quinta-feira, 22 de junho de 2017

Farinha do mesmo saco


Farinha do mesmo saco

Nos primórdios da República do Brasil, era comum aos jornalistas assumirem abertamente suas preferências políticas, as quais em geral não estavam centradas na ideologia partidária em si, mas principalmente na pessoa do candidato, em torno do qual se comportavam como verdadeiros parasitas, e de quem, em muitos casos, dependiam para a própria sobrevivência de suas publicações.

Com o decorrer dos anos, houve um amadurecimento acentuado no que tange à equidade ideológica dos nossos homens de imprensa, os quais passaram a opinar com certa independência, muito embora o contumaz comprometimento partidário  dos seus patrões, algo que notadamente ainda hoje se faz presente em todos os periódicos do país, com exceção de alguns que relutam em disfarçar suas predileções. É escancarada, por exemplo, a opção da revista Veja pelos candidatos da chamada Direita, o que se observa de igual maneira em relação ao jornal o Estado de S. Paulo, entre muitos outros. No que se refere à Folha de S. Paulo, não obstante historicamente sempre estivesse nesta mesma ala, de uns tempos para cá, principalmente durante os governos petistas, andou assim lá perambulando pelas beiradas da Esquerda, o que se pode explicar pelas exorbitantes verbas propagandistas oriundas da estrutura governamental. Na verdade, não parece exagero afirmar que a "balança editorial" de praticamente toda a Imprensa brasileira pende segundo os investimentos de seus patrocinadores, dentre os quais se destaca com soberbia o Governo. Ademais, não é interessante aos grandes veículos de comunicação se alinharem politicamente e todo tempo a uma só vertente partidária. Sim, afinal, o dinheirinho do opulento assinante "coxinha" é tão imprescindível quanto aquele que sai do bolso do miserável "mortadela". Nisto se explica um Reinaldo Azevedo escrevendo para a Folha e um Paulo Henrique Amorim opinando na Record... Neste aspecto e por esta mesma lógica do poderoso Capital, Frias, Mesquitas, Civitas, Marinhos, Minos e Macedos são peças do mesmo tabuleiro e farinha do mesmo saco...Neste aspecto bebem eles no mesmo copo e escarram nas mesmas bocas.

É isso!

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O dilema das interpretações


O dilema das interpretações         

Muito se tem discutido acerca da temática do livro bíblico Cânticos dos Cânticos (ou Cantares de Salomão). Os cristãos, de um modo geral, acreditam tratar-se de uma alegoria, em que a noiva, a Sulamita, simboliza espiritualmente a Igreja, enquanto que o amado, talvez Salomão, é a figura mística do Noivo da Igreja, ou seja, Cristo. Os judeus, por sua vez, acreditam que a noiva é a figura de Israel, ao passo que o noivo reproduz a própria imagem de Deus. Já os que se inclinam às letras, ou seja, os literatos, estes apenas veem no livro bíblico um poema de amor entre um homem e uma mulher apaixonados, e nada além.
Não apenas em relação à Bíblia, mas na própria esfera da Literatura, a questão da “interpretação” tem sido e pode ser utilizada muitas vezes de maneira tendenciosa, para o fim a que se propõe àquele que a interpreta...
Em outro âmbito, os comunistas viam em Cristo apenas um líder reacionário, o qual se opôs ao sistema do seu tempo; outros, por sua vez, o conceberam como um homem iluminado ou apenas um profeta.
Um exemplo, na Literatura, diz respeito ao polêmico escritor austro-alemão Franz Kafka (1883-1924). Uns viam nele um pensador metafísico; outros, um profeta do absurdo; Camus e Sartre o imaginavam como a síntese da incongruência do existir; psicólogos acreditaram que sua obra era resultado de sua relação com um pai autoritário e na sua própria condição de celibatário; marxistas entendiam seus escritos como a suma do caos burguês; os surrealistas o colocaram na esfera do fantástico; há ainda os que vêm nele um lunático, vítima de sua neurose religiosa. Quem, pois, está com a razão?
No que tange aos textos literários, e com mais ênfase à Poesia, é comum prevalecer o subjetivismo de quem faz a análise ou os interpretam, de modo que é comum reduzir-se a existência alheia à própria existência. Assim, num mesmo texto pode-se encontrar uma gama variada de temas: amor, morte, felicidade, guerra, traição, os dissabores da vida etc. Em muitos casos, o instante emocional de quem lê um texto, também pode ser decisivo para uma conclusão sobre o conteúdo da obra como um todo. Esse fato é ainda mais frequente  em relação aos textos religiosos. Muitos, vivendo uma situação desfavorável na vida, quando atingidos pelas procelas do existir, usam e abusam das interpretações, e de tal forma que em inúmeros casos tais interpretações acabam por se transformar em doutrinas e até em dogmas. Não é á toa que há tanta divergência entre os que dizem seguir o mesmo livro considerado sagrado! A mesma Bíblia pode ser bálsamo ou espada, mas essa é uma outra questão...

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2005.

As traduções da Bíblia para o Português



As traduções da Bíblia para o Português
A Bíblia (plural grego de biblion: “livro”) é o livro mais lido e conhecido em todo o mundo.
Em 1534, quando Martinho Lutero traduziu sua Bíblia alemã, circulavam entre os povos 15 traduções. Em 1800 esse número aumentou para 75. Em 1900 subiu para 567 traduções. Atualmente, a Bíblia completa ou em partes, foi traduzida para mais de 2000 línguas e dialetos.
A primeira tradução da Bíblia inteira para o idioma português é a de João Ferreira de Almeida, datada de 1748. No Brasil, além das tradicionais versões Corrigida e Atualizada, há inúmeras traduções ou versões. Por exemplo: Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Nova Versão Internacional, Bíblia Viva, Bíblia de Jerusalém, entre outras.
Qual delas, afinal, melhor reflete o texto original?
Inicialmente, faz-se mister ressaltar (para decepção de alguns) que não há nenhum manuscrito original da Bíblia. Os que existem são cópias de cópias, feitas ao longo dos séculos. Todavia, trata-se (para confortos dos decepcionados) de verdadeiras cópias dos antigos manuscritos originais.
Através da crítica textual (comparação das diversas traduções) descobre-se que menos de 1% dos textos apresentam contradições ou variações. Portanto, 99% do conteúdo da Bíblia têm o seu sentido preservado. Vale lembrar que a crítica textual é um dos métodos usados com eficiência para se avaliar a autenticidade de documentos históricos, tais como os de Aristóteles, Homero, Platão etc.
As diferenças de vocábulos entre as diversas versões não altera em nada o sentido original. Vejamos esse exemplo extraído do Livro de Isaías, capítulo 1, versículo 18:
Corrigida: “Vinde, então, e argui-me, diz o Senhor” (Is. 1:18a);
Atualizada: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor”;
Bíblia na Linguagem de Hoje: “O Deus Eterno diz: ‘Venham cá, vamos discutir este assunto”;
Bíblia do Pão: “Vinde, debatemos - diz o Senhor”.
Bíblia Ave Maria: “Pois bem, justifiquemo-nos, diz o Senhor.”
Bíblia Tradução Ecumênica: “Vinde e discutamos, diz o Senhor”.
Os verbos arguir, arrazoar, discutir, justificar e debater são equivalentes, isto é, possuem sentido comum.
Ainda cerca deste mesmo versículo, na Corrigida lê-se: “Ainda que os vossos pecados sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão brancos como a lã; na Bíblia Viva: “Mesmo que os seus pecados sejam vermelhos como sangue, Eu os deixarei brancos como o cal. Numa tradução africana, numa região onde não havia neve, traduziu-se “brancos como a neve” por “brancos como a polpa do coco. Ou seja: as expressões branco como a neve, branco como o cal e branco como a polpa do coco transmitem igualmente a ideia original, ou seja, que Deus pode tirar toda a mácula do pecado.
Ao traduzir a Bíblia para uma nova língua, os tradutores muitas vezes levam em conta o contexto cultural do povo que a fala. Por exemplo, numa determinada língua indígena, na qual o nosso pãozinho era alimento desconhecido, na passagem bíblica em que Jesus é chamado “o pão da vida”, empregou-se “mandioca da vida”, uma vez que a mandioca era o alimento principal da tribo.
Algumas traduções ou versões, no entanto, são consideradas tendenciosas, pois foram adequadas aos fins doutrinários de determinados grupos religiosos ou ideológicos. Há algum tempo, por exemplo, foi publicada nos EUA uma versão bíblica denominada “politicamente correta”, em que se extraiu a palavra “escuridão”, substituindo-a por “noite”, pois segundo os seus organizadores, o sentido “pejorativo” da palavra “escuridão” poderia ser associado a pessoas de pele negra. Nesta mesma versão, Deus não é chamado Pai, e sim Pai-Mãe, por causa do suposto sentido autoritário e machista do termo Pai. Outro caso recai sobre a famigerada Tradução do Novo Mundo, na qual, por exemplo, extraiu-se a palavra “cruz”, que foi substituída por “estaca de tortura”: “Se alguém quer vim após mim, repudie-se e apanhe a sua estaca de tortura, dia após dia, e siga-me continuamente” (Lc. 9:23). Nesta mesma versão traduziu-se João 1:1, da seguinte forma: “No princípio era a palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era um deus”. Note-se o uso do artigo indefinido “um” (um deus), bem como o “d” minúsculo do nome DEUS (deus).
E, para finalizar, faço menção do famoso Salmo 91, o qual, dependendo da tradução ou versão, assume diferentes estilos, porém, sem alterar o seu sentido “original”. Vejamos quão belíssimas são essas variedades de vocábulos...
Edição Revista e Corrigida (Tradução de João Ferreira de Almeida): “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei”.
Edição Revista e Revisada (Tradução de João Ferreira de Almeida): “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio”.
Versão Vida Nova: “O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente, diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio”.
Bíblia na Linguagem De Hoje: “Aquele que procura segurança no Altíssimo Deus e se abriga na sombra protetora do Todo-Poderoso pode dizer ao Deus Eterno: ‘Tu és o meu defensor e o meu protetor. Tu és o meu Deus, e eu confio em ti”.
Bíblia de Jerusalém: “Quem habita na proteção do Altíssimo pernoita à sombra de Shadai, dizendo a Iahweh: Meu abrigo, minha fortaleza, meu Deus, em quem confio”.
Tradução da Vulgata (Padre Matos Soares): “O que habita no esconderijo à sombra do Altíssimo, na proteção do Deus do céu descansará. Dirá ao Senhor: tu és o meu amparador, e o meu refúgio. É o meu Deus, nele esperarei”.
Tradução Ecumênica: “Aquele que habita onde se esconde o Altíssimo e passa a noite à sombra do Deus Soberano. – Do Senhor eu digo: ‘Ele é o meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus: nele eu confio”.
Tradução de André Chouraqui (Judaica): “Sentado no segredo do Supremo, ele passa a noite à sombra de Shadaï. Digo a IhvH: Meu abrigo, meu alçapão! Elohaï, nele confio”.
Bíblia Ave Maria: “Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em que eu confio”.
Como Você deve ter percebido, não obstante a ideia transmitida ser idêntica em todas as versões ou traduções, verifica-se uma enorme variedade de estilo e de vocabulários. Contudo o importante aqui é que a integridade dos manuscritos principais permanece inalterada em todos os textos.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 1998.

