sábado, 16 de dezembro de 2017

Os três moços (Conto), de Sílvio Romero


Os três moços
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Diz que foi um dia havia em um reino uma princesa muito bonita. Um dia apareceram três moços, cada qual querendo casar-se com ela. Para decidir a questão, o rei disse que a princesa só se casaria com aquele que trouxesse uma coisa que mais lhe causasse admiração.

Os três moços saíram. Quando chegaram em uma estrada se despediram e marcaram um dia para se acharem todos os três naquele mesmo lugar. Separaram-se, e cada qual tomou o seu caminho. O primeiro caminhou muito até que deu em uma cidade. Quando ele ia passando por uma rua, ouviu um menino gritando: “Quem quer me comprar um espelho?” Ele chegou-se para o menino e disse: “Menino, que virtude este espelho tem?” O menino respondeu: “Este espelho tem a virtude de ver tudo o que se passa em todo lugar.” O moço disse: “Bravo, sou eu que me caso com a princesa” — e comprou o espelho. O outro moço também caminhou muito e deu noutra cidade. Quando ele ia passando por uma rua, ouviu um homem gritando: “Quem quer me comprar uma bota?” Ele chegou junto do homem e disse: “Meu senhor, que virtude tem essa bota?” O homem respondeu: “Esta bota tem o poder de botar a gente no lugar que se quer.” O moço disse: “Bravo, sou eu que me caso com a princesa” — e comprou a bota. O terceiro moço também caminhou. Caminhou, até que deu também numa cidade. Quando ele viu, foi um menino gritando: “Quem quer comprar um cravo que tem a virtude de dar vida a quem está morto?” O moço disse consigo: “Bravo, sou eu que me caso com a princesa” — e comprou o cravo.

Quando chegou o dia marcado, se acharam todos os três na mesma estrada. O moço do espelho foi e abriu o espelho. Quando ele abriu o espelho viu a princesa estirada, morta. O moço da bota disse: “Não tem nada; se metam aqui dentro desta bota.” Se meteram todos os três dentro da bota, e o moço disse: “Bota, nos bota no reino da rainha Fulana.” No mesmo instante estavam lá. Quando chegaram lá, acharam a princesa morta. O moço do cravo foi e botou o cravo no nariz da princesa.

Quando viram, foi ela se levantar viva. Agora disse o moço do espelho: “Eu sou que devo me casar com a princesa, porque se não fosse meu espelho, vocês não sabiam que ela estava morta.” Diz o moço da bota: “Eu sou que devo me casar com a princesa, porque, se não fosse minha bota, vocês ainda não estavam aqui”.

Diz o moço do cravo: “Quem deve se casar com a princesa sou eu, porque, se não fosse meu cravo, ela não estava viva.” Ainda hoje estão nesta peleja, querendo cada qual se casar com a princesa, e o rei sem saber quem escolherá para noivo.

Entrou por uma porta,
Saiu por um canivete,
Diga a el-rei meu senhor
Que me conte sete.

O cágado e a festa no céu (Conto), de Sílvio Romero


O cágado e a festa no céu
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez houve três dias de festa no céu; todos os bichos lá foram; mas nos dois primeiros dias o cágado não pôde ir, por andar muito devagar. Quando os outros vinham de volta, ele ia no meio do caminho. No último dia, mostrando ele grande vontade de ir, a garça se ofereceu para levá-los nas costas. O cágado aceitou, e montou-se; mas a malvada ia sempre perguntando se ele ainda via a terra, e quando o cágado disse que não avistava mais a terra, ela o largou no ar e o pobre veio rolando e dizendo:

Léu, léu, léu,
Se eu desta escapar,
Nunca mais bodas ao céu...

E também: “Arredem-se, pedras, paus, senão vos quebrareis.” As pedras e paus se afastaram, e ele caiu; porém todo arrebentado. Deus teve pena e juntou os pedacinhos e deu-lhe de novo a vida em paga da grande vontade que ele teve de ir ao céu. Por isso é que o cágado tem o casco em forma de remendos. 

