quarta-feira, 27 de julho de 2022

Marta Sandomil (Conto), de Cláudia de Campos



MARTA SANDOMIL

 

Acabava de assentar-me à secretária, disposto a continuar um romance que o meu feroz editor me obrigava a concluir, em prazo muito breve.

Sentia-me acabrunhado com esta absurda necessidade de escrever por dinheiro, deixando adivinhar pela palavra, pela forma, pelo estilo, ao primeiro imbecil, a minha doce ou amarga maneira de desejar a felicidade, de gozar a vida, de suportar a dor.

Principiei a desenhar arabescos no papel, esperando a frase sintética, que correspondesse rigorosamente ao meu pensamento, e que me não era possível encontrar nessa ocasião. Mais uma vez media a imensa distância que separa a concepção, consoante ela existe no espírito, até à sua redução a forma e vulto em palavras, quando a porta do meu escritório se abriu, dando ingresso ao visconde de Lucena, elegante e correto no seu fato à inglesa, cortado no Keil, as mãos apertadas em luvas brancas, bordadas a torçal preto, um molho de violetas na lapela do veston.

A presença deste rapaz, orgulhoso da sua nobreza de parvenu, cômico nas suas pretensões a copurchic, sempre teve o poder de distrair-me.

Quanto ao físico, Raul é um belo homem, de estatura elevada, temperamento sanguíneo, músculos de atleta, cabelos negros e ondeados, bigode farto.

Desde que travamos relações, há bastantes anos, no colégio, onde ambos fizemos os primeiros estudos, interessou-me particularmente, prevendo logo as disposições naturais, que faziam dele, mais tarde, um snob de primeira ordem.

Quando o pai, já enriquecido, traspassou a importante fábrica de sabão, e comprou, em duas vidas, o título de visconde, uma ingênua expressão de vaidade transpareceu no rosto do filho, que principiou a dar de mão aos burgueses, como desdenhosamente chamava aos seus antigos companheiros, e a arranjar apresentações na primeira sociedade, imitando os hábitos, os gestos, os gostos da aristocracia autêntica.

E o seu luxo, elegância, maneiras fiel e pacientemente copiadas desse meio, chegavam a iludir — a distância. Um dos espetáculos mais curiosos que conheço é este gênero de metamorfoses.

Mas o que principalmente me atraía para ele, era a sinceridade absoluta no ridículo, e um certo ar pretensioso de erguer a cabeça, baixando as pálpebras, enquanto a boca falava, sorrindo, na evidente satisfação das próprias palavras.

— Afinal, és feliz na tua vida solitária, Gastão, disse-me Raul, sentando-se em uma poltrona; estás livre destas corvées que nos infligem... Vê tu, ontem à noite, baile na Embaixada de Espanha; hoje grande jantar, para festejar o aniversário da filha, no palácio do duque de... (aqui proferiu um dos nomes da mais alta nobreza); amanhã concerto no palacete dos condes de D...; no dia seguinte sauterie em casa da baronesa V..., uma belga muito pálida, de cabelos cor de vinho do Reno, que toca Chopin toda vestida de branco, com uma pontinha de tosse e uma pose lânguida, a fazer acreditar na realidade de uma tísica, que não existe... É de um homem ficar extenuado!

E tudo isto foi dito com um ar de aborrecimento, verdadeiramente irresistível.

— Mas se isso te incomoda, para que aceitas tantos convites? atrevi-me a observar-lhe.

— Impossível! Quando se vive em uma certa roda, contraem-se compromissos a que se não pode faltar... Imagina o que sucederia, se eu não comparecesse esta noite no jantar do duque...

Raul foi extraordinário de fatuidade nesta última frase. A inflexão fazia-nos temer um dilúvio universal, ou uma segunda guerra de Tróia, se o seu nome não fosse apregoado dali a pouco, pela boca de um criado de vistosa libré e gestos automáticos, nas vastas salas do alto personagem.

— Mas deixemos o assunto, para ti sem interesse, e falemos do que aqui me trouxe, continuou ele, esboçando um sorriso levemente irônico, como quem diz: Estas coisas só te podem fazer crescer água na boca, pobre diabo ignorante dos requintes do high-life, condenado a rabiscar em umas folhas de papel, pensamentos a que ninguém liga importância.

“Marta Sandomil gosta imenso dos teus livros, e sabendo que somos amigos (esta palavra foi pronunciada em um tom de proteção, que me seduziu), pediu-me para apresentar-te em sua casa.

“Não arranjes pretexto para uma recusa; põe em ordem essa papelada, que não perde em esperar mais um dia, e vem daí comigo.

— Estou à tua disposição, respondi sem hesitar, contente por ter ensejo de travar relações com esta senhora, que apenas conhecia de vista.

Não podia ignorar uma coisa sabida de toda a gente: que Raul era seu amante. E esse incompreensível amor de uma mulher inteligente, bonita, rica e livre, por um tal homem, despertava-me curiosidade. 

*** 

Quando chegamos a casa de Marta, o criado que nos veio abrir a porta disse-nos que ela recebia nesse momento a visita das senhoras Melos.

— As Melos! dois mostrengos, que horror! exclamou Raul contrariado; esperaremos no boudoir.

E, enfiando o braço no meu, seguiu familiarmente pelo corredor, fazendo-me entrar em uma sala, cuja porta fechou.

Enquanto ele me falava, eternamente preocupado da sua pessoa, temendo a possibilidade de o alfaiate lhe não mandar a casaca às quatro horas em ponto, eu examinava minuciosamente, com o prazer que sempre tive de participar da vida de uma alma, tudo quanto me rodeava.

A luz, filtrada pelos stores de seda azul-pálido, envolvia o aposento em uma suave claridade.

Os móveis estavam dispostos ao acaso, sem simetria, mesmo sem qualquer desordem estudada, como se um furacão os houvesse arremessado para ali, de encontro uns aos outros.

Tropeçava-se em livros, esbarrava-se em pilhas de almofadas e de bibelots de todos os feitios.

Para o observador atento, habituado a ler um mundo de coisas em um gesto, em um olhar, na disposição de um objeto, esta sala punha, por assim dizer, a descoberto, a complexa psicologia da mulher que a habitava.

Ao lado de uma chaise longue de pelúcia cor-de-rosa, erguia-se o vulto marmóreo da Vaga, abrindo no espaço, como duas asas de neve, os seus braços de deusa, enquanto os pés lhe ficavam presos na onda, como o símbolo das irrealizáveis aspirações, dos sonhos impossíveis daqueles que, fatalmente acorrentados à terra, sentem a cabeça roçar pelas estrelas.

As obras de Aristóteles, Kant, Spencer, Darwin, Büchner, Ribot, Montegazza e Hartmann, caídas no tapete, ou dispersas sobre as cadeiras, não indicavam o amor da ciência, mas a curiosidade de tudo saber...

Uma bela gravura colocada em frente do divan, representando Eva no Paraíso, sorrindo voluptuosamente ao aproximar dos lábios o pomo cobiçado, não seria o próprio retrato de Marta, saboreando com delícia o fruto proibido e o prazer íntimo da desobediência?

Sobre um guéridon de laca, entre uma jarra japonesa e um ramo de flores murchas — homenagem talvez de um admirador obscuro —, sobrepunham-se dois livros: Pensamentos, de Pascal, e a Vida de Jesus, de Renan.

Singular aproximação de ateísmo e fé!

A obra do fervente jansenista, possesso do mais intolerável catolicismo, devia arrastar essa mulher, dotada de uma sensibilidade mórbida, ao infinito terror, evocado pela visão de um Inferno crepitante de chamas, povoado de medonhos suplícios; ou à infinita esperança, na concepção mística de um Paraíso constelado de serafins e povoado de inefáveis delícias. Depois, levada pela magia do estilo e o poder do claro raciocínio do delicado e ímpio autor das Origens do Cristianismo, como ela devia estremecer de agonia perante o desmoronar de todas as crenças, entrando de novo na Dúvida, triste como uma noite sem astros...

E atestando ainda esse misto de superioridade intelectual e garridice mundana, que eu notara logo ao primeiro exame, viam-se sobre uma mesa antiga os últimos romances de Queirós, Zola, Bourget, Maizeroy, Maupassant e outros, confundidos com um grande número de fotografias de cantoras, tenores, dançarinas, escritoras, literatos, princesas e atrizes em voga.

A entrada de Marta, neste momento, veio interromper as minhas observações.

— Satisfazendo o seu desejo, minha senhora, apresento-lhe o meu amigo Gastão Ariel, disse Raul.

— Agradeço-lhe imenso ter acedido tão amavelmente ao meu pedido, respondeu ela, enquanto eu me inclinava respeitoso. Vou ser compensada do tempo perdido a escutar as duas senhoras que daqui saíram, e que me vi forçada a receber, pelo imperdoável esquecimento de não avisar o criado que só estaria em casa para os senhores.

Enquanto ela falava, examinava-lhe eu a natural distinção do porte, os olhos negros, alternadamente maliciosos e melancólicos, o estremecimento dos lábios, a palpitação das narinas, que imprimiam à fisionomia uma extraordinária mobilidade, denunciando a mulher apaixonada e fantasista.

Marta é alta e delgada; a toilette que vestia, de pelúcia creme, muito justa e singela, ia-lhe deliciosamente.

Os cabelos pretos, atados negligentemente sobre a nuca, muito anelados na testa, caindo-lhe em desordem até às sobrancelhas bem desenhadas, davam-lhe uma aparência juvenil, que decerto não obteria com um penteado correto, produto das mãos de um cabeleireiro.

Em resumo, uma mulher mais capitosa do que bonita, que será possível aborrecer um dia, que não temos a certeza de amar apaixonadamente durante muito tempo, mas que se deseja logo, à primeira vista.

E ela bem o sabia.

As doces inocências, filhas de um espírito ignorante, deviam ter há muito desferido o voo para o infinito, levando presas nas suas asas de ouro todos os sonhos ingênuos; contudo, no fundo desse coração agitado pelo tumultuoso mar de muitas paixões, quase embotado pela satisfação de muitas curiosidades, adivinhava-se ainda uma nesga de céu azul — do límpido céu de outrora.

— Mas não faz ideia, continuou Marta, sentando-se em um fauteuil e dirigindo-se a mim, não faz ideia até que ponto essas senhoras irritaram os meus pobres nervos!... O assunto por elas escolhido para me atormentarem foi a apreciação do Hamlet, que tinham ido ver representar na véspera.

