sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O Fisco (Conto de Natal), de Monteiro Lobato


O Fisco (Conto de Natal)
 
PRÓLOGO

No princípio era o pântano, com valas de agrião e rãs coaxantes. Hoje é o parque do Anhangabaú, todo ele relvado, com ruas de asfalto, pérgola grata a namoricos noturnos, e Eva de Brecheret, a estátua dum adolescente nu que corre – e mais coisas. Autos voam pela vida central, e cruzam-se pedestres em todas as direções. Lindo parque, civilizadíssimo.

Atravessando-o certa tarde, vi formar-se ali um bolo de gente, rumo ao qual vinha vindo um polícia apressado.

– Fagocitose, pensei. A rua é a artéria; os passantes, o sangue. O desordeiro, o bêbado, o gatuno são os micróbios maléficos, perturbadores do ritmo circulatório. O soldado de polícia é o glóbulo branco – o fagócito de Metchenikoff. Está de ordinário parado no seu posto, circunvagando olhares atentos. Mal se congestiona o tráfego pela ação antissocial de desordeiro, o fagócito move-se, caminha, corre, cai afunda sobre o mau elemento e arrasta-o para o xadrez.

Foi assim naquele dia. Dia sujo, azedo. Céu dúbio, de decalcomania vista pelo avesso. Ar arrepiado.

Alguém perturbara a paz do jardim, e em redor desse rebelde logo se juntou um grupo de glóbulos vermelhos, vulgo passantes. E lá vinha agora o fagócito fardado restabelecer a harmonia universal.

O caso girava em torno de uma criança maltrapilha, que tinha a tiracolo uma caixa tosca de engraxate, visivelmente feita pelas suas próprias mãos.

Muito sarapantado, com lágrimas a brilharem nos olhos cheios de pavor, o pequeno murmurava coisas de ninguém atendidas. Sustinha-o pela gola um fiscal da Câmara.

– Então seu cachorrinho, sem licença, hein? – exclamava, entre colérico e vitorioso, o mastim municipal, focinho muito nosso conhecido. – É um que não é um mas sim legião, e sabe ser tigre ou cordeiro conforme o naipe do contraventor.

A miserável criança evidentemente não entendia, não sabia que coisa era aquela de licença, tão importante, reclamada assim a empuxões brutais. Foi quando entrou em cena a polícia.

Este glóbulo branco era preto. Tinha beiço de sobejar e nariz invasor de meia cara, aberto em duas ventas acesas, relembrativas das cavernas de Trofônio. Aproximou-se e rompeu o magote com um napoleônico – “Espalha!”.

Humildes elas se abriram àquele Sésamo, e a Autoridade, avançando, interpelou o fisco:

– Que encrenca é esta, chefe?

– Pois este cachorrinho não é que está exercendo ilegalmente a profissão de engraxate? Encontrei-o banzando por aqui com estes troços, a fisgar com os olhos os pés dos transeuntes e a dizer “engraxa, freguês”. Eu vi a coisa de longe. Vim pé ante pé, disfarçando e, de repente, nhoc! “Mostre a licença”, gritei. “Que licença?”, perguntou ele, com arzinho de inocência. “Ah, você diz que licença, cachorro? Está me debochando, ladrão? Espera que te ensino o que é licença, trapo!” e agarrei-o. não quer pagar a multa. Vou levá-lo ao depósito, autuar a infração para proceder de acordo com as posturas – concluiu um soberbo entono o cariado canino de Maxila fiscal.

– É isso mesmo. Casca-lhe!

E chiando por entre os dentes uma cusparada de esguicho, deu a sua sacudidela suplementar no menino. Depois voltou-se para os basbaques de ordenou com império de soba africano:

– Circula, paisanada! É “purivido” ajuntamentos demais de um.

Os glóbulos vermelhos dispersaram-se em silêncio. O buldogue lá seguiu com o pequeno nas unhas. E o Pau-de-fumo, em atitude de Bonaparte em face das pirâmides, ficou, de dedo no nariz e boca entreaberta, a gozar a prontidão com que, num ápice, sua energia resolvera o tumor maligno formado na artéria sob a sua fiscalização.

O BRÁS

Também lá, no princípio, era o charco – terra negra, fofa, turfa tressuante, sem outra vegetação além dessas plantinhas miseráveis que sugam o lodo como minhocas.

Aquém da várzea, na terra firme e alta, São Paulo crescia. Erguiam-se casas nos cabeços, e esgueiravam-se ladeiras encostas abaixo: a Boa Morte, o Carmo, o Piques; e ruas, Imperador, direita, São Bento.

