segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Os pães de centeio (Centro), de Anatole France



Os pães de centeio, de Anatole France

Tradução publicada na "Revista Carioca", em sua edição de 4 de setembro de 1947. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Naquele tempo Nicolau Nerli era banqueiro na nobre cidade de Florença. Ao soar a terceira hora já estava sentado em sua mesa de trabalho e ao soar a hora nona ainda continuava sentado. Durante todo o dia desenhava números em suas tábuas. Emprestava dinheiro ao Imperador e ao Papa, e, se não chegou a emprestar ao Diabo, foi por temor de que lhe corressem mal os negócios este que se chama o Maligno e que tem demasiada esperteza. Nicolau Nerli era atrevido e desconfiado. Adquiriu enormes riquezas despojando muitas pessoas, pelo que sempre teve boa reputação na cidade de Florença. Habitava um palácio onde a luz que Deus criou só entrava por estreitas janelas, e nisto deve-se reconhecer uma justa previsão, porque a morada dos ricos deve ser como uma cidadela, e os que possuem considerável fortuna agem prudentemente defendendo, pela força, o que adquiriram com malícia.
Assim, pois, o palácio de Nicolau Nerli estava provido de trancas e cadeados. No interior, as paredes eram pintadas por hábeis artesãos que ali representavam as Virtudes sob aparência de mulheres, os patriarcas, os profetas e os reis de Israel. Tapeçarias estendidas nos cômodos ofereciam, aos olhos, as histórias de Alexandre e de Tristão, tal como se relatam nas lendas.
Para ostentar sua riqueza na cidade, fundava Nicolau Nerli instituições piedosas. Construiu, fora do recinto murado, um hospital em cujo friso, de relevos pintados, eram representados os atos mais honrosos de sua vida. Em agradecimento à quantidade de prata que facilitou para que se terminasse Santa Maria a Nova, no coro daquela igreja achava-se pendurado o seu retrato. Viam-no ajoelhado aos pés da Santa Virgem, com as mãos juntas, e era facilmente reconhecível por seu gorro de lã vermelha, por sua capa forrada de pele, por seu rosto gorduroso e amarelado por seus olhinhos espertos. Sua bondosa mulher, Mona Bismantova, de aspecto triste e honrado, cuja aparência fazia supor que jamais havia agradado a alguém, achava-se do outro lado da Virgem, em humilde atitude de meditação. Aquele homem era um dos principais cidadãos da República; como nunca havia demandado contra as leis e tão pouco se havia preocupado com os pobres nem com aqueles a quem os poderosos dominantes condenam à multa e ao desterro, nada pôde diminuir, perante os magistrados, o alto conceito que, aos olhos destes, suas imensas riquezas o fizeram merecedor.
Ao entardecer de um dia de inverno, entrando em seu palácio a uma hora mais avançada do que acontecia, na soleira da porta se viu rodeado por um grupo de mendigos seminus que lhe estendiam as mãos.
Repeliu-os com palavras rudes; a fome, porém, os obrigava a se mostrarem ariscos e atrevidos como lobos. Fizeram um círculo em torno de Nicolau Nerli e lhe pediram pão com voz queixosa e enrouquecida. Inclinava-se já para apanhar pedras do solo e atirá-las, quando viu chegar um de seus criados que trazia sobre a cabeça um cesto de pães de centeio destinados aos moços das cavalariças, da cozinha e dos jardins.
Indicou ao padeiro que se aproximasse, e, tirando do cesto os pães a mãos-cheias, os atirou aos miseráveis; depois entrou em seu palácio, deitou e dormiu. Enquanto dormia, teve um ataque epilético e morreu tão repentinamente que ainda se considerava em seu leito quando num lugar, "falto de toda luz", lhe apareceu São Miguel, iluminado pela claridade que irradiava seu próprio corpo!
Com a balança na mão, o arcanjo enchia os pratos. Ao reconhecer, no mais pesado, as joias das viúvas que guardava como garantia, os inumeráveis escudos que havia retido indevidamente, e algumas peças de ouro muito formosas que só ele possuía e que havia adquirido pela usura ou pela fraude, Nicolau Nerli supôs que era sua vida passada o que o arcanjo pesava naquele instante, pelo que se mostrou atento e temeroso.
— Messer São Miguel — disse — se colocais num lado todos os lucros que eu tive em minha vida, colocai no outro, se vos apraz, todas as formosas fundações pelas quais manifestei, magnificamente, minha devoção. Não esqueçais a cúpula de Santa Maria a Nova, para a qual contribui com uma boa terça parte, nega o hospital extramuros que mandei construir só com o meu dinheiro.
— Não tenhas temor, Nicolau Nerli — respondeu São Miguel — nunca esqueço nada.
E, com suas mãos gloriosas, colocou, no prato que pesava menos, a cúpula de Santa Maria e o hospital com seu friso de relevos pintados; o prato, porém, não baixava.
O banqueiro começou a inquietar-se profundamente.
— Messer São Miguel — insistiu — procurai mais. Não colocastes neste prato da balança, nem a formosa pia de água benta de São João, nem o púlpito de Santo André, onde o batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo se acha representado em tamanho natural. É uma obra que me custou muito caro.
O arcanjo pós o púlpito e a pia de água benta sobre o hospital, no prato que, apesar de tudo, não baixava.
Nicolau Nerli começou a sentir sua testa inundada por um gélido suor.
— Messer arcanjo — perguntou — estais certo de que vossas balanças pesam bem?
São Miguel respondeu, sorridente, que ainda que não fossem construídas conforme o modelo das balanças que usam os lombardos de Paris ou os cambistas de Veneza, nem por isso deixavam de ser precisas.
— É possível — suspirou Nicolau Nerli angustiado — que minha cúpula, meu púlpito, meu hospital, com todas suas camas, não pesem mais do que um fiapo de palha, do que uma pena de pássaro?
— Assim, o vês, Nicolau — disse o arcanjo — o peso de tuas iniquidades é muito maior que o de tuas piedosas obras.
— Neste caso, irei para o Inferno! — disse o florentino.
Seus dentes batiam de pavor.
— Paciência, Nicolau Nerli! — retorquiu o pesador celeste. — Paciência! Não acabamos ainda; falta uma coisa.
E o bem-aventurado Miguel apanhou os pães de centeio que o rico havia atirado na véspera aos pobres, colocou-os no prato das boas obras que prontamente desceu enquanto o outro subia.
Os dois pratos ficaram na mesma altura: o fiel da balança não oscilava nem para a direita nem para a esquerda indicando a igualdade perfeita dos dois pesos.
O banqueiro não dava crédito aos seus olhos.
O glorioso arcanjo lhe disse:
— Tu o vês, Nicolau Nerli; não serves nem para o Céu nem para o Inferno. Tu o vês. Volta à Florença; continua repartindo pela tua cidade pães, como os que deu tua mão esta noite, sem que ninguém o veja e te salvarás, porque não é bastante que o céu se abra para o ladrão que se arrepende e para a prostituta que chora. A misericórdia de Deus é infinita! É capaz de salvar um rico! Sê tu o rico digno de salvar-se. Continua repartindo pães que pesam muito em minhas balanças. Vai-te.
Nicolau Nerli despertou, em seu leito, resolvido a seguir os conselhos do arcanjo e a repartir o pão entre os pobres para entrar no reino dos céus.
Durante os três anos que viveu ainda na terra, depois de sua primeira morte, mostrou-se piedoso com os desditados e deu muitas esmolas.