Nicolau Eymerich: “Manual do Inquisidor”


 Nicolau EymerichManual do Inquisidor

A existência da Inquisição está diretamente relacionada com a figura do herege e da heresia. Todos os esforços empreendidos pela Igreja Católica mediante o Tribunal da Inquisição, não tinha outro objetivo senão o aniquilamento da heresia e a eliminação do herege. Conclui-se, portanto, que sem hereges e heresias, não haveria inquisição.

Faz-se necessário ressaltar, porém, que muito antes da Inquisição ser oficialmente estabelecida, a Igreja já se manifestava de várias formas contra a heresia. Em cada diocese existia um tribunal eclesiástico e os prelados que fiscalizavam as paróquias em busca de hereges, levando-os a julgamentos. Em muitos casos, era solicitada a colaboração do braço secular. A intervenção do papa se dava de forma indireta, mediante os concílios e através de correspondências. No terceiro concílio de Latrão, por exemplo, Alexandre III decretou que era necessário combater firmemente os hereges, confiscar-lhes os bens e reduzi-los à servidão. Todavia, todo o empenho da igreja nesse sentido não foi suficiente para impedir a proliferação de tais “heresias” por toda a Europa, fugindo dessa forma do controle dos bispos locais. Isso, contudo, não dirime o fato de a Inquisição, como uma instituição jurídica e religiosa, ter sido a mais drástica medida da Igreja Católica contra os chamados hereges.
Mas, afinal, quem a Igreja considerava um herege?
Vejamos a definição do Manual dos Inquisidores, escrito pelo dominicano Nicolau Eymerich, em 1376: “Conclui-se que herege é quem se apega intransigentemente ao erro, pertinácia essa cuja expressão é a recusa de abjurar” (p.38). O erro, segundo os inquisidores, pode ser sintetizado num único ponto: discordância ou contestação das verdades estabelecidas pela Igreja. Dessa forma, os excomungados, os opositores da Igreja, os que contestam sua autoridade, os que cometem erros na interpretação dos livros canônicos, os quem criam uma seita ou os que aderem a uma já existente, os que tiverem opiniões divergentes às da Igreja, os que não aceitam suas doutrinas e sacramentos e todos os que dividam da fé cristã são igualmente hereges, estando portanto sujeitos às todas as penas estabelecidas pelo Tribunal do Santo Ofício.
O Manual dos Inquisidores (Directorium Inquisitorum) enumera vários tipos de hereges. São termos construídos com a única finalidade de “justificar” a superioridade da doutrina católica em detrimento de todas as demais crenças. Vejamos alguns:
HEREGES MANIFESTOS: “...os que pregam publicamente contra a fé católica, os que seguem ou defendem o ensinamento dos primeiros, e os que, demonstrando convicção da heresia diante de seus bispos, confessaram seus próprios erros e foram condenados como hereges”.
HEREGES DISFARÇADOS: “…são aqueles cujas palavras e comportamento não manifestam seu apego intransigente à heresia”.
HEREGES NEGATIVOS: “…são aqueles que, convencidos de alguma heresia por testemunhas dignas de fé diante do juiz, não querem ou não podem se desapegar dela e, sem confessarem o crime, continuam firmes em suas negações, confessando em palavras a fé católica e proclamando sua rejeição à perversidade herética”.
HEREGES AFIRMATIVOS: “…os que estão intelectualmente errados quanto à fé e que manifestam, tanto através da palavra como através da ação, o apego da sua vontade ao erro mental”.
HEREGES IMPENITENTES: “…aqueles que, interpelado pelos juízes, convencidos de erro contra a fé, intimados a confessarem e a abjurar, mesmo assim não querem aceitar e preferem se agarrar obstinadamente aos seus erros”.
HEREGES PENITENTES: “…os que, depois de aderirem intelectual e afetivamente à heresia, caírem em si, tiverem piedade de si próprios, ouviram a voz da sabedoria e, abjurando dos seus erros e procedimento, aceitaram as penas aplicadas pelo bispo ou pelo inquisidor”.
HEREGES RELAPSOS: “…os que, abjurando da heresia e tornando-se por isto penitentes, reincidem na heresia”.
Na concepção do Manual dos Inquisidores, o herege pode ser representado basicamente pelos seguintes grupos:
OS JUDEUS - Ser judeu significava ser um assassino de Cristo. E os assassinos, especialmente naquela época, não deveriam viver. Eram condenados por heresia, inclusive contra o próprio judaísmo: “Os judeus acusados de cometer heresia contra a própria fé serão, então, condenados. São estas as razões que levaram os Papas Gregório XI e Inocêncio III a mandar para a fogueira livros judaicos que continham várias heresias e erros contra o judaísmo e a castigar quem as divulgasse e ensinasse.
OS CRISTÃOS-NOVOS - A situação dos cristãos-novos foi talvez a mais dramática e contraditória. Mesmo os que declaravam sua fé incondicional aos dogmas da Igreja, ainda esses se tornaram vítimas de seus “irmãos na fé”. É verdade que muitos apenas sustentavam o rótulo de cristão, praticando às escondidas os rituais de sua antiga religião, porém, uma massa enorme deles, fiéis à fé católica, sofreu, tal quais os demais hereges, as mesmas e terríveis penas da Inquisição: “…os cristãos que aderem ao judaísmo e os judeus que, convertidos ao cristianismo, retornam, depois de algum tempo, à execrável seita judaica, são hereges e devem ser vistos como tais. Tanto uns quanto outros renegaram a fé cristã assumida através do batismo. Se querem renunciar ao rito judaico sem renunciar ao judaísmo nem fazer penitência, serão perseguidos como hereges impenitentes pelos bispos e inquisidores, que o entregarão para serem queimados”.
Para descobrir um herege, utilizavam-se de determinados “truques”. No caso de um rejudaizante, o truque consistia no seguinte: “Vão raramente à igreja, frequentam a comunidade judia. Fazem amizade com judeus e evitam o contato com cristãos. Nas festas judias, comem com judeus. Não comem carne de porco. Às sextas-feiras, comem carne. Guardam o sábado. E, escondidamente, trabalham em suas casas nos dias de festa”.
