quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Conto de Natal (Conto), de Ildefonso Juvenal

 


Conto de Natal

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Naquela noite feliz de 25 dezembro do ano 749, de Roma, achando-se alguns pastores guardando os seus rebanhos nos arredores de Belém, viram-se subitamente envolvidos por um clarão deslumbrante que lhes causou grande espanto e temor.

Provinha aquela estonteante claridade da auréola de luz que circundava a fronte de um anjo do Senhor, descido dos altos céus, para anunciar, de preferência, aos humildes pastores, um feliz acontecimento, sem igual no mundo.

O anjo aproximou-se dos pastores e disse-lhes:

— Não temais. Trago-vos uma grata nova, que há de alegrar a todos.

E então lhes anunciou que o Salvador, vaticinado pelos profetas, havia nascido, naquela noite, na ditosa cidade de Belém.

Depois lhes revelou o sinal pelo qual eles reconheceriam o divino Infante:

— Achareis um menino envolto em mantilhas e reclinado num presépio.

Logo, espíritos celestes se acercaram daquele mensageiro divino, e louvaram a Deus, cantando em suave melodia:

— Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.

E um astro de peregrino e extraordinário fulgor, jamais igualado, resplandeceu no firmamento, enchendo a todos de admiração e júbilo. Era a estrela miraculosa, cuja aparição, como anunciadora do nascimento de Jesus, já os magos do Oriente, há muito, haviam previsto.

Guiados por aquela estrela milagrosa, que convergia todo o esplendor de sua luz maravilhosa pura às terras de Judá, aclarando os caminhos, seguiram os pastores para o local do feliz sucedimento, a fim de verificar o que o anjo lhes havia anunciado. 

Por todos os lugares por onde passavam, iam os pastores revelando o que o anjo lhes havia relatado; e os outros pegureiros, abandonando os seus rebanhos, seguiam-nos na santa peregrinação ao presépio de Belém.

Os pastores do lado do Hebron não tiveram a grata ventura de ser avisados pelo anjo do Senhor; mas vendo brilhar no firmamento a estrela milagrosa, não duvidaram que se tratava do sinal revelador do nascimento de tão esperado Messias, que reinaria sobre o mundo, estabelecendo a harmonia entre os homens e preparando o caminho do Bem e da Verdade, que a humanidade deveria trilhar para a gloriosa conquista da sempiterna bem-aventurança.

E partiram, também, em peregrinação à cidade santa de Belém, esses humildes pastores, pois sabiam que o Salvador, conforme vaticinara o profeta Miqueias, viria ao mundo naquela ditosa cidade, que se espelhava donairosa nas águas prateadas do Jordão.

Ao passarem por um sítio bem próximo de Belém, ficaram muito admirados ao ver que um pobre zagal, ainda adolescente, que guardava o rebanho de um rico senhor, se deixara ficar, não acompanhando os que haviam seguido, já, para o local do nascimento do menino Jesus. Dentre eles, um surpreso e contristado lhe perguntou:

— Por que vos deixastes ficar? Por ventura não tendes fé, não alimentais, como todos nós, a mesma esperança que nos conforta, de que o filho de Deus libertará o povo de Israel e promoverá o seu bem e a sua felicidade?!

 — Sincera é a minha fé, imenso o meu desejo de ver e adorar o menino Jesus; mas, como poderei abandonar o rebanho, se os lobos vorazes, que infestam estes sítios, que vivem durante o dia escondidos nas matas e saem à noite à caça das inofensivas ovelhas, darão cabo do meu rebanho? Meu amo, sobre ser usurário, é perverso, capaz das maiores atrocidades; e, se tal acontecesse, me infligiria sério castigo. Ele me recomendou a mais constante vigilância. Devo permanecer de atalaia para anunciar a aproximação das feras, a fim de que o meu senhor e todos os seus servos acorram a combatê-las. Ah! se eu encontrasse pessoa que se propusesse ficar em meu lugar! Com que satisfação iria, convosco, ver e adorar o menino Jesus!

Mal terminava essas palavras, aproxima-se dele um jovem e formoso pastor, que lhe diz ternamente:  

— Bem vejo e compreendo quão sincera é a vossa fé, quão elevados são os propósitos que animam a vossa alma pura e nobre! Por isso, me ofereço para velar pelo vosso rebanho, enquanto fordes ao presépio adorar o menino Jesus.

O pastorzinho, vendo que iria privar o seu boníssimo camarada de tão jubiloso prazer, recusou-se a aceitar aquele generoso oferecimento; mas, como o jovem pegureiro insistisse, aceitou, juntando-se logo aos demais e partindo, cheio de satisfação, para o lugar onde viera ao mundo o Salvador. 

Aos primeiros albores do dia, o pastorzinho regressava ao seu labor. Vinha alegre e contente, cantarolando pelas estradas poeirentas, transbordante de satisfação por ter contemplado o Deus Menino e lhe oferecido o sincero tributo de sua fé e veneração, por meio das mais contritas orações.

Chegando ao lugar donde tinha partido, deparou-se-lhe o generoso companheiro, ao alto de uma colina, executando por meio de uma flauta aquela música sublime, divina, impressionante, que ele ouvira quando o anjo do Senhor aparecera aos pastores; e viu, também, cheio de espanto, que todo o rebanho se mantinha imóvel em redor do pastor, fascinado pelos acordes melodiosos daquele mágico instrumento.

Os pastores, regressando do presépio, ao passarem por ali, encheram-se também de espanto ao ouvir o jovem e estranho zagal tocar, em seu mágico instrumento, aquela música sugestiva e divina que, horas antes, tinham escutado, cantada pelo coro dos anjos descidos dos céus; e mais admirados e surpreendidos ficaram, ao ver que, quando o pastor terminava de tocar, todo o rebanho se dispersou, indo retouçar nas verdes gramíneas e do meio deles saírem diversos lobos, que ali se encontravam subjugados por aquela música sublime, os quais se encaminharam vagarosamente para as matas, como se não fossem aqueles animais nocivos e carniceiros, cuja ferocidade tanto amedronta as ovelhas como intimida os homens.

Era que, a inefável alegria daquela noite feliz, derramando-se no espírito universal, invadia os corações dos crentes, robustecia todos os afetos, toda a doçura dos sentimentos bons, e, projetando-se sobre todos os seres e sobre todas as coisas, indistintamente a todos harmonizava. Os homens confraternizavam, banindo dos corações as maldades que neles se aninhavam, os animais perdiam a ferocidade e até o próprio cardo deixava de ser agreste, tudo isso porque dois pequeninos olhos muito vivos e muito azuis como os céus da Palestina, olhos cheios de divindade, se abriam para o mundo. E era aquele divino olhar, cheio de piedade e doçura, que projetando-se sobre todos os seres e sobre todas as coisas, operava aquele suavíssimo milagre.

— Bendito seja o divino olhar de Jesus: luz de todas as ciências, ideal de todas as artes, alívio de todas as dores, esperança de todas as almas, farol esplendoroso que se alevanta sobre os escolhos do mundo, bálsamo celeste que suaviza as asperezas da vida, fortaleza poderosa no meio de nossas lutas, arca salvadora no dilúvio das nossas lágrimas! Bendito seja!