domingo, 3 de outubro de 2021

A mula-sem-cabeça (Conto), de Annibal Mascarenhas (Viriato Padilha)


 A mula-sem-cabeça 

No mundo estranho e singularmente fantástico do qual nos ocupamos, a mula-sem-cabeça tem lugar proeminente. Não há quem o ignore, por menos versado que seja em matéria de crendice popular.

A mula-sem-cabeça, assim como a bruxa e o lobisomem, não é uma verdadeira alma do outro mundo ou espírito sobrenatural, e sim uma criatura humana, dotada das mesmas qualidades das outras mas que por determinada circunstância adquiriu propriedades fantásticas e atributos que não se encontram no resto da humanidade.

A crença na mula-sem-cabeça foi importada de Portugal: É geralmente a mulher que mantém relação amorosa com padre, o qual, pelo juramento de castidade que faz ao receber ordem, chama sobre aquela que consigo coabita a maldição divina, pois o caráter de mula-sem-cabeça é o dum fadário isto é, a degradação momentânea e periódica do ser humano em vil animal.

Entre as muitas histórias de mulas-sem-cabeça que sabemos, todas assentando sobre a mesma base da punição da mulher por seu amor pecaminoso ao padre, e com mais ou menos variantes, contaremos uma que teve como teatro o velho arraial do Infeccionado, em Minas Gerais.

É uma história singela mas emocionante, que não deixa de ter um grande fundo de verdade, bem visível a qualquer inteligência.

***

João era um caipira honesto, muito trabalhador e comedido. Nunca o viram escorado ao balcão de venda, fugia das lôbregas mesas do marimbo e do pacau e evitava os cateretês da vizinhança.

Homem de foice, machado e enxada, na extensão mais ampla da frase, o pequeno sítio onde vivia, com sua mãe, já velhinha, era cuidado com esmero. E assim não nadava na abundância mas estava livre de penúria.

O chiqueiro e o poleiro estavam bem guarnecidos e a roça se dilatava em fartura de toda sorte.

Além disso João era um rapaz forte e sadio, sem pretensão a grandeza e glória futura, sob o ponto de vista do saber humano, se satisfazendo com os escassos conhecimentos empíricos adquiridos na labuta da lavoura e da criação animal doméstica.

Afilhado de estimação de coronel Fonsecão, chefe político respeitado, que sempre estava com o governo, e, por conseguinte, nunca declinando a vara do poder local, nas quadras de recrutamento, que são as mais escabrosas pro matuto, nunca se metiam com ele, e assim João deslizava placidamente na corrente da existência sem sofrer os esbarros ou os enovelantes redemoinhos.

***

Colocado em tão favoráveis condições, nosso caipira podia ser um homem feliz. Mas João era moço, contava 23 anos apenas, e uma circunstância impedia que sua ventura fosse completa.

Não é preciso dizer ao leitor que, quando se está nessa idade, toda ardência e desejos vivos, qualquer homem é um Colombo a ansiar os mundos novos do amor, sonhando dia e noite com os horizontes fagueiros da ternura feminina. E na perseguição a essa quimera, muitas vezes se veste a alma de espinho ou ao menos se perturba nossa placidez de espírito.

Assim que fez 23 anos teve que se submeter a essa lei natural. Então começou a se sentir isolado e muitas vezes se esquecia, debruçado no cabo da enxada ou com o machado seguro à entalha cavada na fronde do jequitibá, e ali se perdia em vaga cisma, seguindo com o pensamento uma visão agradável, que se aprazia em o visitar em tal hora. E depois de a ver desaparecer, continuava o trabalho, mas um tanto esmorecido, como que se lhe faltasse o alento essencial a sua atividade.

É que João se sentia homem, forte pra vida e pro amor, disposto à rudeza do trabalho material e apto pra suportar os encargos da família, essa trouxa pesada, como alguns dizem. Então por que não procurava uma companheira, bonita, como sonhava seu coração, boa como mereciam seu caráter e qualidades? Não o tinha Antonico, um criançola, que nem apresentava barba? Não se casara Juca, seu irmão colaço e filho de coronel Fonsecão? E até Anselmo, um pobre-diabo sem eira nem beira, não se atrevera a pedir em casamento a filha de Xico Andorinha?

Então por que não se casava? Estava na idade, e tinha, graças-a-deus, com que dar de comer à mulher e filhos. Suas terras eram próprias, uma boa casinha, toda coberta de bicuíba e bem entaipada, lavoura convenientemente tratada e rendosa, criação de terreiro abundante, e dois cavalos de sela no pasto.

Depois de matutar alguns meses essas ideias, nosso excelente João chegou à conclusão de que o casamento era pra si coisa facílima de cometer, e ao mesmo tempo inevitável. Resolveu, pois, o realizar, quanto antes, e, depois, que Deus o ajudasse! Se os homens não se casassem o que seria do mundo?

***

Quanto à escolha da mulher, era com que João não podia se embaraçar. Pois com quem se casaria senão com Ritinha, a filha de mestre Manuel Teodoro, o marceneiro do Infeccionado? Não estava moça feita e bonita, como nenhuma outra em todo o arraial e lavouras da vizinhança? Não podia ser com outra, estava claro.

Se estimavam desde meninos e quando brincavam o "tempo-será" e o "chicote-queimado", já se sentiam vivamente mutuamente atraídos. Fora sua companheira predileta nas folias infantis, o seria igualmente na fase da responsabilidade.

No último São João tiraram sortes e estas lhe prognosticaram seu enlace. De seu amor estava certo. Não havia, pois, que hesitar. Seria Ritinha sua mulher. E tendo assentado nesse projeto, a pediu em casamento, sendo recebido jubilosamente, tanto pela moça quanto pelo velho Manuel Teodoro.

Se marcou o noivado ao dia de Reis, e logo nas duas casas se começou a trabalhar ativamente nos preparativos pra importante solenidade, pois, embora pobre, João desejava que a festa se fizesse com a decência compatível com o crédito que gozava.

