sábado, 18 de maio de 2019

Josué Montelo - Glória camiliana (Ensaio)



Glória camiliana

Lembro-me de que, ao anunciar-se que Lindolfo Collor, de volta da Europa, se achava de posse de material para escrever um livro sobre Camilo Castelo Branco — um noticiarista de coisas de literatura, no comentário que a esse propósito escreveu, insinuou que o romancista português não era merecedor de tal homenagem.

Bastava a notícia, redigida com essa intenção, para justificar que se publicasse no Brasil um livro sobre Camilo Castelo Branco. As palavras do noticiarista vinham demonstrar a necessidade de restaurar para a admiração dos brasileiros uma das figuras que mais alto encarnaram, na literatura de língua portuguesa, a liberdade de ação e a coragem das afirmações desabusadas. Camilo, para a ignorância de muita gente, é uma espécie de pré-Coelho Neto, em cuja prosa os dicionaristas encontraram trânsito para vocábulos e expressões esquecidas. E é por aí que principia o equívoco da glória camiliana no Brasil.

Tenho ouvido gente séria que tem nome dizer mal do romancista, acoimando-o de simples promotor de procissões de palavras. Outros insistem na leviandade de apenas considerá-lo um temível maldizente que apenas sobreviveu na memória das gerações pela novidade genial com que sabia escrever desaforos.

Lindolfo Collor não chegou a realizar a sua biografia de Camilo. A morte o levou antes que ele houvesse disposto todo o material variadíssimo e principiasse a escrever o romance do romancista português. Esse acontecimento evitou que se desfizesse, aqui no Brasil, o melancólico equívoco da glória camiliana.   

O inequívoco principia, porém, a ser desfeito. E para isso contribuem as cartas de Monteiro Lobato a Godofredo Rangel, publicadas sob o título de "A Barca de Gleyre"', e o estudo que, como introdução a uma seleção das polêmicas do solitário de São Miguel de Seide, escreveu o jornalista Costa Rego.

O estudo de Cesta Rego tem a vantagem objetiva de ser documentado nas páginas que o acompanham, de modo que o leitor finda a leitura dos louvores ao gênio do panfletário, contra, logo depois, no mesmo volume, o comprovante da genialidade daquele homem terrível que soube fazer da pena um truculento varapau com que castigou meio mundo em praça pública. As cartas de Monteiro Lobato limitam-se a indicações de leitura e a elogios ao ficcionista das "Novelas do Minho", além do encantamento com a originalidade do estilo do romancista português.

Mesmo assim Lobato converte-se, agora, nessas cartas, a veemência de sua admiração e a imensa autoridade de seu nome, em um dos maiores pregoeiros da glória camiliana. Essa veemência vai ao ponto de considerar Camilo maior que Eça de Queirós. Diante de um pedaço de prosa de Camilo, um trecho do estilista de "A cidade e as Serras", na opinião de Lobato, perde certamente o esplendor que lhe conferem exagerados admiradores. Não será Lobato injusto nessa sentença literária?

Talvez que haja nesse julgamento uma sugestão das injustiças com que Fialho de Almeida cercou em Portugal o nome e a fama de Eça de Queirós, por isso que Lobato é também um devoto do panfletário das Pasquinadas. Eça deu certamente uma fluidez nova à língua portuguesa, libertando-a daquelas asperezas que lhe vinham do período clássico e que reviveram opulentamente na prosa camiliana. Camilo foi um talento verbal, com o absoluto domínio de um alto poder de novas associações vocabulares. Eça foi o estilista que descobriu ritmos de frases no idioma de Portugal, dando-lhe novas musicalidades e povoando-o de ignoradas harmonias. A comicidade em Eça de Queirós nasce das situações. Em Camilo, deriva das imprevistas combinações de palavras. E ambos devem merecer de nós, para utilizar-me aqui de uma expressão de Fialho de Almeida, o dever honesto de tirar o chapéu diante do que é superior.

Eça de Queirós teve, no Brasil, melhor fortuna literária que Camilo Castelo Branco. Explica-se facilmente essa preferência. E há numerosas razões para justificá-la. Eça de Queirós estava mais perto de nós pelo sarcasmo com que falava de seu país; era um escritor universal, integrado no debate dos problemas que interessavam de um modo geral a civilização; escrevia num estilo direto, sem os idiotismos de típica procedência portuguesa; dispunha de um prodigioso dom de sátira que instantaneamente se comunicava através de situações de comicidade fácil; Camilo, pelo contrário era o sarcasta sempre alerta contra o Brasil, com a pena em riste para castigar os nossos homens públicos e os nossos escritores; seu patriotismo compelia-o a depreciar até mesmo o português que emigrara e fizera fortuna no Brasil; seu estilo não tinha o poder de comunicabilidade e a fluidez do de Eça de Queirós: era mais áspero, mais torcido, mais difícil e povoado de expressões não correntes aqui. A animosidade de Camilo para com o Brasil e o seu extremado amor a Portugal parecem ter sido os fatores mais decisivos na instintiva repulsa com que a sua obra tem sido acolhida em nosso país. Em suma: Eça de Queirós sempre nos deu a impressão de um patrício, identificado conosco na zombaria a Portugal — enquanto Camilo, com o seu imenso orgulho de português, parecia querer afetar anacronicamente uns ares ríspidos de antigo senhor, falando-nos sisudamente do alto de sua superioridade metropolitana, como se este pedaço de terra ainda fosse um chão colonial de gente lusitana.

A prevenção contra Camilo já está em tempo de desaparecer. E Costa Rego, numa das conclusões de seu estudo, adverte-nos de que "ninguém poderá trabalhar com amor a língua português a pondo à margem os seus excelentes modelos, não tanto pela riqueza do vocabulário, quanto pela originalidade espontânea da composição". De mestres de sua têmpera bem que estamos precisados. E não esqueçamos de que também poderemos aprender com ele a zombar das fraquezas dos velhos clássicos, através do doloroso exemplo caricatural daquele Calisto Roli, ridículo e anacrônico, da sátira de "A Queda de um Anjo". Só essa lição valerá o esforço de chegar até ali...

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JOSUÉ MONTELO
Revista "Vamos Ler!", 9 de novembro de 1944.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)