É importante salientar que as mesmas penas dadas aos cristãos convertidos ao judaísmo, eram também aplicadas aos cristãos convertidos ao islamismo: “A situação dos cristãos que aderirem ao islamismo ou dos sarracenos, que depois de se converterem ao cristianismo, retornam ao islamismo, e dos sarracenos que, de uma maneira ou de outra, facilitaram essa passagem, é absolutamente idêntica à situação dos judeus e rejudaizantes examinada no item anterior: idêntica a gravidade do fato, idênticas as penas”.
OS PROTESTANTES - Embora a perseguição inquisitorial contra os protestantes tenha se desenvolvido de forma sistemática somente durante as décadas de 1540 e de 1550, foi igualmente implacável e cruel. Inúmeros grupos protestantes de toda a Europa foram cruelmente massacrados. Não obstante acreditarem na Bíblia, em Deus, em Jesus Cristo e na Trindade, não aceitavam o poder central do papa nem as penitências para se receber perdão, conforme pregava a Igreja Católica. Ressalte-se, porém, que os protestantes também foram implacáveis perseguidores de hereges, principalmente das “bruxas e feiticeiras”. Paradoxalmente foram tachados como tais, sendo muitos levados à fogueira pela “Igreja-Mãe”.
AS BRUXAS E AS FEITICEIRAS - Acusadas por quase todos os tipos de males da época, as chamadas bruxas e feiticeiras foram também vítimas da implacável perseguição religiosa da Inquisição. Serviam elas como “bodes expiatórios” sobre os quais se lançam as culpas da alma. A loucura do cavalo, as pragas nas plantações, as catástrofes naturais e muitos outros malfeitos, não necessitavam de explicações, pois foram elas, as bruxas que, com a ajuda do Diabo, disseminavam todas essas desgraças sobre os inocentes cristãos.
Havia também um “truque” específico para se descobrir um “adorador do diabo” ou uma bruxa: “Em geral, devido ao efeito das visões, das aparições e das conversas com os espíritos do mal, têm uma expressão maliciosa e o olhar dissimulado. Põem-se a adivinhar o futuro, mesmo as coisas que dependem somente da vontade de Deus ou dos homens. A maioria faz alquimia ou astrologia. Se levarem ao inquisidor alguém acusado de necromancia, e se o inquisidor perceber que é astrólogo, alquimista ou adivinho, terá um indício certo: todos os adivinhos são, manifesta ou secretamente, adoradores do diabo. Os astrólogos também, e os alquimistas idem, pois quando não conseguem os seus fins, pedem conselho ao diabo, suplicando-lhe e invocando-o. E, se suplicam, veneram, evidentemente”.
OS INTELECTUAIS - Para os inquisidores, havia duas condições para que alguém pudesse ser qualificado de herege. A primeira dizia respeito à fé; a segunda relacionava-se com o intelecto. Tudo o que a Igreja decretou como verdade, seja no âmbito da fé ou da razão, deveria ser aceito como tal. Portanto, se a Igreja afirmava que o Sol gira em torno da Terra, e não o contrário, devia-se então acreditar sem reservas que essa era a pura expressão da “verdade”. Todos conhecem o caso do cientista italiano Galileu Galilei que, por apoiar a teoria de Copérnico de que o Sol (e não a terra) constitui-se o centro do nosso sistema planetário, foi preso pela Inquisição, tendo de negar suas convicções, visto que iam estas de encontro às da soberana Igreja, a “legítima” representante de Deus na Terra. Por declarar a Bíblia como a única regra de fé, John Wyclif e seus principais seguidores foram todos destruídos. O mesmo aconteceu com João Huss que, havendo comparecido ao Concílio de Constança para justificar-se sob o ponto de vista doutrinário, foi considerado herético e executado, não obstante possuir um salvo-conduto dado pelo imperador germânico.
A perseguição aos intelectuais, bem como a destruição dos livros considerados profanos, prosseguiu durante todo o período da Inquisição. Ameaçado pela propagação de ideais heréticos nas Índias, o rei Felipe III, escreveu aos líderes das colônias, em 1609, a seguinte ordem: “Tendo em vista que os piratas heréticos, por ocasião dos assaltos e dos resgates, tiveram certos contatos nos portos das Índias, muito perigosos para a pureza com a qual os nossos vassalos creem e se mantêm na Santa Fé Católica, que em razão dos livros heréticos e das proposições que eles expandem entre as populações ignorantes, nós ordenamos aos governadores, tribunais, e pedimos aos arcebispos e bispos das Índias que cuidem de recolher todos os livros que os heréticos tenham introduzido ou venham a introduzir nessas regiões”.
Por fim, tomando como base os ensinamentos de Cristo e dos apóstolos, pode-se concluir sem nenhuma “heresia” (e aqui na há juízo de valor) que a igreja Católica, mediante a Inquisição, maculou um dos mais importantes mandamentos do cristianismo: “Ouvistes que foi dito: Amarás a teu próximo, e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mt. 5:43,44). / “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e aborrece a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” (1 Jo. 4:20). O grande teólogo católico, Leonardo Boff, no prefácio do Manual dos Inquisidores, afirma, com convicção de quem conhece os ensinamentos de Cristo, que: “A Inquisição nada tem a ver com Cristo, nem com o seu Evangelho. Se tem a ver, é contra eles… Pois a Igreja como comunidade dos professantes procura manter viva a memória de Jesus, do seu sonho, da irradiação do seu Espírito, na profunda alegria de sermos todos filhos e filhas de Deus e por isso irmãos e irmãs de toda humana criatura e de cada ser do universo… A “Santa” Inquisição é expressão de um componente neurótico-obsessivo do corpo clerical e cristaliza a dimensão de pecado que existe nas relações internas da Igreja…”.

É Isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2004.

Rémy Chauvin: "O Darwinismo ou o fim de um mito"


