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7/14/2019

O tio da Escócia (Conto), de Lúcio de Mendonça



O tio da Escócia
(A meu irmão Cândido Drummond)
Eu — sem modéstia e sem pesar o declaro — bem sei que não possuo o que propriamente se chama um nome literário, posto que tenha frequentado os prelos com uma assiduidade de que, sem dúvida, se hão de lembrar, em tempo, os meus biógrafos.
Não é que também não conte as minhas glórias; conto. Uma tarde na roça, ouvi uns versos meus recitados por um bando de moças a passeio por uma alameda. Se bem me lembro, já tenho uma ou duas descomposturas do "Apóstolo" e de outra folha católica. Enfim, com algum esforço, e revolvendo bem o passado, podia ainda enramar outros louros. Pois bem: valesse muito mais o meu nome que eu sem pena o trocaria, como hoje.
A explicação deste ato encontra-se numa notícia há meses divulgada pela imprensa: — na Madeira, naquela ilha com que todos simpatizamos pela sua exportação engarrafada, estavam-se habilitando herdeiros de uma fortuna colossal, deixada por João Drummond, um fidalgo de sangue real, um emigrado político da Escócia.
Ora, este homem ilustre era, nem mais, nem menos, tio deste que se tinha por obscuro plebeu. Eu já sabia, por tradições de família, que me girava nas veias o heroico sangue escocês. A verde Erim! já, muito antes da herança, eu estremecia de orgulho filial imaginando que ainda provinha daquela raça de bardos montanheses; e, como bom descendente de Ossian, tinha um fraco pelos nevoeiros. Hoje não! vejam os senhores bardos se têm outro descendente! olha quem! uns miseráveis, que talvez fossem até salteadores! Nós descendemos dos Drummond, senhores de Stogbal na Escócia. Puro sangue real! Se não fossem certas prevenções, que nos ficaram dos nossos tempos de plebeu e republicano escrevíamos ao imperador chamando-lhe primo. E isto mesmo com certa generosidade: o nosso sangue é muito mais azul: da casa de Bragança dizem umas coisas, que nunca se atreveram a murmurar da nossa, de que Walter Scott fala tantas vezes.
Mais do que nós, porém, que ficamos olhando o vulgo muito de cima, aproveitou com a notícia um parente nosso, cuja história aí vai, para maior glória da família.
É um rapaz gordo e forte, e chama-se Marcelo. À noite, parece ter trinta anos; à luz do sol, quarenta. Passou por todas as academias da capital, mas nunca passou disso; ultimamente era revisor de provas num jornal e, nas horas vagas, colaborador de várias confeitarias, seção "balas de estalo". Vestia-se invariavelmente de preto, e era modesto como um prólogo.
Este rapaz sempre teve a previsão da riqueza. Lia todos os testamentos no "Jornal"; só se apaixonava de herdeiras; e, sentindo uma preguiça superabundante, dizia à mãe: — Veja bem, que eu com certeza tenho sangue nobre.
Pelos fins do ano passado, a paixão de Marcelo era pela filha de um titular da capital. O pai, cujo apego às apólices não há quem não conheça, nem desconfiava de que lhe cantavam os melros, todas as tardes num caramanchão do jardim.
 Diga-se, para esclarecimento dos fatos, que Marcelo era um rapagão, e a namorada uma corujinha, que, se não, fossem as apólices paternas, havia de se resignar aos sobrinhos.
Corriam assim as coisas quando, uma clara manhã, leu Marcelo na "Gazeta" a notícia da vertiginosa herança do tio escocês. Logo depois do almoço foi visitar a avó, de quem obteve em conversa a genealogia da família; mas não se falava do ascendente mais glorioso.
— Diga-me, atalhou Marcelo, não tivemos parentes na Madeira?
