quarta-feira, 22 de maio de 2019

Monteiro Lobato: Doloi stid (Ensaio)



Doloi stid

 Diz Agorio em sua reportagem sobre a Rússia, que a nova organização da família permite o ressurgir legal do hetairismo grego, mas livre. A hetaira grega, erroneamente por aí confundida com a cortesã, não era livre, era uma escrava de grau superior. Glicéria foi parar às mãos de Filemon em troca de dez mil medidas de trigo, depois de ter coabitado com o poeta Menandro e, antes, com o pintor Pausias.

A hetaira russa não é uma escrava. Elege, escolhe, dispõe de si, é livre.

O hetairismo sempre existiu. No Japão é constituído pelo geishismo. A geisha, educada desde a infância para o amor em sua tríplice expressão, física, espiritual e sentimental, torna-se uma harpa erótica, ressoante, como a eólia, às menores brisas — mas é de aluguel. Alugam-na a prazos fixos, como se fora um móvel de luxo.

Na França, que têm sido as Ninon de Lenclos, as Theroigne, as Maintenon, as Dubarry? Hetairas livres, negadas pela lei mas aceitas pelos costumes e, graças aos seus dons de espírito, tão famosas como essas gregas que enchem de encanto a antiguidade clássica, Aspásia, Laís, Frineia, Safo, para só citar as maiores. Agorio também cita as menores, como Timandra, amiga de Alcebíades; a escultural Arqueanasa, boa musa de Platão; Corina, que descobriu aos olhos maravilhados de Píndaro o mistério da poesia; Hérpilis, colaboradora de Aristóteles; Taís, a amada de Alexandre e de Ptolomeu.

A hetaira há de reunir à beleza física a graça da cultura e a sutileza do espírito; só assim, completa, possui todos os requisitos para enliçar os homens superiores, os aedos, os artistas, os filósofos, tornando-se-lhes a companheira ideal.

Sempre existiu, já disse, aceita pelos costumes dos países de alta cultura, como a França, mas negada pela lei. Quer Agorio que na Rússia ressurja essa forma de companhismo, desta vez legalmente.

É curiosa esta volta à Grécia depois de cada revolução social. Na revolução francesa, arrasado que foi o terreno, os novos esboços de construção iam à Grécia pedir modelos. Agora se dá o mesmo na Rússia. Esta reincidência prova como a Grécia era logicamente animal e natural.

O culto do nu, em vigorosa ressurreição na terra de Lenin, mostra a tendência de retorno à harmonia clássica. Diz o escritor argentino que por toda a parte se pode admirar a beleza ondulante do corpo humano. O gosto pelas emoções plásticas ganhou com rapidez a alma dos russos. Nas procissões públicas da juventude comunista, belas raparigas semidesnudas se mesclam a efebos adolescentes, em encantadora promiscuidade. Confessa ele que é inolvidável o espetáculo. A linha flexível do corpo, envolto às vezes num torvelinho de véus rubros, dá à forma humana o mistério resplandecente das estátuas — vivificados no ritmo, na serenidade e na harmonia. Tais procissões, ao toque de músicas belicosas, provocavam-lhe a sensação de frisos gregos em movimento.

O exagero sobreveio. O gosto discreto do nu foi exagerado pelos doloi stid, sectários de fundo místico, que aliás têm proliferado menos na Rússia do que na Alemanha e nos países escandinavos.

Os primeiros membros desta seita, que se atreveram a arrostar os preconceitos do povo russo, foram um homem e uma mulher. Tomaram o bonde em Moscou sem outros trajes fora a estreita faixa vermelha onde se lia a inscrição — Doloi stid! (Abaixo a vergonha!) que deu nome à seita. Foi um escândalo a princípio; depois vieram os sorrisos irônicos; por fim, a indiferença.

Este fato foi comentadíssimo em toda a Europa de maneira desfavorável à confederação dos sovietes, não se levando em conta a origem alemã do doloistidismo. A seita destes fanáticos do nu tem seu ninho na Alemanha do norte, onde se constitui em colônias ao ar livre, nos bosques e margens dos rios. Sustentam que a roupa não só é antiestética, como ainda representa um constante atentado contra as leis da natureza. Homem e mulher nascem nus e nus devem viver.

A doutrina, diz Agorio, cifra-se nisso, e qualquer estrangeiro que a aceite está em condições de filiar-se ao grupo. Só lhe exigem que varra do cérebro qualquer ideia pecaminosa, e jure conservar a pureza e inocência dum recém-nascido.

