quarta-feira, 9 de maio de 2018

Cruz e Souza, Poeta e “Ponto” (Crítica), por Luís Rocha


Cruz e Souza, Poeta e “Ponto”
Texto publicado originalmente na revista "Vamos Ler!", em edição de 1942. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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O teatro, esse grande cenáculo assentado num pedestal de esforços e ilusões, sempre teve o dom de atrair os iluminados. É, talvez, o espírito de solidariedade humana.

A larga estrada palmilhada pelos vencedores e vencidos tem o condão de reunir viandantes que desejariam afastar-se da estrada real. Essa, porém, não deixa. É egoísta e chama para o eu âmbito todos aqueles que nasceram com a centelha do gênio. E, ao lado dos que todas as noites pintam o rosto para divertir as multidões, encontram-se outros artistas: — pintores, poetas, caricaturistas, etc.
O teatro, em 1883, atraiu para as suas hostes aquele que dez anos mais tarde revolucionaria a poesia brasileira, provocando um grande choque entre o Parnasianismo e o Simbolismo: — Cruz e Sousa, o poeta negro.
Na antiga Desterro, hoje Florianópolis, em Santa Catarina, nasceu, em 1863, João da Cruz e Sousa. Filho de escravos, o negrinho que poderia almejar? O eito, quando fosse homem, quando seus músculos se retesassem em “piruetas”, como os do Palhaço, seu célebre soneto.
Tinha o talentoso negro vinte anos de idade quando aportou a Desterro uma companhia de variedades encabeçada pela “menina prodígio”, Julieta dos Santos, uma garota de nove anos que representava como “gente grande”.
Cruz e Sousa, que por causas ainda não esclarecidas, fora liberto pelos fazendeiros, senhores de seus pais, já era boêmio, à moda da província, há cinquenta e nove anos.
Fez logo camaradagem com os rapazes solteiros da companhia, e à noite, após os espetáculos, faziam serenatas à luz do luar. Uns dedilhavam os violões, e outros cantavam. O espírito do negrinho recalcado, onde o talento escachoava, sentia-se num novo ambiente. Frequentava assiduamente a caixa do teatro, sendo acatado por todos pelas suas maneiras fidalgas.
Sua alma sonhadora de artista impressionou-se vivamente com o talento de Julieta dos Santos e para ela fez os seus primeiros versos.
Estava a findar a temporada em Desterro, os comediantes precisavam levar suas facécias a outras plagas. E o embarque foi marcado. Cruz e Sousa entristecera. Lá se iam os seus companheiros de noitadas, deixando-o no mais profundo abandono. Voltaria aos vagos passeios da praça, sentando-se num dos seus bancos, vendo passar as mocinhas brancas que nem sequer para ele olhavam.
O seu vulto continuaria a ser confundido com a escuridade da noite, quando ele tinha n’alma o desabrochar de alvoradas!
E disse a um de seus companheiros, de sua mágoa.
“O caso poderia ser removido se você quisesse”, respondeu-lhe o amigo.
E ficou consertado que Cruz e Sousa seguiria com a
companhia. Qual porém o lugar que poderia ocupar?
E ainda mais uma vez o negro iluminado foi relegado para o anonimato. Deram-lhe o lugar de “ponto”.
Oculto na caixa de madeira, longe dos olhares do público, Cruz e Sousa iniciou sua carreira de “judeu errante”, levando como bagagem um baú de folha de flandres.
Em cada terra que os comediantes chegavam, os rapazes solteiros alugavam uma casa.
As portas eram arrancadas e transformadas em camas e mesa de Jantar.
Cruz e Sousa muito benquisto por seus companheiros de jornada, arvorou-se por prazer a despenseiro e cozinheiro do pessoal.
E todas as manhãs lá ia o “neófito” em busca de carne, peixe e hortaliças, para preparar os “pitéus”, antes do ensaio. E foi tal a fama que correu do novo cozinheiro que o resto do pessoal resolveu tomar apenas aposentos nos hotéis, sem comida. E iam fazer suas refeições no “Refúgio dos Inocentes”, nome dado à pensão, por Cruz e Sousa.
Em 1892, o poeta negro chegou ao Rio, já tendo deixado seus antigos colegas. Em 1893 publicava Missal, que operou uma revolução na literatura do país; e em seguida Broquéis.
Em 1898 Cruz e Sousa, o "poeta-ponto”, cerrava os olhos, minado pela tuberculose.
Deixou ainda Evocações, em prosa; Faróis e Últimos Sonetos.
Quando morreu ocupava um cargo modesto na Estrada de Ferro Central do Brasil.
Muita gente, por certo, ignorava que Cruz e Sousa fora “ponto” de teatro.

LUÍS ROCHA
Revista "Vamos Ler!", 15 de outubro de 1942.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Cruz e Sousa, um criador de símbolos (Crítica Literária)





Cruz e Sousa, um criador de símbolos


Texto publicado originalmente na revista "A.B.C.", em edição de 1923. Transcrição e adaptação ortográfica de Iba Mendes (2018)
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Cruz e Sousa foi um criador de imagens e de harmonias. Nunca, para a caracterização psíquica da forma literária de um escritor, a denominação de estilo musical andou mais próxima à verdade, do que referida ao magnetismo ondulante desse sutil prestidigitador do verbo. Essa musicalidade não era no artista negro o simples ressoar rítmico da indumentária poética, que exige a pausa e engasta a rima, como signos exteriores do seu cânon. Era qualquer coisa de mais íntimo, de mais profundo, que se identificava com a ondulação sonora do próprio pensamento, e era a expressão sensível, humana, da harmonia que a natureza põe às origens mesma da vida, como uma contingência do equilíbrio cósmico.

Tocados dos seus nervos de uma sensibilidade esquisita, as suas ideias, as suas imagens, as suas paralogias mais arrojadas, impregnavam-se de um sutil perfume, vibravam de sons, vestiam-se em cores, que davam às palavras novos sentidos e punham no ambiente, o frisson de nevrose, as alucinações, a semiobscuridade lunar que há no fundo dos quadros de certos pin­tores simbolistas. Era qualquer coisa de fino, de impalpável, de imponderá­vel, que não se definia e, entretanto, vivia; brilho cadente, reverbero efêmero, ressonâncias tempestuosas esba­tidas em marulhos, todo um admirável poder visionante, que não era bem in­tuição, mas que não era também observação, algo de instintivo, porém superorgânico, em que se confundiam as tintas crepusculares de um grande sonho. Vem daí o luxo não raro ofuscante, que se encontra em algumas das apóstrofes de Cruz e Sousa mais dolo­rosas; a superfetação das metáforas, a orgia de palavras e de tropos, com que às vezes ele procurava aturdir o seu fetichismo verbal, e que sendo às vezes incoerência, correspondia a exi­gências íntimas, psíquica, daquele exacerbado criador de símbolos. Foi toda assim a sua estranha poesia. Cheio de esperança, ou entregue à depressão melancólica das desilusões, o que so­bretudo ele realizou, o que ele viveu foi um dramático destino, cortado de clarões, uma como noite escura e deso­lada que sabia transformar em alvoradas.

Bastaria o gênio de Cruz e Souza para afirmar a fisionomia de uma época e exaltar a capacidade imanente de um povo. Ele é, antes de tudo, um rútilo traço de união das distintas culturas que se amalgamaram e se desenvolveram entre nós ao longo dos séculos.

E, confundindo-as, integrando-as, deu-nos o exemplo de uma feliz convergên­cia entre todas elas, destacando a unidade da língua portuguesa e mostrando que a literatura está acima dos abjetos preconceitos.

A.B.C., 24 de março de 1923.