— Tivemos, sim, e ainda temos. Hoje, os Tristões...
— Sim?! a senhora afiança-me isso? E nunca ouviu falar, num parente nosso que veio da Escócia?...
— Pois não! isso mesmo! um emigrado...
Marcelo saltou na cadeira e saltou ao pescoço da velha:
— Estamos ricos!
Leu-lhe a "Gazeta"; conversou-se ainda muito a respeito do grande homem; elogiou-se a honestidade da lei inglesa, que deixa jazer por tantos anos uma herança; e, quando saiu, levou Marcelo cartas e papeis velhos de família, por onde se provava, pouco mais ou menos, o seu direito aos brasões e às libras esterlinas do emigrado.
Essa noite, no colóquio do caramanchão, perguntou à menina das apólices:
— Que dirias tu, se te propusessem um noivo de sangue real?
Ela fez-se modesta; isso não era para ela; e estava bem satisfeita com o seu.
— Pois o meu sangue é desses!
A outra não compreendeu bem o alcance da notícia, e admirou-se menos do que convinha à magnitude do caso. Marcelo insistiu e explicou; em suma, aquilo vinha abrir-lhe a porta da sala, a ele que só conhecia a do jardim: já se animava a falar ao papai.
Espalhou-se a nova, e no outro dia Marcelo era interpelado a cada esquina:
— Tu também és parente?
— E dos mais próximos!
— Então, milionário?!
— E nobre; acrescentava ele, levantando os colarinhos à altura da situação.
E aos que ainda não sabiam era o primeiro a dizer que descobrira ter sangue real. Um malévolo perguntou-lhe se isso vinha de Pedro I.
— Muito acima, corrigiu Marcelo sem compreender. Vem da Escócia. Não leste a "Gazeta"?
Entraram a surgir-lhe parentes por todos os lados, em todas as classes — na magistratura, no comércio, no magistério, nas letras, na indústria, na política, na diplomacia. Eram apresentações todos os dias. Por uns e por outros, chegou a ser apresentado ao pai da menina, o qual lhe ofereceu a casa.
Iam de vento em popa as suas esperanças. Já se via em Botafogo e no Catete, numa sala de decoração severa, e antiga, onde passavam fâmulos de libré, a passos que os tapetes amorteciam; ou, voltando do teatro, no fundo de um "coupé" brasonado, rolando surdamente, enquanto lá fora faiscavam as ferraduras das parelhas e os plebeus voltavam a pé, com as mãos nos bolsos e as golas levantadas.
E vinham depois os bailes do Cassino, o Jóquei-Clube, os passeios à Tijuca, os verões em Petrópolis. E que horizonte político! uma cadeira na Câmara, o coleguismo das notabilidades, e, mais tarde, a curul do Senado, o direito de sentar-se ao lado de Otaviano e de pedir pitadas ao Sr. Abaeté e oferecer outras ao Sr. Jaguari, que não as dá.
Tinha também a ideia de proteger as letras, favorecer a empresa do "Cenáculo", alcançar uma comenda para o Artur de Oliveira e uma pensão ao Ferreira de Menezes para escrever mais a miúdo e outra ao C. — para nunca mais escrever! E, para mostrar-se bem do seu partido e da sua.classe, maquinava tomar a assinatura do "Apóstolo"; e, se o apurassem muito, era homem para uma conferência na escola da Glória: para a fazer e, até, para a ouvir!
Chegou a achar que era uma afiança desigual a, sua com a corujinha das apólices, e pensou vagamente em uma formosura real, cujo retraio vira na almanaque de Gotha, princesa da Dinamarca; mas isso não deixava de ser complicado; demais, conservava ainda alguns preconceitos democráticas: optou pela fluminense.