Amicus e Celestino (Conto), de Anatole France



Amicus e Celestino, de Anatole France
Tradução publicada no "Diário de Notícias", em sua edição de 27 de dezembro de 1942. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Prosternado à soleira de sua gruta, o eremita Celestino passou em orações a vigília da Páscoa — essa noite angélica durante a qual os demônios inquietos são precipitados no abismo. Enquanto as sombras cobriam a terra, à hora em que o Anjo exterminador pairava sobre o Egito, Celestino estremeceu, cheio de agonia e inquietação. Ouvia, ao longe, na floresta, os miados dos gatos selvagens e a voz aflautada dos sapos. Mergulhado nas trevas impuras, ele duvidava que o mistério glorioso se pudesse cumprir. Mas, quando viu romper o dia, a alegria, juntamente com a aurora, entrou em seu coração; sentiu que Cristo ressuscitara e exclamou:
— Jesus saiu do túmulo! O amor venceu a morte! Aleluia! A Criação está salva e redimida! A sombra e o mal estão dissipados. A graça e a luz se espalham sobre o mundo! Aleluia!
Uma cotovia, que despertava nos trigais, respondeu-lhe cantando:
— Ele ressuscitou! Sonhei com ovos e ninhos, ovos brancos... Aleluia! Ele ressuscitou!
E o eremita Celestino saiu de sua gruta para ir à capela vizinha, celebrar o santo dia de Páscoa.
Como atravessasse a floresta, viu, no meio de uma clareira, um velho carvalho, cujos brotos exuberantes já deixavam escapar folhinhas de um verde tenro. Guirlandas de Lera e de líquens estavam dependuradas dos galhos, que desciam até o chão. Inscrições votivas, pregadas ao tronco nodoso, falavam da mocidade e do amor; e, aqui e ali, cupidos de argila, cujas asas abertas e cujas túnicas esvoaçantes balançavam-se nos ramos. A vista disto, o eremita Celestino franziu os supercílios brancos.
— É a árvore das fadas — pensou. E as moças do lugar a carregaram de oferendas, segundo o antigo costume. Minha vida se passa a lutar contra elas, e ninguém imagina o trabalho que essas figurinhas me dão. Resistem-me abertamente... Cada ano, durante a colheita, excomungo-as, segundo os ritos, e lhes canto o Evangelho de São João.
Não seria possível fazer mais: a água benta e o Evangelho de São João as põem em fuga. E ninguém mais ouve falar dessas senhoras durante todo o inverno. Mas voltam na primavera — e é isso todos os anos...
São sutis. Basta um pequeno arbusto para abrigar um enxame delas... E espalham encantamentos sobre as moças e os moços.
Depois que fiquei velho minha vista diminuiu — e quase não as percebo mais. Zombam do mim, riem às minhas barbas. Mas, quando tinha vinte anos, eu as via nas clareiras, dançando em rondas, com os chapéus de flores, sob um raio de luar. Senhor Deus! Vós que fazeis o céu e o orvalho, sede louvado por vossas obras! Mas por que fizestes árvores pagas e fontes mágicas? Por que pusestes sob a aveleira, a mandrágora que encanta? Estas coisas naturais induzem a mocidade ao pecado e causam fadigas sem conta aos anacoretas que, como eu, desejam santificar as criaturas. Se ainda o Evangelho de São João fosse suficiente pare expulsar os demônios! Mas ele não basta — e eu nada mais posso fazer... 
E, como o bom eremita se afastasse, suspirando, a árvore, que era fada, disse-lhe, num delicado sussurro:
— Celestino, Celestino! Meus brotos são ovos, verdadeiros ovos de Páscoa. Aleluia, aleluia!...
Celestino penetrou no bosque sem voltar a cabeça. Caminhava a custo, por um estreito atalho, em meio de espinhos que lhe dilaceravam a roupa, quando, subitamente, pulando de um galho, um rapaz lhe barrou a passagem. Estava semivestido com uma pele de animal — e era antes um fauno que um homem. O olhar era vivo; o nariz, chato; a face, risonha. Os cabelos cacheados escondiam dois chifres. Os lábios deixavam a mostra dentes agudos e brancos. Pelos louros desciam-lhe, em duas pontas, do queixo. Era ágil e esbelto, e seus pés bífidos se dissimulavam na relva.
Celestino, que possuía todos os conhecimentos que dá a meditação, viu, logo, que tinha alguma coisa a fazer — e levantou o braço para o sinal da cruz. Mas o fauno, segurando-lhe a mão, impediu-o de completar esse gesto poderoso.
— Bom eremita, disse-lhe, não me esconjure. Este dia é para mim, como para ti, um dia de festa. Não seria caridoso causar-me tristeza no dia da Páscoa. Se quiseres, caminharemos juntos e verás que não sou mau.
Celestino era, por felicidade, multo versado nas ciências sagradas. Lembrou-se, a propósito, de que São Jerônimo tivera por companheiros de viagem, no deserto, sátiros e centauros, que haviam confessado a verdade.
 Disse, então, ao fauno:
— Fauno, sê um hino a Deus. Dize: Ele ressuscitou!
— Ele ressuscitou! — respondeu o fauno. E por isso me vês tão alegre.
O atalho se alargara e ambos caminhavam lado a lado. O eremita ia pensativo e sonhava:
— Ele não é um demônio, pois confessou a verdade. Fiz bem em não entristecê-lo. O exemplo do grande São Jerônimo não foi perdido para mim.
E, voltando-se para o companheiro caprípede, perguntou-lhe:
— Qual é teu nome?
— Chamo-me Amicus, respondeu o fauno. Moro neste bosque, onde nasci. Procurei-te, meu pai, porque tens um ar bondoso sob tua longa barba branca. Parece-me que os eremitas são faunos vencidos pelos anos. Quando eu for velho, serei como tu.
— Ele ressuscitou — disse o eremita.
— Ele ressuscitou — disse Amicus.
E, palestrando, galgaram a colina onde se erguia uma capela consagrada ao verdadeiro Deus. Era pequenina e de estrutura grosseira; Celestino a construíra com suas próprias mãos, com as ruínas de um templo de Vênus. No Interior, a sagrada mesa jazia Informe e nua.
— Prosternemo-nos — disse o eremita, e cantemos aleluia, porque Ele ressuscitou. E tu, criatura obscura, continua ajoelhado enquanto eu ofereço o sacrifício.
Mas o fauno, aproximando-se do eremita, acariciou lhe a barba e disse:
— Bom velho, és mais sábio que eu e enxergas o invisível. Mas eu conheço melhor que tu os bosques e as fontes. Oferecerei ao Deus, folhagens e flores. Conheço as encostas, onde se entreabrem corimbos lilases, os prados, onde as trepadeiras florescem em cachos amarelos. Descubro, pelo seu delicado aroma, o agárico selvagem. Já uma nuvem de flores coroa os espinheiros. Espera-me, velho...
Em três pulos de cabra, Amicus foi até o bosque e, quando voltou, desaparecia sob uma colheita perfumada. Prendeu as guirlandas de flores ao altar rústico e, cobrindo-o de violetas, disse gravemente:
 — Estas flores, ao Deus que as fez nascer!
E enquanto Celestino celebrava o sacrifício da missa, o caprípede, inclinado até o chão sua fronte carnuda, adorava o sol e dizia:
— A terra é um grande ovo que tu fecundas, sol, sol sagrado!
Desde esse dia, Celestino e Amicus viveram juntos. O eremita nunca conseguiu, apesar de todos os esforços, fazer compreender ao semi-homem os mistérios inefáveis; mas, como, pelos cuidados de Amicus, a capela do verdadeiro Deus estava sempre ornada de guirlandas e mais florida que a árvore das fadas, o santo padre dizia: "O fauno é um hino a Deus".
Eis porque lhe deu o santo batismo.
Sobre a colina em que Celestino construíra a estreita capela que Amicus enfeitava de flores das montanhas, dos bosques e das águas, eleva-se, hoje, uma igreja cuja nave remonta ao século XI e cujo pórtico foi reedificado no reinado de Henrique II, em estilo Renascença. É um lugar de peregrinação e os fiéis aí recuperam a memória bem-aventurada dom santos Amicus e Celestino.

