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5/19/2020

As "Canções desta Negra Vida" (Resenha)


Eugênio de Castro: As "Canções desta Negra Vida"

Dos meus tempos de Coimbra, da lendária Coimbra acastelada num outeiro com sua graça medieva, com sua patina nas pedras das casas acotoveladas nas ruas estreitas, — guardo da convivência com o grande poeta Eugênio de Castro os melhores momentos da minha vida.

Eugênio de Castro mantêm em Coimbra patriciado incontestado entre os rapastes que dos recantos da província deságuam, desejosos de plasmar na velha e douta disciplina universitária a ânsia encantadora do saber e da sensibilidade.

O cenário de Coimbra é maravilhoso e nas imaginações novas, frescas como barro a modelar, o seu encanto sugestivo, afeiçoa as almas, rememora-as e vivifica-as.

Os choupos hirtos marginam o Mondego — uma fita cristalina de águas rumorosas.

Os olivedos vestem a terra do burel pardacento — hábito monástico que torna as colinas místicas, erguendo preces, à hora ao sol pôr, à rosácea decorativa e maravilhosa do céu.

Os recantos de Coimbra são bordados de lenda. As Eras, com seus dedos ágeis e femininos, tangeram os bilros do encantamento e da beleza.

Nenhuma paisagem de Portugal me dá como a de Coimbra, recortada e expressiva, — pedaços luminosos que o passe-partout da nossa imaginação emoldura.

É nesse ambiente de passado vivo, nesse gabinete maravilhoso de trabalho que o poeta Eugênio de Castro vem realizando a sua obra de elevados, espiritualíssimos intuitos artísticos.

Em pleno simbolismo, nunca Eugênio de Castro foi estrangeiro em sua terra. Na sua obra brilha o esmalte policromo da língua, a alma portuguesa canta como flâmula sobre um mastro alto, a doçura lírica, tão da raça, rumoreja o seu rumo discreto.

Entre os desvarios da escola nascente, a sua profunda e sólida educação clássica salva o Mestre e — inda que pareça estranho — sobre o bailado das imagens e dos ritmos, paira um claro pensamento de equilíbrio, um doce e sábio espírito de ordenação e regra.

Eugênio de Castro é um exemplo típico de saúde intelectual, herdeiro de aqueles velhos escritores que, apertados entre as quatro paredes da cela, como operários pacientes, encantados da obra, escreviam ao ritmo da areia, de ouro da ampulheta o memorial de suas almas, fazendo peregrinar os vocábulos sobre o pergaminho, com espírito, com firmeza, com a graça e o donaire.        

Nenhum poeta em Portugal como Eugênio atingiu uma tão máscula e espontânea fidalguia de expressão, dum português encanto.

A nossa língua, sonora e meiga, serpenteia nos versos de Eugênio como fita d'água buliçosa por entre margens verdes, gorjeando.

Brilha e rebrilha em imagens como estranho caleidoscópio, pulsa e geme, desdenha-se em traços nítidos e sóbrios, musicaliza-se em vagos sons de quimera.

Eugênio é o artista a quem a preocupação da forma não esfriou o élan-interior, a labareda da emoção.

O seu novo livro Canções desta negra vida, coloca definitivamente o poeta na clássica, escorreita simplicidade da Arte.

As suas Canções são lenços policromos, são as bandeiras soltas ao vento do lindo arraial da sinceridade. Tremulam aos nossos olhos, são decorativas como panos de arrás, são espirituais e cheias de emoção como boca rosada, a desfolhar-se em pétalas de cantigas.

Ouçam a ternura da Canção do Carpinteiro, tocada de tão humano simbolismo:

Sendo novo, fiz um dia
Um bercinho de embalar;
Quando acabei de o fazer
Sentei-me... e pus-me a chorar...

Anos depois fiz um leito
Para uns noivos lá deitar;
Quando acabei de o fazer,
Sentei-me e pus-me a cismar...