“Nesse príncipe dinamarquês, que seguimos ansiosamente através do seu labirinto de pensamentos trágicos, de dolorosas incertezas, elas viram apenas um cretino, bom para meter em um hospital de doidos, sem compreenderem que todos nós temos estremecido de terrível perplexidade perante o eterno problema: ser ou não ser... Que todos temos conhecido as decepções da esplanada de Elsenor, e avistado, como ele, o trágico e miserável reverso desta pomposa farsa da existência, no relâmpago de uma desilusão aterradora!... Na genial produção de Shakespeare, exuberante de ardente sensibilidade e de torrentes de eloquência que fazem estremecer a alma, só encontraram uma série de disparates, que o público, afirmaram elas, decerto por indulgência não pateou...

“É horrível isto! Sinto em mim um desespero inexprimível quando ouço assim falar dos poetas que venero, das obras que admiro, das ideias que me são queridas... Por pouco me não escapou a frase de Flaubert, quando uma pretensiosa lhe falou, sem o devido respeito, de Renan. E o Sol não se apaga, as flores não murcham ouvindo estas coisas! Do céu não cai um raio que as fulmine, a terra não se abre para as engolir, o mundo continua na sua infatigável rotação através dos espaços, deixando vegetar em paz estes dois cúmulos!...

“Foi decerto em uma hora de amarga ironia que Rivarol fez a apologia da mulher estúpida; a sua paixão por Manette não passa de uma fábula, porque a vida seria suportável, se não fossem os idiotas...

— Para algumas pessoas, é verdade, respondi; mas não sabe vossa excelência que outras existem, para quem a vida não teria encantos sem a colaboração dos tolos? Há uma certa raça de homens, e homens superiores, que, como Rivarol, fazem consistir na imbecilidade da mulher um dos maiores atrativos da existência humana... Por inexplicáveis que se nos afigurem estas predileções, é incontestável que existem...

E enquanto lhe dizia isto, pensava que a ligação dela com o visconde era ainda mais inexplicável, e perguntava a mim mesmo que força a arrastara, que embriaguez a invadira, que vertigem a lançara nos braços daquele homem...

— Os poetas a maior parte das vezes são uns doidos, observou Raul, não sabem o que dizem nem o que desejam; não há nada mais delicioso sobre a Terra do que uma mulher bonita e inteligente (nisto relanceou um olhar demorado em Marta, que baixou os olhos); é necessário, porém, que não tenha pretensões a erudita, resvalando no pedantismo, mil vezes mais intolerável do que as desopilantes inépcias das outras...

A que duque ou a que príncipe teria ele ouvido esta apreciação?

Porque, no seu horror pelo plebeísmo, desde que fazia parte da nobreza, Raul nunca mais se permitiu arriscar uma opinião, que não fosse previamente emitida pela boca de um fidalgo de sangue azul.

Levantando-se em seguida, consultou o relógio e pediu licença a Marta para colher uma das pequeninas rosas brancas que pendiam de uma jarra de cristal da Boêmia, colocada sobre uma elegante secretária Luís XV.

— As minhas flores estão à sua disposição, visconde, disse ela, sorrindo, e acrescentou, acompanhando-o ao lado oposto da sala, onde estava o pequeno móvel: Se me permite, eu própria lhas colocarei na boutonnière?

E Marta, tirando-lhe da lapela as violetas quase murchas, tomou entre os dedos brancos e esguios uma rosa que entrelaçou com algumas folhas, pregando-a cuidadosamente no peito de Raul.

Ao vê-los assim juntos, ele forte, robusto, de uma beleza acentuadamente viril, os lábios sensuais, os cabelos fartos, descobrindo uma testa pequena onde nunca brilhara a chama de um pensamento, e ela tão fina e delicada, tão graciosa e sugestiva, de uma superioridade moral tão evidente, um fisiologista, embora pouco experiente, compreenderia como eu, naquele momento, as causas, de ordem puramente física, que determinaram esta ligação... 

*** 

Raul retirou-se.

Marta, pedindo-me para prolongar a minha visita, ofereceu-me um lugar ao seu lado, no sofá, e principiou a elogiar os meus romances, falando em seguida sobre literatura e belas-artes, com um fino e raro critério, que me admirou.

A despeito da sua aparente frivolidade, era evidente que lera e pensara muito.

Depois de um breve silêncio, corando ligeiramente, com alguma hesitação na voz, disse-me:

— Vou fazer-lhe simultaneamente uma confidência e um pedido... Desde muito que a minha grande ambição se resume em possuir a amizade desinteressada de um homem inteligente e leal... Amigas, não... Há sempre na mulher o quer que seja de vago... de indeciso... O que ambiciono é uma proteção viril, uma delicada afeição de irmão, um braço forte onde me ampare, um coração sincero e indulgente onde possa esconder todas as minhas lágrimas, todos os meus sorrisos, todos os meus prazeres e todas as minhas dores...

“Confiar a uma criatura nobre e generosa os mais recônditos sofrimentos que nos torturam, sem omitir coisa alguma, sem encobrir a verdade sob o doirado manto da mentira, que ventura, até agora para mim desconhecida!...

“Desde muito que penso em si; os seus livros, vibrantes de sensibilidade, encantaram-me. Que grande deve ser a alma para assim sentir, e a inteligência para assim conceber!...

Depois, mais baixo, quase suplicante:

— Quer ser esse amigo por mim sonhado, esse irmão dileto, sem desejos egoístas, sem absurda vaidade, sem tolas susceptibilidades de amor-próprio?

Perturbado pela estranha sedução que emanava de toda ela, lisonjeado por tantas frases amáveis — quem o não estaria no meu lugar? — aceitei, sem objeção, o papel que me era oferecido com tanta gentileza e sinceridade — se todavia a mulher pode possuir esse sentimento, quando faz a um homem tal proposta.

Mas embora devesse mais tarde arrepender-me, embora ela quisesse arrastar-me, com a inexplicável crueldade do seu sexo, para um labirinto mais emaranhado que o de Creta, a entrada, eflorescente de flores, exalava aromas tão enervantes, a imaginação fantasiava oásis tão belos, que me faltava a coragem para recusar, mesmo tendo a certeza de me estar reservada a sorte de Ícaro...

Agradecendo-me com efusão e abandonando uma das suas mãos nas minhas, como prova de delicada confiança — ou de perversa coquetterie, quem sabe? —, continuou, parecendo seguir o fio de uma ideia abstrata:

— Sou, decerto, o mais miserável depósito de matérias heterogêneas que tem existido... A Quimera fabulosa devia ser um animal de simples composição, comparado comigo... Sofro por futilidades que fazem rir os outros... Ambiciono coisas em que ninguém pensa... Não me compreendo bem!... Há em mim o quer que seja de obscuro, que me força a praticar atos reprovados pela minha consciência... Tudo quanto faço parece mais o resultado de um estado hipnótico, do que o de uma vontade livre... As mesquinhas realidades do mundo atormentam-me... A promiscuidade, a que nem sempre posso esquivar-me, martiriza-me... A hipocrisia da sociedade confunde-me... Namorada de todos os esplendores mundanos, sinto-me ao mesmo tempo atraída para o silêncio do túmulo... Detesto a vida e não sei renunciar a ela... Estorço-me na impotência tantálica do condenado mitológico... Para me subtrair a tudo isto, tento elevar-me, pelo pensamento, acima das esferas estreladas, no éter luminoso onde não chegam os miasmas da Terra, mas em vez de voltar consolada, volto abatida, cansada de devaneios inúteis, fitando sem esperança os páramos azuis, despovoados de deuses, ao passo que o spleen, a náusea da miserável condição humana me sufocam, fazendo-me exclamar por vezes, como o Santo António da Tentação: Desejava voar, nadar, ladrar, mugir, berrar, uivar, torcer o corpo, dividir-me por toda a parte, evolar-me com os perfumes, desenvolver-me como as plantas, correr como a água, vibrar como o som, brilhar como a luz, revestir todas as formas, penetrar em cada átomo, descer até ao fundo da natureza — ser a matéria!...

A tarde declinara, envolvendo os objetos em uma luz crepuscular, que a lua dissipou, coando-se através dos stores.

E a doce claridade, onde palpitavam, como vaporosas falenas, átomos prateados, beijando as estátuas, alastrando-se pelos móveis, esbatendo-se nas curvas dos cetins e das pelúcias, derramando-se sobre a massa escura das palmeiras e empalidecendo a alvura das pequeninas rosas, imprimia uma aparência fantástica a essa sala, capitosamente sugestiva.

Marta calou-se, fechando os olhos, como se quisesse fugir a uma visão importuna, enquanto duas lágrimas tremeram por um instante, desprendendo-se das pestanas compridas e recurvas, e deslizando em seguida, silenciosamente, ao longo das faces, agora sem cor.

É provável que outro rapaz, no meu lugar, procedesse de forma muito diferente.

Eu, porém, sem pensar aproveitar-me dos pequeninos artifícios, evidentemente postos em ação para me estontear, respeitei-lhe o silêncio e a fraqueza.

E contemplando-a demoradamente, senti o coração palpitar a ideia de poder dispensar-lhe a minha proteção, de penetrar nesse universo de sensações raras de que era composta a sua existência; de surpreendê-la, consolando-a, nas suas crises nervosas, nas suas terríveis prostrações; de partilhar as suas doidas alegrias e os seus irrefletidos entusiasmos...

Lastimo sinceramente o homem que nunca experimentasse, durante a mocidade, a profunda e puríssima comoção despertada por um sentimento desta ordem, e que preferisse quebrar com brutal audácia o encanto de tal momento... 

*** 

Na seguinte noite, em S. Carlos, enquanto as últimas notas do primeiro ato da Traviata morriam no espaço e a Patti acabava de atirar nas pontas dos dedos rosados, à plateia eletrizada pela sua voz de sereia, um último beijo, sublinhado pelo sorriso irônico dos seus lábios sensuais, retocados a carmim, e pela maliciosa expressão dos seus olhos de veludo, avivados a kohl, por entre o brouhaha dos bravos e das palmas, ouvi pronunciar, ao meu lado, o nome de Marta Sandomil.

Naturalmente, escutei.