***

Faltavam apenas algumas semanas pro dia de Reis, pelo qual nosso caipira suspirava, contando dia após dia, quando um acontecimento determinou alteração completa no teor das coisas estabelecidas.

Morrera o velho vigário do Infeccionado, bom homem, geralmente estimado na freguesia e íntimo amigo de Manuel Teodoro, pai de Ritinha. Era Manuel Teodoro quem armava a igreja, nos dias festivos, e Ritinha quem cuidava da lavagem e engomação das toalhas do altar e das sobrepelizes, serviço com o qual granjeava uns cobrinhos, tudo isso por intervenção do velho vigário, que as más línguas do lugar achavam um tanto parecido com a filha de Manuel Teodoro, pondo assim em grave risco a reputação da esposa do marceneiro, a veneranda dona Tomázia, morta havia tempo.

Pra substituir o falecido na vicariato do Infeccionado, nomeara o bispo padre Salústio, que, quinze dias depois do funeral de seu antecessor chegou à freguesia. Era moço, ainda com o cheiro de seminário, mineiro de nascimento e de família opulenta do Grão-Mogol. Tinha feições regulares, pele macia e muito branca, olhos negros e cheios de vivacidade, bela estatura e maneiras afáveis. Pela influência que gozava sua família junto ao bispado, se isentara da condição pouco invejável de coadjutor. E mal recebera ordem conquistara a vicariato do Infeccionado, aliás bastante rendosa.

A mudança de vigário no velho arraial do Infeccionado pode parecer insignificante ao leitor. No entanto é sobre si que se estabelece o enredo desta narrativa singela, e por isso tem alta importância neste momento.

Foi padre Salústio, ou antes, foram seus olhos petulantes, os lábios bem desenhados na face, as mãos finas e pequenas, e todas as outras graças físicas, que criaram o pequeno romance do qual nos ocupamos, aliás verídica história, autenticada pelo testemunho insuspeito do ancião que ma referiu, João André, antigo tropeiro das estradas mineiras, do tempo ainda em que se batia carga em Magé e no porto da Estrela, outrora importantes centros comerciais, hoje tristes e desoladas taperas.

Mas passemos a diante.

***

Três dias depois que padre Salústio se estabelecera no Infeccionado, recebeu a visita da graciosa Ritinha, filha do velho marceneiro Manuel Teodoro e noiva de nosso amigo João.

Ritinha era moça realmente formosa, e isto nos faz crer que, embora escasso de instrução, não era despido de gosto o afilhado de coronel Fonsecão. De estatura regular, era enxuta de carne e de formas corretas, seio farto sem excesso, cintura delgada, anca fornida, braços bem dispostos, mãos e pés pequenos. Os olhos eram pardos, poucos brilhantes mas doces, os lábios cheios, o nariz bem feito, os dentes brancos e pequenos, a pele látea e tudo isso se encaixilhando num oval suave, coroado por uma soberba cabeleira acastanhada, abundante, em fios tênues, de delicadeza e brilho de seda frouxa.

Ritinha vinha em nome do pai cumprimentar o senhor vigário, e ao mesmo tempo lhe fazer entrega dumas tantas toalhas bordadas de altar que ficaram em seu poder ao falecer o antigo padre.

Padre Salústio agradeceu muito a fineza da jovem, a fez se sentar e entrou com ela em demorada conversação sobre a família dela e a do rapaz com o qual se casaria, bem como acerca de outros assuntos mais relativos aos fiéis no Infeccionado, e padecimentos e morte do padre velho, acabando por lhe pedir que continuasse com o encargo de lavar e engomar os panos da igreja, pois não convinha desviar tão preciosos artigos a outras mãos se atendendo à facilidade com que o geral das lavadeiras lhes davam descaminho.

Desde o primeiro momento Salústio ficou deslumbrado com a beleza da moça, pois, embora sacerdote e prezo à castidade por juramento solene, era muito moço e de temperamento bastante vivo, pra não se impressionar com a plástica soberba que tinha diante de si, mais realçada por uma candura combinada com languidez que o perderia.

Ritinha se sentia bem conversando com o jovem sacerdote. Não a importunavam as perguntas um tanto indiscretas e admirava a graça do falar e dos gestos, a elegância do porte e a doçura do olhar.

Se sentiram, pois, talvez, sem o quererem, reciprocamente inclinados. Quando padre Salústio ao se despedir lhe apertou demoradamente as mãos e a envolveu num longo olhar sensual, que parecia a enredar na língua dum fogo estranho, Ritinha se sentiu enleada, enrubesceu, tremeu e se retirou apressadamente sem saber o que responder.

***

Durante todo o dia em que teve lugar esta cena Ritinha não arredou padre Salústio um só momento da imaginação. Rememorava mentalmente uma a uma todas as palavras, se lembrava com íntimo prazer dos cumprimentos que dirigira a sua beleza e procurava reviver na memória todos os traços fisionômicos que achava duma regularidade e delicadeza superiores. Sobretudo causara vivíssima impressão o sorriso de padre Salústio, tão cheio de encanto e fascínio.

Falou a mestre Manuel Teodoro com muito calor do novo vigário. Na noite, vindo a visitar João, se sentiu mal sem saber por quê. Como se a presença do rapaz lhe perturbasse o seguimento duma ideia cara. Em primeira vez achou o noivo inferior, grosseiro demais no falar e nos modos, anguloso de feições, desajeitado de formas. Lhe incomodaram as atenções carinhosas do pobre rapaz e lhe causaram enfado seus projetos. Pra o evitar pretextou uma enxaqueca súbita e se recolheu logo a seu quarto. Se deitou mas não adormeceu. Só lhe chegou o sono quando os galos começaram a cantar, pois no cérebro lhe rolavam com persistência os mesmos pensamentos, pensamentos nos quais padre Salústio, com seu encantador sorriso, figurava sempre.

