sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Aladim e a lâmpada maravilhosa (Conto das "Mil e uma noites"), por Carlos Jansen

 


Aladim e a lâmpada maravilhosa 

Entre os alfaiates da antiga cidade de Bagdá, Mustafá era um dos mais atribulados, não só porque nem sempre ganhava o suficiente para satisfazer as necessidades de sua família, como ainda pela péssima índole do seu único filho Aladim, que vivia nas ruas vadiando em companhia de outros garotos de sua laia, armando desordens de toda a espécie.

Se bem que grande culpa tivesse o velho Mustafá nesta péssima educação de seu filho Aladim, não lhe escasseava, agora que já era tarde, os bons conselhos, e mesmo os argumentos sensíveis; mas aos conselhos o rapaz fazia ouvidos de mercador, e quanto às pancadas sacudia-as como o cão de guarda sacode a água ao sair do banho.

Houve um momento em que o alfaiate se armou de uma boa dose de energia, e, declarando ao rapaz endiabrado que o havia destinado a aprender o seu ofício, obrigou-o a permanecer algumas horas na oficina, ocupado com a linha e a agulha, sob a pressão dos panos, que representava o cetro pesado da autoridade paterna; mas no primeiro descuido Aladim saltava pela janela, em busca dos seus companheiros de correria, embora lhe fossem na volta medidas as costas com o instrumento indicado.

Cansado por fim, Mustafá largou dos panos e da vida, e, morrendo de desgosto, deixou em extrema miséria a mulher.

Reconhecendo a pobre viúva que nunca faria do filho um alfaiate morigerado e capaz, vendeu a oficina, dando-lhe o produto desta venda e o seu cansado trabalho mal para não morrer de fome.

Para Aladim principiou então uma época de independência completa; já não tinha quem lhe fosse à mão, e forte e robusto, com seus quinze anos, em breve adquiriu grande prestigio entre os garotos das ruas e praças públicas, cujas correrias capitaneava, sem jamais preocupar-se do futuro, nem lembrar-se das mágoas que ia causando à sua pobre mãe.

Estando um dia em forte algazarra com os seus companheiros, veio a passar um ancião, que se deteve a olhar as evoluções ruidosas dos rapazes. Como é costume acontecer a todos, chamou-lhe a atenção a figura proeminente de Aladim, e entrou a tomar dos vizinhos informações minuciosas acerca do jovem libertino.

Como veremos mais adiante, andava este ancião em umas aventuras que muito o interessavam, mas para as quais necessitava de um auxiliar jeitoso, e, reconhecendo em Aladim as qualidades indicadas para os seus fins, chegou-se ao rapaz, chamou-o de lado, e lhe disse com voz comovida:

— Amiguinho, o alfaiate Mustafá não é teu pai?

— Era, sim senhor, mas já há dois meses que morreu, respondeu Aladim mui desembaraçadamente.

— Ai de mim, que cheguei tarde! — exclamou o ancião; — não mais verei o meu querido irmão! Sim, meu filho, sou teu tio, que volta de longa viagem, e esperava repartir com teu pai riquezas adquiridas por muito trabalho. Logo te conheci ao avistar-te, porque tens todas as feições do meu pobre irmão quando era moço como tu! E agora o encontro morto!

E, prorrompendo em lamentações e gemidos, abraçou ternamente o moço, que muito estranhava este encontro, porque nunca ouvira falar da existência de tal tio.

Mas como por fim o ancião, depois de curto colóquio, lhe entregara um cartucho de moedas de ouro, para levá-los à sua mãe, Aladim cessou de cismar. O ancião, porém, acrescentou:

— Dize à tua mãe, minha cara cunhada, que tenho muita, muita vontade de conhecê-la; que prepare uma boa ceia para nós, e tu virás à noitinha buscar-me neste mesmo lugar, para me levares à tua casa.

Enquanto Aladim se afastava correndo, o ancião o seguia com uns olhares astutos e maliciosos. Nenhum parentesco o prendia ao jovem, mas dele precisava para a realização do projeto de apossar-se de um grande tesouro sepultado perto da cidade. Era este velho um mágico africano, muito afamado, que por meio dos seus livros e cálculos cabalísticos descobrira a jazida do tesouro, e agora viera a Bagdá para colher o fruto dos seus estudos.

Como uma flecha apareceu Aladim em casa, e, atirando com as moedas de ouro ao regaço de sua mãe, exclamou com grande agitação:

— Eis aqui o que me deu o meu tio, um grande ricaço, para que lhe prepares uma ceia, que hoje quer comer conosco.

A pobre da velha olhou atônita para o filho; não conhecia parente, e muito menos parente rico e generoso, e a vista do dinheiro despertou-lhe apreensões cruéis:

— Meu filho, meu filho! Não terás roubado este dinheiro?

— Qual roubado! — já lhe disse que foi o tio quem mo deu, o irmão de meu pai, que tem mais dinheiro do que o Sultão, e vem cear conosco e dar cabo do nossa miséria.

Revelava-se tal sinceridade nas palavras do menino, que a viúva se tranquilizou, e pôs mãos à obra para preparar uma refeição digna de visitante tão distinto.

Quando de noite o mágico apareceu em casa da viúva, mostrou-se profundamente comovido, e tão copiosamente chorou ao percorrer os aposentos outrora habitados pelo finado irmão, que a dona da casa e até o próprio Aladim não puderam deixar de prorromper também em lamentações e prantos.

Por fim os três enxugaram as lágrimas, e se puseram a comer, contando o mágico, durante a refeição, uma história bastante verossímil, segundo a qual havia quarenta anos que deixara Bagdá para correr mundo, tendo estado nas índias, na Síria, na Pérsia, no Egito e na Arábia, na China e na Turquia, recolhendo riquezas em toda a parte, terminando com a declaração de que agora pretendia acabar os seus dias em companhia da cunhada e do sobrinho, e repartir com eles o fruto dos seus trabalhos. Indagou da vida e dos estudos de Aladim, e, ouvindo as queixas sentidas da viúva acerca da péssima conduta do filho, o mágico disse com ares conciliadores:

— Deixe estar, minha irmã, as culpas do menino não hão de ser irremediáveis. Eu sei por experiência o que são as turbulências da mocidade; mas passam com reflexão e trabalhos adequados ao gosto juvenil. Que te parece, Aladim, a condição de negociante? Serás dono de um grande armazém, deslumbrante de ricas fazendas e objetos de arte afamada.

— Bem o quisera, respondeu Aladim, mas o dinheiro?

— Não te importes com o dinheiro, que tenho de sobejo para comprar cem armazéns, por esplêndido que sejam. Amanhã tornaremos a falar neste assunto. Por hoje vamos descansar.

E despediu-se cordialmente da viúva, que ficou a dar bons conselhos ao filho e a celebrar a generosidade do cunhado, que tão inesperadamente lhe havia aparecido.

No dia seguinte o mágico veio buscar Aladim, para dar um passeio nos arredores da cidade, prevenindo a viúva de que talvez nesse dia o menino não se recolheria, visto que pretendia apresentado a alguns amigos convidados a cearem com ele.

