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9/27/2020

O Substituto (Conto), de Guy de Maupassant


O Substituto

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020) 

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— Madame Bonderoi?

— Sim, Madame Bonderoi.

— Não é possível.

— Afirmo.

— Madame Bonderoi, a velha senhora, de touca de rendas, a devota, a santa, a distinta Madame Bonderoi, cujos cabelos postiços pareciam estar colados à roda da cabeça?

— Ela mesma.

— Mas, estás louco.

— Juro.

— Então, conta-me detalhadamente esta história.

— No tempo de Bonderoi, o velho tabelião, Madame Bonderoi utilizava-se dos escreventes para seu serviço particular. É uma destas respeitáveis burguesas, de vícios secretos e princípios inflexíveis, como há muitas. Ela gostava dos belos rapazes; nada mais natural. Nós não gostamos das belas raparigas?

Uma vez morto Bonderoi, a viúva começou a viver de seus rendimentos, uma vida pacífica e inatacável. Frequentava com assiduidade a igreja, falava desdenhosamente do próximo e, quanto a ela, nada havia a dizer.

Depois envelheceu e tornou-se a mulherzinha implicante e má que tu conheces.

Agora ouve a aventura inverossímil, ocorrido na última quinta-feira.

Meu amigo João de Anglemare é, como sabes, capitão de dragões, aquartelado no bairro da Rinette.

Chegando ao bairro, outro dia, soube que dois camaradas da sua companhia tinham brigado. A honra militar tem leis severas. Bateram-se em duelo. Depois do duelo, reconciliaram-se e interrogados pelo oficial, contaram-lhe a causa da briga. Bateram-se por causa de Madame Bonderoi.

— Oh!

— Sim! Por causa de Madame Bonderoi.

Um deles começou:

O caso foi este, meu capitão. Hás uns quinze dias, seguramente, eu passeava pelo cais, quando uma mulher me abordou e me disse: "Camarada, queres ganhar dez francos por semana?"

Eu lhe respondi com toda a sinceridade: "Estou às suas ordens, Madame."

Então, ela explicou:

— Vai à minha casa amanhã, ao meio-dia. Eu sou madame Bonderoi. 6, rua de..

— Não faltarei; pode ficar tranquila.

Depois ela despediu-se e com ar contente acrescentou:

— Eu te agradeço muito, camarada.

— Sou eu que lhe agradeço, Madame.

Até o dia seguinte, levei a pensar naquilo. Ao meio-dia, bati eu em casa dela. Veio abrir-me a porta ela mesma e por sinal que trazia à cabeça um pelotão de fitas.

— Despachemo-nos porque a criada pode voltar.

— Que é preciso fazer? perguntei.

Pôs-se a rir e perguntou:

— Então não sabes? Maganão..

Eu, palavra de honra meu capitão, que não sabia mesmo. Então ela veio sentar-se junto de mim e misteriosamente ameaçou-lhe:

— Se dizes uma palavra de tudo isto faço-te recolher à prisão. Jura que serás mudo a este respeito.

Jurei. Mas continuava a não compreender absolutamente nada. Já começava a suar frio. Então, tirei o boné e procurei o lenço. Ela, tomou-me o lenço e começou a limpar-me o suor da testa.

Eis senão quando começa a me abraçar e segreda-me:

— Então, queres mesmo?

Respondi:

— Quero o que a senhora quiser, foi para Isto que eu cá vim.

Então ela manifestou-se francamente. Quando percebi de que se tratava, depus o boné sobre uma cadeira e mostrei-lhe que um dragão nunca recua. A falar com fraqueza, ela já não estava na flor da idade, mas o capitão compreende que estas coisas não aparecem todo o dia. Demais era preciso sustentar a família e eu já imaginava mandar a metade a meu pai, que está na província.

Depois... recebi o dinheiro e saí.

Isto dura há dez meses, meu capitão. Todas as terças-feiras lá vou eu.

