quinta-feira, 21 de junho de 2018

Temas Poéticos: PÁSSAROS I


À memória de uma ave

AUTA DE SOUZA
“Poesias”



Quando morre uma criança,
Diz-se que o pálido anjinho
Voou como uma esperança.
Foi para o céu direitinho.

Mas nossa mente se cansa
A voar de ninho em ninho,
Interrogando a lembrança,
Quando morre um passarinho.

Só eu, se alguém diz que a vida
De uma avezinha querida
Se extingue como um clarão.

Ponho-me a rir, pois, divina!
Ouço cantar, em surdina,

Tu’alma em meu coração.

★★★

Pássaros
Je veux changer mes pensées en oiseaux.
C. MAROT

MACHADO DE ASSIS
“Falenas” (1870)

Olha como, cortando os leves ares,
Passam do vale ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, à tarde, cobre transparente véu;
Voam também como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da fúria dos contrários ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é também aquela estância
Onde respira a doce criatura,
Filha de nosso amor, sonho da infância,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flor, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquela estância enamorados,
Os pensamentos de minh'alma ansiosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal gozados
E estas noites de lágrimas e dor.

Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira,
Dizendo aos ecos a canção primeira
De um livro escrito pela mão do amor.

Dirão também como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
De tua imagem vaporosa e linda,
Único alento que me prende aqui.
E dirão mais que estrelas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.
Como sobem ao monte as andorinhas,
Meus pensamentos voam para ti.

★★★

O Sabiá

BERNARDO GUIMARÃES
“Inspirações da Tarde” (1858)

L'oiseau semble la véritable embléme
du chrétien ici-bas; il pref`ère, comme le
fidèle, la solitude au monde; le ciel à la
terre, et sa voix bénit sans cesse les
merveilles du Créateur.
CHATEAUBRIAND

Tu nunca ouviste, quando o sol é posto,
E que do dia apenas aparece,
Por sobre os ermos píncaros do ocaso,
A orla extrema do purpúreo manto;
Quando lã do sagrado campanário
Já reboa do bronze o som piedoso,
Abençoando as horas do silêncio;
Nesse instante de místico remanso,
De maga soidão, em que parece
Pairar bênção divina sobre a terra,
No momento em que a noite vem sobre ela
Desdobrar o seu manto sonolento;
Tu nunca ouviste, em solitária encosta,
De anoso tronco na isolada grimpa,
A voz saudosa do cantor da tarde
Erguer-se melancólica e suave
Como uma prece extrema, que a natura
Envia ao céu, — suspiro derradeiro
Do dia, que entre sombras se esvaece?
O viandante para ouvir-lhe os quebros
Para, e se assenta à margem do caminho;
Encostado aos umbrais do pobre alvergue,
Cisma o colono aos sons do etéreo canto
Já das rudes fadigas deslembrado;
E sob as asas úmidas da noite
Aos meigos sons em êxtase suave
Adormece embalada a natureza.
Quem te inspira o doce acento,
Sabiá melodioso?
Que mágoas triste lamentas
Nesse canto suspiroso?
Quem te ensinou a canção,
Que cantas ao pôr do dia?
Quem revelou-te os segredos
De tão mágica harmonia?
Acaso a ausência tu choras
Do sol, que além se sumira;
E teu canto ao dia extinto
Mavioso adeus suspira?
Ou nessas notas sentidas,
Exalando o terno ardor,
Tu contas à meiga tarde
Segredos do teu amor?
Canta, que o teu doce canto
Nestas horas tão serenas,
Nos seios d'alma adormece
O pungir de acerbas penas.
Cisma o vate ao brando acento
De tua voz harmoniosa,
Cisma, e deslembra tristuras
De sua vida afanosa.
E ora n'alma se lhe acorda
Do passado uma visão,
Que em perfumes de saudade
Vem banhar-lhe o coração;
Ora um sonho lhe vislumbra
Pelas trevas do porvir,
E uma estrela d'esperança
Em seu céu lhe vem sorrir:
E por mundos encantados
Lhe desliza o pensamento.
Qual nuvem que o vento embala
Pelo azul do firmamento.
Canta, avezinha amorosa,
Em teu asilo soidoso;
Saúda as horas sombrias
Do silêncio e do repouso;
Adormenta a natureza
Aos sons de tua canção;
Canta, até que o dia morra
De todo na escuridão.
Assim o bardo inspirado,
Quando a eterna noite escura
Lhe anuncia a fatal hora
De baixar à sepultura,
Um adeus supremo à vida
Sobre as cordas modulando,
Em seu leito sempiterno
Vai adormecer cantando.
Colmou-te o céu de seus dons,
Sabiá melodioso;
Tua vida afortunada
Desliza em perene gozo.
No tope do tronco excelso
Deu-te um trono de verdura;
Deu-te a voz melodiosa
Com que encantas a natura;
Deu-te os ecos da valada
Pra repetir-te a canção;
Deu-te amor no doce ninho,
Deu-te os céus da solidão.
Corre-te a vida serena
Como um sonho afortunado;
Oh! que é doce o teu viver!
Cantar e amar eis teu fado!
Cantar e amar! — quem dera ao triste bardo
Assim viver um dia;
Também nos céus os anjos de Deus vivem
De amor e de harmonia:
Quem me dera qual tu, cantor dos bosques,
Na paz da solidão,
Sobre as ondas do tempo ir resvalando
Aos sons de uma canção,
E exalando da vida o sopro extremo
Num cântico de amor,
Sobre um raio da tarde enviar um dia
Minh'alma ao Criador!...

