da existência, para poder abraçar-te mais uma vez ao menos, e morrer depois com a consolação derradeira do moribundo, que vê junto do seu leito o vulto venerando do presbítero, amenizando a algidez do sepulcro com a unção da sua divina prece.

Lembra-te sempre da tua amiga, que, ao longe, vela por ti dia e noite. — Leonor.

CARTA 3ª (de Maurício a Leonor)

Paris, 1860.

Não sei como comunicar-te o temor violento, que se apoderou da minha debilitada existência ao ler e reler a tua carta. Aquelas linhas, ditadas pela fatalidade poderosa do amor, e escritas por tua angélica mão, que tantas vezes beijei com o anseio de largas esperanças no futuro, compungiram-me profundamente.

Justamente, quando o meu espírito alucinado procurava o cálix da ventura para docemente o libar, veio a desdita sentar-se ao lado, e envolver-me no luto de medonha desesperança.

Meu Deus! meu Deus! Quanto a vida é cruel, sem uma esperança fagueira que nos alimente os sonhos radiosos do porvir! Quão duro é de tragar o absinto desta existência efêmera!

Porque será que o espírito do homem é tão possante librando-se nos voos de uma fantasia ardente; e cai depois prostrado pela vertigem das paixões no mais temeroso de todos os precipícios?

Insondáveis são os arcanos do Criador!

A esperança vivifica; o amor martiriza!

Pudesse ao menos o holocausto do meu doloroso sofrer resgatar os dias santificados de Leonor, e eu satisfeito deporia a minha cruz, orvalhada pelas lágrimas de eterna saudade.

A ventura é um anseio febril em espíritos privilegiados. Mas a ventura é uma vaidade, uma quimera, entrecortada, apenas, pelas alternativas radiantes de melhores horizontes!

Feliz o homem que tem fé; porque a fé, para almas bem formadas, é a água redentora do seu batismo.

Porém o homem, que sente o gelo da descrença no seu coração; o homem, que não pode evitar a peçonha corrosiva do cinismo e da perversidade; esse homem é um desgraçado, um miserável, como muitos, que a sociedade escolhe para instrumento da sua implacável vingança, e opróbrio da humanidade!!

E quem me permite ajuizar da minha virtude?...

Só Deus o sabe, meu anjo, quanto é leal e verdadeiro o pranto acerbo, que derramei ao saber da tua sentida doença.

Possa, enfim, o Senhor ouvir a sinceridade da minha súplica, e fazer descer sobre ti o anjo da felicidade e do amor. — Maurício.

CARTA ÚLTIMA (de Leonor a Maurício)

Benfica, 1860.

Apesar da expressa proibição dos médicos de me evitarem tudo o que possa prejudicar o meu estado melindroso de saúde: não pude, ainda assim, furtar-me a um desejo imperioso de me associar ao teu pesar, mitigando-o, no caminho espinhoso do meu Gólgota.

É uma expiação, que a mim própria imponho, sem outro galardão, que não seja a retribuição do teu entranhado afeto.

As lágrimas têm um condão misterioso. Adoçam a adversidade terrestre, com a consolação extrema de um futuro incerto. Assim eu pudesse encontrar nelas o tópico provável para a medonha enfermidade moral que hoje me devora.

Tudo creio impossível.

Só a tua presença me poderia ser, talvez, refrigério momentâneo para o meu aturado martírio, e doloroso esquecimento.

Regressa, portanto, à pátria, meu bom amigo. Vem engrinaldar a fronte da esposa com as flores amarelecidas do sepulcro, e prestar um derradeiro tributo aquela que te amou na terra com o fervor da virgem e pureza dos anjos.

Só Deus poderá abençoar o nosso amor!...

Não posso mais... Maurício... Sinto-me desfalecer sensivelmente.

Adeus... adeus, e talvez... para sempre. — Leonor.

Inútil se tornaria aqui dizer, que Maurício obedeceu peremptoriamente às ordens de sua saudosa noiva, tomando bilhete para o primeiro vapor com escala por Lisboa.

Fora, porém, intempestiva a sua viagem.

Quando chegou a Benfica, encontrou a nudez e a solidão entronizadas no sólio, onde deveria ter existido o júbilo e a glória de dois amantes ditosos.

Leonor havia desaparecido para sempre deste mundo!...

O anjo da morte, estendendo suas negras asas sobre aquele coração de pomba, arrebatou-o para sempre à humanidade.

Eclipsou-se no céu uma estrela, e da terra voou um anjo à mansão dos justos!

Maurício libou até às fezes o cálix do infortúnio.

Aquele amigo verdadeiro e fiel; aquela inteligência robustecida à luz da profunda meditação; aquele coração de poeta; aquela imagem continuamente açoitada pelo tumultuar de sentimentos encontrados, onde meigamente vinha transparecer a morbidez e o desalento de uma paixão precoce, — nunca mais transpor o limiar da casa de Benfica, que outrora pisava, sentindo a vida a rejuvenescer-lhe a cada passo.

Ainda houve quem o visse, um mês depois, com as faces pálidas, os olhos cadavéricos e um semblante sepulcral.

