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3/03/2023

O Uraguai (Poesia), de Basílio da Gama


O URAGUAI



At specus, et Caci detecta apparuit ingens
Regia, et umbrosae penitus patuere cavernae.

VIRGÍLIO - A ENEIDA, LIBRO VIII.


AO ILUSTRÍSSIMO E EXCELENTÍSSIMO
SENHOR CONDE DE OEIRAS.


SONETO

Ergue de jaspe um globo alvo e rotundo,
E em cima a estátua de um Herói perfeito;
Mas não lhe lavres nome em campo estreito,
Que o seu nome enche a terra e o mar profundo.

Mostra na jaspe, artífice facundo,
Em muda história tanto ilustre feito,
Paz, Justiça, Abundância e firme peito,
Isto nos basta a nós e ao nosso mundo.

Mas porque pode em século futuro,
Peregrino, que o mar de nós afasta,
Duvidar quem anima o jaspe duro,

Mostra-lhe mais Lisboa rica e vasta,
E o Comércio, e em lugar remoto e escuro,
Chorando a Hipocrisia. Isto lhe basta.

Do autor.

... saevis... periclis/Servati facimus.

VIRGÍLIO, A ENEIDA, VIII.

CANTO PRIMEIRO

Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos e impuros
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
O rouco som da irada artilharia.
MUSA, honremos o Herói que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou a afronta.
Ai tanto custas, ambição de império!
E Vós, por quem o maranhão pendura

Rotas cadeias e grilhões pesados,
Herói e irmão de heróis, saudosa e triste
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa entanto
Acostumar ao voo as novas asas
Em que um dia vos leve. Desta sorte
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra
E vai ver de mais perto no ar vazio
O espaço azul, onde não chega o raio.
Já dos olhos o véu tinha rasgado
A enganada Madri, e ao Novo Mundo
Da vontade do Rei núncio severo
Aportava Catâneo: e ao grande Andrade
Avisa que tem prontos os socorros
E que em breve saía ao campo armado.
Não podia marchar por um deserto
O nosso General, sem que chegassem
As conduções, que há muito tempo espera.
Já por dilatadíssimos caminhos
Tinha mandado de remotas partes
Conduzir os petrechos para a guerra.
Mas entretanto cuidadoso e triste
Muitas coisas a um tempo revolvia
No inquieto agitado pensamento.
Quando pelos seus guardas conduzido
Um índio, com insígnias de correio,
Com cerimônia estranha lhe apresenta
Humilde as cartas, que primeiro toca
Levemente na boca e na cabeça.
Conhece a fiel mão e já descansa
O ilustre General, que viu, rasgando,
Que na cera encarnada impressa vinha
A águia real do generoso Almeida.
Diz-lhe que está vizinho e traz consigo,
Prontos para o caminho e para a guerra,
Os fogosos cavalos e os robustos
E tardos bois que hão de sofrer o jugo
No pesado exercício das carretas.
Não tem mais que esperar, e sem demora
Responde ao castelhano que partia,
E lhe determinou lugar e tempo
Para unir os socorros ao seu campo.
Juntos enfim, e um corpo do outro à vista,
Fez desfilar as tropas pelo plano,
Por que visse o espanhol em campo largo
A nobre gente e as armas que trazia.
Vão passando as esquadras: ele entanto
Tudo nota de parte e tudo observa
Encostado ao bastão. Ligeira e leve
Passou primeiro a guarda, que na guerra
É primeira a marchar, e que a seu cargo
Tem descobrir e segurar o campo.
Depois desta se segue a que descreve
E dá ao campo a ordem e a figura,
E transporta e edifica em um momento
O leve teto e as movediças casas,
E a praça e as ruas da cidade errante.
Atrás dos forçosíssimos cavalos
Quentes sonoros eixos vão gemendo
Co’ peso da funesta artilharia.
Vinha logo de guardas rodeado
— Fontes de crimes — militar tesouro,
Por quem deixa no rego o curvo arado
O lavrador, que não conhece a glória;
E vendendo a vil preço o sangue e a vida
Move, e nem sabe por que move, a guerra.
Intrépidos e imóveis nas fileiras,
Com grandes passos, firme a testa e os olhos
Vão marchando os mitrados granadeiros,
Sobre ligeiras rodas conduzindo
Novas espécies de fundidos bronzes
Que amiúdam, de prontas mãos servidos,
E multiplicam pelo campo a morte.
Que é este, Catâneo perguntava,
Das brancas plumas e de azul e branco
Vestido, e de galões coberto e cheio,
Que traz a rica cruz no largo peito?
Geraldo, que os conhece, lhe responde:
É o ilustre Meneses, mais que todos
Forte de braço e forte de conselho.
Toda essa guerreira infantaria,
A flor da mocidade e da nobreza
Como ele azul e branco e ouro vestem.
Quem é, continuava o castelhano,
Aquele velho vigoroso e forte,
Que de branco e amarelo e de ouro ornado
Vem os seus artilheiros conduzindo?
Vês o grande alpoim. Este o primeiro
Ensinou entre nós por que caminho
Se eleva aos céus a curva e grave bomba
Prenhe de fogo; e com que força do alto
Abate os tetos da cidade e lança
Do roto seio envolta em fumo a morte.
Seguiam juntos o paterno exemplo
Dignos do grande pai ambos os filhos.
Justos céus! E é forçoso, ilustre Vasco,
Que te preparem as soberbas ondas,
Longe de mim, a morte e a sepultura?
Ninfas do amor, que vistes, se é que vistes,
O rosto esmorecido e os frios braços,
Sobre os olhos soltai as verdes tranças.
Triste objeto de mágoa e de saudade,
Como em meu coração, vive em meus versos.
Com os teus encarnados granadeiros
Também te viu naquele dia o campo,
Famoso Mascarenhas, tu, que agora
Em doce paz, nos menos firmes anos,
Igualmente servindo ao rei e à pátria,
Ditas as leis ao público sossego,
Honra de Toga e glória do Senado.
Nem tu, Castro fortíssimo, escolheste
O descanso da pátria: o campo e as armas
Fizeram renovar no ínclito peito
Todo o heroico valor dos teus passados.
Os últimos que em campo se mostraram
Foram fortes dragões de duros peitos,
Prontos para dois gêneros de guerra,
Que pelejam a pé sobre as montanhas,
Quando o pede o terreno; e quando o pede
Erguem nuvens de pó por todo o campo
Co’ tropel dos magnânimos cavalos.
Convida o General depois da mostra,
Pago da militar guerreira imagem,
Os seus e os espanhóis; e já recebe
No pavilhão purpúreo, em largo giro,
Os capitães a alegre e rica mesa.
Desterram-se os cuidados, derramando
Os vinhos europeus nas taças de ouro.
Ao som da ebúrnea cítara sonora
Arrebatado de furor divino
Do seu herói, Matúsio celebrava
Altas empresas dignas de memória.
Honras futuras lhe promete, e canta
Os seus brasões, e sobre o forte escudo
Já de então lhe afigura e lhe descreve
As pérolas e o título de grande.
Levantadas as mesas, entretinham
O congresso de heróis discursos vários.
Ali Catâneo ao General pedia
Que do princípio lhe dissesse as causas
Da nova guerra e do fatal tumulto.
Se aos Padres seguem os rebeldes povos?
Quem os governa em paz e na peleja?
Que do premeditado oculto Império
Vagamente na Europa se falava
Nos seus lugares cada qual imóvel
Pende da sua boca: atende em roda
Tudo em silêncio, e dá princípio Andrade:
O nosso último rei e o rei de Espanha
Determinaram, por cortar de um golpe,
Como sabeis, neste ângulo da terra,
As desordens de povos confinantes,
Que mais certos sinais nos dividissem
Tirando a linha de onde a estéril costa,
E o cerro de Castilhos o mar lava
Ao monte mais vizinho, e que as vertentes
Os termos do domínio assinalassem.
Vossa fica a Colônia, e ficam nossos
Sete povos, que os Bárbaros habitam
Naquela oriental vasta campina
Que o fértil Uraguai discorre e banha.
Quem podia esperar que uns índios rudes,
Sem disciplina, sem valor, sem armas,
Se atravessassem no caminho aos nossos,
E que lhes disputassem o terreno!
Enfim não lhes dei ordens para a guerra:
Frustrada a expedição, enfim voltaram.
Co’ vosso general me determino
A entrar no campo juntos, em chegando
A doce volta da estação das flores.
Não sofrem tanto os índios atrevidos:
Juntos um nosso forte entanto assaltam.
E os padres os incitam e acompanham.
Que, à sua discrição, só eles podem
Aqui mover ou sossegar a guerra.
Os índios que ficaram prisioneiros
Ainda os podeis ver neste meu campo.
Deixados os quartéis, enfim partimos
Por diversas estradas, procurando
Tomar no meio os rebelados povos.
Por muitas léguas de áspero caminho,
Por lagos, bosques, vales e montanhas,
Chegamos onde nos impede o passo
Arrebatado e caudaloso rio.
Por toda a oposta margem se descobre
De bárbaros o número infinito
Que ao longe nos insulta e nos espera.
Preparo curvas balsas e pelotas,
E em uma parte de passar aceno,
Enquanto em outra passo oculto as tropas.
Quase tocava o fim da empresa, quando
Do vosso general um mensageiro
Me afirma que se havia retirado:
A disciplina militar dos índios
Tinha esterilizado aqueles campos.
Que eu também me retire, me aconselha,
Até que o tempo mostre outro caminho.
Irado, não o nego, lhe respondo:
Que para trás não sei mover um passo.
Venha quando puder, que eu firme o espero.
Porém o rio e a forma do terreno
Nos faz não vista e nunca usada guerra.
Sai furioso do seu seio, e toda
Vai alagando com o desmedido
Peso das águas a planície imensa.
As tendas levantei, primeiro aos troncos,
Depois aos altos ramos: pouco a pouco
Fomos tomar na região do vento
A habitação aos leves passarinhos.
Tece o emaranhadíssimo arvoredo
Verdes, irregulares, e torcidas
Ruas e praças, de uma e de outra banda
Cruzadas de canoas. Tais podemos
Co’a mistura das luzes, e das sombras
Ver por meio de um vidro transplantados
Ao seio de Ádria os nobres edifícios,
E os jardins, que produz outro elemento.
E batidas do remo, e navegáveis
As ruas da marítima Veneza.
Duas vezes a lua prateada
Curvou no céu sereno os alvos cornos,
E inda continuava a grossa enchente.
Tudo nos falta no país deserto.
Tardar devia o espanhol socorro.
E de si nos lançava o rio e o tempo.
Cedi, e retirei-me às nossas terras.
Deu fim à narração o invicto Andrade
E antes de se soltar o ajuntamento,
Com os régios poderes, que ocultara,
Surpreende os seus, e os ânimos alegra,
Enchendo os postos todos do seu campo.
O corpo de dragões a Almeida entrega,
E Campo das Mercês o lugar chama.


