sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Músculos e nervos (Conto),de Aluísio Azevedo



Músculos e nervos

Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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Terminava a primeira parte do espetáculo, quando D. Olímpia entrou no circo, pelo braço do pai!  

Havia grande enchente. O público vibrava ainda sob a impressão do último trabalho exibido, que devia ter sido maravilhoso, porque o entusiasmo explodia por toda a plateia e de todos os lados gritavam ferozmente: “Scott! Á cena Scott!”  Dois sujeitos de libré azul com alamares dourados conduziam para o interior do teatro um cavalo que acabava de servir. Muitos espectadores, de chapéu no alto da cabeça, estavam de pé e batiam com a bengala nas costas das cadeiras; as cocottes pareciam loucas e soltavam guinchos, que ninguém entendia; das galerias trovejava um barulho infernal, e, por entre aquela descarga atroadora, só o nome do idolatrado acrobata sobressaía, exclamado com delírio por mil vozes.

— Scott! Scott!

Olímpia sentiu-se aturdida; o pai, no íntimo, arrependia-se de lhe ter feito a vontade, consentindo em levá-la ao circo, mas o médico recomendara tanto que não a contrariassem... e ela havia mostrado tanto empenho no capricho de ir aquela noite ao Polytheama...

De repente, um grito uníssono partiu da multidão. Estalaram as palmas com mais ímpeto; choveram chapéus; arremessaram-se leques e ramalhetes, Scott havia reaparecido.

— Bravo! Bravo, Scott!

E os aplausos recrudesceram ainda.

O ginasta, que entrara de carreira, parou em meio da arena, aprumou o corpo, sacudiu a cabeleira anelada, e, voltando-se para a direita e para a esquerda, atirava beijos, sorrindo, no meio aquela tempestade gloriosa.

Depois cie agradecer, estalou graciosamente os dedos e retirou-se de costas, a dar cambalhotas no ar.

Desencadeou-se de novo a fúria dos seus admiradores, e ele teve de voltar à cena inda uma vez, mais outra, e outra, cada vez mais triunfante.

Olímpia, entretanto, com a cabeça pendida para a frente, o olhar fito, os lábios entreabertos, dir-se-ia hipnotizada, tal era a sua imobilidade. O pai tentou chamá-la à conversa; ela respondeu por monossílabos.

— Queres... vamos embora.

— Não.

Na segunda parte do espetáculo, a moça parecia divertir-se. Não despregava a vista de Scott, a quem cabia a melhor parte dos trabalhos da noite.

O mais famoso era a sorte dos voos. Consistia em dependurar-se ele de um trapézio muito alto, deixar-se arrebatar pelo espaço e, em meio do trajeto, soltar as mãos dar uma cambalhota e ir agarrar-se a um outro trapézio que o esperava do lado oposto.

Cada um destes saltos levantava sempre uma explosão de bravos.

Scott havia feito já, por duas vezes, o seu voo arriscado; faltava-lhe o último e o mais perigoso. Diferençava este dos primeiros em que o acrobata, em vez de lançar-se de frente, tinha de ir de costas e voltar-se no ar, para alcançar o trapézio fronteiro.

O público palpitava ansioso, até que Scott afinal assomou no alto trampolim armado nas torrinhas, junto ao teto.

Cavou-se logo um fundo silêncio nos espectadores. Os corações batiam com sobressalto; todos os olhos estavam cravados na esbelta figura do artista, que, lá muito em cima, parecia, nas suas roupas justas de meia, a estátua de uma divindade olímpica. Destacava-se-lhe bem o largo peito, hercúleo, guardado pelos grossos braços nus, em contraste com os rins estreitos, mais estreitos que as suas nervosas coxas, cujos músculos de aço se encapelavam ao menor movimento do corpo.

Com uma das mãos ele segurava o trapézio, enquanto com a outra limpava o suor da testa. Depois, tranquilamente, sem o menor abalo, prendeu o lenço na sua cinta bordada de lentejoilas e deu volta ao corpo.

Ouvia-se a respiração ofegante do público.

Scott sacudiu o braço do trapézio, experimentando-o, puxou-o afinal contra o colo e deixou-se arrebatar de costas.

Em meio do circo desprendeu-se, gritou: “Hop!” deu uma volta no ar e lançou-se de braços estendidos para o outro trapézio.

Mas, o voo fora mal calculado, e o acrobata não encontrou onde agarrar-se.