O Pescador (Conto), de Sílvio Romero


O Pescador
(Contos populares do Brasil –  Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um homem que era pescador e tinha uma filha. Um dia, ele foi pescar e achou uma joia no mar, muito bonita. Ele voltou para casa muito alegre e disse à filha: “Milha filha, eu vou dar estar joia de presente ao rei.” A filha disse que ele não desse, e antes guardasse, mas o velho não a ouviu e levou a joia ao rei. Este recebeu a joia e disse ao velho que (sob pena de morte) queria que ele lhe levasse sua filha ao palácio: nem de noite, nem de dia, nem a pé, nem a cavalo, nem nua, nem vestida. O velho pescador voltou para casa muito triste, o que vendo a filha, perguntou-lhe o que tinha. Então, o pai respondeu que estava triste porque o rei tinha-lhe ordenado que ele a levasse, nem de dia, nem de noite, nem a pé, nem a cavalo e nem nua, nem vestida. A moça disse ao pai que descansasse, que ficava tudo por conta dela, e pediu que lhe desse uma porção de algodão e saiu montada no carneirinho. Quando chegaram no palácio, o rei ficou muito contente e satisfeito, porque o velho tinha cumprido o que havia ordenado sob pena de morte. A moça ficou em palácio e o rei disse-lhe que ela podia escolher e levar para casa a coisa de que mais se agradasse dali. Na ocasião do jantar, a moça deitou um bocado de dormideira no copo de vinho do rei e chamou os criados e mandou preparar uma carruagem. Quando o rei tomou o vinho, deu-lhe logo muito sono e foi dormir. A carruagem já estava preparada e a moça mandou os criados botarem o rei dentro e largou-se para casa. Quando o rei acordou da dormideira, achou-se na casa do velho pescador, deitado em uma cama e com a cabeça no colo da moça. O rei ficou muito espantado e perguntou o que queria dizer aquilo. Ela então respondeu que ele tinha dito que podia trazer do palácio aquilo que mais lhe agradasse e do que mais ela se agradou foi dele. O rei ficou muito contente de ver a sabedoria da rapariga e casou-se com ela, havendo muita festa no reino.

A lebre encantada (Conto), de Sílvio Romero


A lebre encantada
(Contos populares do Brasil –  Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia em um reino um rei que tinha um filho. Um dia o rei estava muito doente e disse ao filho que fosse matar uma caça para ele comer. O príncipe saiu com uma espingarda e quando viu, foi sair do mato uma lebre toda branca. O príncipe correu atrás dela para pegá-la, quando de repente abriu-se um buraco no chão e a lebre entrou, levando consigo o príncipe. Quando este viu, estava dentro de um palácio muito bonito e rico, tendo nele uma princesa também muito formosa. O príncipe ficou tão encantado da beleza da princesa, que nunca mais se lembrou do palácio do pai e nem deste. Passado muito tempo, vai um dia o príncipe lavar as suas mãos e tira do dedo uma joia que o pai tinha lhe dado. Aí ele lembra de seu palácio e da família, e diz à princesa que ia vê-los. A princesa instou muito para que ele não fosse, mas ele disse que ia e tornava a voltar. A princesa então bateu com uma vara no lugar onde ela tinha entrado com o príncipe e o chão logo abriu-se e o príncipe passou. Quando chegou ao palácio do pai, achou-o todo coberto de luto e abandonado, pois já tinha morrido toda a família de desgosto por causa do desaparecimento do príncipe. Este ficou muito triste e não quis voltar mais para o palácio da princesa. Saiu sem destino tendo trocado a roupa de príncipe por uma de um sapateiro, e deu a uma cidade que estava toda em festa; ele foi e perguntou que festa era aquela; então disseram que era porque a princesa deste lugar era uma a mais bonita do mundo. O príncipe, que estava mudado em sapateiro, pediu que lhe mostrasse a princesa, e disse quando a viu que já tinha visto uma moça muito mais bonita.

Correram e foram logo dizer ao rei que aquele sapateiro disse que tinha conhecido uma princesa muito mais bonita do que a filha dele. O rei mandou chamar o sapateiro e disse que sob pena de morte ele havia de trazer a princesa à presença dele. O sapateiro pediu o prazo de quinze dias e saiu. Quando chegou ao lugar onde a lebre tinha entrado com ele, principiou a cavar. Levou muito tempo cavando porque a terra estava muito dura, mais afinal conseguiu passar.

Aí encontrou o palácio da princesa todo fechado. Ele bateu na porta e apareceu uma criada. Quando esta viu o príncipe disse: “Príncipe meu senhor, a princesa esta muito doente por sua causa; só o que diz é: “Ah! Ingrato, que foste e nunca mais viste quebrar meus encantos.” A criada disse mais, que naquele dia à meia-noite o mar crescia muito e afogava todo o palácio, e então entrava um peixe muito grande e engolia a princesa, mas se tivesse uma pessoa que matasse o peixe, quebrava os encantos da princesa. O príncipe quis ir falar com a princesa mas a criada disse que não, porque ela podia morrer mais depressa. Aí o mar principiou a crescer e a princesa a ficar pior. O príncipe foi ver uma espada e escondeu-se atrás de uma janela, o mar foi tomando o palácio, e quando foi meia-noite, que o peixe entrou para engolir a princesa, o príncipe meteu-lhe a espada e o matou. O mar foi diminuindo outra vez e a princesa escapou. Então o príncipe apareceu e a princesa ficou muito alegre e houve muita festa. Depois o príncipe disse: “Princesa, eu já lhe salvei a vida, agora é você que vai salvar a minha”; e contou que sob pena de morte havia de mostrar uma princesa mais bonita que a filha do rei. A princesa disse que ele fosse descansado. Ele saiu e chegou no outro reino no dia marcado. Já estava a forca armada para ele morrer. Então ele pediu ao rei que esperasse mais um pouco, quando se viu foi aparecer uma nuvem de prata. Veio descendo, descendo, quando chegou no meio do povo apareceu uma criada toda coberta de prata dizendo: “Arreda, povo, deixa botar a cadeirinha de minha sinhá.” Aí o povo ficou pasmado. O sapateiro tornou a pedir ao rei que esperasse mais um bocadinho, que ainda não era aquela. Apareceu outra nuvem de ouro e foi descendo e quando chegou no meio do povo apareceu uma criada toda coberta de ouro e disse: “Arreda, povo, deixa eu botar a cadeirinha da minha sinhá.” O sapateiro tornou a pedir ao rei que esperasse, quando apareceu uma nuvem de brilhante e foi descendo. Quando chegou no meio do povo apareceu uma moça linda e toda coberta de brilhantes, que era a princesa, e assentou-se no meio das duas criadas. Quando o rei e a princesa viram aquela beleza, reviraram de cima das janelas do palácio e caíram mortos.