Poetas cantavam-lhe as graças nascentes:

Ó LIBERDADE, Ó PONTE GRANDE, Ó GLÓRIA…

Deram-lhe um dia o viaduto do chá, esse arrojo… os paulistanos pagavam sessenta réis para, ao atravessá-lo, conhecerem a vertigem dos abismos. E em casa narravam a aventura às esposas e mães, pálidas de espanto. Que arrojo de homem, o Jules Martin que construíra aquilo!

Enquanto São Paulo crescia o Brás coaxava. Enluravam-se naquele brejal legiões de sapos e rãs. À noite, do escuro da terra um coral subia de coaxos, pan-pans de ferreiro, latidos de miumbias, glus-glus de untanhas; e, por cima, no escuro do ar, vaga-lumes ziguezagueantes riscavam fósforos às tontas.

E assim foi até o dia da avalanche italiana.

Quando lá no Oeste a terra roxa se revelou mina de ouro das que pagam duzentos por um, a Itália vazou para cá a espuma da sua transbordante taça de vida. E São Paulo, não bastando ao abrigo da nova gente, assistiu, Antônio, ao surto do Brás.

Drenos sangraram em todos os rumos o brejal turfoso; a água escorreu; os espavoridos sapos sumiram-se aos pulos para as baixadas do Tietê; rã comestível não ficou uma para memória da raça; e, breve, em substituição aos guembês, ressortiu a cogumelagem de centenas e centenas de casinhas típicas – porta, duas janelas e platibanda.

Numerosas ruas, alinhadas na terra cor de ardósia, que já o sol ressequira e o vento erguia em nuvens de pó negro, margearam-se com febril rapidez desses prediozinhos térreos, iguais uns aos outros, como saídos do mesmo molde, pífios, mas únicos possíveis então. Casotas provisórias, desbravadoras da lama e vencedoras do pó, à força de preço módico.

E o Brás cresceu, espraiou-se de todos os lados, comeu todo o barro preto da Mooca, bateu estacas no Marco da Meia Légua, lançou-se rumo á penha, pôs de pé igrejas, macadamizou ruas, inçou-se de fábricas, viu surgirem avenidas e vida própria, e cinemas, e o Colombo, e o namoro, e o corso pelo carnaval. E lá está hoje enorme, feito a cidade do Brás, separado de São Paulo pelo faixão vermelho da várzea aterrada – Pesth desta Buda à beira do Tamanduateí plantada.

São duas cidades vizinhas, distintas de costumes e de almas já bem diversas. Ir ao Brás é uma viagem. O Brás não é ali, como o Ipiranga; é lá do outro lado, embora mais perto que o Ipiranga. Diz-se – vou ao Brás, como quem diz – vou à Itália. Uma agregada como um bom bócio recente e autônomo a uma urbes antiga, filha do país; uma Itália função da terra negra, italiana por sete décimos e “algo nuevo” pelos restantes.

***

O Brás trabalha de dia e à noite gesta. Aos domingos fandanga ao som do bandolim. Nos dias de festa nacional (destes tem predileção pelo 21 de abril: vagamente o Brás desconfia que o barbeiro da inconfidência, porque barbeiro, havia de ser um patrício), nos dias feriados o Brás vem a São Paulo. Entope os bondes no travessio da Várzea e cá ensardinha-se nos autos: o pai, a mãe, a sogra, o genro e a filha casada no banco de trás; o tio, a cunhada, o sobrinho e o Pepino escoteiro no da frente; filhos miúdos por entremeio; filhos mais taludos ao lado do motorista; filhos engatinhantes debaixo dos bancos; filhos em estado fatal no ventre bojudo das matronas. Vergado de molas, o carro geme sob a carga e arrasta-se a meia velocidade, exibindo a Paulicéia aos olhos arregalados daquele exuberante cacho humano.

Finda a corrida, o auto debulha-se do enxame no triângulo e o bando toma de assalto as confeitarias para um regabofe de espumones, gasosas, croquetes. E tão a sério toma a tarefa, que ali pelas nove horas não restam iscas de empada nos armários térmicos, nem vestígios de sorvete no fundo das geladeiras. O Brás devora tudo, ruidosa, alegremente e, com massagens ajeitadoras do abdome, sai impando bem-aventurança estomacal. Caroços de azeitonas, palitos de camarões, guardanapos de papel, pratos de papelão seguem nas munhecas da petizada como lembrança da festa e consolo ao bersalherezinho que lá ficou de castigo em casa, berrando com goela de Caruso.

