terça-feira, 7 de agosto de 2018

Euclides da Cunha — Dados Biográficos



Euclides da Cunha — Dados Biográficos

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, nasceu na fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, município de Cantagalo, na então província do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1866. Em 1869, após o falecimento de sua mãe, vai a Teresópolis, juntamente com a irmãzinha menor, ficando aos cuidados de uma tia, falecida dois anos depois, passando, então, à companhia de outra tia. Em 1877 inicia os estudos de humanidades no Colégio Carneiro Ribeiro, na Bahia. De volta ao Rio, vai morar em casa de seu tio Antônio. Cursa o Colégio Anglo-Brasileiro. Em 1884 termina o curso de humanidades no Colégio Aquino, onde teve por mestre Benjamin Constant. Matricula na Escola Politécnica, em 1885, assentando praça em 1888 na Escola Militar da Praia Vermelha. Deixa o exército em 1888, em virtude de um gesto de rebeldia por ocasião da visita do ministro da Guerra, na Escola Militar. Vai a São Paulo, onde colabora no jornal "A Província de São Paulo". Volta em 1889 ao Rio onde começa a frequentar o curso de engenharia civil. É reintegrado no exército e promovido a alferes-aluno. Em 1890 cursa a Escola Superior de Guerra. É promovido a segundo-tenente. Conclui em 1891 o curso da Escola Superior de Guerra, sendo promovido a primeiro-tenente, do Estado-Maior, em 1892. Deixa o serviço militar, em 1896, por incompatibilidade, reformado no posto de capitão, e vem para São Paulo Em 1897, como correspondente e repórter do jornal "O Estado de S. Paulo", vai para Canudos observar a campanha contra os fanáticos de António Conselheiro. Inspeciona em 1899, a reconstrução da ponte metálica em São José do Rio Pardo local em que iniciou a redação de seu livro "Os Sertões", publicado em dezembro de 1902, cuja primeira edição foi rapidamente esgotada. A 2ª edição saiu em 1903. No mesmo ano é eleito para a Academia Brasileira de Letras, cadeira nº 7, que tem por patrono Castro Alves, e toma posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. No ano seguinte é nomeado por Rio Branco chefe da Comissão do Alto Purus. Parte para o Amazonas. Chega ao Rio em 1906 e toma posse na Academia Brasileira de Letras, tornando-se também adido do Itamarati, como auxiliar técnico do Barão do Rio Branco no estudo das questões de fronteiras. Submete-se às provas do concurso de Lógica, em 1909, para o Colégio Pedro II (então Ginásio Nacional) e é classificado em 2º lugar. Por interferência de Rio Branco, é nomeado professor interino a 17 de junho. A 15 de agosto, por questões de família, é assassinado a tiros de revólver.

Obras principais: "Os Sertões", 1902, "Peru versus Bolívia", 1907, "Contrastes e Confrontos", 1909, "À Margem da História", 1909.

