sexta-feira, 3 de abril de 2020

O Contrato (Estória), de Iba Mendes



O Contrato

Conta-se, segundo uma lenda antiga, que a Morte apareceu ao um homem no dia do seu casamento. No entanto, não veio para levá-lo naquela solene ocasião. Viria depois, mas  para isso propôs-lhe um Contrato, ao que ele de pronto aceitou, impondo, porém, uma condição: que ela o avisasse antes do último momento, a fim de ter tempo suficiente para se arrepender de seus pecados. A Morte concordou...

Passaram-se muitos anos.

Num belo dia, estando ele já velho, admirava de uma rede o esplendor do Sol no imenso horizonte. De repente, a Morte aparece-lhe como num relâmpago, trazendo nas mãos um maço de papéis. Era o Contrato.

O homem, admirado de surpresa, interroga-a:

- Mas tu não me avistaste!

Ao que ela, em tom sereno e firme, responde:

- Como não? Avisei-te, sim, não apenas um dia, mas todos os dias de tua farta existência... Porventura nunca percebeste que tua vista se ia enfraquecendo e que, aos poucos, teus ouvidos ouviam menos? Não notaste teus cabelos se embranquecer e tuas forças diminuírem? Nunca foste a um velório ou nunca leste nos jornais as notas de falecimento? O que eram tudo isso senão muitos avisos de que eu, a Morte, estava me aproximando?

O homem, resignado, admitiu:

- Sim, é verdade, mas eu nunca pensei nisso!

Idade para morrer (Estória), de Iba Mendes


Idade para morrer

Conta-se que um garotinho, estando no velório do seu avô, perguntou inocentemente à sua mãe:

- Mamãe, qual a idade certa para morrer?

A mãe pensou um pouco e, num gesto inusitado,  mandou-o que fosse a um cemitério munido de uma corda, e disse:

- Lá você verá sepulturas de diferentes tamanhos. Pegue a corda e estique-a, e meça o comprimento de cada uma delas. Em seguida vá fazendo um nó conforme o tamanho.  Aí você terá a resposta.

Chegando ao cemitério, o menino começou a medir as sepulturas. Ao final da tarefa, notou que a corda estava repleta de nós, e concluiu para si mesmo:

"Sim, não há idade certa para morrer!"