Feito isso está apto a ser recebido num lar doloi stid.

Entra. Surge um criado vestido de pele natural, que o ajuda a desnudar-se num vestiário e em seguida o introduz. Vão-se-lhe deparando quadros comezinhos de vida caseira, já seus conhecidos uns, outros inéditos graças à ausência de véus. Vê, por exemplo, brincarem as crianças como um bando de róseos Eros sem asas; e vê a clássica octogenária em sua poltrona tecendo peúgas. Peúgas, na casa do nu? Sim. Os velhos estão isentos do adamismo, já que o aspecto do corpo humano em decadência não sugere ideias agradáveis.

Mas vêm agora ao seu encontro os donos da casa. Decepção. Em regra, embora não velhos, os donos da casa pecam pelo bambo das carnes ou pelo excesso de ventre. E já pensa o neófito em abjurar o doloistidismo, quando lhe aparecem os convidados. Tudo muda. São moças de formas estatuárias, que servem o chá com uma impassibilidade que espanta. Totalmente nuas, não; trazem no corpo alguma coisa — nem podia deixar de ser assim: trazem nos lábios um pouco de carmim e nas unhas um róseo brilho artificial. Só...

Enfrentam os homens com absoluta serenidade. Dir-se-ia que trazem sobre os instintos aquela túnica de gelo que defende a castidade das banhistas públicas de Estocolmo.

A festa de recepção aos profanos em regra termina por um baile — que é um desastre para o neófito em cujas veias corre o caprino sangue meridional. O comum é fugirem da sala por incapacidade de sustentar o juramento de inocência feito ao entrar. Fogem, com imenso escândalo da paradisíaca assistência.

Nada é novidade no mundo. Aqui onde estamos, neste Rio cujas moças incidem em tantas censuras por mostrarem dois palmos de magros cambitos, os nossos avós tupinambás, donos da terra, viviam, ledos e cegos, em doce doloi stid, sem escândalo de ninguém.

Escândalo, e imenso, causou a chegada das cinco francesas vindas em 1558 com os navios de Bois le Comte. Desembarcaram no forte de Coligny e dias depois se apresentaram na praia aos selvagens reunidos.

Ao vê-las, nossas vovós tupinambás, puras Evas antes da vinha, levaram a mão aos olhos, arqui-escandalizadas:

— Mulheres vestidas! O mundo está perdido...

E benzeram-se com o maracá.



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In: Na Antevéspera
Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

Monteiro Lobato: Ideias Russas (Ensaio)



Ideias Russas

Na reportagem de Adolfo Agorio sobre a Rússia existe um trecho sobremodo interessante sobre a questão sexual.

Lenin, esse ogre na opinião dos franceses, inda há de dar o seu nome ao século como o maior reformador social de todos os tempos. Nenhuma criatura operou em maior escala, nem foi mais radical em suas ideias. Semeou como um deus, e até ao derradeiro momento de vida presidiu ao novo estado de equilíbrio social que implantou na Rússia. O tempo irá aos poucos corrigindo sua obra; a adaptação far-se-á; mas ninguém lhe tirará a glória de ter arquitetado o dia de amanhã.

A caudal de diatribes e infâmias que os lesados esguicham sobre o seu nome e difundem pelo mundo inteiro, passará, como passam enxurros. Onde está hoje a massa formidável de libelos impressos na Grã-Bretanha contra o ogre da Córsega? Napoleão, no entanto, purificado, brilha na história com o Perseu de uma Górgona: o direito divino.

É assim que a humanidade caminha — napoleonicamente, leninescamente, aos sacões. A prudência, tão preconizada pelo artritismo dos marqueses de Maricá, é virtude que apenas conserva, como o vinagre conserva o pepino, mas não cria coisa nenhuma.

No que diz respeito à mulher, Lenin aparece como o seu messias. Libertou-a da escravidão doméstica, aboliu o preconceito da sua inferioridade, pô-la em situação de ocupar todos os cargos da república, desde o comissariado do povo até o juizado. O regime de igualdade dos sexos é perfeito, pois. Lenin destruiu o formidável acervo de injustiças acumulado em vinte séculos de helenismo e outros tantos de civilização cristã — isto é, de despotismo do galo.

Houve um formidável sacolejo de forças psicológicas adormidas, vento que varreu e ventilou o ambiente, desde o lar às mais complexas formas de atividade coletiva.