***

O novo vigário do Infeccionado se achou também muitas vezes a cismar na formosa engomadeira de suas sobrepelizes. Lhe achava um tom distinto, maneiras superiores às das mulheres vulgares, voz singularmente cariciosa e principalmente bela como uma tentação.

Saído havia pouco do seminário, padre Salústio estava ainda puro de inclinação amorosa e até então julgava coisa fácil guardar o preceito da castidade, onde tantos sacerdotes naufragam. Se empossando em seu vicariato, trazia o propósito de formar uma reputação de homem pio.

Assim traçando a linha de sua conduta futura, padre Salústio não consultara as exigências imperiosas de sua idade e de seu temperamento ardente de mineiro. O resultado foi, logo ao começar a carreira eclesiástica, se sentir fraco pra lutar contra a paixão à mulher, a mais irresistível de todas.

Durante todo dia e noite seguintes a sua entrevista com a filha do marceneiro, sentia a todo momento se voltar o espírito à gentil criatura que lhe deixou o aposento embebido com fragrância entontecedora. E ao adormecer pensava ainda em sua basta cabeleira acastanhada, sedosa e cheia, onde tão grato lhe seria repousar a fronte a escaldar de desejos lúbricos, embora se esforçasse pra os afugentar.

***

Padre Salústio dera a Ritinha uma sobrepeliz pra passar a ferro, pedindo urgência, talvez por desejo de a ver mais depressa.

Era provável que a moça assim o compreendesse também, pois logo no outro dia batia à porta da casa do padre Salústio, levando o paramento, cuidadosamente dobrado e entrouxado em fina toalha de renda.

Ritinha estava ataviada com mais esmero que no dia antecedente. Se percebia que tivera a pretensão de fazer sobressair seus atrativos. Porém a fisionomia conservava sinais indeléveis da agitação que na véspera lhe conturbaram o espírito.

Padre Salústio sentiu pular o coração no peito quando ela, sempre donairosa porém pudica, assomou à porta. Correu ao encontro, a chamou a junto a si, a fez se sentar em um canapé e lhe tomando as mãos entre as suas, com a fronte quase roçando na sedosa cabeleira acastanhada da moça, um tanto trêmulo, febril, como ébrio pelo perfume daquela carne fresca, sadia e bela.

Escusamos descer a minudência dos detalhes desse colóquio cujo desenlace é visível. Ambos moços, ardentes, apaixonados e mutuamente inclinados irresistivelmente, não era possível que vencessem a atração. Depois de meia hora de palestra caíram nos braços um do outro. Ele ardente, impetuoso, brutal. Ela nervosa, envergonhada, chorosa, porém se abandonando sem resistência, intimamente satisfeita pelo arrojo do companheiro.

Doravante Ritinha se transformou em amante do padre Salústio.

***

Embora recatassem muito as relações amorosas, foram percebidas no fim dalguns dias pelo sacristão, e esse bom homem, sempre pedindo o mais rigoroso segredo, as revelou aos amigos. Logo todo o arraial era sabedor do escandaloso evento.

Já Ritinha notava que as amigas e antigas companheiras de escola pública e de folguedo começavam à evitar, e que, quando passava na rua, percebia dentro das lojas risinhos abafados nos caixeiros e cochichos que lhe pareciam se referir a seu amor com o padre. Mas João continuava alheio aos ditérios do arraial, e, todo engolfado em sua paixão e na completa ignorância dos fatos, suspirava continuamente pelo dia venturoso em que veria se estender no leito de jacarandá-rosa de seu noivado, obra-prima de mestre Manuel Teodoro, o delicioso corpo de Ritinha, de brancura fascinante de leite e todo rescendente a água-de-colônia.

Essa situação feliz não tardaria a desaparecer.

***

Numa tarde de sexta-feira, João estava sossegadamente em casa, amilhando seus dois cavalos de sela, um dos quais, alazão, destinava a montaria de sua dileta Ritinha, quando apareceu uma preta-velha muito conhecida em todo o Infeccionado, tia Rosa, que na função de parteira entendida, reunia a de rezadeira de quebranto, mau-olhado, espinhela caída, cobreiro e outros males. Tia Rosa se indispusera com Ritinha por esta lhe atribuir o furto dum pano de altar, e sua ida à casa de João só tinha o fim de esclarecer sobre a conduta imoral de sua noiva.

João a recebeu como pessoa de casa e depois de trocar algumas frases banais disse, em tom de troça, ao mesmo tempo que continuava a tirar os carrapichos da crina do alazão:

— Dentro de um ano, tia Rosa, vancê tem um servicinho nesta tua casa e algumas patacas a ganhar.

— Antes fosse já. Bem precisada ando dalguns cobres pra pagar uma promessa de 3 libras de cera que devo a nossa senhora dos Remédios. Mas o tempo anda tão ruim!, nhô Joãozinho. Então, haverá alguma novidade cá em casa, daqui a um ano?

— Pois vancê não sabe que estou de casamento ajustado pro dia de Reis? Ora, já vê que daqui a um ano é provável já haver gente nova que te dará algum pequeno incômodo.

Tia Rosa sabia sobre o casamento de João mas, fingindo ignorar, fez um gesto de admiração e exclamou:

— O que é que vancê está me dizendo? Pois isso é sério? Ora, não brinque com tua preta-velha, nhonhô.

— Estou falando sério, tia Rosa. Me casarei no dia de Reis com Ritinha, a filha de Manuel Teodoro, do arraial.

— Com Ritinha?, nhô Joãozinho. — Interrogou, simulando o maior espanto.

— Sim, com Ritinha.

— Á! então não sou eu quem há de pegar teu filho, nhô Joãozinho.

— E por quê?, tia Rosa.

— Por quê? Porque eu não sou parteira de mula-sem-cabeça. Credo! Nossa senhora dos Remédios me livre de tal tentação. Cruzes, canhoto! Vá às areias gordas! Arruda com pé e tudo!