Dois rapazes elegantes, que apenas conhecia de vista, conversavam com animação:

— Acho-a realmente interessante, dizia um deles, muito louro, de barba à Guise, cuidadosamente aparada, gardênia na boutonnière; agrada-me imenso e desejo fazer-lhe a corte... Apresentas-me?

— Com todo o gosto, retorquiu o outro, torcendo, com gestos de Lovelace, as guias do bigode negro e frisado.

— Parece-te que...?

— Parece-me que sim, atalhou o segundo; é uma extravagante; uma desequilibrada, uma epicurista... Uma mulher deliciosa e uma conquista que dispensa bem a diplomacia de um Metternich.

— Tem algum amante? interrogou de novo o primeiro.

— Um amante!... Santa ingenuidade! As mulheres como ela, só deixam de ter dois para terem quatro...

E voltaram-se ambos, assestando os binóculos para uma frisa.

Este diálogo produziu-me uma impressão dolorosa, como se acabasse de assistir à queda brutal de um astro...

Voltei-me e olhei na mesma direção.

Marta achava-se, efetivamente, nessa frisa; e tão elegante, com o seu vestido Império, avivado de rosas chá, um dos braços reclinado no parapeito de veludo escarlate, o leque de plumas brancas meio aberto, resguardando-a da luz crua reverberada pelos bicos de gás!

O visconde de Lucena, de pé, ao seu lado, curvando-se ligeiramente, parecia dizer-lhe alguma coisa que a interessava muito, visto que o escutava com evidente prazer.

Não parecia a mesma mulher que eu tinha visto chorar na véspera!

E, contudo, era ela, com todas as suas requintadas delicadezas de alma e coração, que ali se estava dando em espetáculo, voluptuosamente reclinada em um fauteuil, embalando-se com o ritmo monótono das frases ardentes de um homem inepto, deixando-se devorar pelo olhar lascivo de muitos admiradores egoístas, que ainda mais lhe maculariam a reputação, já poluída.

E não fugia, não sentia as faces queimadas pelo rubor da vergonha, ao ver-se impudicamente analisada por tantos olhos cobiçosos, ao sentir percorrer-lhe o corpo essa insolente maré de desejos!...

Ao ver-lhe os lábios vermelhos, entreabrindo-se em um sorriso provocante que atraía o beijo, o olhar úmido, de um brilho intenso, autorizando as mais ousadas esperanças, dir-se-ia que as admirações de que era alvo lhe agradavam e lisonjeavam extraordinariamente.

Que estranha vaidade a cegaria? Que pensamentos lhe atravessariam o cérebro nessas ocasiões? Que misteriosa sensualidade lhe faria assim vibrar os nervos?

Enigmática criatura, feita de lama e de estrelas, com todas as delicadezas de sentimento e todos os apetites da sensação!...

As palmas cessaram.

A meu lado, os dois amigos conversavam agora em voz mais baixa, trocando apreciações maliciosas.

O dos bigodes negros contava pormenores picantes, cheios de reticências equívocas, deixando adivinhar intimidades suspeitas...

Experimentei um desespero enorme contra mim mesmo, por ter tido a ridícula ingenuidade de acreditar na possibilidade de inspirar um afeto sério a essa leviana, que se entregaria, sem escrúpulo, quando a isso a instigassem os nervos, aos braços do primeiro imbecil, de olhar lânguido, flor ao peito e poses de tenor.

Senti-me mau.

Apoderou-se de mim, fitando Raul, um estúpido ciúme, essa raiva de mâle à mâle, de que fala Spinoza, e saí bruscamente do teatro, fugindo à tentação e à vertigem que me invadiam. 

*** 

Na manhã do dia imediato, recebi um bilhete de Marta, ordenando-me, com uma familiaridade adorável, que fosse sem perda de tempo a sua casa.

Hesitei um momento.

Há sempre um pouco de Dalila na natureza da mulher.

Desejaria ela enganar-me, fazendo-me representar um papel absurdo, de que se riria doidamente com algum desses homens que a requestavam, e que acharia, talvez com razão, menos tolos do que eu, ou teria realmente precisão de mim?

Esta última hipótese, auxiliada pela irresistível simpatia que ela me inspirava, decidiu-me completamente.

Fui recebido em um pequeno gabinete, mobiliado com extravagância.

Sob o dossel de brocado via-se uma ampla chaise longue, guardada por esfinges.

Nos espelhos de Veneza, que forravam as paredes, miravam-se poussahs chineses e pastorinhas de biscuit, em amável convívio com aves, tigres, e outros animais embalsamados.

Estes contrastes, porém, fundiam-se em uma harmonia de luxo e suave elegância, exalando o subtil aroma de uma feminilidade, perigosa para aquele que quisesse conservar a sua razão clara.

Se os fauteuils baixos, de braços abertos como em um êxtase, sugeriam a ideia de diálogos íntimos e hálitos confundidos, as almofadas, languidamente estendidas sobre o tapete, convidavam os joelhos a dobrar-se, na apaixonada contemplação de um ídolo...

Marta apareceu afinal, com os cabelos soltos, caindo-lhe sobre as espáduas, como um longo véu negro, vestindo um penteador de seda crua, e disse-me:

— Tomei a liberdade de escrever-lhe há pouco, por uma forma talvez indiscreta; mas visto termos celebrado um pacto de sincera amizade, julguei dispensáveis as formalidades do estilo. Não se zangou comigo? concluiu, assentando-se e indicando-me um lugar a seu lado.

— Por forma nenhuma, minha senhora.

— Então, continuou, vou explicar-lhe o motivo que me levou a incomodá-lo tão cedo, ou antes... veja se adivinha?

— Sou um mau decifrador de enigmas... Se a Esfinge de Tebas ainda existisse, vossa excelência pode crer que não me caberia a mim o privilégio de arrancar-lhe o segredo...

— É modéstia sua. O senhor é muito mais subtil do que o velho Édipo, e para nos convencermos, basta folhear um dos seus livros...

— Mesmo dada a hipótese que eu possua o poder de análise que vossa excelência gentilmente me atribui, afianço-lhe, minha senhora, que o mais hábil psicólogo não poderá nunca seguir e compreender a tempo, as estranhas fantasias que perpassam, com a rapidez das vistas de um caleidoscópio, pelo cérebro de uma mulher... e de uma mulher bonita...

— É possível... volveu ela, depois de meditar um instante. Vou então dizer-lhe... Desejava saber porque se retirou ontem do teatro tão apressadamente, sem entrar na minha frisa?...

Senti-me terrivelmente perplexo.

Como explicar-lhe, sem ofendê-la e sem faltar à verdade, as causas determinantes do meu procedimento da véspera?

A minha hesitação pareceu surpreendê-la. Calou-se fitando por instantes nos meus, os seus olhos negros e investigadores.

De súbito, com um estremecimento brusco, passando as mãos pelo rosto, como se acabasse de avistar a fauce hiante do precipício onde ia resvalando e na voragem do qual se afundariam os seus pudores de mulher, as ilusões da sua alma, as cintilações do seu espírito, exclamou, corando intensamente:

— Já sei... Não explique nada... Não procure uma mentira generosa para desculpar-se, desculpando-me... Compreendo agora!...

Depois, inconscientemente, com lágrimas na voz, continuou:

— Ambicionei o impossível!... Poderia eu nunca merecer a respeitosa dedicação de um homem como o senhor? Devia saber que essa felicidade me era vedada... Uma volúvel, uma inconsequente, como eu, pode lá nunca inspirar estas coisas?!... Contudo, não sou má... Possuo um coração acessível a todos os sentimentos nobres... Encanta-me a virtude... Compreendo todas as ideias elevadas... Que misteriosa força me obriga a cometer atos, que no íntimo reprovo?... Se não posso ser como a honesta e fria Récamier, descendo ao túmulo envolta em uma túnica sem mácula, porque não serei uma depravada sem dignidade, como essas desgraçadas que se vendem?...

“Espantoso tormento, o da consciência do Mal que se não pode evitar, amando o Bem, na impossibilidade de atingi-lo!... Dir-me-ão, talvez, que o remorso das minhas faltas é a justa punição das minhas culpas; porém, se existe o castigo, é forçoso que haja também o prêmio, e a parte boa do meu ser, esse outro eu que condena os meus desvarios e sofre dolorosamente, que recompensa lhe será dado fruir? Quem, na Terra ou no Céu, me compreenderá, me desculpará, me perdoará e me salvará?...

E tu expiraste, fazendo com o teu sacrifício desabrochar uma esperança sublime no coração da humanidade, ó doce mártir do Gólgota, para, decorridos dezenove séculos, morreres de novo e sem prestígio sob o implacável escalpelo dos filósofos, deixando-nos ainda mais desemparados sobre a Terra do que antes da tua vinda!

Agora, que voz, que eco longínquo responderão à angustiosa pergunta dessa mulher banhada em pranto, a quem a Ciência ensinou a duvidar?

Que cruz lhe abrirá os braços, como à formosa Madalena? Que luminoso paraíso lhe oferecerá um refúgio? Onde encontrará ela esse Pai que baixou do Céu, do vasto e inexorável Céu, mudo a todas as súplicas, indiferente a todas as preces, abandonando a alma — pobre Psique ferida por uma irreparável nostalgia —, na solidão dos espaços infinitos, em procura de uma fé que a salve, de uma criança que a console!

À medida que estes pensamentos se me debatiam no cérebro, sentia brotar de todo o meu ser um amor intenso e uma piedade ilimitada por essa criatura, que a natureza dotara com as disposições as mais funestas a uma mulher do seu nascimento, lançada no conflito da sociedade moderna: um coração romanesco e um temperamento apaixonado.

Faltando-me a religião divina, apoderou-se de mim, mais intensa, a religião humana.

Esqueci o passado, e sem pensar no futuro, fazendo calar o amor-próprio, o orgulho e o egoísmo naturais ao homem, ajoelhei aos seus pés, ofereci-lhe, incondicionalmente, todo o meu afeto e murmurei-lhe as frases apaixonadas que ela desejava ouvir da minha boca.

Em uma expansão de felicidade, devida talvez em parte, a satisfação da vaidade inerente ao seu sexo — não será secreta a quimera da maior parte das mulheres, por mais honestas que sejam, verem prostrados aos seus pés, loucos de amor ou ébrios de desejo, todos os homens, mesmo os que lhe são indiferentes ou que no íntimo desprezam? —, Marta agradeceu-me com um desses divinos sorrisos que despontam nos lábios da mulher, nos raros momentos em que nos é dado vê-la despretensiosa e sincera.

