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10/28/2022

As rosas (Conto), de Júlia Lopes de Almeida




AS ROSAS 

O meu jardineiro era um homem de feio aspecto, todo coberto de pelos eriçados, vermelhaço de pele e de olhar desconfiado e sombrio. 

Toda a gente me dizia: 

– Olha que aquele sujeito compromete a tua casa! põe-no fora! 

Mas, como ele era calado, metido consigo, e porque, principalmente, tratava muito bem das minhas flores, eu levantava os ombros: 

– Não era tanto assim! O pobre homem! Aqueles modos de animal bravio, não os tinha decerto por culpa sua! 

E assim íamos vivendo. 

Uma tarde, em setembro, desci ao jardim. Que crepúsculo aquele! No céu, esgarçado de nuvens, a lua, em foice, brilhava já, e com tamanha doçura, que dava vontade na gente de não fazer outra coisa senão olhar para ela! Havia também no ar, transparente e calmo, tal delicadeza de colorido, que a minha alma ficaria nela estática, se os olhos, percorrendo tudo, não vissem logo a infinidade de rosas, que as minhas roseiras prometiam. 

– Quantos botões, Mãe do Céu! 

– Tudo isto abre esta noite – resmungou com voz soturna o jardineiro... – Amanhã haverá centenas de rosas no jardim! 

A minha fantasia desencadeou-se. Centenas de rosas frescas, todas abertas, deveriam dar uma graça nova àquele recanto, pouco acostumado a semelhante fartura de flores. 

Eu mesma quereria colhê-las ainda frescas de orvalho: mandaria um ramalhete a minha mãe, cobriria de rosas a sepultura de minha filha, encheria de rosas a minha casa...

E, usando de uma forma imperativa e severa, pouco comum em mim, disse ao medonho e hirsuto jardineiro que não tocasse nenhuma flor! Seria eu quem as colhesse todas! 

Ele curvou-se, em obediência. 

Nessa noite, fui cedo para a cama, preparando-me para madrugar no dia seguinte. E tal era o meu propósito, que peguei logo num sono doce e tranquilo. 

Eram seis horas e já eu estava no jardim. Como quem desperta de um sonho, apatetada, olhei à roda e só vi folhas... folhas e mais folhas verdes! nem uma flor! 

Gritei pelo jardineiro, e ele veio, como por encanto, num momento, mas com tal jeito e tão demudadas feições, que tive medo. 

Os olhos, de vermelhos, eram só sangue; a barba áspera, longa e ruiva estava revolvida como por um vento de loucura, e nos grossos braços tisnados tinha sinais fundos de unhadas... 

– As minhas rosas?! – perguntei-lhe, disfarçando o pavor que a sua figura estranha me infundia. 

– Estão aqui! – disse ele, com voz grossa, como um baixo de órgão de catedral; e caminhou para o quarto. 

Fui atrás dele, espantadíssima, mal segurando a saia do vestido, que se não molhasse na relva – cheia de raiva e curiosa ao mesmo tempo. 

O quarto do jardineiro era ao fundo, entre a horta e o jardim, ao pé de dois limoeiros da Pérsia, de gostoso cheiro. Ensombrando a porta, havia uma latada de maracujás, e, à esquina, encostados à parede, estavam os utensílios de jardinagem. 

– Que quererá ele? – perguntava a mim mesma. De repente, estaquei: 

– Não entro – respondi, a um gesto que me fazia. 

– Então, olhe daí! – replicou o homem bruscamente, escancarando a porta. 

Encostei-me ao umbral para não cair. No meio do quarto, sob uma avalanche de rosas perfumadíssimas, entrevi o corpo de uma mulher. 

– Era minha filha – disse o jardineiro, entre soluços que mais se assemelhavam a uivos que a dor humana; – um dia abandonou-me, correu por esse mundo... Esta noite, veio bater ao portão, muito chorosa... que o amante lhe batera... Ouviu bem, senhora?! Quis fazê-la jurar que desprezaria agora esse bandido, para viver só no meu carinho... só no meu carinho!... Eu havia de tratá-la com todo o mimo, como se fora uma criancinha... Fiz-lhe mil promessas, de joelhos, com lágrimas...

Sabe o que me respondeu, a tudo?! Que amava ainda o outro! 

Cego de raiva, matei-a; ah! matei-a e não me arrependo... Antes morta por um pai honrado do que batida por um cão qualquer... Depois de morta... achei-a linda, linda! mas, coitadinha! vinha miserável, quase nua... tive pena, e para fazê-la aparecer bem a Nossa Senhora, vesti-a de rosas!...

No muro (Conto), de Júlia Lopes de Almeida


NO MURO 

Ao fundo do quintalzinho, o alto muro branco estava na sombra. De um único canteiro, à esquerda, evolava-se o aroma de manacás em flor. Do outro lado, a haste débil de uma árvore nova, uma arália talvez, balançava, em meneios vagarosíssimos, a sua folhagem mimosa e leve. 

Tudo em silêncio na casa. As crianças dormiam já, abatidas pelo calor; a criada mal dera as boas-noites, e lá saíra pela porta fora; só Maria Teresa, repousada da confusão do seu dia trabalhoso, cerrava os olhos preguiçosos, para cá e para lá, na cadeira de balanço, perto da janela da sua sala de jantar. 

Nem o gás quebrava o silêncio que a envolvia. A claridade é uma voz; só a treva é muda. Aprazia -lhe aquele sossego a que entregava descuidada o corpo e o espírito. E assim esteve muito, muito tempo, com o seu rosto de histérica, longo e pálido, volvido para o escuro do quintalzinho estreito. 

Mas a lua, que há pouco lhe clareava a frente da casa, as cortinas rendadas e os tapetes do escritório e da sala, lembrou-se de lhe galgar o telhado e de ir insinuando pouco a pouco a sua luz melíflua pelo alto muro branco do quintal. 

Maria Teresa, descerrando os grandes olhos pardos, viu a claridade vir lambendo a parede, numa carícia mole e frouxa. Ela bem sabia que aquele grande laivo escuro, desenhando no alto uma ligeira curva e descendo depois em uma linha reta perpendicular, era um pouco de limo e mais nada. O muro, velho, requeria conserto; tinha, entretanto, intervalos de uma alvura virginal, que brilhavam à claridade, como linho estendido.

Maria Teresa sorriu; que visão aquela! Dir-se-ia que a longa fita escura se movia agora em uma oscilação lenta, arrastando o seu longo corpo de réptil. 

Na verdade, uma cobra andaria assim?... E mais adiante, falhas de caliça, umas esguias, outras redondas, quadradas ou elípticas, entravam a mover-se, a adquirir formas estranhas, mal distintas, incertas, que no tremor da luz mal firme se dissolviam para tomar novamente corpo e forma... Ao princípio aquilo tudo era mal esboçado, confuso e inculto; mas, de repente, como a luz caísse melhor, Maria Teresa viu, como se olhasse para um espelho singular, refletida no muro a sua vilazinha mineira, de onde o marido a trouxera para a vida turbulenta da cidade. 

Tal e qual! Lá estava no alto a capela da Conceição, com o campanário, a casa do padre e aquela grande nogueira, cujas nozes magníficas ela ia colher com Josefina, a irmã, e mais o namorado... 

Embaixo, um pedaço de tijolo nu, não é que reproduzia, em miniatura fiel, o largo da vila, com as suas casas abarracadas, espaçadas e desiguais? E aquelas figuras, que no começo se assemelhavam a animais informes, não se moviam agora quais criaturas humanas, umas embiocadas em mantilhas a caminho do outeiro e da igreja, outras à beira do rio, lavando aqueles lençóis cor da neve que tanto brilhavam à luz? 