Há dias fiz um ataúde
Para um morto se enterrar;
Quando acabei de o fazer,
Sentei-me... e pus-me a cantar...

E a bela Canção da nobre Pompeia louvor da gata:

Minha pelugem de seda
Vence as ágatas mais belas,
E em meus olhes de esmeraldas,
Passam regatas de estrelas.


A Canção da Oliveira Seca duma toada religiosa, dum enlevo cristão:

Nasci tristonha e sisuda,
Ao invés da laranjeira,
Mas se Deus me não fez bela,
Criou-me trabalhadeira.

Tenho veia de poeta,
Compus ingênuos versinhos,
Louvando Deus nas alturas
Pela boca dos meus ninhos.

Os meus frutos eram negros
Como a sombra duma cruz,
Mas de torturados,
Sendo negros, davam luz.

E a tristeza resignada da Canção da Donzela Envelhecida:

Sá sua carreira o tempo
Tudo leva e desbarata:
Meus longos, finos cabelos
Eram de ouro e estão de prata.

Fanaram-se os jasmins alvos
Que me treparam pelo seio
O espelho em que eu me revia,
Para me não ver, enterrei-o.

E a Canção das três virtudes teologais, com o seu ar sóbrio de apólogo:

Pendentes duma pulseira
E objetos de ostentação,
Somos três berloques de ouro,
Cruz, âncora e coração.

— Eu, cruz, abrindo os meus braços
Ofereço aos pobres guarida,
E, árvore seca da morte,
Dou frutos de eterna vida.

— Eu, âncora, em quieto porto,
Por noites negras, sem luar,
Prendo os barquinhas enquanto
Rugem leões no alto mar!

— Coração, sei quanto tinha,
Tudo dei, à doida, a esmo...
Partindo-me aos bocadinhos,
Vou dar-me agora a mim mesmo...

Uma canção inédita de São Francisco de Assis é um painel dum primitivismo cristão, onde a alma do santo de Assis floresce na universal ternura pelas coisas e pelos bichos. O santo canta o Ouriço caixeiro:

Uma vez vindo da esmola,
Com a alma em Jesus Cristo,
Vi uma coisa a meus pés
Como inda não tinha visto,

Toda eriçada do espinhas
Essa coisa repelia
Pela sua lealdade...
Mas palpitava o sofria!

Sofria... Bastava! Então
Curvei-me humilde; e ligeiro
Do chão ergui nestas mãos
Um pobre ouriço caixeiro.

Agonizava o infeliz
Em tremuras dolorosas!
Beijei-o e picou-me, enchendo
A minha boca do rosas.

Morreu o pobre cm meus braços,
Triste, para mim sorrindo...
Nunca vi um ser tão feio,
Nunca tive um irmão tão lindo!

É assim torto o livro, cheio de emoção e beleza, um bailado de ritmos sobre o tapete bizarro das imagens.

Os próprios títulos tas Canções são sugestivos: a Canção da Mão esquerda, a Canção da Borboleta chamuscada, a Canção do Avisado Craveiro, a Canção das Seis Marias, a Canção da Jumentinha do Presépio, a Canção da camisa do no noivado e tantas outras. O livro termina pela Canção dos meus seis amoras, um pequeno e delicioso poema de ternura filial; em que o admirável poeta que cantou os filhos em admiráveis sonetos,de novo os canta no ritmo breve de redondilha, — linda cantiga para embalar seis quimeras.

Em Eugênio renasce o nosso medievalismo lírico, espelho da Lusitânia, coração de Portugal.

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CARLOS LOBO DE OLIVEIRA
Março de 1923.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).
Ilustração: Correia Dias.

5/16/2020

Uma resenha para Camilo (Resenha)



Uma resenha para Camilo

Por que inspiram em geral as florestas uma suave tristeza? Por que se aninha o anjo da melancolia nos seus recessos umbrosos? Que misterioso condão possuem arvoredos de dulcificar a saudade? Que celeste orvalho se pendura da ramagem entrelaçada, e se deixa cair gota a gota cerrando não, mas suavizando as úlceras do coração? Que filtro mágico se encontra entre carvalhos e cedros, onde se purifica o sentimento, onde a paixão, essa flor cujas raízes se prendem à terra, e cujo aroma voa aos céus, toda se desfaz em místicos perfumes, em enlevos de alma, em divinas aspirações?