Não era passado muito tempo, quando Cecília recebeu uma carta de seu sobrinho, concebida nos seguintes termos:

— Minha excelente tia. — Ao deixá-la em contristante e dolorosa desolação, tendo-se associado à dor e orfandade do espírito, como únicas companheiras, que lhe restavam no areal sombrio da vida, era mais do que dever de um filho aliviá-la, quanto em si coubesse, dos transes medonhos e caprichos da sorte, por que acaba de passar o seu bondoso coração.

Porém, minha tia, se neste mundo pode haver perdão para um desgraçado, conceda-lho.

Já a meus pés se abre o abismo incomensurável do cinismo e da descrença, que dentro em pouco me há de absorver.

Haverá muito quem me censure, chamando-me — louco!

Louco!... porque não soube abafar a palpitação febril de um sentimento elevado e nobre!

Louco!... porque não tive a resignação, para opor ao marulhar tremendo das vagas da desventura!

Louco!... porque cri na santidade do amor; ajoelhei perante um arcanjo celeste, e senti o fogo da inspiração a enroscar-se-me voluptuosamente pelos membros!

Louco, enfim, porque soube desprezar a imbecilidade dos homens pelo gozo inefável de uma ventura celeste!

O suicídio é a suprema aspiração de uma imaginação sublimemente grandiosa, que, não podendo suster o voo audacioso a que se arrojara, se despenha fatalmente no oceano do nada.

E a resignação o que é?...

A imobilidade física e moral, uma profunda negação do ser humano, e uma violação flagrante dos verdadeiros sentimentos.

O homem, que vê o seu nome malbaratado, a sua honra vilipendiada; sem ter uma mão caritativa, que lhe sirva de luz por entre as fragas estéreis da vida; sem mesmo um refrigério para as chagas do seu pobre coração; sem uma esperança, ao menos, que lhe acalente os sonhos radiosos do existir durante o correr tempestuoso, que vai do berço à sepultura: esse homem, digo, descrê da Providência; torna-se cínico; e vai buscar na ponta de um punhal aquilo que não pôde encontrar no meio dessa sociedade estulta e devassa.

E, ainda haverá quem condene o suicídio?!...

Condena-o, sim, a mediocridade, porque o não compreende; porque lhe é mesmo impossível conceber a luta gigante que se trava a cada passo nos espíritos altaneiros entre a razão e a vontade, — duas faculdades de que depende toda a nossa vida e bem-estar terrestre.

Por isso, minha bondosa mãe, e deixe-me chamar-lhe assim nos últimos instantes do meu passamento neste mundo, abençoe pela derradeira vez o seu desgraçado filho, que sem saudade abandona este teatro maldito, para ir tributar perante o trono do Altíssimo o santuário das puras afeições e leal obediência.

Adeus, minha desvelada mãe, e adeus para sempre. Não descreia do seu filho, e lembre-se que só no céu se poderá encontrar a remuneração condigna às virtudes mundanas. — Maurício.

Cecília ficou como que petrificada, ao receber o golpe inesperado, que lhe causara a carta de Maurício. Desvairada pelo infortúnio, assaltada por uma visão sinistra e cruel, aquela extremosa mãe vendeu a sua casa em Benfica, que lhe era recordar amargo de uma felicidade radiante e falaz, e recolheu-se a um convento, onde vive ainda hoje, acompanhada pela resignação, e alimentada pela virtude esperançosa de que um dia se irá reunir no seio do Criador aqueles dois mártires bem-aventurados, a quem o vulcão das paixões sorveu para sempre na sua cratera de fogo.

Um drama íntimo (Conto), de Sebastião de Magalhães Lima


Um drama íntimo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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La vie en effet n'est qu'une idée sans valeur, une page blanche, qu'otan n'y a pas écrit ces mots: — J'ai souffert, c'est à dire, j'ai vécu.
Baron de Feuchtersleben

I

Como Amélia era formosa! que bondade a sua! que terna expressão a do seu rosto angélico; e, que sentimento! que grandeza d'alma!...

Como não eram radiosos aqueles sonhos da loura criança, que à noite ia segredar à brisa os seus amores sentidos, em infantil rubor!...

Oh!... e que meiguice não era a sua, espalhando tão docemente o aroma de seus argênteos cabelos à viração perfumada da tarde, e despertando, ao longe, os ecos da solidão com o brando dedilhar da sua harpa portentosa!...

Fantasma cruel, que, por tanto tempo, me alimentaste o porvir grandioso das minhas aspirações efêmeras! Sombra implacável de um destino falaz! Efígie derradeira de uma quimera inútil! Espectro medonho da medonha existência! Mulher! anjo! demônio! tudo enfim!...

Porém, não!... renasça uma crença, ao menos! reviva a fé, em nossos corações! dissipem-se as negruras da vida, e surja a aurora boreal de um futuro certo, e de uma verdade eterna!...