Caminhando por entre jardins e palácios, os dois pouco a pouco se afastaram da cidade, até que alcançaram um local bastante ermo, no meio de um vale formado por duas colinas.

— Vamos descansar aqui, disse o mágico, e, se tiveres ânimo, mostrar-te-ei coisas maravilhosas, como nunca as sonhaste. Mas é mister que confies completamente em mim, e cumpras à risca as minhas indicações.

Aladim era rapaz destemido, e nenhum motivo tinha de desconfiar da sinceridade daquele que se dizia ser o seu tio. Assim disse:

— Tanta amizade já me mostraste, que sem hesitar farei o que me mandares.

— Pois bem, respondeu o mágico, junta já uma porção de galhos secos, para fazermos uma fogueira.

Aladim em um instante recolheu braçados de ramas, que colocou no lugar designado pelo mágico, e em breve grande labareda subiu aos ares. O mágico tirou de uma boceta de ouro uns pós brancos, que deitou nas chamas, murmurando frases cabalísticas. Nuvens espessas de fumo espalharam-se pelo vale; de repente ouviu-se um grande estrondo, e a terra, estremecendo e abrindo-se, deixou patente às vistas uma laje de mármore branco, com um anel de bronze no meio.

Aladim, apesar do seu gênio corajoso, assustou-se perante estas manifestações mágicas, e intentou fugir.

O ancião, porém, o deteve violentamente, e lhe disse em voz irada:

— Agora já não podes recuar. É preciso levar ao fim a empresa encetada, senão mato-te à pancada.

E com tal ferocidade lhe brilhavam os olhos, ao proferir estas palavras, que Aladim ficou aterrado, e prometeu obedecer em tudo aos mandamentos do tio, que já não trazia vestígios do carinho que até então lhe havia mostrado.

O mágico, abrandando um pouco a voz, lhe disse:

— Debaixo deste laje de mármore acham-se escondidos os tesouros os mais esplêndido s do mundo inteiro. Desde a origem dos tempos estas riquezas te são destinadas a ti, e só tu podes alçar esta laje. Nem eu mesmo, que contudo a descobri, posso tocar-lhe, nem descer a escada, escondida por esta pedra. Alça, pois, a laje!

— Ah! meu tio, como poderei eu com as minhas débeis forças alçar esta pedra enorme?

— Experimenta, disse o velho, e verás o que podes.

Aladim obedeceu, e a laje lhe pareceu leve como uma pena, e com a maior facilidade descobriu a entrada do subterrâneo, aparecendo os primeiros degraus de uma escada.

— Estás vendo, Aladim? disse o velho; com a mesma facilidade conseguirás o resto, e serás mais rico do que o mais poderoso Sultão. Para tranquilizar-te coloco-te este anel no dedo, que te protegerá contra qualquer perigo. Desce a escada; na caverna encontrarás uma porta, que te conduzirá a três aposentos, nos quais verás grande numero de vasos de ouro, cheios de metais preciosos. Mas não toques nem sequer com a roupa em coisa alguma, sob pena de morte, pois que todos estes vasos estão guardados por gênios que não entendem de brincadeira. Depois do terceiro aposento encontrarás um vasto jardim, cheio de árvores cobertas de frutos formosos. Uma vereda te conduzirá a um templo, onde em cima de um altar verás arder uma lâmpada de latão ordinária. Apaga a luz, deita fora o líquido, e guarda a lâmpada no seio. Guarda-a bem, e não a percas, é o que mais te recomendo. Ao voltares podes colher frutas e agarrar ouro e prata quanto puderes carregar, tudo será teu, menos a lâmpada, que quero e exijo para mim.

Aladim havia ouvido atentamente as recomendações do ancião, e, prometendo executar fielmente as suas ordens, penetrou no subterrâneo.

Com passos firmes percorreu os três primeiros aposentos, desviando a vista dos vasos preciosos, para não cair em tentação. Sem dificuldade alguma encontrou no jardim, brilhantemente iluminado, o templo de ouro, apoderou-se da lâmpada, e, guardando-a no seio, depois de haver despejado o líquido que continha, disse consigo:

— Que interesse pode despertar ao tio este miserável objeto, que por centenas poderia encontrar em Bagdá? Será alguma birra de velho!

Durante a sua retirada, Aladim demorou-se mais um pouco no jardim, contemplando os milhares de árvores, que por entre a sua verde folhagem ostentavam inúmeros frutos amarelos, brancos, purpúreos, verdes e azuis, todos transparentes e rutilantes como estrelas.

Despertou-lhe a vontade de provar estas frutas formosas; mas, tendo colhido uma maçã, e querendo fincar-lhe os dentes, achou-a dura como cristal, e compreendeu que ali havia artifício. Resolveu então levar uma coleção delas à sua mãe, como brinquedos feitos de vidro colorido. Nisto, porém, enganava-se redondamente, porque todas estas frutas eram de pedras preciosas do mais subido valor, e bastaria uma única das maças para comprar um reino. As frutas brancas eram pérolas e diamantes, as encarnadas rubis, as verdes esmeraldas, as azuis safiras e ametistas.

Aladim encheu, com as que ao acaso agarrou, as algibeiras e uma grande bolsa que havia trazido na cintura, e, sentindo-se bastante carregado, lembrou-se da retirada. Quando alcançou a escada, que era bastante estreita, o moço viu-se embaraçado para subir, por causa do volume que faziam as pedras preciosas; ergueu então a voz e chamou pelo tio, para que este lhe estendesse a mão e lhe ajudasse a sair do subterrâneo.

— Tens a lâmpada? perguntou o ancião com sofreguidão.

— Tenho-a, mas antes de dá-la quero sair daqui, respondeu Aladim.

O mágico, porém, receando que, uma vez fora do subterrâneo, o moço se negasse a entregar-lhe a lâmpada, declarou-lhe que não o ajudaria a sair enquanto não tivesse entregue o objeto tão almejado.

Depois de grande teima de parte à parte, Aladim disse:

— Pois bem, eu ficarei sentado na escada, e não darei a lâmpada, sem sair, embora tenha que morrer de fome.

Grande furor apoderou-se do mágico ao ouvir estas palavras, que revelavam a pertinácia de Aladim; concluiu que o moço estava resolvido a subtrair-lhe a lâmpada, e exclamou com voz terrível:

— Morre, pois, malvado, morre enterrado vivo! E proferiu precipitadamente algumas fórmulas cabalísticas; a laje de mármore cobriu imediatamente a entrada do subterrâneo, sepultando o infeliz moço, condenado a perecer miseravelmente na sua prisão.

O mágico, vendo frustrados os seus planos, e não podendo intervir pessoalmente para arrebatar a lâmpada, teve de contentar-se com a sua ruim vingança, e voltar para a África em busca de novos meios e combinações para obter o tesouro tão ambicionado.

