terça-feira, 30 de agosto de 2016

Machado de Assis e a liberdade religiosa



Machado de Assis e a liberdade religiosa

Embora fosse tradicionalmente católico, Machado de Assis era dotado de grande tolerância por qualquer manifestação de fé. Em uma de suas deliciosas crônicas, de 22 de novembro de 1864, publicada num jornal carioca, ele faz menção de um caso ocorrido naquele mesmo ano, no qual um vendedor de Bíblia, um evangélico metodista, tinha sido quase que linchado por uma turba católica (na época o catolicismo era religião oficial do Brasil). Machado critica veementemente o jornal católico “O Cruzeiro”, que condenou o governo por este ter protegido o vendedor contra a ira popular dos religiosos: “Nada do que diz o Cruzeiro é novo; mas nem por isso deixa de ser lamentável que se imprimam coisas tais em um país onde a liberdade religiosa, se não é completa, está já adiantada”. No dia 29 de novembro do mesmo ano, ele fez uma dura crítica à constituição vigente na época: “O defeito da constituição está em não ter completado a liberdade, tirando os entraves que lhe impõe, e em declarar a religião católica como religião do Estado”. E continua: “No dia em que se tiver saído da tolerância para a liberdade completa, teremos dado o último passo neste assunto. Que os leitores me permitam a figura, - a tolerância assemelha-se a uma gaiola de papagaio, aberta por todos os lados, sem aparências mesmo de gaiola, mas onde a ave fica presa por uma corrente que lhe vem do pé ao poleiro. Quebre-se a corrente, uma vez por todas, e dê-se a liberdade ao pobre animal. Um sistema político como o nosso que, a pretexto de proteger os rouxinóis, protege cem papagaios por cada rouxinol, parece incrível que nutra tanta aversão a este judicioso conselho”.
Não é à toa que Machado de Assis é o nosso maior e melhor escritor. Além da perfeição estilística de que se servia, era também um profundo conhecedor da alma humana. Seus contos é a expressão mais pura do que foi a realidade brasileira e do que ela se tornou ao longos dos anos. A quem ainda não se aventurou no universo literário machadiano, vai aqui como dica os seguintes contos de sua autoria: O Alienista, O Enfermeiro, Pai contra mãe, Teoria do Medalhão, Verba Testamentária, O Espelho, A Cartomante, Uns braços, O caso da vara, Missa do galo, Noite de Almirante
Só para começar...


É isso!


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Por: Iba Mendes (2005)

O crente Ariano e o ateu Caetano





O crente Ariano e o ateu Caetano
“É a responsabilidade moral do homem que implica a impossibilidade de Deus”, escreveu Caetano Veloso num artigo publicado no jornal Folha de São Paulo de 22 de novembro de 1999. Com o título "Dostoiévski, Ariano e a pernambucália", o cantor e compositor baiano tentava refutar um texto do escritor pernambucano Ariano Suassuna, intitulado "Dostoiévski e o mal", publicado pelo referido periódico, no dia 28 de setembro do mesmo ano. Tomando por base uma frase da personagem Ivan Karamazov, de Dostoiévski (“Se Deus não existe, tudo é permitido”), o autor de o "Auto da Compadecida" chegou a seguinte conclusão: “Vejo que nem tudo é permitido, então Deus existe”. Para Ariano, o lema tropicalista “É proibido proibir”, usado pelo compositor baiano numa canção de 1968, fundamentava-se numa ética libertária do prazer. Segundo o raciocínio do saudoso escritor, se alguém, imbuído de tal motivação, saísse por aí matando travestis e homossexuais, poderia, pela lógica do “É proibido proibir”, justificar seu ato como um simples exercício de prazer.
Pois bem. No seu artigo, Caetano Veloso, sob o “amparo” de Sartre, ateu convicto, demonstrou o seu também ateísmo com a seguinte assertiva: “Então Deus existe porque Ariano vê que nem tudo é permitido? Que diabo de lógica é essa? É a mesma que deixar à vontade para tomar como universal a certeza de que toda moral deduz-se da ideia de um Deus único e absoluto. Isso simplesmente é uma agressão à história e à razão. Antes do surgimento do Deus de Moisés e de Abraão, o homem já desenvolvera normas morais. E, quanto ao ato de matar homossexuais simplesmente por serem homossexuais, no Ocidente não se poderia sequer imaginar tal coisa antes que Roma adotasse o Deus único dos cristãos”. Num outro trecho de seu artigo, o mesmo compositor escreveu: “Em primeiro lugar, eu posso dizer que sou ateu”.
Pessoalmente considero as discussões sobre a existência ou não existência de Deus como inútil e desnecessária. Sim, pois, se Deus não pode ser provado em tubos de ensaio, a sua inexistência também não pode ser testada in vitro. Seja qual for a tese, nunca se há de chegar a uma conclusão razoável.  Ora, qual a necessidade do crente provar Deus se a fé, como diz a Bíblia, "é a certeza das coisas que se não veem"? Qual a lógica mais razoável, afinal: provar Deus pelo método científico ou deixar que ele mesmo se faça provar? Por que essa imperiosa necessidade de se prová-lo, supondo que ninguém lhe tenha perguntado se deseja ser “provado”? Por que não estabelecer a fé como único parâmetro para se chegar a ele? Quanto ao ateu, por que todo esse vão esforço em querer provar a não existência do que não existe? Onde fica a lógica, afinal? Por que não deixar, enfim, que o fluir do tempo o conduza ao mar do esquecimento?
Para finalizar, deixo aqui para reflexão um texto do agnóstico Stephen Jay Gould, extraído do seu livro “Pilares do Tempo: ciência e religião na plenitude da vida”:
Não vejo como a ciência e a religião podem ser unificadas, ou mesmo sintetizadas, sob qualquer esquema comum de explicação ou análise; mas tampouco entendo por que as duas experiências devem ser conflitantes. A ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural, desenvolvendo teorias que coordenem e expliquem esses fatos. A religião, por sua vez, opera na esfera igualmente importante, mas completamente diferente, dos desígnios, significados e valores humanos - assuntos que a esfera factual da ciência pode até esclarecer, mas nunca solucionar. De modo semelhante, enquanto os cientistas devem agir segundo princípios éticos, alguns específicos à sua profissão, a validade desses princípios nunca pode ser deduzida das descobertas factuais da ciência”.

É isso!

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Por: Iba Mendes (2004)

Em nome de deus..



Em nome de deus...

Em seu belíssimo conto “A morte da porta-estandarte”, Aníbal Machado narra um episódio banal do velho Carnaval do Rio de Janeiro: um crime passional movido pelo ciúme. Banal é o acontecimento, não a maneira de o contar, que é a de quem conhece intimamente a alma humana.

A narrativa gira em torno do assassinato da porta-estandarte (moça que leva o estandarte da escola de samba durante o desfile), uma mulata chamada Maria Rosa. O assassino, o namorado, é um negro sem nome, o qual parece sugerir a figura do homem comum, que de um momento para outro se deixa dominar por uma fúria avassaladora e sem explicação, indo parar nas páginas dos jornais.

A certa altura alguém grita: – Mataram uma moça!

A notícia, que viera da esquina da Rua Santana, circulou depois em torno da Escolha Benjamin Constant, corria agora por todos os lados alarmando as mães.
– Mataram uma moça! – comentava-se dentro dos bares. – Mataram, sim, mataram uma moça!…
 – Que maldade matarem uma moça assim, num dia de alegria! Será possível?…
– Mas mataram, sim senhora, garanto que mataram!…
– Como é o tipo dela? O senhor viu?
– Me disseram que é morena, de uns dezenove anos, por aí…
– Morena? Dezenove anos!… Ai, meu Deus! é capaz de ser a minha filha!… Diga depressa como é o tipo do rosto dela…

O nome da vítima até então era desconhecido, daí o desespero e a ansiedade das mães, cujas filhas também se divertiam pelas ruas da cidade.

As mães todas se levantam e saem a campear as filhas. O clamor de umas vai despertando as outras. Cada qual tem uma filha que pode ser a assassinada. Rompem a multidão, varam os cordões, gritam por elas. Os noivos são ferozes, os namorados prometem sempre matá-las.

Ao dar-se pelo cadáver da moça, uma das mães solta um grito de alegria.