Características: Na obra "Os Sertões" apresenta não só um completo relato da Campanha de Canudos (luta sangrenta contra os fanáticos chefiados por António Conselheiro, os quais ameaçavam a segurança das cidades e povoações vizinhas), mas ainda um admirável estudo da terra e do homem do sertão nordestino, das condições de vida do sertanejo, da sua resistência e capacidade. Em "Os Sertões" e nos ensaios de "Contrastes e Confrontos" e "À Margem da História", Euclides da Cunha visou a uma interpretação de nossa realidade antropo-cultural; mas uma interpretação que se distinguiu e impressionou fortemente os contemporâneos, pelo modo como foram encarados os fatos (num complexo orgânico de causas e efeitos complexo intensamente dramático e em que se interdependem o Homem, a Terra e o Drama da existência); interpretação que se distinguiu e impressionou fortemente os contemporâneos, pela evidenciação dos valores morais do homem telúrico brasileiro (o seringueiro, o sertanejo, o gaúcho), concebido em proporções de heróis na luta contra as forças de uma natureza hostil, agressiva e por vezes esmagadora. A esta concepção, tipicamente euclidiana, correspondeu uma superior e rara capacidade artística, não apenas para a pintura das figuras humanas, das coisas e da natureza (elementos fortemente impressivos na obra do extraordinário escritor), mas também para a intensa dramatização das cenas, ora engrandecidas pelo sopro épico, ora sacudidas por vendavais de tragédia" (A.S. Amora, História da Literatura Brasileira). "A crítica brasileira e estrangeira, que têm reconhecido em "Os Sertões" um dos livros mais significativos e altos da literatura e da cultura nacionais, a obra precisamente que assegurou autonomia e maioridade à inteligência nacional, têm visto nele ora o seu sentido nacionalista, ora os aspectos de ciência natural, de geografia, de etnografia e antropologia, de sociologia, de história social; ora os aspectos artísticos, literários e estilísticos, justamente os que têm sido ressaltados nos anos mais recentes, situando o livro antes corno uma obra literária do que científica". (Afrânio Coutinho, A Literatura no Brasil). Estilo nervoso, colorido, difícil, empolado, cheio de termos técnicos. Trechos célebres de antologia: "O Sertanejo" e "O Estouro da Boiada", ambos de "Os Sertões".


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Fonte:
Enciclopédia Ginasial Ilustrada: Português, por Amílcar Monteiro Varanda e Assis Figueiredo Santos Silva de Andrade. Editora Formar. São Paulo, s/d, págs. 122-123.

Antônio Francisco Lisboa, o"aleijadinho"


Antônio Francisco Lisboa, o"aleijadinho" (1730-1814)

"Ad Dominum Curro Sitiens, Ut Cervas Ad Undas"
(Corro sequioso para o Senhor, como o servo para as águas)

Transcendendo a interesses locais, surgiu em Minas Gerais, à época da Inconfidência, uma arte autenticamente brasileira, tanto no palco dos acontecimentos da Inconfidência como em vários outros locais, hoje conhecidos como "Cidades Históricas". Seu responsável foi Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como "Aleijadinho", escultor e arquiteto nascido em Vila Rica, hoje Ouro Preto, a 29 de agosto de 1730. Filho natural de Manuel Francisco Lisboa e de uma escrava africana, o Aleijadinho tomou gosto peia arte, através de seu pai, mestre de obras, que foi considerado o primeiro arquiteto da província. Seu segundo mestre foi o abridor de cunho, João Gomes Batista, e o terceiro, o ornamentista Francisco Xavier de Brito, ambos lusitanos como seu pai. Sua evolução, entretanto, processou-se naturalmente e a inspiração para toda sua vasta e bela obra encontrou-a em estampas, breviários e livros sacros que lhe cediam os padres das diversas irmandades religiosas a que pertencia. Os franciscanos colaboraram emprestando ao Aleijadinho obras sacras como o livro de "Vitrúvio — Speculum Hummanae Salvationis" — "A Bíblia Pauperum" e o "Livro das Horas", onde se baseava para habilmente esculpir os trajes antigos das imagens.

Considerado o maior escultor das Américas, o "Aleijadinho" continua vivo nos altares e frontispícios das igrejas mineiras, nos anjos e santos barrocos, nas pias batismais, nos chafarizes, nas estátuas de madeira dos Passos da Via-Sacra, em Congonhas do Campo, onde se sobressaem os doze profetas nas escadarias que levam ao templo do Bom Jesus de Matozinhos, esculpidos em pedra sabão e quando Antônio Francisco Lisboa já estava bastante aleijado, com as mãos paralisadas, afivelando nelas o cinzel para executar essa grande obra. Essas estátuas, de enorme força expressiva, apresentam, nas mãos, os mesmos nódulos e deformações daquelas do artista, atrofiadas e paralisadas pela lepra. Pensam alguns críticos que tenha sido proposital, muito mais do que uma auto-observação inconsciente, uma vez que as mãos das estátuas de Cristo dos Passos são perfeitas. Uma delas — Passo da Flagelação — é anatomicamente perfeita, apresentando um Cristo belíssimo, seja quanto ao rosto, como ao corpo.