Aladim, entretanto, julgando-se perdido irremissivelmente, pôs-se a chorar com amargura. Ao cabo de algum tempo, quis ver se pelos aposentos não acharia alguma sabida; mas encontrou a porta fechada. Desapareceu o último vislumbre de esperança, e o moço sentou-se nos degraus da escada à espera da morte. Felizmente um sono profundo veio por temporariamente termo às suas mágoas. Mas, ao despertar, Aladim prorrompeu novamente em lamentações, erguendo os braços e torcendo as mãos convulsivamente. Nestas contorções, esfregou o anel que o mágico lhe havia dado, e de repente encheu-se a caverna de um grande clarão, e aos pés de Aladim surgiu um gênio, gigantesco e de horrível aspecto, que exclamou com poderosa vez:

— Que mandas? Os gênios do anel estão às tuas ordens, e eu sou o teu escravo.

Aladim, assustado no primeiro momento pelo estranho da aparição, sossegou ao perceber a humildade das palavras do gênio, e disse:

— Podes tirar-me desta caverna?

— Não tens mais que ordenar!

— Pois então leva-me a Bagdá, para perto da casa de minha mãe.

O gênio suspendeu Aladim delicadamente com as suas longas garras, abriu a terra com um sopro ruidoso, e, fendendo os ares com rapidez vertiginosa, alcançou a cidade, onde depôs o moço na vizinhança de sua habitação, perguntando submissamente:

— Que mais ordenas?

— Nada, por ora, respondeu Aladim. Chamar-te-ei quando de ti precisar.

Desapareceu o gênio, e Aladim apresentou-se em casa de sua mãe, extenuado de cansaço e morto de fome.

A pobre da velha, que o havia julgado perdido, recebeu-o com exclamações jubilosas e ternos carinhos, e, ouvindo dizer que em três dias nada havia comido, correu a preparar-lhe uma boa refeição para restaurar-lhe as forças.

Em seguida Aladim narrou-lhe as suas aventuras, e, como prova de sua narração, mostrou-lhe a lâmpada e os frutos colhidos no jardim maravilhoso.

A velha, porém, disse:

— Não há duvida que são bonitas estas frutas de vidro; mas não têm lá muito valor, nem tão pouco a lâmpada velha. Deverias ter trazido antes uns punhados de ouro.

— Tens razão, disse Aladim; mas não me lembrei. Por ora, o mais acertado é irmos dormir, porque caio de cansado.

No dia seguinte, para o almoço, a velha viu-se em grandes apuros, porque não possuía mais nem dinheiro nem provisões. Quis ir vender um pouco de algodão de fiar, que lhe restava; Aladim, porém, lembrou-se que mais depressa poderia vender a lâmpada, e, para torná-la mais apresentável, disse à velha que a limpasse.

Pegou a viúva em um trapo, e pôs-se a esfregar o objeto em questão.

Imediatamente abriu-se o chão, e surgiu um gênio de aspecto ainda mais aterrador do que o escravo do anel, e exclamou com voz retumbante:

— Que mandas? Os gênios da lâmpada estão às tuas ordens, e eu sou o teu escravo!

De susto desmaiou a viúva; Aladim, porém, já familiarizado com os gênios, apoderou-se da lâmpada, e disse:

— Recomendo-te que para outra vez te apresentes com modos mais delicados; por enquanto vais trazer-me um bom almoço.

— Sem demora o teu desejo será satisfeito, disse o gênio; devo prevenir-te, contudo que, sendo esfregada a lâmpada com força, nós, os teus escravos, somos obrigados a gritar muito; chamando-nos, porém, com brandura, falíamos brandamente como tu.

Dada esta explicação, o gênio desapareceu, voltando segundos depois com doze travessas de prata cheias de manjares deliciosos. Pôs a mesa e completou o serviço com pão, vinho e copos de cristal, e sumiu-se ao mandado de Aladim.

O moço prodigalizou então os seus cuidados à viúva, que ainda permanecia desmaiada, e muito admirada ficou esta quando, ao despertar, deu com a mesa tão extraordinariamente posta.

— Não te preocupe isto, disse Aladim; come e depois saberás tudo.

Banquetearam-se os dois como poderosos da terra, e quando chegarão à sobremesa, Aladim referiu:

— Devemos este banquete esplêndido aos gênios, escravos da lâmpada. Compreendo agora porque o mágico tanto se empenhava para obter este objeto. Deve ter qualidades ocultas, que o tempo nos há de revelar. Por enquanto servir-nos-á para alcançar os meios de uma existência cômoda; convém, porém, guardar o maior segredo para não despertar a inveja dos próximos.

— Faze o que quiseres, replicou a velha, contato que me tires da vista esta lâmpada, que quase causou-me a morte.

Aladim tomou a lâmpada e foi escondê-la em um recanto do sótão, prometendo-se recorrer a ela no caso de precisar.

Alguns dias depois acharam-se esgotados os manjares fornecidos pelo gênio, e a viúva aconselhou o filho que fosse vender um dos pratos; mas nem ela, nem Aladim sabiam que estes objetos eram de prata finíssima, e assim o moço, caindo nas garras de um judeu ladrão, obteve apenas uma moeda de ouro pela prata que valia pelo menos sessenta moedas.

Julgou, com tudo, ter feito bom negócio, e pouco a pouco foi vendendo os outros onze pratos pelo mesmo preço.

Não sobrando mais nada para vender, Aladim foi ao sótão, esfregou a lâmpada e imediatamente apareceu o gênio, ao qual ordenou que o servisse como da primeira vez, ordem que sem demora foi executada.

Correram as coisas mais ou menos do mesmo modo.

Quando, porém, Aladim saiu para vender um dos pratos ao judeu, encontrou um ourives, que frequentemente o havia visto passar com os pratos, e que desta vez o chamou e perguntou-lhe se vendia os objetos ao judeu da vizinhança.

— Sim, respondeu Aladim, e ele me paga à razão de uma moeda de ouro.

— Uma moeda de ouro! exclamou indignado o ourives; um moeda de ouro por um objeto que ao peso vale mais do que sessenta! Traze-me tudo quanto tens, e eu te pagarei fielmente o seu justo valor.

Aladim foi buscar a sua baixela e recebeu duas mil moedas de ouro, soma que lhe pareceu fabulosa, e que lhe proporcionou os meios de viver comodamente com a sua mãe, de vestir decentemente e de frequentar boa sociedade, onde depressa adquiriu conhecimentos úteis e modos finos e elegantes, de maneira que da sua vida anterior, vagabunda e desregrada, já não restava vestígio.

Um dia, quando Aladim já havia alcançado os dezoito anos, ouviu apregoar uma ordem do Califa, mandando fechar todas as casas, e proibindo o transito nas ruas, durante um passeio que a princesa Adônida ia dar.

Esta ordem despertou em Aladim a curiosidade de ver a princesa, e, chamando por meio da lâmpada o gênio, ordenou-lhe que o levasse aos aposentos de Adônida, o que imediatamente foi efetuado.

Invisível, Aladim pôde contemplar detidamente a formosa princesa no meio de suas damas, e, reconduzido pelo gênio à sua modesta habitação, o moço achou-se tão impressionado pela formosura de Adônida que se torturou o espírito para achar um meio de possuí-la.

Não descobrindo, porém, coisa acertada, dirigiu-se á sua mãe e lhe disse:

— Minha mãe, agrada-me tanto a princesa Adônida, que me quero casar com ela. Vai, pois, ao Sultão, e pede a sua mão.

