domingo, 7 de novembro de 2021

Louro Véio e a alma do finado Toucinho (Estórias de Capim Grosso), por Iba Mendes





Louro Véio e a alma do finado Toucinho

O sol parecia ter guardado um dos seus melhores ocasos para aquela tarde de sexta-feira.  No alto da cumeeira um sabiá entoava sua melodia alegre, e no terreiro da casa o velho cachorro Marinheiro abanava insistentemente o rabo e latia bem alto, como que querendo apressar a partida de seu bondoso dono. Louro Véio pareceu obedecer-lhe. Arreou depressa o seu bonito alazão, meteu os pés nos estribos e a trote largo deixou Capim Grosso rumo à sua fazenda lá para as bandas de Quixabeira.

Quando, enfim, o sol começou a ficar triste, e lá no firmamento a lua surgia alegre, saudando os homens com seu glorioso brilho, neste momento Louro Véio achava-se todo imerso no breu intenso da escuridão, seguindo por uma trilha estreita e tendo por única companhia o seu fiel e dedicado cão.

Tinha ele andado pouco mais de hora quando pressentiu que estava sendo acompanhado. Olhou então para trás e viu, assustado, uma espécie de vulto branco que parecia acenar para o alto com ambas as mãos, como que o chamando para ali. Ainda que não acreditasse em fantasmas ou em almas do outro mundo, mesmo assim resolveu apressar o trote esporando repetidas vezes o animal e o açoitando com a taca. O velho cão, porém, esse partiu latindo na direção do vulto, estacando logo em seguida  com um grunhido que se fez ecoar mata adentro. Nesta mesma hora uma revoada de corujas atravessou os ares, ao passo que uma acauã trovejava seu lúgubre canto numa árvore à beira do caminho.

Enquanto isso, neste intervalo de tempo, Louro Véio já ia bem longe e apressado, deixando ao seu cavalo a responsabilidade pela fuga ao suposto e impertinente fantasma. Ia assim mais tranquilo até que,  depois de passar por uma alameda de pequenas árvores, avistou logo adiante uma velha cruz de madeira fincada no chão e toda iluminada,  e bem atrás dela o mesmo vulto continuava o seu idêntico teatro de acenos. Embora não fosse católico praticante, Louro Véio acreditava em Deus e sabia de cor algumas rezas ensinadas pela santa madre igreja. Sem perda de tempo, rezou várias vezes o "pelo sinal" e, em vez de voltar para fugir da bizarra figura, seguiu direto ao seu encontro, crendo ao mesmo tempo no poder de sua fé e na ilusão de sua vista.

Quando os ponteiros do relógio apontavam para meia-noite e ele ia se aproximando da cruz, eis que a visagem salta bruscamente na frente do cavalo, o qual, apavorado, refuga relinchado e saltando desesperado.

 Não temas  gritou  a visagem, ao mesmo tempo em que segurava às rédeas do animal, afagando-lhe o pescoço com seu manto brilhoso. E continuou com voz serena e adocicada:

 Não temas! sou a alma deste morto cuja cruz aí vês. Chamava-me João, mas todos me conheciam por Toucinho. Fui assassinado neste exato local pelo meu melhor amigo, o qual, além de me tirar a vida, casou em seguida com minha mulher e hoje desfruta com ela de tudo o que construir ao longo de minha existência.   Há vinte anos perambulo por estes ermos, sem poder libertar-me...

Mas  interrompeu Louro Véio, agora mais tranquilo ante a passividade da assombração.  O que exatamente eu, um simples mortal e cheio de pecados, posso fazer em seu favor?

 Ah! Eis aí a questão. Preciso que desenterre este miserável defunto e tente encontrar entre seus restos mortais, um envelope, dentro do qual contém uma carta escrita pelo próprio vilão que me matou, sendo o seu teor uma prova cabal de seu hediondo crime, bem como a consequente senha para minha total libertação dos grilhões deste mundo. Leve, pois, esta carta ao delegado da cidade, e o resto será por conta da justiça terrena. Eis aí o que quero de você.

 Bom  retrucou o Louro Véio. Não será tarefa assim tão fácil, mas se isso implica na sua e na minha libertação, não vejo outra saída senão começar a cavar imediatamente.

Dizendo isso, tirou o facão da bainha e foi logo abrindo a cova maldita.