A mulher dengosa (Conto), de Sílvio Romero


A mulher dengosa
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez um homem casado com uma mulher muito dengosa, que fingia não querer comer nada diante do marido. O marido foi reparando naquelas afetações da mulher, e quando foi num dia ele lhe disse que ia fazer uma viagem de muitos dias. Saiu, e em vez de partir para longe, escondeu-se por detrás da cozinha, num coxo.

A mulher, quando se viu sozinha, disse para a negra: “Ó negra, faz aí uma tapioca bem grossa, que eu quero almoçar.” A negra fez e a mulher bateu tudo, que nem deixou farelo. Mais tarde ela disse à negra: “Ó negra, me mata aí um capão e me ensopa bem ensopado para eu jantar.” A negra preparou o capão, e a mulher devorou todo ele e nem deixou farelo. Mais tarde a mulher mandou fazer uns beijus muito fininhos para merendar. A negra os aprontou e ela os comeu. Depois já de noite ela disse à negra: “Ó negra, prepara-me aí umas macaxeiras bem enxutas para eu cear.” A negra preparou as macaxeiras e a mulher ceou com café.

Nisto caiu um pé d’água muito forte. A negra estava tirando os pratos da mesa, quando o dono da casa foi entrando pela porta a dentro. A mulher foi vendo o marido e dizendo: “Oh, marido! Com esta chuva tão grossa você veio tão enxuto!?” Ao que ele respondeu: “Se a chuva fosse tão grossa como a tapioca que vós almoçastes, eu viria tão ensopado como o capão que vós jantastes; mas como ela foi fina como os beijus que vós merendastes, eu vim tão enxuto como a macaxeira que vós ceastes.” A mulher teve uma grande vergonha e deixou-se de dengos.

O Preguiçoso (Conto), de Sílvio Romero


O Preguiçoso
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um homem muito preguiçoso que nada fazia. Um dia veio um velho e pediu-lhe rancho em casa; o velho cansou-se de lhe bater na porta e nada do homem se animar a levantar-se para abrir a porta. Afinal desenganado, o velho pediu à dona da casa que lhe guardasse ali uma toalha que levava, mas que a não abrisse. O velho seguiu seu caminho. Mulher guardou a toalha, mas teve curiosidade e abriu-a. Apareceu logo uma grande mesa com tudo quanto é de bom e melhor de que a mulher se regalou. Ela escondeu a toalha, e, quando o velho veio procurar a toalha, a mulher deu-lhe outra em vez da sua. Chegando o velho em sua casa, mandou a toalha se estender e a toalha quieta. O velho calou-se e no outro dia foi à casa do preguiçoso e deixou lá ficar uma cabra pedindo-lhe que a guardassem até a sua volta, mas que tivessem o cuidado de não lhe dizer: “Berra, cabra!” O velho retirou-se. A mulher foi e disse: “Ora, isto é mistério; aqui temos novidade! Berra, cabra!” Entrou a cabra a berrar e começou a cair muito dinheiro de ouro e prata da boca da cabra. Logo que a mulher viu isto, trocou a cabra por outra, e quando o velho veio saiu enganado. Chegando em casa mandou a cabra berrar, e nada, e nada! Conheceu que estava enganado e calou-se. Chegou por fim um trabalhador do velho e lhe pediu ao amo o seu jornal. Respondeu o velho: “Meu filho, eu não tenho mais dinheiro; mas dou-te um cacete, que aqui tenho, que te há de fazer feliz”.

O rapaz recebeu o cacete e seguiu. Foi ter justamente na casa do preguiçoso; pediu rancho e deu o cacete para guardar. A mulher trocou o cacete por outro, e no dia seguinte o moço disse: “Dê-me o meu cacete, que me quero ir.” O cacete entrou a dar bordoadas de criar bichos no marido e na mulher. Puseram-se eles a gritar, e o rapaz ficou admirado de ver aquela virtude do cacete.