O malabarista de Nossa Senhora (Conto), de Anatole France


O malabarista de Nossa Senhora, de Anatole France
Tradução publicada no "Diário de Notícias", em sua edição de 28 de novembro de 1943. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


I
No tempo do rei Luiz, havia na França um pobre malabarista, natural de Compiégne, chamado Barnabé, que andava pelas cidades, dando mostras de sua força e de sua agilidade.
Nos dias de feira, estendia um tapete já gasto, na praça pública e, depois de ter atraído as crianças e os basbaques, com atitudes grotescas e espalhafatosas, punha um prato de estanho em equilíbrio, na ponta do nariz. A multidão olhava-o, a princípio, com indiferença; mas quando, com as mãos no chão e a cabeça para baixo, ele atirava ao ar e apanhava novamente com os pés, seis bolas de cobre que brilhavam ao sol, ou quando, virando o corpo até que a nuca encostasse nos calcanhares, tomava a forma uma de uma perfeita roda e fazia malabarismo, nessa posição, com doze facas, um murmúrio de admiração elevava-se da assistência e as moedas choviam sobre o tapete.
No entanto, como a maior parte daqueles que vivem de sou talento, Barnabé lutava muito. Ganhando o pão à custa do seu próprio suor, sofria, muitas vezes agruras sem fim.
Não conseguia trabalhar tanto quanto desejava. Para mostrar sua arte, tinha, como as árvores para darem flores e frutos, necessidade do calor do sol e da luz do dia. No inverno, não era mais que um arbusto despojado de suas folhas e quase morto. A terra gelada era-lhe penosa. E, como a cigarra de que fala Maria de França, sentia frio e fome naquela triste estação. Como, porém, tinha o coração simples, padecia com paciência. Nunca pensara na origem das riquezas nem na desigualdades das condições humanas. Acreditava firmemente que, se este mundo era mau, o outro não poderia deixar de ser bom. Não imitava os ladrões e os infiéis, que vendem a alma ao diabo. Jamais blasfemava em nome de Deus; vivia honestamente, embora, sem faltar à sobriedade, gostasse de beber quando fazia calor. Era um homem de bem, temendo a Deus e muito devoto da Santa Virgem. Não deixava, quando entravava numa igreja, de ajoelhar-se diante da imagem da Mãe de Deus e dirigir-lhe a seguinte súplica:
— Senhora, tomai conta de minha vida até que Deus queira a minha morte e quando eu estiver morto, fazei-me gozar as alegrias do paraíso.
IIOra, certa noite, depois de um dia de chuva, quando caminhava triste e curvado, carregando debaixo do braço suas bolas e facas, escondidas no velho tapete, e procurava alguma granja onde pudesse dormir sem cear, viu, na estrada, um monge que seguia o mesmo caminho e o saudou alegremente. Como caminhassem no mesmo passo, olharam-se e começaram a conversar.
— Companheiro, disse o monge, de onde vem o por que veste essa roupa verde?
— Chamo-me Barnabé, senhor, sou malabarista na minha terra; seria a mais bela vida do mundo, se se pudesse comer todos os dias.
— Amigo Barnabé, respondeu o monge, toma nota do que te digo: não há nada melhor do que a vida monástica. Celebram-se louvores a Deus, à Virgem e aos santos e a vida do religioso é um perpétuo cântico ao Senhor.
Barnabé falou:
— Meu Pai, confesso que falei como um ignorante. A vossa vida não se compara com a minha e, embora ou tenha mérito em dançar, equilibrando na ponta do nariz uma bengala tendo uma moeda na extremidade, esse mérito está longe do vosso. Desejaria, como vós, mau Pai, contar todos os dias a missa e especialmente a da Santa Virgem, por quem tenho uma devoção particular. Renunciaria, de boa vontade, à minha arte, na qual lá sou famoso em mais de seiscentas cidades e aldeias, para abraçar a vida religiosa. 
O monge ficou comovido com a simplicidade do malabarista e, como não lhe faltasse discernimento, reconheceu em Barnabé um desses homens de boa vontade, dos quais Nosso Senhor disse: "Que a paz esteja convoco sobre a terra!" Foi por isso que lhe respondeu:
— Amigo Barnabé, vem comigo e farei com que entres no convento da onde sou o superior. Aquele que guiou Maria no deserto, colocou-me em teu caminho para conduzir-te na senda da salvação.
Foi assim que Barnabé se tornou monge. No convento, onde foi recebido, os religiosos celebravam, com ardor, o culto da Santa Virgem e cada um empregava, para servi-la, toda a habilidade que lhe concedera Deus. O superior, por sua parte, escrevia livros que tratavam, segundo as regras da escolástica, das virtudes da Mãe do Deus...
O irmão Maurício copiava, com mão firme, aqueles tratados em folhas do pergaminho. O irmão Alexandre pintava delicadas miniaturas.
O irmão Marbode talhava, sem cessar, imagens de pedra, embora já tivesse os cabelos e a barba brancos e os olhos sempre lacrimejantes. Era, apesar disso, cheio da força e de alegria, na sua avançada idade e, visivelmente a Rainha dos Céus protegia velhice do seu filho.
Existiam também no convento poetas, que compunham, em latim, orações os hinos em louvor da bem-aventurada Virgem Maria e havia mesmo o irmão Picard, que cantava os milagres de Nossa Senhora, em lindos versos.
III
Assistindo a um tal concurso de louvores e a uma tão bela colheita de obras, Barnabé lamentava sua ignorância e sua simplicidade.
— Ah! — suspirava ele, enquanto passeava sozinho no jardinzinho som sombra do convento — sou bem desgraçado por não poder, como meus irmãos, louvar dignamente a Santa Mãe de Deus! Ah! sou um homem rude e sem arte e não tenho para vos servir, Santa Virgem, nem sermões edificantes, nem tratados bem escrito, nem finas pinturas, nem estátuas magnificamente talhada, nem versos bem metrificados. Ah! nada tenho!
Queixava-se da sorte e entregava-se tristeza.
Uma noite, em que os monges divertiam-se conversando, Barnabé ouviu um deles contar a história de um religioso que não sabia rezar outra coisa a não ser a Ave Maria.
Era por isso desprezado pelos companheiros que o achavam um ignorante. Quando morreu, no entanto, conta a lenda, saíram de sua boca cinco rosas em honra das cinco letras do nome do Maria e sua santidade ficou assim provada.
Ao escutar essa narrativa, Barnabé admirou, mais uma vez, a bondade da Virgem, mas não se consolou com o exemplo daquela morte bem-aventurada, porque seu coração estava cheio do desejo de servir à gloria da Senhora que está nos céus.
Procurava, para isso, um meio de conseguir achá-lo e se afligia cada dia mais, quando, uma manhã, levantando-se muito alegre, correu à capela e lá ficou sozinho, durante mais de meia hora. 
E desde esse dia, dirigia-se ao santuário, sempre à hora em que este estava deserto e aí passava uma grande parte do tempo que os outros monges consagravam às artes liberais e mecânica. Não se sentia mais triste e não se lastimava mais.
Uma conduta tão singular despertou a curiosidade dos monges e todos perguntavam porque o irmão Barnabé se retirava da conversa tão frequentemente.
O superior, cujo dever é nada ignorar da vida de seus religiosos, resolveu observar Barnabé.
Corto da, em que ele se fechara, como de costume, na capela, o superior, acompanhado dos dois monges mais antigos do convento, foram espiar através da fresta da porta o que se passava no seu interior.
Viram, então, Barnabé, que, diante do altar da Santa Virgem, a cabeça para baixo, os pés no ar, fazia malabarismo com seis bolas de cobre e doze facas. Executava, em honra da Virgem, os trabalhos que lhe haviam dado tanta fama outrora.
Não compreendendo que aquele homem simples colocava, desse modo, o seu talento e o seu saber ao serviço da Santa Virgem, os dois velhos religiosos consideraram-no um sacrílego.
O superior sabia que Barnabé tinha a alma inocente; mas naquela hora, acreditava-o caído em demência.
Estavam os três monges dispostos a expulsá-lo da capela, quando tiveram a impressão nítida do que a Santa Virgem descia os degraus do altar para enxugar, com seu manto azul, o suor que gotejava na fronte do seu malabarista.
Então o prior, prosternando-se com o rosto contra os ladrilhos, disse as palavras seguintes:
— Felizes os simples, porque verão a Deus!
 — Amém! — responderam os velhos beijando o assoalho.