– Ah, eu pensava que fosse a Raimunda! Graças a Deus que não foi com minha filha! Escapaste Raimunda!

A sensação de alívio desta mãe ao descobrir que a assassinada não era a própria filha, longe de ser mera peça de ficção, é a expressão real de um sentimento que frequentemente se passa no coração humano quando diante da tragédia alheia.  

Entre de nós a frase “Graças a Deus que não foi com minha filha!” tem seus muitos equivalentes, e pode ser substituída por outras como: Graças a Deus eu não estava naquele avião!, Graças a Deus eu não moro naquele país!, Graças a Deus eu não fumo e por isso não  morrerei de câncer de pulmão! Etc. etc. etc.  Alguns ousam muito mais e até agradecem contritamente a Deus por não ser cego como Fulano ou por não ter nascido aleijado como Sicrano. Um ônibus com 21 pessoas sofre um terrível acidente. Dentre estas apenas uma sobrevive. Não demora muito e logo aparece alguém com a explicação: Foi um milagre de Deus! A doença do outro é o que justifica a minha saúde; a tragédia na casa do vizinho é a prova de que na minha reina a proteção divina. Em tudo isso, deus torna-se apenas um pretexto para dissimular o próprio egoísmo e a vaidade íntima. Mas a coisa não cessa por aí.... Há aqueles que vão mais além e, no alto de sua soberba espiritual, atribui o mal do outro à falta de fé ou a descrença em Deus. Recentemente o ator Edson Celulari anunciou que estava com uma espécie de câncer.  Não tardou e logo apareceram alguns para dizerem que a terrível doença do artista era o resultado de um castigo por ter ele “zombado” de Deus no papel que fizera na minissérie “Decadência”, transmitida pela Rede Globo em 1995.

A existência dessas pessoas é a prova da inexistência do próprio deus em que acreditam. Criam para si deuses conforme suas próprias conveniências. Ora o deus de vingança que condena o colega blasfemador, ora o deus da misericórdia que o livra de um acidente. Se é o descrente que fica doente, é porque ele pecou contra deus; se porventura é o crente que cai de cama, é porque deus está provando sua fé. No fim de tudo, sempre acham um jeito de enfiar o nome de deus em algum lugar, seja para justificar o mal que atingem os outros, seja para se regozijar com o bem que alcança, seja ainda para justificar as agruras de que são acometidos e das quais não podem se livrar com orações e jejuns.  Uma simples dor de cabeça que se cura com uma Doril, transforma-se para tais pessoas num verdadeiro milagre deus. Um terremoto no Japão é um sinal de deus para os fins dos tempos. “Deus” é a panaceia de que fazem uso para ostentar sua própria vaidade. É o tudo que preenche os seus nadas.

É isso!


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Por: Iba Mendes (Agosto, 2016)


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O risco da arte engajada










O risco da arte engajada

Às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff, alguns artistas e intelectuais brasileiros lançaram uma carta de apoio a ex-presidente. O texto subscrito por nomes como Vagner Moura, Caetano Veloso, Chico Buarque, Camila Pitanga, Marieta Severo, entre outros, é a repetição do que já se vem dizendo desde o início do processo político e  nada acrescenta à nova realidade do país.

Não vou discutir o mérito ou o demérito do tal documento. A minha ênfase recai num ponto que considero de grande relevância para uma boa discussão, que é o engajamento de artistas e intelectuais a causas políticas. Quanto a isso, pouco me importa se vão para a Direita, se perambulam pela Esquerda ou se permanecem estacionados no Centro. Ao fim de tudo, o resultado é um só: o descrédito do artista e o desprestígio de sua arte.

A razão é simples.

Ao alistar-se ideologicamente a uma causa política, o artista limita sua arte a um determinado público, o que implica em perder a simpatia (ou respeito) da outra parcela da coletividade, algo incongruente com a essência da própria arte, que não possui cor ideológica.  Ademais, um compromisso assumido com um político pode acarretar danos morais irreparáveis a este mesmo artista, caso se venha provar que o agente público se tinha metido em falcatruas. É um risco que o bom senso não deveria assumir na mais otimista das hipóteses.

A arte engajada politicamente é uma arte limitada no tempo e na história. Um exemplo emblemático recai na pessoa do músico alemão Richard Wagner, que abraçou ideologicamente a causa antissemita. Em seu livro “O Judaísmo na Música”, escreveu: “O judaísmo é a consciência diabólica de nossa moderna civilização. ”  Passados séculos a imagem do artista permanece associada aos ideais nazistas, sendo sua obra denominada por muitos como a “trilha sonora do holocausto”.  No Brasil temos o exemplo do cantor e compositor Chico Buarque, um dos maiores artistas do país, cuja imagem segue atrelada ao regime cubano e toda a horda esquerdista que ainda se mantêm no poder.  Outro exemplo, embora de menor vulto, diz respeito ao roqueiro Lobão, que também se alistou, porém, pelos ideais da Direita brasileira. Ao se alinharem politicamente, tais artistas não apenas comprometeram sua imagem, como, outrossim, perderão público e dinheiro. O preço maior, porém, será cobrado pela história, que não perdoará suas biografias.



É isso!


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Por: Iba Mendes (Agosto, 2016)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A sabedoria do Midrash - II






A sabedoria do Midrash - II
O dicionário hebraico dá ao termo midrash os seguintes sentidos: estudo, interpretação, comentário, exegese, teoria, doutrina, ensinamento. 
No âmbito específico da religião judaica refere-se o Midrash a um gênero literário, cujo objetivo, conforme palavras do rabino Henry Sobel, é extrair cada gota possível de significado das sagradas escrituras.
Outro caso diz respeito a uma passagem do livro de Levítico, capítulo 15 e versículo 19, em que se lê: "Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer que a tocar, será imundo até à tarde.”
Uma interpretação vulgar do texto bíblico diria que se trata de uma manifestação clara de preconceito contra a mulher, pois atribui à menstruação  o caráter de imundície ou de impureza. Uma interpretação da Midrash, porém, explica que o fato é uma demonstração viva do amor infinito de Deus, isto porque cada óvulo que a mulher perde durante o período menstrual, seria assim uma fonte potencial de vida que deixou de germinar; cada óvulo perdido é uma vida que também se perde.
Por iguais razões condenava Deus o chamado coito interrompido, uma vez que o sêmen lançado por terra era como uma semente que não pôde brotar: "Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou" (Gn. 38:9,10).

É isso!


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Por: Iba Mendes (2002)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Filosofia de Pecado




Filosofia de Pecado

O pecado é tão efêmero quanto a paixão dos namorados. Enquanto num belo dia de primavera acordam entre beijos e juras de amor eterno, numa noite fria de inverno despedem-se entre insultos e maldições. O que ontem foi consequência da astuta ação do diabo, hoje é o simples e virtuoso resultado do progresso.  

Conta-se que quando o guarda-chuva fora introduzido nos hábitos dos ingleses, a igreja manifestou ferozmente sua repulsa ao indigno objeto, justificando que seu uso era uma afronta aos santos desígnios de Deus, pois impedia que a chuva, benção divina, caísse naturalmente dos céus sobre as suas criaturas. Aqui no Brasil, durante o período da chamada “época de ouro do rádio”, a conhecida Igreja Evangélica Assembleia de Deus proibia terminantemente seus membros de ouvir o “mundano aparelho”, alegando tratar-se um veículo maligno que fazia despertar nas pessoas o desejo pelo pecado. Hoje, não apenas a rádio como também a televisão tornaram, para a referida denominação, numa poderosa e abençoada ferramenta para promoção do Reino de Deus na terra.

Tempos atrás dediquei-me a uma interessante tarefa de pesquisar os estatutos doutrinários de algumas denominações evangélicas. No que concerne especificamente ao modo como o homem deveria manter sua aparência física, o resultado mostrou-se ridiculamente interessante. Na primeira delas, dizia-se que era expressamente proibido ao membro raspar a barba e fazer o bigode; na segunda, proibia-o de realizar ambas as coisas; na terceira, permitia-se, no máximo, apenas deixar crescer o bigode; e, por último, a mais liberal delas, deixava tal prática viril ao critério pessoal do membro. Por trás de tais proibições impõe-se o estigma do pecado, cuja marca no homem é o sentimento torturante de culpa ou delito.