Aconteceu, porém, que a semana passada, eu me senti doente: tive de baixar à enfermaria. Não era possível sair e intimamente eu me desesperava com a lembrança daqueles dez francos a que semanalmente já me acostumara tão bem.

Então eu ponderava consigo mesmo "Se ninguém vai vê-la, estou perdido. Mandei chamar Paumelle, que é meu comprovinciano e contei-lhe a história.

O negócio rende dez francos; cinco serão para mim c cinco para você.

Ele aceitou e foi. Industriei-o devidamente: Bate à porta. Ela vem abri-la. Não repara bem. Demais o capitão sabe que um dragão é sempre um dragão, e de boné, todos se parecem.

Por fim ela descobre a mudança. Indaga, pergunta. Paumelle explica, diz-lhe que eu estava doente e, por fim, ela o aceita.

Quando Palmelle voltou, não quis repartir o dinheiro comigo e disse-me que o sacrifício valia o dobro.

— Se fosse só para mim, eu não me importaria; mas é que a metade eu ia mandar à família.

O resto o capitão conhece. Brigamos, batemo-nos em duelo... mas já fizemos as pazes.

***

O Capitão de Auglemare fez-me jurar também que eu não contaria esta história a ninguém. Jurei.

— Mas, afinal, como se arranjou o negócio?

— Como? Madame Bonderoi ficou com os dois dragões. Assim, todos ficaram contentes.

— Excelente senhora.

— A família do soldado continua a receber os seus cinco francos, e a moral está satisfeita.

A Confissão (Conto), de Guy de Maupassant

 

A Confissão

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Margarida de Therelles ia morrer, e estava tão abatida que embora só tivesse cinquenta e seis anos parecia ter, no mínimo, setenta e cinco. Mais pálida que os lençóis de sua cama, ela arquejava, sacudida por terríveis calafrios, com o rosto convulso, os olhos arregalados, como se alguma coisa de horrível lhe houvesse aparecido.

Sua irmã, mais idosa seis anos, de joelhos junto ao leito, soluçava. Chegada à cabeceira da agonizante uma pequena mesa suportava, sobre uma alva toalha, duas velas acesas, pois esperavam o padre que lhe devia dar a Extrema Unção, a comunhão derradeira.

O quarto tinha o aspecto sinistro que têm os aposentos dos moribundos: um ar desolador. Sobre os móveis atulhavam-se os vidrinhos da farmácia, roupas jaziam pelos cantos atiradas com um pontapé ou de alguma vassourada. As cadeiras em desordem, pareciam — até elas — assombradas, como se tivessem corrido em todos os sentidos. A morte, terrível, lá estava, escondida, à espera.

A história das duas irmãs era enternecedora. Citavam-na muitas vezes, e ela fizera chorar bom número de olhos.

Suzana, a mais velha, havia sido, outrora, loucamente amada por um rapaz de quem por sua vez muito gostava. Chegaram a ser noivos, e esperava-se unicamente o dia fixado para o casamento, quando Henrique de Sampierre morreu repentinamente.

O desespero da moça foi doloroso, e Suzana jurou não mais se casar. Cumpriu a palavra. Passou a usar vestidos de viúva que nunca mais abandonou.

Então sua irmã, sua irmãzinha Margarida, que tinha apenas doze anos, atirou-se, uma certa manhã, nos braços da mais velha e lhe disse: "Minha mãezinha, não quero que tu sejas desgraçada. Não quero que chores toda a tua vida. Não te deixarei nunca, nunca, nunca. Também eu não me casarei. Hei de ficar contigo sempre, sempre, sempre."

Suzana beijou-a, enternecida por esta dedicação de criança, porém não deu importância à promessa.

Mas a pequena também cumpriu o juramento e, apesar dos rogos de seus pais, malgrado as súplicas de sua irmã, não se casou nunca. Era bonita, muito bonita mesmo; recusou muitos rapazes que pareciam amá-la; não deixou a irmã.