Pobre Marta! ou, com mais razão talvez, pobre de mim, que iria despojar-me das poucas ilusões que ainda me restavam... 

*** 

Decorreram quatro meses deliciosos na convivência íntima de Marta, que eu amei como nunca amara mulher alguma.

A posse exclusiva de uma criatura encantadora, dotada de uma alma superior, é, para o homem, uma voluptuosidade quase sobrenatural. Saber que são para ele, e só para ele, os sorrisos que lhe entreabrem a flor purpúrea dos lábios, o olhar que lhe transmite a impressão recebida pelas suas carícias; compreenderem-se e partilharem ambos os mesmos pensamentos, os mesmos desejos, a mesma sensação e o mesmo êxtase que os arranca à terra por momentos, é decerto a suprema ventura, e não conheço outra que se lhe compare.

Eu bem sei que o amor feliz não pode durar sempre. A nossa miserável condição humana não nos permite a constância em qualquer sentimento.

Mas embora ele devesse ter, como todas as coisas deste mundo, uma duração efêmera, a intensidade do prazer sentido era tal, que a impressão recebida em todas as moléculas do nosso ser vibrará nelas sem cessar até ao fim da vida.

Como Marta se ia a pouco e pouco transformando!...

A fisionomia readquirira uma expressão quase ingênua, reflexo da que devia ter possuído na adolescência, antes das primeiras iniciações feitas por um marido libertino, que a morte lhe arrebatara, um ano depois de casada.

Fechara a porta da sua casa ao visconde, que possuído do despeito cômico que caracteriza os tolos, foi consolar-se nos braços de uma francesa, toda ela cosméticos, mentiras e artifícios; uma destas mulheres, produto monstruoso das grandes cidades, que sem beleza, sem educação e sem mocidade, sabem ainda, pelo esforço de uma vontade inabalável, coadjuvado por uma consumada ciência do vício, inspirar desejos e extorquir libras.

Marta não se cansava de escutar os conselhos e as observações por mim feitas, a seu pedido.

Percebi, com um reconhecimento profundo, que todos os seus esforços convergiam a um único fim: tornar-se digna da afeição que eu lhe dedicara.

Por vezes, vendo-a sentar-se em um banco aos meus pés, cruzando sobre os meus joelhos os braços, em uma atitude tão meiga e submissa, cheguei a acreditar na veracidade do velho e estafado assunto de tantos dramas e romances: a redenção pelo amor; sem me lembrar que as causas que produziram a primeira falta, continuavam a subsistir latentes, a despeito do arrependimento e das boas resoluções.

Quando a queda de uma mulher é determinada por uma ilusão, por uma injustiça, ou pela miséria, é fácil regenerá-la; porém, quando as complexas causas que a levaram uma vez para o mal, têm a sua origem na parte mais profunda e obscura dos sentidos e dos órgãos, que amor poderá salvá-la em absoluto?

Mas no meu santo empenho em guiar-lhe o pensamento para a razão, fazendo-a compreender e amar o Bem, na posse do qual o espírito se liberta, criando em si e para si um mundo completo e transcendente, não vi logo a impossibilidade de atingir o fim a que me propunha.

Em Setembro, Marta, cuja saúde exigia nessa estação os banhos do mar, partiu, a pedido meu, para a praia de E...

Não queria separar-se de mim por tanto tempo; porém, na impossibilidade de acompanhá-la naquela ocasião, exigi-lhe esse sacrifício.

Por entre as lágrimas da despedida, ela jurou-me que a sua conduta seria de longe, como de perto, digna em tudo da minha confiança.

Escutava-a com o coração oprimido por uma tristeza invencível... O vago pressentimento de que ia perdê-la para sempre...

A ausência é a pedra de toque destas ligações; era ela que se encarregaria de dissipar as minhas dúvidas, ou de justificar os meus receios.

*** 

A princípio, Marta escrevia-me todos os dias, e essa era a única consolação para a saudade que me deixara.

Decorridas, porém, duas semanas, a correspondência principiou a afrouxar sensivelmente; apenas bilhetes rabiscados à pressa, desculpando-se com as amigas, que não a deixavam descansar com convites para passeios, picnics, e prometendo sempre para o dia seguinte uma extensa carta, que não chegava nunca.

Há pouco, duas folhas de papel não bastavam para descrever as impressões de um dia; agora, o pequeno cartão, recebido muito irregularmente, trazia margens em branco, como se fosse um imenso Saara, impossível de preencher com o seu elegante cursivo inglês.

Apoderou-se de mim uma suspeita atroz, impossível de afugentar, não obstante os argumentos formulados no intuito de a defender.

Para pôr termo a esta cruel perplexidade, resolvi partir sem preveni-la, buscando ensejo de observá-la, quando ainda me julgasse distante.

Que dolorosas desilusões, se todos os maridos e todos os amantes fizessem como eu!...

Cheguei a E... às oito da noite, entrei em um hotel, fiz à pressa a minha toilette e dirigi-me ao Clube, onde ela ia quase todas as noites “para se não tornar original, mas muito aborrecida”, segundo me dizia nas suas cartas.

Com precaução, para não ser visto senão em tempo oportuno, penetrei no corredor, aproximei-me de uma porta que encontrei aberta e relanceei os olhos pela sala de baile.

A orquestra tocava nesse momento uma valsa, os pares perpassavam enlaçados.

De súbito, entre aquele turbilhão de casacas pretas, braços nus, tules diáfanos, palpitações de fitas e cintilações de joias, ressaltou o vulto gentil de Marta, abandonando-se voluptuosamente nos braços de um rapaz muito alto e muito louro.

Que ela gostasse desta dança tão moderna, tão característica, tão sensual, não me surpreendia; é a dança predileta dos nervosos, dos frenéticos, dos que amam a vida agitada.

Mas saberia resistir às perigosas sugestões desse ritmo embriagador e às frases ardentes, balbuciadas próximo dos lábios?

A música cessou; os valsistas dispersaram.

Marta, largando o braço do seu par, sentou-se em um banco de veludo, logo rodeado por meia dúzia de elegantes, aspirando à intimidade de um diálogo, e talvez à liberdade de um rendez-vous sem testemunhas...

E ela consentia, depois do que me tinha jurado, que todos estes pensamentos, e outros porventura mais audaciosos, lhe fossem patenteados pela expressão dos olhares e pela ambiguidade dos sorrisos!

Acirrante, irrequieta, vaidosa e garrida, deixava explodir a excitabilidade do seu temperamento de histérica, em uma coquetterie diabólica, donde emanava uma fascinação perigosa para os que dela se aproximavam.

Era assim que seguia os meus conselhos, mistificando-me, calcando aos pés o nobre afecto que lhe dedicara e que poderia ter sido a reabilitação dos seus passados desvarios!

Recordei-me da noite da Traviata e das apreciações que então ouvira a seu respeito.

Os que assim falavam não mentiam...

Senti na alma uma dor lancinante, pela decepção brutal que acabava de receber, e por vê-la despenhar-se de novo no abismo, donde generosamente tentara arrancá-la.

Tornou-se-me insuportável aquele espetáculo; com a vista turva, afastei-me desse lugar, atravessei ao acaso dois ou três gabinetes, onde por felicidade não encontrei ninguém, e fui dar a um vasto terraço, deitando sobre o mar.

Ali, deixei-me cair sobre um banco de pedra, sombreado por uma enorme palmeira; sentindo-me, pela primeira vez na minha vida, sem coragem para reagir contra o mortal desalento que me invadia, escondi o rosto nas mãos, e chorei o pranto mais amargo de que tenho memória...

Um ligeiro sussurro e um frou-frou de sedas obrigaram-me a voltar a cabeça.

Uma senhora nova, em cabelo, com uma peliça branca sobre os ombros, acabava de entrar no terraço pelo braço de um rapaz alto.

Ao aproximarem-se, reconheci Marta e o seu louro valsista.

Assim o acaso, tão fértil em aventuras inesperadas, encarregava-se agora de mostrar-me o desenlace do episódio há pouco presenciado.

Passaram quase ao meu lado, sem repararem em mim, e foram encostar-se à pequena muralha que cercava aquele recinto.

Ele falava-lhe em voz baixa, com animação; ela escutava-o abstrata, com os olhos fitos no mar, que a lua bordava de palhetas luminosas, perdida no intangível e misterioso país dos seus sonhos, onde devia haver flores tão perfumadas como as rosas e as violetas, e plantas tão venenosas como a mancenilha e a árvore Upas.

Pouco a pouco, como se as brisas salgadas do oceano e o perfume forte da mata, sofregamente aspirados pelas narinas palpitantes e dilatadas, a fossem embriagando lentamente, cerrou as pálpebras e deixou pender a cabeça no ombro do seu companheiro, que a enlaçou, beijando-a com delírio.

Senti fugir-me a razão; perpassaram diante dos meus olhos visões sanguinárias; levantei-me de um pulo e encaminhei-me para eles com o desejo bestial de matá-los, a ela sobretudo, mais tentadora e pérfida do que a serpente bíblica.

Felizmente, a excitação deste momento, em que o instinto animal, aguçado até à ferocidade, me fizera esquecer a minha educação e os deveres impostos pela sociedade, abrandou um pouco, suavizada pelo dó que me inspiraram a palidez cadavérica e o grito angustioso de Marta, quando, ao desprender a boca desse longo beijo, me viu ao pé de si, como a consciência viva da sua vergonha.

Sem dizer-lhe coisa alguma, fugi dali desvairado, cambaleando como um ébrio.

Divaguei ao acaso pelas ruas, abismado em um caos de pensamentos insensatos, abalado por um mundo de sensações contraditórias, incapaz de formular uma ideia, de tomar uma resolução.

Recolhi ao hotel de madrugada.

Ao entrar no meu quarto, o criado disse-me que me esperava uma senhora.

Abri a porta e deparei com Marta.

Assim que me viu, levantou-se, dirigiu-se a mim vacilante, com os olhos vermelhos de lágrimas recentes, e exclamou:

— Gastão, perdoa-me ou castiga-me, mas não me desprezes nem me acuses... Tudo quanto possas dizer, já o disse a mim mesma... Se soubesses o espantoso sofrimento que me tortura!... Como pude fazer o que fiz, possuindo o teu amor, a maior, a única ventura da minha vida!... Que bom seria morrer já, para acabar com estas estranhas aberrações, estas tentações que me alucinam e perdem... Gastão, tem piedade!... Não vás abandonar-me... Salva-me de mim própria... E aproximou-se mais, tentando pegar-me nas mãos.