O termo pecado, do grego hamartios (hebraico hattah; latim peccatum) significa, ao pé da letra, “errar o alvo”. Teologicamente é explicado como uma transgressão deliberada e consciente às leis de Deus.  Até aqui a questão é sumária e de fácil compreensão. A grande questão, porém, reside na multiplicidade de conceitos que essas denominações constroem em torno do que é pecado.   Dependendo da personalidade e da vivência social pregressa do seu fundador, o pecado pode adquirir as mais bizarras tonalidades. Se tal indivíduo nasceu numa família com características conservadoras e machistas, a doutrina de sua igreja fatalmente culminará em regras mais austeras para as mulheres, as quais serão proibidas de usar calça, bijuterias, cosméticos e outros utensílios considerados por ele como malignos ou mundanos.   O perfil psicológico deste líder exercerá assim uma enorme influência no viver cotidiano de seus membros, os quais, por medo de pecar, serão submetidos a grandes sacrifícios.

Antes de se converterem, muitos destes líderes-fundadores viveram em grande devassidão, praticando os mais pornográficos pecados. Ao impor um padrão doutrinário mais rígido para as mulheres, com a proibição de determinados tipos de roupas e outros objetos típicos da vaidade feminina, eles na verdade estão preocupados em evitar o pecado de si próprios e não com as santas “virtudes” delas. Explico: por se sentirem fortemente inclinados aos desejos libidinosos da carne, torna-se mais fácil estabelecer um padrão de vestes à mulher do que controlar seus desejos latentes. Creem que, quanto menos sobressair a beleza feminina (sua natural sensualidade) menos custoso será dominar seus apetites devassos. O pecado não está, portanto, na conduta supostamente pecaminosa da mulher, mas no excesso de testosterona deles.  O conceito de “pecado” revela-se assim num instrumento de dominação, de castração, de opressão... Daqui a cem anos os pecados serão outros... se ainda houver pecados!


É isso!


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Por: Iba Mendes (Agosto, 2016)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Filosofia de Moral



Filosofia de Moral

Dentre outros sentidos de moral, um deles diz tratar-se de um conjunto de regras de conduta estabelecidas e admitidas por um grupo social numa determinada época. Daí se conclui que o conceito de “moral” é concomitantemente atemporal e cultural.   Assim como a moral de hoje não é a mesma de 100 anos atrás, também não é idêntica para brasileiros e chineses. É certo que entre os diferentes povos, a moral distingue-se por fatores relacionados à tradição, como os usos e costumes: o tipo de alimentação, a maneira de vestir, o modo como demonstram os sentimentos, as religiões que professam, a definição de pecado, a música, a arte, a literatura, a língua, as leis, o sistema político etc. Desta forma, o que para um determinado povo é imoral, para outro pode ser a encarnação da própria virtude.  Mesmo entre um determinado povo o conceito de moral pode variar distintamente entre seus diversos grupos sociais, não obstante se falar a mesma língua e se observar a mesma lei. Um valor moral não se estabelece de um dia para o outro, também não é fruto da conveniência de grupos majoritários ou de governantes; em vez disso, é o resultado acumulado e modificado de toda uma longa geração.  E, embora um valor moral possa se transformar ao longo das eras, ele jamais deixará de existir. Um ser plenamente consciente de seus valores não se deixa corromper mesmo que se lhes apresentem condições favoráveis para ser corrompido. A hipótese da invisibilidade é o que melhor demonstra esta premissa.  Uma pessoa cujo valor moral é norteado pela prática da honestidade, não se sentirá induzida ao furto ainda que se torne invisível. Um valor moral é, portanto, determinado pela própria consciência, e neste aspecto pode se lhe atribuir o caráter de “absoluto”. Isso não significa, entretanto, que ele não possa ser subvertido por um “preço”. Posto que isto venha acontecer, será à revelia da própria consciência, o que implicará também que se pague por isso um alto “preço”. É o que denomino de “o preço da consciência”.  Um “preço” suficiente para se  perder noites de sono; o preço da dignidade. 


É isso!

 
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Por: Iba Mendes (Agosto, 2016)

domingo, 21 de agosto de 2016

Ninguém concordava

Ninguém concordava
(Adaptado de uma história que ouvi tempos atrás)

Era dia de feira. Seu Jaime e o filho, o jovem Mateus, foram caminhando até à cidade a fim de comprar um burro. Precisavam do animal para utilizá-lo de montaria como meio de transporte.

Entre aqueles colocados à venda, um deles chamou-lhes a atenção pela profunda melancolia do olhar. O animal parecia humano e mirava-os como se lhes implorasse para ser comprado. O homem e o menino palestraram alguns instantes entre si, e, depois de um silêncio confuso e prolongado, dirigiram-se ao proprietário que aceitou vendê-lo pelo menor preço. Em seguida montaram-no ambos e seguiram de volta para casa.

Deixando a cidade adentraram num pequeno povoado que ficava bem à margem da estrada.  Enquanto ali passavam, eis que uma velha senhora abriu subitamente a janela e gritou estupefata:

- Que absurdo!  O burrinho não pode com os dois. Quanta maldade, meu Deus, quanta maldade!...

Naquele instante um sentimento de culpa dominava alma do pobre pai. Este, envergonhado de si mesmo, desceu do animal, enquanto puxava-o com o filho montado.

Meia hora depois passavam ambos por uma pequena colina à beira do caminho. Na varanda de uma casa, um homem barbudo, que fumava um cachimbo sentado numa cadeira de balanço, ergueu-se encolerizado e vociferou:

- Que ultraje!  O filho montado e o pai andando! Que ultraje, meu Deus, que ultraje!...

A censura daquele homem causou no menino tão forte comoção que este sentiu dentro de si como se estivesse cometendo um crime contra o próprio pai. Desceu então do burro, enquanto o pai montava o animal e seguia adiante.

Andaram assim um pouco mais de meia hora. De longe avistaram uma antiga aldeia, cujas casas eram todas construídas de pau a pique.  Enquanto ali passavam foram surpreendidos por um homem gordo, o qual se colocou na frente do animal protestando:

- Que maldade! O pai montado e o pobre filho andando. Que maldade, meu Deus, que maldade!...
  
Mais uma vez a consciência do pobre pai é tomada por um duplo sentimento de remorso. Visivelmente abatido, ele apeou do burro e seguiu andando juntamente com o filho, enquanto arrastava atrás de si o confuso animal.

Era já tarde quando se aproximavam do doce e aguardado lar. No horizonte o vermelho do sol parecia anunciar uma noite longa e  triste. Enquanto subiam a ladeira que dava para a casa,  eis que a esposa vem-lhes ao encontro. Ao vê-los andando e puxando o burro,  ela interroga-os em voz alta:

Como pode isso? Os dois andando e o burro caminhando! Que loucura, meu Deus, que loucura!...

O homem, que a esta altura se perdia num emaranhado de pensamentos confusos, fitou-lhes os olhos e respondeu furioso:

- O  quê agora? Vai querer que carreguemos o burro?


É isso!