CANTO SEGUNDO

Depois de haver marchado muitos dias
Enfim junto a um ribeiro, que atravessa
Sereno e manso um curvo e fresco vale,
Acharam, os que o campo descobriram,
Um cavalo anelante, e o peito e as ancas
Coberto de suor e branca escuma.
Temos perto o inimigo: aos seus dizia
O esperto General: Sei que costumam
Trazer os índios um volúvel laço,
Com o qual tomam no espaçoso campo
Os cavalos que encontram; e rendidos
Aqui e ali com o continuado
Galopear, a quem primeiro os segue
Deixam os seus, que entanto se restauram.
Nem se enganou; porque ao terceiro dia
Formados os achou sobre uma larga
Ventajosa colina, que de um lado
É coberta de um bosque e do outro lado
Corre escarpada e sobranceira a um rio.
Notava o General o sítio forte,
Quando Meneses, que vizinho estava,
Lhe diz: Nestes desertos encontramos
Mais do que se esperava, e me parece
Que só por força de armas poderemos
Inteiramente sujeitar os povos.
Torna-lhe o General: Tentem-se os meios
De brandura e de amor; se isto não basta,
Farei a meu pesar o último esforço.
Mandou, dizendo assim, que os índios todos
Que tinha prisioneiros no seu campo
Fossem vestidos das formosas cores,
Que a inculta gente simples tanto adora.
Abraçou-os a todos, como filhos,
E deu a todos liberdade. Alegres
Vão buscar os parentes e os amigos,
E a uns e a outros contam a grandeza
Do excelso coração e peito nobre
Do General famoso, invicto Andrade.
Já para o nosso campo vêm descendo,
Por mandado dos seus, dois dos mais nobres.
Sem arcos, sem aljavas; mas as testas
De várias e altas penas coroadas,
E cercadas de penas as cinturas,
E os pés, e os braços e o pescoço. Entrara
Sem mostras nem sinal de cortesia
Sepé no pavilhão. Porém Cacambo
Fez, ao seu modo, cortesia estranha,
E começou: Ó General famoso,
Tu tens à vista quanta gente bebe
Do soberbo Uraguai a esquerda margem.
Bem que os nossos avôs fossem despojo
Da perfídia de Europa, e daqui mesmo
Co’s não vingados ossos dos parentes
Se vejam branquejar ao longe os vales,

Eu, desarmado e só, buscar-te venho.
Tanto espero de ti. E enquanto as armas
Dão lugar à razão, senhor, vejamos
Se se pode salvar a vida e o sangue
De tantos desgraçados. Muito tempo
Pode ainda tardar-nos o recurso
Com o largo oceano de permeio,
Em que os suspiros dos vexados povos
Perdem o alento. O dilatar-se a entrega
Está nas nossas mãos, até que um dia
Informados os reis nos restituam
A doce antiga paz. Se o rei de Espanha
Ao teu rei quer dar terras com mão larga
Que lhe dê Buenos Aires, e Correntes
E outras, que tem por estes vastos climas;
Porém não pode dar-lhes os nossos povos.
E inda no caso que pudesse dá-los,
Eu não sei se o teu rei sabe o que troca
Porém tenho receio que o não saiba.
Eu já vi a Colônia portuguesa
Na tenra idade dos primeiros anos,
Quando o meu velho pai cos nossos arcos
Às sitiadoras tropas castelhanas
Deu socorro, e mediu convosco as armas.
E quererão deixar os portugueses
A praça, que avassala e que domina
O gigante das águas, e com ela
Toda a navegação do largo rio,
Que parece que pôs a natureza
Para servir-vos de limite e raia?
Será; mas não o creio. E depois disto
As campinas que vês e a nossa terra
Sem o nosso suor e os nossos braços,
De que serve ao teu rei? Aqui não temos
Nem altas minas, nem caudalosos

Aqui não temos. Os padres faziam crer aos índios que os
portugueses eram gente sem lei, que adoravam o ouro.
Rios de areias de ouro. Essa riqueza
Que cobre os templos dos benditos padres,
Fruto da sua indústria e do comércio
Da folha e peles, é riqueza sua.
Com o arbítrio dos corpos e das almas
O céu lha deu em sorte. A nós somente
Nos toca arar e cultivar a terra,
Sem outra paga mais que o repartido
Por mãos escassas mísero sustento.
Podres choupanas, e algodões tecidos,
E o arco, e as setas, e as vistosas penas
São as nossas fantásticas riquezas.
Muito suor, e pouco ou nenhum fasto.
Volta, senhor, não passes adiante.
Que mais queres de nós? Não nos obrigues
A resistir-te em campo aberto. Pode
Custar-te muito sangue o dar um passo.
Não queiras ver se cortam nossas frechas.
Vê que o nome dos reis não nos assusta.
O teu está muito longe; e nós os índios
Não temos outro rei mais do que os padres.
Acabou de falar; e assim responde
O ilustre General: Ó alma grande,
Digna de combater por melhor causa,
Vê que te enganam: risca da memória
Vãs, funestas imagens, que alimentam
Envelhecidos mal fundados ódios.
Por mim te fala o rei: ouve-me, atende,
E verás uma vez nua a verdade.
Fez-vos livres o céu, mas se o ser livres
Era viver errantes e dispersos,
Sem companheiros, sem amigos, sempre
Com as armas na mão em dura guerra,
Ter por justiça a força, e pelos bosques
Viver do acaso, eu julgo que inda fora
Melhor a escravidão que a liberdade.
Mas nem a escravidão, nem a miséria
Quer o benigno rei que o fruto seja
Da sua proteção. Esse absoluto
Império ilimitado, que exercitam
Em vós os padres, como vós, vassalos,
É império tirânico, que usurpam.
Nem são senhores, nem vós sois escravos.
O rei é vosso pai: quer-vos felices.
Sois livres, como eu sou; e sereis livres,
Não sendo aqui, em outra qualquer parte.
Mas deveis entregar-nos estas terras.
Ao bem público cede o bem privado.
O sossego de Europa assim o pede.
Assim o manda o rei. Vós sois rebeldes,
Se não obedeceis; mas os rebeldes,
Eu sei que não sois vós, são os bons padres,
Que vos dizem a todos que sois livres,
E se servem de vós como de escravos.
Armados de orações vos põem no campo
Contra o fero trovão da artilharia,
Que os muros arrebata; e se contentam
De ver de longe a guerra: sacrificam,
Avarentos do seu, o vosso sangue.
Eu quero à vossa vista despojá-los
Do tirano domínio destes climas,
De que a vossa inocência os fez senhores.
Dizem-vos que não tendes rei? Cacique,
E o juramento de fidelidade?
Por que está longe, julgas que não pode
Castigar-vos a vós, e castigá-los?
Generoso inimigo, é tudo engano.
Os reis estão na Europa; mas adverte
Que estes braços, que vês, são os seus braços.
Dentro de pouco tempo um meu aceno
Vai cobrir este monte e essas campinas
De semivivos palpitantes corpos
De míseros mortais, que inda não sabem
Por que causa o seu sangue vai agora
Lavar a terra e recolher-se em lagos.
Não me chames cruel: enquanto é tempo
Pensa e resolve, e, pela mão tomando
Ao nobre embaixador, o ilustre Andrade
Intenta reduzi-lo por brandura.
E o índio, um pouco pensativo, o braço
E a mão retira; e, suspirando, disse:
Gentes de Europa, nunca vos trouxera
O mar e o vento a nós. Ah! não debalde
Estendeu entre nós a natureza
Todo esse plano espaço imenso de águas.
Prosseguia talvez; mas o interrompe
Sepé, que entra no meio, e diz: Cacambo
Fez mais do que devia; e todos sabem
Que estas terras, que pisas, o céu livres
Deu aos nossos avôs; nós também livres
As recebemos dos antepassados.
Livres as hão de herdar os nossos filhos.
Desconhecemos, detestamos jugo
Que não seja o do céu, por mão dos padres.
As frechas partirão nossas contendas
Dentro de pouco tempo: e o vosso Mundo,
Se nele um resto houver de humanidade,
Julgará entre nós; se defendemos
Tu a injustiça, e nós o Deus e a Pátria.
Enfim quereis a guerra, e tereis guerra.
Lhe torna o General: Podeis partir-vos,
Que tendes livres o passo. Assim dizendo,
Manda dar a Cacambo rica espada
De tortas guarnições de prata e ouro,
A que inda mais valor dera o trabalho.
Um bordado chapéu e larga cinta
Verde, e capa de verde e fino pano,
Com bandas amarelas e encarnadas.
E mandou que a Sepé se desse um arco
De pontas de marfim; e ornada e cheia
De novas setas a famosa aljava:
A mesma aljava que deixara um dia,
Quando envolto em seu sangue, e vivo apenas,
Sem arco e sem cavalo, foi trazido
Prisioneiro de guerra ao nosso campo.
Lembrou-se o índio da passada injúria
E sobraçando a conhecida aljava
Lhe disse: Ó General, eu te agradeço
As setas que me dás e te prometo
Mandar-tas bem depressa uma por uma
Entre nuvens de pós no ardor da guerra.
Tu as conhecerás pelas feridas,
Ou porque rompem com mais força os ares.
Despediram-se os índios, e as esquadras
Se vão dispondo em ordem de peleja,
Como mandava o General. Os lados
Cobrem as tropas de cavaleria,
E estão no centro firmes os infantes.
Qual fera boca de libréu raivoso,
De lisos e alvos dentes guarnecida,
Os índios ameaça a nossa frente
De agudas baionetas rodeada.
Fez a trombeta o som da guerra. Ouviram
Aqueles montes pela vez primeira
O som da caixa portuguesa; e viram
Pela primeira vez aqueles ares
Desenroladas as reais bandeiras.
Saem das grutas pelo chão cavadas,
Em que até li de indústria se escondiam.
Nuvens de índios, e a vista duvidava
Se o terreno os bárbaros nasciam.
Qual já no tempo antigo o errante Cadmo
Dizem que vira da fecunda terra
Brotar a cruelíssima seara.
Erguem todos um bárbaro alarido,
E sobre os nossos cada qual encurva
Mil vezes, e mil vezes sota o arco,
Um chuveiro de setas despedindo.
Gentil mancebo presumido e néscio,
A quem a popular lisonja engana,
Vaidoso pelo campo discorria,
Fazendo ostentação dos seus penachos.
Impertinente e de família escura,
Mas que tinha o favor dos santos padres,
Contam, não sei se é certo, que o tivera
A estéril mãe por orações de Balda.
Chamaram-no Baldetta por memória.
Tinha um cavalo de manchada pele
Mais vistoso que forte: a natureza
Um ameno jardim por todo o corpo
Lhe debuxou, e era Jardim chamado.
O padre na saudosa despedida
Deu-lho em sinal de amor; e nele agora
Girando ao largo com incertos tiros
Muitos feria, e a todos inquietava.
Mas se então se cobriu de eterna infâmia,
A glória tua foi, nobre Gerardo.
Tornava o índio jactancioso, quando
Lhe sai Gerardo ao meio da carreira:

Disparou-lhe a pistola, e fez-lhe a um tempo
Co’reflexo do sol luzir a espada.
Só de vê-lo se assusta o índio, e fica
Qual quem ouve o trovão e espera o raio.
Treme, e o cavalo aos seus volta, e pendente
A um lado e a outro de cair acena.
Deixando aqui e ali por todo o campo
Entornadas as setas; pelas costas,
Flutuavam as penas; e fugindo
Soltas da mão as rédeas ondeavam.
Insta Gerardo, e quase o ferro o alcança,
Quando Tatu-Guaçu, o mais valente
De quantos índios viu a nossa idade,
Armado o peito da escamosa pele
De um jacaré disforme, que matara,
Se atravessa diante. Intenta o nosso
Com a outra pistola abrir caminho,
E em vão o intenta: a verde-negra pele,
Que ao índio o largo peito orna e defende,
Formou a natureza impenetrável.
Co’a espada o fere no ombro e na cabeça
E as penas corta, de que o campo espalha.
Separa os dois fortíssimos guerreiros
A multidão dos nossos, que atropela
Os índios fugitivos: tão depressa
Cobrem o campo os mortos e os feridos,
E por nós a vitória se declara.
Precipitadamente as armas deixam,
Nem resistem mais tempo às espingardas.
Vale-lhe a costumada ligeireza,
Debaixo lhe desaparece a terra
E voam, que o temor aos pés põe asas,
Clamando ao céu e encomendando a vida
Às orações dos padres. Desta sorte
Talvez, em outro clima, quando soltam
A branca neve eterna os velhos Alpes,
Arrebata a corrente impetuosa
Co’as choupanas o gado. Aflito e triste
Se salva o lavrador nos altos ramos,
E vê levar-lhe a cheia os bois e o arado.
Poucos índios no campo mais famosos,
Servindo de reparo aos fugitivos,
Sustentam todo o peso da batalha,
Apesar da fortuna. De uma parte
Tatu-Guaçu mais forte na desgraça
Já banhado em seu sangue pretendia
Por seu braço ele só pôr termo à guerra.
Caitutu de outra parte altivo e forte
Opunha o peito à fúria do inimigo,
E servia de muro à sua gente.
Fez proezas Sepé naquele dia.
Conhecido de todos, no perigo
Mostrava descoberto o rosto e o peito
Forçando os seus co’ exemplo e co’as palavras.
Já tinha despejado a aljava toda,
E destro em atirar, e irado e forte
Quantas setas da mão voar fazia
Tantas na nossa gente ensanguentava.
Setas de novo agora recebia,
Para dar outra vez princípio à guerra.
Quando o ilustre espanhol que governava
Montevidio, alegre, airoso e pronto
As rédeas volta ao rápido cavalo
E por cima de mortos e feridos,
Que lutavam co’a morte, o índio afronta.
Sepé, que o viu, tinha tomado a lança
E atrás deitando a um tempo o corpo e o braço
A despediu. Por entre o braço e o corpo
Ao ligeiro espanhol o ferro passa:
Rompe, sem fazer dano, a terra dura
E treme fora muito tempo a hástea.
Mas de um golpe a Sepé na testa e peito
Fere o governador, e as rédeas corta
Ao cavalo feroz. Foge o cavalo,
E leva involuntário e ardendo em ira
Por todo o campo a seu senhor; e ou fosse
Que regada de sangue aos pés cedia
A terra, ou que pusesse as mãos em falso,
Rodou sobre si mesmo, e na caída
Lançou longe a Sepé. Rende-te, ou morre,
Grita o governador; e o tape altivo,
Sem responder, encurva o arco, e a seta
Despede, e nela lhe prepara a morte.
Enganou-se esta vez. A seta um pouco
Declina, e açouta o rosto a leve pluma.
Não quis deixar o vencimento incerto
Por mais tempo o espanhol, e arrebatado
Com a pistola lhe fez tiro aos peitos.
Era pequeno o espaço, e fez o tiro
No corpo desarmado estrago horrendo.
Viam-se dentro pelas rotas costas
Palpitar as entranhas. Quis três vezes
Levantar-se do chão: caiu três vezes,
E os olhos já nadando em fria morte
Lhe cobriu sombra escura e férreo sono.
Morto o grande Sepé, já não resistem
As tímidas esquadras. Não conhece
Leis o temor. Debalde está diante,
E anima os seus o rápido Cacambo.
Tinha-se retirado da peleja
Caitutu mal ferido; e do seu corpo
Deixa Tatu-Guaçu por onde passa
Rios de sangue. Os outros mais valentes
Ou eram mortos, ou feridos. Pende
O ferro vencedor sobre os vencidos.
Ao número, ao valor cede Cacambo:
Salva os índios que pode, e se retira.



CANTO TERCEIRO

Já a nossa do mundo Última Parte
Tinha voltado a ensanguentada fronte
Ao centro luminar quando a campanha
Semeada de mortos e insepultos
Viu desfazer-se a um tempo a vila errante
Ao som das caixas. Descontente e triste
Marchava o General: não sofre o peito
Compadecido e generoso a vista
Daqueles frios e sangrados corpos,
Vítimas da ambição de injusto império.
Foram ganhando e descobrindo terra
Inimiga e infiel; até que um dia
Fizeram alto e se acamparam onde
Incultas várgeas, por espaço imenso,
Enfadonhas e estéreis acompanham
Ambas as margens de um profundo rio.
Todas estas vastíssimas campinas
Cobrem palustres e tecidas canas
E leves juncos do calor tostados,
Pronta matéria de voraz incêndio.
O índio habitador de quando em quando
Com estranha cultura entrega ao fogo;
Muitas léguas de campo: o incêndio dura,
Enquanto dura e o favorece o vento.
Da erva, que renasce, se apascenta
O imenso gado, que dos montes desce;
E renovando incêndios desta sorte
A Arte emenda a Natureza, e podem
Ter sempre nédio o gado, e o campo verde.
Mas agora sabendo por espias
As nossas marchas, conservavam sempre
Secas as torradíssimas campinas;
Nem consentiam, por fazer-nos guerra,
Que a chama benfeitora e a cinza fria
Fertilizasse o árido terreno.
O cavalo até li forte e brioso,
E costumado a não ter mais sustento,
Naqueles climas, do que a verde relva
Da mimosa campina, desfalece.
Nem mais, se o seu senhor o afaga, encurva
Os pés, e cava o chão co’as mãos, e o vale
Rinchando atroa, e açoita o ar co’as clinas.
Era alta noite, e carrancudo e triste
Negava o céu envolto em pobre manto
A luz ao mundo, e murmurar se ouvia
Ao longe o rio, e menear-se o vento.
Respirava descanso a natureza.
Só na outra margem não podia entanto
O inquieto Cacambo achar sossego.
No perturbado interrompido sono
(Talvez fosse ilusão) se lhe apresenta
A triste imagem de Sepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno a cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava e as descompostas penas.
Quanto diverso do Sepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza e desventura encobre.
Ou, se acaso inda vivem no teu peito
Os desejos de glória, ao duro passo
Resiste valoroso; ah tu, que podes!
E tu, que podes, põe a mão nos peitos
À fortuna de Europa: agora é tempo,
Que descuidados da outra parte dormem.
Envolve em fogo e fumo o campo, e paguem
O teu sangue e o meu sangue. Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas, no ar, fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.
Acorda o índio valoroso, e salta
Longe da curva rede, e sem demora
O arco e as setas arrebata, e fere
O chão com o pé: quer sobre o largo rio
Ir peito a peito a contrastar co’a morte.
Tem diante dos olhos a figura
Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.
Pendura a um verde tronco as várias penas,
E o arco, e as setas, e a sonora aljava;
E onde mais manso e mais quieto o rio
Se estende e espraia sobre a ruiva areia
Pensativo e turbado entra; e com água
Já por cima do peito as mãos e os olhos
Levanta ao céu, que ele não via, e às ondas
O corpo entrega. Já sabia entanto
A nova empresa na limosa gruta
O pátrio rio; e dando um jeito à urna
Fez que as águas corressem mais serenas;
E o índio afortunado a praia oposta
Tocou sem ser sentido. Aqui se aparta
Da margem guarnecida e mansamente
Pelo silêncio vai da noite escura
Buscando a parte donde vinha o vento.
Lá, como é uso do país, roçando
Dois lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto e foge a tempo
Da perigosa luz; porém na margem
Do rio, quando a chama abrasadora
Começa a alumiar a noite escura,
Já sentido dos guardas não se assusta
E temerária e venturosamente,
Fiando a vida aos animosos braços,
De um alto precipício às negras ondas
Outra vez se lançou e foi de um salto
Ao fundo rio a visitar a areia.
Debalde gritam, e debalde às margens
Corre a gente apressada. Ele entretanto
Sacode as pernas e os nervosos braços:
Rompe as escumas assoprando, e a um tempo
Suspendido nas mãos, voltando o rosto,
Via nas águas trêmulas a imagem
Do arrebatado incêndio, e se alegrava...
Não de outra sorte o cauteloso Ulisses,
Vaidoso da ruína, que causara,
Viu abrasar de Troia os altos muros,
E a perjura cidade envolta em fumo
Encostar-se no chão e pouco a pouco
Desmaiar sobre as cinzas. Cresce entanto
O incêndio furioso, e o irado vento
Arrebata às mãos cheias vivas chamas,
Que aqui e ali pela campina espalha.
Comunica-se a um tempo ao largo campo
A chama abrasadora e em breve espaço
Cerca as barracas da confusa gente.
Armado o General, como se achava,
Saiu do pavilhão e pronto atalha,
Que não prossiga o voador incêndio.
Poucas tendas entrega ao fogo e manda,
Sem mais demora, abrir largo caminho
Que os separe das chamas. Uns já cortam
As combustíveis palhas, outros trazem
Nos prontos vasos as vizinhas ondas.
Mas não espera o bárbaro atrevido.
A todos se adianta; e desejoso
De levar a notícia ao grande Balda
Naquela mesma noite o passo estende.
Tanto se apressa que na quarta aurora
Por veredas ocultas viu de longe
A doce pátria, e os conhecidos montes,
E o templo, que tocava o céu co’as grimpas.
Mas não sabia que a fortuna entanto
Lhe preparava a última ruína.
Quanto seria mais ditoso! Quanto
Melhor lhe fora o acabar a vida
Na frente do inimigo, em campo aberto,
Ou sobre os restos de abrasadas tendas,
Obra do seu valor! Tinha Cacambo
Real esposa, a senhoril Lindoia,
De costumes suavíssimos e honestos,
Em verdes anos: com ditosos laços
Amor os tinha unido; mas apenas
Os tinha unido, quando ao som primeiro
Das trombetas lho arrebatou dos braços
A glória enganadora. Ou foi que Balda,
Engenhoso e sutil, quis desfazer-se
Da presença importuna e perigosa
Do índio generoso; e desde aquela
Saudosa manhã, que a despedida
Presenciou dos dois amantes, nunca
Consentiu que outra vez tornasse aos braços
Da formosa Lindoia e descobria
Sempre novos pretextos da demora.
Tornar não esperado e vitorioso
Foi todo o seu delito. Não consente
O cauteloso Balda que Lindoia
Chegue a falar ao seu esposo; e manda
Que uma escura prisão o esconda e aparte
Da luz do sol. Nem os reais parentes,
Nem dos amigos a piedade, e o pranto
Da enternecida esposa abranda o peito
Do obstinado juiz: até que à força
De desgostos, de mágoa e de saudade,
Por meio de um licor desconhecido,
Que lhe deu compassivo o santo padre,
Jaz o ilustre Cacambo — entre os gentios
Único que na paz e em dura guerra
De virtude e valor deu claro exemplo.
Chorado ocultamente e sem as honras
De régio funeral, desconhecida
Pouca terra os honrados ossos cobre.
Se é que os seus ossos cobre alguma terra.
Cruéis ministros, encobri ao menos
A funesta notícia. Ai que já sabe
A assustada amantíssima Lindoia
O sucesso infeliz. Quem a socorre!
Que aborrecida de viver procura
Todos os meios de encontrar a morte.
Nem quer que o esposo longamente a espere
No reino escuro, aonde se não ama.
Mas a enrugada Tanajura, que era
Prudente e experimentada (e que a seus peitos
Tinha criado em mais ditosa idade
A mãe da mãe da mísera Lindoia),
E lia pela história do futuro,
Visionária, supersticiosa,
Que de abertos sepulcros recolhia
Nuas caveiras e esburgados ossos,
A uma medonha gruta, onde ardem sempre
Verdes candeias, conduziu chorando
Lindoia, a quem amava como filha;
E em ferrugento vaso licor puro
De viva fonte recolheu. Três vezes
Girou em roda, e murmurou três vezes
Co’a carcomida boca ímpias palavras,
E as águas assoprou: depois com o dedo
Lhe impõe silêncio e faz que as águas note.
Como no mar azul, quando recolhe
A lisonjeira viração as asas,
Adormecem as ondas e retratam
Ao natural as debruçadas penhas,
O copado arvoredo e as nuvens altas:
Não de outra sorte à tímida Lindoia
Aquelas águas fielmente pintam
O rio, a praia o vale e os montes onde
Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa
Entre despedaçados edifícios,
Com o solto cabelo descomposto,
Tropeçando em ruínas encostar-se.
Desamparada dos habitadores
A Rainha do Tejo, e solitária,
No meio de sepulcros procurava
Com seus olhos socorro; e com seus olhos
Só descobria de um e de outro lado
Pendentes muros e inclinadas torres.
Vê mais o Luso Atlante, que forceja
Por sustentar o peso desmedido
Nos roxos ombros. Mas do céu sereno
Em branca nuvem Próvida Donzela
Rapidamente desce e lhe apresenta,
De sua mão, Espírito Constante,
Gênio de Alcides, que de negros monstros
Despeja o mundo e enxuga o pranto à pátria.
Tem por despojos cabeludas peles
De ensanguentados e famintos lobos
E fingidas raposas. Manda, e logo
O incêndio lhe obedece; e de repente
Por onde quer que ele encaminha os passos
Dão lugar as ruínas. Viu Lindoia
Do meio delas, só a um seu aceno,
Sair da terra feitos e acabados
Vistosos edifícios. Já mais bela
Nasce Lisboa de entre as cinzas — glória
Do grande conde, que co’a mão robusta
Lhe firmou na alta testa os vacilantes
Mal seguros castelos. Mais ao longe
Prontas no Tejo, e ao curvo ferro atadas
Aos olhos dão de si terrível mostra,
Ameaçando o mar, as poderosas
Soberbas naus. Por entre as cordas negras
Alvejam as bandeiras: geme atado
Na popa o vento; e alegres e vistosas
Descem das nuvens a beijar os mares
As flâmulas guerreiras. No horizonte
Já sobre o mar azul aparecia
A pintada Serpente, obra e trabalho
Do Novo Mundo, que de longe vinha
Buscar as nadadoras companheiras
E já de longe a fresca Sintra e os montes,
Que inda não conhecia, saudava.
Impacientes da fatal demora
Os lenhos mercenários junto à terra
Recebem no seu seio e a outros climas,
Longe dos doces ares de Lisboa,
Transportam a Ignorância e a magra Inveja,
E envolta em negros e compridos panos
A Discórdia, o Furor. A torpe e velha
Hipocrisia vagarosamente
Atrás deles caminha; e inda duvida
Que houvesse mão que se atrevesse a tanto.
O povo a mostra com o dedo; e ela,
Com os olhos no chão, da luz do dia
Foge, e cobrir o rosto inda procura
Com os pedaços do rasgado manto.
Vai, filha da ambição, onde te levam
O vento e os mares: possam teus alunos
Andar errando sobre as águas; possa
Negar-lhe a bela Europa abrigo e porto.
Alegre deixarei a luz do dia,
Se chegarem a ver meus olhos que Ádria
Da alta injúria se lembra e do seu seio
Te lança — e que te lançam do seu seio
Gália, Ibéria e o país belo que parte
O Apenino, e cinge o mar e os Alpes.
Pareceu a Lindoia que a partida
Destes monstros deixava mais serenos
E mais puros os ares. Já se mostra
Mais distinta a seus olhos a cidade.
Mas viu, ai vista lastimosa! a um lado
Ir a fidelidade portuguesa,
Manchados os puríssimos vestidos
De roxas nódoas. Mais ao longe estava
Com os olhos vendados, e escondido
Nas roupas um punhal banhado em sangue,
O Fanatismo, pela mão guiando
Um curvo e branco velho ao fogo e ao laço.
Geme ofendida a Natureza; e geme
Ai! Muito tarde, a crédula cidade.
Os olhos põe no chão a Igreja irada
E desconhece, e desaprova, e vinga
O delito cruel e a mão bastarda.
Embebida na mágica pintura
Goza as imagens vãs e não se atreve
Lindoia a perguntar. Vê destruída
A República infame, e bem vingada
A morte de Cacambo. E atenta e imóvel
Apascentava os olhos e o desejo,
E nem tudo entendia, quando a velha
Bateu co’a mão e fez tremer as águas.
Desaparecem as fingidas torres
E os verdes campos; nem já deles resta
Leve sinal. Debalde os olhos buscam
As naus: já não são naus, nem mar, nem montes,
Nem o lugar onde estiveram. Torna
Ao pranto a saudosíssima Lindoia
E de novo outra vez suspira e geme.
Até que a noite compassiva e atenta,
Que as magoadas lástimas lhe ouvira,
Ao partir sacudiu das fuscas asas,
Envolto em frio orvalho, um leve sono,
Suave esquecimento de seus males.