Que tolice! Maria Teresa, melhor que ninguém, sabia que aquele tufo de vegetação que irrompia do muro não era a grande floresta da sua saudosa vila... era uma touceirinha de erva de bode que ela por desleixo não mandara ainda arrancar... Sabia; mas que lhe importava? Aquilo representava agora ali o papel sagrado de floresta virgem... 

Era um dos raros pedaços da Terra não maculados ainda pelos pés do homem; o altar puro e sublime do Deus grande, poderoso e único! 

Alma de crente, alma de ingênua, espírito propenso ao sobrenatu-ral, Maria Teresa acreditava quase que os seus olhos viam uma verdade; e assim, saudosa da sua terra natal, delineava-lhe os contornos, em um grande fervor de imaginação. 

Uma oscilação do galho da arália cortou com uma pincelada negra o encanto do quadro... a árvore voltou à posição natural, mas as figuras do muro pareciam já outras, embaralhadas, dançando no tremor da luz. 

Era uma procissão, talvez... frades com capuzes seguiam a passo, nos seus hábitos escuros... Ao longe, na bruma, após um lago de neve, um alto castelo esguio se confundia com as nuvens... 

Maria Teresa lembrou-se das velhas histórias medievais que lhe contava uma escrava da família, mulata nortista, de inteligência viva e falas mansas... a Teodora. 

Seria a alma dela, que a visitava nesse instante de sossego e de solidão, e, doce, quieta, bondosa, lhe reavivava, em painéis rápidos, as passagens da sua infância? 

No Cavaleiro da Pluma lembrava-se de uma cena idêntica: os frades iam cantando em coro ao castelo da princesa morta. Mas, assim como nem os médicos chamados pelo rei a puderam salvar, também as orações dos frades não a ressuscitaram... 

E foi então que o Cavaleiro da Pluma, num corcel branco, galopou através de montes e vales e trouxe à exânime princesa a vida com um elixir roubado ao deus Cupido. 

A velha Teodora estrelava as histórias com as suas frases de ouro bruto. Seria mesmo a alma esquecida da mulata que vinha num raio da lua desenhar tais coisas em um muro branco?

 A Maria Teresa parecia então ouvir, em um sussurro delicado e longínquo, a voz da escrava, dizendo: 

– Lembra-se, Iaiá?! 

Pobre Teodora! de nada se esquecera Maria Teresa, a não ser dela, a sua escrava velha e imaginosa, que lhe florira a infância com os seus contos sem par, histórias em que os heróis eram deuses de grandiosos feitos... 

Lembrava-se da sua vila, das casas dos amigos, mesmo dos mais indiferentes, das árvores, tais como a nogueira do padre, e do rio, das noites de dança, das festas da igreja, dos pais, das irmãs, das suas rixas, dos seus abraços, das fazendas dos arredores, de tudo... menos dela, da mulata Teodora, que, já velha, passava noites em claro a embalar-lhe a rede, que lhe refrescava o corpo com o banho, que lhe penteava os cabelos, que lhe engomava os vestidos, que a perfumava, que lhe dava os primeiros doces de qualquer tachada, que lhe contava as mais compridas histórias de fadas que nunca língua humana soube dizer!

O Natal... o Ano Bom... os Reis... tudo isso despertava saudades no espírito de Maria Teresa; de todos e de tudo se lembrava com lágrimas, e em nenhuma vira nunca refletida a figura simples da velha Teodora, risonha, doce e plácida... 

A alma da escrava vinha pela primeira vez fazer-se lembrada à sua Iaiá, sem um queixume. Ela, que morrera no exílio, longe da sua terra quente de palmeiras e de sol; ela, que por lá deixara os filhos, não tivera assomos nem impaciências para a criança alheia que lhe puseram nos braços ainda tristes e saudosos do seu fardo amado... e era aquela dedicação pura e heroica, que só agora ela compreendia, de relance, como se lhe fosse lembrada pela mão invisível de Deus. 

E no muro branco, nos laivos do limo, nas manchas da umidade, nos esboroamentos da caliça, a lua pálida, sem nuvens, esfumava os quadros fugitivos da sua vida passada. 

As cenas régias das histórias da mulata eram substituídas por outras: as romarias, os pomares, a estrada e o cemitério... Lá estava o tú-mulo da mãe de Maria Teresa, de altos mármores e coroas de flores... lá estava o da irmã... os dos avós... os de outros parentes mais afastados... 

E o da velha Teodora? 

Esse, a imaginação de Maria Teresa não pôde descobri-lo... Estaria além entre as covas rasas, sem uma cruz... sem um número? 

Estivesse ou não, a alma da escrava não lhe ensinou o caminho e depressa mudou para um cenário risonho o triste cenário da morte. 

Maria Teresa ia desfalecer, quando se levantou de súbito e fe-chou a janela com brusquidão. Para que lembrar? A própria lágrima amarga é doce vista através da saudade. Que no velho muro branco a lua estendesse e recolhesse as sombras; ela fugia, salvando a sua alma abatida, à voz do marido que a chamava da porta. 

Bem dizia a Teodora, no Cavaleiro da Pluma: há uma única força capaz de ressuscitar os mortos e de alegrar os vivos: o Amor.

O último discurso (Conto), de Júlia Lopes de Almeida


O ÚLTIMO DISCURSO 

Dr. Paula Guedes, muito velhinho, sumido entre os almofadões do seu grande leito de peroba, com os pés aquecidos por uma botija de água quente, a camisola de flanela bem abotoada no pescoço, delgado e rugoso como um galhinho seco; as mãos mirradas sobre a colcha de lã, a fronte já tocada de uns tons da amarelidão cadavérica, os lábios murchos sob o musgo branco do bigode queimado, as pálpebras descaídas, mal ouviu a neta dizer-lhe que havia ali um ofício dirigido a ele, sentiu logo um calorzinho entrar-lhe na alma fria. 

Ainda não tinham esquecido!... 

E, com um fio de voz fragilíssimo, reclamou logo: 

– Os meus óculos! 

Postos os óculos, disse radiante: 

– É do Instituto! E apalpava o papel grosso onde o dístico daquela corporação aparecia em letrinhas negras. 

A neta, em pé ao lado da cama, observava-lhe com espanto a mudança da fisionomia. As pálpebras até então fechadas numa sonolência que parecia o ensaio para o grande sono, levantavam-se agora, deixando que das pupilas, há pouco amortecidas, saíssem novos lampejos, como mosquinhas loiras bailando no ar. 

– Hum... hum! é do Instituto... ainda não me esqueceram... sempre faço alguma falta. 

Todo o corpo do doente se movia sob a grande colcha felpuda, onde não faria menos volume o esqueleto de um menino de dez anos. 

A neta ofereceu-se para a leitura. 

– Não; depois! espera... corre a cortina... a luz está má. 

– Assim? 

– Assim. 

A leitura começada foi logo interrompida. 

– Hum!... hum!... abre a janela. 

– Vovô, vamos ter chuva; há tanta umidade que nem parece uma manhã de verão. 

– Não faz mal, abre a janela. 

– Mas... vovô! 

O Dr. Paula Guedes, que tomara na véspera os sacramentos, como bom católico apostólico romano, todo purificado pela absolvição, rompendo a inércia dos seus oitenta e três anos e daquela doença que o fazia tiritar de frio em pleno fevereiro, gritou em um falsete irado: 

– Abre a janela! 