A mulher aflita gritou: “Meu senhor, mande seu cacete parar, que eu lhe dou o que me deu o velho para guardar.” O moço disse: “Para, cacete, e tudo pra cá!” O cacete parou, e a mulher entregou ao rapaz a toalha e a cabra. O moço tudo recebeu e voltou para casa do seu amo, e lhe contou o que se tinha dado com ele na casa do preguiçoso. O velho então lhe disse: “Esta toalha e esta cabra têm virtude; quando tiveres fome, estende esta toalha, e te há de aparecer comida da melhor; e esta cabra quando berra bota dinheiro pela boca.” O rapaz ganhou o mundo com seus três presentes.

A Mãe d’água (Conto), de Sílvio Romero


A Mãe d’água
(Contos populares do Brasil – Rio de Janeiro)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Foi uma vez havia uma princesa, que era filha de uma fada e do rei da Lua. A fada ordenou que a princesa fosse a rainha de todas as águas da terra, e governasse todos os mares e rios. A Mãe d’água, assim se ficou chamando a princesa, era muito bonita, e muitos príncipes se apaixonaram por ela. Mas foi o filho do Sol que veio a se casar com ela, ao depois de ter vencido todos os seus rivais em combate. Quando se deu o casamento houve muitas festas e danças e banquetes, que duraram sete dias e sete noites. As festas foram na casa do rei da Lua; acabadas elas os noivos partiram para a casa do Sol. Aí a princesa Mãe d’água disse ao seu marido que desejava passar com ele todo o ano, exceto três meses que havia de passar com sua mãe. O príncipe consentiu, porque fazia em tudo a vontade de sua mulher. Todos os anos a Mãe d’água ia passar com sua mãe debaixo do mar num rico palácio de ouro e de brilhantes os três meses do contrato. No cabo de muito tempo a nova rainha deu à luz um príncipe. Quando a princesa teve de ir de novo visitar a fada, sua mãe quis levar o principezinho, mas o rei não consentiu; e tanto rogou e pediu, que a rainha partiu sozinha, recomendando ao marido que tivesse muito cuidado no filho. Chegando no palácio da fada, a princesa a não encontrou porque ela estava mudada em flor. A moça desesperada começou a correr mundo, procurando a sua mãe. Então ela perguntou aos peixes dos rios, às areias do mar, às conchas das praias por sua mãe, e ninguém lhe respondia. Tanto sofreu e se lastimou que afinal o Rei das Fadas teve pena dela e perdoou a sua mãe, que se desencantou. Ambas, mãe e filha se largaram à toda a pressa para a casa do rei filho do Sol. Mas tinha-se já passado tanto tempo que o rei, vendo que sua esposa não vinha mais, ficou muito desesperado. Correu então o boato que a rainha tinha-se apaixonado por um príncipe estrangeiro e tinha por isso deixado de voltar. O rei, visto isto, se casou com outra princesa, que começou logo a maltratar muito o principezinho, botando-o na cozinha como um negro. Quando a rainha ia chegando a primeira pessoa que viu foi seu filho todo maltratado e sujo, e logo o conheceu e soube de tudo. Ela fugiu então com ele para o fundo das águas, e por sua ordem elas começaram a subir, até cobrirem o palácio, o rei, a rainha e todos os embusteiros da corte. Nunca mais ninguém a viu, porque quem a vê fica logo encantado e cai n”água e se afoga. 

A cumbuca de ouro e os marimbondos (Conto), de Sílvio Romero


A cumbuca de ouro e os marimbondos
(Contos populares do Brasil –  Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia dois homens, um rico e outro pobre, que gostavam de fazer peças um ao outro. Foi o compadre pobre à casa do rico pedir um pedaço de terra para fazer uma roça. O rico, para fazer peça ao outro, lhe deu a pior terra que tinha. Logo que o pobre teve o sim, foi para a casa dizer à mulher, e foram ambos ver o terreno. Chegando lá nas matas, o marido viu uma cumbuca de ouro, e, como era em terras do compadre rico, o pobre não a quis levar para a casa, e foi dizer ao outro que em suas matas havia aquela riqueza. O rico ficou logo todo agitado, e não quis que o compadre trabalhasse mais nas suas terras. Quando o pobre se retirou, o outro largou-se com a sua mulher para as matas a ver a grande riqueza. Chegando lá, o que achou foi uma grande casa de marimbondos; meteu-a numa mochila e tomou o caminho do mocambo do pobre, e logo que o avistou foi gritando: “Ó compadre, fecha as portas, e deixa somente uma banda da janela aberta!” O compadre assim fez, e o rico, chegando perto da janela, atirou a casa de marimbondos dentro da casa do amigo, e gritou: “Fecha a janela, compadre!” Mas os marimbondos bateram no chão, transformaram-se em moedas de ouro, e o pobre chamou a mulher e os filhos para as ajuntar. O ricaço gritava então: “Ó compadre, abra a porta!” Ao que o outro respondia: “Deixe-me, que os marimbondos estão-me matando!” E assim ficou o pobre rico, e o rico ridículo. 

