quinta-feira, 22 de outubro de 2020

As joias (Conto), de Guy de Maupassant


 As joias

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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O Sr. Lantin, encontrando a senhorita em um evento na casa do seu chefe de seção, enamorou-se perdidamente dela.

Era filha de um cobrador da província, já falecido. Tinha vindo a Paris com a mãe, que frequentava algumas famílias na vizinhança, com a esperança de casá-la. Eram ambas pobres e estimáveis, tranquilas e suaves. A rapariga parecia o tipo absoluto da mulher honesta, a quem o rapaz sonha em confiar a sua existência.

De uma beleza modesta, possuía o atrativo de um pudor angélico e o sorriso imperceptível que não lhe abandonava os lábios, parecia um reflexo do seu coração.

Todos a admiravam e as que a conheciam, repetiam continuamente:

“Feliz aquele que a desposar. Não se se pode encontrar melhor”.

O Sr. Lantin, então ajudante de primeira classe do ministério do interior, com três mil francos por ano de vencimentos, pediu a sua mão e casou com ela. Foi de uma felicidade incrível...

Ela mantinha a casa com tanta habilidade e economia, que viviam quase com luxo. Não havia gentileza, nem atenção que ela não dispensasse ao marido; e o encanto da sua beleza era tão grande, que seis anos depois do casamento, ele estava ainda mais enamorado do que nos primeiros dias.

Só duas coisas desagradavam ao marido: a sua paixão pelo teatro e pelas joias falsas.

Suas amigas (conhecia algumas senhoras de empregados modestos) procuravam-na para as primeiras representações ou para as peças em voga e ela arrastava o marido, que se cansava muito com esses divertimentos, depois de um dia de trabalho. Então ela lhe pediu que a deixasse ir com alguma senhora do seu conhecimento, que pudesse voltar com ela. Foi preciso tempo para habituar-se a este sistema, que lhe parecia inconveniente; decidindo-se por fim por complacência e ela lhe ficou muito agradecida.

Ora, esta paixão pelo teatro suscitou nela a necessidade de enfeitar-se. Seus vestidos continuavam simples e de bom gosto sempre; e a graça irresistível, humilde e sorridente, aumentava um novo encanto à sua simplicidade. Mas habituou-se a pendurar às orelhas duas grossas pedras do Reno, que imitavam diamantes, a trazer colares e braceletes de pedras falsas.

O marido que se aborrecia um pouco com esta mania pelas pedras falsas, repetia-lhe:

— Querida, quando não se tem meios de comprar joias verdadeiras, não se apresentam outros adornos senão o da própria graça, que são ainda as melhores joias.

E ela respondia sorrindo:

— Que queres? E o meu vício, agrada-me tanto. Sei que tens razão, mas não me corrijo. Como eu adoraria as joias...

E fazia passar pelas mãos os colares de pérolas, brilhar as facetas de cristal lapidado, repetindo:

— Mas vê só como são bem trabalhadas. Até parecem verdadeiras.

Ele sorria declarando:

 Tens gostos de cigana.

Algumas vezes, à noite, quando estavam junto do fogão, ela colocava sobre a mesa em que tomavam chá, a pequena caixa de marroquim que escondia o seu “tesouro”, na frase do Sr. Lantin, e punha-se a examinar aquelas joias falsas com uma atenção apaixonada; colocava um colar no pescoço do marido, para rir de todo o coração, exclamando: “Como estás ridículo”. Depois atirando-se aos seus braços beijava-o repetidamente.

Uma noite de inverno foi ao teatro e quando voltou à casa tremia de frio.

No dia seguinte tossia e oito dias depois morria de uma pneumonia.

Lantin quase a seguiu; o seu desespero foi tão forte que, em um mês, seus cabelos embranqueceram. Chorava noite e dia, com a alma dilacerada por uma dor intolerável, cheio de recordações do sorriso, da voz, dos encantos da pobre morta.

O tempo não lhe diminuía a mágoa. Muitas vezes, durante as horas de trabalho, enquanto seus companheiros reuniam-se a discutir os assuntos do dia, seus olhos se enchiam de lágrimas e soluçava. Havia conservado intacto o quarto da sua pobre mulher e todo o dia a ele se recolhia para pensar nela; a mobília, os vestidos ocupavam o seu antigo lugar. Mas a vida tornava-se intolerável para ele.

O ordenado que nas mãos da mulher, chegava para todas as necessidades da família, não era agora suficiente para ele sozinho. 