A janela abriu-se. A araucária e os pés de camélia plantados perto de casa gotejavam orvalho; para além nada se via: tudo era branco. 

– Aqui na Tijuca estes nevoeiros de verão prognosticam dias formosos, disse o doutor com um sorriso, desdobrando o ofício. 

Era um convite. Pediam-lhe que fosse ele o orador na grande solenidade que o Instituto realizaria daí a um mês em homenagem ao tricentenário de Anchieta. 

Então é que o enxame das mosquinhas de ouro torvelinhou doidejante. Meu Deus! o Instituto, o centro das grandes capacidades do país, dos nomes mais respeitados e queridos do império e da república, aquele ninho de inteligências perfeitamente dirigidas, de ministros, conselheiros, marechais, historiadores e grandes homens de letras, precisava dele, do apoio da sua voz, do fulgor da sua ilustração? Que honra, que doce consolo aquele que lhe ia bater à porta nas últimas horas da sua vida, exatamente quando ele curtia a amargura de pensar que tinham há muito posto sobre o seu nome uma pedra ainda mais pesada do que a outra que botariam em breve sobre o seu corpo! 

Alvoroçado releu o ofício, passou-o à neta, ouviu-o ler de novo; mandou chamar a família inteira, comunicou-lhe o sucesso, com ar rejuvenescido, contente. 

Ele faria por aceder ao convite! 

Opuseram-se todos. Seria a sua ruína; que dormisse descansado, sem atormentar a imaginação. 

Que se lembrasse dos conselhos do médico... e que mais isto e que mais aquilo... 

Falassem pra ali! Ele já nada ouvia. Escorregou nos seus travesseiros, fincou o olhar na cúpula do cortinado, e nem mais palavra. 

Fecharam a janela, aconchegaram-lhe ao corpo mirrado as dobras da colcha, cerraram o cortinado e – chut ! – saíram em bicos de pés. 

No seu grande leito, o Dr. Paula Guedes, muito branquinho e engelhado, de mãos postas, tal e qual como na véspera, quando a Visita de Deus entrara no seu quarto, via desfilar o cortejo extraordinário dos grandes vultos da história. 

Galeras a todo o pano singravam as ondas aniladas com rumo às terras formosas em que soavam a língua dos Tupis e a língua dos Guaranis. 

O espírito do velho Dr. Guedes lá se remontou a 1553, sorrindo ao vulto pálido e severo do moço Anchieta, acompanhando -o pelas selvas negras e as montanhas pedregosas, vendo-o escrever os seus versículos sacros e arrebanhar crianças para as procissões. 

Começou então a pensar na construção do seu discurso. Dividi-lo-ia em grandes períodos, com toda a sua minúcia e caturrice acadêmica; deveria ser uma peça substanciosa, por vezes anedótica, mas sempre elevada. O seu maior empenho era o de fazer este discurso mais brilhante que todos os outros que tinha deixado atrás de si, espalhados pelas salas, pelas revistas e pelos arquivos. A palavra entontecia-o, arrastava-lhe o pensamento na sua torrente macia, onde as ideias lampejavam como faúlhas imorredouras. 

O orador começava a achar intolerável a demora no leito. Veio-lhe a saudade das suas estantes, do conforto da sua biblioteca, da comodidade da larga secretária, tão afeita ao peso do seu braço amigo. 

Já não sentia frio, já não lhe doíam os membros lassos, quase inertes; aquele convite do Instituto fora a providência; trouxera-lhe um pouco de mocidade; era uma ressurreição!

Oh! o Instituto não se esquecera... estava tranquilo: deixava um nome, faria falta! 

Trouxeram-lhe leite; bebeu-o de um trago e reclamou papel e lápis. 

Houve rumor em casa. Consultaram-se uns aos outros. Dariam o lápis? Dariam o papel? Uns diziam que sim, outros que não; e entretanto ele, murcho e débil no meio dos seus almofadões, coordenava as suas memórias históricas, organizando uma obra digna do assunto, com um pouco de fantasia que lhe adoçasse a sobriedade dos dizeres clássicos, em português bem literário e castiço como se prezava de escrever. 

Trouxeram-lhe afinal o papel e o lápis, e a pouco e pouco foi-se o leito juncando de livros, arquivos, glossários, volumes de história. 

O Dr. Paula Guedes já não carecia da botija de água a ferver para os pés; um calor confortativo, de vida, alastrava- se por todo ele, em uma febre doce, que punha cada vez mais aceso o enxame de mosquinhas de ouro dos seus olhos encovados. 

– Cada louco tem a sua mania; resmungava a família descontente, com medo daquele trabalho penoso para um corpo sem sangue, prestes a cair. 

Entretanto o discurso ia indo, caudaloso, nos moldes velhos a que o orador se acostumara e que considerava, como bom retórico, os únicos capazes de bem levantar as almas. 

O milagre fez-se. O velhinho parecia ter adiado a morte, e levantou-se oito dias antes da grande solenidade, com o seu discurso arquitetado e as mãos cheias de notas que ele coordenou na grande secretária da sua biblioteca. 

Tudo concluído, recomendou às filhas que lhe preparassem o terno da casaca, as luvas e a gravata branca, mais as suas comendas que ele, grande respeitador das velhas instituições, usava sempre nas funções solenes. 

Naquela febre, todo voltado para o ideal e para a história, o velho Dr. Guedes rejuvenescia, como se mão misteriosa o ajudasse, invisivelmente, a caminhar na vida. 

Dias antes da cerimônia quis ensaiar-se e experimentar o seu fato, há tanto tempo guardado no fundo escuro do armário. 

Preparou-se; o corpo nadava -lhe dentro do pano preto; e dentro do colarinho engomado o seu pescocinho fino mal parecia dever sustentar-lhe a cabeça branca, recheada de ideias e de imagens gordas. 

Para que o ensaio fosse completo abriu-se o salão da frente, acenderam todas as arandelas, e os filhos e netos sentaram-se disseminados, como se com a dispersão parecesse aumentado o auditório. 

Dr. Guedes entrou com passo firme, à força de energia, sorriu, fez a mesura do estilo: – “Minhas senhoras! Meus senhores!” – e, folheando os seus manuscritos, começou a falar em voz fraca, espalmando no ar a mão direita, enquanto a esquerda carregava as vinte e seis tiras do papel almaço. 

O seu primeiro discurso não o comovera tanto. É que ele agora julgava-se esquecido, perdido da memória dos seus contemporâneos e daquelas gerações que tinham sucedido à sua, com menos brio e piores armas. Agora estava consolado: o Instituto lembrava-se, e o Instituto valia tudo! 

Com as condecorações reluzindo-lhe no peito magro e fundo, o Dr. Guedes procurava dar gravidade ao gesto e sonoridade à voz; mas os óculos descaíam-lhe, a vista faltava-lhe e a palavra perdia-se em um som rouco e débil. Ele mal percebia tudo isso, aproximava-se da luz, sustinha com os dedos trêmulos o aro de ouro dos óculos... E as filhas choravam, constrangidas, muito caladas, engolindo as lágrimas. 

Quase no fim, em um dos seus melhores períodos, em que ideias e palavras desabavam com fragor de catadupa, ao esboçar um gesto, o doutor Paula Guedes estacou, abriu os dedos e deixou voar para o chão as tiras do seu discurso. Acudiram todos; receberam-no nos braços, deitaram-no no seu grande leito de peroba, e, quando olharam de perto para o seu rostinho lívido, viram que das suas pupilas fundas a última mosquinha de ouro tinha partido, como a última abelha do cálix  de uma flor murcha. 