João ficou atordoado com o destampatório da negra, e se sentando no cocho em que os cavalos comiam a ração de milho, arregalou muito os olhos e perguntou, ansioso e indignado:

— Mas então tia Rosa: Ritinha é mula-sem-cabeça?!

Ao fazer essa interrogação os punhos se crisparam como se tivesse ímpeto de esganar a negra, que, sem se perturbar, se persignou de modo beato, e exclamou tranquilamente:

— Desde que me secou o umbigo, ouço dizer que mulher que anda com padre vira mula-sem-cabeça. E não há alguém nesta redondeza que não esteja farto de ouvir que nhá Ritinha está metida com o vigário novo.

— Com padre Salústio?

— Quem duvida? Seu Juca sacristão viu os dois se abraçarem, e eu mesma que aqui estou encontrei aquela relaxada saindo da casa do padre Salústio às 22h.

Em seguida a negra discursou longamente sobre o fato, e acabou com estas terríveis palavras seu feroz mexerico:

— Tua noiva, nhô Joãozinho, é uma burra-de-padre, mula-sem-cabeça. Não olhes mais aquela descarada, que, mais cedo ou mais tarde será montada pelo Tinhoso, que lhe rasgará a barriga com uma chinela de fogo, pra castigar seu pecado.

***

Dizendo isto, a preta se retirou, satisfeita por haver realizado a sua vingança, ficando o pobre caipira abancado no coche, como que atordoado, e a repetir com obstinação de idiota estas fantásticas palavras:

— Mula-sem-cabeça! Mula-sem-cabeça!

Fora tão rude o golpe que lhe vibrara a maldita negra, que lhe tirou momentaneamente a faculdade de raciocinar. Sentia uma zoada no ouvido, tremiam as pernas, o coração como que não batia no peito.

Ficou nesse estado até cair a noite. Só então se arrancou de tão pesada atonia e a passos lentos foi ao arraial.

Formara tenção de averiguar aquele negócio que tanto o afligia.

Quem lhe dizia que tudo aquilo não passava de calúnia forjada pela negra a fim de se vingar de alguma ofensa recebida da moça ou simplesmente por espírito de maldade? Convinha não emprenhar nos ouvidos. Era crível que o atraiçoasse, comprometendo de modo tão funesto sua própria felicidade? E logo com quem? Com um padre?! Não! Convinha ser prudente. Tia Rosa, todos a conheciam, era uma enredadeira.

Assim raciocinando, chegou junto à casa de Ritinha, quando soavam 9 horas. A casa estava fechada, e nas frestas não se percebia luz dentro. Manuel Teodoro se deitava cedo, porém Ritinha tinha costume de se conservar acordada até tarde, costurando ou fazendo renda. Por que não se via luz na casa?

João se abeirou a seu quarto, colou o ouvido à frincha da janela, e procurou ouvir se ela ressonava. Mas nada! O silêncio era completo. Só o interrompia o cantar estrídulo dum grilo.

Se retirou da janela contrariado, e continuou a caminhar, sempre avançando ao arraial.

A casa de padre Salústio ficava logo à entrada do largo da Matriz. Era um velho casarão assobradado, ainda do tempo colonial, todo de cantaria grosseira e com largas janelas de caixilhos miúdos.

Já de longe o rapaz percebeu que havia luz num dos aposentos da casa do padre, que se coava através da vidraça duma das janelas, resguardada interiormente por uma cortina de cassa branca.

Se aproximou, todo apreensivo, e se postou no centro da rua pra observar aquela claridade que enchia a alma com um luar sinistro.

Depois dalguns minutos percebeu dentro do aposento dois vultos. Era evidente que no quarto do padre Salústio estavam duas pessoas. Uma delas seria Ritinha, sua noiva?, perguntava o coração pressago, quase estourando no peito.

Se resignou a esperar. Duas horas passaram com extraordinária ansiedade, quando, afinal, sentiu ruído de passos descendo a escada, e logo em seguida sentiu que tiravam a tranca da porta.

João se coseu a um tapume fronteiro, e aguardou a saída das pessoas, que desciam a escada.

A porta se abriu a meio e um homem saiu à calçada. O reconheceu logo. Era padre Salústio. O sacerdote observou atentamente a todos os lados, a fim de examinar se alguém transitava na rua naquela hora e tendo se certificado de seu isolamento, fez sair de dentro de casa uma mulher. A colheu nos braços, beijou prolongado a face e tornou a se recolher, fechando a porta.

A mulher estava de tal forma embrulhada num chalé, que não se percebiam as feições. Assim que o padre fechou a porta começou a caminhar na rua acima.

Nesse momento o sino da igreja dava 11 horas.

João saiu imediatamente do esconderijo e começou a acompanhar a mulher, esperando a reconhecer.

A mulher embuçada, no entanto, embora não corresse, caminhava com muita rapidez. Parecia mais deslizar sobre o terreno que andar, e o moço se esbofava pra seguir.

Todavia tinha um pressentimento de que era Ritinha, e esperava que a carreira terminaria ao chegar à casa de Manuel Teodoro.

Efetivamente quando a mulher emparelhou com a casa do marceneiro estacou, e se voltou, naturalmente procurando ver se alguém a acompanhava. Com a marcha, seu longo xale descera da cabeça, e João julgou reconhecer a basta cabeleira acastanhada da querida e pérfida Ritinha. Mas a distância em que estava não permitiu ainda reconhecer perfeitamente o rosto.

O caipira esperava que a mulher entrasse na casa de Manuel Teodoro. Mas qual foi seu espanto ao ver que a misteriosa transeunte continuava marchando, batendo a estrada, cuja areia se prateava ao clarão tranquilo do luar, nesse momento em pleno zênite!

***

Isso o desconcertou.