A velha olhou atônita o filho, e prorrompeu em uma grande gargalhada:

— Estás doido, meu filho, respondeu por fim. Ir ter com o Sultão, com as mãos vazias? Deitar-me-ão imediatamente à rua!

— Não irás com as mãos vazias, e o mimo que levarás poderá deslumbrar os olhos do mais poderoso Sultão da terra. Aquelas frutas, que julgávamos de vidro, hoje sei que são pedras preciosíssimas, por que muitas vi, posto que de muito menor valor, nas lojas que frequentei.

Aladim tomou uma travessa de prata, e arrumou nela uma porção de frutas, com tal jeito e arte, que apresentavam um aspecto verdadeiramente deslumbrante, a ponto que a mesma viúva não pôde negar que tal presente era realmente digno de um soberano.

Ela cedeu, pois, aos rogos do filho; cobriu o prato com um pano de fino linho, e foi ter ao palácio, onde, metida no meio de outras pessoas, colocou-se perto do trono do Sultão, encarando atentamente o soberano, não achando, contudo, o ânimo necessário para dirigir-lhe a palavra.

O Sultão, porém, tinha o costume de falar somente com aquelas pessoas que houvessem apresentado requerimento, e assim passou-se a audiência, e se retirarão os solicitantes, ficando só a viúva perto do trono acanhada e vexada. O soberano, notando então a sua presença, chamou-a, e perguntou-lhe o que queria.

— Poderoso senhor, — disse trêmula a viúva, — falta-me o ânimo de falar perante todo o teu conselho; além disto, peço-te que não me castigues, se o meu pedido não for do teu agrado.

— Desde já te prometo pleno perdão, respondeu o Sultão, dando um sinal aos seus conselheiros, que todos se retiraram, ficando apenas o grão-vizir ao lado do soberano.

— Fala agora sem receio, — acrescentou este.

A velha animou-se, e minuciosamente referiu a vida do seu Aladim e o amor que este consagrava à princesa.

— Irremediavelmente morrerá o infeliz, — agregou a viúva, — se, como é de supor, repelires o seu pedido. Em todo o caso, perdoarás a uma mãe, que teve pena dos sofrimentos do seu filho.

O Sultão tinha bom coração; comoveram-no os acentos da viúva, e graciosamente disse:

— Veremos o que se pôde fazer. Mas mostra-nos agora o que trazes naquele pano.

— É um mimo modesto, que Aladim te envia — replicou a viúva, descobrindo as frutas.

O Sultão, porém, levantou-se de um salto, exclamando:

— Ah! que esplendor! Pedras preciosas como estas nenhum soberano da terra possui! Olha, Vizir, e admira esta magnificência! Não te parece este mimo digno da princesa?

O ministro ficou igualmente bastante impressionado; mas, como há muito nutria o desejo de casar o próprio filho com a princesa Adônida, disse em voz baixa ao seu soberano:

— Daria Vossa Majestade sua filha a um homem de baixa estirpe por uma coleção de diamantes?

O Sultão, porém, respondeu-lhe do mesmo modo:

— Nem todos os reis do mundo seriam capazes de oferecer um mimo tão maravilhosamente formoso como este; assim não posso deixar partir a mulher sem dar-lhe alguma esperança, embora me repugne casar Adônida com o filho de um alfaiate. Não sei como haver-me.

— Pois, diga Vossa Majestade que concederá a mão da princesa, se Aladim lhe enviar outro presente, que designará com tanta exigência, que seja impossível encontrá-lo.

— Muito bem, respondeu o Sultão, e dirigindo-se á viúva, lhe disse:

— Dize a teu filho que lhe darei a mão da princesa, se hoje mesmo por quarenta escravos brancos e quarenta negros de grande formosura me mandar quarenta bacias de ouro cheias de frutas iguais a estas. E, se não puder efetuar isto, que perca as esperanças de possuir Adônida.

A pobre da velha teve grande susto ao ouvir esta decisão, porque julgou que Aladim nunca poderia encontrar tanta riqueza; contudo, depois de ter-se demente do Sultão, voltou correndo para a sua casa, e contou tudo fielmente ao filho, que prorrompeu em gargalhadas alegres, com grande espanto da viúva.

Retirou-se o moço para o sótão, e chamou o gênio da lâmpada, ao qual referiu a exigência do Sultão, ordenando-lhe que fornecesse os meios de satisfazê-la.

Sorriu se o gênio, como achando brincadeira a execução de tal ordem; desapareceu, e daí a nada voltou com tudo quanto Aladim havia pedido, cabendo mal o grande numero de escravos na casa exígua da viúva.

O moço chamou sua mãe, e lhe disse:

— Eis aqui o que o Sultão pediu. Corre ao palácio, apresenta-lhe os mimos e lembra-lhe a sua promessa.

O gênio da lâmpada sabia ser artisticamente liberal. Não só achavam-se os escravos ricamente trajados com os tecidos mais finos e vistosos, cobertos de diamantes e rubis, mas ainda eram de porte tão majestoso, de ademanes tão distintos, que cada um deles mais parecia um príncipe do que um vil servidor.

Seguiam a viúva aos pares, um branco, um negro, levando este último à cabeça uma bacia de ouro magnificamente cinzelada, e cheia de frutas de pedras preciosas.

Seria difícil descrever o alvoroço que esta comitiva suscitou nas ruas de Bagdá; com aclamações entusiásticas o povo acompanhou a viúva de Mustafá e seu brilhante séquito até o pátio do Sultão, onde a guarda imperial, enganada pela presença nobre e ai rosa dos escravos, bradou às armas, como se visse entrar poderosos soberanos.

A viúva penetrou com a sua comitiva no solão de audiência, prostrou-se perante o Sultão, e disse:

— Eis aqui como Aladim tentou cumprir as tuas ordens.

O Sultão, porém, ficou atônito e exclamou:

Alah il Alah! Que vejo! Donde vêm estas maravilhas? Que te parece, Vizir?

O ministro, por mais que lhe pesasse, não pôde deixar de confessar que as condições haviam sido fielmente observadas, e que não haveria remédio senão dar a Aladim a princesa Adônida.

— Pudera não! exclamou o Sultão; todos os soberanos do mundo ficam ofuscados ao lado de Aladim, filho de Mustafá. Que apareça sem demora no meu imperial palácio.

Enquanto o Sultão, depois de ter mandado as bacias de ouro aos aposentos da princesa e com esta se deleitava na contemplação das joias preciosas, correu a viúva, no auge do contentamento, à sua casa, comunicar a seu filho a boa nova do consentimento do soberano.

Aladim estremeceu de prazer, e foi preparar-se para comparecer dignamente perante o seu futuro sogro, isto é, chamou o gênio e lhe disse:

— Os teus mimos produziram efeito desejado. O Sultão concede-me a mão da princesa. Trata-se agora de obter os meios de apresentar-me decentemente. Tu, porém, mostraste tão bom gosto, que nenhuma prescrição te faço, confiando completamente em tuas combinações artísticas.