Rémy Chauvin:  "O Darwinismo ou o fim de um mito"
Com esta obra, o mundialmente conhecido biólogo, Rémy Chauvin, traz à tona as inúmeras fragilidades do darwinismo, abrindo espaço para um debate que há muito já deveria ter-se iniciado.
Embora rechace as pretensões darwinistas de lídima ciência, Chauvin não pretende oferecer uma alternativa a Darwin. Segundo ele: "não há apenas dois partidos, mas três: acreditar em Darwin, acreditar na criação sob a forma mais ingênua, ou o terceiro partido, o mais objetivo: confessar que se sabe demasiadamente pouco para se poder avançar uma conclusão, seja qual for... Esta última conclusão é a que tem a minha preferência, e não sou o único a aderir a ela". Vejamos alguns enxertos da referida obra:
Evoquei atrás o espanto que tomou conta de mim quando testemunhei, pela primeira vez na minha vida, o desvio darwinista para a violência nas conversas, e mesmo para a injúria. Teremos de admitir que esta tendência vai generalizar-se, pelo menos em certos meios? Penso que sim, e poderá constatá-lo quem ler Dawkins ou Dennett (já Monod manifestava esta tendência); aliás, foi por isso que lhes conferi um tão grande destaque, para que os leitores se não habituem a considerar o darwinismo como uma teoria igual às outras. Ele é muito mais do que isso...
Falava Dennett das “perigosas ideias de Darwin”, que comparava com um ácido que corrói subtilmente todas as velhas fórmulas e todas as velhas crenças. Com efeito, foi nisso que o darwinismo se transformou (Darwin não ignorava que isso aconteceria) e Dennett alegra-se com esse fato, porque o seu ideal é o materialismo integral.
[...]
E, com efeito, eis a situação que «profetas» indiscretos como Monod, Dawkins e Dennett não consideraram seriamente: uma grande parte dos nossos concidadãos (e a quase totalidade daqueles que não têm cultura científica, isto é, a maioria, em consequência do fracasso do nosso sistema de ensino) tem medo, e por vezes horror à ciência; sobretudo por causa da bomba atômica e da poluição, mas o seu medo vai muito para além destes temores, afinal justificados: porque os perigos do átomo e da poluição resultam da ciência e do produtivismo industrial, que dela decorre diretamente. Qualquer campanha anticientífica tem um eco imediato, que me assusta.
Na verdade, as pessoas não gostam de nós; alguns cientistas disseram realmente demasiadas tolices, que não procediam da ciência, mas apenas das suas preferências filosóficas pessoais. Se de fato a ciência dá do mundo uma imagem insuportável, se priva a vida do seu sentido (e é claramente essa a conclusão do livro de Monod, sem esquecer o eco que dele fazem Dawkins e Dennett), suprimamos a ciência! É muito fácil, basta reduzir os financiamentos aos laboratórios.
Será isso impossível e inoperante? Realmente? Suponhamos que o governo, acossado por preocupações financeiras, decide reduzir o orça mento da investigação (que é o que está já a fazer). Pensa o leitor que a população se preocuparia com isso? Acha que uma manifestação de investigadores que exigissem financiamento provocaria grande emoção? Mas então, para sossegar as pessoas, deveremos regressar ao bom velho criacionismo?
Naturalmente que isso seria completamente absurdo, tanto mais que o criacionismo não explica coisa alguma, o mesmo acontecendo com o darwinismo, como veremos adiante. Pretender que o Deus criador auxiliou pessoalmente o Ichtyostega a sair do oceano no devoniano não nos ajuda a compreender o que se passou; ora, é isso que a ciência deseja antes de mais: compreender o mecanismo interno e fisiológico que suscitou esse fenômeno.
Na realidade, os criacionistas atuais procedem com base numa teologia absolutamente ingênua, à qual a religião há muito renunciou. Na teologia moderna, a matéria depende do Deus criador, mas Deus não depende da matéria. O próprio ato criador está rodeado de um mistério profundo e, se Deus viesse explicar-no-lo, seria trabalho perdido, porque não o compreenderíamos! Deus esteve na origem dos mecanismos sublimes que nós procuramos desvendar; e o pouco que deles compreendemos faz-nos mergulhar na admiração... Mas a sua origem continua rodeada de bruma, e eu quase diria, parafraseando Pascal, que “o mistério eterno destes mecanismos infinitos assusta-me”.
O que é preciso fazer é estudar, procurar compreender. E abandonar o orgulho. Ainda sabemos muito poucas coisas; não sabemos o suficiente para vaticinarmos e pretendermos, como os darwinistas, que já compreendemos tudo, ou que possuímos a teoria definitiva, que é a mesma coisa”.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2012.

Charles Darwin: "A Expressão das Emoções no Homem e nos animais"




Charles Darwin: "A Expressão das Emoções no Homem e nos animais"
Acabei de ler uma tradução para o português do livro "A expressão das emoções no homem e nos animais", de Charles Darwin!
Se não fora à época em que estava inserido seu autor e se não fora a incipiência das ciências biológicas naquele momento, diria que li um trabalho de biologia de um aluno do Ensino Médio da escola pública brasileira. Embora um pouco mais profundo que um pires, o livro destaca-se por ser de leitura menos maçante entre os outros do naturalista, como o seu mais famoso: "A Origem das Espécies". Em toda obra Darwin busca "provar" que tanto as emoções do homem quanto os sentimentos dos animais são óbvios resultados da evolução ao longo das gerações. Raiva, ódio, bom humor, alegria, desdém, culpa, orgulho, medo, vergonha, timidez, amor etc., são características que se encontram entre todos os povos, e isso em si já é um jiboico indício do conceito de ancestralidade comum universal. São abundantes as analogias entre as emoções humanas com aquelas supostamente observadas entre as muitas espécies de macacos. Obviamente a ideia é tentar realçar a "semelhança evolutiva" entre o homem e o símio. O macaco, para Darwin, é o nosso parente mais próximo, e as emoções que se veem nele atestam esta "verdade". Todavia, segundo o autor, parece que as crianças transparecem mais esta similaridade, especialmente as "crianças selvagens":
"Vemos assim que a protrusão dos lábios, especialmente em crianças pequenas, é uma manifestação característica de amuo na maior parte do mundo. Esse movimento parece resultar da permanência, principalmente durante a mocidade, de um hábito primevo, ou de ocasional retorno a ele. Orangotangos e chimpanzés jovens protraem os lábios num grau extraordinário, como descrevemos em capítulo anterior, quando estão descontentes, um tanto irritados, ou amuados; também quando estão surpresos, um pouco assustados e mesmo quando sentem certa satisfação. Aparentemente, sua boca se protrai com a finalidade de produzir os diversos sons correspondentes a cada um desses estados de espírito; e sua forma, como pude observar no chimpanzé, difere um pouco no momento de emitir os gritos de prazer ou de raiva. Tão logo esses animais ficam furiosos, a forma de suas bocas se modifica inteiramente, e os dentes são expostos. Dizem que o orangotango adulto, quando ferido, emite "um grito singular, que se inicia com notas agudas que vão se transformando em ronco grave. Enquanto solta as notas agudas, ele protrai os lábios em forma de funil, mas nas notas graves deixa a boca bem aberta". No gorila, aparentemente o lábio inferior é capaz de se alongar muito. Portanto, se nossos ancestrais semi-humanos protraíam os lábios quando amuados ou um pouco irritados — da mesma maneira como o fazem os atuais macacos antropoides —, não é um fato anômalo, ainda que curioso, nossas crianças exibirem resquícios da mesma expressão quando no mesmo estado de espírito, juntamente com certa tendência a produzir ruído. Pois não é de forma alguma estranho os animais conservarem, mais ou menos perfeitamente, na tenra infância, para mais adiante perderem, as características nativas de seus ancestrais adultos, e que ainda são conservadas por espécies distintas, seus parentes próximos.
Também não é excepcional o fato de as crianças selvagens terem mais tendência a protrair os lábios quando amuadas do que as crianças europeias civilizadas; pois a essência da selvageria parece consistir na manutenção de uma característica primitiva, o que também se aplica, ocasionalmente, a peculiaridades físicas".
As passagens sobre os "diferentes tipos de raças humanas" florescem abundantemente em toda a obra: "Entretanto, se observarmos as diferentes raças do homem, esses sinais não são tão universalmente empregados quanto eu esperaria". / "A expressão de tristeza, gerada pela contração dos músculos da tristeza, de forma alguma se restringe aos europeus, mas parece ser comum a todas as raças humanas". / "Pelas respostas que recebi dos questionários que enviei, homens de todas as raças franzem o semblante quando estão por alguma razão perplexos". / "Entretanto, não é de forma alguma improvável que essa expressão animalesca seja mais comum entre as raças selvagens do que entre as civilizadas". E por aí vai...
É claro, em se tratando de Darwin, não poderia faltar aquela pitoresca pérola, com a qual encerro essas minhas ligeiras impressões:
"O dr. Maudsley, depois de fornecer uma série de detalhes sobre traços animalescos nos idiotas, indaga se eles não se deveriam ao reaparecimento de instintos primitivos — "um apagado eco de um passado distante, atestando um parentesco que o homem já quase deixou para trás". Ele acrescenta que como todo cérebro humano passa, ao longo de seu desenvolvimento, pelos mesmos estágios dos vertebrados inferiores, e como o cérebro de um idiota é retardado, podemos presumir que ele "manifestará suas funções mais primitivas e nenhuma função superior". O dr. Maudsley acredita que essa mesma hipótese pode ser estendida ao cérebro em estado de degeneração de alguns pacientes loucos. E pergunta de onde vêm "o rosnado furioso, a disposição violenta, a linguagem obscena, os uivos selvagens e os hábitos agressivos manifestados por alguns dos loucos? Por que deveria um homem, privado de sua razão, tornar-se de caráter tão brutal, como é o caso de alguns, a não ser que a natureza brutal esteja nele próprio?"

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2013.