Um terrível bramido, como de cem tigres a que rasgassem a um só tempo o coração, ecoou por todo o teatro. Viu-se a bela figura de Scott, um instante solta no espaço, virar para baixo a cabeça e cair na arena, estatelada, com as pernas abertas.

O recinto do circo encheu-se logo. Nos camarotes mulheres desmaiaram, em gritos; algumas pessoas fugiam espavoridas, como se houvesse um incêndio; outras jaziam pálidas, a boca aberta e a voz gelada na garganta. Ninguém mais se entendia; nas torrinhas passavam uns por cima dos outros, numa avidez aterrada, disputando ver se conseguiam distinguir o acrobata.

Este, todavia, sem acordo e quase sem vida, agonizava por terra, a vomitar sangue.

Olímpia, lívida, trêmula, estonteada, quando deu por si, achou-se, sem saber como, ao lado do moribundo. Ajoelhou-se no chão, tomou-lhe a cabeça no regaço, e vergou-se toda sobre ele, procurando sentir nas faces frias o derradeiro calor daquele belo corpo escultural e másculo. E, desatinada, ofegante, apalpava-lhe o peito, o rosto, a brônzea carne dos braços, e, com um grito de extrema agonia, molhava a boca no sangue que ele expelia pela boca.

Scott teve um estremecimento geral de corpo, contraiu-se, vergou a cabeça para traz, volveu para a moça os seus límpidos olhos comovidos, agora turvados pela morte, cerrou os dentes e, um arranco supremo, soltou o gemido derradeiro.

E o corpo do acrobata escapou das mãos finas de Olímpia, inanimado.

O Madeireiro (Conto), de Aluísio Azevedo



O Madeireiro

Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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— Sua ama está em casa rapariga?

— Está, sim, senhor. Tenha a bondade de dizer quem é.

— Diga-lhe que é a pessoa que ela espera para jantar.

— Ah! Pode subir... Minha ama vem já.

Entrei e reconheci a saleta, onde eu dantes fora recebido tantas vezes pela viuvinha do general.

Quanta recordação! Vira-a uma noite no Club de Regatas; apresentou-ma um jornalista então em moda; dançamos e  conversamos muito. Ao despedir-nos, ela, com um sorriso prometedor, disse-me que costumava receber às terças-feiras os amigos em sua casa e que eu lhe aparecesse.

Fui, e um mês depois éramos mais do que amigos, éramos amantes.

Adorável criatura! simples, inteligente e meiga. No entanto, o meu amor por ela fora sempre um tanto frouxo e preguiçoso. Aceitava e desfrutava a sua ternura como quem aceita um obséquio de cortesia. Teria eu porventura o direito a recusá-la?...

Mas, assim gomo nasceram, acabaram os nossos amores; uma ocasião cheguei tarde demais à entrevista; de outra vez lá não fui; depois esperei-a e ela não se apresentou; até que um dia, quando dei por mim, reparei que já não era seu amante.

Seis meses já lá seriam depois disto, e eis que uma bela manhã, ao levantar-me da cama, entregaram-me uma carta.

— Era dela.

“Meu amigo.

Sei que conserva as minhas cartas e peço-lhe que mas restitua. Venha jantar comigo, mas não se apresente sem elas. E um caso sério, acredite.

São vinte. Não me falte e conte com a estima de quem espera merecer-lhe este último obséquio.

Afianço que será o último. — Sua amiga, Laura.

Para que diabo quereria ela as suas cartas?...

Teria receio de que as mostrasse a alguém?... Impossível!

Principiavam-me estas considerações, quando se rasgou a cortina da saleta e a viuvinha do general surgiu defronte de mim.

— Com efeito! disse ela. Só assim o tornaria a ter em minha casa! Bons olhos o vejam!

 Beijei-lhe a mão.

— Trouxe?... perguntou.

— Suas cartas? Pois não! Bem sabe que a mim as suas ordens são sagradas...

— Ainda bem. Sente-se.

Sentamo-nos ao lado um do outro. Ela rescindia uma combinação agradável de kananga do Japão e sabonete inglês; tinha um vestido de linho enfeitado de rendas; e na frescura aveludada do seu colo destacava-se um medalhão de ônix.

— Então; que fantasia foi essa?... Interroguei,  depois de um silêncio em que nos contemplamos com o mesmo sorriso.

E no íntimo já estava gostando de haver lá ido. Achava-a mais galante; quase que me parecia mais moça e mais bonita.