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Por: Iba Mendes (2000)

História da vaia no Brasil




Charge representando uma cena de vaia (O Malho. Ano X - Nº 450 - 29 de abril de 1911)

História da vaia no Brasil


"Os brasileiros têm a vaia fácil"
"A Estação" (Outubro de 1900)

Qual é o mestre sublime
Que não recebe uma vaia?
Ser vaiado não é crime...
Esta pintura, que saia...
Luis Delfino, em "A epopeia Americana"

Por ocasião das Olimpíadas aqui no Brasil, discutiu-se muito acerca do comportamento dos nossos torcedores, mais especialmente sobre as vaias de que fizeram uso no decorrer das muitas competições. Boa parcela da imprensa criticou o modo como o brasileiro se utilizou delas. Até o famoso juiz Sérgio Moro opinou sobre o assunto, afirmando que a vaia “não é um comportamento ético e nem olímpico". Nas redes sociais não faltaram adjetivos para o torcedor: mal-educado, ignorante, bárbaro, estúpido, incivilizado, fascista e até nazista.
Mas, seria o comportamento do torcedor brasileiro de fato uma característica de nossa "incivilidade"? Não seria a vaia uma característica intrínseca à nossa própria cultura?
Eis o objetivo desta pesquisa: mostrar, a partir da nossa própria história, que a vaia constitui um traço peculiar à nossa própria tradição, e que, ao contrário da crítica contundente, ela não nos faz menos civilizados do que o europeu ou qualquer outro povo. Como bem afirmou o sociólogo americano Peter Kaufman: "Cada cultura tem seus próprios valores: em algumas, é apropriado beijar em vez de apertar a mão quando se é apresentado a alguém, por exemplo. Em outras, é muito aceitável vaiar, assim como em certos países aplausos efusivos podem ser vistos como algo rude."
Segundo o dicionário Houaiss o termo vaia tem origem no espanhol vaya, e quer dizer zombaria. Para o dicionarista Antônio de Moraes Silva significa: matraca, apupada, corrimaça (latim convitia ridicula). Na prática, a vaia nada mais é do que uma demonstração de desagrado, desaprovação ou desprezo, geralmente expressa mediante gritos, assovios e, em casos extremos, por meio da violência, com arremesso de objetos tais como ovos podres e tomates.
Especificamente na imprensa brasileira encontramos inúmeros relatos envolvendo o uso da vaia por seus diversos grupos sociais. É certo que tal fenômeno não está restrito ao nosso povo, porém, conforme se há de observar nos exemplos a seguir, temos um gosto muito singular por manifestações deste viés. Políticos, padres, artistas, cidadãos comuns e até objetos inanimados, ninguém escapa às maldições das vaias. A nossa Literatura nos brinda com variados exemplos. É o que vamos ver...
Em seu livro "A Independência e o Império do Brasil", o historiador Alexandre José de Melo Morais narra que em 1823, após uma calorosa discussão na Assembleia Constituinte, foi esta ditatorialmente dissolvida, sendo alguns dos seus defensores (dentre os quais Antônio Carlos, Martim Francisco, o padre Belchior Pinheiro, Montezuma, o Capitão-Mor José Joaquim da Rocha) conduzidos à prisão "debaixo de vaias dos moleques, e garotos".
Em "A Retirada da Laguna", obra que relata episódios da Guerra do Paraguai, o Visconde de Taunay conta que, estando a tropa brasileira costeando a margem esquerda do Nioac, puseram-se alguns cavaleiros paraguaios a persegui-los. "Uma companhia do nosso 21° e uma peça foram então mandadas contra eles. Voltaram rédeas incontinente e com tanta precipitação que provocaram o riso geral e as vaias de nossa gente."
Em "No tempo do rei", Moreira de Azevedo, discorrendo sobre o cotidiano dos brasileiros durante o Império, faz menção de uma festa religiosa realizada na igreja do largo da Lapa. Escreve ele: "Começando o fogo de vistas ia tudo a contento de todos, quando despregando-se uma das rodas que ardia, caiu sobre o povo, produzindo grande alvoroço e confusão. Corriam os espectadores de um para outro lado, as crianças choravam, as mulheres gritavam e tinham ataques, e aumentavam o alarido os assobios e vaias ao fogueteiro."
Osório Duque-Estrada, cita em seu livro "A Abolição" um fato ocorrido no ano de 1885, quando políticos que se migraram para a oposição foram impiedosamente vaiados pelo povo: Escreveu: "No dia imediato (30 de abril), Antônio de Siqueira, que se bandeara para a oposição, foi estrondosamente vaiado pelo povo, ao sair da Câmara; o mesmo acontecendo a Moreira de Barros, no ponto dos bondes da Companhia Jardim Botânico... Na sessão de 4 de maio tomou a palavra o Deputado Antônio de Siqueira e falou sobre a vaia, querendo convertê-la em questão de caráter político."
Em "A República que a Revolução destruiu", o jornalista Sertório de Castro cita um episódio ocorrido em 1902, durante a transição do presidente Campos Sales, quando este fora ruidosamente vaiado pelo povo: "A impopularidade que Campos Sales acumulou durante seu governo, com a política de sacrifícios que teve de impor à nação, explodiu na noite daquele mesmo 15 de novembro de 1902 em que transmitiu o poder a seu sucessor. Durante todo o trajeto que percorreu para ir tomar o trem em que regressava a São Paulo, foi estrepitosamente vaiado. Para proteger-lhe o embarque, foi mobilizada quase toda a Brigada Policial. O trem foi apedrejado no subúrbio. A multidão que regressava da praça da República para o centro da cidade estendeu a manifestação hostil aos jornais que haviam sustentado aquela política."
No que concerne à imprensa, encontramos uma infinidade de relatos em que a vaia se fez vivamente presente, não respeitando a idade, a cor ou a posição social de suas vítimas. Os exemplos, a seguir, extraídos de nossos jornais e revistas, são uma pequena mostra de como esta manifestação se revela tão nossa, constituindo um traço tão singular da nossa cultura. Ei-los cronologicamente:
Vaiando o general (1884): As vaias davam-se geralmente em espaços públicos, como ruas, praças, estações etc., ficando o vaiado totalmente exposto ao constrangimento da imensa "plateia".
"No dia seguinte, todo o povo afluiu para a praça da Constituição, dando-se alguns pequenos incidentes. Foi vaiado, em sua passagem, o general Tages e aclamado Flores" (Jornal de Recife, 27 de março de 1894)

Vaiando o palhaço
(1888): Bem irônica a narrativa abaixo. O palhaço, que geralmente é quem faz rir o público, foi vaiado justamente por não ter graça.
"Os artistas fizeram alguns trabalhos regulares, porém o palhaço, que para nada presta, foi vaiado, e justamente, pelo público que não aceita qualquer cidadão sem graça para o papel de clown" (O Fharol, 9 de outubro de 1888)

Vaiando o vigário
(1888): Era bem comum no século XIX vaias a autoridades religiosas, geralmente por razões do conservadorismo católico. Lembrando que naquele instante histórico, a igreja de Roma era a religião oficial do Império brasileiro.
"Em Poços de Caldas foi vaiado o vigário que, celebrando uma missa expulsou do templo alguns cavalheiros" (A Pacotilha, 10 de fevereiro de 1888)

Vaiando o capitão
(1889): Não eram apenas os adultos que vaiavam. Há inúmeros relatos desse tipo de manifestação por parte de grupo de crianças, as quais davam preferência pelos tipos ridículos ou caricaturais.
"- Chegou o capitão Manoel Baeta para votar. Foi vaiado pelas crianças na estação" (Diário do Pernambuco, 14 de setembro de 1889)

Vaiando o retrato de Deodoro da Fonseca
(1890): Os monarquistas inconformados com a queda do Império, manifestaram suas vaias diante de uma fotografia do novo líder republicano.
"O retrato de Deodoro foi vaiado, e bandeiras imperiais foram desfraldadas acintosamente" (O Brasil, 17 de julho de 1890)

Vaiando o professor
(1895): Vaias entre estudantes eram muito frequentes, principalmente pela posição autoritária em que se colocavam diante deles os professores e a própria instituição de ensino.
"Hoje na academia o professor Leopoldino Silva foi vaiado pelos preparatorianos, que impediram a sua entrada naquele edifício" (Jornal Minas Gerais, 9 de dezembro de 1895)

Vaiando o nome do imperador
(1896): A esta altura, com a ascensão da República, o imperador Dom Pedro II e toda sua família partiram para o exílio na Europa. Escreveu ele numa carta: "A vista da representação escrita, que me foi entregue hoje, às 3 horas da tarde, resolvo, cedendo ao império das circunstâncias, partir, com toda a minha família, para a Europa, deixando esta Pátria, de nós tão estremecida, à qual me esforcei por dar constantes testemunhos de entranhado amor e dedicação, durante quase meio século em que desempenhei o cargo de chefe de Estado. Ausentando-me, pois, com todas as pessoas de minha família, conservarei do Brasil a mais saudosa lembrança, fazendo os mais ardentes votos por sua grandeza e prosperidade." Restou aqui o ódio a tudo que incluía à velha Monarquia, inclusive a memória do velho imperador, que não foi poupada das ruidosas vaias.
"O nome do imperador foi vaiado, pronunciando vários oradores discursos violentos contra ele" (O Commercio de S. Paulo, 12 de janeiro de 1896)

