sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Marido Cativo (Paródia ao soneto “Pássaro Cativo”, de Olavo Bilac)


A PARÓDIA

Marido Cativo
 (Paródia ao soneto “Pássaro Cativo”, de Olavo Bilac)

Armas, uma cilada, num momento.
E, em breve, um pobre moço descuidado
Cai no laço e te pede em casamento!
Dás, então, por abrigo ao teu amado,
Um lar abençoado.
Dás-lhe acepipes, beijos e tudo.
— Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O rapazinho mudo,
Agoniado e triste, sem faltar?

“É que, mulher, os casados não falam:
Resmungando apenas, sua raiva calam,
Sem que as esposas vejam seu sofrer...
Se os casados falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
O que eles, coitados, querem dizer:

Não quero o teu quitute!
Muito mais aprecio os que se come
No restaurante fatal em que me viste.
Porque além de ser bom, me mata a fome
Que os feitos por ti;
Tenho doces e beijos
Sem precisar de ti;
Não quero o teu quarto atapetado,
Pois nada me põe tão arreliado
Que ter conhecido a sogra que conheci!
Prefiro o bar humilde e frequentado.
De mesas toscas e de chão furado.
Entre as risadas francas dos amigos.

Deixa-me! Quero a vida
De solteiro, anseio por uma festa!
Com que direito à reclusão me obrigas?
Quero dançar um "fox", ao som de orquestra!
Quero viver a vida já vivida!
Quero à tarde, ao voltar,
Não ver lua mãe em casa; nem ter brigas.
Por que não mandas embora aquele azar?
Não me roubes assim a liberdade!
Deixa-me dar um passeio na cidade!
Quero gozar! gozar!...”

Essas cousas o esposo te diria,
Se pudessem os casados se queixar...
A tua calma, mulher, falharia
Com essa escravidão;
E a tua mão, ansiosa, lhe abriria
O trinco do portão.

MAGDA ROCHA
Revista “O Malho”, 1929.


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O ORIGINAL

O pássaro cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão...

OLAVO BILAC

Paciência (Paródia ao soneto “Sete anos de pastor”, de Luís Camões)


A PARÓDIA

Paciência
 (Paródia ao soneto “Sete anos de pastor”, de Camões)

Sete anos, empregado, o Ezequiel
Serviu ao pai do "resplendor" que amava.
E nesse afã, de dia trabalhava,
Deixando a noite para ver Raquel...

Assim mesmo enganado foi um dia,
Pelo futuro sogro, intermediário,
Que em lugar de Raquel lhe deu a Lia,
Passando assim um conto do vigário.

Ainda outros sete anos o serviu
Para obter o "ideal" tão almejado,
Trabalhando por isso sem enfado.

Mas desta vez a sorte lhe sorriu,
Ao forte e prazenteiro Ezequiel,
Pois, se encontrou ao lado de Raquel...

JOSÉ GARCIA JUNIOR
Revista “O Malho”, 1926.


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O ORIGINAL

Sete anos de pastor...

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!

LUÍS DE CAMÕES