Este apelo, feito à minha generosidade, não encontrou eco no meu coração, porque entre nós interpôs-se a visão física da carícia de há pouco.

Recuei, dizendo-lhe:

— É inútil, Marta; entre nós está tudo acabado...

— Tudo acabado?!... Não, não, não é possível... Não quero!... Tu hás de perdoar-me... Serei tua escrava... Serei o que tu quiseres... Mas não me abandones... Nem um instante deixei de amar-te... Não sei viver sem o teu amor!...

E Marta caiu de joelhos, soluçante, rojando-se aos meus pés, agarrando-se ao meu fato.

Aquela dor, tocando as raias da loucura, comovia-me, mas o ciúme continuava a cegar-me, tornando-me feroz.

Afastei-a de mim com violência, gritando-lhe:

— Não! mil vezes não! O outro, com quem me enganaste, em cujos braços estarias a estas horas, se eu não tivesse aparecido, que te console... Que te proteja... Dilaceraste-me a alma nos espinhos das tuas falsidades, mentindo-me nas tuas cartas, como me mentirias ainda, se eu não visse! Não te quero!... Partirei, levando intacta a minha dignidade, antes de tu a manchares no lodo em que te afundas e para onde tentas arrastar-me...

— É a tua última decisão? perguntou, fazendo-se lívida.

— Sim!

— Ah! murmurou ela, presa de um estremecimento convulsivo, estendendo os braços e fitando no espaço os olhos, desmedidamente dilatados, como se acabasse de ver surgir um pavoroso espectro, que viesse buscá-la para algum inferno desconhecido, com suplícios mais tenebrosos que os do Dante. Em seguida, soltando um gemido rouco, como o estertor de um moribundo, caiu sem sentidos sobre o tapete.

Por um impulso de caridade, tomei-a nos braços e deitei-a no sofá.

Nesse instante, o sino de uma igreja próxima batia três horas — três badaladas, dolorosamente repercutidas no meu coração, como um dobre fúnebre pela pobre alma ali agonizante...

Meu Deus! que miséria a desta criatura, sem coragem para suportar o meu desprezo e sem forças para se tornar digna do meu amor!... Que luta titânica entre o bem e o mal, acabando talvez por despedaçar esse corpo franzino! Que sede de puras comoções e de degradantes sensualidades! Que Céu e que Inferno!...

E como estava idealmente bonita, assim deitada, os cabelos em desalinho, o rosto de uma palidez doentia, os braços e o colo descobertos, as flores do corpete murchas e soltas, matizando de pétalas rosadas a seda branca do vestido de baile!

Impelido por uma misteriosa atração, debrucei-me para vê-la melhor.

Como se a requintada nevrose do seu sentir lhe houvesse transmitido, apesar desse aparente letargo, a impressão que me dominava naquele instante, quebrando-me a energia, um sorriso inefável dourou-lhe de súbito a fisionomia; estendeu as mãos, sem descerrar as pálpebras, encontrou a minha cabeça, enlaçou-a nos braços e estreitou-a docemente contra o seio.

A inesperada sensação em mim despertada ao contato da sua pele fresca, da sua carne palpitante, fez-me pulsar com força as artérias e correr no sangue uma chama quente como metal fundido, avivando-me a recordação — impossível de apagar por completo no espírito daqueles que uma vez a tivessem conhecido — das suas estranhas e enervantes carícias, onde havia instintivos pudores de virgem e insensatos ardores de cortesã.

Apoderou-se de mim a paixão física, obscura, desordenada, com uma intensidade brutal, como até então nunca tinha experimentado.

Chamei em meu auxílio a dignidade, o bom senso, o raciocínio...

Apelo inútil!

A febre vertiginosa e abrasadora do desejo empolgou-me com tal violência, que me paralisou a razão, violentando-me a sucumbir...

Triste e humilhante verdade, que o ciúme, ideia de que outros cobiçam o que nós possuímos, e até o conhecimento da própria infâmia, em vez de serem para o homem motivos de afastamento, compaixão ou nojo, se transformem em novos agentes da paixão que o devora... 

*** 

A manhã rompia alegremente, enchendo de uma claridade suave o aposento, quando Marta acordou do seu torpor, na plena consciência do que se passara na véspera, e ergueu para mim, timidamente, os seus belos olhos suplicantes, que cobri de beijos, concedendo-lhes não só o perdão que imploravam, como pedindo-lho também para a minha injustiça e para a minha fraqueza.

Compreender é perdoar, como disse a Staël.

E eu acabava não só de compreender que há na natureza humana instintos a que é impossível opor por muito tempo os estreitos diques do dever, e encerrar para sempre nos acanhados limites do convencionalismo, como também de sentir a impossibilidade de lutar contra uma tentação obcecante.

Se há em todos nós duas partes distintas, uma superior, que emana da alma e nos faz amar a virtude e o bem, a outra inferior, que emana do animal e nos obriga a praticar os atos mais repulsivos, como exigir de uma mulher, enfraquecida por hereditariedades mórbidas, produto híbrido de uma civilização decadente, cuja vida psíquica é constantemente perturbada pelas crises da sua vida fisiológica, o equilíbrio que deverá corrigir a obra da natureza, quando nenhum de nós, mesmo dos mais superiores, se pode vangloriar de possuí-lo em absoluto?

Seria mais do que desumanidade, seria estupidez ou demência.

Só um tolo, ou um malvado, por inépcia, ou por lhe faltar a santa religião da dor humana, ousaria negar o perdão e cuspir todo o seu desprezo sobre Marta Sandomil.

A trilogia de João Fernandes (Conto), de Guiomar Torresão

 

A TRILOGIA DE JOÃO FERNANDES

 


VIRGÍNIA
 

Ele tinha a candidez lorpa dos provincianos, que ainda não cravaram os dentes no fruto proibido.

O verso perpetrado pelo Sr. Tomás Ribeiro: 

  “Eu nunca vi Lisboa e tenho pena” 

arrastara-o um dia, do fundo da Beira, para as olímpicas cumeadas de um terceiro andar no Hotel Central.

João Fernandes escondia a alma de um poeta no hercúleo tronco de um lavrador nutrido a broa e vinho verde.

As elegantes mundanas da capital desorientaram-no: os menus do Hotel Central assustaram-no quase tanto como as mulheres.

Jamais ele ousaria dirigir a palavra a essas leves e franzinas bonequinhas da moda, que saltitavam pelos asfaltos do Chiado, envolvidas em uma nuvem de rendas e de veloutine, cabeça erguida, pé arqueado, sorriso desdenhoso e olhar úmido...

Nunca ele se atreveria a comer, deliberadamente, os esquisitos e complicados manjares, servidos à francesa por sujeitos muito corretos, de casaca, gravata branca e sapato de laço.

Gostava de ver as mulheres, de longe, pendido no peitoril da janela que abria para o Cais do Sodré, fumando extático, um charuto de vintém, que o saturava brandamente de um forte e pronunciado cheiro a couve torrada...

O pai escrevia-lhe três vezes por semana, noticiando que a azeitona começava a pintar, que o lagar rendera mais uma dúzia de pipas de vinho, que a vaca malhada tivera uma cria, que a ruiva estava ameaçada de pulmoeira.

Ele respondia-lhe de cá, deslembrado dos assuntos caseiros:

“Pai: Não sei como hei de agradecer-lhe a lembrança que vossemecê teve em mandar-me à capital.

Lisboa não me saía da cabeça desde que li aquele verso que o pai sabe. É ainda melhor do que eu pensava. Os criados aqui vestem-se como os filhos do rei, e as mulheres têm asas nos pés como os cupidos do quadro que o tio nos mandou de Paris, o ano passado. À noite, vou girar pelo Chiado, e é só então que me atrevo a levantar os olhos para essas maravilhas de carne e osso, embrulhadas em cetins e rendas, que exalam o aroma das rosas de Maio, e têm ao mesmo tempo o voo gracioso e transparente das borboletas...”

Como se vê, João Fernandes tinha queda para o lirismo. Aprendera o latim com um egresso e estudara o português com o professor régio, muito lido nos clássicos e muito versado no manuseamento de poetas antigos e modernos, desde Filinto Elísio até ao Sr. Florêncio Ferreira.

Nas horas vagas, o pedagogo habilitava-se para lavrador microscópico, amanhando, ainda com os dedos pingados de tinta roxa, uma courelazita, que trazia arrendada ao Fernandes Sênior.

Os laços de interesse que se estreitam, por via de regra, entre um rendeiro e um proprietário, instigaram o professor a dedicar-se em corpo e alma à tarefa, não muito fácil, de fazer luz no cérebro de João Fernandes.

Às tardes, o discípulo ia ver semear a batata e ouvir recitar Camões e Tomás Ribeiro. Naquele trato das musas e das sementeiras se lhe foi enflorando a alma de incipientes devaneios e o lábio de cabelos doirados, desenhando um bigode, apto, como poucos, para sublimar um madrigal.

No momento da partida, o professor abraçou-se ao discípulo, descreveu-lhe sumariamente as variadas seduções das lisbonenses, e, chupando um cigarro repassado do amarelo sujo do tabaco ordinário, recitou-lhe, com os olhos em alvo e um barrete preto enterrado até à nuca, os versos de João de Deus:

“Não há existência alguma
Que não tenha amor, nenhuma”
.................................................. 

Um mês depois, João Fernandes recebia da mestra da vida — a experiência — o exemplo prático, comprovativo da verdade adstrita à palavra do poeta.

A poesia, alcunhada de mentirosa, vinga-se, às vezes, nobremente, demonstrando ser ela a única verdade bonita, neste pobre mundo eivado de tantas mentiras feias.

Encontraram-se à mesa redonda, ombro com ombro, na atmosfera excitante dos molhos aromáticos e dos vinhos generosos.

Ela tinha a alvura lirial, e o louro vago das virgens góticas, pintadas nos frescos medievais. Comia depressa, limpava admiravelmente um prato, sempre com os olhos baixos, o perfil recortado em alabastro, falando devagar, como que a medo.