Em seguida, toca para o cinema! O Brás abarrota os de sessão corrida. O Brás chora nos lances lacrimogêneos da Bartini, e ri nas comédias a gás hilariante da L-Ko mais do que autorizam os mil e cem de entrada. E repete a sessão, piscando o olho: é o jeito de dobrar a festa em extensão e obtê-la a meio preço – 550 réis, uma pechincha.

***

As mulheres do Brás, ricas de ovário, são vigorosíssimas de útero. Desovam quase filho e meio por ano, sem interrupções, até que se acabe a corda ou rebente alguma peça essencial da gestatória.

É de vê-las na rua. Bojudas de seis meses, trazem um pepininho à mão e um choramingas à mama. À tarde o Brás inteiro chia de criançalha a chutar bolas de pano, a jogar pião, ou a piorra, ou o tento de telha, ou o tabefe, com palavreados mistos de português e dialetos de Itália . mulheres escarrancadas às portas, com as mãos ocupadas em manobras de agulha de osso, espigaitam para os maridos os sucessos do dia, que eles ouvem filosoficamente, cachimbando calados ou confiando a bigodeira à Humberto primo.

De manhã esfervilha o Brás de gente estremunhada a caminho das fábricas.

A mesma gente reflui à tarde aos magotes – homens e mulheres, de cesta no braço, ou garrafas de café vazias penduradas no dedo; meninas, rapazes, raparigotas de pouco seio, galantes, tagarelas, com o namorente.

Desce a noite, e nos desvãos de rua, nos becos, nas sombras, o amor lateja. Ciciam vozes cautelosas das janelas para os passeios; pares em conversa disfarçada nos portões emudecem quando passa alguém ou tosse lá dentro o pai.

Durante o escuro das fitas, nos cinemas, há contatos longos, febricilantes; e quando nos intervalos irrompe a luz, não sabem os namorados o que se passou na tela – mas estão de olhos langues, em quebreira de amor.

É o latejar da messe futura. Todo aquele eretismo por música, com cicios de pensamentos de cartão postal, estará morto no ano seguinte – legalizado pela igreja e pelo juiz, transfeita a sua poesia em choro de crianças e nas trabalhadeiras sem fim da casa humilde.

Tal menina rosada, leve de andar, toda requebros e dengues, que passa na rua vestida com graça e atrai os olhares gulosos dos homens, não a reconhecereis dois anos depois na lambona filhenta que deblantera com verdureiro a propósito do feixe de cenouras em que há uma menor que as outras...

Filho da lama negra, o Brás é como ela um sedimento de aluvião. É São Paulo, mas não é a Paulicéia. Ligados pela expansão urbana, separa-os uma barreira. O velho caso do fidalgo e do peão enriquecido...

PEDRINHO, SEM SER CONSULTADO, NASCE

Viram-se ele e ela. Namoraram-se. Casaram.

Casados, proliferaram.

Eram dois. O amor transformou-se em três. Depois em quatro, em cinco, em seis…

Chamava-se Pedrinho o filho mais velho.

A VIDA

De pé, na porta, a mãe espera o menino que foi à padaria. Entra o pequeno com as mãos abandonado.

– Diz que subiu; custa agora oitocentos.

A mulher, com uma criança ao peito, franze a testa, desconsolada.

– Meus Deus! Onde iremos parar? Ontem era a lenha: hoje é o pão… tudo sobe. Roupa, pela hora da morte. José ganhando sempre a mesma coisa. Que será de nós, Deus do céu!

E voltando-se para o filho:

– Vá a outra padaria, quem sabe lá… se for a mesma coisa, traga só um pedaço.

Pedrinho sai. Nove anos. Franzino, doentio, sempre mal alimentado e vestido com os restos das roupas do pai.

Trabalha este no moinho de trigo, ganhando jornal insuficiente para manutenção da família. Se não fosse a bravura da mulher, que lavava para fora, não se sabe como poderiam substituir. Todas as tentativas feitas com intuito de melhorarem de vida com indústrias caseiras esbarram no óbice tremendo do fisco. A fera condenava-os à fome. Assim escravizados, José perdeu aos poucos a coragem, o gosto de viver, a alegria. Vegetava, recorrendo ao álcool para alívio de uma situação sem remédio.