domingo, 25 de setembro de 2016

Furto doméstico (Conto), de Anatole France


Furto doméstico, de Anatole France

Tradução publicada na revista "Revista da Semana", em sua edição de 27 de novembro de 1945. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Haverá dez anos, pouco mais, pouco menos, visitei uma prisão de mulheres.
Era um castelo antigo, do tempo de Henrique IV, e cujos telhados da ardósia dominavam a modesta cidade do Sul, à beira dum rio. O diretor da prisão estava chagando à idade da aposentadoria. Sobreau barba branca usava um uma cabeleira postiça preta. Era um diretor extraordinário. Tinha ideias próprias e sentimentos humanos. Não nutria ilusões quanto à moralidade dão suas trezentas hóspedes: entendia, porém, não ser essa moralidade muito inferior à de trezentas mulheres tomadas ao acaso em qualquer cidade. E o seu olhar suave, fatigado, parecia dizer: "Aqui dentro, como alhures, há de tudo".
Quando atravessamos o pátio, longa fila de condenadas terminava o passeio silencioso e voltava para as oficinas. Havia numerosas velhas de ar embrutecido e esconso. O meu amigo dr. Cabane, que nos acompnhava, observou-me que em todas aquelas mulheres havia taras características; que eram frequentes entre elas os casos de estrabismo; que se tratava positivamente de degenerados e bem poucas deixavam de apresentar estigmas de crime, de delito pelo menos.
O diretor meneou lentamente a cabeça. Vi que o não impressionavam sobremaneira as teorias dos médicos criminalistas; estava persuadido do que, na nossa sociedade, os culpados não diferem multo dos inocentes.
Levou-nos às oficinas. Vimos padeiras, lavadeiras, roupeiras em plena faina. O trabalho e a limpeza davam ao recinto um tanto ou quanto de alegria. O diretor tratava todas as mulheres bondosamente. Nem as mais estúpidas ou maldosas lhe faziam perder a paciência ou a benignidade. Entendia que nos cumpre relevar muita coisa às pessoas com quem vivemos; que não devemos fazer grandes exigências aos delinquentes; e, contrariamente ao critério geral, não fazia questão de que as ladras e outras criminosas se tornassem perfeitas só por terem sido castigadas. Não acreditava na eficácia moral das punições nem esperava fazer da prisão uma escola de virtudes. Não sendo de opinião que podemos tornar melhores as outras pessoas fazendo-as sofrer, poupava o mais possível em tal sentido aquelas infelizes.   Não sei se ele  tinha  sentimentos  religiosos; mas não ligava significação moral alguma à ideia de expiação.
— Interpreto o regulamento... disso-me ele — antes de o aplicar. E eu mesmo o explico às detidas. Por exemplo: o regulamento prescreve o silêncio absoluto; mas, se elas se conservassem absolutamente caladas, ficariam idiotas ou dementes. E então penso, devo pensar que não é isso que o regulamento quer. E digo-lhes: "O regulamento impõe-lhes o silêncio. Que significa isso? Significa que as vigilantes não devem ouvir o que vocês dizem. Se elas as ouvirem, vocês serão castigadas; se não as ouvirem, nem admoestadas vocês serão. Ora, eu não tenho que lhes pedir contas dos seus pensamentos. E, se as suas palavras não fizerem mais ruído que os seus pensamentos, não tenho que lhes pedir contas das suas palavras". Assim advertidas, tratam elas de falar, sem por assim dizer, produzir som algum. Não enlouquecem e a regra é observada.
Pergunte-lhe se os seus superiores hierárquicos aprovam aquela interpretação do regulamento.
Respondeu-me que não raro os inspetores lhe faziam observações; ele, porém, conduzia-os até à porta exterior e dizia-lhes: "Estão vendo esta grade? É de madeira. Se fechassem homens aqui dentro, ao cabo de oito dias não restaria um só. As mulheres não pensam em se evadir. Devemos, porém, evitar que se enfureçam. Já o regime da prisão não é muito favorável à sua saúde física e moral... Se os senhores lhes impuserem deveras a tortura do silêncio não me encarregarei de as guardar.
A enfermaria e os dormitórios, que em seguida visitamos, ocupavam grandes salas caiadas e que do antigo esplendor só conservavam as lareiras monumentais de granito cinzento e de mármore, encimadas por pomposas Virtudes em alto relevo. Esculpida por volta de 1600, por algum artista flamengo italianizado, uma Justiça, com o colo nu e deixando ver a ilharga através da fenda da túnica, sustentava com braço forte a balança cujos pratos pareciam chocar-se freneticamente como címbalos. Essa deusa assestava a ponta do seu gládio contra uma doentinha deitada em leito de ferro debaixo dum cobertor delgado como uma toalha. Dir-se-ia uma criança.
— Então? Está melhor? perguntou o dr. Cabane.
— Sim, senhor, muito melhor! respondeu a enferma. E sorria.
— Tenha juízo, esteja bem quietinha e logo ficará boa.
Ergueu para o médico grandes olhos cheios de alegria e de esperança.
— Esteve bem mal, coitada... disse-me o dr. cabane.
E passamos adiante.
— Por que delito foi ela condenada?
— Delito, não; crime.
— Qual?
— Infanticídio.
Ao cabo de longo corredor, entramos num compartimento de aspecto agradável, guarnecido de armários e cujas janelas sem grades davam para o campo. Uma mulher ainda moça, bonita deveras, trabalhava a uma escrivaninha.  Ao lado, de pé, outra mulher, bem feita de corpo, escolhia uma chave no molho que trazia pendurado da cintura. Julguei que fossem filhas do diretor.  Este porém, me fez ver que eram condenadas.
— Não reparou que usam o uniforme da casa?
— Não tinha reparado, sem dúvida porque elas o não usavam corno as outras. — Os vestidos são mais bem feitos e os bonés, de tamanho menor, deixam lhes ver os cabelos.
— É difícil... respondeu o velho diretor — impedir uma mulher de mostrar os cabelos quando são bonitos. Estas duas, sujeitas ao regime, tem cada uma o seu trabalho.
— Que fazem elas?
— Uma é arquivista e a outra bibliotecária.
Não era preciso perguntar: tratava-se de duas "passionais". O diretor não nos escondeu que às delinquentes preferia as criminosas.
— Sei de algumas... explicou ele — que são como estranhas aos crimes respectivos. Foi como um relâmpago que passou na sua vida. São capazes de mostrar retidão, coragem, generosidade. Outro tanto não direi das ladras. Os seus delitos, sempre medíocres, vulgares, formam a trama da sua existência. São incorrigíveis. E a vileza que as levou a cometer atos repreensíveis a cada momento reaparece na sua conduta. A sentença que as atinge é relativamente ligeira; e, como têm pouca sensibilidade, quer física quer moral, suportam-na, as mais das vezes, com facilidade.
Não quer isto dizer... acrescentou vivamente — que tais infelizes sejam, todas elas, indignas de piedade e não mereçam o nosso interesse. Quanto mais vivo mais me convenço de que não há culpados e só há desgraçados.
Conduziu-nos a um gabinete e deu ordem a um vigilante de trazer a detida 503.
— Vou lhes proporcionar — declarou ele — um espetáculo que não preparei, acreditem, e que de certo lhes inspirará reflexões novas acerca dos delitos e dos castigos. O que vão ver e ouvir, cem vezes eu o tenho visto e ouvido.
Uma detida, com o vigilante atrás, entrou no gabinete. Era uma camponesa bastante bonita, de ar simplório e doce.
— Tenho uma boa notícia a dar-lhe... disse o diretor. — O senhor Presidente da República, informado do seu bom comportamento, perdoa-lhe o resto da pena. Sairá daqui no sábado.
A criatura escutava, com a boca entreaberta, as mãos cruzadas contra o ventre. Via-se que as ideias lhe não entravam rapidamente na cabeça.
— No sábado sairá -daqui. Está livre.
Desta vez, compreendeu. Tremeram-lhe os lábios; as mãos ergueram-se num movimento de aflição:
— Mas tenho mesmo que me ir embora? Que vai ser de mim? Aqui tenho casa, comida, tudo. Não podia o senhor responder para lá que era melhor eu ficar onde estou?
O diretor fez-lhe ver que, realmente, ela não podia recusar a graça que lhe era. concedida; e anunciou-lho que, à saída, receberia certa quantia: dez ou doze francos.
A criatura retirou-se, chorando.
Perguntei o que ela havia feito. O diretor folheou um registro:
— 503. Servia em casa de uns lavradores. Furtou uma saia da patroa. Furto doméstico. A lei castiga severamente o furto doméstico...