CANTO QUARTO

Salvas as tropas do noturno incêndio,
Aos povos se avizinha o grande Andrade,
Depois de afugentar os índios fortes
Que a subida dos montes defendiam,
E rotos muitas vezes e espalhados
Os tapes cavaleiros, que arremessam
Duas causas de morte em uma lança
E em largo giro todo o campo escrevem.
Que negue agora a pérfida calúnia
Que se ensinava aos bárbaros gentios
A disciplina militar, e negue
Que mãos traidoras a distantes povos
Por ásperos desertos conduziam
O pó sulfúreo, e as sibilantes balas
E o bronze, que rugia nos seus muros.
Tu que viste e pisaste, ó Blasco insigne,
Todo aquele país, tu só pudeste,
Co’a mão que dirigia o ataque horrendo
E aplanava os caminhos à vitória,
Descrever ao teu rei o sítio e as armas,
E os ódios, e o furor, e a incrível guerra.
Pisaram finalmente os altos riscos
De escalvada montanha, que os infernos
Co’o peso oprime e a testa altiva esconde
Na região que não perturba o vento.
Qual vê quem foge à terra pouco a pouco
Ir crescendo o horizonte, que se encurva,
Até que com os céus o mar confina,
Nem tem à vista mais que o ar e as ondas:
Assim quem olha do escarpado cume
Não vê mais do que o céu, que o mais lhe encobre
A tarda e fria névoa, escura e densa.
Mas quando o Sol de lá do eterno e fixo
Purpúreo encosto de dourado assento,
Co’a criadora mão desfaz e corre
O véu cinzento de ondeadas nuvens,
Que alegre cena para os olhos! Podem
Daquela altura, por espaço imenso,
Ver as longas campinas retalhadas
De trêmulos ribeiros, claras fontes
E lagos cristalinos, onde molha
As leves asas o lascivo vento.
Engraçados outeiros, fundos vales
E arvoredos copados e confusos,
Verde teatro, onde se admira quanto
Produziu a supérflua Natureza.
A terra sofredora de cultura
Mostra o rasgado seio; e as várias plantas,
Dando as mãos entre si, tecem compridas
Ruas, por onde a vista saudosa
Se estende e perde. O vagaroso gado
Mal se move no campo, e se divisam
Por entre as sombras da verdura, ao longe,
As casas branquejando e os altos templos.
Ajuntavam-se os índios entretanto
No lugar mais vizinho, onde o bom padre
O bom padre. Balda.
Queria dar Lindoia por esposa
Ao seu Baldetta, e segurar-lhe o posto
E a régia autoridade de Cacambo.
Estão patentes as douradas portas
Do grande templo, e na vizinha praça
Se vão dispondo de uma e de outra banda
As vistosas esquadras diferentes.
Co’a chata frente de urucu tingida,
Vinha o índio Cobé disforme e feio,
Que sustenta nas mãos pesada maça,
Com que abate no campo os inimigos
Como abate a seara o rijo vento.
Traz consigo os selvagens da montanha,
Que comem os seus mortos; nem consentem
Que jamais lhes esconda a dura terra
No seu avaro seio o frio corpo
Do doce pai, ou suspirado amigo.
Foi o segundo, que de si fez mostra,
O mancebo Pindó, que sucedera
A Sepé no lugar: inda em memória
Do não vingado irmão, que tanto amava,
Leva negros penachos na cabeça.
São vermelhas as outras penas todas,
Cor que Sepé usara sempre em guerra.
Vão com eles os seus tapes, que se afrontam
É que têm por injúria morrer velhos.
Segue-se Caitutu, de régio sangue
E de Lindoia irmão. Não muito fortes
São os que ele conduz; mas são tão destros
No exercício da frecha que arrebatam
Ao verde papagaio o curvo bico,
Voando pelo ar. Nem dos seus tiros
O peixe prateado está seguro
No fundo do ribeiro. Vinham logo
Alegres guaranis de amável gesto.
Esta foi de Cacambo a esquadra antiga.
Penas da cor do céu trazem vestidas,
Com cintas amarelas: e Baldetta
Desvanecido a bela esquadra ordena
No seu Jardim: até o meio a lança
Pintada de vermelho, e a testa e o corpo
Todo coberto de amarelas plumas.
Pendente a rica espada de Cacambo,
E pelos peitos ao través lançada
Por cima do ombro esquerdo a verde faixa
De donde ao lado oposto a aljava desce.
Num cavalo da cor da noite escura
Entrou na grande praça derradeiro
Tatu-Guaçu feroz, e vem guiando
Tropel confuso de cavalaria,
Que combate desordenadamente.
Trazem lanças nas mãos, e lhes defendem
Peles de monstros os seguros peitos.
Revia-se em Baldetta o santo padre;
E fazendo profunda reverência,
Fora da grande porta, recebia
O esperado Tedeu ativo e pronto,
A quem acompanhava vagaroso
Com as chaves no cinto o Irmão Patusca,
De pesada, enormíssima barriga.
Jamais a este o som da dura guerra
Tinha tirado as horas do descanso.
De indulgente moral e brando peito,
Que penetrado da fraqueza humana
Sofre em paz as delícias desta vida,
Tais e quais no-las dão. Gosta das coisas
Porque gosta, e contenta-se do efeito
E nem sabe nem quer saber as causas.
Ainda que talvez, em falta de outro,
Com grosseiras ações o povo exorte,
Gritando sempre, e sempre repetindo,
Que do bom Pai Adão a triste raça
Por degraus degenera, e que este mundo
Piorando envelhece. Não faltava,
Para se dar princípio à estranha festa,
Mais que Lindoia. Há muito lhe preparam
Todas de brancas penas revestidas
Festões de flores as gentis donzelas.
Cansados de esperar, ao seu retiro
Vão muitos impacientes a buscá-la.
Estes de crespa Tanajura aprendem
Que entrara no jardim triste e chorosa,
Sem consentir que alguém a acompanhasse.
Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu, que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co’a vista, e teme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindoia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindoia, e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açoita o campo co’a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindoia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste,
Que os corações mais duros enternece
Tanto era bela no seu rosto a morte!
Indiferente admira o caso acerbo
Da estranha novidade ali trazido
O duro Balda; e os índios, que se achavam,
Corre co’a vista e os ânimos observa.
Quando pode o temor! Secou-se a um tempo
Em mais de um rosto o pranto; e em mais de um peito
Morreram sufocados os suspiros.
Ficou desamparada na espessura,
E exposta às feras e às famintas aves,
Sem que alguém se atrevesse a honrar seu corpo
De poucas flores e piedosa terra.
Fastosa egípcia, que o maior triunfo
Temeste honrar do vencedor Latino,
Se desceste inda livre ao escuro reino
Foi vaidosa talvez da imaginada
Bárbara pompa do real sepulcro.
Amável indiana, eu te prometo
Que em breve a iníqua pátria envolta em chamas
Te sirva de urna, e que misture e leve
A tua e a sua cinza o irado vento.
Confusamente murmurava entanto
Do caso atroz a lastimada gente.
Dizem que Tanajura lhes pintara
Suave aquele gênero de morte,
E talvez lhe mostrasse o sítio e os meios.
Balda, que há muito espera o tempo e o modo
De alta vingança, e encobre a dor no peito,
Excita os povos a exemplar castigo
Na desgraçada velha. Alegre em roda
Se ajunta a petulante mocidade
Co’as armas que o acaso lhe oferece.
Mas neste tempo um índio pelas ruas
Com gesto espavorido vem gritando,
Soltos e arrepiados os cabelos:
Fugi, fugi da mal segura terra,
Que estão já sobre nós os inimigos.
Eu mesmo os vi, que descem do alto monte,
E vêm cobrindo os campos; e se ainda
Vivo chego a trazer-vos a notícia,
Aos meus ligeiros pés a vida eu devo.
Debalde nos expomos neste sítio,
Diz o ativo Tedeu: melhor conselho
É ajuntar as tropas no outro povo:
Perca-se o mais, salvemos a cabeça.
Embora seja assim: faça-se em tudo
A vontade do céu; mas entretanto
Vejam os contumazes inimigos
Que não têm que esperar de nós despojos,
Falte-lhe a melhor parte ao seu triunfo.
Assim discorre Balda; e entanto ordena
Que todas as esquadras se retirem,
Dando as casas primeiro ao fogo, e o templo.
Parte, deixando atada a triste velha
Dentro de uma choupana, e vingativo
Quis que por ela começasse o incêndio.
Ouviam-se de longe os altos gritos
Da miserável Tanajura. Aos ares
Vão globos espessíssimos de fumo,
Que deixa ensanguentada a luz do dia.
Com as grossas camáldulas à porta,
Devoto e penitente os esperava
O Irmão Patusca, que ao rumor primeiro
Tinha sido o mais pronto a pôr-se em salvo
E a desertar da perigosa terra.
Por mais que o nosso General se apresse,
Não acha mais que as cinzas inda quentes
E um deserto onde há pouco era a cidade.
Tinham ardido as míseras choupanas
Dos pobres índios, e no chão caídos
Fumegavam os nobres edifícios,
Deliciosa habitação dos padres.
Entram no grande templo e veem por terra
As imagens sagradas. O áureo trono,
O trono em que se adora um Deus imenso
Que o sofre, e não castiga os temerários,
Em pedaços no chão. Voltava os olhos
Turbado o General: aquela vista
Lhe encheu o peito de ira, e os olhos de água.
Em roda os seus fortíssimos guerreiros
Admiram, espalhados, a grandeza
Do rico templo e os desmedidos arcos,
As bases das firmíssimas colunas
E os vultos animados, que respiram
Na abóboda o artífice famoso
Pintara... mas que intento! as roucas vozes
Seguir não podem do pincel os rasgos.
Gênio da inculta América, que inspiras
A meu peito o furor que me transporta,
Tu me levanta nas seguras asas.
Serás em paga ouvido no meu canto.
E te prometo que pendente um dia
Adorne a minha lira os teus altares.