Bendito sejas, amável veneno, refúgio derradeiro do miserável, gole inebriante de morte que faz esquecer a vida e lhe resume o curso! Bendito sejas!

Apesar da moça, 27 anos apenas, mariana aparentava o dobro. A labuta permanente, os partos sucessivos, a chiadeira da filharada, a canseira sem fim, o serviço emendado com o serviço, sem folga outra além da que o sono força, fizeram da bonita moça que fora a escanzelada besta de carga que era.

Seus dez anos de casada!… Que eternidade de canseiras!…

Rumor à porta. Entra o marido. A mulher, ninando a pequena de peito, recebe-o com a má nova.

– O pão subiu, sabe?

Sem murmurar palavra o homem senta-se apoiando nas mãos a cabeça. Está cansado.

A mulher prossegue:

– Oitocentos réis o quilo agora. Ontem foi a lenha; hoje é o pão… e lá? Sempre aumentaram o jornal?

O marido esboçou um gesto de desalento e permaneceu mudo, com o olhar vago. A vida era um jogo de engrenagens de aço entre cujos dentes se sentia esmagar. Inútil, destino, sorte...

Na cama, à noite, confabulavam. A mesma conversa de sempre. José acabava gruninho rugidos surdos de revolta.

Falava em revolução, saque. A esposa consolava-o, de esperança posta nos filhos.

– Pedrinho tem nove anos. Logo estará em ponto de ajudar-nos. Um pouco mais de paciência e a vida melhora.

Aconteceu que nessa noite Pedrinho ouviu a conversa e a referência à sua futura ação. Entrou a sonhar. Que fariam dele? Na fábrica, como o pai? Se lhe dessem a escolher, iria a engraxador. Tinha um tio no ofício, e em casa do tio era menor a miséria. Pingavam níqueis.

Sonho vai, sonho vem, brota na cabeça do menino uma ideia, que cresceu, tomou vulto extraordinário e fê-lo perder o sono.. começar já, amanhã, por que não? Faria mesmo a caixa; escovas e graxa, com o tio arranjaria. Tudo às ocultas, para surpresa dos pais! Iria postar-se num ponto por onde passasse muita gente. Diria como os outros “engraxa, freguês!” e níqueis haviam de juntar-se no seu bolso. Voltaria para casa recheado, bem tarde, com ar de quem as fez… E mal mãe começasse a ralhar, ele taparia a boca despejando na mesa um monte de dinheiro. O espanto dela, a cara admirada do pai, o regalo da criançada com a perspectiva da ração em dobro! E a mãe a apontá-lo aos vizinhos: “Estão vendo que coisa? Ganhou, só ontem, primeiro dia, dois mil réis!” e a notícia a correr… e murmúrios na rua quando o vissem passar: “É aquele!”

Pedrinho não dormiu essa noite. De manhãzinha já estava a dispor a madeira dum caixote velho sob forma da caixa de engraxate ao molde clássico. Lá a fez. Os preços, bateu com o salto de uma velha botina. As tábuas serrou pacientemente com um facão dentado. Saiu coisa tosca e mal-ajambrada, de fazer rir a qualquer carapina, e pequena demais – sobre ela só caberia um pé de criança igual ao seu. Mas Pedrinho não notou nada disso, e nunca trabalho nenhum de carpintaria lhe pareceu mais perfeito.

Conclusa a caixa, pô-la a tiracolo e esgueirou-se para a rua, às escondidas. Foi à casa do tio e lá obteve duas velhas escovas fora de uso, já sem pelos, mas que à sua exaltada imaginação se afiguraram ótimas. Graxa, conseguiu alguma raspando o fundo de quanta lata velha encontrou no quintal.

Aquele momento marcou em sua vida um apogeu de felicidade vitoriosa. Era como um sonho – e sonhando saiu para a rua. Em caminho viu o dinheiro crescer-lhe nas mãos, aos montes. Dava à família parte e o resto encafuava. Quando enchesse o canto da arca onde tinha suas roupas, montaria um “corredor”, pondo a jornal outros colegas. Aumentaria as rendas! Enriqueceria! Compraria bicicletas, automóvel, doces todas as tardes na confeitaria, livros de figuras, uma casa, um palácio, outro palácio para os pais. Depois…

Chegou ao parque. Tão bonito aquilo – a relva tão verde, tosadinha… Havia de ser bom o ponto. Parou perto de um banco de pedra e, sempre as futuras grandezas, pôs-se a murmurar para cada passante, fisgando-lhe os pés: “Engraxa, freguês!”