Nestes termos apaixonados falava o venerando presbítero, Francisco de Castro, ao seu afetuoso amigo, Alberto de Carvalhal, quando um raio furtivo do sol, penetrando de soslaio por entre a coma dos pinheirais, que se erguiam altivos lá no cume das montanhas, os veio despertar do inebriante gozo e suavíssimo prazer, em que, desde longas horas, se haviam esquecido dois amigos desditosos, profundamente adormecidos nos braços de uma saudade infinda.

O pescador deixara a choupana, que lhe era consolação extrema nas horas de aflitivos transes e doloroso penar, para ir estender a rede na praia mais próxima!

Ao longe ouvia-se a voz rouquenha e estridula do gondoleiro, acordando aos ecos da sua alma o doce nome da amante ditosa, que, em terra, por ele velava, dia e noite.

O astro do dia, erguendo-se fantasticamente das salsas, escamosas ondas em que parecera mergulhado, havia desfeito as obscuras brumas, que lhe empanavam o brilho, espargindo sua luz etérea pelo espaço infinito.

Tudo rejuvenescia, ao seu hálito benfazejo!

A planta, modesta e grata, elevava para o céu a corola de feiticeiro encanto, gotejando compassadamente a ambrosia celeste de suas elegantes pétalas, matizadas d'ouro e prata.

Rejubilava o passarinho no ramo frondente, pipitando a medo um eterno canto de amor e saudade.

A abelha, com a cabeça esmaltada de pedras e diamantes, as asas variegadas como o íris, encetava sua laboriosa tarefa, sorvendo diligentemente o suco da nectária, que junto lhe acenava.

Neste comenos, Francisco de Castro enlaçou seu braço direito pelo corpo do idolatrado amigo, convidando-o fraternalmente a retirar-se para casa.

— Vamos, meu bom amigo, — dizia ele, — recolhamo-nos ao meu humilde presbitério, e lá lhe contarei então, mais desafogadamente, os lances da minha existência, se a tibieza do meu espírito tanto mo permitir, e, antes disso, não afrouxar.

II

Francisco de Castro era natural de Aveiro. Filho de pais indigentes, e de baixa condição, a sua juventude deslizara, naturalmente, por entre o vegetar monótono daquela cidade, sem outro incentivo que não fosse a salutar influência de algum parente mais próximo, ou o conselho leal e franco de algum amigo íntimo.

Chegado, porém, que foi à idade da razão, os seus sentimentos abriram-se-lhe em sensações suaves num porvir radiante, e despertaram nele um prurido irresistível de ir em cata de melhores horizontes por esse mundo além.

Com este intuito, pois, deixou o nosso provinciano a terra da infância, antecipadamente recomendado, e sobejamente abonado por um comendador, seu padrinho, com destino para os portos do Brasil.

Que saudades se lhe não avivaram na mente, ao ver-se longe da pátria e dos seus! que pavor não afrontou com o rugir da procela, e horrores do naufrágio no alto mar! ele, que jamais havia ultrapassado os estreitos limites da sua terra natal! mas também, com que deleite, com que profunda emoção, não mirava ele, por noites calmosas, o manto do firmamento azul, majestosamente recamado de estrelas, que se lhe desenhavam por cima da sua fronte! e o sereno marulhar das vagas, quebrando-se de mansinho no dorso da frágil embarcação! e aquele contínuo acastelar de nuvens, debuxando tão ridentes e fantásticas figuras por sobre a vastidão dos mares!...

Como ele sonhava, então!... Como se deixava arrastar tão docemente pelos mundos etéreos de ignota fantasia, julgando ter já encontrado o almejado tesouro que ao longe lhe sorria! regressando rico e feliz ao solo natalício, e vendo já os seus, agrupados em torno de si, beijando-o alegremente! E, contudo, como foi diversa a realidade!...

Francisco de Castro desembarcara no Rio de Janeiro a 30 de março de 1849. Procurando saber imediatamente onde era a rua Direita, aí se dirigiu, sem mais delonga, aos srs. Costa Pereira & Cia., ricos proprietários de uma casa comercial, e correspondentes de seu padrinho naquela cidade.

Tanto que foram entregues as cartas, que devidamente o recomendavam, apareceu um caixeiro convidando-o a entrar, e, apertando-lhe fraternalmente a mão, como sinal evidente de futura e benévola camaradagem.

Daqui foi o nosso provinciano levado à presença de um dos donos do estabelecimento, que o interrogou minuciosamente acerca da sua vida passada, animando-o amigavelmente a entrar no escabroso labutar daquele labirinto comercial, e acolhendo-o para logo em sua casa, consoante a praxe de há muito estabelecida naquele país.

Eis aqui, pois, como Francisco de Castro se iniciou na vida ativa do comércio, desejoso, sem dúvida, de trabalhar, quanto o comportassem as suas forças, e esforçando-se o mais possível por granjear, dentro de pouco, os meios de subsistência necessários para prover decentemente às necessidades de sua família, que tanto o havia mister.

A fortuna foi-lhe, porém, adversa. Caiu, quando menos o julgava, e caiu, para nunca mais se levantar.

