A VALSA DA FOME
Quando o pianista Hipólito entrou na sala, houve um
sussurro de contentamento. Era preciso romper aquela monotonia, as moças
estavam mortas por dançar.
Dentro de uma velha casaca ensebada, com o pescoço
hirto e as grandes mãos balançantes, ele dirigia-se para o piano a largos
passos, com as narinas dilatadas e o queixo muito agudo, cortando o caminho
como uma proa de navio virada para o porto desejado.
Houve quem risse; ele era tão magro, ia tão amarelo e
com tão viva chama nos olhinhos pretos, que uma senhora, uma dessas senhoras
espirituosas e amigas de fazer comparações, perguntou a um amigo:
– Quem teria tido o esquisito gosto de vestir de homem
aquela tocha funerária?
Logo o interrogado, rapaz gordo, metido a literato,
com o peito florido por uma gardênia imaculada, respondeu:
– A fome. Foi a fome que lhe envergou aquela casaca
pré-histórica e lhe amarrou ao pescoço, com verdadeira gana de o enforcar,
aquela gravata branca. Só ela, a maligna, o faria entrar neste salão burguês
para divertir as moças. Porque, fique sabendo a minha senhora e amiga, aquilo
que está ali é um artista. A fome tem muita força para trazer um animal
daqueles, todo nervos, para um lugar destes. Só pelo freio!
– Oh!
– Não se escandalize e repare-lhe para a nodosidade
dos dedos. Valentes, formidáveis, não? Pois vai ver: roçam pelo teclado como
uma ponta de asa pela superfície de um lago. Hão de me agradecer o tê-lo
trazido cá...
– Ah, foi o senhor...
– Fui eu; por um acaso... Imagine que fui homem
encarregado de contratar o pianista para a
festa, e que só hoje, à última hora, me lembrei da incumbência!
– Sempre o mesmo! Aquele senhor então, veio remediar
uma falta...
– E preencher uma lacuna. Com duas palavras vou
fazê-la interessar-se por ele. Tinham-me dito que o Hipólito, chama-se
Hipólito, vendera o piano há cerca de uns seis meses, para fazer o enterro à
irmã, única pessoa da família que lhe restava ainda, e que morreu de penúria
com outras complicações... Conheci-a, era um lírio; tanto este de bronze como a outra era de
cristal. Amavam-se como nunca vi; ele tocava-lhe as suas composições e ela
entendia-o, ia até ao fundo do seu pensamento, numa admirável intuição de arte,
toda feliz, toda orgulhosa daquele irmão. Através do seu corpo diáfano, como
que se lhe via a alma iluminada e radiante. Era muito branquinha, muito
branquinha... Pobre pequena! Desde que ela morreu sumiu-se o Hipólito.
Naturalmente, por mais que ele nos divertisse e nos fizesse falta, não o
quisemos perturbar na sua mágoa. Compreendo que para um homem não há amor tão
doce como o de uma irmã, nem que maior saudade possa deixar... Perdi assim de
vista o meu maestro, até que, desabituado, não me tornei a lembrar dele,
quando hoje, de repente, na ocasião mesmo em que eu me esbaforia atrás de um
pianista para a soirée da minha tia, encontrei-o cabisbaixo,
contemplando as ruínas dos botins. Pareceu-me um santo; agarrei-o com a
possível veneração e fiz-lhe a minha súplica com tal ardor que ele acedeu
trêmulo, numa ansiedade febril, titubeando:
– Há seis meses que não toco, desde que ela morreu...
sabe? não tenho piano, não frequento casas de música. Cavo a vida por outros
modos... mas estou com saudades, muitas saudades!
Tinha a boca seca, sentiu-lhe o hálito ardente;
convidei-o para tomar um chope.
– Não; tenho medo, respondeu-me. Estou com fome.
– Mais uma razão para ires tocar à casa da minha tia,
respondi-lhe. Lá matarás a fome a peru trufado e as saudades do piano num
excelente Bechstein . Se não fosse tão tarde... Tens casaca?
– Não tenho nada.
– Há aí umas casas que alugam disso. Apressa-te; às
dez horas deve romper a primeira valsa e já são oito. Toma o dinheiro para a
casaca; comerás lá em casa. Foi tudo o que eu disse, à pressa, pensando em ir
preparar-me também. E ele arranjou-se, não sei em que guarda-roupa, mas com uma
brevidade que me espanta, visto que eu começava a temer... Sim, com dinheiro no
bolso, em vez da casaca ele tinha razões de esfomeado para dar preferência a um
jantar de restaurant. Não lhe parece?
– Parece. Vê-se que gosta mais de contentar a alma do
que de satisfazer o estômago.
– Artista. Depois da primeira valsa vou fazê-lo
cear... Por Deus! adoro estas organizações!
– Tem um certo sabor, a sua história; mas agora
diga-me com franqueza, não receia que esse senhor heroico nos toque uma marcha
fúnebre em vez de uma contradança? Olhe para ele!
– E a senhora ri-se!
Hipólito sentava-se. As abas da casaca pendiam-lhe
murchas e amarrotadas, como duas asas de urubu doente. As suas mãos trigueiras,
que o exercício do teclado desenvolvera, caíram sobre o marfim do piano num
gesto ávido, de posse. O busto ossudo e longo arquejou-lhe num soluço abafado e
duas lagrimazinhas ardentes subiram-lhe aos olhos áridos. Ninguém as viu; todo
dentro de si, ele escutava, maravilhado, os sons que ia ferindo e que se
seguiam em revoada, como um bando de aves libertadas de repente de uma clausura
longa...