Uma noite, apresentou-se ao titular, com bom padrinho, e obteve a mão da namorada; mas o homem, pelo seguro, impôs que o casamento fosse depois de recebida a herança. O herdeiro dos Drummond saiu desconsolado; acudiu-lhe, porém, uma esperança: conseguir logo da menina o que a prudência paterna adiava. A primeira vez que se viu a sós com ela, disse-lhe que não podia esperar tanto pelo casamento, que o pai o ofendia duvidando do seu direito, e insinuou perversamente que era capaz de levar a outra os seus brasões.
Procurou também deslumbrá-la com a exibição do seu rico futuro: podiam ir morar para a.
Escócia, um país de legenda, um castelo antigo entre os rochedos, entre a vegetação fantástica dos alamos e dos pinheiros, ouvindo à noite gemer a alma dos heróis nas lástimas do vento.
Ela achou bonito, com a condição de se pintar de novo o castelo, e de pinhões não queria saber: sempre ouvira dizer que era muito quente; quanto aos fantasmas, podia-se fechar a janela.
Mas uma coisa ficou-lhe — a possibilidade, que ele mostrou de vir a ser conde. "A Sra. condessa!", "a condessa de Stogbal!" já via os esplendores do seu luxo e a inveja das amigas. Lembrava-se da sua viagem à Europa, logo que saíra do colégio, e imaginava-se outra vez a bordo, nas tardes do tombadilho, na vasta alegria do mar, comendo ameixas passadas, sua gulodice predileta. E via-se chegando aos seus domínios, esperada no seu castelo, caminhando entre alas de velhos lacaios de libré; e havia de ter aias inglesas, asseadas e discretas, e uma música suave, como a banda dos alemães do Passeio, que tocasse todas as tardes no pavilhão do jardim...
Não, positivamente, já não podia ser menos que condessa na Escócia; cumpria casar, e já, para que outra não fosse condessa com o Marcelo.
É um velho recurso muito explorado e sabido, mas ainda assim infalível com os pães de coração fraco: amuou dias inteiros, sem comer ou comendo às ocultas, e chorando como quem não tivesse mais que fazer. Não havia meio de a consolar, senão dar-lhe Marcelo; deu-se-lhe. Assim casou, há meses, este meu parente, primeiro que desfruta o tio da Escócia.
É hoje outro homem: não entra nos cafés onde almoçava "de assobio", nem passa pelas lojas de roupa feita da rua do Hospício; foi admitido ao Grêmio do Bernardo, e já tem assinatura de camarote para a Companhia lírica a chegar. Breve o temos na Glória. E vá se preparando o "Apóstolo" para o milagre de mais um assinante.
No baile do casamento, foi visto a conversar com um ministro: suspeita-se-lhe a intenção de representar a nação por Mato Grosso ou Goiás, ou de ser lente substituto na Escola Politécnica, lugar para o qual está provado que se não exige nem exame de francês.
Projeta uma economia que talvez o leve ao ministério — suprimir, a pasta da marinha. E nas horas vagas, que são hoje todas as suas horas, inventou um jogo em que se procura, não onde está o gato, mas onde está o barrete frígio de certo jurisconsulto.
Tal era o homem que se perdia na obscuridade da pobreza e na ociosidade dos cafés, por falta unicamente de uma herança. Bastou-lhe a notícia de uma, ei-lo elevado à altura do seu destino.
Encontrou-se comigo, há dias, na rua, e já não me conheceu, esquecido, tão cedo, de que toda a prosperidade lhe veio do nosso tio comum. Deixa-te estar, vilão, que também, há de chegar o meu dia; já a esperança, a musa profética, mais doce que o mantuano, segreda-me na hora dos sonhos: "Tu Marcellus eris" Também nós seremos gente, e nutriremos na alma cívica a aspiração generosa de ir salvando a pátria a cinquenta mil réis diários.
Até lá perdoai-me, ó manes do meu rico tio, e fazei com que venha a mim, sem demora, o meu quinhão dos brasões e mais das libras, principalmente das libras, de nossa ilustre casa!
Rio, junho de 1878.