O Careca (Conto), de Sílvio Romero


O Careca
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez havia um homem casado que tinha uma enorme quantidade de filhos e cada vez a mulher paria mais. O homem, para sustentar tão grande família, fez-se pescador.

Morava perto dum rio, pescava ali e ia sustentando a filharada. Uma vez, estando a mulher grávida e já no nono mês, o pescador foi ao rio pescar e meteu a tarrafa e nada. Meteu para outro lado, e nada, nem uma piabinha. O pescador já ia saindo muito triste quando ouviu uma voz, que dizia do fundo da água: “Se me deres o que de novo encontrares em casa, eu te darei muito peixe.” O homem pensou lá consigo — o que pode haver de novo é um cachorrinho, porque eu tenho em casa uma cadela para parir — e não se lembrou da mulher. Então o pescador disse que sim, que aceitava o negócio. “Pois então pesca pra ali.” O pescador meteu a tarrafa e tirou peixe como o diabo. Chegando em casa, um filho foi-lhe logo dizendo: “Papai, minha mãe pariu.” O homem entrou no quarto e viu seu filhinho. Era um menino. Disse à mulher que na beira do rio tinha uma cabocla que havia dado à luz e a criança tinha morrido e que por isso ele levava aquele filho para a cabocla criar. A mulher custou a consentir, mas por fim cedeu. O pescador levou a criança e chegando ao rio atirou-a n”água no lugar donde tinha saído a voz. O menino lá no fundo d’água foi dar num palácio muito rico; aí foi criado até rapazinho mas nunca via ninguém.

Uma vez lhe apareceu um homem e disse-lhe: “Eu sou teu pai; tenho de fazer uma viagem de quinze dias; fica aqui com estas chaves (e deu-lhe um maço de chaves), mas não abras porta nenhuma, senão, quando eu voltar, morres.” O rapaz ficou e cumpriu fielmente a recomendação. No fim de quinze dias chegou o pai e lhe disse: “Então, está tudo direito?” O rapaz disse que sim. Passaram-se mais quinze dias; no fim deles o homem disse: “Vou fazer nova viagem de mais quinze dias, fica aí com as chaves e não me bulas em nada.” O rapaz ficou, mas desta vez não se pôde conter; pegou numa chave e abriu um quarto; dentro havia três enormes caldeiras, uma fervendo ouro, outra fervendo prata e outra fervendo cobre. Ele meteu o dedo na de ouro e saiu com o dedo dourado. Limpava, limpava, e nada de sair o ouro.

Rasgou uma tirinha de pano e amarrou no dedo. Abriu outro quarto e viu três cavalos muito gordos, um preto, um branco e um castanho; os cavalos em lugar de capim tinham carne para comer. Abriu outro quarto e encontrou um leão muito grande e gordo, que em lugar de carne tinha capim para comer. Abriu outro quarto e viu uma mesa muito grande cheia de gavetas; numa tinha uma porção de papeizinhos brancos dobrados, noutra uma porção de papeizinhos azuis dobrados, noutra uma porção de armas: espingardas, espadas etc. O rapaz não quis bulir em nada e tornou a fechar tudo. No fim de quinze dias chegou o pai: “Então? Está tudo direitinho?” — “Tudo, não buli em nada.” De tudo quanto o rapaz tinha visto, o que lhe dava mais com o pau na paciência era a carne para os cavalos comerem e o capim para o leão. Ele fez o plano de trocar. No fim de quinze dias, o pai tornou a fazer viagem. O rapaz, logo que se viu sozinho, foi ao quarto dos cavalos e abriu, foi pegando na carne para tirar, e um cavalo disse: “Não faça isto, não bula em nada, senão morre, seu pai lhe mata. Agora, se quiser sair daqui vá ao quarto onde tem a mesa, tire dois papéis, um azul e outro branco, tire boa roupa e se vista, tire boas armas e se arme, monte-se em um de nós, vá puxando outro, e quando seu pai chegar há de segui-lo; quando estiver pega não pega, largue um dos papéis; depois largue o outro e deixe o resto por minha conta.” O rapaz fez tudo tintim por tintim.

O cavalo lhe recomendou também que ele metesse a cabeça na caldeira de ouro e dourasse os cabelos. O rapaz dourou os cabelos, aprontou-se, armou-se, pegou dois papéis e meteu no bolso; montou no cavalo castanho e foi puxando o branco; para mais incomodar o pai tirou o capim do leão e deu ao cavalo preto, que ficou e pegou na carne e deu ao leão.

Seguiu viagem a toda a pressa. No fim de quinze dias, o homem chegando ao palácio e vendo tudo desarranjado ficou danado; montou no cavalo preto e seguiu atrás do rapaz.