Rolaram notas macias, num prelúdio que foi como que
uma carícia por todas as teclas, e desse prelúdio nasceu uma valsa, ora
ritmada em graves, ora desdobrada em arpejos que iam e vinham num movimento
doce e embalador.
Atrás dele já rodopiavam os pares. Carnes acetinadas,
dos colos e dos braços nus, iluminadas pela poeira lúcida da brilhantaria, roçavam
palpitantes o áspero pano das casacas. Ia crescendo o número de pares. Manchas
azuis, rosas, brancas e violáceas giravam diáfanas, ora aqui ora ali, como
nuvens do crepúsculo balouçadas pelo vento.
Inebriado, num gozo estático, Hipólito admirava-se que
o piano obedecesse ainda tão bem aos seus dedos nervosos e à sua inspiração. A
saudade da arte, a saudade dolorosa que havia tanto o pungia, desafogava-se
enfim! Seria um sonho aquilo? Nunca a sua imaginação fora tão fresca nem tão
abundante. O repouso dera-lhe novas forças; o sofrimento subtilizara-a.
Assim, Hipólito abstraía-se; ia perdendo pouco a pouco
a noção do lugar.
A valsa seguia o seu curso, criando a cada compasso
novos motivos, que, nascendo uns dos outros, se avolumavam de pequeninas fontes
em cascatas, onde as melodias flutuavam como flores na torrente para se
submergirem em harmonias, compactas e nunca repetidas.
E como aquela saudade não se contentava, a música era
infindável.
Algumas pessoas paravam extenuadas, mas vinham logo
outras; dançava-se sempre, até que vozes impacientes gritaram:
– Basta! basta!
Não bastava. O artista, insaciado, não ouvia ninguém.
Todo curvado, anelante, com os joelhos pontudos erguidos alternadamente pelo
movimento dos pedais, os cotovelos magros unidos ao corpo trêmulo, as mãos
enormes, ora leves como plumas, ora pesadas como ferro, na brancura do marfim,
ele aspirava entontecido aquela música nascida do seu cérebro e da sua alma,
tal como se ela fosse um aroma intenso que o perturbasse e ainda assim quisesse
absorver.
Todos na sala olhavam para ele com pasmo, na vaga
percepção de um mistério divino. Já nenhuma voz dizia: – basta! os lábios
entreabriam-se de espanto, mas em silêncio.
Que música nova seria aquela, onde os sons borbulhavam
num fervor contínuo, marulhando como a onda ou rompendo em remígios de aves
gorjeadoras? Que música seria aquela, para levar de roldão, no leve compasso da
valsa, risos e agonias, badaladas de sinos, frases de loucos e suspiros de
amor?
Na densa espiritualidade daquele poema, sentia-se
ofegar uma ânsia irrequieta, humana, de perfeição. O suplício de a atingir
arrastava-se como um desejo eterno, sem esperança...
Pálido, convulso, sem sentir a fome que o dilacerava,
o pianista agitava-se, transfigurado, com os olhos lacrimosos e a fronte
enluarada.
Dos seus dedos, fortes como raízes nodifloras,
desabrochavam cachos de modulações, e ele vergava-se todo, como se por vezes
quisesse beijar o piano.
Havia mais de uma hora que durava aquela valsa, e
Hipólito tocava sempre exuberante, num alheamento místico, de sonho. Tocava já
sem as blandícias dos primeiros compassos, já sem os esboços fugazes de motivos
em sucessivo abandono, mas num esforço de vitória suprema, num desdobramento
febril de sons que faziam do piano uma orquestra e da valsa uma marcha de
triunfo.
Levantaram-se todos, lívidos de espanto. A solenidade
daquela loucura, e a concepção de uma obra de arte e sua simultânea execução
produziam em toda a gente o arrepio do gozo e o silêncio do pasmo. Arquejante, surpreendido
pela magnificência da sua criação, Hipólito, desvairado, alterou o compasso,
desenvolvendo um trecho de sonoridades amplas, numa alegoria à Glória, digna
de uma cantata.
Sem ver ninguém, ele recebia o influxo da admiração de
todos. As luzes irradiavam como o sol, a atmosfera carregada de aromas
entontecia-o, e a fome estorcegava-lhe o estômago, fazendo-lhe escorrer pelas
costas e os membros um suor de vertigem.
Não podia mais, vinha o cansaço, os pulsos
amoleciam-se-lhe, uma nuvem escura ia-lhe a pouco e pouco toldando a vista...
Feliz, naquela reconquista, ele teimava, teimava, cada vez mais fraco, já
inconsciente, com os dedos erradios no teclado, de que levantava agora uma
revoada de sons alucinados e confusos. Reaparecia o ritmo da valsa arrastando
harmonias desacordes, nascidas ao acaso das mãos bambas...
O auditório que o aclamara começava a rir, ao
princípio baixinho, depois mais alto, mais alto, até à gargalhada franca e
brutal, quando, repentinamente, se calou assustado.
O rapaz da gardênia, com os olhos cheios de água,
correu a acudir a Hipólito, que desmaiara sobre o piano.