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Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854-1909)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Lágrima perdida Conto), de Lúcio de Mendonça



Lágrima perdida
(A Urbano Duarte)

Somente quem nunca esteve na vila fluminense onde se deu o extraordinário caso pode ignorar a história do Rafael ourives. Também, a história do coitado resume-se no fato que lhes vou contar: o mais de sua vida obscura apenas tornou-se conhecido e falado depois que se iluminou com este acontecimento notável.

A modéstia do meu pobre herói começa já pelo nome: chamava-se unicamente Rafael, sem nenhum apelido de família; ourives, acrescentavam alguns, sem cuidar que assim lhe estavam declarando um belo título de nobreza, conferido pelo seu trabalho, pela sua profissão, que, tão bem exercida, se tornara de simples ofício verdadeira arte. Rafael ourives era, de feito, um artista: rimava o ouro com o diamante como Gautier lapidava a estrofe; compunha braceletes que fechavam bem como sonetos de Petrarca; há um broche dele tão rico e cintilante que é ver uma página das Orientais.

E era ourives mascate; levava, triste rapsódia, de povoado em povoado os seus poemetos de ouro e pedraria.

Quis a má fortuna que aquele coração peregrino se agrilhoasse no cativeiro de um amor forte; enamorou-se o rapaz de uma criaturinha anêmica e desengraçada, primeiro e fútil pretexto que a sua imaginação de artista por desgraça encontrou para encarnar o formoso ideal que o enamorava.

A menina — chame-se Laura que é nome romântico — tinha por pai um português cheio de senso pratico e de cálculos exatos; compreendia muito poucas coisas, mas de tudo o que menos compreendia era genro pobre. Ora cumpre dizer que Rafael não teve tempo de informar-se das opiniões do burguês antes de achar encantadores os olhos da filha: mais culpada foi ela, que, de,vendo conhecer o bom do pai que tinha, alimentou com fartura de olhares e sorrisos o infeliz amor ainda implume que, com isso, criou asas. Asas tão atrevidas que Rafael, em poucos dias, foi ter com o pai da moça e pediu-lha em casamento. Aí é que foi uma cena triste para o namorado; o homem respondeu-lhe, com um risinho brejeiro que era muito seu:

— Meu caro Sr. Rafael, eu sou homem de negócios francos: a menina já me foi pedida por um moço do comércio, bem encarreirado, que tem de seu uns dez contos e ha de vir a ter mais um par deles por morte da mãe, a qual, se Deus for servido, não pode tardar muito... O senhor desculpe a sinceridade... eu sei que a menina lhe quer mais que ao... mas na minha posição de pai e homem que conhece a vida, bem vê que não posso deixar de perguntar-lhe... de quanto dispõe o senhor?

Rafael empalideceu de indignação e perguntou-lhe, mal contendo a ira que o engasgava:

— E a Sra. D. Latira pensará como o senhor?

— Nesses negócios penso eu por ela, meu caro amigo!

— Acha então que é apenas um negocio?!

— Mais importante que alguns outros, é só a diferença.

— Está claro, o senhor é sectário da doutrina do casamento em concurso; por outra, é pai leiloeiro; entregará a filha a quem mais der.

— Pois, senhor, não conte comigo, que sou mau licitante.

E voltou as costas ao riso amarelo com que o outro o escutava. Quem pudesse ouvir o doloroso monólogo que ele ia revolvendo no espírito perceberia, pouco mais ou menos, isto:

— Dez contos de réis e mais a herança materna! não tenho tanto dinheiro! E o mais? — a minha vida, cheia de privações, mas sem uma única vergonha, o meu talento, a minha arte?... que me vale tudo isto? o que ele quer, o que ele conhece, é o dinheiro. E a Sra. D. Laura pensará como o senhor? perguntei-lhe; devo também perguntar-lho, a ela. Antes disso, nem a posso julgar com justiça, nem decidir com prudência o que hei de fazer de mim.

Mas, depois do que ouvira e dissera ao pai de Laura, não podia voltar à casa dele; não queria, tão pouco, escrever à moça: nunca lhe tinha escrito, nem sabia escrever que prestasse; demais entendia que era mal feito dirigir-lhe carta: — esperou que ela fosse a uma casa do seu conhecimento, onde poderiam conversar francamente. Só oito dias depois, foi Laura uma tarde, à tal casa.

Rafael entrou pouco depois dela. Conversava-se na sala de visitas; a filha do burguês, como se tratasse de costuras, dizia como e porque ia casar, daí a dois meses, com o Sr. Luizinho do armazém:

— Meu pai quer, e eu aceito, acabava de dizer, quando Rafael entrou, depois de estar parado porta algum tempo, ouvindo as frases banais com que a menina sem coração ingenuamente o apunhalava.

Laura, quando viu o namorado, assustou-se como uma criança apanhada em flagrante travessura, e corou vivamente.

 — Peço desculpa, balbuciou Rafael, não pensei, que viesse surpreender uma conversa íntima... Mas D. Laura não tem de que ficar assim, envergonhada... é tão natural casar, na sua idade.

Cumprimentou com um modo digno e triste, e sentou-se; conversou pouco, — a conversa geral esfriara com a sua entrada, — e, ao despedir-se, declarou que se despedia para uma viagem de muitos anos, talvez para sempre.

— Para onde vai? perguntou-lhe a dona da casa.       

— Por esse mundo fora, respondeu, e saiu! todo enleado.   

Quando chegou à estalagem onde estava hospedado, encontrou um moço que o esperava. Era! o Sr. Luizinho do armazém.