Vaiando o bispo
(1897): A Igreja Católica recusou a reconhecer o casamento civil, que foi promulgado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, conforme Decreto nº 181, de 24 de janeiro de 1890. As vaias ao vigário diziam respeito à condenação que este fizera à nova Lei.
"Rio Grande do Sul: - Foi vaiado em santa Maria o bispo D. Cláudio por haver condenado o casamento civil" (Jornal de Recife, 19 de janeiro de 1897)

Vaiando o governador
(1900): Já nos primórdios do novo século, tinha-se em conta a vaia como uma característica peculiar à cultura brasileira. Segundo o autor do texto: "Os brasileiros têm a vaia fácil". Isso seria tão verdadeiro que até o célebre José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, que sempre fora unanimidade por essas terras, também não teria escapado das temíveis vaias.
O que de mais importante houve nos últimos dias foi a vaia com que os baianos receberam, de tornar viagem à Europa, o seu ex-governador, conselheiro Luiz Viana, e em S. Paulo o assassinato do coronel Diogo Salles, irmão do Sr. Presidente da República.
Ambos esses fatos me surpreenderam: ignorava que o Dr. Campos Sales tivesse um irmão, e, como não ando ao corrente da política, também não sabia que o conselheiro Luiz Vianna já não fosse o ídolo adorado que era aqui há tempos.
A quase toda a gente sucedia o mesmo que a mim no tocante à existência do coronel Diogo Sales, e nisso está o maior elogio do morto, que, como se vê, não se prevalecia do seu alto parentesco.
Quanto à manifestação hostil de que foi alvo o ex-governador da Bahia, tollitur quaestio; ignoro se ele a mereceu ou não. Quero crer que os manifestantes exagerassem. Os brasileiros têm a vaia fácil. José Maria da Silva Paranhos foi vaiado." (A Estação, 15 de Outubro de 1900)

Vaiando o Deputado
(1900): Estatisticamente, pela enorme quantidade de relatos encontrados em nossos periódicos, os políticos se apresentam como os preferidos para o escárnio público.
"O Jornal Pequeno de hoje noticiou que em sessão da Câmara, realizada na sexta-feira última, quando discursava sobre o projeto de orçamento, foi vaiado pelas galerias um Sr. Deputado o qual abandonado pelos colegas, foi depois retirado do recinto por um outro Sr. Deputado" (Jornal de Recife, 17 de junho de 1900)

Vaiando o ciclista
(1900): É interessante notar que as vaias não eram dirigidas apenas a pessoas influentes da sociedade, mas também a gente comum, e em situações corriqueiras da vida. Às vezes elas surgiam sem nenhuma razão aparente, senão pela simples zombaria voluntária, o que parece realçar nossa tendência a este tipo de manifestação social.
"Pelas 5h30 horas da tarde de ontem um ciclista foi vaiado, entre as estações da encruzilhada e do Espinheiro, por diversos indivíduos que vinham no trem de Olinda e os que vinham no trem do hipódromo do Campo Grande" (Jornal Pequeno, 13 de agosto de 1900)

Vaiando o cantor
(1901): Outro espaço comum para vaias eram os teatros. Os espectadores não costumavam tolerar as falhas dos autores, respondendo a elas com estrepitosos gritos e assovios. O relato abaixo se refere a uma apresentação da obra "O Guarani", do romancista José de Alencar, especificamente em relação à personagem-protagonista Peri, o corajoso chefe da nação goitacá.
"Já vi o Guarany, no Polytheama, cantando por uma companhia italiana do mesmo empresário Sansone. Um Grillo, que tomara a si a difícil incumbência de cantar a parte do índio apoteosado por Alencar, levou então a mais estrondosa pateada de que há memória no teatro paulista. O Polytheama por um triz que não veio abaixo, naquela noite memorável! O cantor foi vaiado do princípio ao fim, e vaiado ruidosamente, a assobios, a cornetas de bicicletas, a latas de querosene" (O Commercio de S. Paulo, 13 de outubro de 1901)

Vaiando o condutor da bagagem
(1902): Geralmente atribuíam-se ao vaiador os mais pejorativos rótulos, sendo um dos mais comuns os de "desocupado" e "vadio". Hoje o rotulam negativamente de mal-educado, estúpido, bárbaro, entre muitos outros adjetivos.
"Hoje às 10 horas do dia o condutor da bagagem de Afogados, chapa 4 foi vaiado por um grupo dos aludidos desocupados" (Jornal Pequeno, 18 de julho de 1902)

Vaiando o promotor de justiça
(1903): Era também comum se vaiar autoridades ligadas à Justiça, principalmente quando estas se metiam em politicagem.
"Pelo fato de haver o major José Eufrásio de Toledo, promotor de justiça, tomado interesse pelas candidaturas dos srs. Chaves, Fausto Ferraz e Alfredo Pinto, foi vaiado em sua residência" (O Pharol, 5 de março de 1903)

Vaiando o comandante
(1904): Já diz o jargão que o brasileiro "perde um amigo, mas não perde a piada". Um simples escorregão já era motivo para o divertimento público, que se dava por meio de vaias, risos e palavreado zombeteiro.
"O comandante do Tymbira foi vaiado por ter escorregado quando descia o porto para embarcar" (O Pharol, 25 de agosto de 1904)

Vaiando o sacerdote
(1904): Em muitas situações as vaias eram violentamente reprimidas pela força pública, uma vez que em geral elas vinham acompanhadas por comportamentos agressivos, como bengaladas e arremessos de objetos.
"Reina entre alunos de preparatórios grande animosidade contra o padre Severiano Rezende, membro das mesas examinadoras. Esse sacerdote foi vaiado em 23 pelos alunos, tendo sido a polícia compelida a intervir para manter a ordem" (Diário do Maranhão, 29 de março de 1904)

Vaiando o trem
(1906): As vaias não ficavam restritas a pessoas apenas; qualquer coisa ou objeto podiam se tornar motivos para o riso geral do público.
"Diz a Platéia que o trem que partiu desta capital ao meio-dia, levando a força para Jundiaí e Campinas, foi vaiado pelos populares reunidos na plataforma das estações intermediárias" (O Commercio de S. Paulo, 20 de maio de 1906)

Vaiando o auxiliar do cirurgião-dentista
(1907): As razões para as vaias são tão diversas e tão inusitadas que só nos levam a concluir que de fato o "brasileiro tem vaia fácil".
"O sr. Raymundo Agenor da Silva, auxiliar do cirurgião-dentista Castello Branco, anteontem, às 8 horas da noite, quando passava pelo pátio do Mercado, foi vaiado por um grupo de vadios" (Jornal de Recife, 15 de maio de 1907)

Vaiando o marechal
(1909): O marechal de que se trata o texto, é Hermes da Fonseca, que estava em campanha eleitoral para Presidente da República, o qual tinha por adversário o grande jurista baiano Rui Barbosa, cuja campanha se notabilizou pela denominação de "civilista".
"Acabo de ler telegramas de General Carneiro, de Barbacena e Belo Horizonte, em que o marechal Hermes foi vaiado vergonhosamente em Sabará..." (O Pharol, 8 de dezembro de 1909)

Vaiando o juiz
(1910): Um julgamento que não resultava na satisfação do povo, geralmente culminava em vaias às autoridades envolvidas, como os juízes.
"O juiz quando saía do tribunal, após o interrogatório do sr. João Franco foi vaiado pela multidão" (Jornal de Recife, 1 de novembro de 1910)

Vaiando o figurino (1911): O conservadorismo era tão arraigado em nossa sociedade que a aparecimento de um simples objeto da moda se tornava motivo para a agitação raivosa do público, que via nisso uma afronta aos "bons costumes" e à "ordem social". O jupe culotte era uma espécie de saia-calça, figurino oriundo de Paris o qual causou enorme euforia no público feminino no início do século XX, e que era vendido em lojas como a Casa Raunier e Casa Havaneza.
"Tem provocado aqui sensação o aparecimento dos célebres calções da moda (jupe culotte) usados pelas senhoras. O figurino exposto pela casa Raunier foi vaiado" (Jornal de Recife 17 de março de 1911)

