domingo, 15 de dezembro de 2019

Sobre título da obra "Fausto" (Resenha)



Sobre título da obra "Fausto"
Título da obra Fausto. – Este personagem extraordinário, misto de história e lenda, e trinta vezes tratado antes de Goethe por escritores alemães, ingleses, e franceses, já em crônicas, já em dramas, já em romances, parece ter vivido na segunda metade do século XV, e (conforme a opinião mais aceita) nas cercanias de Weimar, que foi a terra adotiva do nosso poeta.
São todos concordes em pintar Fausto como homem versado em todos os conhecimentos do seu tempo, inclusivamente na magia, e o qual, com ânsia de saciar as suas ambições, fizera doação da sua alma ao diabo, para este o servir em tudo por decurso de vinte e quatro anos. Estes vinte e quatro anos, levou-os ele sem envelhecer na mais desonrada vida; até que, findo o prazo fatal da escritura assinada com o seu sangue, o diabo, que em tudo o servira pontualmente, o levou consigo para os infernos.
Aí está o que desde a puerícia de Goethe, lhe trabalhava no espírito, e lhe namorava o talento, desde que vira pela primeira vez, num teatro de títeres, a mais que popularíssima, plebeia representação, das aventuras do doutor João Fausto. E à fé que havia naquelas descomunais narrativas matéria, que, sendo tratada por um talento de primeira plana, não podia menos de cativar fortemente a atenção de todo o gênero de leitores. Ousou Goethe cometê-lo; e saiu-se realmente com a mais famigerada de todas as obras fantásticas; um livro sobre que se podem escrever muitos de fácil e justa crítica, mas que é ao mesmo tempo um tesouro abundantíssimo, no qual, segundo a expressão de uma grande filosofa, se encontra tudo, e algumas coisas mais.
Apesar de se haver saído triunfalmente de tal façanha, a ambição do poeta ainda de si para consigo se não dava por satisfeita. Muitos anos depois, e bem entrado já na velhice, retomou o assunto donde o tinha deixado, e compôs o seu novíssimo Fausto.
Nesse, se a linguagem, se a riqueza lírica, icem (segundo afirmam tedescos) quilates ainda mais subidos, força é confessar que já o primitivo vigor se não encontra; e as extravagâncias absurdas são muito mais repugnantes ao bom senso; razão porque não empreendemos traduzi-lo.
Quem ler atentamente a vida de Goethe descobrirá sem dúvida, que o especial interesse que ele achou no Fausto provinha da muita semelhança que havia entre o espírito e gênio do cantor e do cantado: avidez insaciável de saber; tendência inata para o maravilhoso, para o misticismo, e ao mesmo tempo para o cepticismo, para a cabala e para as ciências ocultas; frenesi de gozar sensualmente, e orgulho sem limites.
Isto não é decerto uma apoteose; mas vale mais do que se o fosse: é uma verdade.
ANTÔNIO FELICIANO CASTILHO

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