CANTO QUINTO

Na vasta e curva abóboda pintara
A destra mão de artífice famoso,
Em breve espaço, e Vilas, e Cidades,
E Províncias e Reinos. No alto sólio
Estava dando leis ao mundo inteiro
A Companhia. Os Cetros, e as Coroas,
E as Tiaras, e as Púrpuras em torno
Semeadas no chão. Tinha de um lado
Dádivas corruptoras: do outro lado
Sobre os brancos altares suspendidos
Agudos ferros, que gotejam sangue.
Por esta mão ao pé dos altos muros
Um dos Henriques perde a vida e o reino.
E cai por esta mão, oh céus! debalde
Rodeado dos seus o outro Henrique,
Delícia do seu povo e dos humanos.
Príncipes, o seu sangue é vossa ofensa.
Novos crimes prepara o horrendo monstro.
Armai o braço vingador: descreva
Seus tortos sucos o luzente arado
Sobre o seu trono; nem aos tardos netos
O lugar, em que foi, mostrar-se possa.
Viam-se ao longe errantes e espalhados
Pelo mundo os seus filhos ir lançando
Os fundamentos do esperado Império
De dois em dois: ou sobre os coroados
Montes do Tejo; ou nas remotas praias,
Que habitam as pintadas Amazonas,
Por onde o rei das águas escumando
Foge da estreita terra e insulta os mares.
Ou no Ganges sagrado; ou nas escuras
Nunca de humanos pés trilhadas serras
Aonde o Nilo tem, se é que tem, fonte.
Com um gesto inocente aos pés do trono
Via-se a Liberdade Americana
Que arrastando enormíssimas cadeias
Suspira, e os olhos e a inclinada testa
Nem levanta, de humilde e de medrosa.
Tem diante riquíssimo tributo,
Brilhante pedraria, e prata, e ouro,
Funesto preço por que compra os ferros.
Ao longe o mar azul e as brancas velas
Com estranhas divisas nas bandeiras
Denotam que aspirava ao senhorio,
E da navegação e do comércio.
Outro tempo, outro clima, outros costumes.
Mais além tão diversa de si mesma,
Vestida em larga roupa flutuante
Que distinguem barbáricos lavores,
Respira no ar chinês o mole fasto
De asiática pompa; e grave e lenta
Permite aos bonzos, apesar de Roma,
Do seu Legislador o indigno culto.
Aqui entrando no Japão fomenta
Domésticas discórdias. Lá passeia
No meio dos estragos, ostentando
Orvalhadas de sangue as negras roupas.
Cá desterrada enfim dos ricos portos,

Voltando a vista às terras que perdera,
Quer pisar temerária e criminosa...
Oh céus! Que negro horror! Tinha ficado
Imperfeita a pintura, e envolta em sombras.
Tremeu a mão do artífice ao fingi-la,
E desmaiaram no pincel as cores.
Da parte oposta, nas soberbas praias
Da rica Londres trágica e funesta,
Ensanguentado o Tâmega esmorece.
Vendo a conjuração pérfida e negra
Que se prepara ao crime; e intenta e espera
Erguer aos céus nos inflamados ombros
E espalhar pelas nuvens denegridos
Todos os grandes e a famosa sala.
Por entre os troncos de umas plantas negras,
Por obra sua, viam-se arrastados
Às ardentes areias africanas
O valor e alta glória portuguesa.
Ai mal aconselhado quanto forte,
Generoso Mancebo! eternos lutos
Preparas à chorosa Lusitânia.
Desejado dos teus, a incertos climas
Vás mendigar a morte e a sepultura.
Já satisfeitos do fatal desígnio,
Por mão de um dos Felipes afogavam
Nos abismos do mar e emudeciam
Queixosas línguas e sagradas bocas
Em que ainda se ouvia a voz da pátria.
Crescia o seu poder e se firmava
Entre surdas vinganças. Ao mar largo
Lança do profanado oculto seio
O irado Tejo os frios nadadores.
E deixa o barco e foge para a praia
O pescador que atônito recolhe
Na longa rede o pálido cadáver
Privado de sepulcro. Enquanto os nossos
Apascentam a vista na pintura,
Nova empresa e outro gênero de guerra
Em si resolve o General famoso.
Apenas esperou que ao sol brilhante
Desse as costas de todo a opaca terra,
Precipitou a marcha e no outro povo
Foi surpreender os índios. O Cruzeiro,
Constelação dos europeus não vista,
As horas declinando lhe assinala.
A corada manhã serena e pura
Começava a bordar nos horizontes
O céu de brancas nuvens povoado
Quando, abertas as portas, se descobrem
Em trajes de caminho ambos os padres,
Que mansamente do lugar fugiam,
Desamparando os miseráveis índios
Depois de expostos ao furor das armas.
Lobo voraz que vai na sombra escura
Meditando traições ao manso gado,
Perseguido dos cães, e descoberto
Não arde em tanta cólera, como ardem
Balda e Tedeu. A soldadesca alegre
Cerca em roda o fleumático Patusca,
Que próvido de longe os acompanha
E mal se move no jumento tardo.
Pendem-se dos arções de um lado e de outro
Os paios saborosos e os vermelhos
Presuntos europeus; e a tiracolo,
Inseparável companheira antiga
De seus caminhos, a borracha pende.
Entra no povo e ao templo se encaminha
O invicto Andrade; e generoso, entanto,
Reprime a militar licença, e a todos
Co’a grande sombra ampara: alegre e brando
No meio da vitória. Em roda o cercam
(Nem se enganaram) procurando abrigo
Chorosas mães, e filhos inocentes,
E curvos pais e tímidas donzelas.
Sossegado o tumulto e conhecidas
As vis astúcias de Tedeu e Balda,
Cai a infame República por terra.
Aos pés do General as toscas armas
Já tem deposto o rude Americano,
Que reconhece as ordens e se humilha,
E a imagem do seu rei prostrado adora.
Serás lido, Uraguai. Cubra os meus olhos
Embora um dia a escura noite eterna.
Tu vive e goza a luz serena e pura.
Vai aos bosques de Arcádia: e não receies
Chegar desconhecido àquela areia.
Ali de fresco entre as sombrias murtas
Urna triste a Mireo não todo encerra.
Leva de estranho céu, sobre ela espalha
Co’a peregrina mão bárbaras flores.
E busca o sucessor, que te encaminhe
Ao teu lugar, que há muito que te espera.


*** 

AO AUTOR
JOAQUIM INÁCIO DE SEIXAS BRANDÃO
Doutor em Medicina pela Universidade de Montpellier


SONETO I

Parece-me que vejo a grossa enchente,
E a vila errante, que nas águas boia:
Detesto os crimes da infernal tramoia;
Choro a Cacambo e a Sepé valente.

Não é presságio vão: lerá a gente
A guerra do Uraguai, como a de Troia;
E o lagrimoso caso de Lindoia
Fará sentir o peito que não sente.

Ao longe, a Inveja um país ermo e bronco
Infecte com seu hálito perverso,
Que a ti só chega o mal distinto ronco.

Ah! consente que o meu junto ao teu verso,
Qual fraca vide que se arrima a um tronco,
Também vá discorrer pelo Universo.


SONETO II

Entro pelo Uraguai: vejo a cultura
Das novas terras por engenho claro;
Mas chego ao Templo magnífico e paro
Embebido nos rasgos da pintura.

Vejo erguer-se a República perjura
Sobre alicerces de um domínio avaro:
Vejo distintamente, se reparo,
De Caco usurpador a cova escura.

Famoso Alcides, ao teu braço forte
Toca vingar os cetros e os altares:
Arranca a espada, descarrega o corte.

E tu, Termindo, leva pelos ares
A grande ação já que te coube em sorte
A gloriosa parte de a cantares


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023.

10/18/2018

José Basílio da Gama (Biografia)



José Basílio da Gama (Aspectos Biográficos)

Nasceu na comarca do Rio das Mortes da província de Minas Gerais.

Ainda menino, sua bela e viva inteligência enchia de esperanças e satisfação a seus pais, que apesar de pobres o enviaram ao Rio de Janeiro, onde encontrou um protetor no brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim.

Apenas começou seus estudos, atraiu a atenção dos padres da companhia; e ele moço, pobre, desejando beber instrução, não repugnou em aceitar o hábito negro, e fez-se noviço dessa memorável confraria, e já tinham decorrido quatro anos, quando em 1759, o marquês de Pombal, os extinguiu com a bula de Clemente IV.