— Eu vinha encomendar ao Sr. Rafael que me fizesse uma joia bem bonita; pode ser... Não tem pressa; basta que fique pronta nestes dois meses: é para dar de presente a minha noiva, no dia do casamento... Quero coisa aí para cento e cinquenta, are duzentos mil réis, quando muito...

— Não senhor, atalhou Rafael, não posso: faço viagem amanhã e não volto.

— Mas a Laura queria mesmo que a joia fossei feita pelo senhor...

— Já disse que não faço, que não posso, que não quero. E passe bem; tenho mais, que fazer.

Deixou o Sr. Luizinho pasmado na sala e entrou para o seu quarto.

***

Estava, enfim, só. Sentia uma constrição na garganta; tinha vontade de chorar, de blasfemar. A sorte oprimia-o, indignamente. Dizia-lhe a consciência que era um rapaz honesto, laborioso, cheio de boas intenções; dizia-lhe o coração — dizia-lho em tumultos desesperados — que amava imensamente, e não o amavam nem compreendiam. Outro, bom rapaz, talvez, honrado e trabalhador também, mas estúpido e feliz, ia receber, sem exaltação nenhuma, com uma naturalidade idiota, a ventura transcendente, que a ele o endoideceria de júbilo! E ela também, que alma pequenina! com que facilidade o sacrificava! Só se lembrara dele para desejar que lhe fizesse uma joia para o dia do casamento; sugestão de vaidade, não de amor. Afinal, mostrava que merecia bem o marido que lhe impunham.

Instintivamente olhou-se a um espelho que pendia da parede, defronte; assustou-se do seu próprio olhar, tão sombrio era. Que cara de réprobo! e a angústia, a febre e o ciúme dos últimos dias escaveiraram-lhe o aspecto, já de si pouco formoso; emagrecera como um naufrago num rochedo isolado; o rosto todo anguloso, estava devastado; os olhos, que tinha azuis e esplêndidos de vivacidade, luziam sinistramente, encovados; queimava-lhe os lábios um sorriso irônico e mau. Não estava, com certeza, menos feio que o Gilliat depois da salvamento da Durande, maltrapilho, flagelado dos ventos, sugado pelas pústulas vivas da pieuvre, coberto de chagas irritadas pelos beijos da onda acerba.

Meditando da tristeza do seu destino, que se antulhava ermo e desconsolado, lembrou-lhe, de improviso, que desde criança guardava, com inviolado segredo, uma dádiva misteriosa, que sua mãe lhe entregara, coma mão já fria, no leito de morte. Era um cofrezinho quadrado, envolto em papel branco, lacrado, com esta inscrição em caracteres miúdos: Lembrança de tua mãe, para só abrires um mês antes do teu casamento. Respeitara até ali, fielmente, a recomendação materna; muitas vezes sofrera necessidades de dinheiro, estreitas necessidades, e imaginara que aquilo podia ser algum objeto precioso; mas nunca se resolvera a rasgar-lhe o invólucro: fora uma antecipação, que se lhe afigurava sacrílega. Demais, pensando bem, que valor podia ter em moeda a dádiva de sua mãe, que morrera tão pobre?! É certo que o pai, garimpeiro feliz da província de Minas, fora em outro tempo, senhor de bons haveres; mas dissipara em jogo desenfreado todos os bens da fortuna aventurosa, e um dia, achando-se roubado na última importante parcela de sua riqueza, um fabuloso diamante, que até então conservava bem guardado, suicidara-se covardemente, deixando ao desamparo a viúva e o filho ainda infante. Mas naquela tristíssima noite, desenganado para sempre, vendo fechado em trevas todo o futuro, assentou Rafael desvendar o segredo de tantos anos, depois de haver assim raciocinado consigo.

Ou abro agora a caixinha ou nunca mais, porque eu, decididamente, já não caso.

Avivou a luz do lampião que ardia no quarto, e tirando de uma canastrinha de viagem o misterioso guardado, rompeu comovido, o envoltório de papel amarelecido pelo tempo; achou uma caixinha de veludo roxo, abriu-a... Teve um deslumbramento! era um tesouro esplêndido, um diamante enorme, fascinante, incrível, o maior que já encontrara, ele que muitos e riquíssimos tinha visto! Tomou-o na mão tremula, mirou-o à luz: cegava; era uma pedra magnífica, sem falha, sem jaca, rutilante maravilha!