— Onde iria essa mulher, Ritinha ou outra qualquer a tal hora numa estrada tão deserta? Da casa de Manuel Teodoro até o sítio de João não havia outra casa, e a distância entre as duas era a de 3km. O que iria, pois, fazer essa mulher, Ritinha ou não, porém moça, porquanto seria impossível que padre Salústio enlaçasse e beijasse tão amorosamente uma velha, o que essa criatura buscaria em lugar tão isolado?

Também raciocinava:

— Pra que fosse Ritinha, a conhecera sempre tão medrosa, incapaz até de entrar num quarto sem luz, como duma hora a outra adquirira tamanha intrepidez? Na entanto, aquela formosa cabeleira castanha não podia ser de outra. Bem conhecia todas as moças do Infeccionado.

E a mulher sempre andando! A sombra do corpo, muito esguia e fantástica, rastejava com o caipira. A areia da estrada rangia sob os rápidos, passos, enquanto o roceiro se perdia num dédalo intricado de conjeturas que a nada conduziam, acompanhando quase automaticamente aquele mistério que fugia sob a forma duma mulher.

***

Nisso a criatura chegou a um ponto onde o caminho se bifurcava, formando o que os caipiras chamam encruzilhada. Era encruzilhada do Ingazeiro, assim denominada por existir bem na dicotomia uma frondosa leguminosa dessa variedade.

Esse lugar era preferido pelos tropeiros pra pouso, e, ali se viam espetadas, no chão, algumas dúzias de varas, nas quais se amarrava a burrada do lote. Mas quando, ao cair da noite, João lá passou, nenhuma tropa estava arranchada no pouso da Encruzilhada.

A mulher embuçada estacou ao chegar a esse sítio e se voltou à direção em que ele vinha. Nosso caipira, como movido por um poder superior, se deteve igualmente. Nesse instante uma ideia singular atravessou o espírito. Quem sabe se tia Rosa teria razão e Ritinha, sua futura esposa, viria nessa estrada afora em cumprimento do sombrio fadário reservado às infelizes que faziam os padres violar o solene juramento de castidade? O dia, uma sexta-feira, a hora, meia-noite, tudo lhe acudiu à atribulada imaginação, naquele momento. E o cabelo, a seu pesar, se eriçara. Teve medo de avançar, de reconhecer aquela misteriosa mulher em cuja indagação tanto se empenhara.

Ao cabo dalguns minutos a mulher continuou caminhando mas agora vagarosamente. Se dissipando um tanto o pavor, João prosseguiu na marcha. Dali a pouco novo sucesso o assombrava. Quando, no anoitecer, passara na encruzilhada do Ingazeiro, nenhuma tropa ali havia. Mas lá estava uma fila de cangalhas e um sujeito de pernas cruzadas diante dum pequeno fogo tocava uma viola muito sebosa e cantava os seguintes versos em toada rústica:

Eu botei meus cachorros no mato
Para vê se levanta veado
Espingarda de cano quebrado
Eu corri fui cercar no cerrado
Cachorrada latiu, não viu nada
Ó!, minha senhora dona,
No teu mato não tem nada!
E o passo branco avuô
Avuô para as banda de lá
Vai se embora, passo branco
Deixa o caçadô passá
Adeus, morena
Não deixa teu bem pená

João, distraindo a atenção a esse fato de estar ali arranchada aquela tropa, perdeu de vista a mulher, não sabendo em qual dos galhos da encruzilhada enveredara. Pra se orientar, ao chegar em frente ao violeiro, disse:

— Boa noite, meu patrício. Vancê me sabe dizer que rumo tomou uma dona que passou inda há pouco aqui? Seguiu na direita ou na esquerda?

O homem da viola não lhe deu resposta e continuou tocando o rasgado, que fazia o acompanhamento da sua cantoria. O moço, aborrecido, tornou a formular a pergunta. Então, o indivíduo, o encarando friamente, deu filma grande e prolongada risada, que fez estremecer o rapaz, e, torcendo a boca desdentada num lado, cantou:

Mandei meu menino depressa
De carreira chamá o doutô
No caminho tinha muita lama
O cavalo atolado ficou
Recoluta no campo tá alerta
Meu menino lá preso ficou!
Ai triste de quem ama
Quem ama padece dô!
E o passo branco avuô
Avuô para as banda de lá
Vai se embora passo branco
Deixa o caçadô passá
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená

Escandalizado pela desatenção do tropeiro, o noivo de Ritinha perguntou de novo:

— Amigo, toda a pergunta tem resposta. Faças favor de me dizer que rumo tomou uma moça que passou ainda há pouco aqui.

O sujeito da viola tornou a o encarar friamente, soltou uma gargalhada mais prolongada que a primeira e em seguida, virando outra vez a boca desdentada a um lado, cantou com voz aguda:

Triste vida, tropeiro, coitado!
Vai na venda demora um bocado
Compra à vista, não compra fiado
Chega em casa patrão tá zangado
Periquito não vem no roçado.
Quem fala mal do tropeiro
Merece sê enforcado.
E o passo branco avuô
Avuô para as banda de lá,
Vai se embora, passo branco,
Deixa o caçadô passá!
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená.

E continuou a rasgar a viola soturnamente, sem prestar atenção ao caipira. João desconfiou do tipo. Será surdo ou idiota?, pensou. E sem querer perguntar mais, resolveu seguir no caminho que o conduzia a sua casa.

Contudo, mal andara uns 50 passos, avistou logo a mulher misteriosa.

Estava encostada ao batente duma porteira, desmantelada, e na segunda vez receou avançar, tomando de súbito horror inexplicável. A mulher, assim que o viu na estrada, arrancou o xale da cabeça, rasgou as roupas e as lançou fora, se ostentando completamente nua ao clarão do luar. Reconheceu, então, perfeitamente Ritinha, com a famosa cabeleira castanha, arrepiada pela aragem que a espalhava sobre as espáduas brancas, duma alvura de leite.