Passaram juntas todos os dias da existência. Viveram lado a lado, inseparavelmente únicas. Mas Margarida era sempre triste, acabrunhada, mais fria que a irmã, como se, talvez, o seu sublime sacrifício a tivesse dilacerado. Envelheceu mais cedo, teve cabelos brancos desde a idade de trinta anos e, sempre um mal desconhecido a atormentava sem cessar.

Mas agora, ia morrer primeiro.

Não falava havia mais de quatro horas. Dissera somente, aos primeiros clarões da aurora:

— Vá buscar o senhor cura: chegou o momento.

E em seguida, ficara deitada de costas, abalada por grandes espasmos de lábios agitados como se palavras terríveis lhe houvessem subido do coração sem conseguirem sair. O olhar, cheio de espanto, era horroroso de ver-se.

Com a cabeça apoiada à borda do leito, sua irmã, louca de dor, chorava perdidamente, e dizia:

— Margot, minha pobre Margot, minha filhinha!

Chamara-lhe sempre: "filhinha" como a outra lhe havia sempre chamado "mãezinha".

Ouviram passos na enseada. A porta abriu-se. Um menino de coro apareceu seguido do velho padre que vinha de sobrepeliz. Mal o avistou, a moribunda sentou-se, penosamente. E descerrou os lábios, balbuciou duas ou três palavras, e pôs-se a esgravatar as unhas como se nelas quisesse fazer algum buraco.

O abade Simão aproximou-se, tomou-lhe a mão, beijou-a na testa e, depois, falando meigamente:

— Deus lhe, perdoe, minha filha. Tenha coragem. Chegou o momento: fale.

Então, Margarida, tiritando da cabeça aos pés, espalhando toda a roupa com os seus movimentos nervosos, balbuciou:

— Senta-te, mãezinha, escuta.

O padre abaixou-se para Suzana, sempre abatida aos pés da cama, levantou-a, fê-la sentar numa poltrona e, tomando em cada uma das mãos de cada irmã, pronunciou: 

— Senhor, meu Deus! dai-lhes força. Atirai sobre elas a vossa misericórdia.

E Margarida começou a falar. As palavras lhe saíam da garganta uma a uma, roucas, escandidas, como que extenuadas. 

— Perdão; perdão, mãezinha. Oh! se soubesses o quanto, toda a vida, tive medo deste momento!...

Suzana, articulou, por entre as lágrimas:

— Perdoar-te o que, filhinha? Foste sempre minha amiga. Tudo por mim sacrificaste; és um anjo...

Mas Margarida interrompeu-a:

— Cala-te, cala-te. Deixa-me dizer... não interrompas... É indigno... deixa-me dizer tudo... até ao fim. Ouve... Tu te recordas, tu te recordas... Henrique...

Suzana estremeceu e olhou a irmã. Margarida prosseguiu:

— É preciso escutar tudo para compreenderes. Eu tinha doze anos, somente doze anos, tu te lembras, não é? Fazia tudo o que queria!... Lembras-te como me enchiam de mimos?... Escuta... A primeira vez que ele veio cá, trazia botas de verniz; desceu do cavalo em frente ao portão e desculpou-se do traje: vinha somente trazer uma notícia a papai. Lembras-te, não é?... Não digas nada... escuta. Quando o vi fiquei toda comovida, tanto o achei belo, e deixei-me ficar de pé num canto do salão durante todo o tempo em que ele falou. As crianças são singulares... e terríveis. Oh! quanto sonhei com ele!

"Ele tornou... muitas vezes... eu o olhava apaixonadamente, de toda a minha alma... Eu era desenvolvida para a minha idade... e muito mais fina do que pensavam. Ele veio ainda... Eu só pensava nele e pronunciava baixinho:

— Henrique... Henrique de Sampierre!