Eu quero-me com as árvores, ou com o mar. Vagueando nas alamedas dos castanheiros, sentado nas fragas, onde se quebra a onda, tenho sempre sentido como que um anjo de Deus, que vem pousar de manso a meu lado, trazer-me pensamentos do céu e arrobar-me a alma em êxtases inefáveis, que não me acodem quando os chamo no meio das mais esplendidas paisagens.

A brisa, que agita a copa das árvores frondosas, a aragem, que se refrigera com as úmidas exalações do oceano, têm-me feito reclinar a fronte no seu regaço de tristezas, e têm murmurado ao meu ouvido palavras consoladoras, impregnadas não nas irritantes consolações da terra, mas nesse alívio inefável do céu, que faz com que nos brotem as lágrimas dos olhos, e que as deixa depois deslizarem lentamente pelas faces! Prantos de infinda doçura, pelos quais eu trocaria todas as alegrias do mundo, prantos às vezes sem motivo, e que outras vezes jorram da urna misteriosa, que trazemos oculta no coração, furtando-a à curiosidade banal, e que se chama a urna das saudades!

Saudades! não sabe o que é esse doce e amargo sentimento quem nunca viu a aragem acamar as frondes do imenso arvoredo, nem a solidão do oceano, sem fim, na sua majestosa, na sua sublime monotonia. Não sabe o que são saudades quem nunca escutou os concertos, que a viração forma nos pinheirais, e as melodias que desfere o vento do mar nas ondas, que vão de serra em serra de água perder-se no horizonte.

Eu também o não sabia! Como que pressentira esse gosto amargo de infelizes no meio dos alcantilados verdores de Cintra, mas quando eu, criança ainda, procurava a solidão das alamedas da Penha Verde, a fim de compreender melhor o sentimento que do coração dos poetas trasbordava para os seus livros, não podia perceber as vozes misteriosas, que partiam de cada ramo agitado, de cada folha desprendida, de cada árvore balouçada. Sentia a necessidade vaga de me afastar do mundo, de me soltar dos laços do presente, e de conversar em espírito com as gerações extintas. Evocava a grandiosa imagem de D. João de Castro, pensava nas grandezas de outrora desta nação aviltada, reconstruía na imaginação a cena da leitura dos Lusíadas, e como que me parecia sentir por traz de mim o passo vivo, alegre e desembaraçado do moço D. Sebastião, o pisar leve e astucioso do jesuíta Luís da Câmara, e entrever lá no fundo da alameda o vulto majestoso e venerando do cantor das nossas glórias, de Camões!

Nada mais! Os fantasmas, que se me entremostravam, a não serem estes fantasmas épicos, eram vultos indecisos e encantadores, que começavam a despontar no horizonte do futuro, iluminados pelo róseo fulgor dos sonhos dos quinze anos! Á beira da estrada, que pisava alegremente, não se erguia ainda nem um só túmulo, eram tudo palácios encantados, castelos de fadas, jardins de Armida, dessa gentil Armida, fascinadora personalização de tudo quanto nos enfeitiça neste mundo, de tudo quanto nos prende com flóreas grinaldas, tudo... tudo que é uma coisa só “Amor.”

A saudade, senti-a depois, quando voou para o Empíreo o anjo protetor da minha infância! A verdadeira saudade! A que se não alma, nem se procura aliviar, a que se transforma em culto, a que se não simboliza nessa roxa flor que dura uma estação, mas sim na flor, que se entretece em grinaldas sobre os túmulos, e que se chama perpétua.

Levaram-me à província do Minho os acasos da existência!