Foi observando os apóstolos, que Sérgio Milliet descobriu a alma atormentada de Aleijadinho, defendendo-o por imperfeições apontadas nessas figuras talhadas em pedra. Entretanto, existem provas de que como sua doença já estava adiantada, auxiliaram-no nessa tarefa vários de seus aprendizes, aos quais não poderia ser atribuída, de certo, a beleza e a expressão de Jesus no Horto, que chegam a comover, São Pedro adormecido, a Virgem Maria e Madalena, apóstolos, entalhados em cedro-rosa nas Capelas dos Passos, e que parecem ter vida.

Sua obra pode ser dividida em duas fases - antes e após a moléstia que o deformou e aleijou, a partir dos 47 anos e que lhe valeu o nome pelo qual é mundialmente conhecido — "Aleijadinho". Antes de adoecer, toda sua obra é predominantemente de grande beleza plástica, mostrando o grande equilíbrio do artista. Depois da doença — para alguns lepra, para outros sífilis ou até tromboangeíte obliterante, que lhe deformou não só as mãos e os pés mas o rosto, que nos últimos anos cobria com um capuz para não repugnar — sua obra assume um caráter expressionista. Era carregado até o local do trabalho por um escravo, pois só conseguia se arrastar ou andar de joelhos e saía à rua altas horas da noite, sempre com o corpo e a cabeça cobertos e acompanhado por dois escravos — ajudantes. Assim trabalhou até 1812, isto é, dois anos antes de morrer, porque já estava, além de entrevado, cego.

Morreu abandonado e esquecido e assim ficou durante 40 anos, quando Rodrigo Bretãs escreveu sua biografia, publicada em 1858. Entretanto, o reconhecimento de sua genialidade deixada nas obras em Ouro Preto, Congonhas, Mariana, Sabará, Tiradentes, São João dei Rei e Caeté foi exaltado bem depois, isto é, na Semana de Arte Moderna, quando se reconheceram os valores nacionais, em 1922.

Feio e repelente, o "Aleijadinho" buscou em seus últimos anos de vida, na Bíblia, "a consoladora recompensa de ser amado por Deus", como disse o escritor Mário de Andrade. Deitado num estrado composto de três tábuas em cima de dois toros, o estatuário permaneceu dois anos, com o corpo ulcerado e desfigurado, falecendo no dia 18 de novembro de 1814, com 84 anos, segundo Bretãs. Entretanto, no assento de óbito, no livro da matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, a idade de "Aleijadinho", ao morrer, seria de 76 anos.

A obra deixada por "Aleijadinho" é numerosa e barroca, mas exageram os que lhe pretendem atribuir a autoria de quase todos os trabalhos das igrejas mineiras.

O local onde a obra do mulato é mais extensa é sua terra natal. Ouro Preto. Ele trabalhou na famosa igreja de São Francisco, em seu risco geral, na talha e escultura do frontispício, nos púlpitos, no risco da tribuna do altar-mor, nos seus anjos e na talha e escultura alusiva à ressurreição de Cristo, na escultura da capela-mor, na figura do Cordeiro sobre o sacrário e no risco dos altares laterais. Ele é responsável por modificações feitas na igreja Nossa Senhora do Carmo, especialmente no frontispício, nos altares laterais de São João Batista e de Nossa Senhora da Piedade, nas esculturas da sobreporia e do lavatório da sacristia. Seu pai, Manuel Francisco Lisboa, foi o autor do projeto da igreja do Carmo, mas o lavabo, tão harmonioso como o da igreja de São Francisco, é atribuído ao seu filho Antônio. O "Aleijadinho" trabalhou, também, nas igrejas das Mercês e dos Perdões (Mercês de Baixo). Na Mercês de Baixo é admirável o trabalho de "Aleijadinho" nas imagens de São Raimundo Nonato e São Pedro Nolasco, bem como no crucifixo da Sacristia. Na igreja de São Francisco de Paula, destaca-se a imagem do Senhor da Agonia. Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos o "Aleijadinho" esculpiu a cabeça da estátua de Santa Helena. O irmão de "Aleijadinho", padre Felix Antônio Lisboa, é indicado como autor da imagem de São Benedito e Santo Antônio de Cartagerona, ambas negras. A arte do mulato, na capela de São Miguel, está numa série de painéis em relevo, de madeira, retratando os sofrimentos de Cristo. O artista barroco está presente, ainda, na matriz de Nossa Senhora do Pilar, com a imagem de Nossa Senhora do Rosário e o oratório da sacristia e existem provas de que ele foi o autor dos riscos do altar-mor e da torre e da figura de São Pedro, na igreja de São José dos Pardos. No chafariz do Padre Faria do Alto da Cruz, encomendado a seu pai, há sinais evidentes de que teria sido o "Aleijadinho", então com 19 anos, o escultor do busto de mulher em pedra-sabão.