Ritinha, ou melhor a visão, depois de despida, se lançou ao chão furiosamente, se rebolcou algum tempo na poeira da estrada, e dali a pouco se ergueu, mas não já como se deitara em terra. O que apareceu à vista do caipira apavorado foi um monstro horrendo, um animal com a aparência duma mula mas sem cabeça, lançando um fogo azulado na cavidade da garganta. A coisa medonha escoiceou o batente da porteira e disparou estrada afora, com estrídulos relinchos, bater de ferradura e grande alarido de campainha. O rapaz soltou um grito enorme, e, correndo, voltou à encruzilhada, a fim de implorar a proteção do tropeiro. A mula-sem-cabeça, sempre relinchando, escoiceando e tangendo seu fantástico cincerro, vinha atrás, e quase o alcançou. Durante momentos sentia o calor da língua de fogo que jorrava da medonha garganta.

Era uma coisa atroz o que o pobre moço sentia. Queria gritar e não podia. Se arredar do caminho, pra deixar passar o monstro, mas não atinava com o desvio salvador. E assim continuava correndo na estrada, sentindo sempre atrás de si a horrenda e fantástica alimária.

Chegou enfim à encruzilhada do Ingazeiro. Ali novo assombro o aguardava. O singular tropeiro que lhe negara resposta pouco antes estava agora em meio da estrada, de chicote em punho e chinelas nos pés, cortando jaca de modo diabólico. As chinelas, ao bater uma na outra, tiravam chispas de fogo. Os dedos castanholavam doidamente. Ria de modo pavoroso e os olhos pareciam dois tições acesos.

Logo que o roceiro esbarrou nessa figura grotesca e medonha deu um salto a um lado, e a mula-sem-cabeça passou a diante. Então o tropeiro que cortava jaca na estrada, se encarrapitou nela, com um salto, dando uma longa chinelada, da tábua do pescoço à garupa. Um risco de fogo ficou no corpo da burra, que começou a corcovear danadamente e a desandar coices em todas as direções.

João nada pôde ver. No lugar onde se passava aquela cena tudo era poeira e fogo. Houve um momento em que o caipira sentiu o estranho animal lhe vibrar um coice nos peitos.

Imediatamente rolou na estrada, sem sentido.

Alguém que passou no outro dia na manhã, na estrada, encontrou o pobre rapaz estendido e o conduziu a seu sítio, onde a mãe conseguiu lhe reanimar os sentidos.

No entanto uma violenta febre cerebral o acometera. Durante um mês o infeliz esteve às portas da morte e, quando chegou a se levantar do leito estava completamente doido. A moléstia lhe roubara a razão, tão rudemente maltratada na encruzilhada do Ingazeiro.

Todavia era um doido inofensivo. Trabalhava regularmente e desempenhava qualquer comissão incumbida. Mas se uma moça se aproximava o pobre louco entrava na maior aflição e fugia da criatura, gritando, apavorado:

— A mula-sem-cabeça! A mula-sem-cabeça!

Manuel do Riachão (Conto), de Viriato Padilha (Annibal Mascarenhas)


Manuel do Riachão

É bastante conhecida em diversos estados brasileiros, principalmente no norte, a lenda da misteriosa personagem a quem o povo deu o nome de Manuel do Riachão e cujas aventuras satânicas são contadas em verso rústico do Piauí a Sergipe.

Nalguns lugares se acredita que Manuel do Riachão era o Diabo em pessoa. Noutros o apresentam simplesmente como um indivíduo malfazejo e nefasto, que vendera a alma ao príncipe da treva, a fim de se tornar o primeiro tocador de viola e improvisador dos batuques sertanejos.

Em toda parte, porém, Manuel do Riachão figura na tradição como bardo sem rival, se afirmando que sua parada em qualquer lugar era prenúncio de calamidade súbita e inexplicável. O povo guarda lembrança de que secavam os regatos, não obstante a regularidade das chuvas, se tresmalhavam os rebanhos, surgiam enfermidades no gado, desmereciam as lavouras, e até as pessoas se sentiam atacadas de sofrimentos estranhos, quando Manuel do Riachão, de viola a tiracolo, atravessava qualquer paragem.

Assim, apesar da admiração que causava por seus altos dotes de improvisador inspirado e violeiro habilíssimo, Manuel do Riachão não podia demorar muito tempo nalgum ponto. Desde logo a indignação popular se levantava contra seus singulares costumes, e nela procurava um derivativo por causa dos males que começavam a afligir a terra, sendo o pobre violeiro obrigado a enfronhar a viola, e buscar outro lugar, até que, sendo ali também perseguido, recomeçasse a eterna peregrinação. Assim vivia Manuel do Riachão. Os lugares que de preferência frequentava eram as tabernas, as mesas de jogo e,  principalmente, os batuques, pelo prazer de derrotar no verso os mais afamados cantores.

Descrevamos a forma pela qual o povo do norte conta como o sombrio Manuel do Riachão desapareceu dos sambas sertanejos.

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Numa noite de São João se folgava ruidosamente em modesta casa do sertão cearense. No terreiro crepitava grande fogueira que iluminava toda a frente da habitação. A criançada pagodeava em redor do fogo, assando batata e macaxeira no borralho. Na sala roncava o sapateado, puxado vigorosamente por uns cabras desempenados, vaqueiros, comboieiros e roceiros, e por moças sadias, robustas e esbeltas. Todas aquelas pessoas, ali reunidas em alegre folguedo, se conheciam muito e eram parentes próximos, afastados ou vizinhos bastante íntimos.

Assim se notava em todas as fisionomias bem-estar completo, satisfação imensa, principalmente nos rapazes e moças, quase todos de namoro entabulado ou de casamento ajustado.

Foi no meio dessa festa simples e boa que se lembrou um dia aparecer o misterioso indivíduo cujo nome encabeça estas linhas: Manuel do Riachão, o mais afamado e fantástico violeiro dos sertões do norte.