Atravessei pela primeira vez o oceano. Debruçado na amurada do navio, vi as ondas estalarem no costado do barco, e soltarem um queixume; ouvi o rugir do leão. Acordei alta noite e senti o contínuo marulhar das ondas; subi ao tombadilho e vi o mar imenso desenrolar-se no seio das trevas. E em quanto os meus companheiros de viagem se enfadavam da demora dela, eu ficava horas e horas enlevado a escutar esse cântico eterno, esse hino intraduzível, e compreendia-o, adivinhava-o, e sentia os olhos turvos de lágrimas, porque o bramido das ondas, o sussurrar do vento tudo me dizia “saudade.”

Lia essa mágica palavra escrita em letras de espuma na superfície imensa do mar, lia-a em letras de fogo gravada no firmamento azul, e em presença daquela dupla majestade do céu que faiscava mundos, do mar que palpitava ondas, enlevou-me a tristeza indefinível da abobada estrelada, e o melancólico lamento desse velho leão acorrentado, que se chama oceano.

E o anjo da saudade pousou junto de mim.

Outra vez subira eu à velha torre de menagem do castelo de Guimarães. Por baixo de mim não via senão arvoredo. O sol sumira-se quase de todo por traz das montanhas do ocidente, dourando ainda apenas uma ou outra folha dessa imensa abobada verdejante. Levantara-se um vento frio, que me zunia aos ouvidos. As árvores curvavam-se ao sopro da aragem, e erguiam-se depois dela passar, para de novo se curvarem. Creiam que não me acudiu ao espírito nem a imagem de D. Tareja, nem a de Fernão Peres de Trastâmara, nem a de Afonso Henriques, nem a de Egas Moniz. Nem sequer me indignou o sarapintado pau de bandeira com que desfiguravam a majestade do velho monumento. Não via senão aquele imenso arvoredo, não escutava senão o gemer do vento, não pensava senão nos ausentes, de que me separavam léguas, nos mortos de que me separava o túmulo.

E senti palpitarem de novo em torno de mim as asas sombrias do anjo da saudade.

Não vi o Bom Jesus do Monte, mas adivinhei-o. Pressenti o que seria a floresta sagrada e famosa do Minho, contemplado os obscuros arvoredos de Guimarães.

O livro, que Camilo Castelo Branco acaba de publicar, produziu em mim uma suave impressão. Também ele vai procurar saudades às florestas, também ele gosta de contemplar, por entre as árvores, os túmulos que orlam a estrada da sua vida.

A floresta do Bom Jesus viu-o passar criança, adolescente, juvenil, e finalmente homem de idade madura. Ouviu as confidências dos seus primeiros sonhos, sentiu correr as suas primeiras lágrimas. De cada vez que o romancista se ia acoitar no verdejante asilo, já tinha mais uma tristeza que lhe narrar, mais uma coroa fúnebre que pendurar em nova cruz erguida em novo túmulo.

E a floresta, sempre viçosa, acolhia serenamente o homem, cuja fronte se ia pendendo a mais e a mais; e, ufana da sua eterna primavera, via desbotarem-se as flores da existência do piedoso romeiro!

Foram estas sucessivas confidências que Camilo Castelo Branco reuniu no admirável livro que  se intitula No Bom Jesus do Monte, livra impregnado numa suave melancolia, livro do coração e para o coração, e a que Camilo Castelo Branco poderia dar o nome de Livro das saudades.

O sentimento fino, delicado, comovente é a sua feição principal. Camilo Castelo Branco parece que não escreveu para o público, mas sim para o umbroso arvoredo seu confidente e consolador. E estou certo que ele antes queria saber que as carvalheiras e os castanheiros de Braga ouviam a brisa ler-lhes as páginas soltas desse volume, do que saber que os elegantes de Lisboa ou do Porto liam distraidamente o livra entre uma tourada e uma ceia.