— Estou rico! exclamou atônito. Era este o diamante que tantas vezes ouvi dizer que foi roubado a meu pai, e cuja perda lhe custou a vida! E acrescentou, chorando no intimo da alma: — Deus te perdoe, minha mãe, a tua santa,culpa! bem caro paga hoje teu filho o desvario de teu amor: é inútil este tesouro: eu já nada ambiciono do mundo; conheço-o; é para os estúpidos e maus; é para o Sr. Luizinho; é para Laura... Esses hão de casar e ser felizes... Felizes?! e por que não? E eu que amo ainda tanto! tanto! misero de mim!

Escondeu a face nas mãos e rompeu em soluços convulsivos.

***

Três dias correram sem que Rafael saísse do quarto, onde esteve fechado, noite e dia; na terceira noite, ordenou ao criado que lhe foi levar o chá:     

— Diga a seu amo que preciso falar-lhe sem demora. 

Daí a nada entrava o estalajadeiro, e o ourives lhe dizia:

— Parto amanhã de madrugada; faça o favor de ver a minha conta.

— Amanhã!... Mas o Sr. Rafael a modo que está doente...

— É o que lhe parece; não tenho nada. Veja sem demora quanto lhe devo; ainda tenho muito que fazer hoje.

O homem saiu com a morosidade que entendia ser de boa delicadeza quando lhe pediam a conta, e pouco depois voltava com o quarto de papel garatujado e o apresentava ao freguês. Este leu a soma, pagou sem observação, e disse, fitando em face o negociante:        

—Agora, por despedida, quero pedir-lhe um favor.

— Dois ou três, Sr. Rafael.

— Esta caixinha é uma pequena encomenda do Sr. Luizinho do armazém; já está paga; queira entregar-lha em mão, amanhã mesmo, com esta carta. E boa noite!

— As suas ordens hão de ser cumpridas pontualmente. E agora até quando?

— Até breve; talvez para a semana... Boa noite!

— Pois boa noite, e boa viagem!

***

No outro dia, estava o Sr. Luizinho no armazém, que lhe dava a alcunha, quando o estalajadeiro veio ter com ele.

— Ora viva o Sr. Luizinho!   

— Bom dia... Sente-se, que estou muito ocupado agora; ando às voltas com os tais papéis do casamento... Olhe que é uma campanha!

— E quando é isso?

— Sábado... se não chover.

— Pois o que aqui me traz não tem demora: o Rafael ourives...

— Sim!... Que sumiço levou esse malcriado? Olhe que outro dia estive para lhe dizer boas...

— Fez viagem esta madrugada; ficou de voltar p'ra semana. Venho mesmo a mandado dele.

— Ahn!              

— Deixou comigo, para lhe entregar, a sua encomenda, com uma carta.

— Eu não fiz encomenda nenhuma; estava-a fazendo... e até o desabrimento dele causou-me bem bom transtorno... Mas enfim, deixe ver isso.

Deu-lhe o estalajadeiro a encomenda e a missiva. Luiz abriu curioso a carta, relanceou por ela os olhos e meteu-a no bolso, fazendo-se circunspeto:

— Nunca pensei que o homem tomasse a sério a minha encomenda: foi uma loucura, das de noivo, sabe? mas, agora que está feita, é tratar de ser bom cavalheiro.. Olhe só o presente de casamento que vou dar a minha noiva. Já viu algum dia joia mais rica, hein? 

O estalajadeiro ficou boquiaberto diante da maravilha que, sem saber, trouxera ao outro.

Obra-prima de ourivesaria e prodigalidade como um príncipe poderia ter! era um alfinete de peito original e preciosíssimo: uma grossa lágrima de brilhante gotejando de um punhalzinho de ouro.

— É rico, sim senhor; mas é esquisito, homem! assim à primeira vista parece um punhal com uma lágrima... e é que é mesmo, é...

— É uma lágrima, não tem dúvida, mas olhe que vale mais que todas as da senhora Madalena arrependida, mais que todas as lágrimas do mundo! Nem calcula o dinheirão que isto me custa... contos de réis, homem!

— O Rafael disse-me que já estava pago. O Sr. Luizinho meteu-se então em funduras...