— Descansa, senhor, disse o gênio; sem mais tardar o teu escravo tratará de contentar-te.

E começou por meter Aladim em uma banheira de ouro e mármore, onde uma legião de gênios o lavaram e perfumaram com as essências mais preciosas do Oriente.

Em seguida revestiram-no de trajos tão deslumbrantes, que Aladim achou excedidas as suas mais atrevidas esperanças. Então o gênio da lâmpada o reconduziu ao seu quarto, e lhe disse:

— Meu poderoso senhor, diante da tua casa te esperam muitos escravos montados em cavalos mais brancos que a neve virginal, e oitenta camelos ricamente ajaezados e carregados de presentes para o Sultão e a tua noiva. Tua mãe montará uma cavalgadura árabe do mais puro sangue, rodeada de seis damas que aguardam as suas ordens. Para ti há um formoso ginete como nunca o mundo vira outro igual. Finalmente, acompanhar-te-ão muitos criados com bolsas cheias de moedas de ouro e mandarás distribuir pelo povo. Estás contente com o teu escravo?

— És um bom e hei servidor, disse Aladim; agradeço-te a perícia com que tudo arranjaste. Agora podes ir-te, ficando, porém, de prontidão para novas ordens.

A notícia da opulência de Aladim se havia espalhado pela cidade toda, e com admiração profunda foi recebida a nova do casamento com a princesa. A rua onde morava o noivo, e todas as outras do trajeto até ao palácio, apinharam-se de povo, que se regozijava com a sorte feliz de Aladim, porque este, durante os últimos anos, se havia mostrado bom e polido para com todos, atraindo assim muitos amigos. Quando saiu de sua casa, e cavalgou o formoso ginete, saudando para todos os lados, o entusiasmo do povo traduziu-se em aclamações frenéticas:

— Viva o príncipe Aladim! Que a felicidade e o bem-estar o acompanhem!

A comitiva pôs-se em movimento: na frente, os vinte escravos em seus cavalos brancos; em seguida, Aladim ao lado de sua mãe, precedendo os camelos carregados de presentes; por último, os criados atirando punhados de ouro para o povo, que não cessava de gritar:

— Viva Aladim, viva!

Na porta do palácio o Sultão recebeu o moço, e abraçando-o, lhe disse:

— Que Alah abençoe a tua entrada, querido filho meu! Sê bem-vindo, e recebe a tua noiva, a princesa Adônida.

E, segurando Aladim pela mão, conduziu-o por entre as fileiras de cortesãos, ao som de harpas e címbalos, aos aposentos da princesa.

Aladim ajoelhou-se perante Adônida, beijou-lhe a mão, e perguntou profundamente comovido:

— É de tua livre vontade que vais seguir-me?

O rosto formoso da princesa cobriu-se de ondas purpurinas, e ela disse com grande recato:

— Obedeço de bom grado às ordens de meu pai, e confio completamente em ti.

Comparecerão então os mulás, e o casamento teve lugar imediatamente.

Depois da cerimônia, o Sultão disse:

— Julgo acertado, Aladim, que fiques morando com tua mulher e tua mãe no meu palácio, quanto mandares construir um castelo digno da tua opulência.

— Querido sogro, respondeu Aladim, quem casa quer casa. Só te peço paciência até amanhã, e verás o que sei fazer. Gozemos, por enquanto, as delicias de dia tão assinalado.

O Sultão conduziu seus filhos ao salão do banquete, onde se achavam reunidos os vizires, conselheiros e cortesãos, que à porfia felicitaram os noivos. Havia duas mesas para o banquete nupcial, uma grande para a gente da corte, outra menor para o Sultão, a viúva e os seus filhos. Harmonias deliciosas corriam pelo salão, e exclamações jubilosas celebravam os noivos formosos, que, inebriados de ventura, nadavam em um mar de alegria.

Ao cair da noite, Aladim ergueu-se, despediu-se de sua esposa e do Sultão, e dirigiu-se sozinho ao sótão de sua casinha, que, depois deste dia de suntuosa agitação, lhe pareceu bem solitária.

Sem demora chamou o gênio da lâmpada, e lhe disse:

— Querido amigo, tão liberal te mostraste para comigo, que apenas me atrevo a pedir-te novos favores. Contudo, preciso ainda de ti. Eis-me casado com a formosa Adônida, mas bem vês que não a posso trazer para este pobre casebre. Quero, pois, que me construas esta noite um castelo defronte do palácio do Sultão. Deixo ao teu cuidado a edificação; só te recomendo que no último andar haja um único e vasto salão, construído de lajes alternadas de ouro e prata. Em cada uma das quatro paredes quero seis janelas, cujos caixilhos, com exceção de um, que ficará por acabar, sejam feitos com pedras preciosas, de modo que nunca se haja visto coisa igual. Em lugar de vidros, empregarás lâminas de diamante. Podes executar estas ordens até amanhã?

— Deixa estar, Aladim, respondeu o gênio, amanhã tudo estará pronto de conformidade com o teu mandado.

Desapareceu o gênio, e Aladim deitou-se a passar a última noite em sua casinha modesta. Ao romper do dia, levantou-se, meteu a sua lâmpada no seio, e correu a ver como o gênio havia cumprido com a sua promessa. E encontrou o palácio novo, rutilante como o sol. Ao passar o umbral, foi recebido por uma legião de servidores magnificamente trajados, que perante ele se prostraram respeitosamente. No primeiro aposento deu com o gênio, que lhe perguntou:

— Estás satisfeito Aladim?

O moço respondeu:

— Muito, e declaro-te que és a flor de todos os servidores.

Sorriu-se o gênio e levou Aladim sucessivamente a todos os aposentos do palácio, que rivalizavam em magnificência e formosura.

Por fim chegaram diante do salão encomendado especialmente por Aladim.

Já a porta da entrada era uma maravilha deslumbrante de ourivesaria, de ouro maciço, cravejada artisticamente de diamantes e safiras. Ao penetrar, porém, no recinto, o noivo de Adônida teve de fechar por um momento os olhos, porque parecia-lhe que estava a mergulhar-se em um mar de luz esplendorosa. Com efeito, o que tinha diante de si era obra tão maravilhosa, que a imaginação mais atrevida não conseguiria concebê-la.

As paredes eram construídas de lajes de ouro e prata, alternadas com a mais exata regularidade, e polidas como cristais de espelho. Os caixilhos das janelas talhados em ouro, ostentavam os mais formosos arabescos desenhados com pedras preciosas. Belíssimas pinturas adornavam o teto, e um tapete tecido por mãos de fadas cobria o soalho.

Aladim ficou encantado e agradeceu nos termos os mais cordiais o magnífico desempenho do gênio da lâmpada.

Este mostrou-se sensível aos louvores de seu senhor, e convidou-o a visitar igualmente as dependências do esplêndido palácio.

Desceram a um pátio rodeado por três lados por imensos edifícios construídos em estilo condigno do corpo principal.

Achavam-se à direita o tesouro, à esquerda as cavalariças e no fundo as habitações para numerosos servidores e escravos.