— Que fantasia?...

— A de exigir as suas cartas.

Ela fez do seu meio sorriso um sorriso inteiro.

— Tinha receio de que alguém as visse...  perguntei, tomando-lhe as mãos entre as minhas.

— Não! Suponho-o incapaz de tal baixeza...

— Então?...

— Mas para que deixá-las lá?... Está tudo acabado entre nós...

E retirou a mão. Eu cheguei-me mais para ela.

— Quem sabe?... disse.

Laura soltou uma risada.

— Você há de ser sempre o mesmo!... Não se lembraria de mim se não recebesse o meu bilhete, e agora... Tipo!

— Não digas tal, que é uma injustiça!

— Espere! Tira a mão da cinta! Tenha juízo!

— Já não te mereço nada?...

— Deixe em paz o passado e tratemos do futuro. Eu quero que você seja meu amigo...

Dizendo isto, erguera-se e fora abrir uma janela que despejava sobre o jardim.

— Está então tudo acabado?... Tudo? inqueri, erguendo-me também, e envolvendo-a no meu desejo, que ela fazia agora reviver, maior do que nunca.

É que incontestavelmente o demônio da viuvinha estava muito mais apetitosa. Nunca tivera aqueles ombros, aquele sorriso tão sanguíneo e aqueles dentes tão brancos! Seus olhos ganharam muito durante a minha ausência, estavam mais úmidos e misteriosos, quase brejeiros! o seu cabelo parecia-me mais preto e mais lustroso; a sua pele mais pálida, com uma cheirosa frescura de magnólia. Todos os seus movimentos adquiriram inesperada sedução; o seu quadril havia enrijado de um modo surpreendente; o seu colo tomara irresistíveis proeminências que meus olhos cobiçosos não se fartavam de beijar.

— Então, tudo acabado, hein?...

— Tudo!

— Tudo? tudo?...

— Absolutamente!

— Para sempre?

— Você assim o quis, meu amigo! Queixe-se de si!

Ia lançar-lhe as mãos e fechá-la num abraço; ela, porém desviou-se, ordenando-me comum gesto muito sério que me contivesse, puxou duas cadeiras para junto da janela e pediu-me que a ouvisse com toda a atenção.

— Sabe por que lhe exigi as minhas cartas?...

— Por quê?

— Porque vou casar...

— Como? A senhora disse que ia casar?!

— Dentro de dois meses.

— Com quem, Laura?

E fiquei também eu muito sério.

— Com um negociante de madeiras.

— Um madeireiro?

Ela meneou afirmativamente a cabeça; eu fiz um trejeito de bico com os lábios e pus-me a sacudir a perna.

— Está bom!

— Que quer você?... Uma senhora nas minhas condições precisa casar!...

— Ora esta! Um madeireiro!

— Que me ama muito mais do que você me amou, tanto assim que está disposto a fazer o que você nunca teve a coragem de imaginar sequer! E juro-lhe, meu amigo, que saberei merecer a confiança de meu marido! Serei em virtude o modelo das esposas!...

Olhei-a de certo modo.

— Não seja tolo! disse ela em resposta ao meu olhar.

E fugiu lá para dentro, sem consentir que eu a acompanhasse.

Só nos tornamos a ver meia hora depois, já à mesa do jantar.

— E às cartas? reclamou ela.

Tirei o maço do bolso, desatei-lhe a fitinha cor de rosa que o atava; contei as cartas, estavam todas as vinte metodicamente numeradas, com as competentes datas em cima escritas em letra boa.

Mas não tive ânimo de entregá-las.

— Olhe! disse, trago-as noutro dia... Se as restituir agora, que pretexto posso ter para voltar cá?...

— Hein? Como? Isso não é de cavalheiro!...

— Não sei! Quem lhe mandou ficar mais sedutora do que era?

— Está então disposto a não entregar as minhas cartas?...

— E até a servir-me delas como arma de vingança!

Laura franziu a sobrancelha e mordeu os beiços.

Tínhamos já cruzado o talher da sobremesa e bebíamos, calados ambos, a nossa taça de champanhe.

O silêncio durou ainda bastante tempo. Ela só o quebrou para perguntar, muito seca, se eu queria mais açúcar no café.

E continuamos mudos.

Afinal, acendi um charuto e arrastei minha cadeira para junto da sua.

— É melhor ser minha amiga... segredei passando-lhe o braço na cintura.