A mulher liberta-se da servidão conjugal. Os direitos de ambos os cônjuges equiparam-se sob um severo regime de responsabilidades e deveres mútuos. A união livre, controlada pelo Estado, não significa a anarquia sexual que pintam os escribas antirrussos a serviço do cômodo status-quo capitalístico. Essa anarquia sexual existe, sim, no regime burguês da mentira monogâmica sem divórcio, monstruoso Moloque que só funciona à custa do mais cruel lubrificante: a prostituição.

O casamento na Rússia repousa unicamente no amor e é mais duradouro que o alicerçado no dinheiro. Recorda Agorio o assombro de um seu companheiro de viagem ao verificar o número ínfimo de divórcios russos. No entanto, se é fácil casar, mais fácil ainda é divorciar; para o primeiro ato basta o comparecimento dos dois interessados perante o oficial civil; para o segundo basta apenas o comparecimento de um.

A humanidade se divide em duas classes: os que possuem imaginação e os que não a possuem. Os imaginativos idealizam e, como idealizam, raro alcançam a felicidade — tanto o real é inimigo do ideal. Vem daí que os imaginativos são em regra infelizes no nosso regime sexual.

Na Rússia não. Madame de Bovary não se suicida. Solta o primeiro marido, inservível por insuficiência de glândula tiroide (devia ser isto), e vai sucessivamente casando até encontrar o eleito da sua fantasia. E acha, pois as almas andam aos pares, a afinidade eletiva é um fato e o tudo é que a sociedade não as impeça de se engancharem.

— Por que motivo, disse uma dama russa a Agorio, havemos de trazer sapatos apertados, que nos magoem o pé, se, trocando-os, podemos tê-los cômodos? Ora, o nosso coração não merece menos que o nosso pé, além de que as feridas nele abertas são de muito maior duração que as causadas pelo sapato defeituoso.

Quem sofre com o regime russo é o homem. Perde a liberdade absoluta de que se goza no regime burguês — liberdade de borboletear de mulher em mulher, clandestinamente, qual um besouro avariado, sem nenhuma consequência funesta para o seu egoísmo. Não mais se regala com o sadismo de fazer mãe a uma virgem e largá-la à sua triste sorte, sob os olhares complacentes do status-quo. Sua responsabilidade torna-se absoluta. O código bolchevista, no fundo simples e mui lógica reação do pobre espezinhado contra o rico prepotente, garante todos os direitos da maternidade. As obrigações do homem neste caso não são para com a mulher, e sim para com a mãe. Ao fundar as bases da família nova, quis Lenin poupar ao seu país o espetáculo degradante da mulher desamparada no seu transe mais nobre, convertida em máquina de abortos e infanticídios, escrava do regime social que faz dela um objeto de compra e venda, um semovente reduzido a campo de experiências dos monstruosos apetites e das abomináveis paixões, não digo humanas, mas homescas.

A mulher trabalha livremente e possui igual ao homem a iniciativa do amor. Pode escolher à vontade. Nenhuma barreira se opõe aos impulsos do seu coração. Contribui para a manutenção da sociedade conjugai e assim afirma sua independência e justifica seus direitos.

Não há na Rússia essa classe de mulheres que vivem em absoluto às costas do marido, qual ostras no espeque. Mais difícil ainda é ver-se o contrário disso, como, por exemplo, o chupim da nossa organização atual.

O problema do celibato, consequentemente, desaparece. A solteirona o é por anomalia de temperamento, já que nada lhe impede de afrontar a experiência matrimonial. No nosso regime, a cuja monstruosidade não atentamos porque o cão não atenta à coleira quando a recebe desde o nascer, milhões e milhões de pobres criaturas mirram no tormento da castidade à força, ao lado de outros milhões que rebolcam nos prostíbulos, devoradas, umas, de histerismos, e outras, da sífilis, para que Mr. Homais, de braço dado ao conselheiro Acácio, possa sentenciar gravemente:

— O casamento é uma instituição divina. Não lhe toquem!

Os homens e as mulheres na Rússia não se olham como inimigos, oscilantes entre o amor e o ódio, polos da mesma exaltação sentimental; não enchem as folhas com o escândalo diário do seu engalfinhamento, seus tiros de revólver, suas facadas. Olham-se como companheiros, iguais nos direitos, iguais nos deveres. E como apesar desta soberania de si mesmas e desse culto reflexivo da própria responsabilidade diz Agorio que nada perderam do encanto feminino, é justo que fechemos os portos aos navios russos que trazem em barris tais ideias.

Viriam perturbar a deliciosa lambança sexual, leda e cega, em que vivemos, com um olho nos bismutos e outro nos macacos de Voronoff...

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In: Na Antevéspera
Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)