No tesouro encontrou Aladim montões de moedas de ouro, de adereços preciosos, de diamantes e pé­rolas, e baixelas artisticamente lavradas de todos os gostos e estilos.

Nas estribarias viu mais de cem ginetes de sangue puríssimo, oriundos da Arábia e do Iêmen, dos quais cada um valia uma fortuna.

Eram de prata as manjedouras e de mármore os bebedouros.

Arneses riquíssimos, guarnecidos de ouro e cravejados de diamantes e rubis, estavam pendurados em colunas de jaspe, e tão abundante era a coleção, que podia ser ajaezado cada um dos numerosos cavalos de modo diferente.

Aladim tornou a agradecer ao gênio, recomendando-lhe que ficasse de prontidão para novo chamado; em seguida foi ter com sua esposa, sua mãe e seu sogro, convidando-os a visitar o seu palácio.

Opinou o sogro que em uma única noite não se poderia fazer grande coisa; mas bem depressa arrependeu-se desta asserção, quando lhe foi dado contemplar todas as maravilhas que encerrava o palácio, que por si só era a mais esplendida de todas as maravilhas. Quando viu o grande salão, não achou mais termos para expressar a sua admiração: ficou estático.

Aladim perguntou, entretanto, muito modestamente á sua esposa se a habitação era do seu gosto.

Respondeu-lhe a formosa Adônida:

— Até hoje sempre considerei o palácio de meu pai como a obra mais preciosa do mundo. Agora conheci que apenas é uma choupana, comparada com esta, e bem feliz me tenho em poder viver aqui, a teu lado, querido Aladim.

Desenhou-se um sorriso de grande satisfação nos lábios do moço, ao ouvir esta declaração de sua esposa, e beijou-lhe agradecido a formosa mão.

O Sultão, entretanto, havia recuperado o uso da palavra, e, vendo a janela que ficara por acabar, perguntou:

— Não houve tempo para terminar a obra?

— Para mais, se quisesse, senhor meu sogro, disse graciosamente Aladim, deixei ficar esta janela assim para que o senhor tenha a satisfação de acabar esta obra primorosa.

Estremeceu de orgulho o Sultão, e exclamou:

— Muito te agradeço a fineza, e verás que regiamente saberei desempenhar-me.

E imediatamente mandou chamar todos os ourives da sua capital, e ordenou-lhes que concluíssem. a obra, adornando a última janela pelo padrão das outras.

Os artistas, porém, coçaram a cabeça, e declararão que todos eles juntos não possuíam as pedras preciosas necessárias para este trabalho.

— Bem, disse o Sultão; que o meu tesoureiro lhes d tudo quanto contém o meu tesouro. Mas andem de pressa e acertadamente para apresentar-me um trabalho digno do palácio; senão, contem com castigo exemplar.

Partirão apressadamente os ourives para por mãos ao trabalho. Em breve veremos como se saíram da empresa.

Aladim, porém, levou sua esposa, sua mãe e o Sultão à sala de jantar, onde já se achava reunida toda a corte que o esposo de Adônida havia mandado convidar, e foi oferecido a todos um almoço, como nunca haviam visto outro. Eram as mesas de prata lavrada, e todo o serviço do ouro mais tino. Criados sem numero serviam manjares deliciosos, vinhos generosos, frutas de todas as regiões do globo, enquanto que uma orquestra oculta enchia o ambiente de harmonias celestes. Diante do palácio achavam-se servidas mil mesas, para os habitantes da capital, com a mesma abundância que as do interior. Dez repuxos expendiam os mais deliciosos vinhos, enviando aos ares suas colunas cor de rubi e de topázio. Achava-se reunida ali metade do povo de Bagdá, em banquete opíparo, vitoriando o generoso príncipe Aladim. Pelo fim do banquete aparecerão criados com bolsas cheias de moedas de ouro, que distribuíram pelo povo. Este último rasgo entusiasmou os agraciados de tal forma, que Aladim não teve remédio senão obedecer ao seu chamado, e mostrar-se na sacada do palácio, donde saudou benevolamente a reunião. Voaram então os turbantes ao ar, e mil e mil vozes bradaram: Viva Aladim, viva o nosso benfeitor!

Durante os oito dias mais chegados continuaram os festejos da mesma forma, de modo que o nome de Aladim vivia na boca de todos. E era isto mesmo o que o jovem almejara, porque, dizia ele, se Alah me fez rico e poderoso, foi para que os meus semelhantes aproveitassem da minha opulência. Mostrou-se bondoso para com todos, auxiliando e consolando sempre que era mister, e adquiriu tal popularidade, que para afirmar qualquer dito, jurava-se pelas barbas de Aladim. Quem, depois desta afirmação, ainda duvidasse, correria risco de ser esfolado vivo pelo povo.

Depois dos dias ruidosos de festança, Aladim dedicou-se todo a amenizar a vida de sua esposa, que amava ternamente, e de sua mãe, que com grande facilidade se havia acostumado à sua nova existência.

Ao cabo de seis semanas, Aladim mandou dizer aos ourives que comparecessem no seu palácio, e que trouxessem o seu trabalho.

Vieram os artistas; mas nem a décima parte do caixilho haviam podido fazer, porque tanto as suas próprias pedras preciosas como as do Sultão se achavam esgotadas.

Aladim ouviu esta declaração com um sorriso e disse:

— E escusado continuarem a cansar-se com uma obra, que está acima de suas forças. Desmontem as pedrarias, levem-nas ao Sultão, e digam-lhe que mandei suspender o trabalho.

Assim fizeram os ourives, e não tardou o monarca a vir expressar ao seu genro a admiração que lhe causara aquela participação.

— Não queres, pois, completar esta obra maravilhosa? perguntou por fim.

Já está completa, respondeu Aladim com um fino sorriso, e mostrou ao Sultão a janela que o gênio da lâmpada acabava de construir.

O Sultão, ao ver que seu genro em poucos segundos havia feito mais que todos os artistas de Bagdá em muitas semanas, sentiu-se possuído de grande admiração e respeito, e beijando Aladim na fronte, disse:

— Grande favor me fez Alah, dando-me por filho um homem tão extraordinário como tu. Homem mais poderoso do que o meu genro não há na terra. Plácidos e serenos sejam os teus dias.

E amena e feliz correu a vida de Aladim, amado e estimado por todos; de dia em dia crescia a sua popularidade, graças aos benefícios que por toda a parte espalhava; mas esta mesma fama, estendendo-se ao longe, devia preparar-lhe momentos de grande amargura.

Foi o caso que o mágico africano ouvi o falar da magnificência e do poder de Aladim, e, desconfiando logo que em tudo isto andava a lâmpada maravilhosa, transportou-se a Bagdá a tomar informações mais minuciosas, vindo assim a saber que o genro do Sultão era o mesmo Aladim, filho de Mustafá, o alfaiate, que havia deixado sepultado na caverna encantada.

Despertou-se no mágico grande ira, porém também, mais do que nunca, o desejo veemente de possuir a lâmpada; resolveu, pois, vingar-se de Aladim, destruindo-lhe a felicidade, e apoderar-se da lâmpada maravilhosa.