— Homem, não: isto era uma dívida perdida; o sujeito pagou-me com este brilhante. Podia ser pior.

— Isso agora é outro cantar. E quem lhe diz que o brilhante não é falso?

— Bem pode ser, não digo que não; mas como eu já não contava com a tal dívida, tudo serve.

Despediu-se o estalajadeiro e saiu. O Sr. Luizinho leu segunda e terceira vez a carta; não entendia nada! dizia assim:

"Sr. Luiz. — Lembrei-me da encomenda que me fez e na ocasião não aceitei e envio-lhe este alfinete de peito. Qualquer ourives daria por ele cinquenta contos de réis; mas não deixe de o dar, em seu nome, à sua noiva. E estime-a e respeite-a, faça-a feliz: é este o preço por que lhe vendo a joia. Pode dizer a sua mulher que o trabalho foi meu, como ela queria; mas exijo que não diga nunca, nem a ela, nem a ninguém, como obteve isto. Queime esta carta. — Rafael."

— Seja como for, aceito muito calado, que não sou tolo, resolveu o Sr. Luizinho. E faço um figurão. Mas pelo menos, devo convidar para o casamento o maluco do rapaz que se mostra tão interessado (cinquenta contos de réis!) em que a Laura seja feliz... Há de se cuidar disso, meu caro, pode ficar descansado.

Dissera-lhe o estalajadeiro que a ausência do ourives era por uma semana; adiou o casamento à espera dele; chegou a lembrar-se de o convidar para sua testemunha; mas passou-se a semana, passou-se um mês e Rafael não veio: celebrou-se sem ele o ato.

Na ocasião de irem para a igreja, o Sr. Luizinho ofereceu a joia a Laura, dizendo-lhe que fora, segundo o seu desejo, encomendada ao Rafael; a moça, fascinada de tanto esplendor, abraçou com efusão o noivo:

— Oh! agradeço-lhe muito! muito! nunca vi brilhante tamanho nem tão bonito!... A ideia do punhal, e da lágrima é que foi infeliz e imprópria ... Só mesmo daquela cabeça...

Durante toda a festa, a joia foi objeto de geral admiração e manifesta inveja; as más línguas da terra chegaram a rosnar coisas feias a propósito de tão rico presente dado por quem não possuía muito; mas foi voto unânime que era um esplendor o alfinete da noiva, e o nome do artista andou de boca em boca. O mais maravilhado foi o pai de Laura; mas, suspeitando algum mistério criminoso, achou prudente nem se por com grandes admirações.

Correram anos e anos; o casal teve muitos filhos; e Rafael ourives nunca mais voltou, nem nunca mais se soube dele.      

Rio Bonito, Dezembro, 1877.

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Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854-1909)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