E perguntava então a si mesmo, que faria ela para dar-lhe vinhos excelentes, iguarias escolhidas, que agora não podia conseguir com seus modestos vencimentos.

Fez algumas dívidas e procurou dinheiro como um homem reduzido a expedientes. Certa manhã, quando estava sem vintém, e faltava ainda uma semana para o fim do mês, lembrou-se de desfazer-se do “tesouro” da mulher, pois no fundo do coração conservava ainda uma espécie de rancor por aqueles ouropéis. Cada vez que o olhava experimentava um sentimento de desgosto que escurecia a recordação da esposa. Procurou entre as joias, que usara até o último momento, a que ela parecia preferir e decidiu-se pelo colar, que podia valer, pensou ele, seis a oito francos, porque era na verdade bem trabalhado. Pô-lo no bolso, foi para o Ministério e em caminho procurou um ourives que lhe merecesse confiança. Encontrou um, e ficou um pouco envergonhado de exibir a sua miséria e de vender um objeto de tão pouco valor.

— Sr. disse ao negociante, desejo saber quanto vale este objeto.

O ourives pegou no colar, examinou-o, estendeu-o no balcão, tomou uma lente, falou em voz baixa ao caixeiro, tornou a colocá-lo no balcão e pôs-se a olhá-lo de longe para ver o efeito que fazia.

O Sr. Lantin, aborrecido com toda esta mímica ia dizer: “Sei bem que não tem grande valor”, quando o ourives lhe disse:

— Senhor, este colar vale de doze a quinze mil francos, mais eu não posso comprá-lo sem que me explique a sua procedência.

O viúvo arregalou os olhos, espantado, como se não tivesse compreendido:

— Como?

O outro respondeu-lhe em tom seco, ignorando o motivo do seu espanto:

 Pode procurar outro que lhe dê mais Para mim vale no máximo quinze mil  francos. Pode voltar aqui se não encontrar melhor oferta.

Lantin, aturdido, desesperado, retomou o colar e saiu, obedecendo a uma confusa necessidade de ficar só e refletir.

Mas apenas chegou à rua, sentiu necessidade de rir e pensou: “Que imbecil: Se eu tivesse aceitado a sua oferta! Ali está um ourives que não sabe distinguir o verdadeiro do falso”.

Foi a outro, que ficava na embocadura da rua de La Paix. Este apenas viu a joia exclamou:

 Oh! Conheço bem este colar. Fui comprado aqui.

Lantin, perturbadíssimo, perguntou quanto valia.

—Vendi-o por vinte cinco mil francos e estou pronto a dar-lhe já, por ele, dezoito mil francos, com tanto que, em obediência a uma disposição legal, me diga como está de posse dele.

Desta vez Lantin não pôde se conter:

— Mas, repare bem, atentamente; pensei até agora que fosse falso.

O joalheiro disse:

— Queira ter a bondade de dizer-me seu nome.

— Chamo-me Lantin, sou empregada no Ministério do Interior e resido à Rua dos Mártires nº 16.

O joalheiro abriu um livro, procurou e disse:

— De fato, este colar foi mandado para o endereço da Sra. Lantin, 16, Rua dos Mártires, em 20 de julho de 1876.

Os dois homens fixaram-se; o empregado aturdido de espanto e o ourives desconfiando de que fosse algum ladrão.

Este último pediu:

— Quer ter a bondade de entregar-me este objeto por 24 horas. Passo-lhe recibo.

— Pois não.

E Lantin saiu com o recibo no bolso.

Atravessou a rua, viu que se enganava, tornou a descer para as Tolherias, passou o Sena, tornou a notar que estava enganado, voltou aos Campos Elísios sem uma ideia precisa na cabeça. Esforçou-se para raciocinar, para compreender: sua mulher não podia comprar um objeto de tal valor. Mas então, era um presente! Quem o havia dado? E por quê? Uma dúvida terrível assaltava-o.

— E esta! Mas então todas as outras eram presentes.

Parecia-lhe que a terra tremia.

Estendeu os braços e caiu sem ser tidos.

Tornou a si em uma farmácia para onde o haviam conduzido. Foi para casa. Até a noite chorou desesperadamente, mordendo um lenço para não gritar. Depois deitou-se, fatigado, cheio de mágoas e dormiu um sono pesado.

Um raio de sol despertou-o; levantou-se para ir ao trabalho.