Depois de muito andar, avistou-o; aí o cavalo em que ia o moço lhe disse que largasse o papelzinho branco; o moço largou e gerou-se uma neblina tão espessa que não se via nada; mas o cavalo preto era muito bom e conseguiu romper a neblina depois de muito custo; mas já o rapaz ia longe. Depois de muito andar, o pai já o ia avistando, quando ele soltou o outro papel e gerou-se um espinhal tão cerrado que ninguém podia atravessar. O homem disse ao cavalo preto: “Eu te desencanto, se me passares esta mata de espinhos.” O cavalo respondeu: “Tire-me os arreios e vá montado em osso, que eu passarei.” O homem tirou os arreios e montou em osso. Quando o cavalo se viu no meio do espinhal atirou-o no chão e lá deixou-o e seguiu para diante. O homem lá morreu e o cavalo encontrou-se com os outros, e seguiram todos três. O rapaz já tinha cansado o cavalo castanho e montou-se no branco. Foram seguindo; depois de muito andar, chegaram perto de uma cidade; aí os cavalos disseram: “Agora nós ficamos aqui encantados nesta pedra e o senhor deixe também aqui suas armas e roupas; siga para a cidade; ali adiante encontrará um boi morto, abra, tire a bexiga, sopre e bote na cabeça para esconder os cabelos dourados. Vá e siga a sua vida; quando precisar de alguma cousa venha aqui na pedra e nos peça. O rapaz seguiu, encontrou o boi morto, abriu, tirou a bexiga, botou na cabeça e entrou na cidade.

Adiante encontrou um palácio, bateu na porta e apareceu-lhe o velho jardineiro e perguntou-lhe o que queria. O rapaz respondeu que queria um emprego para ganhar a sua vida. Jardineiro teve pena dele e o empregou como seu ajudante. Era isto na casa do rei. O jardineiro perguntou ao rapaz por seu nome. Ele respondeu que não tinha nome. “Pois fica-se chamando o Careca.” Passaram-se muitos tempos e o Careca ia vivendo em paz.

Uma vez pôs-se debaixo de umas laranjeiras e tirou a bexiga da cabeça para ver os seus cabelos, e a filha mais moça do rei, que estava na janela, viu os cabelos dourados e ficou apaixonada pelo Careca. O jardineiro tinha o costume de levar todas as manhãs um ramalhete para cada uma das filhas do rei, que eram três. No dia seguinte, ele foi levar os ramalhetes e a princesa mais moça lhe disse: “De amanhã em diante quero que o Careca traga o meu ramalhete.” O rei e as irmãs da princesa caçoaram muito; mas a moça insistiu e o Careca todos os dias lhe ia levar o ramalhete. Passaram-se tempos e houve aí no reino umas grandes cavalhadas. O Careca, sabendo delas, e indo todos e ele não, disse ao jardineiro que queria ir à casa do ferreiro para mandar fazer uma faquinha.

O jardineiro consentiu. Depois que todos saíram, o Careca também saiu e foi ter à pedra e contou aos cavalos o que havia. Saiu o cavalo castanho todo arreado, o moço aprontou-se, tomou uma lança, soltou os cabelos e apresentou-se nas cavalhadas. Fez a corrida, tirou a argolinha e ofereceu à filha mais moça do rei; ela lhe deu uma fita verde que ele amarrou na lança. Todos ficaram admirados daquele lindíssimo moço; mas não sabiam quem era ele.

O rapaz saiu a toda a pressa e ninguém mais o viu. Quando o rei e as princesas chegaram em casa, já lá se achava o Careca na sua roupa do costume. O jardineiro contou-lhe então tudo, falou na boniteza das cavalhadas e no moço de cabelo dourado que tinha aparecido e que ninguém sabia quem era; mas que, se no dia seguinte ele voltasse, seria preso, porque o rei ia mandar colocar tropa para o prender, quando ele quisesse desaparecer.

No dia seguinte pela manhã foi o Careca levar suas flores à princesa caçula e ela estava doentia de paixão, tendo umas desconfianças de que ele fosse o mesmo moço que apareceu nas cavalhadas. À tarde houve novas cavalhadas e o Careca disse ao jardineiro que ia de novo ver a faquinha, porque o ferreiro não tinha ainda lhe dado, distraído com as festas. Largou-se para a pedra e fez aparecer o cavalo branco e arreios ainda mais ricos do que os primeiros; soltou a cabeleira, aprontou-se e partiu para as cavalhadas.