Vaiando o carpinteiro
(1913): As vaias, como já foi dito, não visava um tipo social específico. Qualquer pessoa, inclusive as mais inofensivas, tornavam-se vítimas delas.
"João Evangelista, carpinteiro, residente à rua de santa Clara, nº 29, quando passava ontem, às 8 e 35 da noite, por Copacabana, foi vaiado por um grupo de indivíduos" (O Imparcial, 21 de março de 1913)

Vaiando o gordo
(1914): O brasileiro que, conforme dizia Nelson Rodrigues, "vaia até minuto de silêncio", adora "tirar o sarro" até da estética alheia, mostrando-se neste aspecto de uma causticante maldade.
"Ainda há pouco tempo, acompanhando um casamento, entrou na igreja um cavalheiro conhecido pela excessiva gordura e pelo nome político que possui. Pois foi vaiado... por ser gordo" (Revista Fon-Fon, 31 de outubro de 1914)

Vaiando o próprio filho
(1922): Era um excelente ator, menos para o próprio pai.
"No teatro é onde melhor se pode observar o egoísmo. Um autor tinha um filho que trabalhava na mesma companhia, e cujo êxito eletrizava a plateia, que o aplaudia freneticamente em todas as partes que lhe eram confiadas. Uma vez, numa primeira, foi vaiado, apesar de ter feito uma notável criação do personagem que lhe fora confiado. No dia seguinte soube, que quem o fizera vaiar fora o seu próprio pai!..." (Revista Fon-Fon, 9 de dezembro de 1922)

Vaiando um senador
(1927). Trata-se do ex-presidente Artur Bernardes, que governou o país de 1922 a 1926. No ano de 1927 assumiu uma vaga no Senado Federal. Em sua posse consta que foi muito vaiado. A glosa, a seguir, versa sobre a questão:
A propósito do reconhecimento e da posse de Bernardes no Senado, segundo as últimas notícias.
Bernardes, introduzido
Pelos fundo, no Senado,
Foi aí reconhecido,
Reconheci
do e empossado;
E, pelo povo, investido
Pela polícia, vaiado.
Vaiado estrondosamente,
Como jamais neste mundo
Foi vaiado um ex-presidente.
E Bernardes, iracundo
Deixou o Senado, crente
Inda mais do ódio profundo

Que lhe vota o povo em massa.
O povo que lhe sofrera
Todo o peso da carcaça
E da alma escura, de fera
Do povo que, em plena praça,
Fê-lo voltar a monera!
(Jornal Pequeno, 27 de maio de 1927)

Vaiando Getúlio Vargas
(1945): Getúlio Vargas foi um caso singular no universo político brasileiro. Se de um lado era aplaudido como uma divindade, por outro era vaiado como se fosse a própria encarnação de Lúcifer.
"O ditador foi vaiado no Rio de Janeiro. Duas vaias recebeu ele, num domingo festivo, tépido e iluminado, como há muito tempo não via a boa e saudável gente carioca. A primeira foi na Gávea, quando ele chegou para presidir a corrida clássica, em que os melhores parelheiros disputavam lisamente, desportivamente o Grande Prêmio Brasil... A vaia da Gávea tem um alto sentido, que o eleva do nível corriqueiro das vaias comuns. Esperava o ditador uma apoteose popular, que o sagrasse o vitorioso do "primeiro páreo", naquela grande tarde desportiva... No hipódromo da Gávea falou a alma do povo de todos os quadrantes do Brasil. A nação inteira se desabafou ali e exprimiu aquilo que está ainda na consciência dos que sofreram a ainda amargam a dor profunda das humilhações. O Brasil que Getúlio julga uma propriedade sua, conquistada naquela corrida de 1930, o Brasil que tem dignidade e consciência dos altos destinos históricos, não é, e nunca será um prêmio disputável em torneio astuciosos..." (Jornal Pequeno, 14 de agosto de 1945)

Vaiando um repórter indiscreto
(1949): As cenas consideradas bizarras à época não passavam despercebidas às impiedosas vaias. Ai de quem fosse "pego com as calças arreadas!"
"A cidade de Balsas, ao sul do Maranhão, foi teatro de uma cena vergonhosa para o repórter acostumado a tomar banho de calção em Icaraí ou Copacabana. Saía de casa metido numa quase imoral roupa de banho, mas assim mesmo foi vaiado pela molecada: — Hei, olha o besta que vai para o rio de calção! Fiau!" (Revista da Semana, 1 de outubro de 1949)

Vaiando o filme
(1952): Não eram incomuns as vaias durante as exibições de filmes. Uma simples falha ou qualquer erro banal já eram motivos para risos ruidosos. Neste caso, as vaias reprovavam a péssima dublagem de uma produção americana.
"O galã falava com uma terrível voz nortista. A heroína era o da "boca mole". Creio que em algumas sessões o filme foi vaiado" (Diário de Notícias, 30 de maio de 1952)
 Vaiando novamente a Getúlio Vargas (1954, ano de sua morte): Esta manifestação de ojeriza ao presidente Getúlio Vargas deu-se nas proximidades do seu suicídio, que ocorreu em agosto deste mesmo ano. A esta altura ele já não era tão idolatrado como fora nos velhos tempos de governo ditatorial.
"O grande acontecimento político do começo da semana foi apenas este: uma vaia. Quem vaiou foi o povo de São Paulo e o vaiado foi o sr. Getúlio Vargas. É verdade que antes dele chegara ao Hipódromo o sr. Jânio Quadros e também foi vaiado. Mas porque era vaiado o prefeito, cuja popularidade nunca sofrera esses golpes da sorte, senão pela atitude submissa que tem mantido perante o sr. Getúlio Vargas? E quando chegou ao fim o sr. Getúlio Vargas, em companhia do sr. Lucas Garcez, a vaia rebentou estrondosa, os apupos partiam dos quatro cantos. Dizia-nos, ontem, um espectador: - A vaia foi dobrada. Mas também era para dois." (Diário de Notícias, 26 de janeiro de 1954)

Vaiando o prefeito
(no Maracanã, 1954): Se nem o minuto de silêncio era poupado no Maracanã, imagine-se só a presença de uma "persona non grata"! No livro "A Pátria de Chuteiras", o escritor Nelson Rodrigues faz várias referências às vaias, realçando sua força entre o público brasileiro: "Outra verdade eterna: — como bom brasileiro, o Maracanã nasceu com a vocação da vaia. Tenho dito: — lá, vaia-se até minuto de silêncio."
"É inédito, na história administrativa do Distrito Federal, o espetáculo verificado domingo último no estádio do Maracanã, quando foi vaiado o prefeito da cidade, durante alguns minutos, seguindo-se, pela multidão, o brado constante de 'água, água!'" (Diário de Notícias, 16 de março de 1954)
 Vaiando Assis Chateaubriand (1958): Apelidado de "Chatô", esta figura realçou-se na nossa história por sua poderosa influência nos meios de comunicação, proprietário do poderoso conglomerado Diários Associados.
"O sr. Assis Chateaubriand retirou-se por volta das 21 horas (a conferência começara às 16) sob proteção dos policiais. Na rua foi vaiado intensamente pelos estudantes, que envolveram o seu automóvel e contra os quais tentou puxar o revólver" (Diário de Notícias, 25 de janeiro de 1958)

Vaiando Juscelino Kubitschek
(1959): Juscelino, que se notabilizou por sua política desenvolvimentista, também não foi poupado das vaias. Aliás, todos os nossos presidentes, em algum momento, tornou-se motivo de chacota de alguma turba furiosa. O caso mais recente diz respeito a Dilma Rousseff. Em sua aparição no Maracanã na abertura da Copa do Mundo de 2014, ela ouviu soar entre o público o seguinte insulto em forma de vaia: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!"
"O presidente Juscelino, no dia da sua ridícula exibição na futura avenida Perimetral, foi vaiado galhardamente por funcionários e populares, principalmente por aqueles que há meses não recebem salários" (Diário de Notícias, 20 de novembro de 1959)