Era duro trabalhar naquele estado de espírito; podia desculpar-se com o chefe e escreveu-lhe. Depois viu que precisava voltar ao joalheiro; sentiu-se cheio de vergonha. Esteve refletindo muito tempo, não podia deixar o colar com aquele homem. Vestiu-se e saiu. Fazia um tempo lindo.

O céu azul estendia-se sobre a cidade, que parecia sorrir. Lantin, pensou, olhando aquela gente, aquela vida.

— Como se é feliz, quando se é rico. Com dinheiro pode-se sufocar a dor; vai-se onde se quer; viaja-se, distrai-se. Oh! Se eu fosse rico.

 Lembrou-se que estava com fome, pois não comia desde a véspera. Mas o seu bolso estava vazio e lembrou-se do colar. Dezoito mil francos!... Já era dinheiro! ...

Voltou para a Rua de la Paix.

Dezoito mil francos! Vinte vezes quis entrar na loja, mas a vergonha detinha-o sempre. Entretanto, tinha fome, muita fome e estava sem vintém.

Decidiu-se bruscamente, atravessou a lua correndo para não refletir e entrou no ourives.

O joalheiro apressou-se em oferecer-lhe uma cadeira, com uma gentileza sorridente. Até os caixeiros olhavam-no de soslaio.

O negociante declarou:

— Estou pronto a pagar a soma que lhe ofereci.

Então o joalheiro foi a um cofre, retirou dezoito bilhetes de mil francos, contou-os e os entregou a Lantin, que passou o recibo e com a mão trêmula pôs o dinheiro no bolso.

Ia sair, mas voltou-se para o negociante, que sorria sempre abaixando os olhos.

— Tenho, tenho, disse, outras joias que couberam na mesma herança. Convir-lhe-ia comprá-las?

— Decerto, senhor.

Um dos caixeiros saiu para rir; outro assoou o nariz com toda a força.

Lantin impassível respondeu:

— Hei de trazê-las. E tomou um carro para ir buscar as joias.

Quando voltou, uma hora depois, ainda não tinha almoçado. Puseram-se a examinar os objetos, um a um. Quase todos tinham sido comprados ali. Lantin ora discutia, zangava-se, exigia que lhe fossem mostrados os livros de venda e falava sempre mais alto à medida que a soma se elevava.

Os dois grandes brilhantes dos brincos valiam vinte mil francos, os braceletes, trinta e cinco mil; broches, anéis medalhões, dez mil; um fio de esmeraldas e safiras, quatorze mil, um solitário preso a uma corrente de ouro, formando um colar, quarenta mil; tudo junto elevava-se à cifra de cento e vinte seis mil francos.

O ourives declarou com uma bonomia irônica:

— Tudo isto pertenceu a uma pessoa que empregava todas as suas economias em joias.

Lantin respondeu gravemente:

 E um modo como outro qualquer de empregar o dinheiro.

Saiu. Quando chegou à rua sentia-se tão leve, que podia saltar sobre uma estátua que se erguia, alta, no centro de uma praça.

Foi almoçar no Voisin e bebeu vinho de vinte francos a garrafa.

Depois tornou um carro e deu um passeio pelo Bois.

Olhava para os outros carros com um certo desprezo e trabalhado peio desejo de gritar aos que passavam:

— Eu também sou rico; tenho duzentos mil francos.

Lembrou-se do emprego e fez-se conduzir ao ministério. Foi resolutamente ao chefe e disse:

— Venho apresentar-lhe a minha demissão. Acabo de herdar trezentos mil francos.

Foi apertar a mão dos velhos companheiros e confiou-lhes logo os seus projetos de vida nova.

Depois jantou no Café Inglês.

Achando-se perto de um senhor, que lhe pareceu muito distinto, não resistiu ao desejo de lhe dizer, com certa maneja, que tinha herdado quatrocentos mil francos.

Pela primeira vez na vida se aborreceu no teatro e passou a noite em festanças.

 Seis meses depois tornava a casar.

A segunda mulher era honestíssima, mas tinha um gênio impossível. Desta vez não foi muito feliz.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O vingador (Conto), de Guy de Maupassant



 O vingador

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Quando Anthony Leuillet se casou com a viúva Matilde Souris, estava apaixonado por ela fazia perto de dez anos.

O Sr. Souris tinha sido seu amigo, seu velho colega de colégio. Leuillet amava-o muito, mas achava-o um pouco ridículo. E dizia muitas vezes: "Este pobre Souris não inventou a pólvora".