A Missa das sombras (Conto), de Anatole France



A Missa das sombras, de Anatole France

Tradução publicada na revista "Fon-Fon", em sua edição de 18 de fevereiro de 1950. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Eis que o que o sacristão da igreja de Santa Eulália, em Neuville-d'Anmont me contou debaixo da latada do Cavalo-Branço, numa bela noite de verão, bebendo uma garrafa de velho vinho, à saúde de um morto muito abastado, que ele havia enterrado honrosamente naquela mesma manhã, sob um tecido cheio de belas lágrimas de prata.
— Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida, coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza absolutamente; jamais se preocupam com ela. Eu, que lhe estou falando, senhor, penetro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no caramanchão do Cavalo-Branco. E se, por acaso, encontro um espectro, não me inquieto absolutamente com isso, porque reflito que ele pode perfeitamente ir cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus. Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe contasse tudo o que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias para serem contadas, e meu pai, que todavia gostava de narrar histórias, não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia muitas vezes as mesmas narrativas e, ao que eu saiba, relatou bem umas cem vezes a aventura de Catarina Fontaine.
Catarina Fontaine era uma velha senhorita que ele se lembrava de ter visto em criança. Não me surpreenderia se ainda houvesse na região até uns três anciões que ainda se recordem de ter ouvido falar a seu respeito, porque ela era muito conhecida e considerada, embora pobre. Morava na esquina da rua das Freiras, na torrezinha que o senhor ainda pode ver e que depende de um velho palacete meio arruinado, que dá para o jardim das Ursulinas. Há nessa torrezinha figuras e inscrições meio apagadas. O falecido pároco de Santa Eulália, Levasseur, dizia aí estar escrito em latim que o "amor é mais forte que a morte". O que se refere, acrescentava, ao amor divino.
Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. O senhor sabe que as rendas de nossa região eram antigamente muito afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara, aos dezoito anos, o jovem cavaleiro d'Aumont-Clery, com quem noivara secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada porque Catarina Fontaine lembrava mais uma senhora, que uma operária, conservava sob seus cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, possuía um ar triste e que se lhe podia ver na mão uni desses anéis em que o ourives colocou duas mãozinhas unidas e que era costume outrora os noivos trocarem. O senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significava.
Catarina Fontaine vivia santamente. Frequentava as igrejas e, todas as manhãs, qualquer fosse o tempo, ia ouvir a missa de seis horas em Santa Eulália.
Ora, uma noite de dezembro, quando ela estava deitada em seu pequeno quarto, foi despertada pelo toque dos sinos; certa de estarem eles anunciando a primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu à rua, onde a noite era tão fechada que não se viam absolutamente as casas e que claridade alguma era perceptível no céu negro. E reinava tamanho silencio nessas trevas que nem mesmo um cão ladrava ao longe — que a pessoa sentia-se completamente separada do mundo dos vivos. Mas Catarina Foutaine que conhecia cada uma das pedras onde pisava e que podia ir à igreja de olhos fechados, alcançou sem dificuldade a esquina da rua das Freiras, com a rua da Paróquia, no ponto onde se ergue a casa de madeira que exibe uma árvore de Jessé, esculpida numa volumosa trave. Tendo alcançado esse local, ela viu que as portas da igreja estavam abertas e que deixavam sair uma grande claridade de círios. Continuou a caminhar e, tendo entrado, encontrou-se numa grande reunião que enchia a igreja. Ela, porém, não reconhecia nenhum dos presentes, e estava surpresa ao ver todas aquelas pessoas trajadas de veludo e de brocado, com plumas no chapéu e trazendo espada, à maneira dos tempos de outrora. Havia senhores que seguravam bengalas de castão de ouro, e damas com toucados de rendas presos com um pente em diadema. Cavaleiros de São Luiz davam a mão a essas senhoras que escondiam atrás do leque um rosto pintado, do qual só era visível a têmpora empoada e um sinal no canto dos olhos! E todos iam colocar-se em seu lugar sem o menor ruído, e não se ouviam, enquanto andavam, nem o som dos passos no lajedo, nem o roçar dos tecidos. As naves laterais enchiam-se de multidão de jovens artesãos, de casaco pardo, calções de fustão e meias azuis, que seguravam pela cintura raparigas lindíssimas, rosadas, que conservavam os olhos baixos. E, junto às pias de água benta, camponesas de saia vermelha e corpinho de atar, sentavam-se no chão com a tranquilidade dos animais domésticos, enquanto uns mocetões, de pé atrás delas, arregalavam os olhos rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas fisionomias silenciosas pareciam imobilizadas para sempre, no mesmo pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar costumeiro, Catarina Fontaine viu o sacerdote caminhar para o altar, precedido por dois acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os ajudantes. Começou a missa. Era uma silenciosa missa na qual não se ouvia absolutamente o som dos lábios que se agitavam, nem o rumor da sineta agitada inutilmente. Catarina Fontaine sentia-se sob o olhar e sob a influência de seu misterioso vizinho e, tendo olhado sem quase volver a cabeça, reconheceu o jovem cavaleiro d'Aumont-Clery, que a havia amado e que morrera fazia quarenta  e cinco anos. Reconheceu-o por um sinalzinho que ele possuía sob a orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios negros cm seu rosto. Vestia o traje de caça, vermelha, com alamares dourados, que ele usava no dia em que, tendo-a encontrado no bosque de São Leonardo, pedira-lhe de beber e roubara-lhe um beijo. Conservava a sua mocidade e seu bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de jovem lobo. Catarina disse-lhe baixinho:
— Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que uma jovem possui de mais precioso, Deus vos tenha em sua graça! Possa Ele me inspirar, finalmente, o pesar pelo pecado que cometi convosco; porque é verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, não me arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo aqui a esta silenciosa missa.
O cavaleiro d'Aumont-Clery respondeu com uma voz mais débil que um sopro e, não obstante, mais clara que o cristal:
— Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório que ofenderam a Deus, pecando a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seu pecado foi, a exemplo do nosso, sem maldade. Enquanto, separadas daquele que amavam sobre a terra, elas se purificam do fogo lustral do purgatório, padecem as dores da ausência, e para eles esse sofrimento é o mais cruel. São tão infelizes que um anjo do céu se apieda de seu martírio de amor. Com o consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite, o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde lhes é permitido assistir à missa das sombras, segurando-se pela mão. Esta é a verdade. Se me foi permitido  ver-te aqui, antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se realizou sem a permissão de Deus.
E Catarina Fontaine lhe respondeu:
— Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu finado senhor, em que te dava de beber na floresta.
Enquanto falavam assim, baixinho, um cônego muito idoso recolhia as esmolas e apresentava uma grande saIva de cobre aos presentes que aí deixavam cair sucessivamente moedas antigas, há muito tempo fora de circulação: escudos de seis libras, florins, ducados e ducadões, jacobos, nobres com a rosa, e as moedas caíam em silêncio. Quando a salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro de-positou um luís que não mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata. Depois, o velho cônego parou em frente a Catarina Fontaine que procurou em seu bolso, sem nele encontrar um real. Então, não desejando recusar sua dádiva, tirou do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera de sua morte, e atirou-o na concha de cobre. O anel de ouro, ao cair, ressoou como pesado badalo de sino e, ao ruído atroador que ele fez, o cavaleiro, o cônego,  oficiante, os acólitos, as damas, os demais cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e Catarina Fontaine ficou sozinha nas trevas.
Tendo concluído assim a sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu nestes termos:
— Contei-lhe esta história exatamente como a ouvi muitas vezes de meu pai  — creio que é verdadeira porque corresponde a tudo o que tenho observado das maneiras e dos costumes peculiares aos defuntos.
Convivi muito com os mortos desde minha infância e sei que eles costumam voltar a seus amores.
É por isso que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos tesouros que eles esconderam durante sua vida. Montam boa guarda à volta de seu ouro; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem, prejudicam-nos e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado na terra, pesquisando-se o sítio frequentado por um fantasma. Da mesma forma, os finados maridos vêm ator-mentar à noite suas mulheres casadas em segundas núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas depois de mortos do que o haviam feito em vida.
Esses são dignos de censura, porque, em boa justiça, os defuntos não deveriam ser ciumentos. Mas lhe estou contando o que tenho observado. Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viúva. Aliás, a história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:
Na manhã seguinte a essa noite extraordinária, Catarina Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E o suíço de Santa Eulália encontrou na salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro com duas mãos juntas. Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos outra garrafa de vinho?...

