sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Ressuscitado em São Paulo (Conto), de Iba Mendes



Ressuscitado em São Paulo
Não se sabe como, mas o fato é que, depois de cem anos enterrado, viu-se em carne e osso e de paletó e gravata bem no centro da Avenida Paulista, na cidade de São Paulo.
Morrera exatamente no mesmo dia em que foi inaugurada a famosa via pública paulistana, a oito de dezembro do ano de 1891, precisamente às 23 horas e 12 minutos, vítima, segundo obituário da época, do “Cholera-morbus”. Fora sepultado no Cemitério da Consolação, em cuja lápide se via escrito:
Aqui jaz
Sebastião Alves,
homem íntegro e temente a Deus.
No tempo em que outrora era vivo residia naquele mesmo local, numa belíssima mansão construída por obra de um famoso arquiteto italiano. Era homem de posse, um próspero fazendeiro, dono de imensos cafezais na região de Ribeirão Preto, interior da Capital.
Estava, agora, ali trajado à moda do Império, havia já alguns longos minutos. Seu semblante fazia transparecer tristeza e confusão. Que havia ressuscitado tinha poucas dúvidas, porém, sua maior hesitação consistia em saber se estava no céu, se no purgatório ou se no inferno.
Inicialmente acreditou que estava ali para purgar seus pecados. Quando vivo, era ele um homem religioso, que frequentava regularmente à missa e que, vez ou outra, compadecia dos necessitados com suas esmolas. É bem verdade que nos tempos passados fora um assíduo frequentador dos lupanares, das chamadas "casas de tolerância", as quais circundavam em abundância a imensa cidade. Esse comportamento, porém, era naqueles idos tempos uma prática tolerada e bem comum entre os homens sérios de família. Por isso, se não se achava digno do paraíso, também não se via merecedor do inferno.
Em frente a um enorme arranha-céu contemplava aquele vaivém de pessoas apressadas, que falavam sozinhas portando estranhos objetos ao pé do ouvido; observava atônito aquelas máquinas que circulavam velozmente de um a outro lado com gente dentro; escutava aquele barulho estarrecedor que incomodava seus tímpanos e que pareciam anunciar o juízo final. Então imaginou que poderia está no mundo subterrâneo das almas perdidas. Para se certificar disso procurou encontrar algo que se assemelhasse à figura do demônio, com chifres, rabos, olhos fumegantes e asas. Neste instante um enorme objeto com asas cortava os céus da imensa Avenida, foi quando aventou a ideia de que poderia está entre anjos em alguma parte do paraíso.
Um turbilhão de pensamentos desordenados aflorou sua mente perplexa, ficando ali quase que imobilizado, sem saber o que fazer, para onde ir e a quem pedir socorro, se é que poderia fazê-lo. Não podia conjecturar a hipótese de estar no lugar onde outrora vivera com a mulher e seus oito filhos, e onde construiu um patrimônio que lhe rendera títulos e méritos...
Enquanto andava notou, por fim, alguma coisa que lhe parecia ser familiar. Era o belo Parque Trianon, um oásis verde bem no meio do caos de concreto de São Paulo. Ficou ainda mais perplexo, e já não podia atinar se ali era o purgatório, se o céu ou o inferno.
Calado e se sentindo totalmente exposto ao abandono, andou mais um pouco e, estupefato, leu numa placa azul os seguintes letreiros: AVENIDA PAULISTA. Neste instante presumiu a ideia de que poderia está realmente no lugar onde vivera e morrera, e então seu coração se alegrou sobremaneira.
Mas o que fazer?... Se de fato estivesse voltado ao mundo dos mortais, encontraria ele algum parente vivo?... E os herdeiros da sua linhagem, por onde andariam? Logo, porém, estremeceu ao julgar, segundo certas probabilidades, que não encontraria mais ninguém de sua família, e chorou copiosamente.
Seguiu adiante e entrou na Rua da Consolação. Andou mais um pouco e parou em frente ao cemitério, reconhecendo-o como o local onde havia sido sepultado, no dia nove de dezembro de 1891, às 17 horas e 13 minutos. Entrou espavorido. Seu túmulo ainda estava lá, mas não via escrito ali o seu nome, nem tampouco o seu antigo epitáfio. Durante alguns minutos conservou-se na mesma posição, com os olhos fitos no sepulcro. Um pássaro pairou veloz sobre sua cabeça e desapareceu entre as árvores... O sol escondeu-se por entre nuvens negras e túmidas.... Um raio rasgou o céu e um enorme trovão rolou pelos os ares...
Seu coração então acelerou... suas mãos frias tremeram... seu rosto empalideceu e sua respiração cessou... Súbito! tomba sobre o próprio túmulo... Era a morte que lhe chegava pela segunda vez...