Havia mais povo ainda do que nas primeiras e lá estava a tropa para prendê-lo quando ele quisesse voltar. Ainda mais espantados ficaram do que na primeira vez. Quando deu-se o sinal para a corrida o moço partiu, tirou a argolinha e deu à princesa mais moça; ela lhe deu uma fita encarnada, que ele amarrou na lança, e partiu a galope. A tropa cercou-o, mas ele saltou por cima e foi-se. Quando todos chegaram a palácio, já o Careca lá estava na forma do costume. A princesa mais moça começava a definhar; no dia seguinte tornou a pilhar o Careca debaixo de um caramanchão mirando os próprios cabelos, que eram dourados e compridos; ficou a princesa mais alegre e teve certeza de que aquele era o mesmo moço das cavalhadas. Na tarde deste dia houve outra cavalhada, que era a terceira e última. Todos foram e o Careca tornou a sair desculpando-se com a faquinha. Foi à pedra e fez aparecer o cavalo preto, e arreios lindíssimos.

Partiu, e, chegando ao ponto das cavalhadas, encontrou muito reforço de tropas para o prender. Não teve medo. Na hora da corrida avançou, tirou a argolinha e ofereceu à princesa da sua escolha e partiu a galope, fecharam quadrado para o prender, mas o cavalo voou por cima e perdeu-se na corrida, que ninguém mais o viu. Quando o rei chegou a palácio já estava lá o Careca muito a seu gosto.

Nunca ninguém desconfiou que o Careca era o moço rico das corridas, senão a princesa mais moça. Ora, aí nesse reino costumava de tempos a tempos aparecer uma fera que tudo devastava, comia muita gente e ninguém podia dar cabo dela. O rei tinha dito que quem matasse a fera havia de casar com a princesa mais velha. Ninguém se atrevia. O Careca, sabendo disto, foi ter à pedra e contou aos cavalos. Saiu o cavalo preto e disse-lhe que se montasse nele, amarrasse-lhe no peito um grande espelho e avançasse contra a fera; porque esta, vendo o seu retrato no espelho, havia de supor que era outra fera, ficaria atrapalhada e o moço a poderia então matar. Assim fez o rapaz; matou a fera, e cortou-lhe as sete pontas das sete línguas. Ninguém viu isto.

No dia seguinte apareceu a fera morta e botou-se editais para ver quem a tinha morto. Ninguém apareceu: então o rei julgou-se dispensado quanto à sua filha mais velha, e decidiu-se a casar todas três quanto antes e no mesmo dia.

Mandou procurar príncipes, mas a caçula declarou que só se casaria com o Careca. O rei ficou muito desgostoso, mas não teve outro remédio. O rei ordenou que queria dar um banquete no dia do casamento todo de pássaros caçados pelos futuros genros. Todos os três saíram a caçar, cada um para o seu lado. Nenhum matou nada a não ser o Careca, que foi ter à pedra e os cavalos lhe deram aves a valer. Um dos noivos o encontrou, e sem o conhecer pediu para que lhas vendesse. O Careca consentiu, com a condição de lhe passar ele uma declaração em como lhas havia comprado. O príncipe aceitou e passou a declaração. O Careca guardou. Afinal chegou o dia do casamento. Todos se apresentaram muito bem prontos e o Careca humildemente vestido.

No jantar houve muita alegria, mas o Careca lá para um canto. No fim de tudo o rei disse que antes de todos se despedirem, queria que cada um dos genros contasse uma história. O marido da princesa mais velha levantou-se e disse: “O que tenho a contar é que quem matou aquele bicho, que a todos fazia medo, fui eu, e não disse há mais tempo porque queria me casar com a princesa por escolha natural e não porque tivesse a promessa do casamento por matar a fera.” E mostrou os cotocos das línguas. Levantou-se o marido da segunda princesa e disse: “Eu o que tenho a dizer é que quem caçou todos estes pássaros para esta festa fui eu.”

Então, levantou-se o Careca e disse: “Minha história é que os dois genros do rei mentiram; quem matou a fera fui eu, e aqui está a prova: estas é que são as pontas das línguas e aqueles são os cotocos das línguas. Quem fez a caçada fui eu, e a prova é esta declaração que aqui tenho e que podem ler. Além disso o moço que embasbacou a todos nas corridas fui eu, e a prova são as fitas que tenho aqui.” Aí ele tirou a bexiga da cabeça e todos o reconheceram. Ficaram os dois príncipes muito envergonhados, e a princesa mais moça quase doida de contentamento.

A mulher e a filha bonita (Conto), de Sílvio Romero


A mulher e a filha bonita
(Contos populares do Brasil – Rio de Janeiro)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez havia uma mulher viúva que tinha uma filha muito bonita, e a mulher também era muito bela e tinha inveja da filha.

Um dia, passando em casa dela uns viandantes, a mulher lhes disse: “Os senhores já viram uma cara mais formosa do que a minha?” Eles responderam: “É muito bela; mas a sua filha ainda é mais.” A mulher ficou desesperada e foi tomando ódio à filha. Doutra vez passaram por lá outros caminheiros e ela lhes fez a mesma pergunta, e teve a mesma resposta. Ficou ainda mais desesperada e mandou trancar a mocinha num quarto para não ser vista por ninguém. A menina sofria tudo com muita paciência e nada dizia.