John Cornwell: "O Anjo de Darwin"


John Cornwell: "O Anjo de Darwin"

Li recentemente o livro "O Anjo de Darwin: Uma crítica seráfica a 'Deus, um Delírio'", de John Cornwell, publicado pela Editora Imago. Toda a obra funciona como uma espécie de “conselheiro seráfico” (de serafim, angelical) ao autor de “Deus, um Delírio”, o zoólogo inglês Richard Dawkins. Com esta proposta, Cornwell não se propõe a defender cegamente a religião ou a se colocar em defesa dos dogmas estabelecidos, mas se põe a favor de uma convivência pacífica entre ciência e religião, fato este que, para o fundamentalismo de Dawkins, parece impossível e indesejável. Vejamos alguns enxertos da referida obra:
"Algumas palavras, agora, sobre sua Utopia. Você fez uma promessa entusiástica de felicidade definitiva, contanto que seus leitores confiem em você. Você quer que eles acreditem em um paraíso que será deles quando a religião finalmente for varrida da face da Terra. Você lhes oferece uma versão da famosa canção de John Lennon, "Imagine":
"Imagine... um mundo sem religião. Imagine o mundo sem ataques suicidas, sem o 11/9, sem o 7/7 londrino, sem as Cruzadas, sem caça às bruxas... sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição de judeus como 'assassinos de Cristo', sem os 'problemas' da Irlanda do Norte... sem o Talibã para explodir estátuas antigas...”
Sua lista me parece bastante boa (embora alguns dos seus exemplos possam ter sido o resultado de tensões seculares), mas ela omite dois períodos catastróficos da história recente: a União Soviética de Stalin e a Alemanha de Hitler. Talvez devêssemos nos preocupar o rato de o stalinismo e o nazismo terem revelado o tipo de mundo que surge quando a religião concorda não simplesmente com qualquer coisa, mas com a ciência como ideologia, combinada com ateísmo militante?
Você pretende de fato substituir a religião pela ciência, não é mesmo? "Se o desaparecimento de Deus deixar uma lacuna," você diz a seus leitores, "... Meu caminho inclui uma boa dose de ciência, o empenho honesto e sistemático de descobrir a verdade sobre o mundo real." Estarei eu detectando aqui um eco das palavras de Cristo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida"?
[...]
Não deveria nos preocupar, no entanto, o fato de a ciência triunfalista ter se associado, no século passado, ao totalitarismo? Não deveríamos nos inquietar, mesmo só um pouquinho, por a ciência ter sustentado filosofias políticas que visavam escravizar a humanidade em lugar de promover a liberdade? Seria talvez o caso de ficarmos ansiosos com relação às tecnologias que a ciência gerou, causando a poluição do planeta a ponto de ameaçar sua própria sobrevivência? E o que dizer das armas de destruição em massa? Quanto às explicações, temos aquelas que as filosofias "cientísticas", materialistas e deterministas apresentaram defendendo a desconstrução da pessoa humana e do livre-arbítrio. Não deveríamos estar preocupados com tudo isso num mundo baseado na ciência e no ateísmo militante?".
...
"Você informa a seus leitores, com o nítido desmentido — "talvez por ingenuidade" — que tendeu para uma visão menos cínica da natureza humana do que a de Dostoiévski. "Será que realmente precisamos de policiamento — seja feito por Deus ou por nós mesmos — para que não nos comportemos de modo egoísta e criminoso? Quero muito acreditar que não preciso dessa vigilância — nem você, caro leitor."
Parece que há um mal-entendido entre você e o grande escritor, talvez em decorrência de sua interpretação equivocada da sua obra; talvez por você ter comparado antecedentes com experiência de vida. Você nunca passou uma temporada na prisão. Você caminhou, em jornada sem acidentes, do ensino elementar para a escola secundária particular, até Oxford, onde foi residente em boa parte de sua carreira e onde você consolidou sua visão essencialmente otimista do mundo.
Dostoiévski começou a escrever Os irmãos Karamazov em 1878, aos 57 anos de idade. Ainda em criança, sofreu a perda de seus pais (acredita-se que o pai foi assassinado) e na casa dos 30 esteve preso por cinco anos, incluindo vários meses no corredor da morte e quatro anos em um campo de trabalhos forçados. Era epiléptico, e sua saúde mental sofreu por ter sido submetido a uma execução simulada, ficando diante de um pelotão de fuzilamento para ser liberado só no último instante. Seu crime foi pertencer a uma sociedade secreta de cunho liberal.
Dostoiévski teve experiência direta com o sofrimento e a tragédia em altas doses: um campo de trabalhos russo, em meados do século XIX, superlotado, onde faltavam alimento e higiene e abundavam piolhos e doenças. Já na casa dos 40 tentava entender o sentido de toda aquela perversidade e violência, à luz da influência das ideias que vinham do Ocidente, que incluíam o Utilitarismo inglês de Bentham e Stuart Mill, o Marxismo Utópico e um conjunto de ideias que você teria aprovado — Darwinismo Social. Dostoiévski também lutava para compreender como o cristianismo podia resistir ao novo Niilismo Russo (que rejeitava todas as formas de religião, moralidade e política). Os conflitos e tensões entre essas ideologias rivais e a religião são, com efeito, dramatizadas em detalhes em seus grandes romances".

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2013.

Hebe Laghi de Souza: "Darwin e Kardec: um diálogo possível"


Hebe Laghi de Souza: "Darwin e Kardec: um diálogo possível"

Num dias desses, “passeando” pela Internet, dei por conta do livro "Darwin e Kadec, um diálogo possível", da bióloga Hebe Laghi de Souza. Por simples curiosidade li toda a obra. Já era do meu conhecimento que o religioso Allan Kardec, ao erguer sua doutrina espírita, utilizou-se dos pressupostos evolucionistas, mais precisamente do conceito de "evolução como progresso". E o objetivo deste livro, é exatamente o de tentar "provar" que "as leis da natureza, reveladas por Charles Darwin, se põe paralelas às do mundo espiritual, codificadas por Allan Kardec". Vejamos alguns enxertos da referida obra.
"O impacto causado pelo livro de Charles Darwin foi bem mais rumoroso que o de Allan Kardec porque, não somente mostrava o homem como animal, como fazia mais do que isso, excluía completamente a existência de Deus.
O Espiritismo, muito embora tenha atingido também os princípios religiosos reinantes naquele momento e, da mesma forma, tenha abordado a evolução, um pouco mais ainda que a teoria de Darwin, apresentando todos os fatos desde a origem do universo, abria as portas para uma visão de Deus, apesar de bem diferenciada daquela que, até então, havia reinado no coração e no entendimento das pessoas; e indicava, além disso, um caminho inédito para alcançá-lo. Muitos se renderam a ele e dele se tornaram adeptos.
As religiões tradicionais, porém, o enfrentaram, assim como todos os que permaneceram fiéis a elas. Allan Kardec foi, portanto, também criticado, discutido e contestado.
Quanto à sociedade, havia a possibilidade de escolha, podia ou não aceitar a nova filosofia religiosa; para os que a ela aderiram foi possível entender que não apenas nos indicava uma procedência evolutiva a partir dos símios, como descendentes deles, mas que em uma época de nossa vida fomos símios, cobrimo-nos com aquela vestimenta. Fomos gorilas, não apenas descendemos deles!
Esse, para mim, é o aspecto mais importante da teoria espírita, ou seja, o de nos colocar como seres espirituais, apontando o caminho para a conquista da superioridade, para a construção de nós mesmos, por meio de um contínuo evoluir. Mostra-nos a tortuosa estrada pela qual temos passado, desde os elementos mais simples como os átomos, invertebrados, vírus e bactérias, vermes e insetos até aos vertebrados como peixes, répteis, mamíferos e, destes aos símios, dos quais descendemos. Na fronte não ostentamos, em nossa origem, o timbre da realeza, nem nos foi dado um paraíso celestial do qual acabamos por ser expulsos pela nossa imperfeição.
A Sabedoria Divina nos criou simples e ignorantes, mas dispôs nosso futuro de forma que pudéssemos alcançar o lugar que desfrutamos, como seres humanos, trazendo impressos na alma os primórdios dos conhecimentos instintivos sobre nós mesmos, sobre o amor, sobre o altruísmo e o respeito à vida de um modo geral.
O kardecismo apresenta, pois, o espírito humano como produto decorrente de um longo processo evolutivo a partir do princípio inteligente até a alma humana. Durante o decorrer desse processo, imprimimos em nosso íntimo o conhecimento de nós próprios e do universo, de Deus Criador e de sua natureza eterna, sábia e cheia de amor."

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2012.