— Não desejo outra coisa, balbuciou ressentida e magoada. Peço-lhe juntamente que me proteja como amigo, em vez de por obstáculos ao meu futuro. Que diabo! eu preciso casar!...

— Eu lhe entrego as cartas... Descanse.

— Então dê-mas!

— Com a condição de prolongar a minha visita até mais tarde...

— Mas...

— E fazermos um pouco de música ao piano como dantes. Está dito?

— Jura que me entrega depois as cartas?...

— Dou-lhe a minha palavra de honra.

— Pois então fique.

As onze e meia, Laura apresentou-me o chapéu e a bengala.

Repeli-os e declarei positivamente que não lhe entregaria as cartas, se ela não me concedesse por aquela noite, aquela noite só, gozar ainda uma vez dos direitos que dantes o seu amor me conferia tão solicitamente.

Ela a princípio não quis, mostrou-se zangada; mas eu insisti, supliquei, jurei que seria a última vez, a última!

E não saí.

Pela manhã, depois do almoço, Laura exigiu de novo as suas cartas.

Tirei o pacotinho da algibeira, abri-o, contei dez.

— É a metade. Aí ficam!

— Como a metade?...

— Pois, Laura, você me acha tão tolo que te entregasse logo todas as tuas cartas?... E depois, em troca do, que te pediria que prologasses um outro jantar como o de ontem?...

— Isso é uma velhacada!

— Que seja!

— Estou quase não aceitando nenhuma!

— Daqui a urna semana ver-te-ei trazer as outras dez. Está dito?

— Tratante!

Daí a uma semana, com efeito, lá ia eu, com as dez cartinhas na algibeira, em caminho da casa de Laura. E nunca em minha vida esperei com tanta ânsia a hora de uma entrevista de amor. Os dias que a precederam afiguraram-se-me intermináveis e tristes. A viuvinha também se mostrava ansiosa, quando menos por apanhar as suas cartas.

Mas, coitada! não recebeu as dez, recebeu cinco.

Pois se a achei ainda mais arrebatadora nesta segunda concessão que na primeira!...

E na seguinte semana recebeu apenas duas cartas, e nas outras que se seguiram recebeu uma de cada vez.

Ah! mas também ninguém poderá imaginar a minha aflição ao desfazer-me da última! um jogador não estaria mais comovido ao jogar o derradeiro tento! Eu ia ficar completamente arruinado; ia ficar perdido; ia ficar sem Laura, o que agora se me afigurava a maior desgraça deste mundo!

Arrependi-me de lhe ter dado dez logo de uma vez e cinco da outra. Que grande estúpido fora eu! Esbanjara o meu belo capital, quando o podia ter feito render por muito tempo!...

Então o espectro do madeireiro surgiu-me à fantasia, como eu o imaginava: bruto, vermelho, gordo e suarento. E Laura, ao meu lado, no abandono tépido da sua alcova sorria triunfante, porque tinha resgatado o único laço que a prendia a outro homem. Estava livre!

Rasguei a carta ao meio.

— Aqui tem, disse passando-lhe metade da folha de papel. Ainda me fica direito a um almoço e metade de uma noite em sua companhia... Peço-lhe que me deixe voltar...

Ela riu-se, e só então reparei que meus olhos estavam cheios d'água.

— Queres que te passe de novo o baralho?... perguntou-me enternecida, cingindo-se ao meu peito.

— Se quero!... Isso nem se pergunta!

— Mas agora é a minha vez de pôr a condição...

— Qual é?

— Só tornaremos a jogá-lo depois de casados, serve-te?

— E o madeireiro? Ele não tem cartas tuas?

— Tranquiliza-te que, além de meu marido, eu só amei e escrevi a um homem, que és tu!

— Pois aceito com todos os diabos! E, como ainda tenho jus a um almoço, não preciso sair já!

Uma semana depois, Laura dizia-me à volta da igreja:

— Mas, meu querido, como queres tu que eu te mostre uma pessoa que não existe?...

— Como não existe?... Então o teu ex-noivo, o célebre madeireiro, cujo retrato trazias no medalhão de ônix...

— Qual noivo! Aquela fotografia de um jardineiro que tive há muitos anos e que morreu aqui em casa.

— Então tudo aquilo foi?...

— Foi o meio de arrastar-te para junto de mim, tolo! e reconquistar o teu amor, que era tudo o que ambicionava nesta vida!