O Cristo do mar (Conto), de Anatole France



O Cristo do mar, de Anatole France

Tradução publicada na revista "Fon-Fon", em sua edição de 26 de dezembro de 1942. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Aquele ano afogaram-se no mar muitos moradores de Saint-Valery que saíram a pescar. As ondas fizeram dar à praia vários cadáveres e restos de embarcações perdidas. Durante nove dias não cessaram de desfilar féretros conduzidos à igreja, acompanhados por viúvas chorosas, cobertas de amplos mantos negros.
Os corpos de João Leonel e de seu filho Desidério foram também colocados na nave principal, sob a abóboda em que ambos haviam prendido, em oferenda à Virgem, um barco com todos os seus apetrechos.
— Jamais foram sepultados em recinto sagrado — disse o vigário de Saint-Valery — dois homens melhores que João Leonel e seu filho.
Um dia, dois jovens que viajam num bote, viram uma grande figura estendida sobre as ondas. Era a imagem de Jesus cristo, do tamanho de um homem, talhada em madeira bem pintada. Devia ser uma obra antiga. O Senhor flutuava nas águas com os braços em cruz. Ao vê-lo o senhor cura disse:
— Esta imagem do Salvador vem para nós com os braços abertos para abençoar a paróquia tão duramente castigada e anunciar sua piedade pelos desgraçados que expõem sua vida no mar.
O vigário deixou a imagem de Cristo estendida sobre o altar-mor e encomendou uma bela cruz de carvalho. Nela cravaram a imagem e colocaram-no na frente principal da nave. Então puderam observar que seus olhos resplandeciam de misericórdia e pareciam umedecidos por lágrimas de compaixão.
Quando, na manhã seguinte, o vigário entrou para dizer missa, surpreendeu-se ao ver a cruz vazia e o Cristo estendido sobre o altar.
Logo que acabou de celebrar o Santo Sacrifício chamou o carpinteiro. Interrogou o sacristão e convenceu-se de que ninguém tocara na imagem.
Teve o pressentimento de um milagre. No domingo seguinte falou do púlpito aos seus fiéis e lhes rogou que contribuíssem com o que pudessem para construir outra cruz melhor e mais digna de acolher o Salvador. Os pobre pescadores de Saint-Valery deram todo o dinheiro que tinham e AS viúvas entregaram seus presentes de bodas. Assim pôde o vigário encomendar em Abbeville uma cruz muito bem trabalhada e que tinha em letras de ouro a Inscrição: "INRI". Dois meses depois colocaram-na no lugar destinado. Mas, Jesus abandonou-a, como a outra, e, de novo, durante a noite, foi estender-se sobre o altar-mor.
Ao vê-lo, no dia seguinte, o senhor cura caiu de joelhos e esteve rezando muito tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a paróquia. O padre recebeu de todas as partes dinheiro e joias. Com todas essas riquezas, um afamado artífice da rua São Sulpício fez uma cruz de ouro e pedras preciosas, Inaugurada na igreja de Saint-Valery com grande pompa e solenidade. Mas Aquele que não recusou a cruz da dor, escapuliu-se daquela cruz tão rica e foi postar-se novamente sobre a branca toalha do altar:
E, há mais de dois anos ali estava, ninguém se atrevendo a tocá-lo, quando um rapazinho disse ao padre que tinha encontrado na areia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.
Pedro, porém, era um pobre de espírito, que, não tendo inteligência bastante para ganhar a vida, vivia da caridade pública.
O vigário, que não deixava de pensar no mistério do Cristo, ouviu o pobre rapaz e fez-se conduzir ao lugar onde ele dizia estar o achado. Eram duas grandes tábuas com alguns cravos que deveriam ter flutuado pelo mar.
Ao verem aquilo, o sacristão e demais companheiros começaram a troçar do pobre tolo que confundia as gastas madeiras de um barco com a cruz do Senhor. Mas, o vigário proibiu aquelas pilhérias. Meditara e rezara muito desde o aparecimento do Cristo do Mar e sua alma começava a entrever o mistério da infinita caridade. Ajoelhou-se na areia. E logo ordenou que conduzissem as tábuas á igreja.
Quando lá chegaram, o senhor vigário colocou o Cristo nas tábuas da barca e ele próprio pregou-as com pregos que o mar já havia enferrujado. O Cristo do Mar não a abandonou nunca. Quis permanecer encravado naquelas madeiras entre as quais morreram alguns homens invocando seu Nome e o Nome de sua Divina Mãe.
E ali, entreabrindo seus lábios santos, numa expressão de dor, parece dizer: Minha cruz foi feita com todos os sofrimentos dos homens, pois eu sou o Deus dos pobres e dos desgraçados!