As narrações, de que ele consta, são feitas com a mais tocante singeleza. Há uma principalmente, cuja simples leitura nos comove tanto, como nos comoveu a todos o Último ato, quando a Soller, aproveitando os derradeiros e esplendidos clarões do seu talento artístico, e da sua existência, dava um sublime relevo ao papel da heroína desse drama íntimo.

Esse conto esta inscrito no livro com a data 1854.

É a historia do casamento e da morte de um amigo do autor, José Augusto Pinto de Magalhães com uma senhora inglesa, Fanny Owen, tipo celeste, vulto de um anjo, que andou algum tempo exilado nesta triste mansão da terra.

É pungente aquela narração, e escrita de modo, que dos olhos mais indiferentes às desgraças alheias brotam necessariamente lágrimas.

Em todo o livro se nota esse ar de tristeza, aqui ou ali desanuviado por uma ou outra expansão da veia satírica do autor. E que dulcíssimo estilo! que suave melodia de frase! que tesouro de  linguagem, e principalmente... que tesouro de coração!

Tenho já notado nos outros livros, ultimamente publicados por Camilo Castelo Branco, o suave perfume que está rescendendo o estilo deste romancista, estilo que foi sempre notável, mas nunca tão feiticeiro como atualmente. Como se há de isto explicar? A vida de Camilo Castelo branco está seguramente longe do ocaso, e contudo o seu estilo adquiriu a majestosa serenidade, a maviosa ternura, a dulcíssima tristeza do crepúsculo! Também já está longe da aurora, e, quando parecia que devia ter passado para Camilo Castelo branco a idade dos sonhos, é que ele se torna um rêveur, um entusiasta, um adorador do bom, do belo e do ideal.

Esse tão suave encanto, essa feiticeira magia brilham tanto neste último livro, como no Amor de Salvação, como na Filha do doutor negro. Mas este livro ainda é mais sentido, e por isso mesmo que não é romance, e que o autor mostra francamente aos leitores o sacrário do seu coração, e os faz subirem com ele a corrente da sua vida, por isso mesmo ainda mais interessa, e maior simpatia adquire.

Simpatia é o termo próprio. Este livro é principalmente simpático.

Pelo menos para mim, que tantas vezes nele encontrei o eco dos meus próprios pensamentos, o espelho das miúdas sensações. Em muitas páginas do No Bom Jesus do Monte revela Camilo Castelo Branco a predileção apaixonada, que lhe inspirou a Chave do Enigma do Amor e Melancolia de Castilho. Igual predileção me haviam inspirado essas admiráveis páginas do nosso primoroso poeta. Mas eu agora levo uma vantagem a Camilo Castelo Branco, porque posso associar à bela produção do tradutor de Ovídio muitos trechos do novo livra de Camilo.