Os fregueses passavam sem lhe dar atenção. “É assim mesmo”, refletia consigo o menino, “no começo custa. Depois se afreguesam.”

Súbito, viu um homem de boné caminhando para seu lado. Olhou-lhe para as botinas. Sujas. Viria engraxar, com certeza – e o coração bateu-lhe apressado, no tumulto delicioso da estreia. Encarou o homem já a cinco passos e sorriu com infinita ternura nos olhos, num agradecimento antecipado em que havia tesouros de gratidão.

Mas em vez de lhe espichar o pá, o homem rosnou aquela terrível interpelação inicial:

– Então, cachorrinho, que é da licença?

EPÍLOGO? NÃO! PRIMEIRO ATO…

Horas depois o fiscal aparecia em casa de Pedrinho com o pequeno pelo braço. Bateu. O pai estava, mas quem abriu foi a mãe. O homem nesses momentos não aparecia, para evitar explosões. Ficou a ouvir do quarto o bate-boca.

O fiscal exigia o pagamento da multa. A mulher debateu-se, arrepelou-se. Por fim, rompeu em choro.

– Não venha com lamúrias – rosnou o buldogue, – conheço o truque dessa aguinha nos olhos. Não me embaça, não. Ou bate aqui os vinte mil réis, ou penhoro toda essa cacaria.

Exercer ilegalmente a profissão! Ora, dá-se! E olha cá madama, considere-se feliz de serem só vinte. Eu é de dó de vocês, uns miseráveis; se não aplicava o máximo. Mas se resiste dobro a dose!

A mulher limpou as lágrimas. Seus olhos endureceram, com uma chispa má de ódio represado a faiscar. O fisco, percebendo-o, motejou:

– Isso. É assim que as quero – tesinhas! ah! ah! ah! Mariana nada mais disse. Foi à arca, reuniu o dinheiro existente – dezoito mil réis ratinhados havia meses, aos vinténs, para o caso dalguma doença, e entregou-os ao fisco.

– É o que há – murmurou com tremura voz.

O homem pegou o dinheiro e gostosamente o afundou no bolso, dizendo:

– Sou generoso, perdoo o resto. Adeuzinho, amor! E foi à venda próxima beber dezoito mil réis de cerveja!

Enquanto isso, no fundo do quintal, o pai batia furiosamente no menino.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