Depois disseram que ele te ia esposar. Que desgosto... oh mãezinha... que desgosto... que desgosto! Chorei três noites, sem dormir. Ele vinha todos os dias, à tarde, depois do almoço... tu te lembras, não é? Não digas nada... escuta. Tu lhe fazias doces de que ele muito gostava... com farinha, manteiga e leite... Oh! sei como se faz... Faria ainda se fosse preciso. Ele os engolia de uma vez, e depois bebia um copo de vinho... e, em seguida, dizia: "É delicioso!" Lembras-te como dizia isso?

Eu tinha ciúmes, ciúmes!... O dia de teu casamento aproximava-se. Faltavam apenas quinze dias. Comecei a ficar maluca. Eu dizia: Ele não esposará Suzana, não, não quero! A mim é que ele esposará, quando eu for grande. Nunca acharei outro a quem ame tanto... Mas uma noite, dez dias antes do teu contrato, passeaste com ele no jardim do castelo, ao luar... e lá... sob o grande pinheiro... Henrique te beijou... beijou-te longamente... Tu te recordas, com certeza! Era provavelmente a primeira vez... sim... Estavas tão pálida ao entrar no salão!

Eu vi: estava lá entre a folhagem. Tive uma gana! Se pudesse teria assassinado todos dois!

Disse para comigo: Ele não esposará Suzana, nunca! Não esposará ninguém. Eu seria muito desgraçada... E, de súbito, pus-me a odiá-lo horrivelmente.

Então, sabes, o que fiz?... escuta. Eu vira o jardineiro preparar bolinhas para matar os cães vagabundos. Ele quebrava uma garrafa e metia o vidro picado dentro de uma bolinha de carne.

Tirei do quarto de mamãe um vidrinho de farmácia, triturei-o e escondi o pó brilhante no bolso. No dia seguinte, quando acabastes de fazer os doces, furei-os com uma faca e enchi de vidro os buracos... Ele comeu três... eu também comi um... Atirei os outros no lago... os dois cisnes morreram dias depois... Lembras-te? Oh! não digas nada... ouve, ouve... Só eu não morri... mas estive sempre doente... Ele morreu... tu sabes... escuta... isto não é nada. Foi depois, mais tarde.... sempre... o mais terrível... escuta...

Minha vida, toda a minha vida... que tortura! Eu dizia a mim própria: Não deixarei nunca minha irmã. E dir-lhe-ei tudo na hora da morte... Eis aí. E depois, pensei continuamente neste momento; no momento em que te diria tudo... Ei-lo chegado... É terrível. Oh! mãezinha!

Eu pensava noite e dia, de manhã, à tarde. Será preciso dizer-lhe tudo, uma vez... Esperei... Que suplício!. Fi-lo... Não digas nada... Agora, tenho medo... tenho medo... oh! tenho medo... Se eu o fosse ver, daqui a pouco, quando morrer... Revê-lo.... Sabes!... Primeiro que tu!... Não ousaria... É preciso... Vou morrer... Quero que me perdoes. Quero-o... Não quero encontrá-lo sem estar perdoada... Oh! diga-lhe que me perdoe, senhor cura, diga-lhe.... peço-lhe. Não posso morrer sem isto..."

Calou-se. E arquejava, arranhando as cobertas com as unhas crispadas...

Suzana escondera o rosto entre as mãos e não se movia mais. Pensava nele que poderia ter, tanto tempo, amado! Que bela vida haveriam tido! Revia-o no velho passado para sempre extinto! Oh! aquele beijo, seu único beijo! Havia-o guardado na alma. E depois mais nada, mais nada em toda sua existência!...

De repente o padre levantou-se e, de uma voz forte, vibrante, exclamou:

— Mlle. Suzana, sua irmã vai morrer!

Então Suzana, abrindo as mãos, mostrou o rosto sulcado de lágrimas, e, precipitando-se para a irmã, beijou-a com todas as forças, balbuciando:

— Eu te perdoo, eu te perdoo, filhinha...