Repugnava lhe à sua índole, em extremo ardente, o ver-se um dia inteiro acorrentado a um balcão, não mirando a outro horizonte, que não fosse o cediço positivismo do — Deve — e Há de haver.

Cansado já daquele pandemônio tumultuoso de gelo e de cifras, intentava uma ou outra vez espairecer os olhos lassos de fadiga e sensaboria, levantando um olhar modesto e casto para uma casa fronteira, em cuja janela voejava brandamente uma andorinha gentil.

Foi isto mais que suficiente para ele ser despedido, ao cabo de alguns meses, da residência, onde tão familiarmente havia sido acolhido, logo após a sua chegada.

Assim vagueou incerto, por alguns meses, benquisto por uns, odiado por outros, sustentando, a cada passo, uma luta ingente e dolorosa consigo próprio; e regressando, mais tarde, à pátria com o vivo remorso de nada haver contribuído para o bem estar de seus pais, e de ter ido, além disso, semear a desordem e a confusão no seio de uma família estranha.

Por isso, minguado de recursos, apenas chegou a Portugal, Francisco de Castro, não contando mais de trinta anos de idade, resolveu-se a tomar ordens, expiando, com o sacrifício de seus derradeiros dias, uma mocidade, no parecer de muitos, estouvada e febril, que jamais pudera olvidar.

Estava ele, um dia, meditando deliciosamente, à sombra de anoso cedro, recolhendo, na sua debilitada imaginação, as sombras longínquas desta tragédia estupenda, que se passa entre Deus, o homem e o universo, quando um desconhecido, eventualmente, se acercou daqueles sítios!

Era Alberto de Carvalhal!

Movido pela profunda tristeza, que subitamente acometera Francisco de Castro, e pela curiosidade irrequieta de querer sondar os arcanos daquela alma formosa, que bem se deixava entrever na sua fronte generosa e ampla, e naquele seu vulto insinuante e nobre, já curvado ao peso de uma paixão prematura, e de um destino atroz, que lhe secara a seiva da vida, e lhe emurchecera as flores mais ridentes da sua primavera; Alberto aproximou-se do lugar, onde o presbítero se sentara, e prorrompeu nos termos seguintes:

— Não sei se, da minha parte, haveria indiscrição, em vir quebrar-lhe este momento de gozo inefável e plácida meditação, acordando-o à triste realidade da vida?! Confio, porém, no perdão da sua generosidade.

— Bem pelo contrário, meu caro. Um amigo é sempre bem-vindo, e, se uma ou outra vez nos apraz a solidão, é certo que a sua continuação nos causaria insuportável tédio. Precisamos de uma urna depositaria dos nossos segredos; do mesmo modo que a planta carece do orvalho para vicejar e crescer. Sente-se aqui ao meu lado, e assista comigo ao mais pavoroso de todos os espetáculos que só a natureza nos sabe prodigalizar, e que a maioria dos homens, no meio de seu estúpido orgulho, olham indiferentes.

Travada, assim, a intimidade entre estes dois corações, que à primeira vista pareciam entender-se bem; fácil lhe foi, a Alberto de Carvalhal, que Francisco de Castro lhe narrasse circunstanciadamente os tristes episódios de alguns dos seus dias passados.

Com este alvitre pois, enlaçados pela mútua simpatia, aqueles dois amigos encaminharam-se para casa, onde, depois de terem almoçado jubilosamente, Francisco de Castro, coadjuvado pelo atencioso ardor do seu companheiro, encetou o drama da sua vida com as palavras, que vão ler-se no seguinte capitulo.

III

Foi por uma tarde serena de abril. Eu, criança ainda, dos meus 13 anos, divagava, triste e solitário pela margem graciosa do meu límpido Vouga, contemplando aquele espetáculo de místico enlevo, aquela hora de profundos arroubos e de gostosa melancolia, em que o Criador mais parece falar diretamente ao coração do homem, — quando, inopinadamente, me pareceu ouvir, a poucos passos do lugar onde me encontrara, o estalido rápido e seco de um instrumento metálico. Em poucos minutos galguei um comoro, que me separava daquele sítio desastroso, encontrando-me face a face com dois personagens, que, muito intencionalmente, tinham escolhido o silêncio daquela hora para ali virem bater-se num duelo de morte. Quis dissuadi-los de semelhante propósito: nada consegui.

Travou-se uma luta feroz, e, dentro de pouco tempo, um dos adversários jazia por terra, coberto de pó, e revolvendo-se cruelmente no sangue de suas próprias feridas. Ainda experimentei, uma e muitas vezes, levantar o moribundo, e conduzi-lo à primeira guarida, que se me deparasse oportunamente. Tudo foi baldado, porém.

O outro adversário, apenas viu o contendor prostrado, e sem forças, abandonou o campo, e fugiu. Que fazer, em tal conjuntura? Eu, só, ali, sem uma pessoa única, que pudesse velar por ele. Nem sequer uma gota d'água para o refrigerar momentaneamente!!

Felizmente, meia hora não era passada, quando, ao clamor da minha voz, acorreu aquele lugar um trabalhador, que, casualmente, se recolhia a casa. Em poucas palavras, contei-lhe o sucedido, convidando-o a que velasse pelo ferido, enquanto eu, açodado, correria à cidade a dar parte do acontecido.