Vaiando um estrangeiro famoso
(1964): Tratava-se do ator e diretor de cinema italiano Alberto Sordi (1920-2003), que em visita ao carnaval do Brasil tornou-se vítima de estrondosas vaias do público brasileiro, que não o perdoou pela sua inconveniência de se colocar no meio do desfile.
"O ator italiano Alberto Sordi recebeu durante o desfile da escola de samba a maior vaia dada a um ator estrangeiro no Rio, porque ele se meteu no meio de uma das escolas que desfilavam. Sordi chegou ao Brasil poucos dias antes do carnaval, disposto a brincar muito. Logo ao se instalar no Copacabana Palace recebeu dezenas de telefonemas de mulheres oferecendo-se para brincar com ele. No fim, acabou brincando na companhia de pessoas do hotel e amigos brasileiros. Alberto Sordi foi membro do júri do concurso de fantasias do Copa, dançou nos bailes do Municipal e Monte Líbano, andou pela cidade para ver de perto o movimento das ruas, foi vaiado no desfile de escolas de samba, mas não perdeu o bom humor, acenando sempre e sorrindo muito" (Revista Intervalo, 23 a 29 de Fevereiro de 1964)
 Vaiando ministros (1979): Durante o período da Ditadura, as vaias tornaram-se constantes entre os que se opunham ao regime, utilizadas como uma forma de desprezo contra aqueles que se amarraram politicamente ao dito regime ditatorial.
"Não foi decerto o medo da força militar o que determinou o povo a sair da atitude que assumira, porque o povo não tem medo de armas, quando ele sabe que também pode armar-se, e a prova disto foi que apesar da soldadesca, apesar das ameaças, cada um dos srs. ministros foi vaiado durante três dias..." (Diário do Maranhão, 6 de julho de 1979)

Vaiando Ulysses Guimarães
(1989): Foi um dos políticos mais atuantes durante a transição do regime ditatorial para a democracia. Por sua forte atuação na elaboração da Constituição de 1988, ficou conhecido como "O senhor Constituinte". Faleceu num acidente aéreo de helicóptero no litoral de Angra dos Reis. Seu corpo nunca foi encontrado.
"O presidente nacional do PMDB, deputado Ulysses Guimarães, foi vaiado ontem pela primeira vez em uma convenção do partido. Para evitar-lhe constrangimento em uma convenção convocada para dar sustentação política à postulação de Quércia, estava previsto que Ulysses e o governador chegariam juntos á sede estadual do PMDB, no Cambuci." (O Liberal, 27 de fevereiro de 1989)

Vaiando o cantor Cazuza
(1989): A história tem mostrado que o engajamento (ou apoio) de artistas à política sempre culminou em malefícios para eles. Sim, afinal, o artista é do povo, e o povo é da Direita, do Centro e da Esquerda. Não é possível agradar a todos se apegando apenas a uma vertente ideológica.
"O cantor e compositor Cazuza decidiu mudar de comportamento. Em sua turnê pelo Nordeste, ele já trocou ofensas com plateias de Maceió e do Recife. Na capital alagoana, Cazuza foi vaiado ao dizer que era parecido com o governador Collor de Melo. Em Recife, chamou os fás de "paraíbas" e recusou-se a cantar várias músicas." (O Liberal, 26 de janeiro de 1989)

No que concerne propriamente à história da vaia no Brasil, dois acontecimentos despontam como emblemáticos. O primeiro foi a chamada Semana de Arte Moderna, realizada no ano de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. O grupo, que propunha uma verdadeira revolução cultural em solo tupiniquim, foi vaiado durante todo o período do evento. Dentre os que participaram do movimento estavam nomes como: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, Agenor Barbosa, Guilherme de Almeida, Plínio Salgado, Sérgio Milliet, Brecheret, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicente do Rêgo Monteiro, Heitor Villa-Lobos, Guiomar Novaes, entre outros.
Alguns anos depois, em 1926, o escritor futurista italiano Filippo Tommaso Marinetti, um dos que exerceu grande influência na criação do nosso movimento modernista, visitou o Brasil. Em sua rápida passagem pelo país foi vaiado em várias ocasiões enquanto realizava suas conferências futuristas. Conforme noticiou o Jornal de Recife, em sua edição de 3 de junho de 1926, foi ele "vaiado e apupado, sendo-lhe jogado da plateia do Teatro do parque ovos podres, batatas, bananas, couves e repolhos". A propósito de tais manifestações contra o futurista italiano, publicou-se em nossos jornais uma enxurrada de artigos, crônicas e outras composições literárias, como essas de um tal poetastro F.: 
Ao Rio tendo falado
Do seu futurismo pau,
Marinetti foi vaiado:
- Fora o bicho! Xou! Fiau!

E o pobre do desgraçado,
Que se supunha um marau
olha, trêmulo, assombrado
Do futurismo o perau.

E seguro ao Graça Aranha
Lívido, trêmulo, aflito
Marinetti, o grão mogol

Do futurismo, o acompanha
Deste a casa, ou melhor dito:
O acompanha ao aranhol"
F.
(Jornal Pequeno, 17 de maio de 1928)

****
O Marinetti foi vaiado,
Mas todo o Lyrico se encheu;
E Marinetti, entusiasmado
Diante do volume do apurado:
— Vaiado embora, o cobre é meu!
Nada me importa, como estranho,
A grande vaia que sofri
Dos passadistas, dos de antanho,
— Se embolso cobre, cobre ganho,
Se cobre hei de levar daqui.

Se para o bolso o cobre dreno,
Dos passadistas do Brasil;
Vaias, apupos... não condeno;
E enfrentarei calmo e sereno,
Quantos quiserem, cem ou mil!

 Busco outro assunto... E Marinetti
Volta de novo a me ocupar.
E me ocupar ainda promete!
Minha paciência se derrete...
À velo a tua se escapar...

Ouvindo as palmas fragorosas
De mestre Carlos... de Liet,
Palmas às vezes, bem custosas
Em casos outros, de outras prosas.
O Marinetti pôs-se em pé,

Fitou o mestre, boquiaberto...
Depois falou, dizendo assim:
Mestre Laet, crítico esperto
Ríspido e irônico, por certo
Sonhando estás... Pobre de mim!
F.
(Jornal Pequeno, 20 de maio de 1926)

O segundo acontecimento em que a vaia se notabilizou e entrou para os anais da nossa história, foi o afamado Festival da Record, que se realizou no ano de 1967. As vaias tornaram-se parte tão visceral deste evento musical que havia inclusive a "rainha da vaia", Tellé Cardim (Clélia Cardim), em cujo vestido se via escrito a letra "u", que era usado como o próprio símbolo da vaia. Dentre os mais vaiados do Festival destaca-se o cantor Sérgio Ricardo, o qual ficou tão profundamente irritado com as vaias do público que chegou a quebrar o violão no palco, atirando-o em seguida contra a plateia. O inusitado episódio correu na imprensa como uma epidemia verbal. Num artigo intitulado "O direito de vaiar", a revista "Intervalo", num a edição de 1967, discutia o assunto das vaias com a opinião de alguns artistas que viverem este importante momento da nossa história. Reproduzo o texto a seguir:

O direito de vaiar
O público tem o direito de vaiar? À primeira vista, a pergunta parece de fácil resposta, mas as vaias ocorridas no Festival de Música Popular, de São Paulo, atingiram compositores e intérpretes consagrados, como Vinícius, Francis Hime, Nana Caymmi, Jair Rodrigues, Hebe Camargo, Roberto Carlos, Sérgio Ricardo e tantos outros. Não foi ao intérprete que vaiei, mas ao júri do Festival, por não ter classificado músicas realmente populares, em benefício de outras que jamais serão cantadas pelo povo — disse Maria Cristina Schon, uma secundarista que compareceu à final do Festival assoprando um apito de sete centímetros, o mais estridente que pôde comprar. Uma semana antes de quebrar o seu violão, Sérgio Ricardo havia sido entrevistado sobre a vaia recebida por Nana Caymmi. Sua opinião foi liberal: O público tem o direito de se manifestar. Mas, na final, entrou no palco sob vaias e anunciou: Assim, com vaia, não canto. Cantou, parou e xingou o público: Vocês são uns animais! Para Paulo Machado de Carvalho Filho, diretor da emissora que promoveu o Festival da Record, a vaia é um direito inalienável do público. De opinião idêntica é o escritor e jornalista Luís Martins: O público adquire, com o ingresso, o direito de vaiar, que pode exercer, ou não, a seu critério. Quem é discorda Cidinha Campos: O público deve procurar o espetáculo de que gosta. Vaia é público certo no lugar errado, ou vice-versa. Para Nana Caymmi, vaia é um direito: É a única forma que o público tem de protestar. Agnaldo Rayol, que também foi vaiado no Festival, admite a vaia como uma manifestação tão válida quanto o aplauso, mas faz uma ressalva: No caso do Festival, houve exagero do público. Vaiaram antes de ouvir as músicas e isto quer dizer que vaiaram o artista. E o Festival era de música, não de intérprete.
Revista Intervalo, Ano V, nº 254. Editora Abril.