★★★

Sabiá-Rei
(A César Muniz)

CRUZ E SOUZA e VIRGÍLIO VÁRZEA
“Tropos e Fantasias” (1885)

O sabiá rufiava as asas pardas e amplas, sempre que fazia explosir, como uma girândola no ar inefável e translúcido, a sua escala cromática, de gorjeios claros e espontâneos, pela saleta de uns tons violáceos, com filetes e cinzeladuras douradas.

Quando o sol, gloriosamente tranquilo, numa fartura de luz benéfica, numa refrangibilidade prismática, atirava os venábulos cintilantes pela janela da luxuosa saleta, fazia bem ouvir-se, consorciados à coloração vermelha, rubra, os artísticos concertos do incomparável maestro das sinfonias selvagens, do empório largo da natureza criadora.

Era o deslumbramento da harmonia e da luz.

E quanto mais o sol fulgia, coruscando do alto, em rutilante cascata, mais o sabiá cantava, cantava, cantava sempre.

Parecia que nos raios do grande Filósofo da evolução natural, vinha presa, fundida, corporificada toda aquela música sonorosa e adoravelmente casta que lhe saía do laringe metálico.

Sentia-se como que o irromper imponentíssimo de heróis, de espíritos saudáveis, em marchas triunfais, em pompas, pela curvidão marmórea do Azul, ao escutar-se o primoroso tenor das selvas.

Como cantava bem; como os trinados cheios, como os vocábulos musicalizados se derramavam todos, com orgulho, inflados de brio, recortados de uma bravura nervosa, sobre os objetos silenciosos — os ricos móveis facetados de madrepérola, os divãs de custo superior, os contadores róseos, as chaises-longues, o piano, sobre o qual dormiam algumas rêveries de Schubert, as cômodas poltronas austeras, os cristais finíssimos, as estatuetas representando amores pagãos, os reposteiros suntuosos, cor marron, as múltiplas fanfreluches chinesas, as esquisitas ânforas gregas—tudo na imobilidade da treva.

Um dia, deixaram a porta da gaiola aberta e o sabiá, lembrando-se que tinha talvez um lar mais livre na amplitude livre da floresta, um ninho mais amigo, mais carinhoso, na doçura consoladora da paina e do musgo, bateu, abriu as asas de gênio inspirado, num último acorde de músico e vibrante e... fugiu, rasgando a transparência das esferas alegres e infinitas.

Mas um caçador ingrato que rodeava aquelas paragens, vendo o esvoaçar vitorioso do pássaro cantarolador, disparou um tiro valente e o sabiá caiu...

Nos seus olhos havia ainda os derradeiros lampejos do tropicalismo da raça.

E o sangue a rebentar-lhe da ferida aberta, como que parecia também salmodiar a nênia sombria da ingratidão dos homens pelas Aves da Luz.