Privado desse apoio, não se viu só, encontrou apoio de D. Antônio Quadelupe e do conde de Bobadela, que o fizeram entrar para o seminário de São José.

Mais tarde, sob a proteção de amigos, pôde ir a Lisboa, ali abandonado pelo rancor, que ainda conservavam àqueles que tinham sido da companhia de Jesus; daí retirou-se para Roma, onde cheio de privações e desgosto, ao desamparo e longe da pátria, com a alma cheia de dor e de saudade fez parte para a arcádia de Roma, onde se reuniam os doutos e sábios sob pseudônimo de Termindo Sepilio.

Voltando a Lisboa, por ocasião da inauguração da estátua de D. José I, em 1775, fez nessa festa uma bela ode, que mereceu louvores, e o marquês de Pombal, amigo das letras e das artes, o nomeou oficial extranumerário de sua secretaria de Estado.

Seu talento o fez subir depressa; em pouco foi nomeado oficial de gabinete do grande ministro, com carta, foros, e escudo de fidalguia.

Voltando ao Rio de Janeiro, fundou aqui uma arcádia modelada pela da de Roma, pouco tempo depois aniquilada pelo conde de Rezende, pelo receio de que fosse uma associação política.

José Basílio da Gama não julgou então conveniente conservar-se por mais tempo no Rio de Janeiro onde o rodeavam perigos em toda a parte, e novamente se dirigiu para Lisboa, onde os desgostos o levaram à sepultura em 1795, tendo pouco mais de 50 anos.

Um mau frade, que assistiu a seus últimos instantes, lançou fogo aos preciosos manuscritos de suas tragédias e poemas! Só pôde escapar a esse desastre as belas poesias feitas à morte do conde Bobadela, os elegantes sonetos dedicados ao marquês de Pombal, a quem foi sempre grato, e seu poema Uraguai, porque não estavam ao alcance desse padre iconoclasta das letras.

O Uraguai é a nossa primeira epopeia; é um livrinho, em que cada linha é um verso cheio de beleza e harmonia.

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Fonte:
Manuel Francisco Dias da Silva - Dicionário biográfico de brasileiros célebres, 1871.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes, 2018,

5/01/2018

Basílio da Gama – Aspectos biográficos


Basílio da Gama – Aspectos biográficos

Texto publicado na revista "Vida Carioca", no ano de 1944. Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica de Iba Mendes (2017)
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É este um nome notável na história dos grandes expoentes da mentalidade brasileira tradicional.

Nascido em São José das Mortes, distrito de São José del-Rei, hoje Tiradentes (Minas Gerais), José Basílio da Gama foi um intelectual notável, que se destacou brilhantemente como poeta e literato de indiscutível qualidade.

Aos 12 anos, veio para o Rio de Janeiro, ingressando num colégio de jesuítas; mas, sem inclinação para as coisas religiosas. Por isso, não professou.  Era ainda aparentado com o célebre navegador Vasco da Gama.

Em 3 de setembro de 1759, uma lei da metrópole portuguesa foi baixada, suprimindo a Companhia de Jesus em Portugal e seus domínios, acabando seus institutos e mandando expulsar de todo território português os padres a ela filiados, com exceção dos professos que não quisessem acompanhar seus mestres. Basílio da Gama aproveitou-se desta escapatória e, em 1760, seguiu para Roma onde permaneceu até 1765, sendo ali recebido na Arcádia Romana, com a alcunha de Termindo Sipilio. Depois, embarcou para Lisboa e, no ano de 1767, voltou ao Rio de Janeiro, aqui permanecendo até 1867. Em julho desse mesmo ano, retornou a Lisboa, com a intenção de frequentar a Universidade de Coimbra.

Prenderam-no, ali, e desterram-no para a África, sob suspeita religiosa, por ter pertencido, embora como noviço, à Companhia de Jesus.

Contudo, o Marquês de Pombal veio a perdoá-lo, em atenção ao epitálamo que lhe endereçou, por ocasião das núpcias de sua filha, com augúrios de felicidades para noiva.

Basílio da Gama que, desde há muito idealizara um poema em torno dos sucessos ocorridos no sul do Brasil, em consequência do tratado de limites de 1750, realizou esse desejo, calcando o tema da obra na sujeição dos índios das missões jesuítas do Uruguai, pelo general português Gomes Freire de Andrade. Veio assim à luz da publicidade, sob os auspícios do Marquês de Pombal, O Uruguai, o seu trabalho mais célebre e mais conhecido.

Cinco anos depois, em 1774, Basílio da Gama foi nomeado Secretário de Estado dos Negócios do Reino, fixando residência em Lisboa, tendo ali convivido nas mais autorizadas rodas literárias.

Deram-lhe carta de nobreza e fidalguia, nomeando-o, ainda, escudeiro e cavaleiro fidalgo da Casa da Rainha, onde passou a residir.  Envergou também o hábito de São Tiago da Espanha.

Interveio brilhantemente nas querelas suscitadas a pretexto das novas e velhas tendências literárias, por dois partidos antagônicos, um deles chefiado por Filinto Elísio e outro por Garção.

Basílio da Gama compôs sátiras e descomponendas métricas contra os seus desafetos e foi, igualmente, por eles satirizado e ofendido.

Morreu solteiro, em Lisboa, aos 54 anos de idade, no dia 31 de julho de 1795, deixando cerca de 40 poemas, 30 sonetos, odes, glosas, etc.

O Uruguai, poema épico, divide-se em 5 cantos, com 1402 versos brancos, decassílabos. É uma obra prima, de que Garret disse: "É o moderno poema que mais mérito tem, na minha opinião". O Uruguai teve inúmeras edições brasileiras.

Em 1791, Basílio da Gama publicou o poemeto épico Quitubrá, a respeito das façanhas deste chefe africano em prol dos portugueses nas suas guerras da África.


"Vida Carioca", julho de 1944.

3/26/2018

Literatura Brasileira: Os épicos (Ensaio), de José Veríssimo


Extraído do Livro "História da Literatura Brasileira", publicado no ano de 1916. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

Moema, de Victor Meirelles de Lima (1832-1903)
É principalmente na épica que os brasileiros, se não sobrelevam aos portugueses da segunda metade do século XVIII, concorrem dignamente com eles. Os dois poemas brasileiros, o Uraguai, de Basílio da Gama, e o Caramuru, de Santa Rita Durão, não desmerecem das melhores epopeias portuguesas da época.
José Basílio da Gama nasceu nos arredores da antiga Vila de São José do Rio das Mortes, depois São José de El-Rei, hoje Tiradentes, 1741. Foram seus pais o capitão-mor Manoel da Costa Vilas Boas, português, e D. Quitéria Inácia da Gama, brasileira, ambos de bom nascimento. A mãe descendia da nobre família Gama de Portugal, motivo por que talvez o filho lhe preferisse o apelido ao do pai. De seus ascendentes somente eram brasileiros a mãe e a avó materna. Órfão de pai em anos verdes, e talvez minguado de bens, veio para o Rio de Janeiro cursar de favor o colégio dos jesuítas. Estava para professar na Companhia quando foi esta dissolvida e seus membros expulsos dos domínios portugueses. Aproveitando a exceção em favor dos não professos, abandonou Basílio da Gama a Companhia. Do Brasil passou a Portugal e daí a Roma, onde foi admitido à Arcádia Romana. De Roma voltou ao Brasil em fins de 1766 ou princípios de 1767. Em meados do ano seguinte tornava a Portugal, com destino à Universidade de Coimbra. Preso em Lisboa como ex-jesuíta, esquivou o consequente desterro para Angola consagrando um formoso poema ao casamento de uma filha do Marquês de Pombal, ministro todo-poderoso de D. José I. No próprio ano (1769) desse Epitalâmio, saiu da Impressão régia o Uraguai. Como no mesmo volume vinha a Relação abreviada, famosa diatribe contra os jesuítas, obra pessoa de Pombal, é legítimo conjeturar que por conta deste correra a publicação do poema. Dedicado no texto ao irmão de Pombal, ex-governador do Pará, Maranhão, era oferecido ao marquês em um soneto preliminar. Desde então não saiu mais Basílio da Gama de Portugal, sendo inexata a notícia corrente de uma segunda vinda ao Brasil depois da publicação do Uraguai. Além deste, que é a sua obra capital, compôs mais de trinta poemas, entre maiores e menores, sem contar algumas glosas. Em 1754 foi nomeado oficial da Secretaria do Reino. Sucessivamente obteve mais tarde o título de escudeiro fidalgo da Casa Real (1787) e o hábito de Santiago da Espada. Emprego e mercê lhe davam uma renda anual que não só o punha ao abrigo de privações, mas lhe facultava viver com relativa largueza. Aos cinquenta e quatro anos, ou perto deles, faleceu em Lisboa, solteiro, a 31 de julho de 1795.
Pouco adequado a um poema épico segundo os moldes clássicos, era o assunto de Basílio da Gama: a guerra que Portugal, auxiliado pela Espanha, fez aos índios dos Sete Povos das Missões do Uruguai, rebelados contra o tratado de 1750, que os passava ao domínio português, tirando-os aos seus padres os jesuítas que os haviam descido, amansado e aldeado, e os despejava de suas terras. Tal tema, ainda exagerado por uma imaginação épica, daria apenas um episódio em poema de mais vulto. Demais faltava ao poeta o recuo do tempo para uma possível idealização do acontecimento, cujos autores ainda viviam. A epopeia tinha, pois, de ser uma simples narrativa histórica em versos de fatos recentíssimos, a que uma animosidade contra os jesuítas, que se manifestava já na Espanha e Portugal, e iria breve resultar nos atos de Pombal e de Aranda, dava um desmesurado relevo. Limitado pela realidade material do acontecimento, ainda a todos presente, peado pela contemporaneidade das personagens, de todos conhecidas, não podia o poeta dar à sua imaginação a liberdade e o alor necessários à idealização do seu tema. Pelas circunstâncias da sua composição, tinha fatalmente o seu poema de lhe sair limitado no tempo e no espaço, e sobretudo despido das roupagens e feições propriamente épicas. Varnhagen notou que a ação não chega a durar um ano, e o leitor atento observará como o poeta se cinge à realidade prosaica dos sucessos.
Ao poeta não prejudicou, antes serviu, esta situação que lhe criou o assunto. Obrigou-o a limitar as proporções do seu poema e impediu-o de seguir os moldes clássicos, inventando ao redor do fato principal os desenvolvimentos que a coetaneidade deles não comportava. Fossem estas causas mais que o engenho do poeta que deram ao Uraguai a sua feição particular entre os últimos poemas ainda oriundos da corrente camoniana, em lhes haver cedido o patenteou ele. O gênio não é a emancipação absoluta das condições que nos rodeiam e limitam. Consiste principalmente em compreendê-las no que elas têm de mais sutil, de mais fugaz e de mais difícil. A superioridade de Basílio da Gama está em ter compreendido, ou antes sentido, que os poetas são principalmente entes de sensação, que o assunto não lhe dava para uma epopeia como aquelas que então, à cola da de Camões, se faziam, e haver, contra o gosto, a voga, a corrente do seu tempo avançado muito além dele e dado à literatura portuguesa o seu primeiro poema romântico. Com efeito, não se parece o Uraguai com qualquer outro poema do tempo. Desvia-se do trilho costumeiro da poética em vigor. Não começa pela invocação, antes entre ex-abrupto na matéria do poema, o que era absolutamente novo: 
Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos e impuros,
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos.