Então, a mais calma das filhas reuniu as tiras esparsas do último discurso do pai, dobrou-as e meteu-as carinhosamente no bolso da casaca, tal e qual como se ele, em vez de ter de ir para o cemitério, tivesse de ir para o Instituto!

O futuro Presidente (Conto), de Júlia Lopes de Almeida


O FUTURO PRESIDENTE 

Uma... duas... três... quatro... e as horas foram soando numa lentidão de relógio velho, até a décima pancada. 

Era noite; pela janelinha aberta, do sótão, via-se um pedaço do céu estrelado, e nada mais. 

No interior, havia um lampião de querosene sobre uma mesa de pinho; um armário sem vidros, com cortinas de chita; cabides, máquina de costura e uma ruma de caixas de papelão empilhadas num canto. 

Junto à mesa uma mulher maltratada, magra, de olheiras fundas e dedos calejados, curvava-se para diante, pregando botões numa camisa para o Arsenal. 

Ao pé dela, num berço de vime, dormia regaladamente um pequerrucho, gordo e trigueiro, com a cabeça enterrada na almofada e as mãozinhas papudas e abertas, espalmadas sobre a colcha vermelha. 

Além do tic-tac do relógio, só se ouviam os estalidos da agulha e a respiração regular da criança. 

A mãe de vez em quando tirava da costura o seu olhar cansado e deixava-o cair sobre o filho. Os seus olhos verdes perdiam então pouco a pouco a névoa de tristeza que os tornava sombrios, até irradiarem com a limpidez das esmeraldas sem jaça. 

O marido tardava; talvez passasse a noite toda fora, vigiando a linha dos bondes, com a sua lanterna de cores, e ela aproveitaria o tempo para coser e adiantar serviço; a vida é tão cara e eles ganhavam tão pouco... 

Pensando na dificuldade de se sustentarem, lembrava-se do bom tempo em que o marido era forte e ativo; agora o desgraçado tinha só uma perna e o juízo já não era como antes... enfim, ajudava-o ela; e daí a alguns anos haveria mais alguém a auxiliá-los. 

Esse mais alguém continuava a dormir tranquilamente, com as duas mãozinhas abertas sobre a colcha. 

Entretanto, a imaginação da mãe ia-lhe abrindo um caminho florido e largo através do misterioso e impenetrável futuro. 

Com a costura caída nos joelhos, a cabeça voltada para o berço, ela dizia mentalmente: 

– Ele há de ser bom, há de ser amado por toda a gente... haverá alegria nos olhos que o virem, e todas as mãos se estenderão para apertar a sua mão honesta! Meu filho! Como ele dorme! Como ele é bonito! Hei de ensiná-lo a ser caritativo... mas como? se nós somos tão pobres... Não faz mal, há de se arranjar um meio de o fazer dar esmolas! Será abençoado assim pelos infelizes! Coitadinho! chorou tanto hoje!... faltou-me o leite, talvez... com esta vida de trabalho, não admira! E tão manso que ele é! pobre criança!... Pobre... pobre! É preciso que ele seja rico, para ter completa a felicidade! Isso é que há de ser mais difícil... e daí, quem sabe? talvez não... 

O pensamento ficou-lhe suspenso nessa ideia; com um suspiro de desalento voltou à costura, e os seus olhos foram-se enturvando. Também o marido tinha tido grandes esperanças de fazer fortuna; também ele arquitetara castelos de ouro e cristal, e deitara-se ao trabalho com amor e coragem; também ele era probo, e digno, e leal, e aí estava agora quase inutilizado, desde que a maldita máquina de um trem lhe esmigalhara uma perna, mudando-lhe o seu gênio desembaraçado e viril, por aquela atual inércia, doentia e triste! 

A que está sujeita a gente de trabalho rude! Ela que, desde pequena, se mostrava tímida, encolhida pelos cantos, séria e franzina, era quem mais lidava e com maior ânimo, agora! O seu esforço seria compensado? poderia levar ao fim a criação do filho? Chegaria a vê-lo homem, bem educado, poderoso, feliz? 

Lembrava-se de que, da última vez que tinha levado roupa ao Arsenal, ouvira num bonde, entre dois sujeitos velhos e bem vestidos, uma conversa que lhe causara impressão. 

Falavam de pessoas de condição humilde quase desprezíveis muitas vezes, mas cuja inteligência, atividade e esforço conquistaram coisas estupendas no mundo das artes, no mundo da ciência e no mundo da política! Aludiam encomiasticamente a um rachador de lenha, que foi chefe de estado; a um filho de um tanoeiro que chegou a marechal de França e a príncipe; a um tecelão, nascido num subterrâneo, que foi um grande botânico... e a outros assim. 

Essa gente toda era apontada na História pelo seu valor extraordinário, tendo alcançado, a par de grandes fortunas, o respeito universal! 

Enquanto esperava que lhe recebessem o número, no Arsenal, ia repetindo de si para si a conversa dos velhos, a tal ponto que a chamaram de distraída... 

Distraída! O que ela estava era cogitando no futuro do filho! 

Interrompeu de novo a costura, deu mais luz ao candeeiro, dobrou umas camisolas já prontas, e recostou-se um pouco, descansando as costas que lhe doíam. O pequenito moveu-se; ela arranjou-lhe a coberta delicadamente, para o não acordar, e pôs-se a olhar para ele num êxtase. 

– Há de ser formoso, há de ser amado! virá um dia em que o solicitem outros amores, em que a paixão de uma mulher o atraia a ponto de esquecer-me! O sacrifício que eu faço, as dores que sofri, as forças que eu esgoto amamentando-o, tendo-o ao colo, perdendo com ele as noites, serão coisas ignoradas, ou de que ele não faça senão uma ideia incompleta! Meu filho! como eu já tenho ciúmes dessa outra que lhe há de absorver toda a intensidade do seu afeto! Mas não; ela será toda meiguice e amor, ela ajudar-me-á a fazê-lo feliz!... Ele é inteligente... ele terá mesmo um talento notável! Será grande; será respeitado... chegará aos cargos mais altos... meu filho! como ele é inocente! como ele é puro! Qual será o meu orgulho ouvindo chamarem-no: “Senhor doutor!” e vendo-o deputado, a falar nas câmaras, com muita nobreza e distinção, correto, simpático e justo! Depois... se isto chegar a ser República, como andam a dizer por aí, por que não será meu filho o presidente? 

Neste ponto os olhos da pobre mulher lampejaram de alegria; as suas grandes pupilas verdes tornavam-se verdadeiramente luminosas, atravessadas por uma alegria ofuscante, como se a sua alma fosse um intenso foco de luz! 

Presidente! ... presidente!... Sim, ele será presidente! Quando passar pelas ruas toda a gente o cumprimentará; e os ministros, fardados e veneráveis, curvar-se-ão diante dele com o respeito devido a um superior, nos grandes salões do um palácio onde ele habite. Terá carros luxuosos, cavalos e criados... À sua voz abrir-se-ão as prisões, os hospitais, os asilos, todos os edifícios onde a desgraça more! Clemente, consolará os tristes, levando-lhes no seu conselho ou no seu perdão a esperança e a ventura! As mães atirarão flores a seus pés; os moços saudá-lo-ão alegremente e as crianças cantarão hinos agradecendo a sua proteção, o seu amparo, a sua simpatia. A todos os recantos escuros descerá o seu olhar luminoso! para cada chaga terá um bálsamo, para cada mágoa um consolo, para cada vício uma reabilitação! A cadeira de veludo que lhe destinarem em todos os lugares em que tenha de comparecer, quer seja um lugar de festa, quer seja um lugar de dor, será sempre cercada de flores, atiradas aí pela multidão compacta do povo, que o proclamará, unanimemente, o melhor dos homens! Sim! meu filho será o melhor dos homens! Triunfante, poderoso, altivo, belo, adorado, há de levar-me pelo braço, a mim, velha, cansada, trêmula, e dirá à vista de toda a gente, sem se envergonhar da minha figura nem da minha ignorância: “Esta é minha mãe!” 