★★★

O Beija-Flor
(À Susana)

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

Beija-flor das penas de ouro
que voas de flor em flor,
onde é que tens o tesouro
da prole do teu amor?

Em que florido raminho
foste prender o teu ninho?
Conheço os arbustos verdes
onde as aves vão dormir;
mas tu na selva te perdes
quando te quero seguir...

E embalde pela folhagem
vejo o rastro da passagem.

Sei o lugar onde insetos
em coroas se vão formar,
e em andejos inquietos
põem-se à tardinha a bailar;

só tu me ocultas, medroso
o teu ninho perfumoso.

Quando esvoaças no prado
a rosa treme de amor,
e abre o seio corado
porque és o noivo da flor...

E desces, desces a ela
tanto, tanto! beija-flor!
E a brisa expulsa do cálix
onde procuras pousar,
a borboleta dos vales
e as abelhas do lugar;

para que não saibas que as flores
volúveis são nos amores.

E eu, contemplando estas cenas
espero que a viração
erga-te as azas pequenas
para a azulada amplidão,

e desça contigo aonde
teu alvo ninho se esconde...

E desça para embalar-te
mimoso filho do céu,
no berço, que em toda a parte
debalde procuro eu...

no berço que eu imagino
ser um lírio pequenino!

Beija-flor de penas de ouro,
tu que és o noivo da flor,
não escondas o tesouro
da prole do teu amor!

Para o seio destas rosas
traze o ninho, beija-flor!

Temas Poéticos: LUA I


Efeitos de lua
(Ao paisagista Décio Freire)

LUÍS DELFINO
“Algas e Musgos” (1927)

Há nas serras, em arco, a forma da moldura
Que fecha em roda a vasta e límpida aquarela:
O claro-escuro é bom; tem perspectiva a tela;
Vibram toques de luz no céu de tal doçura

Que a mesma noite ri e aos astros se mistura;
Dorme-lhe o oceano aos pés, como o leão da novela;
Ao terral, que chegou, a água apenas murmura;
Duas barcas de pesca arfam por cima dela.

Da indolência em que a vaga embala-se e flutua;
Como um corcel do mar, que o dorso de repente
Dardo em chama feriu — salta, avança, recua...

Do alto viso do monte, entre árvores, em frente,
Fisga-lhe as flechas de ouro a caçadora nua,
E ao largo-verde flanco as torce lentamente...

★★★

Lua

CRUZ E SOUZA
“Broquéis” (1893)

Clâmides frescas, de brancuras frias,
Finíssimas dalmáticas de neve
Vestem as longas árvores sombrias,
Surgindo a lua nebulosa e leve...

Névoas e névoas frígidas ondulam...
Alagam lácteos e fulgentes rios
Que na enluarada refração tremulam
Dentre fosforescências, calafrios...

E ondulam névoas, cetinosas rendas
De virginais, de prônubas alvuras...
Vagam baladas e visões e lendas
No flórido noivado das alturas...

E fria, fluente, frouxa claridade
Flutua como as brumas de um letargo...
E erra no espaço, em toda a imensidade,
Um sonho doente, cilicioso, amargo...

Da vastidão dos páramos serenos,
Das siderais abóbadas cerúleas
Cai a luz em antífonas, em trenos,
Em misticismos, orações e dúlias...

E entre os marfins e as pratas diluídas
Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,
Com grinaldas de roxas margaridas
Vagam as Virgens de cismares ermos...

Cabelos torrenciais e dolorosos
Boiam nas ondas dos etéreos gelos.
E os corpos passam níveos, luminosos,
Nas ondas do luar e dos cabelos...

Vagam sombras gentis de mortas, vagam
Em grandes procissões, em grandes alas,
Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
Opulências de pérolas e opalas

E a lua vai clorótica fulgindo
Nos seus alperces etereais e brancos,
A luz gelada e pálida diluindo
Das serranias pelos largos flancos...

Ó lua das magnólias e dos lírios!
Geleira sideral entre as geleiras!
Tens a tristeza mórbida dos círios
E a lividez da chama das poncheiras!