Deu-se o acaso que no momento da chegada do mágico, Aladim havia partido para uma caçada, na qual devia demorar-se alguns dias.

Teria levado a lâmpada? Esta pergunta preocupou suas combinações cabalísticas, viu que o objeto almejado se achava no palácio, no quarto de dormir da princesa.

Em um instante delineou e efetuou um plano engenhoso, cujo bom êxito descansava na curiosidade das mulheres.

Vestiu-se pobre e miseravelmente, e, levando no braço enfiada uma porção de lâmpadas, apresentou-se diante do palácio, exclamando:

— Lâmpadas, lâmpadas! Quem quer trocar lâmpadas velhas por novas?

Recebeu o povo esta oferta com grandes gargalhadas, julgando que o mercador queria diverti-lo com pilhérias.

Infelizmente, porém, a camareira da princesa ouvira também o pregão do mágico, e foi contar o caso a sua ama.

— Dar lâmpadas novas por velhas, disse Adônida; isto não passa de um gracejo.

— Vamos experimentar, perguntou a criada, oferecendo-lhe a lâmpada velha que está aí a enfear o ornato da chaminé?

— Pois bem, respondeu a princesa, que não conheciam valor do objeto. Prega-lhe a peça, e pilha-lhe uma lâmpada nova, para ensinar-lhe a não zombar da gente.

Desceu a criada com a lâmpada de Aladim, ofereceu-a ao mágico, que imediatamente a reconheceu, estremecendo de júbilo. Depressa entregou-lhe uma lâmpada nova, e fugiu com a velha, perseguido pelas risadas do povo.

À boa distância da cidade, o mágico aguardou a meia-noite, para chamar violentamente o gênio. Este apareceu com cara transtornada e pesarosa, e disse:

— Que queres? Sou escravo da lâmpada, e obrigado a obedecer-te.

— Quero que me transportes imediatamente o palácio de Aladim, e tudo quanto contém, à minha residência, no centro da África.

Com a conhecida prontidão o gênio da lâmpada efetuou esta ordem.

O palácio de Aladim, com todos os seus tesouros, dos quais a adorada Adônida era o mais precioso, em um instante achou-se a mais de mil léguas da cidade de Bagdá.

Quando, no dia seguinte, o Sultão, segundo seu costume, chegou à janela para olhar para o palácio de Aladim, julgou-se preso de uma alucinação. Esfregou os olhos, tornou a olhar, mas... o palácio havia desaparecido!

Prorrompeu o monarca em grandes exclamações lamentosas, porque, antes de tudo, era pai extremoso. Mandou chamar a toda a pressa o Vizir, para ver se este poderia explicar-lhe o caso tão estranho quão aflitivo.

Não menos impressionado ficou o ministro; em lugar, porém, de perder tempo em excogitações, julgou o momento propicio, para prejudicar no ânimo do Sultão o jovem Aladim, a quem ainda não havia perdoado de haver-lhe transtornado os planos acerca do casamento de Adônida.

— A perda do palácio pôde suportar-se, disse ele ao Sultão, porque, por fim de contas, era uma humilha­ção constante para Vossa Majestade. Mas o rapto da princesa, única alegria de Vossa Majestade, é um ato imperdoável, e com ele bem prova Aladim quão indigno foi de todas as bondades do generoso senhor. Será justo que Vossa Majestade o obrigue a restituir a princesa, sob pena dos mais severos castigos.

Estas palavras proferidas maliciosamente inflamaram ainda mais o ânimo do Sultão, e este deu ordem que prendessem Aladim em qualquer parte em que o encontrassem, e que o levassem à sua presença.

Sabia o Vizir que Aladim vinha de volta da caçada; enviou um destacamento de policia ao seu encontro, e fê-lo carregar de ferros pesados e conduzir assim à sala do tribunal no palácio do Sultão.

— Onde está minha filha? exclamou com grande agitação o monarca exaltado.

— Tua filha? disse Aladim; mas há de estar em meu palácio.

— Teu palácio! retrucou o Sultão; procura onde está o tal teu palácio!

Aladim chegou-se à janela, empalideceu horrivelmente quando viu que a sua habitação havia desaparecido.

— Alakerim! — exclamou o pobre moço. Só o céu saberá onde está agora a minha adorada mulher.

— O céu, malvado? O demônio das trevas o saberá, com quem tiveste aliança. Mas lias de confessar a verdade, senão morrerás nas mãos do carrasco!

Embora profundamente impressionado pela perda da mulher, e pela animosidade cruel do Sultão, Aladim respondeu com muita calma e dignidade:

— A minha vida está em tuas mãos; podes mandar matar-me, mas juro-te que morrerei inocente.

Estas palavras deveriam ter modificado os sentimentos do Sultão; mas o soberano estava muito prevenido contra Aladim, e assim ordenou que imediatamente o genro fosse decapitado.

Aproximou-se o carrasco; Aladim ajoelhou-se e ofereceu resinadamente o seu pescoço.

No momento em que o verdugo alçava o alfanje afiado, ergueu-se horrível algazarra nas portas do palácio. Era o povo de Bagdá, armado e enfurecido, que havia tido conhecimento da iniquidade que ia cometer-se ali, e vinha reclamar em altos brados a liberdade do seu benfeitor, pagando-lhe assim um eloquente tributo de gratidão pelos benefícios que o filho do povo havia prestado a todos.

— Morram os inimigos de Aladim! — clamaram mil e mil vozes com a impetuosidade de furacão.

E machados, e cem outras armas principiaram a bater em brecha as portas do palácio.

Empalideceu o Sultão, e deu ordem de suspender a execução e de soltar imediatamente Aladim.

Este, nobre e generoso, não pensou em vingança. Chegando a uma janela, agradeceu ao povo a sua sincera adesão, e o tranquilizou, declarando que já não corria perigo algum; em seguida o exortou a que se retirasse em paz, no que foi imediatamente obedecido, com grandes e ruidosas aclamações.

Depois de ter livrado deste modo de um mau passo o soberano, que tão cruelmente o havia tratado, Aladim disse ao Sultão:

— Peço quarenta dias para procurar tua filha. Se, ao expirar este prazo, não tiver encontrado a princesa, voltarei a por a minha vida entre as tuas mãos.

Concedido o prazo pedido, Aladim saiu da cidade, para principiar as suas pesquisas; conhecendo, porém, que com as suas próprias forças nada conseguiria, e lembrando-se do anel, que já uma vez lhe havia servido na caverna encantada, pôs-se a esfregá-lo, e imediatamente apareceu o gênio, dizendo:

— Que queres, senhor? Aqui estou às tuas ordens.

— Se sabes onde está o meu palácio que havia edificado em Bagdá, ordeno-te que o reponhas sem demora em seu lugar.

— Nada posso neste assunto, — respondeu o gênio. Deves chamar para este serviço o gênio da lâmpada.

— Mau, — retrucou Aladim; — a lâmpada já não está em meu poder. Mas não me poderás levar ao ponto onde demora agora a minha habitação?

— Ordena, que obedecerei.

E, tendo formulado a ordem, Aladim viu-se transportado ao pé do seu palácio, debaixo das janelas de sua mulher Adônida.