sábado, 24 de setembro de 2016

A dama do leque (Conto), de Anatole France



A dama do leque, de Anatole France

Tradução publicada na revista "Fon-Fon", no ano de 1942. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Tchonang-Tsen, nascido em Sung, era letrado que levava sua sabedoria ao desprendimento mesmo de todas as coisas terrenas.
Uma manha, quando errava, à aventura, pela encosta florida da montanha, viu-se, com surpresa no meio de um cemitério, onde, segundo os costumes do país, os mortos repousavam sob montículos de terra revolvida. O sábio meditou sobre o destino dos homens.
— Ah! — exclamou. — Eis aqui a encruzilhada onde terminam todos os caminhos da vida. Quando, uma vez, se tomou lugar na morada dos mortos, já não se pode volver à luz.
Enquanto assim divagava seu pensamento através das tumbas, ele, de repente, se achou ao lado de uma jovem senhora vestida de luto, quer dizer — trajando um amplo vestido branco de fazenda ordinária e sem costura. Sentada próximo a um túmulo, ela agitava um leque branco sobre a terra fresca de um montículo funerário.
Curioso por conhecer os motivos de um ato tão original, Tchomang-Tsen saudou-a amavelmente e perguntou-lhe:
— Permite-me, senhora, perguntar-lhe que pessoa repousa tumba e por que se dá ao exaustivo trabalho de abanar a terra que a cobre?
A dama continuou a agitar o leque. Ruborizou-se, baixou a cabeça e murmurou algumas palavras que o sábio não pôde ouvir. E repetiu a pergunta por várias, mas em vão.
***
Tchonang-Tsen afastou-se com sentimento. Achava-se inclinado a sondar móveis das ações humanas e particularmente as das mulheres. Estas lhe inspiravam uma curiosidade brincalhona, mas muito viva e sagaz... Prosseguiu lentamente no seu passeio, voltando a cabeça para ver ainda o leque que agitava o ar como a asa de uma e mariposa, quando, de súbito, uma velha a que não tinha visto, até então, lhe fez sinal para  a seguisse.
— Escutei-o fazer uma pergunta à minha ama e à qual ela não respondeu. Mas eu satisfarei a sua curiosidade.
Tchonang-Tsen tirou uma moeda da carteira e a velha falou assim:
— Esta senhora, é a senhora Lu, viúva de um letrado chamado Tao, que morreu ha quinze dias, depois de longa enfermidade, e aquela tumba é de seu marido. Ambos amavam-se carinhosamente. O senhor Tão não podia conformar-se em deixá-la só no mundo na flor da idade e em pleno esplendor de beleza. Essa ideia era-lhe intolerável. A senhora Lu chorava, à cabeceira da cama. Tomava os deuses como testemunha para assegurar-lhe que não lhe sobreviveria.
Mas o sr. Tão lhe disse:
— Senhora, não faça esse juramento.
— Ao menos — replicou ela — se estou condenada pelos gênios a continuar a viver, saiba que não consentirei jamais em ser a mulher de qualquer outro homem e que não terei mais que um esposo como não tenho mais que uma alma.
Mas o senhor Tão lhe disse:
— Senhora, não faça esse juramento.
— Oh, senhor Tão, senhor Tão! Deixe-me ao menos jurar que durante cinco anos completos não tornarei a casar-me.
— Senhora, não faça esse juramento — disse o moribundo. — Jure somente que guardara fidelidade à minha memória apenas enquanto a terra não tiver secado sobre o meu túmulo.
A senhora Lu jurou solenemente e o bom do senhor Tão cerrou os olhos para não mais os abrir. O desespero da senhora Lu foi superior a quanto se possa imaginar. Lágrimas ardentes devoravam seus olhos. Com suas unhas pontiagudas lacerava suas faces de porcelana. Mas, tudo logo estancou. Três dias depois a tristeza da senhora Lu tornava se mais humana. Soube que um jovem discípulo do senhor Tão desejava apresentar-lhe seus sentimentos de pesar. Julgou, com razão, que não poderia escusar-se de recebê-lo. E recebeu-o suspirando. Esse moço era muito elegante e tinha bela figura. Falou-lhe um pouco do senhor Tao e muito dela. Disse-lhe que era encantadora e que muito a amava. Prometeu voltar. Esperando-o, a senhora Lu, sentada à beira da tumba de seu marido, onde o senhor a viu, passa todo o dia a fazer secar a terra do sepulcro com o vento de seu leque.
 ***
Quando a velha terminou seu relato, o sábio Tchonang-Tsen pensou:
— A mocidade é curta. Alem do mais a senhora Lu e uma pessoa honesta que não quer trair seu juramento. É um exemplo para multas mulheres...