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Esse bardo errante, sempre precedido de antipatia popular, se vira obrigado a abandonar Icó, onde assombrara pela perícia em improvisar mas onde também incorrera gravemente no desagrado público por haver desrespeitado, com uma cantada obscena, uma procissão que se fazia no lugar, sacrilégio que coincidiu com o aparecimento duma praga de lagarta que devastou completamente os roçados de milho.

A calamidade foi tomada como conseqüência do desacato religioso, e Manuel do Riachão, temendo violência contra sua pessoa, bebeu o último gole de aguardente, nas tabernas do Icó, pôs a preciosa viola em bandoleira e até lá foi, estrada fora, procurando novos auditórios pra exibição de seus dotes de improvisador.

Gastou dias em atravessar a serra do Pereiro, porém na noite de São João já estava na chapada do Apodi, sôfrego pra cantar, visto como no caminho não encontrara parceiro com o qual se divertir.

Manuel do Riachão passava na estrada, quando viu a fogueira e a festa à qual já nos referimos. Sem hesitação se encaminhou ao lugar da patuscada e, se aproveitando dum momento de suspensão do batuque, chamou a viola ao peito, e cantou, com voz forte, estas duas quadras:

Senhora dona da festa
me ouça, faça favô
Não trago fome nem sede
nem me atormenta o calô
Só quero, senhora minha
dizer aos convidados
que, quando meu peito se abre
se esconde o mais pintado.

Todas as pessoas que estavam na sala, e bem assim a criançada que se divertia em torno da fogueira, correram a perto de Manuel do Riachão, que, em pé, no meio do terreiro, continuava tangendo o rasgado na viola, sem dizer palavra, como esperando que alguém aceitasse o atrevido desafio. Muito alto, magro e de longo cavanhaque cor de barba de milho, tinha a perna arqueada em postura mefistofélica, e um riso sardônico arregaçava o canto dos lábios magros e arroxeados.

Naquela festa não haveria alguém que aceitasse o desafio daquele sujeito? Era o que todos, com os olhos, se perguntavam mutuamente, ansiosos pra uma lição ao insolente, e ao mesmo tempo desejosos de novo divertimento.

Não esperaram muito tempo os foliões. Dentre a chusma saiu logo um crioulo de gaforinha crescida, Xico Bordão, que, apanhando uma viola, respondeu no mesmo tom e música ao violeiro errante:

No tempo em que eu cantava
Meu peito retinia
Dava um grito no Icó
E no Cariri se ouvia
Senhora dona da casa
faça favô, mande entrá
Quem a tua porta bate
pedindo só pra cantá.

Uma salva estrondosa de palma, acompanhada de gritaria dos meninos, acolheu a cantiga de Xico Bordão, que, indo ao encontro do Riachão, que continuava sempre de perna arqueada e viola ao peito, o cumprimentou e, o tomando no braço, o introduziu na sala. Rapazes e moças se sentaram nos bancos dispostos ao correr das paredes, e tendo a dona da casa chegado dois tamboretes aos contendores, estes se abancaram cerimoniosamente, e depois de chupitar cada um seu copinho de aguardente, começou o torneio poético e musical, que não durou muito, pois Bordão se declarou logo vencido e se retirou da sala, envergonhado.

Estimulados os brios dos assistentes pela derrota do companheiro, empurraram ao meio do aposento outro cantador, Xico Casa-Velha, que também tinha suas fumaça de improvisador.

Este, porém, no fim de duas quadras esmoreceu.

Dizendo seu nome numa quadrinha, Riachão se aproveitou dele, e respondeu que toda a casa velha era tapera. Isso foi suficiente pra confundir o adversário.

Ainda um terceiro cantador se sentou no fatídico tamborete: Era Totonho, filho da dona da casa, e esse também foi levado à parede com a mesma facilidade.

Então ninguém mais quis cantar com o homem magro do cavanhaque vermelho. E Manuel do Riachão, vendo que nenhum cantador vinha ocupar o tamborete vazio, se levantou, fez uma grande mesura, e, recuando até a porta, se preparava pra se despedir em verso, como é costume, quando surgiu na sala, com um machete a tiracolo, e sem que alguém soubesse onde entrara, um rapaz muito pálido, de longo cabelo dourado e anelado, olhos profundamente azuis, envolvido num amplo ponche-pala de cor cinzenta clara.

Esse moço se adiantou na sala, e se sentando no tamborete onde foram vencidos Bordão, Casa-Velha e Totonho, cantou com voz dulcíssima a seguinte quadrinha, em desafio, se fazendo acompanhar no machete:

Seu Manué do Riachão
Não dê já a despedida
Torne a afinar a viola
Que o dia vem longe ainda.

Manuel do Riachão, se sentindo nomear em lugar em que julgava ser completamente desconhecido, teve um estremeção e fixou os olhos fundos e vivos como brasas no desconhecido que continuava dedilhando no machete, até então conservando a vista abaixada, como que por timidez e recato. A ligeira emoção do violeiro não foi no entanto percebida pelos foliões. E ele, procurando disfarçar, respondeu ao moço com esta quadra arrogante:

Bem sei que o dia vem longe
Temos tempo pra trová
Mas vosmecê se arrepende
Antes do galo cantá.

O moço de olhos cor do céu continuava de fronte baixa, e em na fisionomia, que parecia anuviada por funda tristeza, nem sinal de emoção denunciou ao ouvir a resposta atrevida de Riachão.

Ao mesmo tempo que em todos os circunstantes crescia o interesse pelo desafio um pressentimento vago lhes dizia que Manuel do Riachão, segundo a frase popular, se estreparia naquela topada. Assim, foi com satisfação que viram o moço do machete ferir de novo o instrumento com as mãos, que eram duma brancura de cera de carnaúba, e soltar estes versos:

Um ano tão bom de inverno
Que pecados são os teu!
Seu Manué do Riachão
Teu riacho não correu.