E assim foi com efeito. Dei-me pressa em correr à vizinha povoação. Em vinte minutos estava de volta com dois valentes companheiros para logo o conduzirmos a um lugar seguro, como a urgência do caso no-lo ordenava.

Sem saber, porém, o nome do indivíduo, nem tão pouco a sua procedência, julguei prudente entregá-lo ao cuidado de um desgraçado, mas honrado agricultor, que, de bom grado, o acolheu no seio de sua família, dispensando-lhe todo o desvelo e solicitude, que soe sempre encontrar-se no tugúrio do pobre.

O ferimento não fora mortal. O cirurgião assistente, apenas decorrido o primeiro mês, para logo o declarara livre de perigo, concedendo-lhe igualmente a liberdade de dar alguns passeios pelos campos e divisas mais próximas, com o intuito de tornar mais rápida a sua convalescença.

Pouco tempo depois, instaurou-se um processo para proceder a uma averiguação rigorosa sobre aquele fato lamentável. No dia aprazado para esse fim fui obrigado a comparecer na audiência, como testemunha ocular, que, infelizmente, houvera sido.

E fui pontual, nesse dia, aparecendo, sem dificuldade no tribunal, onde pouco depois teria de julgar-se um crime de há muito reprovado pela moral, e pelo direito. Estava impoluta a minha consciência, não me arguindo de coisa alguma, a não ser o ter eu envidado todos os meus esforços, posto que inúteis, para salvar um desgraçado.

Por isso, quando me chegou a vez de falar, contei singela e lealmente o que me fora lícito ver e presenciar. O juiz figurara-se-me satisfeito com o meu depoimento. A minha má sina, porém, já então me começava a perseguir.

Após alguns momentos de silêncio, e geral expectação, o réu começou a narrar circunstanciadamente tudo o que lhe houvera sucedido; vindo eu, finalmente, ao conhecimento de que ele era um mancebo natural de Lisboa, descendente de preclara estirpe, a quem uma paixão violenta, e uma rivalidade sem limites haviam arruinado física e moralmente.

Estavam as coisas neste ponto, quando seus olhos, por acaso, se fixaram na minha humilde pessoa. Parecera-me encontrar naquele olhar o quer que era de satânico e sinistro, que me horrorizou até à medula dos ossos. E, de feito, não me iludi.

Alguns instantes depois, aquele individuo, para quem eu fora o anjo custódio num momento de suprema desventura, apontava-me ao público como um dos principais cúmplices naquele crime; e asseverando até abertamente ter sido o meu desejo imediato o assassiná-lo para lhe roubar o pouco que consigo trouxera, se, porventura, um transeunte não tivesse ido em seu auxílio, arrancando-o às minhas mãos.

Desta vez a minha indignação tocou o seu zênite. Os olhos chispavam-me fogo; o coração, afogueado em cólera, batia-me apressado e violento. Quis falar, mas não pude. A voz prendera-se-me na garganta. Alcei os olhos para o céu, e caí, subitamente acometido por dolorosa síncope. O que depois disto se passou, nem eu o sei, meu amigo.

Quando, no dia imediato, descerrei as pálpebras amortecidas ao astro do dia, encontrei-me isolado, numa alcova escura e úmida, com uma estreita gelosia apenas, no vão da parede, por onde se coava, a custo, um tênue raio de luz.

Por informações colhidas posteriormente, concluí ser aquele o cárcere, que, logo após o julgamento, me fora predestinado para justa expiação do meu delito. Apelei para a ação da divina Providência, e sofri resignado o peso da minha cruz.

Lembrei-me, então, de minha pobre e santa mãe, ralada de desgosto, de meu excelente pai, de meus pequeninos e inocentes irmãos, enfim, de tudo o que me era caro neste mundo, e chorei... chorei... muito...

Neste ponto, o venerando apostolo de Cristo, não pôde, por mais tempo, sufocar a sinceridade de seu coração. Levantou-se do escabelo, em que se havia sentado, com dois fios de grossas lágrimas a deslizarem-lhe brandamente pelas faces macilentas; e, de súbito, alçou a adufa da janela, como se peso enorme lhe afrontasse a vista. Alberto acompanhou-o naquele movimento convulsivo, auxiliando-o de boa mente a volver as negras páginas do livro fatal da sua vida. Depois, sentaram-se novamente, e Francisco de Castro, fortificado pelas ternas consolações de um amigo sincero e bom, continuou, mais alentado, a sua história até ali encetada.

IV

O desgraçado havia ensandecido. Por isso, reconhecida a verdade do fato, me concederam a liberdade, e me restituíram ao seio da família. Ainda assim, não havia furtar-me aos olhares perscrutadores e cobiçosos daquela gente hipócrita e ridícula da terra.