Esfinge sem segredo (Conto), de Oscar Wilde



 Esfinge sem segredo, de Oscar Wilde

Tradução publicada na "Revista da Semana", em sua edição de 22 de abril de 1945. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Achava-me, uma tarde, sentado no terraço do café da Paz, contemplando o luxo e as intimidades da vida parisiense.
Enquanto tomava um vermute entretinha-me a estudar, com curiosidade, aquele estranho desfile do orgulho e da miséria, quando ouvi que me chamavam por meu nome.
Voltei-me e deparei com lord Murchison.
Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivemos juntos no colégio, e isto fazia dez anos.
Assim é que me encantou aquele encontro.
Abraçamo-nos afetuosamente.
Em Oxford tínhamos sido muito amigos.
Eu o estimava muitíssimo.
Era tão bom, tão comunicativo, tão cavalheiresco! Dizíamos frequentemente, referindo-nos a ele, que seria o melhor rapaz do mundo sem a sua mania de dizer sempre a verdade; mas, realmente, creio que o admirávamos mais ainda pela sua franqueza.
Encontrei-o um pouco mudado.
Parecia inquieto, perturbado. Adivinhei que aquele estado não provinha do moderno ceticismo, porque Murchison era um dos conservadores mais intransigíveis, e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza que na Câmara dos Pares.
Deduzi que andava rabo de saia em tudo aquilo, e perguntei-lhe se tinha casado já.
— Ainda não compreendo bem as mulheres — respondeu.
— Meu caro Geraldo — disse-lhe eu — as mulheres foram feitas para ser amadas, e não para ser compreendidas.
— Eu não poderia amar sem ter absoluta confiança — replicou.
— Parece-me que você tem um mistério na vida, Geraldo. Conte-me, conte-me tudo.
— Vamos dar um passeio de carro — me respondeu. — Aqui há muita gente... Não, esse carro amarelo, não; qualquer um de outra cor. Olhe, esse, que é verde-escuro, nos convém.
E alguns minutos depois descíamos a trote pelo boulevard em direção à Madalena.
— Aonde vamos? — perguntei.
— Oh! Aonde você quiser; ao  restaurante do parque. Cearemos lá e você me contará coisas da sua vida.
— Primeiro quero ouvi-lo.
Conte-me seu mistério.
Tirou do bolso um porta-cartões de tafilete com fecho de prata e o estendeu a mim.
— Abre-o.
 Dentro havia um retrato de mulher.
Era alta e esbelta, de aspecto singular, com seus grandes olhos misteriosos e sua cabeleira esvoaçante. Tinha fisionomia magnetizada e estava envolta por luxuosas peles.
— Que diz você dessa cara?  — me perguntou. — Acaso inspira confiança?
Examinei-a atentamente.
Deu-me a impressão duma criatura que tem um segredo; porém o que não podia dizer era se aquele segredo era bom ou mau.
Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos; era realmente uma beleza psicológica, mais que plástica, e ademais o velado sorriso que flutuava sobre seus lábios era demasiado sutil para possuir verdadeiro encanto.
— Quê? — exclamou impaciente. — Que diz você?
— Que é a Gioconda de negro  — respondi. — Conte-me tudo o que a ela se refira.
— Agora não; depois da ceia.
E pusemos-nos a falar de outra coisa. Quando o garçom trouxe o café e os cigarros, lembrei a Geraldo sua promessa.
Levantou-se de sua cadeira e passeou durante alguns instantes pela sala.
Depois se acomodou numa poltrona e me contou a seguinte história:
— Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu por Road-Street.
Havia uma grande aglomeração de carros e o trânsito estava completamente impedido.
Encostado à calçada estava um " brougham" amarelo, que, não sei por que atraiu mil atenção.
Ao passar por ele vi assomar, para espiar, a cara que há pouco mostrei a você.
Fascinou-me instantaneamente.
Durante toda a noite não pensei em outra coisa, o mesmo acontecendo no dia seguinte.
Subi e desci várias vezes por aquela rua, ao longo daquela maldita fila, lançando um olhar furtivo dentro de todos os carros, esperando o " brougham" amarelo, mas não consegui descobrir minha "bela desconhecida", de modo que acabei por me convencer de que só a tinha visto em sonhos.
Uns oito dias depois ceei com madame de Rastail.
A ceia estava marcada para as oito, mas eram oito e meia e ainda estávamos no salão.
Súbito, o criado abriu a porta e anunciou: Lady Alroy.
Era a mulher a quem eu procurava.
Entrou andando muito devagar. Parecia um raio de luar com seu vestido gris, e tive imensa vontade de que me rogassem levá-la à mesa.
Quando nos sentamos, disse com a maior inocência do mundo:
— Parece-me, lady Alroy, tê-la visto ao passar por Road-Street há algum tempo.
Pôs-se muito pálida e disse-me em voz baixa:
— Não fale tão alto, suplico-lhe; poderiam ouvir-nos.
Senti-me infelicíssimo por ter tido tão mau começo, e me envolvi cegamente numa dissertação sobre o teatro francês.
Ela falava muito pouco, e sempre com a mesma voz baixa e musical. Dir-se-ia que tinha medo de ser ouvida por alguém.
Sentia-me apaixonadamente, estupidamente enamorado, e a indefinível atmosfera de mistério que a envolvia excitava minha curiosidade até mais não poder.
Quando se ia embora, o que fez quase em seguida à refeição, perguntei-lhe se podia visitá-la.
Vacilou um momento, olhou em redor de si para ver se havia alguém perto de nós, e depois me disse:
— Sim; amanhã, às cinco e quinze.
Pedi a madame de Rastail que me falasse dela, porém o único que pôde dizer-me foi que aquela senhora era viúva e que possuía uma linda casa em Park Lane.
E como naquele momento um palerma da classe dos cientistas iniciou uma dissertação acerca das viúvas, para manter a tese da supervivência das mais inte-ligentes, despedi-me e regressei, a minha casa.
No dia seguinte, à hora combinada em ponto, dirigi-me a Park Lane, porém o criado me disse que lady Alroy acabava de sair havia um instante.
Muito desiludido e intrigadíssimo, fui até o clube, e depois de muitas reflexões lhe escrevi uma carta, rogando me permitisse confiar em que outra vez seria mais afortunado.
A resposta demorou vários dias a chegar, mas por fim recebi um cartãozinho anunciando-me que estaria em sua casa no domingo, às quatro, cartão no qual havia esta extraordinária advertência:
"Não me escreva mais, par favor; explicar-lhe-ei o motivo quando nos virmos."
No domingo esteve encantadora, porém, ao despedir-me, disse-me que se alguma vez tornasse a escrever-lhe, o fizesse com estas indicações: "Mr. Wittaker, editor, Green Street, para entregar à senhora Knox".
— Razões particulares — ajuntou — me impedem de receber qualquer carta em minha própria casa.
Durante toda a temporada vi-a com frequência e sem que jamais deixasse de rodeá-la aquela, atmosfera de mistério.
Algumas vezes pensei que estaria em poder de algum homem, mas   parecia   tão   dificilmente atingível, que tive de abandonar essa hipótese.
Realmente, era-me quase impossível chegar a uma conclusão qualquer, pois aquela mulher se parecia a esses estranhos cristais expostos nos museus e que são transparentes umas vezes e embaciados outras.
Por fim, decidi-me a pedir sua mão; atacavam-me os nervos e cansavam-me as incessantes precauções que me impunha para tornar misteriosas minhas visitas e as poucas cartas que lhe dirigia.
Escrevi-lhe para a livraria, perguntando se podia receber-me na segunda-feira seguinte às seis horas.
Respondeu-me que sim, e aquilo me transportou de prazer até ao sétimo céu.
Estava loucamente apaixonado por ela, apesar do mistério, segundo acreditei então; porém, em realidade, eu agora o reconheço, por aquele próprio mistério.
Não, eu não amava nela a mulher.
O que me perturbava, o que me fazia perder a cabeça, era aquele mistério.
Por que o acaso me fez encontrar a pista?
— Então você tudo descobriu? — exclamei.
— Receio-o muito. Avalie por si mesmo. .
Chegada a segunda-feira, almocei com meu tio, e por volta das quatro horas estava em Marylebore Road.
Meu tio, como você sabe, mora em Regents Park.
Pretendia ir ao Piccadilly, e tomei o caminho mais curto, passando por uma infinidade de vielas de aspecto miserável.
Súbito vi frente a mim lady Alroy, embuçada com um véu espesso e andando muito depressa.
Quando chegou à última casa da rua subiu os degraus, tirou de seu bolso uma chave e entrou.
— Cá está o mistério — disse comigo mesmo, avançando rapidamente para ver o número e o aspecto da casa.
No último degrau havia um lenço que ela deixou cair; apanhei-o, guardando-o no bolso.
Então me pus a pensar o que deveria fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la; tomei um carro e fui para o clube.
Às seis apresentei-me em sua casa.
Encontrei-a estendida num sofá, em traje de chá, isto e, com vestido de fio de prata amarrado com uns broches dessas estranhas pedras lunares que usava sempre.
Esteve muito afável comigo.
— Tenho imenso prazer em vê-lo — disse-me. — Não saí em todo o dia.
Olhei-a estupefato, e tirando de meu bolso o lenço, entreguei-lho.
— Caiu-lhe esta tarde em Cummor Street, lady Alroy — disse-lhe com muita naturalidade.
Dirigiu-me um olhar de terror, mas não fez o menor gesto para tomar o lenço. 
__ Que ia fazer ali? — perguntei-lhe.
— Que direito tem o senhor de me interrogar?
— O direito de um homem que a ama — repliquei. — Vim para lhe pedir que seja minha esposa.
Escondeu o rosto entre as mãos, desfeita em pranto.
— Tem que me responder — insisti.
Levantou-se, e olhando-me frente a frente respondeu:
— Lord Murchison, nada tenho a dizer-lhe.
— Foi lá para se entrevistar com algum homem — exclamei.
— Esse é seu segredo.
Empalideceu atrozmente e contestou:
— Não fui ver pessoa alguma.
— Por que não me diz a verdade? — exclamei.
— Mas se já lha disse! — replicou.          
Eu estava louco, angustiado. Não sei o que lhe disse, mas deve ter sido algo de terrível.
Por fim, precipitei-me fora de sua casa. Escreveu-me no dia seguinte, mas devolvi-lhe a carta sem abrir. Parti para a Noruega com Alan Colville.
Regressei ao cabo dum mês, e a primeira coisa que vi no "Morning Post" foi a notícia da morte de lady Alroy.
Apanhou um resfriado ao sair da ópera, falecendo cinco dias após, de congestão pulmonar.
Fechei-me em casa e não quis ver ninguém.
Amei-a tanto, amava-a ainda tão perdidamente! Oh, Deus meu, como amei essa mulher!
— E você foi a essa rua, a essa casa? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu. — Um dia dirigi-me a Cummor Street. Não pude deixar de fazê-lo. Estava atormentado pela dúvida. Bati, e uma mulher de bom aspecto me abriu a porta.
Perguntei-lhe se tinha algum quarto para alugar.
— Ah, cavalheiro! — respondeu. — Creio que há um quarto para alugar, porém não vi mais a senhora que o tinha alugado há três meses, e embora os recibos continuem se acumulando é-me impossível alugá-lo.
— Refere-se a esta senhora? — perguntei-lhe, mostrando a fotografia.
— Sim, é ela; estou bem certa — exclamou.  — Quando voltará?
— Esta senhora morreu — respondi. 
— Oxalá não seja verdade! — disse a mulherzinha. — Era a melhor de minhas inquilinas. Pagava-me três guinéus por semana só para vir aqui de vez em quando.
— Recebia alguém aqui? — perguntei.
A mulher assegurou-me que não, que ia sempre sozinha e que não era vista com ninguém.
— Então, que diabo vinha fazer aqui? — exclamei.
— Pois, simplesmente para ficar na sala, cavalheiro. Lia livros, e alguns dias tomava chá — respondeu-me a mulher.
Eu não sabia que dizer. Dei-lhe um "soberano" e afastei-me.
— E agora, diga-me você, que significava tudo aquilo? Você não pensará que a mulher me disse a verdade.
— Pois eu creio que sim.
— Então, que ia lady Alroy fazer naquela casa?
— Meu caro Geraldo — respondi-lhe — lady Alroy era simplesmente uma mulher atacada da mania do mistério. Alugava esse quarto pelo prazer de ir a ele de véu posto e imaginar que era uma heroína. Sentia uma louca atração pelo mistério, embora fosse, simplesmente, uma esfinge sem segredo.
— Assim opina sinceramente?
— Estou convencido disso — respondi.
Lord Murchison tirou o porta-cartões de tafilete, abriu-o e ficou observando a fotografia.
— Pois eu continuo indagando a mim mesmo — disse finalmente.