O pai, um major reformado, tratava-a por mademoiselle, um chic que ela se permitia, sugerido pelo louro parisiense do cabelo e pelos high-lifes dos jornais, entrados desde certo tempo na moda de chamarem toda a gente madame e mademoiselle.

João Fernandes informara-se pelos criados. Soube que se chamava Virgínia, que chegara de Portalegre, onde o major tinha uma quinta, com a competente casa de habitação.

O major e a filha ocupavam dois quartos do 3.º andar, no mesmo corredor, ao longo do qual João Fernandes espalhava gemidos e baforadas de charuto de vintém, recordando, com um sentimentalismo coevo de Dirceu, os célebres versos, recitados pelo professor...

Um dia, ao jantar, o beirão encheu-se de coragem, e rompendo pela timidez que lhe pregava a língua ao céu da boca, voltou-se para a menina dos cabelos louros, e, com voz trêmula, disse-lhe:

Mademoiselle serve-se de rabanetes?

Virgínia corou, sorriu-se, e cravando os dentinhos brancos na polpa do rabanete, respondeu um quase imperceptível: “Obrigada.”

Aqueles rabanetes foram o ponto de partida de um diálogo, mais ou menos animado, em que o major falava sempre das campanhas da liberdade, mostrando a medalha, em que João Fernandes discursava acerca da lavoura paterna, e em que Virgínia não falava quase nunca, limitando-se a trincar amêndoas torradas e a beber copinhos de curaçau, amavelmente oferecidos pelo beirão.

Animado pelo bom acolhimento que lhe dispensavam, João Fernandes passou a oferecer camarotes, carruagens, rebuçados de ovos e pastilhas com versos coxos, impregnados de intenções amorosas, que ambos liam, rindo às gargalhadas.

Fernandes Sênior teve um belo dia, no meio do varejar da azeitona, a desagradável surpresa de receber uma missiva, concebida nestes termos:

“O senhor seu filho caiu nas mãos de uma sanguessuga que lhe chupa os olhos da cara. Mande-o recolher ao aprisco, se não quer que a ovelha lhe apareça tosquiada até aos ossos.”

Fernandes Júnior, chamado a rebate, retorquiu encarecendo as virtudes do seu anjo louro e pedindo vênia ao pai para atar nó cego.

Depois de escrever, foi convidar o major e a filha para irem juntos, em partie fine, ao jardim zoológico.

Regressaram ao cair da noite, na serenidade melancólica de um crepúsculo do Outono, salpicado de estrelas que feriam o ar, como agudas flechas cravando-se no alvo.

João deu o braço à filha e dispôs-se a ouvir, pela vigésima vez, ao pai a épica resenha das batalhas, em que o major praticara a nunca assaz celebrada gentileza de desfeitear o inimigo voltando-lhe as costas.

Virgínia recolhia-se em um silêncio místico, apenas interrompido pelo tasquinhar da sua boquinha vermelha e fresca, onde os rebuçados de ovos se derretiam, inundando-a de doçuras.

Pouco depois, um coupé, alugado por João Fernandes, conduzia-os a trote largo para o Hotel Central.

As mãos dos namorados encontraram-se na penumbra do coupé: o major, amortecido pelas libações do Porto, dormitava; João Fernandes, excitado, atreveu-se, não sem o terror que precede os grandes cometimentos, a beijar as pontas dos dedos da mademoiselle.

Ela estremeceu, vibrando sob a carícia do namorado, e lânguida, quebrada pela violência da comoção, abandonou-lhe sem reserva a mão esguia e branca, calçada em mitene de retrós, onde os diamantes fuzilavam, como pequeninos pirilampos.

O amor, a música do sangue, como lhe chamou Calderón, executava no coração de João Fernandes um glorioso hino triunfal. A terra parecia-lhe pequena para conter o infinito.

A sua robusta natureza de Hércules montanhês, criado ao ar livre, na intimidade dos vegetais, habituado a correr pelas largas clareiras batidas do sol, a trepar a crista denticulada das serras, que recortam a sua linha ondeante e azul no fundo casto e vagamente narcotizante do céu estival, revoltava-se contra o regímen claustral dos quartos de hospedaria, numerados, cingidos por quatro paredes de uma monotonia simétrica, odiosa à força de irrepreensível.

Nessa crise psíquica do seu temperamento cristalizado — segundo a pitoresca fórmula inventada por Stendhal e hoje expulsa da circulação pelo método experimental de Zola —, João Fernandes protestava inconscientemente, com todas as exuberâncias do seu organismo, ainda não contaminado, contra o absurdo convencionalismo das civilizações refinadas.

Não era bem assim que o beirão discorria, ao sentir o impetuoso desejo de apertar nos braços musculosos esse flexível e delicado corpo, branco como os lírios que rebentam nos cabeços das colinas, desabrochando no meio de uma vegetação intensa e abrindo no restolho, entre os cardos espinhosos, o trevo e o rosmaninho, o sorriso de uma virgem, coroando-se de flor de laranja.

João Fernandes não conhecia Stendhal nem Zola.

Mas o amor dispensa a lição dos livros e supre pela intensidade da sensação o que lhe faltar em profundidade científica.

A bondade nativa, e sobretudo a inteligência limitada do provinciano, livrava-o de maus pensamentos; — com isso exultará a moral, muito embora gema a escola naturalista.

Desde aquele caso dos rabanetes, João Fernandes não tinha senão uma única ambição no mundo: — levar à igreja a escolhida do seu coração.

Esta ambição devorava-o nessa noite de um luar frio, em que ele corria ao acaso pelas ruas, fazendo ressoar no asfalto dos passeios os seus grossos sapatos de três solas, agitando os braços, dialogando de longe com Fernandes Sênior, que a tal hora ressonava embrulhado em um cobertor de papa, saindo-lhe da boca aberta, onde os sonhos adejavam, entremostrando pitorescos quadros de lagares afogados em vinho e azeite, e campos ajoujados de trigo louro, uma variada orquestração de complexos sons, desde a nota do clarim até ao ronco da trompa.

Batiam três horas da madrugada quando João Fernandes recolheu ao hotel. Vinha derreado, mas trazia no coração, que lhe saltava aos pulos, um radioso paraíso de bem-aventuranças.

Subiu, cautelosamente: ao chegar ao terceiro andar, empalideceu, lembrando-se que poderia, talvez, perturbar o angélico sono e afugentar os divinos sonhos da sua adorada Virgínia; tímido, parou na sombra do corredor, e descalçou os sapatos.

Nessa ocasião, a porta do quarto 23 abriu-se de mansinho, a sombra de um homem desenhou-se em uma faixa de luz, o frêmito de um beijo passou no corredor como o fugitivo aroma de uma rosa desfolhada...

João Fernandes, assombrado, ferido por uma dessas brutais amputações morais que rasgam no coração uma chaga incurável, coseu-se com a parede.

— Casas com o brutamontes, é negócio decidido? perguntou o homem, acendendo um cigarro.

Uma cabeça loira pendeu-lhe no ombro, e uma voz musical segredou-lhe quase ao ouvido:

— Caso, porque quero que tu sejas rico.

— Queridinha! respondeu o homem, risonho, palpitante de ternura, prostrando-se mentalmente aos pés da burra do lavrador beirão.

João Fernandes, cambaleante, deu um passo para a frente e estendeu os braços, dispondo-se a estrangular o ladrão da sua felicidade. Confusamente, viu um sargento aspirante, que jantava à mesa ao seu lado esquerdo; uma onda de sangue turvou-lhe a vista, uma dor aguda mordeu-lhe o coração, estrebuchou no vácuo, batendo com as mãos, na extrema angústia do afogado que procura, instintivamente, um ponto de apoio, e caiu redondo.

Na diligência que reconduzia ao aprisco a ovelha desgarrada, João Fernandes lembrou-se de repente da carta do pai, chegada na manhã do fatal dia e guardada intacta na algibeira do jaquetão.

Fernandes Sênior exortava-o a fugir às garras do anjo... despenhado em uma hospedaria, para perdição dos pobres de espírito, a que aludiu Jesus, e oferecia-lhe a arca do peito para desafogar mágoas e esconder suspiros.

João Fernandes, designado pela Providência para reviver em Portugal o dramático lance do 3º ato da Dama das Camélias, teve a convulsão histérica de Armand Duval, ao ler a despedida de Marie Duplessis, vulgo Marguerite Gautier.

Depois veremos de que cinzas fumegantes renasceu para o amor esta Fênix, ferida na asa.


MADEMOISELLE FAUVETTE

 

Goethe, o inacessível, abriu banca de letrado para os infelizes, aconselhando-lhes, oficiosamente, que diluíssem a sua dor na água de rosas de um poema.

João Fernandes, caindo do sétimo céu na prosa trivial e reles do lar beirão, teria decerto aproveitado o conselho, se acaso o seu cérebro, resistente e espesso, não fosse incapaz de dobrar-se à dúctil brandura e à flexível elasticidade do metro e da rima.

O mestre-escola, escolhido para confidente daquela saudade sem reflorir de esperança, compôs três sextilhas, ao mesmo tempo que ia enxofrando umas cepas doentes, maldizendo, com muitas rimas em ão, o sexo fraco, e instigando o forte a blindar-se contra as pérfidas frechadas do deus Cupido.

João Fernandes decorou os versos, e ia cantá-los à noite para o alto das serras, cravando os olhos nas estrelas, como os pastores dos Alpes, acompanhando-se do gemer dolente da guitarra, na toada melancólica e vagamente desolada do fado nacional.

Em vão o lavrador chamava o João para a grande e absorvente preocupação de toda a sua vida laboriosa e simples: — a agricultura.

Interessava-o nos lucros, consultava-o antes de realizar qualquer transação, tomava-o para árbitro nas questões com os rendeiros, fingia-se ignorante nos processos da lavoura, só para dar ao filho o prazer de ensinar-lhe o que a sua velha experiência há muito sabia.

Fernandes Sênior resumira todas as suas afeições nesse único filho, que custara a vida de sua mãe. Desde que ele nascera não tivera senão uma ideia fixa, que iluminava e como que afinava o seu espírito rude e inculto: trabalhar, trabalhar incessantemente e honestamente, para deixar ao seu João um cabedal sólido e um nome honrado.