A costura do Arsenal caíra no chão; a visionária mulher tinha lágrimas nas faces, lágrimas de júbilo que aqueles pensamentos lhe davam. Nervosa, histérica, doente, deixara-se embalar de tal maneira pelas douradas quimeras daquele sonho irrealizável, que o julgava já exequível, certo. 

Voava pelo azul de sua fantasia, quando ouviu na escada os passos irregulares do marido, batendo nos degraus com a sua perna de pau. Correu a abrir a porta. 

O homem entrou carrancudo, confessando logo, à queima-roupa, estar sem emprego... Implicâncias e queixas de um fiscal... guardava as explicações para o outro dia; estava cansado. Deitou-se e adormeceu. 

A esposa, arrefecida, gelada por semelhante notícia, voltou para a costura; duplicaria o seu esforço, faria serão até mais tarde, talvez toda a noite... 

No entanto o relógio cansado ia batendo, uma... duas... três... quatro... até a décima segunda pancada da meia-noite; e no bercinho de vime dormia regalado o futuro presidente, com a cabeça enterrada na almofada e as mãozinhas papudas espalmadas sobre a colcha de cor.

A valsa da fome (Conto), de Júlia Lopes de Almeida

 

A VALSA DA FOME 

Quando o pianista Hipólito entrou na sala, houve um sussurro de contentamento. Era preciso romper aquela monotonia, as moças estavam mortas por dançar. 

Dentro de uma velha casaca ensebada, com o pescoço hirto e as grandes mãos balançantes, ele dirigia-se para o piano a largos passos, com as narinas dilatadas e o queixo muito agudo, cortando o caminho como uma proa de navio virada para o porto desejado. 

Houve quem risse; ele era tão magro, ia tão amarelo e com tão viva chama nos olhinhos pretos, que uma senhora, uma dessas senhoras espirituosas e amigas de fazer comparações, perguntou a um amigo: 

– Quem teria tido o esquisito gosto de vestir de homem aquela tocha funerária? 

Logo o interrogado, rapaz gordo, metido a literato, com o peito florido por uma gardênia imaculada, respondeu: 

– A fome. Foi a fome que lhe envergou aquela casaca pré-histórica e lhe amarrou ao pescoço, com verdadeira gana de o enforcar, aquela gravata branca. Só ela, a maligna, o faria entrar neste salão burguês para divertir as moças. Porque, fique sabendo a minha senhora e amiga, aquilo que está ali é um artista. A fome tem muita força para trazer um animal daqueles, todo nervos, para um lugar destes. Só pelo freio! 

– Oh! 

– Não se escandalize e repare-lhe para a nodosidade dos dedos. Valentes, formidáveis, não? Pois vai ver: roçam pelo teclado como uma ponta de asa pela superfície de um lago. Hão de me agradecer o tê-lo trazido cá... 

– Ah, foi o senhor... 

– Fui eu; por um acaso... Imagine que fui homem encarregado de contratar o pianista para a festa, e que só hoje, à última hora, me lembrei da incumbência! 

– Sempre o mesmo! Aquele senhor então, veio remediar uma falta... 

– E preencher uma lacuna. Com duas palavras vou fazê-la interessar-se por ele. Tinham-me dito que o Hipólito, chama-se Hipólito, vendera o piano há cerca de uns seis meses, para fazer o enterro à irmã, única pessoa da família que lhe restava ainda, e que morreu de penúria com outras complicações... Conheci-a, era um lírio; tanto este de bronze como a outra era de cristal. Amavam-se como nunca vi; ele tocava-lhe as suas composições e ela entendia-o, ia até ao fundo do seu pensamento, numa admirável intuição de arte, toda feliz, toda orgulhosa daquele irmão. Através do seu corpo diáfano, como que se lhe via a alma iluminada e radiante. Era muito branquinha, muito branquinha... Pobre pequena! Desde que ela morreu sumiu-se o Hipólito. Naturalmente, por mais que ele nos divertisse e nos fizesse falta, não o quisemos perturbar na sua mágoa. Compreendo que para um homem não há amor tão doce como o de uma irmã, nem que maior saudade possa deixar... Perdi assim de vista o meu maestro, até que, desabituado, não me tornei a lembrar dele, quando hoje, de repente, na ocasião mesmo em que eu me esbaforia atrás de um pianista para a soirée da minha tia, encontrei-o cabisbaixo, contemplando as ruínas dos botins. Pareceu-me um santo; agarrei-o com a possível veneração e fiz-lhe a minha súplica com tal ardor que ele acedeu trêmulo, numa ansiedade febril, titubeando: 

– Há seis meses que não toco, desde que ela morreu... sabe? não tenho piano, não frequento casas de música. Cavo a vida por outros modos... mas estou com saudades, muitas saudades! 

Tinha a boca seca, sentiu-lhe o hálito ardente; convidei-o para tomar um chope. 

– Não; tenho medo, respondeu-me. Estou com fome. 

– Mais uma razão para ires tocar à casa da minha tia, respondi-lhe. Lá matarás a fome a peru trufado e as saudades do piano num excelente Bechstein Se não fosse tão tarde... Tens casaca? 

– Não tenho nada. 

– Há aí umas casas que alugam disso. Apressa-te; às dez horas deve romper a primeira valsa e já são oito. Toma o dinheiro para a casaca; comerás lá em casa. Foi tudo o que eu disse, à pressa, pensando em ir preparar-me também. E ele arranjou-se, não sei em que guarda-roupa, mas com uma brevidade que me espanta, visto que eu começava a temer... Sim, com dinheiro no bolso, em vez da casaca ele tinha razões de esfomeado para dar preferência a um jantar de restaurant. Não lhe parece? 

– Parece. Vê-se que gosta mais de contentar a alma do que de satisfazer o estômago. 

– Artista. Depois da primeira valsa vou fazê-lo cear... Por Deus! adoro estas organizações! 

– Tem um certo sabor, a sua história; mas agora diga-me com franqueza, não receia que esse senhor heroico nos toque uma marcha fúnebre em vez de uma contradança? Olhe para ele! 

– E a senhora ri-se! 

Hipólito sentava-se. As abas da casaca pendiam-lhe murchas e amarrotadas, como duas asas de urubu doente. As suas mãos trigueiras, que o exercício do teclado desenvolvera, caíram sobre o marfim do piano num gesto ávido, de posse. O busto ossudo e longo arquejou-lhe num soluço abafado e duas lagrimazinhas ardentes subiram-lhe aos olhos áridos. Ninguém as viu; todo dentro de si, ele escutava, maravilhado, os sons que ia ferindo e que se seguiam em revoada, como um bando de aves libertadas de repente de uma clausura longa... 

Rolaram notas macias, num prelúdio que foi como que uma carícia por todas as teclas, e desse prelúdio nasceu uma valsa, ora ritmada em graves, ora desdobrada em arpejos que iam e vinham num movimento doce e embalador. 