Thomas Huxley: "Darwiniana: A Origem das Espécies em debate"


Thomas Huxley: "Darwiniana: A Origem das Espécies em debate"

Li recentemente este livro publicado pela Editora Madras, que reúne alguns ensaios de Thomas Huxley, cientista e grande amigo do naturalista inglês Charles Darwin. Por sua defesa apaixonada ao autor de "A Origem das Espécies", Huxley recebeu a merecida alcunha de "Bulldog de Darwin".
No ensaio VIII ("Charles Darwin"), de 27 de abril de 1882, no mesmo mês e ano da morte de Darwin, escreveu fazendo jus ao seu "cão de Darwin":
"Era esse raro e maior talento que mantinha sua viva imaginação e grande poder especulativo, dentro dos devidos limites, que o impeliu a empreender os trabalhos prodigiosos da investigação e da leitura original sobre as quais suas obras publicadas se basearam; que o fizeram aceitar críticas e sugestões de qualquer e de todas as pessoas, não somente com paciência, mas com expressões de gratidão e, às vezes, comicamente, além de seu real valor, e que o levou a não permitir que ninguém fosse ludibriado por frases e sem economizar tempo e sacrifícios para conseguir ideias claras e distintas a respeito de cada tópico em que estivesse envolvido.
Conversar com Darwin trazia sempre a lembrança de Sócrates. Havia o mesmo desejo em encontrar alguém mais sábio do que ele; a mesma crença na soberania da razão; o mesmo bom humor imediato; o mesmo interesse colaborativo em todas as formas e trabalhos dos homens. Em vez de desistir a respeito dos problemas da Natureza, considerando-os impossíveis de solução, nosso filósofo moderno dedicou sua vida inteira em atacá-los com o mesmo espírito de Heráclito e de Demócrito, cujos resultados são a substância da qual suas especulações eram apenas sombras auspiciosas".
Destaco ainda, tomando por fundamento o referido Ensaio, a opinião de Huxley sobre o conceito de “evolução” em três importantes nomes da contemporaneidade de Darwin, incluindo este:
"Os srs. Wallace e Mivart ainda vão além. Eles são tão fortes adeptos da evolução quanto o próprio sr. Darwin. Mas o sr. Wallace nega que o Homem possa ter evoluído de um animal inferior pelo processo da seleção natural o qual, tanto ele como o sr. Darwin, acreditam ter sido suficiente para a evolução de todos os animais abaixo dele. Enquanto o sr. Mivart, admitindo que a seleção natural foi uma das condições da evolução dos animais abaixo do Homem, acredita que a seleção natural, mesmo no caso desses animais, deva ter sido complementada por "alguma outra causa" - de cuja natureza, infelizmente, ele não tem nenhuma ideia. Dessa forma, o sr. Mivart é menos darwiniano que o sr. Wallace, pois tem menos fé no poder da seleção natural. Entretanto, ele é mais evolucionista do que o sr. Wallace, porque este pensa que seja necessário apelar para um agente inteligente - uma espécie de sir John Sebright sobrenatural - para produzir até mesmo a estrutura animal do Homem, enquanto o sr. Mivart não precisa de assistência divina para chegar à alma do mesmo."

É isso!

Iba Mendes
São Paulo, 2012.

Denis Buican: "Darwin e o Darwinismo"


Denis Buican: "Darwin e o Darwinismo"
Como de hábito, perambulando em um dos muitos sebos do centro de São Paulo, deparei-me com o livro "Darwin e o Darwinismo", do professor da Sorbonne, Denis Buican. Embora o autor seja aparentemente mais um dos que colaboram no processo de "endeusamento" do naturalista inglês Charles Darwin, quando, porém, discorre acerca da Eugenia, não o isenta da pecha dessa teoria racista, outrora apreciada e glorificada como “lídima ciência”. Se não, vejamos...

Para Darwin, a jóia da civilização europeia é o mundo anglo-saxão: "A superioridade notável que tiveram, sobre outras nações europeias, os ingleses, como coloniza-dores, superioridade atestada pela comparação dos progressos realizados pêlos canadenses de origem inglesa com os de origem francesa foi atribuída à sua 'energia persistente e à sua audácia'; mas quem poderia dizer como os ingleses adquiriram essa energia? Certamente, há muita verdade na hipótese que atribui ã seleção natural os maravilhosos progressos dos Estados Unidos, assim como o caráter de seu povo; os homens mais corajosos, mais enérgicos e mais empreendedores de todas as partes da Europa emigraram durante as dez ou doze últimas gerações, para irem povoar esse grande país e lá prosperaram.
Assim, Darwin volta à sua teoria da seleção natural, para explicar o progresso da humanidade e dos povos: "Se não tivesse sido submetido à seleção natural durante os tempos primitivos, o homem, certamente, nunca teria atingido a posição que ocupa hoje. Quando vemos, em muitas partes do mundo, regiões extremamente férteis, povoadas por alguns selvagens errantes, enquanto poderiam alimentar numerosas famílias prósperas, inclinamo-nos a pensar que a luta pela existência não foi suficientemente rude para forçar o homem a atingir seu estado mais elevado.
Falando da ação da seleção natural sobre as nações "civilizadas", Darwin fica muito próximo das ideias de Wallace e Galton, isto é, da eugenia: "Entre os selvagens, os indivíduos fracos de corpo ou de espírito são prontamente eliminados, e os sobreviventes são geralmente notáveis por seu vigoroso estado de saúde. Quanto a nós, homens civilizados, fazemos, ao contrário, todos os esforços para deter a marcha da eliminação; construímos hospitais para os idiotas, os inválidos e os doentes; fazemos leis para ajudar os indigentes; nossos médicos utilizam toda a sua ciência para prolongar, tanto quanto possível, a vida. Podemos crer que a vacina preservou milhares de indivíduos que, fracos de constituição, te riam outrora sucumbido à varíola. Os membros débeis das sociedades civilizadas podem, pois, reproduzir-se in definidamente. Ora, quem trata de reprodução de animais domésticos sabe perfeitamente quanto essa perpetuação dos seres débeis deve ser nociva à raça humana.
Apesar desse temor pela descendência do homem, na ausência da seleção natural, Darwin, moderado por uma concepção humanista, não leva seu raciocínio até um eugenismo exacerbado, pois, diz ele, abandonando os fracos e os inválidos, "só poderíamos ter em vista uma vantagem eventual, às custas de um mal presente, considerável e certo. Devemos, pois, suportar sem nos queixarmos os efeitos incontestavelmente maus, que resultam da persistência e da propagação dos seres débeis. Parece, todavia, que existe um freio para essa propagação, pois os membros doentios da sociedade se casam menos facilmente que os membros sãos. Esse freio poderia ter uma eficácia real, se os fracos de corpo e de espírito se abstivessem do casamento; mas esse é um estado de coisas que é mais fácil desejar que realizar".

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2011.

William Shakespeare: “As Alegres Senhoras de Windsor"