No quarto em que ela estava tinha uma janelinha que dava para o caminho, e uma vez que ela se animou a abri-la vinham passando uns viageiros e a viram.

Eles chegaram à casa e a mãe da mocinha lhes disse: “Os senhores já viram uma cara tão bonita como a minha?” Eles responderam: “É bonita; mas a da moça, que está presa no quarto, ainda é mais.” A mulher ficou desesperada e ordenou a um negro velho da casa que levasse a filha para os matos e lá a matasse. O negro levou a rapariga; mas chegando nas brenhas teve pena de a matar, e deixou-a ficar e cortou a ponta da língua de uma cachorrinha e levou à senhora, dizendo que tinha matado a moça. A mulher acreditou. A mocinha pôs-se a andar por aquela mata afora e já sendo tarde trepou numa grande árvore, e muito ao longe avistou uma fumacinha. Desceu e dirigiu-se para aquela direção. Depois de muito andar, lá chegou.

Era um grande palácio; porém não tinha gente e estava muito sujo. A moça arrumou tudo, varreu toda a casa, limpou os trastes e pôs-se lá à espera. Este palácio era do Rei dos Ladrões. Quando foi mais tarde a moça viu ele chegar com a sua grande tropa, teve muito medo e se escondeu. Os ladrões ficaram muito gratos e procurando toda a casa a encontraram. A moça encantou a todos os ladrões pela sua beleza, e já eles queriam brigar para ver quem a tinha de possuir e sem chegar a um acordo. Então o Rei dos Ladrões propôs que a moça ficasse em casa morando com eles; mas que todos a tratassem e venerassem como se fosse uma irmã. Assim fizeram, e a mocinha ficou ali descansada. Correram os tempos e chegou aos ouvidos da mãe que a filha estava viva e muito bem, porque estava muito rica. A mãe mandou chamar uma feiticeira e lhe pediu que procurasse a sua filha e lhe desse fim. A feiticeira aceitou a proposta e largou-se para a casa dos ladrões.

Lá chegando à hora em que a moça estava sozinha lhe fez grande festa, dizendo: “Oh, minha netinha, há que tempo não te vejo! Tu mamaste nestes meus peitos! Trago-te aqui um presente de pobre; não achei nada para trazer e trago somente este parzinho de sapatos.” A moça por delicadeza aceitou os sapatos e logo que os calçou caiu pra trás como morta. A velha raspou-se às carreiras. Quando os ladrões chegaram acharam a moça morta e ficaram muito tristes. Pegaram nela, botaram num bonito carro e mais muito dinheiro e uma recomendação que quem a encontrasse que a enterrasse no sagrado, porque eles não podiam ir à cidade enterrá-la.

Um filho do rei, que andava caçando, encontrou o carro e abriu o caixão, e vendo a moça, ficou tão namorado que em lugar de a enterrar, a levou para o palácio e a guardou no seu quarto com toda a riqueza que encontrou.

E a moça sempre a dormir e o príncipe quase doido de paixão. Não deixava ninguém ir ao seu quarto; mas uma vez, estando ele fora, a princesa sua irmã teve curiosidade de ir ao quarto ver o que era que lá havia.

Chegou, abriu o caixão e viu a moça, e achou tão bonita, e estranhou que ela estivesse com uns sapatos tão feios de couro. Puxou os sapatos e a moça suspirou e sentou-se pedindo água.

A princesa deu-lhe água, tornou a calçar-lhe os sapatos, e a moça adormeceu de novo. Quando o príncipe veio, a irmã lhe disse: “Se me deres aquele dinheiro que encontraste, eu descubro um segredo que há em teu quarto.” O príncipe concordou e a princesa desencantou a moça. Houve uma grande festa e o príncipe casou-se com a linda moça. No fim dos nove meses ela deu à luz dois meninos, a coisa mais linda que dar-se podia. Mas veio servir de parteira justamente a feiticeira que tinha-lhe dado os sapatos, e, em lugar dos dois meninos, apresentou um sapo e uma gia. O príncipe andava ausente numas guerras e o pai lhe mandou dar parte do acontecido. O príncipe mandou dizer ao pai que matasse a mulher; mas o rei teve pena e somente lhe cortou um dos peitos e a expulsou da casa.

A moça saiu pelo mundo afora; tendo muita sede, chegou a uma fonte e bebeu água; passou água no peito e o peito tornou a crescer. Aí, ela seguiu viagem e foi ter à casa de um gigante e tomou um rancho lá com os seus dois filhos, porque os filhos a feiticeira lhe entregou. Muito tempo depois, andando o príncipe em caçadas, passou por casa do gigante e viu os dois meninos e tomou por eles muita afeição. Noutros dias continuou as suas caçadas e sempre passava pela casa do gigante, até que um dia viu a sua mulher. Muito se arrependeu do que tinha feito e tornou a viver com ela, mandando matar a feiticeira.