Atrás dele já rodopiavam os pares. Carnes acetinadas, dos colos e dos braços nus, iluminadas pela poeira lúcida da brilhantaria, roçavam palpitantes o áspero pano das casacas. Ia crescendo o número de pares. Manchas azuis, rosas, brancas e violáceas giravam diáfanas, ora aqui ora ali, como nuvens do crepúsculo balouçadas pelo vento. 

Inebriado, num gozo estático, Hipólito admirava-se que o piano obedecesse ainda tão bem aos seus dedos nervosos e à sua inspiração. A saudade da arte, a saudade dolorosa que havia tanto o pungia, desafogava-se enfim! Seria um sonho aquilo? Nunca a sua imaginação fora tão fresca nem tão abundante. O repouso dera-lhe novas forças; o sofrimento subtilizara-a. 

Assim, Hipólito abstraía-se; ia perdendo pouco a pouco a noção do lugar. 

A valsa seguia o seu curso, criando a cada compasso novos motivos, que, nascendo uns dos outros, se avolumavam de pequeninas fontes em cascatas, onde as melodias flutuavam como flores na torrente para se submergirem em harmonias, compactas e nunca repetidas. 

E como aquela saudade não se contentava, a música era infindável. 

Algumas pessoas paravam extenuadas, mas vinham logo outras; dançava-se sempre, até que vozes impacientes gritaram: 

– Basta! basta! 

Não bastava. O artista, insaciado, não ouvia ninguém. Todo curvado, anelante, com os joelhos pontudos erguidos alternadamente pelo movimento dos pedais, os cotovelos magros unidos ao corpo trêmulo, as mãos enormes, ora leves como plumas, ora pesadas como ferro, na brancura do marfim, ele aspirava entontecido aquela música nascida do seu cérebro e da sua alma, tal como se ela fosse um aroma intenso que o perturbasse e ainda assim quisesse absorver. 

Todos na sala olhavam para ele com pasmo, na vaga percepção de um mistério divino. Já nenhuma voz dizia: – basta! os lábios entreabriam-se de espanto, mas em silêncio. 

Que música nova seria aquela, onde os sons borbulhavam num fervor contínuo, marulhando como a onda ou rompendo em remígios de aves gorjeadoras? Que música seria aquela, para levar de roldão, no leve compasso da valsa, risos e agonias, badaladas de sinos, frases de loucos e suspiros de amor? 

Na densa espiritualidade daquele poema, sentia-se ofegar uma ânsia irrequieta, humana, de perfeição. O suplício de a atingir arrastava-se como um desejo eterno, sem esperança... 

Pálido, convulso, sem sentir a fome que o dilacerava, o pianista agitava-se, transfigurado, com os olhos lacrimosos e a fronte enluarada. 

Dos seus dedos, fortes como raízes nodifloras, desabrochavam cachos de modulações, e ele vergava-se todo, como se por vezes quisesse beijar o piano. 

Havia mais de uma hora que durava aquela valsa, e Hipólito tocava sempre exuberante, num alheamento místico, de sonho. Tocava já sem as blandícias dos primeiros compassos, já sem os esboços fugazes de motivos em sucessivo abandono, mas num esforço de vitória suprema, num desdobramento febril de sons que faziam do piano uma orquestra e da valsa uma marcha de triunfo. 

Levantaram-se todos, lívidos de espanto. A solenidade daquela loucura, e a concepção de uma obra de arte e sua simultânea execução produziam em toda a gente o arrepio do gozo e o silêncio do pasmo. Arquejante, surpreendido pela magnificência da sua criação, Hipólito, desvairado, alterou o compasso, desenvolvendo um trecho de sonoridades amplas, numa alegoria à Glória, digna de uma cantata. 

Sem ver ninguém, ele recebia o influxo da admiração de todos. As luzes irradiavam como o sol, a atmosfera carregada de aromas entontecia-o, e a fome estorcegava-lhe o estômago, fazendo-lhe escorrer pelas costas e os membros um suor de vertigem. 

Não podia mais, vinha o cansaço, os pulsos amoleciam-se-lhe, uma nuvem escura ia-lhe a pouco e pouco toldando a vista... Feliz, naquela reconquista, ele teimava, teimava, cada vez mais fraco, já inconsciente, com os dedos erradios no teclado, de que levantava agora uma revoada de sons alucinados e confusos. Reaparecia o ritmo da valsa arrastando harmonias desacordes, nascidas ao acaso das mãos bambas... 

O auditório que o aclamara começava a rir, ao princípio baixinho, depois mais alto, mais alto, até à gargalhada franca e brutal, quando, repentinamente, se calou assustado. 

O rapaz da gardênia, com os olhos cheios de água, correu a acudir a Hipólito, que desmaiara sobre o piano.

O Dr. Bermudes (Conto), de Júlia Lopes de Almeida

 

O DR. BERMUDES  

Hão de crer? Encontrei esta manhã o Dr. Bermudes, aquele velho boêmio incorrigível, com o seu legendário casacão ruço, as botas cambadas, o colarinho sujo, e o seu ar de fome, olhando pasmado para uma vitrine de bonecos! 

Quem não sabe da crônica do Dr. Bermudes? Conhece-a o Rio de Janeiro em peso, desde os lentes da academia, de quem ele fora condiscípulo, até aos caixeiros dos botequins que o levam para o relento das calçadas, a horas mortas da noite, quando as estrelas brilham no céu sobre os telhados mudos da casaria adormecida. 

O Bermudes está velho, tem perto de cinquenta anos, e a ventania da desgraça pôs-lhe na pele tons de cobre sujo, e manchas de neve naquelas barbas, que mais parecem ervas hirsutas de uma brenha. Credo! 

Quem dirá que aquilo já foi moço, galante, garboso, rico, correndo às aventuras arriscadas, sempre bem vestido e bem falante, enamorando as mulheres com a doçura dos seus olhos, e o espírito dos homens com a faísca das suas palavras ardentes e bombásticas? 

A sua passagem deixou rastro na academia; citam-se ainda frases suas e feitos de arreganho em que entrou sempre uma alevantada ideia de justiça. Trazia capa e espada na alma, já que os tempos burgueses não lhas permitiam no corpo. O Bermudes era um D. Quixote, mas novo, bonito, com uma voz que arrastava a gente e cada gesto, cada ideia, de quem tudo domina e nada teme. 

Eu conheci-o ainda nos bons tempos da D. Jacinta, a tia velha, que lhe dava dinheiro e o mantinha naquelas doidices da mocidade, com o brilho que a sua imaginação requeria. 

E ele aproveitava. Só fumava do bom, comia como um príncipe, e das suas mãos finas as esmolas caíam, como chuvas de verão, no regaço dos pobres. Sujeita, como tudo, às leis da natureza, a D. Jacinta foi muito quietinha para o cemitério, numa formosa tarde de inverno, dessas de nuvens de ouro e de roseiras em flor. 

Pela escadaria de pedra do jardim, quantas abas negras de sobre-casacas flutuaram, a caminho das reverências ao Dr. Bermudes, o belo Bermudes, único herdeiro daquela velha milionária? E ele lá estava, na capela ardente, pálido, com a face compungida e as lágrimas luzindo-lhe nas pupilas. Era só então: “Sr. Dr. Bermudes!” – “Sr. Dr. Bermudes!” 

Muito respeito, muita piedade e grandes condolências... Lá de um cantinho, o tabelião Taveira, com a papada de porco untando de suor o colarinho e o peitilho da camisa, sorria por dentro, no mistério do seu ofício, daqueles dizeres de tantíssimas bocas. Ele lera ao Bermudes, horas antes, o testamento da tia. A idiota não deixara nem um vintém ao sobrinho; ia toda a fortuna para a sua irmandade de São Francisco. E o Bermudes nem estremecera. Era como se fosse tudo muito natural. 