12/04/2017

O hóspede (Conto), de Lúcio de Mendonça


O hóspede
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Ele aí está, que o diga o Oliveira, aquele rapagão de bigode louro e olhar azul, que viajou como caixeiro de cobranças, "cometa", e hoje é repórter. Por sinal que foi a última viagem de cobrança que fez, e de tão horrorizado mudou de vida e profissão. Foi ele mesmo quem me referiu o caso. Aqui o dou pelo custo, sem nada meu.
***
Ao cair de uma tarde chuvosa de março, chegava o cobrador, extenuado e faminto, a uma vendola à beira da estrada, da longa estrada fastidiosa, pelos campos, que vai de Alfenas ao Machado, no sul de Minas.
Junto à venda havia a casa de morada, pequena, tosca e suja, dum velho casal português, que ali se fixara e vendia os produtos da pequena lavoura, cultivada nas suas terrinhas, e os furtos trazidos à noite pelos escravos da vizinhança.
Pousada, não era costume dar-se ali; Alfenas ficava a uma légua, e os donos da casa diziam despachadamente que aquilo não era hospedaria. Mas, com o Oliveira, o caso era especial: trazia já as suas oito léguas bem puxadas e uma fome de carrapato, e depois, com tanta carga d’água, não havia meio de continuar viagem. Pediu pousada e ceia, pagando eu — acrescentou.
— Ceia, arranja-se-lhe — disse o Zé Manuel, o taverneiro velho; lá a cama é que está mais difícil, que não recebemos hóspedes para dormir.
E com o olhar consultava a mulher, a mulheraça, anafada e pachorrenta, aboborada para dentro do balcão.
— Não, por isso não seja — opinou ela; dá-se-lhe o quarto do Jequim...
— Bem lembrado — concordou o vendeiro; — temos ali assim um quarto agora desocupado, que é o de nosso rapaz, que anda por fora; lá para o Carmo do Rio Claro; tem cama e colchão, que é o preciso para dormir... Se lhe serve...
— Serve, serve — aceitou logo o Oliveira. — E deem-me alguma coisa que se coma; estou morto de fome!
Enquanto se punha a janta, desarretou a besta, guardou os arreios no quarto que lhe destinaram, contíguo à saleta da frente e com janela para a estrada; levou o animal ao pasto, um pastinho fechado, muito perto; e voltou para cuidar de si.
Antes, porém, de sentar-se à mesa, onde já fumegava o feijão com couves e a canjiquinha, pediu que lhe trouxessem uma peneira.
— Uma peneira! ora essa!
— É cá para uma precisão!
Trouxeram-lha, e ele então sacou do bolso das calças um maço de dinheiro em papel, uma bolada de notas úmidas da chuva que apanhara, e estendeu pelo crivo da taquara as cédulas grandes, de duzentos, de cem, de cinquenta mil-réis, uma boa meia dúzia de contos. Passou a peneira para a ponta da mesa a que não chegava a toalha, e entrou a servir-se da ceia no prato de louça azul, com a colher de ferro.
Ao levar à boca uma colherada, surpreendeu à porta da saleta o olhar aceso com que lhe comiam o estendal das notas, a velha portuguesa, que o servia, e o marido, que entrava com uma garrafa de vinho.
Tão cobiçoso era o olhar de ambos, que coou na alma do rapaz um frio de medo e um clarão de pressentimento. Logo, ali mesmo, resolveu acautelar-se, arrependido da imprudência de ter mostrado tanto dinheiro.
Acabando de cear, declarou que muito cedo, ao romper do dia, seguia para Alfenas, e por isso deixava paga a hospedagem; deram-lhe a boa-noite e recolheu, com uma vela de sebo, ao quarto do Joaquim.
Mal se viu só, tratou de ajuntar as notas que espalhara na peneira, tornou a enfiá-las no bolso, e apenas a casa sossegou em silêncio, ali por volta da meia-noite, saltou pela janela com os arreios e a mala à cabeça, foi ao pastinho fechado, selou a besta e tocou para a cidade, ao belo clarão da lua que despontava.
*** 
Nem bem se perdera ao longe o estrupido da besta que levava o cobrador, quando novo tropel de animal soou no terreiro da venda; era outro cavaleiro, que saltou do lombilho abaixo e em três tempos desarreou o cavalo em que veio e com um chupão nos beiços apinhados tocou-o para o campo.
— Diacho! minha janela aberta! — murmurou consigo. — Melhor! entro sem precisar bater e acordar os velhos a esta hora.
E, agarrando-se com o braço direito ao peitoril da janela, saltou para dentro, levando na outra o lombilho, o baixeiro e o freio, e logo tornou a fechar a janela, que o frio não era graça.
***
À alta madrugada, quando começava a amiudar o canto dos galos, dois vultos, cautelosos, sorrateiros, surdiram do interior da saleta da frente; um deles, o mais alto impeliu de manso a porta, apenas cerrada, e penetrou no quarto.
Da cama, ao fundo, ouvia-se a respiração compassada e forte de um bom sono ferrado. Aproximou-se o vulto, guiado pelo resfolegar do que dormia e pela tênue claridade que vinha da saleta, onde o outro vulto, agachado e trêmulo, sustentava e velava com a mão encarquilhada um candeeiro de azeite.
Súbito, no silêncio da habitação, soaram, soturnas, repetidas, machadadas rápidas, uma, duas, três, muitas, regulares a princípio depois desatinadas.
— Anda! traze a luz! — estertorou uma voz estrangulada.
Entrou no quarto o outro vulto, a velha gorda, com a candeia acesa.
Apenas a luz bateu na cama, numa horrível massa de roupas e carnes ensanguentadas, dois gritos sufocados misturaram o seu horror:
— O Jequim!!!
— O filho!! O meu rapaz!!