Quando o relógio deu três da madrugada, o esqueleto do cadáver jazia exposto sobre a terra úmida. O envelope foi de fato encontrado bem debaixo do osso da bacia, e completamente intacto. Ao vê-lo nas mãos do outro, a alma penada pareceu saltar de contentamento, e pairou nos ares, como que levantando aos céus o que poderiam ser chamado de mãos. Louro Véio, sem delongas, comprometeu-se solenemente, jurando por todas as almas,  que entregaria a bendita missiva ao destinatário indicado. E estando assim ambos  satisfeitos com o resultado, um partiu para o seu de Abraão, e o outro para os braços de sua amada.

Quando Louro Véio chegou, por  fim, à sua morada, o sol já despontava como que sorrindo no ocaso, enquanto a lua desaparecia tristemente ante o resplendor do grande astro.  Quem o recebeu todo prazenteiro, foi o velho cão Marinheiro, o qual parecia sorrir-lhe com o rabo, ao mesmo tempo em que rosnava como que cantando de alegria pela chegada do seu amoroso dono.


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São Paulo, 06 de novembro de 2021. 

As caçadas de Bunitinho (Estórias de Capim Grosso), de Iba Mendes

 


As caçadas de Bunitinho

Um dia de manhã, Bunitinho deixou sua casa em Capim Grosso, com o pretexto de ir caçar umas nambus. Munido de um bodoque, pegou uma garrafa de Pitu e um pedaço de fumo de rolo, botou tudo numa sacola e saiu ligeiro. Daí a uma hora chegou exausto lá pras bandas do Jenipapo, indo lépido a procura de uma boa sombra para descansar e para "molhar a goela". E nem precisou ir tão longe, pois logo deu de cara com um frondoso pé de imbuzeiro, copado e cheio. Ali fartou-se do fruto azedo com pinga, bocejou, fumou um cigarro de palha e caiu  no sono sobre a relva de folhas secas.

O sono porém foi breve, pois logo acordou assustado pelos garganteios ruidosos de algumas aves de rapinas, as quais disputavam entre si o resto de um cadáver putrefato de preá. Bunitinho não pensou duas vezes: tomou de seu estilingue e atirou para espantar os ovíparos. Estes, porém, tão famintos estavam, que pareciam esnobar de toda aquela pantomima. Mas ele não se deu por vencido. Continuou atirando, até que uma das pedras acertou bem de cheio na cabeça de uma delas, que estrebuchou instantaneamente no chão. Enquanto isso, lá atrás de uma moita de capim guiné, alguém o observava fazendo um gesto que denotava desaprovação. Era o curupira, um pequeno tapuio de cabelos cor de fogo, dentes verdes e com os pés virados para trás, o qual costuma punir aqueles que pretendem inutilmente destruir as matas ou que matam por puro prazer, sem tirar nenhum proveito da caça.

Bunitinho riu gostosamente daquela cena e, em vez de ir caçar as nambus para assá-las e comê-las com cachaça, como era seu intento quando saiu de casa, resolveu aperfeiçoar sua habilidade com seu instrumento de forquilha. Inicialmente passou a atirar as pedrinhas nos pés de licurizeiros e outras árvores; logo, porém, convenceu-se que teria melhor desempenho se treinasse sua arte  nos bichinhos. Foi assim que, decorridas algumas horas, já havia matado boa soma de calangos, lagartixas,  preás e rolinhas. E ria à solta, ria de um modo estridente, vangloriando-se de sua exímia qualidade de caçador.

Quem não ria nada, porém, era o curupira, o qual, trepado no topo de uma árvore, balouçava-se frenético e doidejante, dando gargalhadas aos ventos. Vendo ele toda aquela cena desastrosa contra a natureza, decidiu então punir exemplarmente o soberbo agressor. Foi assim que, descendo o curupira da árvore com um cipó escondido, chegou sorrateiro perto do hostil caçador e, erguendo a mão para o alto, aplicou-lhe de cheio duas chibatadas, cujos estalos espantaram os bichos que a tudo observavam.

Quando Bunitinho voltou os olhos, viu apenas um vulto que parecia correr às avessas pela mata adentro. Desnorteado e sem saber qual o caminho seguir, embrenhou-se no espesso matagal, ficando  ali perdido por dois dias sem comer nem beber. Quando recuperou sua natural lucidez, já estava no contorno de São José, totalmente nu e com dois grandes vergalhões vermelhos nas costas.


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São Paulo, 07 de novembro de 2021.