Acabada a leitura, ele ergueu- se e dirigiu-se para o catafalco. O tabelião e as testemunhas pularam, julgando que no rostinho mirrado do cadáver caísse vingativa e irrespeitosamente a mão do Bermudes. Não; ele fora sacudir as moscas, que faziam por entrar na boca de onde só orações tinham saído havia longos anos. 

E ninguém mais falou em tal. A velha, que o acostumara aos regalos de uma vida de luxo e dissipação, deixou-o sozinho na miséria. E só o seu confessor sabia as razões disso... 

Bermudes ficou sem ter onde dormir, nem onde comer, girando por essas ruas, alegre com uns, condoído de outros, sem rancores, aceitando o jantar do um amigo, o leito de outro, coisas de empréstimo, que foram rareando pouco a pouco, até que se acabaram de todo... 

Ele deixou assim de ser o homem de sala para ser o tipo da rua. Afez-se às más companhias e ao mau vinho. E quando bebia sonhava que a tia Jacinta voltara da viagem e que tinha outra vez o seu grande leito de dossel com sanefas de púrpura, e o seu chocolate quente com pão de ló, trazido pelo criado, o mulato Candinho, antes do banho, nas suas manhãs preguiçosas. Quando o Bermudes acordava da bebedeira, via que o colchão não era o seu antigo, de paina de seda, desfiada pelas crioulas da casa, mas sim o lajedo da rua imunda. A decepção abria-lhe vontade de beber outra vez, e ele bebia para sonhar com os regalos fornecidos pela defunta velhota. 

Ainda há senhoras por aí que bem se lembram de ter valsado com ele, o que era um prazer delicado. De uma sei eu que, quando o vê, volta o rosto e sente estragado todo o prazer do seu passeio. Embora a filha lhe pergunte: – Mamãe, por que ficou triste? – Ela não lhe responde e vai andando... Vai andando com a ideia presa à lembrança de outros tempos, quando o Bermudes, moço, rico, estimado, ia vê-la todas as tardes, chamando-a – minha noiva, mesmo nas bochechas do papai e da mamãe... E daquela voz do Bermudes nunca ela se esquecera, nem depois, quando outro homem lhe deu o mesmo título, na mesma casa, ao lado das mesmas pessoas! Ela também já tem os cabelos brancos, mas, porque é rica, como cheiram bem os seus vestidos de seda e os seus manteletes à moda! O marido nunca lhe soube dizer que a amava, como o Bermudes, que lhe plantara na alma um canteirinho de flores odorantes; mas que luxo lhe dava, santo Deus! 

O  Bermudes é que a não conhece; esqueceu-a, perdoando-lhe assim generosamente... e por aí anda com o seu casacão roto, e os seus passos trôpegos, em que entra já o tremor do alcoolismo... 

Um dos seus divertimentos, ora vejam! é ir postar-se em frente às vitrines de bonecos, com uma atenção que nada abala. Sorri para as pastorinhas de avental e chapéu de palha, para os clowns , para os velhos do Natal, para os bebês das caixas armadas a rendas e cetins, para os velhos sapateiros batedores de sola e para as carrocinhas tiradas por um burrinho gordo. 

A gente da loja já o quis enxotar, dizendo que ele afugentava a freguesia. Entretanto, Bermudes sorri com as crianças que passam, porque, como as crianças, ele sempre amou a ficção. E há de amá-la, até que um dia... Vão ver que a tarde em que o levarem para a sua última cama não há de ser tão bonita como aquela em que levaram a velha tia Jacinta!

Pela Pátria (Conto), de Júlia Lopes de Almeida



PELA PÁTRIA 

Os tiros lá fora repetiam-se, tremendos e abaladores. D. Catarina, muito lívida, segurava com os dedos magros, de encontro ao peito fundo e côncavo, o seu triste xale de viúva, escutando sozinha a agonia do coração... Morava em Niterói, num bairro afastado, e na sua pequena sala térrea, de uma nudez de ascetério, o seu corpo magro e esguio, todo coberto do preto, andava desnorteadamente, como um mastro sem velas batido na borrasca. 

Corria assim de canto a canto, de parede a parede, de janela a janela, sem parar, sem perceber senão que os seus dois rapazes lá estavam na guerra, o mais velho no exército, o mais novo na esquadra... 

A luz pálida do crepúsculo desfazia-se aos poucos. Coisas e seres retraíam-se num silêncio expectante. 

O troar da artilharia calava todas as outras vozes; nos intervalos caía sobre a terra uma mudez pesada e absoluta; mas o estampido vinha depressa fazer vibrar a natureza inteira. E o ar ficava por momentos trêmulo, como que dolorido pela passagem daquele som formidável assassino. 

D. Catarina tinha esgotado todo o fervor religioso da sua alma. A prece já lhe saía dos lábios frios como um débil perfume de flor murcha. Perdera as forças na ansiedade e no pranto; o coração não lhe destilava a água purificada da lágrima, que escorrera toda, deixando só no fundo os resíduos de sangue negro e envenenado, geradores da raiva. D. Catarina odiava a terra em que nascera e que lhe roubava agora os filhos, e execrava ainda mais os homens e a lei e tudo! Era ignorante, embora inteligente e imaginosa; e na curta parábola em que o seu espírito se abalançava, não podia atingir esses preceitos divinos, que se escrevem com sangue e que os homens leem corrente na sua alta sabedoria... 

A honra? O brio da nação? Palavras! Ela não sabia senão que amava os filhos, que os tinha criado com terno apego e grande sacrifício, pedindo honestamente e humildemente ao Senhor Deus dos exércitos, que fizera as estrelas do céu, as águas dos rios, os cedros altivos e as areias do mar, que, na sua força prodigiosa, de tantas maravilhas lhe concedesse a simplíssima graça de a fazer morrer bem velhinha, deixando neste mundo os seus dois filhos... os seus dois únicos filhos! 

Tinha caído a noite. D. Catarina procurou reagir. Acendeu a lâmpada, compôs na alcova próxima as roupas e as camas dos seus rapazes. Para quê? Eles não viriam ... mas era um hábito, e ela obedecia com submissão a todos os seus velhos costumes. 

Ergueu depois a vela à altura dos retratos deles, que se destacavam na parede caiada, em dois quadrinhos moldurados de veludo escuro. 

O mais velho era um soldado garboso, claro e bonito como o pai, de olhos rasgados e peito franco e largo. 

O outro, ainda muito novo, puxara ao tipo da mãe: era magro, trigueiro, de rosto comprido e lábios simpáticos. D. Catarina beijou ambos com igual ternura, confundindo-os no mesmo enleio e no mesmo cuidado. Voltou depois para a saleta, abrindo os ouvidos aos rumores de fora... 

Que estranho rumor seria agora aquele que percebia ao longe, no ar imóvel da noite? Fincou o olhar na treva. Ninguém! A estrada devia estar deserta. Tornou a entrar e foi sentar-se a um canto, com os cotovelos pontudos firmados nos joelhos e o rosto sumido entre as mãos. Caíra por fim numa atonia que lhe amolentava o espírito e petrificava o corpo; nem um leve estremecimento lhe agitava os músculos. Permaneceu por longas horas em igual postura, olhando para o mesmo ponto. 