William Shakespeare: “As Alegres Senhoras de Windsor"
Como toda comédia de Shakespeare, “As alegres senhoras de Windsor” é o enquadramento perfeito da máxima latina “Ridendo castigat mores”: instrui ao mesmo tempo em que diverte... A sagacidade das senhoras Ford e Page, aliada à fútil ostentação de Sir John Falstaff é de fazer “rir até cuspir o fígado”:
FALSTAFF — Deixa de trocadilhos, Pistola! É verdade que tenho uma cintura de duas jardas; mas neste momento não importa meu cinto, mas o que sinto. Em resumo, rapazes, tenho em mente fazer a corte à mulher do Ford. Estou certo de que hei de divertir-me bastante: conversa bem, é afável, sabe convidar a gente com o rabo do olho. Interpreto perfeitamente o seu estilo familiar. Mas o mais renitente trecho de sua conduta poderá ser traduzido da seguinte maneira: “Chamo-me sir John Falstaff! / FALSTAFF — Tenho aqui comigo uma carta escrevi para mandar-lhe, e uma outra para mulher de Page, que, faz pouco tempo, me lançou olhares animadores e examinou o meu físico com miradas judiciosas, ora dourando-me os pés com raios dos olhos, ora o ventre avantajado. / FALSTAFF — Percorreu minhas formas exteriores com tão ávida curiosidade, que o apetite de seus olhos parecia queimar-me como um espelho ustório. Esta carta aqui é para lhe ser entregue. É ela, também, quem dirige a bolsa do casal; é um trecho da Guiana, rica em ouro e liberalidades. Passarei a ser o coletor de ambas, e elas o meu tesouro, as minhas Índias orientais e ocidentais, comerciando eu pelos dois lados. Leva esta carta para a senhora Page, e tu, esta outra para a senhora Ford. Vamos ficar ricos, rapazes! Vamos ficar ricos!
SENHORA FORD — Como! Das cartas amorosas escapei no bom tempo de minha beleza, para tornar-me agora assunto delas? Vejamos: “Não me pergunteis o motivo de vos amar, porque embora o amor empregue a razão como seu médico, não a admite como conselheira. Já não sois jovem, como eu também não o sou; tendes gênio alegre, tal como eu, ah! ah! Para que maior simpatia? Gostais de xerez tanto quanto eu. Poderíeis desejar maior afinidade? Em resumo, senhora Page, basta saberes — se o amor de um soldado te for suficiente — que te amo. Não direi que te apiades de mim, por não ser soldadesca semelhante frase. Direi apenas: ama-me! Do teu cavaleiro que ao claro luzeiro do sol ou candeeiro por ti, prazenteiro, saudara o coveiro, lutando primeiro com o mundo inteiro. John Falstaff.” Que Herodes da Judeia será este? Oh mundo perverso! perverso! Um sujeito quase de todo roído pela idade, e que se comporta como um moço conquistador! em nome do diabo, que gesto refletido de minha parte poderá ter surpreendido esse bêbedo flamengo em minhas conversações, para ousar assaltar-me por esse modo? Como! Não chegou a conversar comigo nem três vezes! Que lhe poderia ter eu falado? De todas essas vezes fui muito frugal com relação à minha alegria — o céu que me perdoe! — Ora essa! Vou apresentar no parlamento uma lei para supressão de todos os homens. De que modo poderei vingada hei de ser, tão certo como serem feitas de pudim as minhas vísceras.
SENHORA PAGE — Carta por carta, com a diferença de que onde uma traz o nome “Ford” a outra mostra o nome “Page”. Para tranquilizar-te a respeito do mistério de tua má reputação, aqui tens a irmã gêmea de tua carta. Mas que fique a herança para a tua, porque posso assegurar-te que a minha jamais a reclamará. Aposto como ele tem um milheiro dessas cartas, com o lugar para o nome. E mais: que estas já estão em segunda edição. Sem dúvida alguma, vai publicá-las, porque para ele pouco importa o texto, contanto que o nosso nome esteja no meio. Eu preferia ver-me transformada em um dos gigantes e ficar debaixo do monte Pélion. Pelo que vejo, é mais fácil encontrar vinte rolinhas lascivas do que um homem casto.
Temas comuns em Shakespeare norteia toda à peça, como o ciúme, algo muito bem realçado em Ford, o gentil-homem de Windsor, que chega a se disfarçar com o intuito de trazer á tona a suposta perfídia de sua esposa e a canalhice de Falstaff:
FORD — Muito embora Page seja um imbecil pachorrento e confie demais na fragilidade de sua mulher, não porei de lado minhas desconfianças assim com facilidade. Ela esteve com Falstaff em casa de Page, não sabendo eu o que fizeram por lá. Muito bem; vou estudar o caso mais de perto. Tenho um disfarce para sondá-lo. Se eu verificar que ela é honesta, não darei por perdido o trabalho. Caso contrário, foi muito bem empregado. / FORD — Que epicúrico amaldiçoado é este miserável! Sinto o coração partir-se-me de impaciência. E ainda haverá quem me venha dizer que o meu ciúme é intempestivo? Minha mulher lhe mandou recado; a hora está marcada; é negócio feito. Alguém poderia pensar em semelhante coisa? Vede que inferno é possuir uma mulher falsa. Vou ficar com o leito poluído, os cofres saqueados, a reputação estraçalhada. E não somente terei de suportar todos esses ultrajes, como ainda serei forçado a ouvir os mais abomináveis qualificativos, da boca, justamente, de quem me lança todo esse opróbrio. Que qualificativos? Que nomes? Arnaimom soa bem; Lúcifer, bem; Barbason, bem. No entanto são qualificativos do diabo, nomes do demônio. Mas cornudo, cabrão, chifrudo! Nem o próprio diabo tem esses nomes. Page é um asno, um asno sossegado; confia na mulher, não sente ciúmes. Eu preferira entregar toda minha manteiga a um holandês, meu queijo ao pastor Hugo, o galense, minha garrafa de aguardente a qualquer irlandês, ou o meu cavalo castrado a um ladrão, para dar um passeio nele, a deixar minha mulher com ela própria. Ela enreda, rumina e trama; o que as mulheres resolvem no coração tem de ser levado a cabo; ainda que se lhes parta o coração, têm de ir até ao fim. Louvado seja Deus por causa do meu ciúme. Onze horas é a hora combinada. Vou impedir isso, surpreender em flagrante minha mulher, vingar-me de Falstaff e zombar de Page. Não perderei tempo. Melhor chegar três horas mais cedo do que atrasado de um minuto. Sim, senhor! Sim, senhor! Cabrão! Cabrão! Cabrão!
A senhora Quickly, que diz detestar mexericos, é a típica expressão de uma astuta alcoviteira. Aliás, outro tema comum, não apenas em Shakespeare, como na dramaturgia universal ao longo de sua história. Vemos isso de modo destacado em Gil Vicente, na pessoa de Brísida Vaz, na peça “Auto da Barca do Inferno”. Quickly, como uma boa agenciadora de casamentos, sempre sabe satisfazer seus “clientes”:
QUICKLY — Está bem. Mas ainda tenho outro recado para Vossa Senhoria: a senhora Page também se recomenda de coração a Vossa Senhoria. E permiti que vos diga ao ouvido: ela é fartuosa como o pode ser uma mulher civil e honesta, uma mulher, posso asseverar-vos, que nem de manhã nem de tarde deixa de dizer as suas orações, tão bem como qualquer mulher de Windsor, seja ela quem for. Pediu-me que dissesse a Vossa Senhoria que o marido dela raramente para fora de casa, mas que ela espera que não há de faltar ocasião. Nunca vi uma mulher tão obcecada por alguém. Só parece que tendes feitiço, não? É pura verdade. / QUICKLY — Oh, senhor! Ela lamenta o que aconteceu; se a vísseis, ficaríeis comovido. O marido dela vai caçar passarinhos esta manhã. Ela pede que a vades ver hoje, entre as oito e as nove. Terei de levar-lhe a resposta com a maior urgência possível. Ela vos apresentará desculpas, posso asseverar-vos.
Shakespeare não é apenas recomendado como leitura, mas asseverado como obrigatório, pelo menos para quem deseja algo mais do que o simples entretenimento.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2013.

Imre Kertész: “Kadish por uma criança não nascida”


Imre Kertész: “Kadish por uma criança não nascida”