Esta é considerada a mais antiga escultura de "Aleijadinho". No Museu da Inconfidência, ainda em Ouro Preto, são conservados outros trabalhos do escultor, como o altar da Fazenda da Serra Negra, a imagem de São Jorge, uma imagem de Cristo Flagelado, duas imagens de Nossa Senhora e quatro figuras de presépio. Também a magnífica estátua da Boa Samaritana, que enfeita os jardins suspensos da Mansão das Lajes, é de autoria de Antônio Francisco.

Mariana, a 12 quilômetros de Ouro Preto, que ostenta o título de "Monumento Nacional", guarda, também, obras de "Aleijadinho". Apesar de não existirem documentos que o comprovem, atribuem-se ao "Aleijadinho" o majestoso frontispício em pedra-sabão da capela de São Francisco de Assis, onde a cabeça de três anjinhos barrocos são encimadas por uma cruz estrelada, bem como os púlpitos. E, também, a fonte de pedra-sabão do Palácio Episcopal de Mariana, talhada em 1799, cujo conjunto harmonioso, em que se sobressaem o perfil judaico de Cristo e a beleza da Samaritana, é tão espiritual que não poderia ter sido cinzelado por outras mãos a não ser as do "Aleijadinho".

Sabará, a cidade que nasceu graças ao arrojo de Manuel Borba Gato, que outrora vivia infestada por homens de todas as espécies em busca do ouro que brotava do solo, e que hoje é uma cidade tranquila rodeada de montanhas, testemunha a grande obra do artista mineiro na igreja de Nossa Senhora do Carmo, cujo interior é deslumbrante. Lá ele trabalhou durante 12 anos e são de sua lavra as armas e detalhes do frontispício (uma das obras considerada entre as mais primorosas de Minas Gerais), as imagens de São Simão Stock e de São João da Cruz, bem como os baixos relevos de dois púlpitos e os Atlantes, com suas colunas. O grande mestre contou com auxiliares para executar essas obras, incluindo-se o risco das grades da nave e, também, os riscos do coro e das portas principais, cujo período coincide com aquelas feitas em Ouro Preto — pelo menos em parte — e foi nessa cidade que o artista, pela primeira vez, empregou a esteatita na ornamentação externa. São Simão Stock impressiona por sua expressão e pelas mãos crispadas e apresenta o inconfundível corte nos olhos e as unhas meio quadradas, características do artista. Os púlpitos, com baixos-relevos, são obras primas do mulato. A lindíssima imagem de Sant'Ana, na capela de Nossa Senhora do Pilar, em um pequeno altar lateral, também é atribuída ao "Aleijadinho".

Na igreja de Nossa Senhora do Ô, um templo que parece ter sido construído por chineses, ostenta uma pequenina imagem da Virgem, cuja expressão de beatitude revela a autoria de Antônio Francisco.

Em São João dei Rei, muitas obras são atribuídas ao "Aleijadinho", como as das igrejas de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis. O frontispício do Carmo não poderia ter outro autor senão Antônio Francisco Lisboa. O medalhão tem os querubins do mulato e a placidez de suas madonas.