O Drama da Geada (Conto), Monteiro Lobato



O Drama da Geada

Junho. Manhã de neblina. Vegetação entanguida de frio. Em todas as folhas o recamo de diamantes com que as adereça o orvalho.
Passam colonos para a roça, retransidos, deitando fumaça pela boca.
Frio de geada, desses que matam passarinhos e nos põem sorvete dentro dos ossos.
Saímos cedo a ver cafezais, e ali paramos, no viso do espigão, ponto mais alto da fazenda. Dobrando o joelho sobre a cabeça do socado, o major voltou o corpo para o mar de café aberto ante nossos olhos e disse num gesto amplo:
— Tudo obra minha, veja!
Vi e compreendi-lhe o orgulho, sentindo-me orgulhoso também de tal patrício. Aquele desbravador de sertões era uma força criadora, dessas que enobrecem a raça humana.
— Quando adquiri esta gleba — disse ele —, tudo era mata virgem, de ponta a ponta. Rocei, derrubei, queimei, abri caminhos, rasguei valos, estiquei arame, construí pontes, ergui casas, arrumei pastos, plantei café — fiz tudo. Trabalhei como negro cativo durante quatro anos. Mas venci. A fazenda está formada, veja.
Vi o mar de café ondulando pelos seios da terra, disciplinado em fileiras de absoluta regularidade. Nem uma falha! Era um exército em pé de guerra. Mas bisonho ainda. Só no ano vindouro entraria em campanha. Até ali, os primeiros frutos não passavam de escaramuças de colheita. E o major, chefe supremo do verde exército por ele criado, disciplinado, preparado para a batalha decisiva da primeira safra grande, a que liberta o fazendeiro dos ônus da formação, tinha o olhar orgulhoso dum pai diante de filhos que não mentem à estirpe.
O fazendeiro paulista é alguma coisa séria no mundo. Cada fazenda é uma vitória sobre a fereza retrátil dos elementos brutos, coligados na defesa da virgindade agredida. Seu esforço de gigante paciente nunca foi cantado pelos poetas, mas muita epopeia há por aí que não vale a destes heróis do trabalho silencioso. Tirar uma fazenda do nada é façanha formidável. Alterar a ordem da natureza, vencê-la, impor-lhe uma vontade, canalizar-lhe as forças de acordo com um plano preestabelecido, dominar a réplica eterna do inato daninho, disciplinar os homens da lida, quebrar a força das pragas... — batalha sem tréguas, sem-fim, sem momento de repouso e, o que é pior, sem certeza plena da vitória. Colhe-a muitas vezes o credor, um onzeneiro que adiantou um capital caríssimo e ficou a seu salvo na cidade, de cócoras num título de hipoteca, espiando o momento oportuno para cair sobre a presa como um gavião.
— Realmente, major, isto é de enfunar o peito! É diante de espetáculos destes que vejo a mesquinharia dos que lá fora, comodamente, parasitam o trabalho do agricultor.
— Diz bem. Fiz tudo, mas o lucro maior não é meu. Tenho um sócio voraz que me lambe, ele só, um quarto da produção: o governo. Sangram-na depois as estradas de ferro — mas destas não me queixo porque dão muita coisa em troca. Já não digo o mesmo dos tubarões do comércio, esse cardume de intermediários que começa ali em Santos, no zangão, e vai numa cadeia até o torrador americano. Mas não importa! O café dá para todos, até para a besta do produtor... — concluiu, pilheriando.
Tocamos os animais a passo, com os olhos sempre presos ao cafezal intérmino. Sem um defeito de formação, as paralelas de verdura ondeavam, acompanhando o relevo do solo, até se confundirem ao longe em massa uniforme. Verdadeira obra de arte em que, sobrepondo-se à natureza, o homem lhe impunha o ritmo da simetria.
— No entanto — continuou o major a batalha ainda não está ganha. Contraí dívidas; a fazenda está hipotecada a judeu-franceses. Não venham colheitas fartas e serei mais um vencido pela fatalidade das coisas. A natureza depois de subjugada é mãe; mas o credor é sempre carrasco...
A espaços, perdidas na onda verde, perobeiras sobreviventes erguiam fustes contorcidos, como galvanizadas pelo fogo numa convulsão de dor. Pobres árvores! Que destino triste, verem-se um dia arrancadas à vida em comum e insuladas na verdura rastejante do café, como rainhas prisioneiras à cola de um carro de triunfo! Órfãs da mata nativa, como não hão de chorar o conchego de outrora? Vede-as. Não têm o desgarre, o frondoso de copa das que nascem em campo aberto. Seu engalhamento, feito para a vida apertada da floresta, parece agora grotesco; sua altura desmesurada, em desproporção com a fronde, provoca o riso. São mulheres despidas em público, hirtas de vergonha, não sabendo que parte do corpo esconder. O excesso de ar as atordoa, o excesso de luz as martiriza — afeitas que estavam ao espaço confinado e à penumbra sonolenta do habitat.