Não obedece à quase indefectível prática da oitava endecassílaba; é em verso branco, e os demais deles belíssimos. Não recorre ao maravilhoso pagão ou outro, não se encontra mácula de gongorismo. A língua é a do seu tempo, castiça, sem rebusca, clara, límpida, e o estilo natural e simples, apenas com o mínimo de artifício que a mesma composição exigia. Não refuge a misturar o burlesco com o grave, nem disfarça as feições realistas do seu reconto épico. Por todos estes rasgos, e por alguns outros sinais intrínsecos de metrificação, linguagem e estilo e mais pela liberdade espiritual e sentimentos liberais e humanos que o animam, é já o Uraguai um poema romântico, o precursor na poesia do tempo do romantismo americano, o iniciador do indianismo, que viria a ser no século XIX o traço mais distinto e significativo da renascença literária do Brasil.
Basílio da Gama tem de raiz a inspiração épica. Além do Uraguai, em que a provou excelentemente, do Quitubia (1791), que é, com pouca sorte aliás, outra demonstração dela, afetava o poeta o tom épico de preferência a outro, ainda em poemas de natureza a o não pedirem. Quase não cantou de amor, faltando por isso ao seu lirismo esse poderoso elemento sentimental e estético. É, porém, um espírito livre e um coração terno. Da liberdade de seu espírito que faz dele um liberal de antes dos tempos, há indícios sobejos não só no Uraguai, mas em vários poemas seus. Revela-se ainda o seu gosto por Voltaire, de quem traduziu a tragédia Mahomet, e a sua desafeição à guerra e às mesmas façanhas e glórias militares, insólitas no seu tempo. Não sabemos de outro poeta contemporâneo que haja tão declaradamente anteposto os labores e artes da paz, "às bélicas fadigas" e augurado uma futura era pacífica, em que fugissem do mundo 
as guerras sanguinosas
Detestadas das mães e das esposas,

e em que 
No capacete a abelhas os favos cria,
Curva-se em foice a espada reluzente.



Também da sua ternura há exemplos bastantes nos seus versos, particularmente nas lembranças do seu amigo Alpoim, no Uraguai, e de outro amigo seu, o árcade romano Mireu, no mesmo poema, e em vários outros menores, aludindo enternecido a amigos e benfeitores. A sua obra deixa uma grata impressão de admirativa simpatia.
Na história literária, a importância de Basílio da Gama é o maior do que a de qualquer outro da mesma plêiade. Sobre se revelar no Uraguai porventura o melhor engenho de entre esses poetas, foi o primeiro a tomar por motivos de inspiração coisas americanas e pátrias. Soube demais cantá-las com um raro espírito de liberdade cívica e poética, sem as escravizar a fórmulas consagradas e ainda com peregrinas qualidades de invenção e estilo. Observou Costa e Silva que foi Santa Rita Durão o fundador da poesia brasileira, por ser "o primeiro que teve o bom senso de destacar-se das preocupações europeias que havia bebido nas escolas, para compor uma epopeia brasileira pela ação, pelos costumes, pelos sentimentos e ideias e pelo colorido local". Esqueceu-lhe que o Uraguai precedera o Caramuru de doze anos e que mais do que estes se mostrava estreme de preocupações europeias bebidas nas escolas.
Deste grupo de poetas é Frei José de Santa Rita Durão o mais velho, pois nasceu em Cata Preta, distrito de Mariana, no qual também viu a luz Cláudio da Costa, pelos anos de 1717 a 1720. Seu pai, o sargento-mor Paulo Rodrigues Durão, era português e abastado. Ignoramos a nacionalidade da mãe, D. Ana Garcez de Morais. Era o pai homem religioso e nimiamente devoto. Por sua morte deixou importantes legados para quantidade de objetos e esmolas por sua alma e pelas de seus pais, escravos e outros. Iguais sentimentos piedosos seriam os da família, consoante era então comum em Minas. Explica-se assim a vocação religiosa de seu filho José, o nosso poeta, que depois de estudos preparatórios no colégio dos jesuítas do Rio de Janeiro, onde a vocação incipiente se lhe teria desenvolvido, passou-se a Portugal. Ali, na ordem de Santo Agostinho, entrou, fez o noviciado e, em 1738, entre os vinte e vinte três anos, professou. Para seus alimentos dera o pai à ordem dois mil cruzados. Já professo num colégio desta, em Coimbra, fez os estudos para a formatura na Universidade, onde se doutorou em teologia. Foi lente na sua Ordem e teve o título de substituto na Universidade. Viveu uma vida feliz de estudos e alguns pequenos trabalhos literários. Cultivou então a amizade do célebre erudito português, o futuro arcebispo de Évora, Frei Manoel do Cenáculo, que associou o nosso patrício aos seus estudos das línguas orientais contra o estreito confinamento dos jesuítas na só literatura latina. Não se sabe ao certo por que se achou Durão na contingência de deixar Portugal, retirando-se, senão fugindo, para Espanha. Na carta em que conta a Fr. Manoel do Cenáculo a sua escapula e lhe reclama o apoio, apenas diz: "As minhas desgraças me levaram inconsideradamente à Cidade... em 1762", sem explicar quais desgraças foram. Após alguns vexames que por motivo de estado de guerra entre a Espanha e Portugal ali sofreu, inclusive a prisão, pôde transferir-se à Itália, onde se achava já em 1764. Em Roma soube fazer-se patrocinar por alguns figurões da Cúria, entre os quais o famoso Ganganeli, o futuro papa Benedito XIV, que lhe arranjou o lugar de bibliotecário da livraria pública Lancisiana, onde esteve por nove anos, bem aceito dos literatos romanos, que o meteram em várias das suas sociedades literárias. É notável que ele não figure com algum nome arcádico, indicando ter pertencido à Arcádia Romana. Naquele cargo aposentou-se, no propósito de concorrer a uma cadeira das que se esperava vagassem na Universidade de Coimbra com a iminente expulsão dos jesuítas. Graças, parece, ao apoio de Cenáculo e à benevolência do nosso compatriota D. Francisco de Lemos, amigo de Durão, recém-nomeado por Pombal reitor da Universidade, realizou-se-lhe aquele propósito, pois o encontramos em 1778 recitando como opositor a oração de sapiência na abertura das aulas.
Por esse tempo teria começado o seu poema, cuja composição continuaria quando, acaso receoso da reação antipombalina, recolheu à casa de sua ordem em Lisboa, em 1779. Aí concluído ou limado, foi publicado em 1781.
Em nenhum dos poetas da plêiade mineira, ou quaisquer outros seus contemporâneos, o nativismo que preludiou aqui o nacionalismo e o patriotismo, como estímulo de inspiração literária, manifesta-se tão claramente como em Santa Rita Durão. O seu poema tinha já, por volta de 1778 a 80, quando foi imaginado e escrito, um propósito patriótico. "Os sucessos do Brasil, escreveu o poeta nas Reflexões prévias, antepostas ao seu livro, não mereciam menos um poema que os da Índia. Incitou-me a escrever este o amor da pátria." Como por trás de Camões, trazido aqui à memória por Durão, vemos a João de Barros, o insigne historiador do descobrimento e conquista da Índia, assim atrás de Santa Rita Durão enxergamos Rocha Pita, o autor vanglorioso da História da América portuguesa. Não precisava Durão confessar que o lera. O seu poema bastaria para o atestar e certificar-nos de que dele principalmente derivam não só passos, incidentes e digressões do Caramuru, mas principalmente o seu entusiasmo patriótico. Patriotismo, porém, que não era ainda o brasileirismo estreme, senão um sentimento misto, comum a todos esses poetas, de lealdade portuguesa e de amor à terra natal, sentimento que se dividia entre a nação, que era Portugal, e a pátria, que era o Brasil.
Sobre ser impertinente fazer do descobrimento da Bahia, ou ainda do Brasil, uma epopeia, à luz da estética não era muito melhor que o de Basílio da Gama o tema de Durão. Tinha, porém, sobre o daquele a vantagem do maior recuo do tempo, menor precisão ou maior incerteza histórica, dando ao poeta ensanchas a desenvolvimentos em que aproveitou a História do Brasil do descobrimento ao governo-geral e ainda a previsão da luta contra os holandeses. Como todos sabem, o assunto do poema do episódio meio histórico, meio lendário, do naufrágio do aventureiro português Diogo Álvares Correia, que, soçobrando nas costas orientais do Brasil, justamente no recôncavo da Bahia, escapou do naufrágio e caiu nas mãos dos índios que aí havia. Guardado para servir-lhes de repasto, conseguiu esquivar a sua triste sorte e dominar-lhes com o pavor que lhes causou matando no voo um pássaro, e fazendo outras façanhas com um arcabuz que acertara salvar da catástrofe. Sobre esse fato verossímil, e que se teria repetido entre navegadores e selvagens, ignorantes das armas de fogo, bordou a imaginação popular circunstâncias e acrescentou desenvolvimentos que a história mais tarde, por mão do operosíssimo Varnhagen, provaria lendários, como a viagem de Diogo Álvares à França em companhia da gentia Paraguaçu, sua noiva, o batismo desta em Paris e o casamento deste casal, sendo padrinhos em ambas as cerimônias Henrique II e a sua mulher, a célebre Catarina de Médicis, que deu o seu nome à sua exótica afilhada. Diogo Álvares, dizia a lenda, perfilhada pelos cronistas, recebeu dos índios, por causa da arma flamante com que dava a morte, a alcunha de Caramuru. Este nome, que é simplesmente o de um peixe, e que lhe deram por o terem apanhado no mar, a nossa fantasia etnológica o interpretou de vários modos, todos evidentemente falsos. Não havia aliás em Diogo Álvares, nem houve nos seus atos, os predicados de um herói de epopeia, e a mesma lenda não lhos dá. Nem o poeta lhos soube emprestar que os relevassem.
Pela sua concepção e execução era o Caramuru, mais do que o Uraguai, um dos muitos poemas saídos da fonte camoniana. Sem embargo desta falta de originalidade inicial, da mesma forma e estilo poético, e de reminiscências do poema de Camões, tem o Caramuru qualidades próprias e estimáveis. Como poema nacional leva a primazia ao Uraguai, apesar da sua inferioridade poética. Além da intenção manifesta que o gerou como a epopeia do descobrimento do Brasil, é o Caramuru mais nosso pela sua ação e teatro dela, o Recôncavo, o berço por assim dizer da nacionalidade que se ia criar aqui, e ainda pelos múltiplos testemunhos do seu interesse e amor do país. Descreve-o e conta-o Durão já com o desvanecimento de sua grandeza e excelência e a previsão de seus altos destinos. Estes, porém, se lhe não antolhavam ainda na formação de uma nacionalidade distinta, mas apenas no concurso decisivo que a sua pátria de nascimento traria à restauração da grandeza da nação cuja era parte 
O Brasil aos lusos confiado
Será, cumprindo os fins do alto destino,
Instrumento talvez neste hemisfério
De recobrar no mundo o antigo império.