A pouco e pouco ideias desencontradas foram nascendo e fugindo simultaneamente no seu cérebro de devota extinta. Deus e o diabo surgiam juntos na mesma luz indecisa que se esbatia em sombras, que mudava e que desaparecia. Santa Catarina, sua patrona, a virgem douta, vinha também, na sua nudez pálida de martirizada, atravessar-lhe a mente num clarão frouxo e frio. E depois outros santos, e grandes heresias, procissões fantásticas, mal definidas, indeterminadas, arrastavam-se lentamente, mudando de feitio e mudando de cor, esfacelando-se, extinguindo-se... 

D. Catarina permanecia surda a todas as bulhas exteriores, numa abstração de louca. O rumor recrudescera, recrudescera e avizinhava-se. Os estalidos da fuzilaria crepitavam já perto. De vez em quando ribombava o canhão, atroador, medonho. 

O solo e as casas tremiam então, abalados pelo estampido que o eco repetia em ondulações soluçadas. O clamor da guerra abafava tudo, terrivelmente, dolorosamente! 

Entretanto, alguém vinha pela rua solitária, batendo a calçada com passos apressados. D. Catarina, prostradíssima, continuava em igual postura, olhando para o mesmo ponto... Bateram; ela então, acordando daquele marasmo de extenuada, ergueu-se de chofre e correu para a porta. 

O coração saltava-lhe em ímpetos violentos, sufocadores. – Meu filho!

Era o João, o mais velho, o soldado. A mãe estendeu-lhe os braços, sorrindo, enlevada, numa grande ventura. Ele não respondeu ao afago; e pálido, abstrato, sem ter nem mesmo levado a mão respeitosamente ao boné, foi direito à mesa e apoiou-se nela, deixando-se cair numa cadeira. 

– Como você vem sujo de pólvora e como está cansado! Meu adorado filho, que medo que eu tinha! Agora fico pensando no outro...

o meu Pedrinho... você sabe dele? 

João voltou-se para a mãe com ar espantado. 

– Diga, você viu seu irmão? 

O soldado não respondeu; fixava a mãe com olhar parvo, muito aberto, como se não compreendesse o que ela lhe dizia. Vinha fugido, com a farda rasgada, aberta no peito, as mãos negras de pólvora, o rosto transtornado. 

D. Catarina apavorou-se. Estaria doido, o João? Ameigando a voz ela pediu-lhe que repousasse e ofereceu-lhe de comer. 

Que não; respondeu ele com um gesto. 

– Então... 

O espírito da mãe clareou -se de repente: o filho vinha só para dizer-lhe: vivo! E, já com medo de tornar a perdê-lo, instou para que fosse descansar. 

– Não posso... venho fugido. 

D. Catarina relanceou a vista por toda a sala, procurando esconder o filho, receosa de que o vissem de fora. 

– Não quero esconder-me, tornou ele, percebendo-lhe a intenção; eu volto para lá... Eles conseguiram vir a terra... temos lutado muito!

– Os revoltosos desembarcaram? 

– Sim. 

– Então você viu Pedrinho? 

João abaixou afirmativamente a cabeça. 

– Nossa Senhora! por que é que o não trouxe? 

O soldado calou-se, suspirando baixo. A mãe repetia as perguntas, atropeladamente: 

– Diga! diga! ele falou com você? está bom? não o feriram? Meu filho! que saudade! Ele é tão fraco... é preciso que ele venha; quero os dois aqui, vá buscá-lo... Não, não! eu nem sei o que digo... Espere...

vou eu! 

De repente D. Catarina estacou diante do rosto mudo e pálido do filho. Parou-lhe o coração no peito. 

– Por que é que você não diz nada? O mesmo silêncio contrafeito.

– Responde, João! Pedrinho está vivo?! 

A palavra custava a romper por entre os lábios do soldado, e foi ainda com um aceno de cabeça que ele disse que não. 

D. Catarina caiu de joelhos com as mãos juntas. – Misericórdia! misericórdia! mataram meu filho! 

Depois, erguendo-se, exigiu do outro que lhe dissesse tudo, e instava: 

– Quem foi que o matou? você não viu? por que não defendeu seu irmão? Diga, quem foi que o matou, diga, diga! 

João olhou para a espada, que lhe pendia do lado batendo-lhe na perna. 

A mãe não entendeu e repetiu: 

– Meu adorado Pedrinho! mas você não fala, João! Diga quem foi que o matou, diga tudo! 

– Fui eu... 

D. Catarina recuou espavorida; depois, avançando para o filho, bateu-lhe no peito, bem sobre o coração e bateu-lhe na cara, muitas vezes e com muita força. Toda ela vibrava na convulsão do desespero, e a voz, que a dor tinha desafinado e enrouquecido, uivava e rugia a um tempo, como um cão que se lamenta ou uma fera que ataca. 

– Maldito! matar seu irmão! você, que mamou nos mesmos peitos, saiu do mesmo ventre, nasceu do mesmo amor! amaldiçoado... Caim! 

D. Catarina esmurrava o próprio corpo, à proporção que falava; e o filho ouvia-a calado, trêmulo. A mãe teimava por arrancar-lhe uma palavra ao menos e repetiu num desespero: 

– Diga tudo, maldito. Por que foi que você o matou, por quê? 

– Pela pátria! 

– Pela pátria! repetiu ela, rindo, raivosamente. A pátria sou eu! Eu que sofri, e que só vivia do vosso amor! Isto não é guerra por amor da pátria: eu sei o que dizem por aí. Eu sei! Infame, maldito... some-te da minha vista, Caim! Caim! 

D. Catarina caiu sem um soluço. João levantou-a, fê-la voltar a si e, de joelhos, chorosamente, contou-lhe tudo. Matara o irmão na treva, na desordem da luta, corpo a corpo. Por que viera o Pedro para ele com tanta fúria e arreganho? Matara quem o queria matar, defendera-se...

porque, jurava, só conhecera a voz do irmão ao ouvir-lhe o ai derradeiro. Foi então que, procurando fixá-lo, viu-o deitado de costas, com os braços abertos e o peito estreito arquejando no desprender da vida. 

D. Catarina repetiu: 

– Amaldiçoado! 

João concluiu: viera despedir-se da mãe, pedir-lhe que lhe perdoasse... Mais nada. Voltava para o combate. 

A mãe não procurou retê-lo, e ele saiu chorando. 

O soldado não voltou à casa materna... 

D. Catarina começou a perdoar-lhe quando teve medo de perdê-lo. 

Um dia, já muito sobressaltada, saiu para ir buscá-lo, num alvoroço, sem saber como perguntar por ele; mas logo no meio da estrada esbarrou com uns soldados que lhe disseram cruamente a verdade: o João tinha sido baleado e fora levado com outros, num montão de cadáveres. 

O dia estava sombrio, uma manhã cinzenta e chuviscosa. Os soldados passaram. D. Catarina ficou imóvel, com os olhos na onda verde que vinha desfazer-se na escumilha fofa da espuma, à beira do caminho silencioso. 

Ela tinha-o amaldiçoado... lembrava-se só daquilo. O João estava decidido a morrer... fora-lhe solicitar o perdão e só tinha ouvido em troca as palavras: 

– Maldito! Caim! 

O vento agitava-lhe o xale preto, que se abria em asas de corvo, e D. Catarina, alongando a vista, julgou ver ao longe os espectros dos filhos, com os braços hirtos, muito erguidos para o céu inclemente e as bocas articulando sem voz, num esforço medonho: 

– Pela pátria! Pela pátria! 

Batendo então com as mãos fechadas no peito fundo, D. Catarina, no seu egoísmo materno, respondeu-lhes, gritando em arrancos de louca: 

– Calai-vos, ingratos! A pátria sou eu! sou eu! sou eu!