Fazendeiros desalmados — não deixeis nunca árvores pelo cafezal... Cortai-as todas, que nada mais pungente do que forçar uma árvore a ser grotesca.
— Aquela perobeira ali — disse o major — ficou para assinalar o ponto de partida deste talhão. Chama-se a peroba do Ludgero, um baiano valente que morreu ao pé dela estrepado numa jiçara...
Tive a visão do livro aberto que seriam para o fazendeiro aquelas paragens.
— Como tudo aqui lhe há de falar à memória, major!
— É isso mesmo. Tudo me fala à recordação. Cada toco de pau, cada pedreira, cada volta de caminho tem uma história que sei, trágica às vezes, como essa da peroba, às vezes cômica — pitoresca sempre. Ali... — está vendo aquele toco de jerivá? Foi por uma tempestade de fevereiro. Eu abrigara-me num rancho coberto de sapé, e lá em silêncio esperávamos, eu e a turma, o fim do dilúvio, quando estalou um raio quase em cima das nossas cabeças.
— “Fim do mundo, patrão!”, lembro-me que disse, numa careta de pavor, o defunto Zé Coivara... E parecia!... Mas foi apenas o fim de um velho coqueiro, do qual resta hoje sic transit... esse pobre toco... Cessada a chuva, encontramo-lo desfeito em ripas.
Mais adiante abria-se a terra em boçoroca vermelha, esbarrondada em coleios até morrer no córrego. O major apontou-a, dizendo:
— Cenário do primeiro crime cometido na fazenda. Rabo-de-saia, já se sabe. Nas cidades e na roça, pinga e saia são o móvel de todos os crimes. Esfaquearam-se aqui dois cearenses. Um acabou no lugar; outro cumpre pena na correição. E a saia, muito contente da vida, mora com o tertius. A história de sempre.
E assim, de evocação em evocação, às sugestões que pelo caminho iam surgindo, chegamos à casa de moradia, onde nos esperava o almoço. Almoçamos, e não sei se por boa disposição criada pelo passeio matutino ou por mérito excepcional da cozinheira, o almoço desse dia ficou-me na memória gravado para sempre. Não sou poeta, mas se Apolo algum dia me der na cabeça o estalo do padre Vieira, juro que antes de cantar Lauras e Natércias hei de fazer uma beleza de ode à linguiça com angu de fubá vermelho desse almoço sem par, única saudade gustativa com que descerei ao túmulo...
Em seguida, enquanto o major atendia à correspondência, saí a espairecer pelo terreiro, onde me pus de conversa com o administrador. Soube por ele da hipoteca que pesava sobre a fazenda e da possibilidade de outro, não o major, vir a colher o fruto do penoso trabalho.
— Mas isso — esclareceu o homem — só no caso de muito azar — chuva de pedra ou geada, daquelas que não vêm mais.
— Que não vêm mais, por quê?
— Porque a última geada grande foi em 1895. Daí para cá as coisas endireitaram. O mundo, com a idade, muda, como a gente. As geadas, por exemplo, vão-se acabando. Antigamente ninguém plantava café onde o plantamos hoje. Era só de meio morro acima. Agora não. Viu aquele cafezal do meio? Terra bem baixa; no entanto, se bate geada ali é sempre coisinha — um tostado leve. De modo que o patrão, com uma ou duas colheitas, paga a dívida e fica o fazendeiro mais “prepotente” do município.
— Assim seja, que grandemente o merece — rematei.
Deixei-o. Dei umas voltas, fui ao pomar, estive no chiqueiro vendo brincar os leitõezinhos e depois subi. Estava um preto dando nas venezianas da casa a última demão de tinta. Por que será que as pintam sempre de verde? Incapaz por mim de solver o problema, interpelei o preto, que não se embaraçou e respondeu sorrindo:
— Pois veneziana é verde como o céu é azul. E da natureza dela...
Aceitei a teoria e entrei.
À mesa a conversa girou em torno da geada.
— É o mês perigoso este — disse a major. — O mês da aflição. Por maior firmeza que tenha um homem, treme nesta época. A geada é um eterno pesadelo. Felizmente a geada não é mais o que era dantes. Já nos permite aproveitar muita terra baixa em que os antigos nem por sombras plantavam um só pé de café. Mas, apesar disso, um que facilitou, como eu, está sempre com a pulga atrás da orelha. Virá? Não virá? Deus sabe!...
Seu olhar mergulhou pela janela, numa sondagem profunda ao céu límpido.
— Hoje, por exemplo, está com jeito, Este frio fino, este ar parado...
Ficou a cismar uns momentos. Depois, espantando a nuvem, murmurou:
— Não vale a pena pensar nisto. O que tem de ser lá está gravado no livro do destino.
— Livra-te dos ares!... — objetei.
— Cristo não entendia de lavoura — replicou o fazendeiro sorrindo.
E a geada veio! Não geadinha mansa de todas os anos, mas calamitosa, geada cíclica, trazida em ondas do Sul.
O sol da tarde, mortiço, dera uma luz sem luminosidade e raios sem calor nenhum. Sol boreal, tiritante. E a noite caíra sem preâmbulos.