Foi, pois, com este intento que meu padrinho, Francisco Marques, homem solteiro e de grandes haveres, se resolveu a persuadir minha mãe, a fim de me deixar embarcar para o Brasil, pretextando ser aquele o único meio, não só de me subtrair às línguas viperinas, que, a cada passo, intentavam empeçonhar o santuário da minha reputação, até ali intacta, senão também o caminho mais seguro para alcançar no futuro uma posição certa e definida.

Daí a dois meses já eu estava no Rio de Janeiro como caixeiro de uma casa comercial.

A ingênua hospitalidade, e natural lhaneza, com que ali me trataram, deixara-me de todo cativo daquela santa e boa gente. Fora-me, porém, impossível contrariar a minha natureza, já de si sobejamente expansiva e juvenil, escravizando-a a tão árduo e difícil mister.

Todavia, a despeito das mil e quase insuperáveis contrariedades, que então se me atulharam no horizonte da minha vida social, estava intimamente convencido, ainda assim, que a foice do tempo, roçando ao de leve por sobre os sonhos e ilusões da minha mocidade, faria de mim um bom negociante, e um verdadeiro autômato das minhas necessidades, sempre crescentes de dia para dia, se um motivo inopinado não viesse, por uma vez, cercear o nó fatal de todas as minhas aspirações no porvir.

E foi o caso:

Na rua Direita, onde eu residia, havia dois anos, habitava quase vis-à-vis de nossa casa, um diplomata de grande nomeada naquele tempo, muito afeiçoado a meus patrões, com quem nutria também algumas relações comerciais.

Descendente de ilustres avoengos, este personagem, pelos seus ademanes e ações, afigurara-se-me, desde a primeira vez que o vi, um senhor feudal da idade-média, no entranhável rancor e ódio feroz, com que olhara sempre os que lhe eram inferiores em categoria e nascimento; ou, por outra, esse bando de mecânicos, que por aí tropeça a cada canto, espécie de bestas de carga, — segundo ele — úteis, apenas, para ludibrio dos grandes e descrédito da sociedade.

Já vê, pois, o meu amigo, quão longe estaria eu de simpatizar com aquele homem, sinceramente estulto e fátuo, que receava macular as insígnias do seu brasão hereditário, apertando a mão impoluta de um pobre, mas honrado plebeu. E, no entretanto, a minha má estrela parecia caprichar em me ter escolhido, um monstro daquela casta, para meu implacável algoz.

Do seu primeiro matrimônio, que ele concebera apenas obtida a elevada posição de embaixador estrangeiro junto à corte brasileira, houve ele tão somente uma filha, em quem debalde procurou imprimir o cunho dos seus depravados sentimentos. Amélia era o seu nome.

Inebriado pela sedução de seu olhar magnético, e lisonjeado pela magia de celestial encanto que me sorria ao longe por entre o anil da minha primavera; eu, átomo insignificante, ousei, um dia, alçar a minha fronte obscura para aquele astro de divina poesia. Contemplei-o, por longas horas, num êxtase de inefável ventura, e reconheci, ao fim, a grandeza e imensidade daquele coração, para quem não fora indiferente o meu olhar receoso e temerário.

Porém, entre mim e aquela mulher existia um abismo incomensurável; um inferno medonho nos separava. Ela era rica, e nobre; eu era pobre, e plebeu.

Era, sem dúvida, uma atitude dolorosa, aquela, em que inesperadamente nos colocara um caso fortuito, e meramente instintivo. Todavia, não desanimei, e cedi maquinalmente aos impulsos poderosos do meu destino, alentado apenas por uma esperança vaga e indecisa, que me adejava furtiva e longínqua por sobre a orla do meu horizonte.

Ao tempo em que primeiramente a conheci, Amélia não contava mais de 18 anos de idade, ostentando então toda a formosura e transparência de seu elevado espírito, num rosto profundamente sereno e angélico, onde cintilavam, como esmeraldas, dois olhos verde-negros e sedutores, que me deixaram deveras cativo e enleado.

Quando, pela primeira vez, fitei a gentileza daquela imagem radiante, daquele corpo donairoso e alabastrino, daquela mãozinha tão delicada e quase impalpável, daquele pesinho de sílfide, daqueles cabelos, pretos como azeviche, ondulando naturalmente por sobre os seus ombros de cisne, à mercê da branda e tépida viração do crepúsculo; senti-me enlevado em místicas harmonias; convulso, não pude suster o voo da minha fantasia. Crera-me até arrastado no mimo da flor, e na melodia do rouxinol, a um novo mundo; julgara entrever um paraíso, nessa exuberância de seiva imaginativa, que produziu em mim um misto de sentimentos indizíveis e misteriosos.

Dir-se-ia uma visão oceânica!

Amélia, para quem a minha presença fora de todo indiferente, no princípio, começou por me corresponder, daí a um mês, com um amor apaixonado, e tão verdadeiro como era o meu. E, em verdade, tudo nos corria auspicioso e prometedor. Quase nos havíamos esquecido deste mundo, com as suas paixões e ódios ruins, para nos extasiarmos perante o desabrochar daquela ventura celestial, cujo ambiente nos envolvia num deleite imperceptível.