Ao vê-lo cair na tristeza indolente e inativa, que inutiliza o homem e o coloca, na escala dos seres, abaixo do irracional; ao reconhecer que eram baldados todos os esforços que empenhara para reconduzir o filho ao bom caminho; ao encarar, aterrado, a possibilidade de ver morrer-lhe nos braços esse lunático, que não comia nem dormia, que falava só, que emagrecia a olhos vistos, deixando-se devorar pela dor que lentamente o consumia, Fernandes Sênior não hesitou por mais tempo.

Envergou o seu fato duplex, que durante longos meses permanecia deitado e imóvel no fundo da arca, sobre um perfumado leito de trevo e rosmaninho, e estugando o passo, partiu direito à quinta das Olaias, residência do seu compadre e inspirador, o morgado Trancoso.

As raras visitas de Fernandes Sênior às Olaias tinham sido sempre motivadas por circunstâncias solenes, que demandavam a opinião conceituosa e autorizada do morgado, ouvida como a de um oráculo: o seu casamento, o batizado do filho, a venda dos montados do azinhal, etc., e agora...

O resultado da conversa havida entre sua excelência, o morgado, e Fernandes Sênior, conversa regada por um delicioso vinho abafado, foi João Fernandes partir em viagem de recreio para Espanha e França.

Iremos encontrá-lo em Paris, onde ninguém entra levando no coração a Dor, como uma víbora enroscada, senão para sair curado... ou morto, de uma morte idêntica à dos gladiadores que rolavam no pó da arena, bradando ao sol imperial: “Ave, César, os que vão morrer te saúdam!”

***

Foi no café dos embaixadores, à sombra balsâmica dos lilases, em flor, que João Fernandes viu pela primeira vez mademoiselle Fauvette.

Era com uma graça picante e intencionalmente provocadora que mademoiselle segurava nas pontas dos dedos esguios e torneados uma écrevisse, descascando-a metodicamente e chupando-a lentamente, absorta em uma espécie de êxtase sibarita...

Nas mesas do café, espalhadas ao acaso no jardim, entre os tabuleiros de relva e os alegretes de flores, Paris jantava alegremente, banqueteando-se com menus ligeiros e caros, saboreando talhadas de melão anêmico, pagas a 4 francos.

João Fernandes, aturdido, acanhado, despaisado, recordava, mentalmente, os diálogos que aprendera na gramática Monteverde, para o ato de solicitar a um dos criados que lhe fizesse a mercê de servir-lhe o jantar.

No varandim fronteiro ao palco, onde Paulus exibe o seu variado reportório de caretas, as mesas, alugadas com a devida antecedência, povoavam-se de cocottes e gomosos.

Os criados, atarefados, corriam de um lado para o outro, distribuindo lagosta à americana, o predileto acepipe do parisiense-boêmio, que janta, por invariável costume, no Café-Concerto.

O beirão afundava-se, como um grão de areia, nessa onda movimentada e alegre, acima da qual se cruzavam as risadas, as frases pitorescas, o tinir dos copos, a efervescência ruidosa de uma multidão criada expressamente para o prazer.

João Fernandes esqueceu-se de jantar e quedou-se, contemplativo, em face da mesa onde Fauvette comia glutonamente — a boca vermelha e fresca gotejante de molhos apimentados, os grandes olhos garços, avivados a kohl, cerrados de gozo, os cabelos cor de vinho do Reno, engastando-lhe a carita chiffonné, emaranhando-se-lhe na testa pequena e deprimida e fazendo-lhe cócegas no nariz arrebitado.

O odor di femmina, excitado pela dilatação de um bom jantar, exalava-se dessa mesa, aos pés da qual tinha de desfolhar-se, reduzido a um punhado de cinzas, o primeiro canto da trilogia de João Fernandes.

Ao champagne, já ambos tinham comunicado um ao outro as suas respectivas sensações.

O beirão nunca se atreveria, se ela, lendo-lhe no coração... e no estômago, não lhe houvesse oferecido, no mesmo ímpeto generoso, um sorriso fascinador e uma fatia de salmão.

João Fernandes pagou bizarramente o jantar, depois do que foram ambos beber grenadine e ver rir Paulus.

Nessa noite de delirante comoção, mademoiselle Fauvette expandiu-se, contando ao ingênuo adorador que o acaso — o Deus das Fauvettes — lhe deparara o romanesco capítulo da sua acidentada existência. 

*** 

Era órfã de pai e mãe — todas as Fauvettes são órfãs. Uma tia chamara-a sua, para presentear com as incipientes 17 Primaveras da sobrinha um merceeiro gotoso e asmático, encanecido pelas neves de cinquenta e tantos Janeiros. Um dia, Fauvette, fatigada de ouvir os assobios da asma e os gemidos da gota, bateu as asas e foi pousar em um quinto andar do bairro latino, presa ao visco do amor de um estudante de Medicina.

Certa noite, o estudante esqueceu-se de subir os cinco andares, no alto dos quais gorjeava a toutinegra; na manhã seguinte, ela abriu a porta da gaiola e largou o voo.

Veio depois a miséria, com todos os seus trágicos horrores, a dependência, com todas as suas imposições humilhantes.

Fauvette trabalhara, lutara, exercera por muito tempo o lugar de demoiselle de comptoir, no Printemps; aturara os patrões, as colegas, as freguesas, sofrera muito, e a sua voz tremia ao aludir a esse doloroso período, arrastando-se através de jantares arquiespartanos: — um osso de carneiro e meia dúzia de feijões brancos.

João Fernandes chorou, ouvindo-a; de bom grado teria caído de joelhos diante desse respeitável infortúnio. Quisera poder agasalhar no peito, afogado em lágrimas de compaixão, a queria mártir.

O merceeiro e o estudante apareciam-lhe sob o hediondo aspecto de dois ursos, quebrando entre as patas uma pérola.

Vagamente, sentia ímpetos de estrangular os dois carrascos.

Como é que a pobreza não recuara diante dessa encantadora rapariga, de um tão delicado chic, rainha pelo porte altivo e pela perfumada distinção?

Quantas vítimas nesse mundo abominável, onde ele sofrera, logo aos primeiros passos, um desengano atroz!...

Agora, envergonhava-se de ter padecido por uma criatura vulgar, uma namoradeira sem coração, um ente banal e nulo, que lhe explorava a algibeira, uma mulher mercenária e perdida; quando era aquela, a infeliz, sacrificada em holocausto à maldade dos homens, que merecia todo o seu amor...

Ao saírem do café, e ao subirem para um fiacre, na serenidade estrelada de uma noite do mês de Junho, Virgínia descera à vala comum do esquecimento. Paris triunfara mais uma vez, na pessoa de mademoiselle Fauvette!

*** 

Fauvette habitava um elegante appartement garni, em um 3.º andar da Rua Caumartin.

Vivia relativamente bem, graças a uma mesada que lhe estabelecera um tio, residente em Bordéus.

O tio, segundo Fauvette contara a João Fernandes, para quem não tinha segredos, era proprietário de um armazém de fazendas, situado em Passy. Estipulara a mesada à sobrinha, sob condição de ir ela todas as manhãs fazer a escrituração à loja.

Fauvette só podia receber o apaixonado beirão, das 5 às 7 da tarde.

Algumas vezes, raras, por causa da maledicência dos vizinhos e em atenção ao tio, que podia aparecer de um momento para o outro, iam juntos ao teatro, ou os cafés.

Uma noite, no Éden-Teatro, no entreato em que o beirão saíra, Fauvette desapareceu. No dia seguinte, explicou a João Fernandes que tinha fugido, evitando encontrar-se com um correspondente do tio.

A intuitiva delicadeza de sentimentos da parisiense cativava, de dia para dia, o sensível provinciano.

Sempre que ele ousava brindá-la com uma bracelete, uns brincos, um colar, empenhava-se entre ambos uma verdadeira luta, de que João Fernandes saía sempre vencedor, força é dizê-lo.

Ela escrupulizava em aceitar-lhe dádivas; queria ser amada verdadeiramente, eternamente, sem nenhuma espécie de interesse mercenário, por um coração leal como o dele, incapaz de mentir aos seus juramentos.

João Fernandes escrevera ao pai, pedindo-lhe licença para se casar e instando pela brevidade da resposta, que ele esperava que viesse acompanhada dos indispensáveis papéis. 

*** 

Uma tarde, o beirão encontrou Fauvette mergulhada em uma tristeza profunda.

O tio escrevera-lhe — João Fernandes leu a carta —, anunciando que viria buscá-la no dia imediato, para ir passar com ele uma semana a Bordéus. Não podia negar-se ao tio, que era o seu ganha-pão; mas por outro lado, como resignar-se a não o ver durante oito longos dias, ela que já tinha sofrido tanto e para quem a vida se resumia no amor dele? Em presença dessa dor eloquentemente expressa, na mais flexível e sedutora de todas as línguas conhecidas, o beirão impôs silêncio à sua própria dor, e tentou afugentar a melancolia da bem-amada, falando-lhe do futuro que os esperava, dos seus projetos matrimoniais, da Beira, onde ela iria reinar como uma soberana autocrata.

À despedida, no dilaceramento de um longo adeus, vibrante de comoção, os seus braços enlaçaram-se, e pela vez primeira os lábios de João Fernandes depuseram um beijo ardente na pequenina boca, deliciosamente carminada pela fraicheur — a inseparável, em Paris, dos lábios femininos —, que se lhe oferecia como um fresco botão de rosa. 

**

Decorridos três dias, a saudade, o gosto amargo e deleitoso, instigou João Fernandes a querer, como Trueba, ver “a gaiola donde a avezinha voou”.

Entrou e subiu, trêmulo de comoção, apertando o coração no peito...

De repente, a voz de Fauvette mordeu-lhe o ouvido.

Esfregou os olhos como um sonâmbulo, galgou os degraus a quatro e quatro, e parou um segundo à porta do seu éden, que, confusamente e ainda inconscientemente, se lhe afigurou, em um brusco relance, a porta do Inferno.

Um ruído de vozes de homens, de gargalhadas, acompanhadas do tilintar de copos e talheres, rebentou como uma explosão.

João Fernandes curvou-se e espreitou pela fechadura.

Um dos homens acabava de batizar Fauvette com champagne; os copos chocavam-se. No meio da casa, ébria, rindo doidamente, Fauvette — a bacante — levantava o evohé pagão. 