Deitei-me cedo, batendo o queixo, e na cama, apesar de enleado em dois cobertores, permaneci entanguido uma boa hora antes que ferrasse no sono. Acordou-me o sino da fazenda, pela madrugada. Sentindo-me enregelado, com os pés a doerem, ergui-me para um exercício violento. Fui para o terreiro.
O relento estava de cortar as carnes — mas que maravilhoso espetáculo! Brancuras por toda parte. Chão, árvores, gramados e pastos eram, de ponta a ponta, um só atoalhado branco. As árvores imóveis, inteiriçadas de frio, pareciam emersas dum banho de cal. Rebrilhos de gelo pelo chão. Águas envidradas. As roupas dos varais, tesas, como endurecidas em goma forte. As palhas do terreiro, os sabugos de ao pé do cocho, a telha dos muros, o topo dos moirões, a vara das cercas, o rebordo das tábuas — tudo polvilhado de brancuras, lactescente, como chovido por um saco de farinha. Maravilhoso quadro! Invariável que é a nossa paisagem, sempre nos mansos tons do ano inteiro, encantava sobremodo vê-la de súbito mudar, vestir-se dum esplendoroso véu de noiva — noiva da morte, ai!...
Por algum tempo caminhei a esmo, arrastado pelo esplendor da cena. O maravilhoso quadro de sonho breve morreria, apagado pela esponja de ouro do sol. Já pelos topes e faces de batedeira andavam-lhe os raios na faina de restaurar a verdura. Abriam manchas no branco da geada, dilatavam-nas, entremostrando nesgas do verde submerso.
Só nas baixadas, encostas noruegas ou sítios sombreados pelas árvores, é que a brancura persistia ainda, contrastando sua nítida frialdade com os tons quentes ressurretos. Vencera a vida, guiada pelo sol. Mas a intervenção do fogoso Febo, apressada demais, transformara em desastre horroroso a nevada daquele ano — a maior de quantas deixaram marca nas embaubeiras de São Paulo.
A ressurreição do verde fora aparente. Estava morta a vegetação. Dias depois, por toda parte, a vestimenta do solo seria um burel imenso, com a sépia a mostrar a gama inteira dos seus tons ressecos. Pontilhá-lo-ia apenas, cá e lá, o verde-negro das laranjeiras e o esmeraldino sem-vergonha da vassourinha.
Quando regressei, sol já alto, estava a casa retransida no pavor das grandes catástrofes. Só então me acudiu que o belo espetáculo que eu até ali só encarara pelo prisma estético tinha um reverso trágico; a ruína do heroico fazendeiro. E procurei-o ansioso.
Tinha sumido. Passara a noite em claro, disse-me a mulher; de manhã, mal clareara, fora para a janela e lá permanecera imóvel, observando o céu através dos vidros. Depois saíra sem ao menos pedir o café, como de costume. Andava a examinar a lavoura, provavelmente.
Devia ser isso. Mas como tardasse a voltar — onze horas e nada —, a família entrou-se de apreensões.
Meio-dia. Uma hora, duas, três e nada.
O administrador, que a mandado da mulher saíra a procurá-lo, voltou à tarde sem notícias.
— Bati tudo e nem rasto. Estou com medo de alguma coisa... Vou espalhar gente por aí, à cata.
Dona Ana, inquieta, de mãos enclavinhadas, só dizia uma coisa:
— Que será de nós, santo Deus! Quincas é capaz duma loucura...
Pus-me em campo também, em companhia do capataz. Corremos todos os caminhos, varejamos grotas em todas as direções — inutilmente.
Caiu a tarde. Caiu a noite — a noite mais lúgubre de minha vida — noite de desgraça e aflição.
Não dormi. Impossível conciliar o sono naquele ambiente de dor, sacudido de choro e soluços.
Certa hora os cães latiram no terreiro, mas silenciaram logo.
Rompeu a manhã, glacial como a da véspera. Tudo apareceu geado novamente.
Veio o sol. Repetiu-se a mutação da cena. Esvaiu-se a alvura, e o verde morto da vegetação envolveu a paisagem num sudário de desalento.
Em casa repetiu-se o corre-corre do dia anterior, o mesmo vaivém, o mesmo "quem sabe?”, as mesmas pesquisas inúteis,
À tarde, porém — três horas —, um camarada apareceu esbaforido, gritando de longe, no terreiro:
— Encontrei! Está perto da boçoroca!...
— Vivo? — perguntou o capataz.
— Vivo, sim, mas...
Dona Ana surgira à porta e, ao ouvir a boa-nova, exclamou, chorando e sorrindo:
— Bendito sejas, meu Deus!...
Minutos depois partimos todos de ramo à boçoroca e a cem passos dela avistamos um vulto às voltas com os cafeeiros requeimados. Aproximamo-nos. Era o major. Mas em que estado! Roupa em tiras, cabelos sujos de terra, olhos vítreos e desvairados. Tinha nas mãos uma lata de tinta e uma brocha — brocha do pintor que andava a olear as venezianas. Compreendi o latido dos cães à noite...
O major não se deu conta da nossa chegada. Não interrompeu o serviço: continuou a pintar, uma a uma, do risonho verde esmeraldino das venezianas, as folhas requeimadas do cafezal morto....
Dona Ana, estarrecida, entreparou atônita. Depois, compreendendo a tragédia, rompeu em choro convulso.