Porém, tudo tinha de acabar irremediavelmente; e foi exatamente, quando menos o esperávamos, que o sopro terrível da realidade nos veio dissipar, num momento, todas as doces ilusões daquele imenso amor, que nos absorvia, desfolhando-nos, impassível, todos os sonhos que nos alimentavam o ideal da nossa juventude esperançosa e meiga.

O diplomata, tendo sido competentemente avisado desta nossa mútua afeição, não só me ameaçou logo com toda a casta de doestos e convícios, como também o participou imediatamente aos meus patrões, que me despediram, nesse mesmo dia, com uma desculpa ridícula e alvar.

Amélia, essa, coitada! teve de lutar, e lutar muito, para arcar com os instintos ferinos de seu pai, a quem prestes ocorreu a ideia nefasta de sacrificar aquela vítima inocente a um interesse sórdido e vil. Aquele miserável concebera a satânica inspiração de vender sua filha a um milionário devasso, que, anteriormente, lhe havia manifestado o desejo de casar um único filho que possuía com o doce objeto dos meus sonhos sobre a terra,

Por maiores que fossem as imprecações daquele anjo celeste, alegando a impossibilidade de uma tal união com um homem, que mal conhecia, e cuja desventura seria infalível no futuro, não houve, contudo, resistir-lhe. A resolução, uma vez tomada, tinha de seguir o seu curso violento, ainda através dos mais insuperáveis obstáculos.

E, de feito, assim sucedeu!

Um mês depois, Amélia, aos olhos do mundo, era legítima esposa do tal milionário. Seu pai havia atingido o auge de glória e contentamento, julgando ter encontrado a máxima felicidade para sua filha. Era, porém, grande a ilusão. E muito calejado, por certo, deveria de estar aquele homem no vício, para não resistir ao remorso da sua consciência, e não conhecer toda a vastidão da sua perfídia e do seu crime.

Mas esqueçamos esse homem hipócrita e embusteiro, se tanto nos for possível, de que anda tão colmada esta nossa sociedade, e voltemos a rematar a nossa história com os últimos episódios de meus desgraçados dias.

V

Apenas sair daquela primeira e última casa, em que me fora lícito entrar no Rio de Janeiro, nunca mais consegui empregar-me em parte alguma. A minha reputação estava de todo perdida e manchada. Como valer-lhe? de onde haver recursos, para voltar à pátria? Em tal caso, o único refúgio seria, talvez, mendigar de porta em porta um mesquinho ceitil, com que pudesse matar a fome que me devorava as entranhas; mas, como o havia de fazer, eu, um homem robusto e apto para trabalhar? quem ousaria acreditar-me, naquelas circunstâncias? e qual seria o meu denodo para arcar peito a peito com a indignação da sociedade, arrojando-me às faces os meus erros, e passadas loucuras?!...

Todas estas interrogações dirigia a mim próprio, apertando, por vezes, entre as mãos convulsas, as minhas faces afogueadas em cólera e súbito desalento. Procurei repousar o meu corpo abrasado, e não pude. Experimentei distrair-me, e tudo cri impossível. Que fazer, pois? Apelar para a ação da divina Providência; isso seria, além de demasiada temeridade, um puro lazzaronismo. Enfim, nem sei como possa descrever-lhe aquele momento de suprema angústia, e fatal desesperança?! Só lhe direi que em poucas horas me senti envelhecer, como se já tivesse cinquenta anos de idade.

Oxalá Deus me tivesse chamado a si naquele intervalo de pungente dor e luta tenaz!...

Entretanto, a incredulidade ia-se apossando do meu debilitado espírito, e o cinismo não tardaria, decerto, a vir fazer-lhe companhia; quando senti um clarão de luz banhar-me a furto a minha existência falaz.

Nesse instante, tinha eu recebido um bilhete, concebido nos seguintes termos:

— Meu caro Francisco. — Espero-te hoje, sem falta, às 11 horas da noite, junto de minha casa. Sempre a mesma — Amélia.

Esperei, pois, por essa hora, caminhando, lentamente, para o lugar aprazado. Incitava-me uma curiosidade espantosa, e um desejo violento de poder dizer um derradeiro adeus aquela perola da minha alma.

Apenas soaram 11 horas nos relógios da cidade, de súbito Amélia, surgiu a uma das janelas da casa, acenando-me cautelosamente para que me aproximasse sem receio. Acerquei-me, portanto, daquele lugar; porém, oh! meu Deus!... o que vi eu?!... nem quero que tal coisa me lembre! Amélia, tão formosa outrora, como estava mudada!... As rosas das faces tinham-se-lhe secado profundamente; os olhos encovados, e sem brilho; as pálpebras apenas se volviam mórbidas, e sem significação. Tudo denunciava terrível cataclismo, ruína inevitável!