Suas marcas de artista ficaram em Caeté, na matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso; em Caetas Altas, na matriz de Nossa Senhora da Conceição; em Santa Rita Durão, há igreja Nossa Senhora do Rosário; em Morro Grande (atual Barão de Cocais), na matriz de São João dei Rei; em Tiradentes, na matriz de Santo Antônio; em Nova Lima, na matriz de Nossa Senhora do Pilar.

E, finalmente, em Congonhas do Campo, onde diante do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, decorado em estilo rococó, com relicários de "Aleijadinho", pintados por Ataíde, em seu adro, doze profetas em tamanho natural, esculpidos em pedra-sabão azulada, parecem estar dançando um bale, como se participassem de um ritual solene. São estátuas que impressionam pela expressão de seus rostos, de suas roupagens angulosas e pela delicadeza dos ornatos. Contrastando com o azul do céu, essas imagens de pedra, no alto da colina, chegam a parecer visões apocalípticas. Impossível julgar se é mais belo Isaías de semblante irado ou o suave Daniel, junto a um leão veneziano. Ou então, Jonas, Oséias, Joel, Habacuque, Baruque, Abdias, Naum, Jeremias, Ezequiel e Amós. Á maioria tem as maçãs do rosto salientes e todos, sem exceção, olhos oblíquos. Alguns parecem terem sido esculpidos por um artista gótico. Sobre as figuras dos Passos, em madeira, em número de 66, distribuídas pelos diversos oratórios espalhados pelos jardins, as críticas são de que foram esculpidas com tal precisão que parecem mover-se. Este trabalho foi iniciado por "Aleijadinho" em 1796 e nele estão algumas de suas obras mais perfeitas.

Antônio Francisco Lisboa, para quem os objetos não tinham apenas forma, mas sobretudo essência, pode ser considerado como um representante Barroco dinâmico, de uma intensa força criadora e inovadora. Foi capaz de misturar o sagrado ao profano, o irreal ao real e de usar estilos novos para solucionar problemas de plasticidade e, apesar de atacado por uma terrível doença, apresentou uma arte sadia, equilibrada e luminosa. Mestiço, pardo, olhado pela sociedade de então como um ser inferior sem grande cultura — sabia ler, escrever e possuía alguns conhecimentos de matemática e latim — é um verdadeiro autodidata que adquiriu noções de arquitetura e estatuária pelas obras francesas da época, traduzidas.

Toda sua obra tinha uma marca de brasilidade. Seus anjinhos, suas guirlandas de flores, suas fitas, adquiriram, pelas mãos doentes, harmonia, beleza, ritmo, calor e vida.

Alegre, extrovertido, amante da boa mesa, gostava de dançar e da companhia de mulheres. De temperamento erótico e sensual, Antônio Francisco Lisboa teve boa saúde até os 47 anos, quando teve um filho natural. A doença, porém, além de deformá-lo, martirizou-o até o final de seus dias, fazendo-o desconfiar até dos elogios sobre suas obras. Maurício, Agostinho e Januário eram seus escravos e o primeiro, entalhador, o acompanhava sempre, adaptando o macete e o cinzel nas suas mãos deformadas. Agostinho também era entalhador e Januário o carregava às costas.

Suportou com coragem sua doença, cobrindo-se com uma capa de pano grosso que lhe chegava aos pés. Assim se vestia para não ver o horror nos olhos das pessoas e, depois que não pôde mais montar seu cavalo, passou a ser carregado pelo escravo Januário.

Passou algum tempo em sua casinha da rua Detrás de Antônio Dias, depois de deixar a casa contígua à Capela do Carmo, onde fiscalizava e dirigia os trabalhos dos altares sob a responsabilidade de seu discípulo Justino Ferreira de Andrade, entre 1811 e 1812. Mas, inteiramente cego, foi acolhido pela nora, a parteira Joana Lopes, em cuja casa faleceu em 1814, no dia 18 de novembro.


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Fonte:
MEPE - Dicionário Enciclopédico, Volume 3, por: J. Fernando. Editora FH. São Paulo, 1988, págs. 11-17.