 Quando o Sr. Souris se casou com Matilde Duval, Leuillet ficou um pouco surpreso e muito aborrecido, porque ele tinha por ela uma ligeira paixão. Era a filha de uma vizinha, antiga merceeira afastada do comércio com uma pequena fortuna. Ela era linda, delicada, inteligente. Ela quis o Sr. Souris pelo seu dinheiro.

Então Leuillet teve outras esperanças. Fez a corte à mulher de seu amigo. Ele era um bom sujeito e rico também. Estava certo do sucesso e saiu-se mal. Então, tornou-se um apaixonado, cuja intimidade com o marido o tornava tímido, discreto e embaraçado. A senhora Souris julgou que ele não pensava mais nela com ideias atrevidas e tornou-se francamente sua amiga. Isto durou nove anos.

Ora, um dia um mensageiro levou a Leuillet recado da pobre mulher. Souris acabava de morrer subitamente da ruptura de um aneurisma.

Ele teve um abalo forte, porque eram da mesma idade, mas quase depois uma sensação de profunda alegria, de consolo profundo, de resgate que lhe penetrou o corpo e a alma. A senhora Souris estava livre.

Soube mostrar no entanto o ar consternado que era preciso, esperou o tempo necessário e observou todas as conveniências. No fim de quinze dias casou-se com a viúva. Julgou-se este ato natural e mesmo generoso Era assim que fazia um bom amigo e um homem honesto.

Foi feliz, completamente feliz.

Viveram na mais cordial intimidade, tendo se compreendido e apreciado desde o primeiro momento. Não tinham segredos um para o outro, e transmitiam-se seus mais íntimos pensamentos. Leuillet amava agora sua mulher com um amor tranquilo e confiante; amava-a como uma companheira terna e devotada, como a uma confidente. Mas sentia intimamente, um singular e inexplicável rancor contra Souris que a tinha possuído em primeiro lugar, que tinha tido a flor de sua mocidade e de sua alma, que  tinha mesmo lhe tirado um pouco da poesia. A lembrança do marido morto estragava a felicidade do marido vivo; e este ciúme póstumo atormentava agora dia e noite o coração de Leuillet.

Chegava a falar sem cessar de Souris, a perguntar sobre mil detalhes íntimos e secretos, a querer conhecer seus hábitos.

A todo instante chamava a mulher:

— Matilde?

— Pronto, meu querido!

— Vem me dizer uma palavra.

Ela ia sempre sorridente, sabendo bem que se ia tratar de Souris e afagando essa mania inofensiva de seu novo esposo.

— Lembras-te do dia em que Souris quis me demonstrar que os homens pequenos são mais amados que os grandes?

E ela se punha em reflexões desagradáveis para o defunto, que era pequeno com vantagens para Leuillet, que era grande.

E a senhora Leuillet deixava-lhe perceber que ele tinha razão, muita razão; ria-se perdidamente, zombando docemente do antigo esposo, para o prazer do novo, que acabava acrescentando:

— Tudo era assim naquele Souris, que ridículo!

Eram felizes, completamente felizes. E Leuillet não cessava de provar à sua mulher seu amor.

Ora, uma noite, como eles não tivessem sono, emocionados por um raio de juventude, Leuillet que tinha sua mulher apertada nos braços e que a beijava freneticamente, perguntou-lhe de repente:

— Dizes-me uma coisa, querida?

— Hein?

— Souris... é difícil o que vou perguntar-te. Souris era bastante... bastante ardente?

Ela deu-lhe um grande beijo e murmurou:

— Não tanto quanto tu, meu gato.

Ele sentiu lisonjeado o seu amor próprio e replicou:

— Devia ser... ridículo.. dize-me?

Ela não respondeu. Teve apenas um risinho de malícia escondendo a cabeça no peito do marido.

Ele perguntou-lhe:

—Devia ser muito ridículo e não... não... como direi, não muito hábil?

Elia fez um ligeiro movimento de cabeça que significava "não... inábil de todo".

Ele continuou:

— Devia te aborrecer muito durante a noite hein?

Ela teve desta vez um acesso de franqueza respondendo:

— Oh! sim.

Ele beijou-a de novo por esta palavra e murmurou:

— Que bruto era! Não eras feliz com ele?

— Não. Isso, todos os dias, não era divertido.