Embora aparentemente contraditório, uma vez que o Kadish só pode ser recitado por adultos (idade de bar-mitsvá para cima), o título sintetiza em si a essência da obra.
Como se sabe, além de ser uma oração feita pelos cultuantes, após a morte de um parente, o Kadish assinala ainda o fim de uma seção litúrgica recitada pelo Chazan (cantor litúrgico). Em “Kadish por uma criança não nascida” o autor parece representar a figura do Chazan, “recitando” negativamente suas experiências de judeu durante o regime nazista. O contraditório recai no fato de sua “liturgia” não tem fim, e o seu “luto”, ao contrário do que ensina a tradição judaica, a qual não permite a recitação do Kadish durante os doze meses que procede a morte do cultuado, aqui é incessante e, diferentemente desta mesma tradição, o seu “Kadish” é “recitado” em vida: sua vida é sua morte.
Todo o texto faz transparecer as características de uma verdadeira liturgia. Observa-se, tal qual nas rezas, a repetição constante de palavras. Dos poucos parágrafos existentes, a maior parte são marcados pela repetição do NÃO!, palavra esta que resume o teor negativista da obra, que se abunda de termos e expressões deste mesmo jaez, tais como: doença insidiosa, paranoia moralizante, compulsão discursiva, esclerose dos sentimentos, regato fétido, céu de cores sujas, sonhos medonhos, sorriso cínico-feliz, infame existência, nostalgia, melancolia, sentimento de culpa, cadáver, espetáculo assombroso, atmosfera escura e densa de horror, perversidade repugnante, existência desagradável entre muitas outras. E tudo isto torna a obra bastante verossímil, visto que é reflexo da própria existência do autor: o ambiente em que foi criado, a educação que lhe foi dada, e, mais acentuadamente, a experiência de ser judeu, portanto, um estranho na sua própria terra: “mais tarde, quando tornou-se cada vez mais importante o fato de eu ser também judeu, pois tornou-se lentamente evidente que, em geral, isso era punido com a morte, tive que provavelmente ver apenas esse fato estranho e incompreensível – isto é, que eu sou judeu – em sua necessária particularidade ou pelo menos sob outra visada, subitamente me flagrei por saber exatamente o que sou: uma mulher careca com robe vermelho em frente ao espelho”.
Não obstante fosse um judeu totalmente assimilado, Kertész não foi poupado da perseguição voraz do nazismo. Este fato, aparentemente simples, isto é, o fato de ser um judeu, tornou-se a causa de todas as suas desgraças. Tudo nele foi assinalado por esta traumática experiência: seu trabalho: “meu trabalho, que na verdade nada mais é que um cavar, o prosseguimento do cavar naquela cova que outros começaram a cavar no ar para mim”...pois minha pá é a caneta esferográfica”; seu fracasso matrimonial: “E aí ela ainda disse, rápida e sobriamente, como se se tratasse de uma notícia desagradável que, porém, perde seu gosto desagradável imediatamente após me ser comunicada, sim, não teria sentido esconder, ela ‘teria alguém’, alguém com quem ela acredita que se casará. E ele não seria, disse ela, judeu”. Sua vida, enfim.
“Kadish por uma criança não nascida” foi, portanto, como o próprio autor afirma, o último grande esforço que teve em demonstrar sua vida amargurada e decrépita, vida esta que permaneceria guiada pela culpa e estranheza de ser apenas um judeu: “a demonstrei para então me colocar a caminho, com a trouxa dessa vida nas mãos elevadas, e afundar nas negras águas de um rio escuro, oh Deus! deixe-me afundar... Amém”. Este amém encerra a melancólica “liturgia” que, embora “recitada” por um só homem, reflete a angústia de toda uma geração.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2003.

Amós Oz: “Meu Michel”


Amós Oz: “Meu Michel

Pergunto-me porque o sofrimento de outras pessoas nos parecem enredo de operetas. Será que é só porque são outras pessoas?
Desenvolvido na década de sessenta, o romance “Meu Michel”, trata do processo de desgaste psicológico de Hana Gonen. A narrativa dá-se na década de cinquenta, nos anos de consolidação da independência, quando Israel expande suas fronteiras para além dos limites estabelecidos em 1948. Os fatos desenvolvem-se na Jerusalém de Amós Oz. Uma cidade de montanhas sombrias, muralhas antigas, bairros estranhamente divididos, ruas de traçados tortuosos e ruelas de formatos extravagantes. Na verdade, a cidade de Jerusalém liga-se, metaforicamente, ao universo intimista da personagem Hana. Tal qual a personagem, Jerusalém, como ela mesma afirma: “É uma cidade recolhida dentro de si mesma”.
Por sua vez, Hana é uma metáfora do próprio Estado do Israel que acabara de nascer. Os sonhos de Hana Gonen são os sonhos dos novos imigrantes judeus; a ambição dela é a mesma dos novos israelenses; seus ideais, que envolve a fantasia, são semelhantes aos dos nacionalistas intolerantes e dominadores. Como é sabido, os imigrantes dessa nova Aliot, eram pessoas utopicamente sonhadoras, idealistas, ambiciosas, que almejavam um Estado forte; alguns deles, muito mais que isso, desejavam um espaço geográfico extenso como nos antigos tempos bíblicos. O próprio título do livro, o emprego proposital do possessivo, já carrega em si a ideia de domínio e de posse. No romance, a personagem Hana é assim dominadora. Mesmo nos momentos de quase total esquizofrenia, ela exerce poder sobre os outros. Ela seduz. Algumas vezes é rainha, outras, princesa, imperatriz, comandante, juíza etc. Esse domínio não se dá apenas no plano dos sonhos, em suas alucinações delirantes. Na vida prática, embora não exerça diretamente um domínio sobre o próprio esposo, ela o manipula psicologicamente através do sentimento de culpa. Ela está sempre revelando a força avassaladora de seus desejos reprimidos. De forma perversa, ela tenta seduzir o jovem Yoram, o qual sempre teve uma educação dentro dos mais severos preceitos religiosos. No plano da memória, esse domínio manifesta-se, entre outros casos, na subjugação dos gêmeos árabes. Não seria isso uma metáfora da realidade Israelense em nossos dias? Até os fatos já consumados ela procura subvertê-los. Citando a personagem bíblica Tamar, que foi violentada e humilhada pelo próprio irmão Amnom, ela faz uso do domínio ao mesmo tempo que se embebe do devaneio: “Se eu fosse Tamar, faria Amnom ajoelhar-se à minha frente por sete noites. Depois que ele confessasse, em linguagem bíblica, os tormentos do seu amor, eu lhe ordenaria que me transportasse num barco a vela para as ilhas do arquipélago, para a vastidão onde os peles-vermelhas transformam-se em seres marinhos...”.
Esta associação da personagem Hana Gonen com a nação emergente de Israel, parece se realçar com a insistente menção da cor azul; cor esta que faz parte da bandeira nacional: “Michel observou timidamente que eu parecia mais feminina pela manhã, com o vestido azul, aos seus olhos, é claro”. / “Pus o vestido de lã azul e amarrei um lenço de seda”. / “Eu gostava de pôr o avental azul”. / “Ela fez para Michel e para mim um pulôver azul cinzento, da cor dos olhos tranquilos”. / “Quando eu era aluna da Universidade, costumava vestir, durante todo o inverno, um vestido de lã azul”. / “Pintamos o quarto de Yair de azul”. / “Uma menina bonita e inteligente num casaco azul”. O azul aparece também em suas alucinações, de maneira até hiperbólica: “Remendos azuis navegavam para o oriente”. / “Entre um sono e outro, o bebê abaria as pálpebras e mostrava duas ilhas de um azul translúcido. Parecia que esta era sua cor interior e que através das frestas dos olhos apareciam só os fragmentos de um azulradiante... / “Mas quando viro a cabeça, vejo a aldeia árabe de Schaafat do outro lado da fronteira, inundada de luz azul”. / “Um dia de um azul transparente repleto de sons e visões”. / “Uma veia azul, incha a atravessa a fonte de Halil”. / “...meu olhas se dirige para o retângulo inundado de azul que é a janela da cozinha”. / “De repente, percebi através das ondas de luz azulada que meu filho será um homem robusto e bonito”. Em alguns casos, outras cores se transformam no azul: “...nos edifícios de pedras cinzenta, que às vezes se tornam azuladas...” Nomes de coisas ou objetos são também azuis: “Num sábado azul, uma primavera repentina...” / “Um vapor azul sobe do deserto da Judéia” / “Bandos de pássaros migrantes percorriam espaços azuis”. Esta asserção, embora especulativa, parece verossímil se levarmos em conta a essência da obra, uma vez que os sonhos e as fantasias estão diretamente ligados à cor azul.
Ao contrário, quando se refere ao marido, Hana sempre faz menção de “cores mortas”: “Seus olhos eram cinzentos”. / “Enviei as duas mãos nos bolsos das calças de veludo marrom”. / “A amiga de Michel era uma mulher magra, alta e amarga. Com seus cabelos cinzentos...” / “Os olhos do Michel são cinzentos”. / “Michel e o pai vestiam ternos pretos”. / “Durante a maior parte do dia Michel ficava sentado numa poltrona, calçando chinelos de cinza claro e escuro”. O próprio gato, que se chamava Branquinho, era na verdade cinza: “Branquinho não era um gato branco, mas acinzentado”.
A figura paternalista da personagem Michel, parece associar-se ao judeu pacífico e tradicionalista, que vivia ordeiramente com os irmãos árabes, antes da fundação de Israel. O fato de estudar geologia, faz transparecer o apego à terra em si, ao amor à terra de Israel.
Sintetizando: a oposição Hana/Michel, parece ser uma metáfora ou uma espécie de simbologia entre o judeu europeu cheio de sonhos e o judeu patriarcal do Oriente. Como sabemos, o autor, Amós Os, é um grande pacifista, que luta pela tolerância entre os povos da região. Embora aparentemente não haja no romance um sentido político, na realidade, parece que o autor criou propositadamente duas personagens de gênios opostas, que são obrigados a conviver pacificamente dentro dos limites da tolerância mútua. A tolerância parece ser a grande questão do livro.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2003.