Antes deste célebre episódio, ainda nos anos 50, a questão das vaias já era bastante discutida no âmbito artístico, sendo assunto nas páginas dos nossos periódicos. A seguir publico uma interessante reportagem que saiu na "Revista do Rádio", em sua edição de 9 de setembro de 1952, cujo título é "O preço da glória". O texto contém as opiniões de importantes artistas da chamada "velha guarda", tais como Emilinha Borba, Nelson Gonçalves e Paulo Gracindo. Ei-lo:

***
O preço da glória: Emilinha recebeu uma vaia!
PAULO GRACINDO
"Minha primeira vaia está ligada a minha vida artística. A primeira vez que me intitulei artista fui vaiado. Isto se passou em São Paulo no dia em que estreei na Companhia de Alda Garrido. Já passara o dia com os nervos em petição de miséria. Pouco antes de iniciar o espetáculo, um cronista bandeirante subiu ao palco para saudar o novo elemento do elenco, eu. Fez discurso exaltando o "ilustre advogado" que trocava sua carreira pelo teatro. Disse mesmo "Paulo Gracindo, ator de capacidade ilimitada, vem honrar o teatro nacional com sua presença". E disse mais e muito mais... Meus nervos, já esticados, esticaram-se mais ainda e acabaram rebentando. Entrei em cena empurrado. Eu, no dizer do orador, o artista que iria honrar o teatro do país, fazia o papel de um simples goleiro, e nas poucas vezes que entrava em cena tinha que dizer umas quatro frases. Completamente atordoado pela emoção da estreia exasperada pelo discurso, andei no palco feito sonâmbulo, resmungando o meu papel. O público foi-se aborrecendo, e logo começou a murmurar contra o péssimo trabalho do "grande artista". A vaia e a risota estourou pouco antes que eu saísse de cena pela última vez. Disse correndo o que ainda tinha de dizer e sumi. Sentia-me desamparado como se fosse órfão de pai e mãe".

RODOLFO MAYER
"Foi em São Paulo, há muito tempo. A vaia não era propriamente para mim e meus companheiros de espetáculo, mas sim para o autor da peça. Isto aconteceu no Teatro João Caetano, quando representávamos "Mauá". No enredo o autor punha na boca de um dos personagens uma frase que terminava com as palavras "Bacharéis" e "Bachareletes". Seu pensamento era criticar os pais do Brasil de tempos idos, querendo os filhos doutores de qualquer maneira. O primeiro espetáculo correu normalmente, mas a crítica e os estudantes se aborreceram com a expressão "Bachareletes". Os últimos prepararam uma surpresa para a segunda apresentação. Tudo corria bem. Em cena eu e um colega. A ele cabia a frase que terminava com o "Bachareletes". Quando a disse, a vaia preparada explodiu. Não adiantava falar ou representar, o estrondo da vaia dominava tudo. Enfrentei a tormenta junto com todos os membros da companhia que acorreram rapidamente ao palco numa bela demonstração de solidariedade para com o autor. Não me apavorei, pois sabia que estávamos com a razão. Respeitosamente esperamos que amainasse a fúria dos espectadores, e depois um de nós explicou-lhes a intenção do autor desfazendo a mal-entendido, e prosseguiu o espetáculo".

ARACY DE ALMEIDA
Era menina. Foi numa festa de aniversário lá no Encantado. Quando me lembro dou muita risada. A festinha ia em meio, quando chegou um rapaz de violão em punho. Alguém lembrou: "Como é, não vai cantar nada hoje"? Não se fez de rogado, meteu os peitos. Cantou e depois se ofereceu para acompanhar quem quisesse fazer o mesmo. Nesse ponto, minha vizinha saiu-se com esta: "Minha gente, a Aracy canta bem, mesmo". Neguei "de pé junto", disse que nunca tinha cantado, nem mesmo em carnaval (a parte do Carnaval era verdade). Insistiram: "É só uma brincadeira! Não há mal nenhum!" Acabei tendo que Cantar Cheguei para o rapaz do violão, disse qual era o número. Ele fez que sim, meteu uma introdução, balançou a cabeça e "entrei" com um medo miserável. Cantei cinco versos. Tremia feito geleia de mocotó. Tremia tudo até a voz. As tantas deu-se a miséria... Esqueci a letra. O acompanhado foi com a música e eu fiquei sem a letra. Como se fosse filhote de passarinho, eu abria e fechava a boca e não saía nada. Fiquei com vontade de chorar e não chorei. Quis fugir, mas o primeiro passo que dei tropecei no pé do homem do "Pinho" e saí correndo para não cair. A gargalhada e a vaia estouraram juntas. Quando consegui me aprumar já estava chorando".

NELSON GONÇALVES
"Minha primeira vaia não foi minha, mas me apanhou em cheio. O público ainda se lembra. Foi no Teatro João Caetano, em 1950, no concurso de músicas carnavalescas de Prefeitura. Estava em cartaz a briga de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, e o público se dividia entre os dois. Eu tinha gravado com Herivelto e seu Trio de Ouro a marcha "Ai, morena", e estava ali para cantá-la com eles. Avisaram-me, antes de entrar no palco, que a vaia preparada contra Herivelto ia estourar assim que começássemos a cantar. Disseram-me que não entrasse em cena, mas minha noção de coleguismo falou mais alto e fui com o "Trio" para o palco. Fomos vaiados desde que entramos até sair. A vaia não era para mim, mas fiquei triste com o público, pois quem estava ali não era o homem Herivelto, mas sim o artista que não merecia tal tratamento".

EMILINHA BORBA
"Eu era "brotinho". Foi por volta de 1936, e era na época urna simples aluna da Escola de Quintino. Tinha a mania de imitar Carmem Miranda. Um dia, depois do recreio, voltamos todos para a sala enquanto a professora não chegava quis dar aos colegas a última criação de Carmem, um samba que se chamava "Adeus, Batucada". Aproveitando a chance pedi aos colegas uma legítima batucada nas carteiras e comecei a cantar, imitando o jeitão e a voz da Carmem. Mal havia começado, deu-me uma vontade incrível de espirrar, mas assim mesmo fui seguindo. As tantas a vontade de espirrar venceu a de cantar e dei um escandalosíssimo espirro. Resultado: risada e vaia que me deixaram sem vontade de cantar durante algum tempo, e também fizeram desconfiar que minha imitação não era lá muito boa".|

HELENINHA COSTA
"Se me lembro! Era aluna de colégio, em Santos. Não me lembro mais se foi em 38 ou 39. Mas tratava-se de uma festinha de formatura e eu havia sido incluída entre as que apresentariam números artísticos. Tinha ensaiado duas marchinhas, muito parecidas que faziam muito sucesso na época. Pedindo conselho aos colegas sobre qual devia apresentar, as opiniões se dividiam, e só na manhã da festa acabei por decidir-me por uma delas. Na hora H, cantei firme a primeira parte. Parecia que agradava, mas quando chegou a hora da segunda parte entrei firme na outra música, que andara ensaiando e desconjuntei completamente o conjunto que me acompanhava. Perdi o tom, perdi a voz, chorei e saí do palco morrendo de vergonha".
Revista do Rádio, 9 de setembro de 1952.
 Concluo este estudo um tanto diminuto (dado a importância e extensão do assunto) com as palavras do sociólogo Peter Kaufman, numa entrevista concedida à BBC, publicada em 18 de agosto de 2016, em plena polêmica envolvendo a questão das vaias nos jogos olímpicos. Quando questionado se não seria preciso criar uma cultura de torcida mais apropriada para o esporte olímpico, respondeu categoricamente:
"Isso seria uma atitude de imperialismo cultural. Por que a maneira do brasileiro torcer é errada? A realidade que conhecemos é criada pelo ambiente em que crescemos."

É isso!

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Por: Iba Mendes (São Paulo, 21 de agosto de 1916)