Infelizmente o modo, imposto pelo seu estado de frade, e frade de bons costumes, por que tratou o drama amoroso, e que serve de núcleo ao seu poema, privou-o de dar-lhe a emoção que nos poderia ainda comover. Gravíssima falta de senso estético foi o fazer de Diogo Álvares e Paraguaçu, o aventureiro português e a índia sua namorada e depois sua mulher, um casal de castos amantes. É uma situação contra a natureza, contra os fatos, contra a verossimilhança, e mais que tudo inestética. Não se imagina um rude aventureiro português do século XVI, ardente e voluptuoso, quais se mostraram na conquista, na situação singular, e como quer que seja esquerda, descrita por Durão, com uma formosa índia, moça e amorosa, em meio desta natureza excitante e dos fáceis costumes indígenas, e sem nenhum estorvo social, comportando-se qual se comportou o seu, isto é, como um santo ou um lendário cavaleiro cristão, e a reservando, num milagre de continência, para sua esposa segundo a Santa Madre Igreja e ainda em cima doutrinando-a que nem um missionário profissional sobre as excelências da castidade. Não obstante o seu profundo catolicismo, Camões não caiu neste erro, e ao contrário enalteceu o seu poema com os conhecidos passos de uma tão artística voluptuosidade.
Como o Uraguai, o Caramuru insinua o americanismo na poesia portuguesa, abre aos índios e às coisas indígenas maior espaço na brasileira do que o fizera aquele, e funda o primeiro indianismo. Não os acompanharam os outros poetas do grupo. Nestes mesmos, porém, sentimentos e inspirações mais nativos e mais nativistas do que até aí, as suas repetidas alusões ou referências a coisas pátrias, a nostalgia dela em alguns deles entremostrada, procedem incontestavelmente de Basílio da Gama e Durão, mormente do primeiro, do qual há claras impressões em quase todos estes poetas. Durão parece não os haver tocado tanto. Não se encontram reminiscências, e menos memória deles, em seus poemas. É que o seu trazia ainda muito da velha fórmula que o arcadismo desses poetas menosprezava. Sem embargo do propósito patriótico de Durão, e das manifestações eloquentes do seu brasileirismo, eles, mais artistas que patriotas, lhe preferiram, como nós hoje, Basílio da Gama, a quem Cláudio da Costa, Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga louvaram com admirativa estimação e imitaram, mostrando sentirem o que de novo, inspirado e alto havia no seu gênio.
A três dos representantes da plêiade mineira, Cláudio da Costa, Alvarenga Peixoto e Tomás Gonzaga, tem sido atribuído o poema satírico das Cartas Chilenas, composto em Minas, na segunda metade do século XVIII. É mais que uma sátira, uma diatribe contra o governador D. Luís da Cunha Menezes e sua administração. Ele figura como o herói burlesco sob o pseudônimo de Fanfarrão Minésio. Fingem-lhe a ação e sucessos passados em Santiago do Chile, nomes que, conforme já notara Varnhagen, cabem no verso tanto como Vila Rica e Minas.
Escrito em forma de cartas dirigidas por um tal Critilo e certo Doroteo, ambos poetas, tem este poema, se assim se lhe pode chamar, real valor literário. Saíram à luz pela primeira vez, em edição da revista Minerva Brasiliense, no Rio de Janeiro, em 1845, em número de sete. Deu uma segunda, mais completa do que esta, com treze cartas ou cantos, a Livraria Laemmert, desta cidade, em 1863. Dirigiu-a Luís Francisco da Veiga, autor conhecido de vários estimáveis trabalhos históricos, o qual, entre os papéis de seu pai, encontrara um manuscrito do poema. Nesse manuscrito, que aliás não era um autógrafo, ocorre a assinatura de Tomás Antônio Gonzaga, sob a data: Vila Rica, 9 de fevereiro de 1798, no fim da dedicatória em prosa, que precede imediatamente o "Prólogo" igualmente em prosa. O pai do editor literário, Saturnino da Veiga, ainda contemporâneo daqueles poetas, o acreditava de Gonzaga. O primeiro editor das Cartas Chilenas, o escritor chileno aqui residente e redator da Minerva Brasiliense, Santiago Nunes Ribeiro, com a sua edição publicara um outro testemunho da autoria de Gonzaga. É o de Francisco das Chagas Ribeiro, abonado por Nunes Ribeiro como "ancião entusiasta da literatura brasileira, depositário de muitos dos seus tesouros e cujo testemunho, se não é irrecusável, é muito poderoso e digno de respeito". (Apud Cartas Chilenas, edição Laemmert, introdução de L. F. da Veiga). Francisco das Chagas Ribeiro, sobre o qual se me não deparou outra informação, pôs no seu manuscrito esta declaração: "Tenho motivos para certificar que o Dr. Tomás Antônio Gonzaga é o autor das Cartas Chilenas". E assinou.
Estas duas atribuições, por sujeitos ainda contemporâneos do poeta, e ao que parece respeitáveis, bastariam, em boa crítica, para dirimir a questão, se não houvesse contra elas valiosos testemunhos ou documentos.
Depois de estudo mais atento das Cartas, eu, que de primeiro não acreditava fossem de Gonzaga, pendo hoje a crer que dele são, e não vejo razão entre as muitas dadas, que prevaleça contra a atribuição que de sua autoria lhe fazem Saturnino da Veiga e Chagas Ribeiro. Ao contrário, militam a favor do seu testemunho os seguintes motivos: a) pelo seu valor literário e poético (que é muito maior do que se tem dito) não podem essas Cartas ser senão de algum dos poetas conhecidos que viviam em Minas na época da sua composição, não sendo provável a existência de nenhum outro capaz de as escrever e que ficasse de todo incógnito; b) esse poeta devia reunir duas condições, manifestas no contexto do poema: ser português e ser inimigo rancoroso do governador satirizado. Que o autor das Cartas Chilenas é português de naturalidade mostram-no os versos 5 e 15 da pág. 149 da edição Laemmert, em que positivamente alude à sua vinda da Europa e ao seu nascimento em Portugal. Revela-se ainda português nas suas várias alusões todas pouco simpáticas à terra e às suas coisas, e em que, atacando acrimoniosamente o governador e a sua administração, não malsina jamais do regime ou do governo colonial. Revê-se ainda o reinol, branco estreme e de categoria fina, na sua manifesta antipatia aos mulatos, a quem não perde ensejo de apodar (págs. 106, 203, 312 e passim). A sua linguagem nimiamente castiça, de boleio de frase e vocabulário muito de Portugal, e outros sinais idiomáticos que uma análise miúda revelaria, traem também o português. Ora, como o único português do grupo era Gonzaga, a ele se deve atribuir o poema, onde aliás se encontram pensamentos, imagens e expressões que coincidem com as da Marília de Dirceu. (Cp. pág. 100: "Que importa que os acuses..." com a lira XXXVI da 1ª parte).
As Cartas são evidentemente de um inimigo acérrimo do governador, a quem não poupam as mais terríveis acusações e convícios. Ora, dos três poetas que somente podiam ser os seus autores, e únicos a quem têm sido atribuídas, só Gonzaga era sabidamente inimigo dele. Alvarenga Peixoto, ao contrário, é um favorecido, um protegido de Cunha Menezes, que o fez coronel, honraria que o desvaneceu mais que o seu título de doutor, e lhe concedeu adiasse o pagamento de certa dívida à Fazenda Real.
Cláudio era personagem quase oficial, ligado ao governo da Capitania, que por duas vezes (1762-1765 e 1769-1773) secretariara, era já setuagenário, idade menos apropriada às violências da sátira. Gonzaga, ao contrário, como ouvidor da comarca e deputado à Junta de Fazenda, achou-se em conflito com aquele governador, quando foi da arrematação do Contrato das entradas no triênio de 785 a 787, em que Cunha Menezes "de sua própria particular autoridade", segundo o Ministro do Reino, Martinho de Melo e Castro (V. Rev. do Inst., VI, 54 e seg.) e contra o voto fundamentado de Gonzaga, mandou adjudicar ao seu protegido José Pereira Marques, o Marquesio das Cartas Chilenas, aquele contrato. Foi esta questão do contrato das entradas, em que, talvez, tanto o governador como o ouvidor estavam empenhados por martes diversas, que criou a recíproca hostilidade de Cunha Menezes e Gonzaga, e principalmente motivou as Cartas Chilenas, e que fez o poeta tomá-lo "entre dentes", segundo a sua expressão, muito portuguesa, do início da 4ª. E a 8ª é inteiramente consagrada à prevaricação do governador em contratos e despachos, de que o poeta o acusa e malsina quase com as mesmas razões e palavras que a Gonzaga ouvidor atribuiu o Ministro Melo e Castro no documento acima citado. Repetirei que é notável que, maldizendo este poema tão afrontosamente do governador e da sua roda, jamais deixa perceber o menor sentimento de desgosto da metrópole e do regime colonial. Um português qualquer poderia aliás deixá-lo transparecer; não o podia Gonzaga, que, como magistrado reinol e vogal da Junta da Real Fazenda, fazia parte conspícua do governo da Capitania. Não obstante esta sua cautela, só a sua autoria conhecida, ou desconfiada, de tão terrível libelo contra um recente governador e vários funcionários seus parciais explica que ele fosse, contra a sua manifesta inocência, comprometido numa conspiração, se conspiração houve, de que tudo – os seus sentimentos de português, a sua lealdade de funcionário, o seu interesse pessoal e a sua situação de noivo amorosíssimo – forçosamente o afastava. O argumento de que o poeta sentimental e mimoso de Marília não podia escrever aquelas violentas Cartas, de virulenta sátira, roçando às vezes pela obscenidade, é de uma pobre psicologia, contradita por mil exemplos da história literária.
Todos os poetas deste grupo, o que talvez se não reproduza mais na história da nossa literatura com qualquer dos grupos literários que nela possamos distinguir, além do estro, tinham a mais completa cultura literária do tempo. Todos fizeram com aproveitamento as suas humanidades, todos, exceto Basílio da Gama, tinham o seu curso universitário, eram doutores em leis ou cânones. Todos parecem a par do saber da sua época, ao menos do que, sem estudos especiais, se adquire com aquela cultura. Os brasileiros do grupo todos saíram do seu país, estanciaram largos anos em Portugal e alguns, como Durão e Basílio, estiveram em Espanha e Itália. Liam os enciclopedistas franceses. Quase todos, além do latim, sabiam o grego, e de ambas as línguas versavam os poetas no original. Durão, afora essas duas línguas clássicas, sabia o hebraico. A todos eram familiares os escritores antigos, particularmente os poetas, e os principais escritores e poetas modernos, italianos, franceses e espanhóis, e ainda alguns ingleses. Cláudio da Costa poetava em italiano, acaso não menos excelentemente que em português, e o podia fazer ainda em castelhano e francês; traduziu Voltaire e cantou a Milton. Basílio da Gama também traduziu Voltaire.
Conheceram-se, trataram-se, foram camaradas ou amigos quase todos. Ligou-os o sentimento da pátria comum, o mesmo amor às letras, a irmandade do estro, e mais, o mesmo espírito liberal, comum a todos e manifesto na obra de todos. Silva Alvarenga compreendia e admirava a Basílio da Gama e o cantou com entusiasmo, pode dizer-se patriotismo. Cláudio da Costa, com igual entusiasmo, consagrou uma ode aos árcades seus patrícios e endereçou poemas a Alvarenga Peixoto. Serviu também de centro não só a este e a Gonzaga, mas a outros menores que poetavam em Vila Rica, que todos, segundo a verídica tradição, lhe submetiam ao saber e experiência os seus versos. Gonzaga alude carinhosamente em suas liras a Cláudio e a Alvarenga Peixoto, seus íntimos. Naquela época de acesa briga de poetas, se não sabe que hajam os nossos entre si brigado.
Todas essas coincidências e circunstâncias não foram certamente alheias à constituição deste grupo de poetas e à feição e distinção que os assinalam na nossa literatura e ainda na poesia portuguesa. Para alguns deles ao menos, a sua justa celebridade foi grandemente ajudada, sem quebra aliás no seu merecimento, pelos desgraçados sucessos em que foram envolvidos. Aureolando-os de martírio, não serviriam pouco, e justo é que assim fosse, à sua glória de poetas.


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