Quando ressurges, quando brilhas e amas,
Quando de luzes a amplidão constelas,
Com os fulgores glaciais que tu derramas
Das febre e frio, dás nevrose, gelas...

A tua dor cristalizou-se outrora
Na dor profunda mais dilacerada
E das cores estranhas, ó astro, agora,
És a suprema dor cristalizada!...

★★★

A Lua

CARMEN FREIRE
“Visões e Sombras” (1897)

Oh lua! formosa lua!
Do céu soberana augusta,
Dize, dize, que te custa
Desvendar-me a vida tua?

Conta-me os doces segredos
Das regiões incognoscíveis,
Onde arcanjos invisíveis
Têm armeis de astros nos dedos.

Dize se as nuvens formosas,
Quando se fundem num beijo,
Sentem no seio o lampejo
Das estrelas luminosas.

Vem alentar-me, querida,
Que, a todo o poder, prefiro
O aroma do teu suspiro
Para encantar minha vida.

Talvez tu possas um'hora
Mostrar-me as crenças que voaram
Páginas que se rasgaram,
Apagando a minha aurora.

Talvez mostre-mas suspensas,
Sem abrigo e sem ventura,
Chorando na imensa altura...
O' minhas perdidas crenças!

E, quando ao céu remontares,
Leva contigo a minha alma,
E no céu, como um astro, calma,
Fique dominando os ares.

Vendo um corpo que sofreu
Na terra, sob uma cruz:
A terra perde uma luz,
Mas ganha uma luz o céu.

Desvenda-me os esplendores
Do céu coalhado de estrelas,
Que a gente parece, ao vê-las,
Vê-lo coberto de flores,

Mostra-me os vastos impérios
Da tua eterna morada,
Profundamente sulcada
Dos mais profundos mistérios.

Mas calas zelosamente
O poema que o céu encerra,
E corres até a terra
O teu manto alvinitente.

E suspensa em doce luz
Ficas de um êxtase presa,
Alma de Santa Tereza,
Casta esposa de Jesus.

Desce da frígida bruma,
Ai! vem conversar comigo!
Vem, que o teu hálito amigo
O meu coração perfuma.

★★★

Paisagem de luar

CRUZ E SOUZA
“Missal” (1893)

Na nitidez do ar frio, de finas vibrações de cristal, as estrelas crepitam…
Há um rendilhamento, uma lavoragem de pedrarias claras, em fios sutis de cintilações palpitantes, na alva estrada esmaltada da Via-Láctea.
Uma serenidade de maio adormecido entre frouxéis de verdura cai do veludo do firmamento, torna a noite mais solitária e profunda.
O Mar, pontilhado dos astros, faísca, fosforesce e rutila, agitando o dorso Glauco.
E, de leve, de manso, um clarão branco, lânguido, lívido vem subindo dos montes, escorrendo fluido nas folhagens, que prateiam-se logo, como se fabuloso artista invisível as prateasse e as polisse.
A lua cheia transborda em rio de neve na paisagem, e, no mar, há pouco apenas fagulhante da iriação das estrelas, a lua jorra do alto.
Por ele afora, pelo vasto mar espelhado, pequenas embarcações se destacam agora, alígeras, lépidas, à pesca da noite, velas brancas serenas, sob a constelação dos espaços.
A água repercute, na amorosa solidão do luar, a barcarola sonora dos pescadores, que, de entre a glacial amplidão da água, mais fresca e sonora, vibra.
Um aspecto de natureza, verde, virgem, que repousa, estende-se nos longes, desce aos prados, sobe às montanhas e infinitamente espalha-se nas mudas praias alvejantes.
E, à proporção que a lua mais vai subindo o páramo, à proporção que ela mais galga a altura, mais as pequenas embarcações de pesca avançam nas vagas resplandecentes, com as asas das velas abertas à salitrosa emanação marinha.
Com o brilho fúlgido, aceso, d’esmeralda facetada, uma estrela parece peregrinamente acompanhar de perto a lua, num ritmo harmonioso…
Perfumes salutares, tonificantes eflúvios exalam-se da frescura nova, imaculada dos campos, como dum viçoso e casto florir de magnólias, na volúpia da natureza adormecida numa alvura de linhos, dentre opulências de noivados.