Um australopithecus no meu quintal (Conto), de Iba Mendes



Um australopithecus no meu quintal
Tinha acabado de me levantar e, como diria Bandeira, tomado o café que eu mesmo preparei. Abrir a porta, e eis ali uma estonteante surpresa! Um australopithecus sentado sobre um velho muro, na mesma posição do “Pensador” de Auguste Rodin.
E agora? ponderei mentalmente perplexo: telefonar para a polícia ou chamar um darwinista especializado nesse tipo de bicho?
Não era a primeira vez que via um australopithecus. Quando tinha cinco ou seis anos de idade e morava no meio do mato, lembro-me de ter visto um ente igualzinho aquele, com a diferença de que outro não estava assim tão introspectivo e com ares de um antigo pensador grego.
Não, não irei acionar a polícia. Talvez seja o caso de convidá-lo para tomar café e, quem sabe, saborear mais tarde um bom churrasco ao som de “A Conquest of Paradise”. Os australopithecus devem ter um gosto muito especial por churrasco!
Uma dúvida, porém, veio aguçar ainda mais o meu desorientado espírito: e se ele, no seu instinto ainda animalesco, arremessar contra mim suas garras afiadas? Meu Deus!
Um turbilhão de ideias aflorou então minha mente confusa. Não obstante temeroso e apreensivo, pus-me em sua direção, na expectativa de que ele fosse, se não o próprio neandertal, ao menos seu ancestral mais próximo. Sim, quem sabe não estaria ali a prova cabal de que tanto precisa a ciência para provar de uma vez por toda a ancestralidade comum universal? Aproximei-me então dele e com um sorriso de temor cumprimentei-o:
— Bom dia, senhor australopithecus!
Neste momento sentir minha voz embargada pela satisfação inesperada de topar com a figura de quem tanto estudei nos livros de minha saudosa juventude.
Ele, no entanto, permanecia estático e todo absorvido em si mesmo, assim tão excêntrico quanto os velhos filósofos. Então insistir:
— Bom dia, senhor australopithecus!
Encarando-o ergui minha mão para cumprimentá-lo. Ele, porém, esquivou-se para trás, numa nítida demonstração de que não estava disposto a monólogos ou cortesias. Que fazer? pensei aflito.
Neste instante um pardal, que disputava com os pombos os restos de um pão, deslocou-se voando sobre sua cabeça:
— A vida do homem é como a sombra de um pássaro que nos sobrevoa, balbuciou ele introspectivamente.
Fiquei atônito. Estava bem diante de um australopithecus filósofo! Sim, um australopithecus filósofo!
Perguntei-lhe então se tinha lido aquela meditação no Talmude ou se a havia extraído de algum dos antigos filósofos gregos. A partir daí entramos no mundo dos livros, e muitos nomes foram citados. Estranhamente, porém, em nenhum instante ele fez menção da pessoa do naturalista inglês Charles Darwin, nem do seu livro “A Origem das Espécies”. Curioso, indaguei-lhe:
— E Charles Darwin, o que tens a dizer deste eminente filósofo?
Súbito ele ergueu-se e caminhou apressadamente na direção do vento, desaparecendo logo em seguida como um zumbi numa noite de sexta-feira.