— Mandei-te chamar, Francisco, porque me custava desprender deste mundo, sem me despedir do único amigo que ainda possuo na terra. Perante o despotismo da força foi cega a minha humilhação, como sabes. Obedecendo a meu pai, julguei cumprir um dever filial, e nada mais. Ao menos ninguém ousará taxar-me de ingrata, nem de insubordinada, creio eu. Agora, consumou-se tudo. A vingança está prestes. Deus, decerto, não me poderá recusar a bem-aventurança de uma outra vida. Os anjos esperam-me no céu, meu amigo, e só lá então poderei encontrar a verdadeira felicidade. Lembra-te sempre da tua Amélia, meu caro, e não percas jamais a esperança da nossa união ante o trono do Altíssimo. Também imagino bem quantas privações terás passado, meu bom amigo. Não julgues, por acaso, que tenha esquecido a tua dedicação e infortúnio, no meio do fausto e esplendor em que vivo. Não; pelo contrário. Desculpa, se antes te não mandei chamar; mas só hoje me foi possível levantar as algemas de meus pulsos. Agora... adeus... sinto... passos... preciso retirar-me... Lembra-te sempre de mim... Não me esqueças... por quem és... Toma lá... recebe, agora, a última lembrança... da tua querida... E adeus... adeus...

Amélia retirou-se logo, para dentro, cerrando vagarosamente a janela, como para evitar que alguém a pudesse ver e ouvir. Eu, afastei-me imediatamente daquele lugar, sufocado, sem poder articular nem mais uma palavra. Por pouco se me não esvaíram os sentidos.

Apanhei o pacote que Amélia me pedira para aceitar, como um penhor de reminiscência das nossas horas venturosas. Abri-o, e encontrei um maço de notas do Banco, que subiam a um valor nada vulgar. Emudeci, e ajoelhei automaticamente, levantando as mãos aos céus, num ato de piedosa contrição. Volvi, depois, a casa, ansioso por dar largas à sinceridade das minhas lágrimas, longo tempo represadas, e ao brado da minha consciência generosa.

Daí a um mês estava eu no alto mar, em regresso para Portugal.

Alguns dias, porém, antes de partir, tinha, por acaso, encontrado Amélia, pelo braço de seu respeitável marido, que me lançou um olhar torvo e sinistro. Foi também a primeira vez que o vi, e, valha a verdade, poucas ou nenhumas impressões me deixou. Apenas me recordo ser ele um homem de estatura elevada, muito magro, tendo um espesso e elegante bigode a cobrir-lhe os lábios, naturalmente grossos e rudes. De nada mais me recordo. Hoje, se o visse, estou intimamente convencido, que me seria impossível conhecê-lo.

Mas, como lhe dizia, desembarquei no Porto a 2 de julho de 1852. Aí mesmo consegui a minha entrada no seminário episcopal da cidade, donde saí, cinco anos mais tarde, já com ordens sacras.

A despeito de todos os despotismos e ameaças, Amélia continuou a escrever-me todos os paquetes, até que chegou um dia em que deixei de receber notícias suas. Foi isto, cinco meses depois da minha chegada a este país. Soube, finalmente, por carta de um caixeiro da casa comercial, onde eu estivera, que ela havia sucumbido a uma tísica pulmonar, acompanhada de doloroso sofrimento e pranto acerbo.

O diplomata, ainda hoje me consagra um ódio feroz, atribuindo à minha pessoa toda a origem dos seus males e desgraças. Enquanto a seu genro, nem sei o que lhe terá sucedido. Disse-me alguém, há poucos dias, que ele viera fixar a sua residência em Portugal. De certeza, porém, nada posso afirmar-lhe.

Em conclusão, o que bem lhe posso asseverar é que, apesar da grande aversão com que aquele homem ainda hoje me olha, talvez, eu, pelo contrário, nunca lhe desejei senão o seu bem e completa felicidade. Pois, em verdade, bastava ver nele o marido de Amélia, para não poder resistir a um profundo respeito e sincera veneração.

— E que faria hoje a esse homem se, por acaso, o encontrasse? — interrompeu finalmente Alberto de Carvalhal.

— Perdoar-lhe-ia, como expressamente mo ordenam os preceitos de Cristo.

— Ora até que enfim! sou feliz, meu amigo. Deus seja louvado! — exclamou Alberto, caindo aos pés do padre Francisco de Castro, que debalde procurou sustê-lo em seus braços.

Quem era pois Alberto de Carvalhal, já o leitor, de sobejo, o terá imaginado. E a razão por que ele sempre se conservara silencioso, no decurso da triste narrativa do padre Francisco de Castro, fácil nos será supor também, por isso mesmo que ele não fazia mais do que ouvir, em parte, a sua própria história, e chorar nos seus próprios infortúnios.


EPÍLOGO

Dois anos depois Alberto era monge beneditino. Ao cilício do penitente juntara ele as lágrimas de um pecador contrito.

O padre Francisco de Castro, ao receber esta nova, que lhe era de tanto prazer e consolação, deu-se pressa em ir abraçar o seu amigo, e, por longo tempo esquecidos, permaneceram nos braços um do outro, extasiados da mútua ventura e jubiloso alvoroço.

A felicidade os acompanhe! Que a glória do Eterno lhes alente o espírito por entre as lágrimas e abrolhos deste mundo, e que a certeza de um beatifico porvir os inicie na prática das grandes virtudes!...