A VIÚVA
 

No próprio dia em que Fernandes Sênior, depois de ter aparado uma pena de pato, tomava a heroica resolução de escrever uma carta ensopada em tinta e gafa de mazelas ortográficas, para o ato de perguntar ao filho se lhe fora entregue a papelada, João entrou-lhe em casa cabisbaixo, o olhar vago, perdido na abstração de um pensamento acabrunhante, o tronco hercúleo vergado ao meio, como uma árvore lascada pelo raio...

O lavrador que esperava, a troco das trezentas libras sacrificadas em holocausto ao amor paterno, reaver o rapaz escorreito e são, tal qual ele fora antes de se haver contaminado na atmosfera pestífera das grandes cidades, caiu das nuvens.

O compadre, chamado a emitir voto acerca da mortal tristeza em que caíra o Joãozinho, sugerira Paris, como a cura radical para todas as afecções provenientes de mal de amores.

O lavrador não demorara nunca o seu pensamento, ocupado em cousas úteis e proveitosas, a cogitar no quer que fosse Paris.

Paris devia ser, segundo se lhe representara, depois de ouvir o morgado Trancoso, uma sucursal do Inferno, com aparentes seduções de Paraíso e grande cópia de mulheres pintadas, famintas de libras esterlinas, com pés de cabra, boca de sereia e unha na palma.

Uma abominação, essa talhada do globo em que tanto falavam os papéis, uma talhada arrancada ao flanco da Grã-Bretanha, segundo asseverava doutoralmente o mestre-escola, onde o senhor de Bismarck, conforme lera nos periódicos, cravara um dia os dentes, glutonamente.

Mas o morgado receitara, e na sua passiva obediência aos avisos emanados do oráculo, o lavrador remetera sem hesitar o filho para Paris, como poderia mandar-lhe aviar uma receita de quinino.

Mais tarde, quando ele escrevera a pedir vênia para dar o santo nó, Fernandes Sênior não pudera ter mão no assombro com que releu e tresleu a epístola, custando-lhe a crer no testemunho dos olhos.

Lembrando-se do que poderia suceder ao seu João na grande cidade do Vício: — amores passageiros, encontros fortuitos, despesas acidentais, conquistas fáceis, aventuras, casos, histórias — nunca lhe ocorrera aquela!

Tudo era lícito esperar de Paris, em relação a um doente, carecido dos socorros daquela mundana farmacopeia, exceto uma tolíssima recaída.

Onde lhe prometeram a cura, via ele agravar-se a moléstia!

E para isso ordenhara a burra, mugira 300 libras — o sangue das suas veias! —, apartara-se do rapaz, mandara-o correr terras, para afinal o crianço embicar na mesma teima: — o casório!

Casar com uma francesa, esta não lembrava ao demônio!

E como havia de conversar com a nora, entregar-lhe o governo da casa, a nora, a mãe dos seus netos! — falando ela uma língua de trapos, que ninguém na aldeia, ninguém a não ser o morgado e o mestre-escola, seria capaz de entender.

Chamado a capítulo, nessa grave conjuntura, Trancoso opinou que não se devia contrariar o rapaz e que se lhe deviam mandar os papéis. 

*** 

Desta vez, a paixão de João Fernandes — o amante infeliz — repeliu, injuriada, a flor azul do devaneio.

Uma violenta saudade de Paris debuxava-lhe na mente o quadro da ceia báquica, avivado a cores infernalmente tentadoras.

Nunca Fauvette lhe parecera mais bonita, desde que lhe aparecera ébria e impudente, no seu verdadeiro aspecto de cocotte barata, celebrando ágapes econômicos, em terceiros andares reles.

Envergonhava-se de ter sido ludibriado, mas experimentava ao mesmo tempo um vago e inconsciente desejo de tornar a ser iludido.

Se o pai se condoesse e lhe desse dinheiro — muito embora ele não ousasse pedir-lho —, voltaria a Paris, àquele divino antro, e passaria pela Rua Caumartin, aquela infernal rua.

Quem sabe? talvez ela o amasse, e, com o andar do tempo, viesse a regenerar-se!...

Mas na luta infrene destes vários pensamentos, na exaltação angustiosa deste querer e não querer, João Fernandes, em vez de trepar pelas agulhas das serras, para ir, abraçado à guitarra, dar serenatas às estrelas, desceu à taberna e começou a ensaiar o sistema, usado em casos análogos, por vários D. Joões alcoólicos, de assassinar a Paixão a golpes de decilitros.

Fernandes Sênior começou a ter saudades do tempo em que via o filho taciturno e pálido, cantar loas à Lua, ao vê-lo agora assomar à porta, vermelho, a face congestionada, o riso alvar, gingão, altaneiro, a voz, o olhar e o gesto a transluzir a evidência da balada londrina: “He that is drunk, is as great as a king.”

Efetivamente, João Fernandes, com um grão na asa, tinha a fantasia de um poeta e a hombridade de um rei: por entre a fumarada alcoólica que lhe toldava o cérebro, Fauvette aparecia-lhe, desenhando-se em um fundo translúcido, como uma ondina escandinava; pouco a pouco, a visão acentuava-se em contornos tangíveis, uma cabeça loira e maliciosa recortava-se em um nimbo de fogo, e súbito, dos braços musculosos do sátiro pendia a apaixonada ninfa...

Estas miragens arrastavam João Fernandes para o declive da perpétua bebedeira.

No fundo da garrafa morava o sonho, com todas as suas deliciosas voluptuosidades. O acordar, na gelada e áspera realidade, era pavoroso! 

*** 

Foi ainda o das Olaias que fez face à crise, alvitrando a oportunidade de casar o afilhado.

Só o facho do himeneu poderia afugentar as trevas daquele espírito narcotizado.

Fernandes Sênior aprovou, como sempre, muito embora os conselhos do morgado começassem a parecer-lhe um tudo-nada discutíveis.

Procurou-se a noiva e achou-se a filha do lavrador da Azoia, uma viúva de saúde florescente e carnes exuberantes, trinta anos sorridentes de frescor alpestre e sadio aroma a feno e alegre campo.

A viúva habitava uma herdade, a distância do povoado.

Uma espessa muralha formada pelos copados ramos dos castanheiros e dos plátanos emboscava a casa, onde a viúva escondia os copiosos frutos do seu ubérrimo Outono.

Diziam-na muito entrada em devoções assíduas: missas periódicas, confissões hebdomadárias, jejuns quinzenais.

O confessor da viúva, um nédio varatojano, afamado nas missões onde o mulherio vinha cair-lhe no socalco do púlpito, convulsionado de soluços histéricos, pedindo perdão em lágrimas, jantava, aos domingos, na farta e suculenta mesa da herdade. Era ele o único comensal da recolhida senhora.

O amor, que tem uma queda inata para as Artemisas, muito especialmente se elas juntam aos dotes físicos os dotes sonantes, já duas ou três vezes tentara escalar aquele baluarte de virtude, atirando-lhe por cima das frondosas ameias, debruadas, na Primavera, de flores balsâmicas, missivas apaixonadas, impregnadas de doçuras capitosas...

A viúva rejeitara, indignada, esse profano tiroteio: não respondia às cartas, desfeiteava aqueles que as escreviam, e confessava-se do pecado de as haver lido, castigando o peito e o porte-monnaie, donde saía para a algibeira do padre, por cada carta recebida, uma avultada esmola para missas.

Por aquele tempo, partira o varatojano para uma missão no Minho.

Trancoso soube do propício ensejo, e invocando a sua velha intimidade com o defunto, mandou pedir licença à viúva para apresentar-lhe o afilhado.

Realizou-se a entrevista em um domingo do mês de Junho.

Pelos roseirais em flor as borboletas batiam as asas; as abelhas engolfavam-se, zumbindo, nos cachos veludosos da baunina; os campos ondulavam ao sol, recortando a linha esmeraldina dos cômoros, toucados de musgo luminoso e tenro nos longes vaporizados. No fundo do vale, afogado em uma pulverização ouro fluido, gemiam as noras docemente; a água dos açudes cantava no ar, e no alto da colina, bordada de giestas e tomilho, um moinho desdobrava no azul as suas asas brancas...

A viúva, desassombrada da presença do confessor, e talvez secretamente influenciada pelas sugestões da natureza em festa, convidou para jantar o morgado e o afilhado.

Um jantar é um traço de união.

Pela janela aberta em bougainvillée, heras e roseiras, entravam zumbidos e gorjeios...

João Fernandes, aquecendo na intimidade, teve frases de uma eloquência superlativa.

A plástica da viúva, modelando em cetim preto a sua convexidade escultural, expungiu de golpe as satânicas reminiscências da Rua Caumartin.

Ao descerem ao jardim para tomarem café e riga, à sombra perfumada de um quiosque bordado de jasmins do Cabo, a viúva colheu uma rosa, e risonha, tímida, pudica, como uma virgem, deixou cair a flor aos pés do enamorado João Fernandes. 

*** 

Na véspera do dia aprazado para o ditoso enlace, João Fernandes passou a noite na herdade, prostrado em adoração aos pés do seu novo ídolo.

Falaram ambos do futuro, da sua recíproca felicidade, e de mãos dadas, profundamente comovidos, o olhar confundido, os lábios frementes, o coração inundado de ternura, fizeram projetos, interrompidos a espaços por silêncios expressivos e infantis puerilidades...

À meia-noite, na ocasião de se separarem, a viúva recebeu uma carta que guardou à pressa, retraindo-se à última carícia e ocultando na sombra a palidez cadavérica...

A cerimônia tinha sido fixada para o meio-dia.

O padrinho do casamento, o Trancoso, deveria ir buscar a noiva.

Fernandes Sênior não cabia em si, ao enfiar pela primeira vez a casaca decretada pelo compadre.

Farto de esperar na igreja, devorado de irreprimível impaciência, pungido pelo secreto pressentimento de novas desditas, João Fernandes meteu pés ao caminho. Ao chegar à herdade, avistou de longe o padrinho, parado à porta, hermeticamente fechada.

A noiva desaparecera!

Depois de muito interrogado, o caseiro, única pessoa que ficara de guarda à casa, respondeu, balbuciante, que a senhora mudara de tenção, que fora recolher-se a um convento, que era inútil procurá-la.

Algumas horas depois, soube-se que o varatojano chegara na véspera à noite e partira na manhã imediata.

E assim terminou, para os fastos do amor infeliz, a trilogia de João Fernandes.