Apesar de ser noite cerrada, Aladim reconheceu muito bem o edifício, e estremeceu de alegria com o pensamento de que em breve tornaria a ver a princesa, e quiçá a recuperar o poder perdido.

Pelo momento, porém, não sabendo se o raptor estava no castelo, compreendeu que toda a prudência seria pouca, e assim, escondeu-se em um bosque de murtas, observando atentamente o aposento de Adônida.

Não tardou que a princesa viesse encostar-se a uma de suas janelas a respirar a brisa embalsamada e a confiar à noite discreta as mágoas que lhe atormenta vão o coração juvenil.

Achava-se tão perto Aladim, que ouvia até os menores suspiros de sua mulher adorada; quando por seus queixumes sentidos conheceu o extremo do seu sofrimento e a profundidade do seu amor, não pôde resistir mais e proferi o maviosamente as palavras:

— Adônida, querida Adônida, eis-me aqui para salvar-te.

A princesa soltou um pequeno grito de surpresa, mas já Aladim havia saltado a janela, e estreitava aos braços a esposa adorada.

Passados os primeiros momentos de terna efusão, a princesa narrou fielmente tudo quanto havia ocorrido com a lâmpada, e pela sua descrição Aladim veio a conhecer que o raptor havia sido o mágico, que outrora tão cruelmente o abandonara na caverna encantada.

Teve agora dobrados motivos para castigar o malvado, e, tendo sabido por Adônida, que o mágico conservava a lâmpada guardada cuidadosamente no seio, compreendeu que não seria possível reavê-la era quanto o monstro estivesse com vida.

— Ah! meu querido esposo, disse por fim Adônida, devo confessar-te que tenho uni medo horrível desta noite. Desde o primeiro momento do rapto, o mágico me persegue para que case com ele. Marcou-me um prazo e este prazo expira hoje. Como salvar-me!

Sorriu-se meigamente Aladim ao responder:

— Pois não estou eu aqui? e permitirei porventura que alguém me arrebate o tesouro mais precioso que possuo? Tranquiliza-te, Adônida; e observa fielmente o que vou dizer-te. Era primeiro lugar ausentaste um momento para dar as tuas ordens para que preparem imediatamente um esplêndido banquete de núpcias.

— De núpcias, meu esposo? perguntou a princesa admirada.

— Sim; mas não te inquietas, que prontamente saberás o meu projeto de salvação.

Ausentou-se Adônida, e Aladim chamou imediatamente o gênio do armei, e ordenou-lhe que lhe desse um veneno, capaz de matar com a prontidão do raio.

O gênio entregou-lhe um papelzinho contendo uns pós formidáveis, e desapareceu no momento em que Adônida voltava à sala.

— Estão dadas as ordens, disse ele; o mágico horrível acaba de voltar de uma excursão e está se vestindo para fazer-me a visita do costume.

— Tudo vai bem, disse Aladim. Hoje hás de recebê-lo mais carinhosamente que de costume. Desperta-lhe algumas esperanças; convida-o para banquetear-se contigo, e, quando o vinho começar a produzir os seus efeitos, deita-lhe na taça estes pós, que para sempre nos livraram do inimigo monstruoso. Eu estarei perto de ti, para proteger-te se for preciso.

Correu tudo como Aladim havia previsto.

O mágico apresentou-se ricamente adornado, e lembrou à princesa que nesta noite ela devia decidir-se acerca do casamento.

A princesa, que apesar de toda a sua ingenuidade não deixava de ser mulher, achou um sorriso gracioso para acolher o mágico e lhe disse:

— Estou persuadida de que já não posso voltar a Bagdá, e que tenho de terminar a minha existência, em sua companhia. De outro lado, me comove o amor profundo que me patenteia e me faz prever a possibilidade de uma solução satisfatória desta situação. Por enquanto o convido a cear hoje comigo, e dou-lhe licença de tratar de distrair-me.

Estremeceu o mágico de prazer ao ouvir estas palavras prometedoras, e, sem pressentimento algum do perigo que o ameaçava, entregou-se às delicias de uma ceia opípara, regada dos mais generosos vinhos.

Por fim a princesa deitou sutilmente os pós na taça do mágico, e lhe disse:

— Ainda esta taça de vinho à minha saúde, e nada mais terá a desejar.

Febrilmente o mágico agarrou a taça e esvaziou-a de um só trago.

O efeito foi imediato. Fulminado o monstro caiu no chão e exalou a alma nefanda.

Acudiu, Aladim, e, rasgando a roupa do defunto, apoderou-se da lâmpada, que cobriu de beijos, porque assegurava-lhe para sempre a posse pacifica de sua esposa adorada,

Quando todos no palácio estavam entregues às doçuras do sono, Aladim chamou o gênio da lâmpada, que alegre e risonho apareceu, perguntando:

— Queres que leve o palácio para Bagdá, não é assim, meu bom senhor?

— Sim, disse Aladim, e o mais depressa possível.

Desapareceu o gênio, e por um leve sacudimento Aladim percebeu que o palácio estava se removendo, e feliz e contente deitou-se a dormir por sua vez.

Enquanto que no centro da África Aladim se ocupava em reconquistar a sua esposa, o velho Sultão chorava amargamente em Bagdá a perda de sua filha, e arrependia-se profundamente da crueldade com a qual havia tratado seu genro.

Depois de uma noite cheia de insônia e regada de copioso pranto, o Sultão levantou-se e com passos vacilantes dirigiu-se à janela para contemplar, pelo menos, o lugar onde existira a habitação esplendida da chorada princesa.

Ao olhar para fora, sentiu como um choque elétrico.

Alah il Alah! exclamou; que vejo! será verdade ou alucinação! o castelo de Aladim! Deus me perdoe os meus pecados!

E, vestido apenas, com os passos mal seguros, os olhos cheios de lágrimas e trêmulas as mãos, o Sultão saiu dos seus aposentos, atravessou a praça, transpôs o limiar do palácio reaparecido, e caiu nos braços de seus filhos, que na entrada o esperavam terna e amorosamente.

Passados os primeiros momentos de alegria ruidosa, Aladim narrou ao Sultão todas as peripécias do drama que se terminara com a morte do mágico, cujo cadáver horrendo mostrou ao sogro, ainda estendido no tapete da sala do banquete.

Quis o Sultão mandar arrojar o cadáver à cova imunda dos animais esfolados; Aladim, porém, ordenou ao gênio da lâmpada que o transformasse em pedra negra e o transportasse ao centro do grande deserto africano para servir de eterno espanto aos mortais que por aí transitassem. O sorriso do gênio mostrou quão agradável lhe era esta ordem, porque sempre havia detestado o mágico tão cordialmente, quão carinhosamente servia a Aladim.

Este continuou vida feliz era companhia de sua querida esposa Adônida, de sua velha mãe, que o cobria de bênçãos, e de seu sogro, que, impelido pela amizade, em breve lhe passou as rédeas do governo, para maior ventura e satisfação do povo, regido sabia e justamente.

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Tradução de: Carlos Jansen (1908)
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2021)