Manuel do Riachão tornou a fitar os olhos de brasa no moço do ponche-pala cinzento. O famoso violeiro como procurava saber quem parecia querer revelar ao auditório matuto sua misteriosa e sombria natureza. No entanto não deixou de fazer entrada em tempo e responder com visível mau-humor nos seguintes versos:

Se o riacho não correu
não foi por falta de inverno
É que as águas afundaram
Foram ferver no inferno.

Os caipiras começaram a se admirar da feição estranha que tomava o desafio poético. Quem seriam os dois singulares violeiros, tão estranhos e diferentes nos modos e nas figuras?, perguntavam, chegando as bocas aos ouvidos uns dos outros. Quando as últimas notas que acompanhavam os versos do Riachão se extinguiram o moço triste do machete descerrou outra vez os lábios, ainda sem levantar a fronte, e cantou:

Seu Manué do Riachão
que triste sina é a tua
Na noite que vosmecê canta
no céu não se vê a Lua.

Riachão se torceu no tamborete, incomodado por essa segunda investida a sua reputação, e apenas o moço cor de cera acabava de desferir a última sílaba do verso, bramiu com voz forte, na qual se percebia claramente a raiva e o despeito:

Se a Lua não aparece
Na noite de meu descante
É, moço do machetinho
Que eu canto só no minguante.

Na verdade Manuel do Riachão era um repentista admirável, e essa resposta tão adequada causou a admiração dos sertanejos. O moço louro, porém, continuava impassível e de olhos fitos no chão. De seu amplo ponche-pala cinzento se flutuava como uma neblina levemente dourada que o envolvia todo, e assim que lhe coube a vez de cantar, gemeu no machetinho, com voz que mais parecia um rosário de suspiros docemente abemolados:

Padre, Filho, Espírito Santo
É o santo sinal da cruz
Bendito seja teu nome
Senhora mãe de Jesus.

E ao mesmo tempo que cantava esta copla o moço do machetinho levantava lentamente os olhos do chão, até os fitar em cheio em Manuel do Riachão, que, sem se saber por quê, se perturbou com a luz serena, profundamente azul que deles jorrava e, em sua confusão, deu uma nota falsa no acompanhamento e não pôde encontrar logo a réplica.

O maço do machetinho tornou a baixar os grandes olhos e, antes que o outro se restabelecesse completamente, lhe despediu mais esta quadra:

Seu Manué do Riachão
um caburé suspirô
Tempere, amigo, a viola
que o bordão desafinô.

Então Manuel do Riachão já se acalmara, e assim respondeu de pronto:

Minha viola, seu moço, tropica, mas não focinha. Tem ganho em tecla função coroa e grau de rainha.

No entanto, apesar dessa bravata de cantador laureado, Manuel do Riachão denunciava no semblante esquálido crescente perturbação. E embora só o encarara de frente uma vez, o moço pálido bem percebia, e assim saiu com esta:

Seu Manué do Riachão,
Uma coisa está se vendo
Tua viola enrouquece
tua voz esmorecendo.

Era verdade o que dizia o moço triste, porém Manuel do Riachão tentava ainda resistir, e assim respondeu, incontinenti:

Não te glorie com isso
Cantante do ponche-pala
Bebi demais no caminho
Sinto um pigarro na fala.

Esses versos eram prenúncio da derrota do terrível trovador. O auditório compreendeu e ficou suspenso dos lábios do cantador cor de cera, que, sempre de olhos baixos, tangia no machetinho com tanta doçura que parecia que os dedos vaporosos nem feriam as cordas.

Logo que Riachão se calou, o moço levantou na segunda vez os olhos serenos, tornou a fitar em cheio no violeiro, e cantou com voz mais alta e vibrante:

Seu Manué do Riachão
Meu amigo e camarada
Vosmecê se avexa tanto
Eu me avexo de nada.

Manuel do Riachão, ao sentir de novo a luz clara e profundamente azul dos olhos do fantástico moço pálido, tornou a se confundir: Os dedos rasparam na viola, nervosamente, sem tirar harmonia, o corpo todo tremeu e, na segunda vez nesse desafio, não entrou logo com a réplica, ao que o moço do machete, aproveitando a descaída, tornou de novo a abrir os lábios, e cantou, a voz ficando aguda e firme:

Seu Manué do Riachão
Depois da flô vem a espiga
Quero que vosmecê reze
o padre-nosso em cantiga.

Sentindo essa provocação direta a seu sentimento religioso, Manuel do Riachão se ergueu com um salto. Todo o corpo foi tomado por um tremor convulsivo. E torcendo os braços e as pernas, como se fossem serpentes raivosas, vibrou as cordas da viola com tanta raiva, que as, fazia arrebentar, ao mesmo tempo que berrava com voz sombria:

Seu moço do ponche-pala
Não sou padre pra rezá
Renego os santos da igreja
Renego a pedra do artá.

Ao dizer isto, todas as luzes da sala se apagaram e também a fogueira que crepitava no terreiro. Todos foram tomados de assombro.

No luar que entrava na janela viram que o moço pálido se levantava e se erguia do chão, alguns palmos, ao mesmo tempo que cantava, com voz tão aguda que chegava a doer nos ouvidos, estes versos que foram os últimos do famoso desafio:

Senhora dona da festa
Abra a porta, acenda a luz
Estamos com o Diabo em casa
Rezemos o cruz-credo.

Assim que acabou de cantar se ouviu na sala um estrondo medonho. Se abrindo logo o assoalho, de meio a meio, nele se enterrou e sumiu o nefasto Manuel do Riachão, ao passo que o moço triste e de mãos cor de cera mais se elevava do chão. Seu amplo ponche-pala cinzento se transformara em par de asas brancas como a neblina da manhã. E seu machete tomara a forma duma palma, que comprimiu ao seio, e, sempre subindo, voou na janela aberta e desapareceu no espaço, sem que olhos humanos o pudessem seguir.

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É assim que o povo do norte conta como Manuel do Riachão desapareceu dos sambas sertanejos.