Leuillet ficou encantado, estabelecendo em seu espírito uma comparação entre a antiga situação da mulher e a nova.

Ficou algum tempo sem falar, depois teve um acesso de alegria e perguntou:

— Dize-me uma coisa?

— Quê?

— Queres ser franca, bem franca comigo?

— Sim, meu querido.

— Está bem. Na verdade tu nunca tiveste vontade de... de... de... de enganar a esse imbecil do Souris?

A senhora Leuillet fez um pequeno "Oh!" de pudor e escondeu-se no peito do marido. Mas ele percebeu que ela se estava rindo.

Ele insistiu.

— Ora, confessa-me? Ele tinha também uma cabeça de... daquele animal. Tu podias dizer isso a mim, a mim, sobretudo.

E insistia no "a mim", pensando que se ela tivesse tido vontade de enganar Souris, seria com ele que o enganaria; e fremia de prazer esperando a confissão, certo de que se ela não tivesse sido a mulher virtuosa que era, ele a teria possuído.

Mas a mulher não respondeu, rindo-se sempre como de uma coisa infinitamente cômica.

Leuillet, por sua vez, pôs-se a rir, só de pensar que ela tivesse enganado Souris. Que bela farsa. Ah! sim, a bela farsa, verdadeiramente!

Balbuciava agitado por sua alegria:

— Esse pobre Souris, esse Pobre Souris, ah, sim, ele tinha cabeça para isso: ah, sim, ah, sim.

A senhora Leuillet torcia-se de rir sob os cobertores.

E ele repetiu:

— Vamos, confessa, confessa. Sê franca. Compreendes bem que isso não pode ser desagradável para mim.

Então, ela balbuciou:

— Sim, sim.

— Sim, com quem? Dize tudo.

Ela não riu mais senão de um modo discreto e levando a boca até aos ouvidos de Leuillet que esperava uma agradável confidência, murmurou:

— Sim... enganei-o.

Ele sentiu um arrepio de frio que lhe correu por todo o corpo e perguntou:

— Tu... tu... o enganaste?

Ela julgou ainda que ele acharia a coisa infinitamente agradável e respondeu:

— Sim... Sim...

Foi obrigado a sentar-se na cama tanto se sentia desfalecer, a respiração cansada, transtornado como se acabasse de saber que o enganado era ele mesmo.

A princípio não disse nada, depois, ao fim de alguns minutos, pronunciou apenas:

— “Ah!”

Ela havia cessado de rir, compreendendo muito tarde sua falta.

Leuillet, enfim perguntou:

— E com quem?

Ela emudeceu, procurando uma mentira.

Ele perguntou de novo:

— Com quem?

Ela enfim respondeu:

— Com um rapaz.

Ele voltou-se para ela bruscamente e numa voz seca disse:

— Certamente que não foi com a cozinheira. Pergunto quem foi o rapaz, entendes?

Ela nada respondeu. Ele  Arrancou o lençol com que ela se cobria e atirou-o no meio do chão, repetindo:

— Quero saber quem foi o rapaz, ouviste?

Então, ela disse tristemente:

— Estava brincando.

Mas ele fremente de cólera:

— Quem? Como? Querias te divertir? Zombavas de mim, então? Mas eu não admito brincadeiras, ouviste? Quero saber o nome do rapaz.

Ela não respondeu, permanecendo imóvel.

Ele tomou-lhe o braço e apertou-o fortemente:

— Ouves-me? Quero que me respondas quando te falo?

Tremia de furor, não sabendo mais o que dizer e desesperado sacudia-a fortemente.

— Entendes-me?

Ela para se livrar fez um gesto brusco e a ponta dos dedos atingiu o nariz do marido. Ele ficou furioso, julgando-se ferido, e atirou-se sobre ela.

E esbofeteava-a e gritava:

— Aí está, aí está, miserável, ordinária.

Depois se levantou e foi à cômoda preparar um pouco de água de flor de laranja, porque se sentia desfalecer.

Ela chorava, soluçando alto, sentindo toda sua felicidade extinguir-se por sua culpa.

Então, no meio das lagrimas dia balbuciou:

— Escuta, Anthony, vem cá, eu te menti, vais compreender, escuta. E pronta para a defesa, armada agora de razões e de ardis, ela levantou um pouco a cabeça.

O marido, voltando-se aproximou-se, envergonhado de ter-lhe batido, mas sentindo no fundo do coração um ódio terrível contra essa mulher que tinha enganado o outro, o Souris.