MANUEL PINHEIRO CHAGAS

3/01/2020

"Camilo Odiado": Uma crítica mordaz ao escritor



"Camilo Odiado": Uma crítica mordaz ao escritor

O tratamento da gangrena é o ferro em brasa; os grandes perversos eram também marcados com o ferro em brasa na testa ou nas costas para condenação permanente. Temos hoje de aplicar este tratamento na pessoa de Camilo Castelo Branco, pela sua dupla qualidade de podridão física e degradação moral. Há muitos anos que este galeriano se tornou o símbolo da torpeza de costumes, da indignidade em todos os atos da sua vida, uma espécie de cadáver ambulante dentro do qual vomita corrupção, um vampiro que exala o asco da sacristia, a atrocidade do covil, a vilania do alcouce, e a linguagem desenfreada do açougue. A cara deste monstro, ultraje da espécie humana, é a sua biografia; nela estão escritos os vergões das chicotadas públicas que tem levado, e ainda se veem as manchas dos escarros de desprezo que tem provocado. O amolecimento da espinha dorsal, a que a natureza o condenou, é a história da crápula em que se tem revolvido; enfim o idiotismo de que se está sentindo possuir arrasta-o para o abismo da bestialidade de onde nunca teria saído, se o caso de uma infâmia o não trouxesse de guardador de cabras em Vila Real para uma terra grande como o Porto, que o tem tolerado como uma espécie de cloaca máxima, como o sumidouro de todas as paixões abjetas que se manifestam às vezes em qualquer sociedade.
A cor lívida deste miserável que em França nem mesmo chegaria a ser Cartucho, e na Itália seria engraxa-botas de Casanova, a sua cor lívida representa a aliança com o patíbulo, se é que Camilo Castelo Branco valesse a ponta do baraço necessário para o enforcar. Ele não vale nem mesmo esse pedaço de corda. Deixamos estes traços da sua fisionomia; passemos a indicar os mais característicos episódios da sua negra epopeia de iniquidades:
Quando Camilo Castelo Branco guardava cabras em Vila Real, causou a ruína de uma pobre rapariga filha de um taverneiro; o pai da criança chamou-o para ele casar com a filha.
Camilo aceitou a proposta com a condição de lhe dar o taverneiro um fato novo e uma moeda. Recebido o ajuste, Camilo fugiu com o fato e o dinheiro para a cidade do Porto, e aqui continuou o seu ciclo de imundas aventuras. Começou desempenhando o papel de aprendiz de padre, recebendo apoio dos jornais miguelistas e tendo só em vista uma cousa — o rapinar alguns cobres ao bispo. Padres e miguelistas achavam em Camilo um inspirado, capaz de ser um Ravailhac ou um Jacques Clemente; mas o ex-guardador de cabras sacrificou todos os planos dos seus protetores a uma só cousa que tem sido o móvel de todas as suas ações — comer e babujar. Com a raiva do asno que morde a albarda, Camilo anulou a proteção destas duas influências descompondo uns e outros. Foi então quando se sentiu uma potência, que tinha a força do mal para se fazer temer.
Explorou este novo esgoto que se lhe abriu na alma, e assentou banca de descompostura por dinheiro: nas descomposturas que lhe pagaram contra a consorte do conde de Bolhão, a par das libras também recebeu algumas moedas de escarros na cara; nas descomposturas contra a Sra. Brown, recebeu também nisso que de cara passou a ser lata, as públicas chicotadas vibradas por seu filho Ricardo Brown.
Os diferentes romances obscenos que foi escrevendo eram uma suporação desta necessidade de abocanhar; leram-se os romances para se descobrirem os escândalos portuenses. Mas quando o público se viu cansado deste desaforado histrião e os editores se não quiseram mais deixar roubar por ele, Camilo Castelo Branco lançou-se numa empresa nova: explorou uma mulher casada que tivera a desgraça de ter perdido o senso moral com a leitura frequente desses romances a que aludimos. Todos sabem o caso da morte do infeliz marido, e como Camilo Castelo Branco foi completar nas enxovias a educação que encetou com as cabras em Vila Real.
Da cadeia começou Camilo a abrir brecha para a rapina na casa Moré, mandando ali mostrar um Romance de descompostura ao digníssimo procurador régio que não lhe tolerou certas obscenidades no cárcere; o amigo do procurador régio, gerente da dita casa, teve de pagar o romance para poupar um desgosto ao magistrado respeitável. Ainda não há muito tempo, que o Sr. José Gomes Monteiro se refugiou no nosso Escritório para evitar o encontro de Camilo na loja Moré, que ia ali armar uma escroquerie, com o fim, dizia ele, de pagar uma décima. Livre da cadeia, porque a lei quase que não admite prova no adultério, Camilo Castelo Branco devorou então os bens dessa infeliz criatura do Senhor que arrastou à aversão pública. Depois de ter comido o que pertencia à sua vítima, viu o que ainda pertencia ao filho dela, cujos rendimentos eram utilizados pela mãe, que, por não ter passado a segundas núpcias, ficara com a administração desse resto: nada mais natural que armar um cerco a este dinheiro.
Em primeiro lugar não casou com a mulher a quem devia uma reparação, para ela não perder a administração do filho; e em segundo lugar mandou agora a criança para a África, na esperança dele ali morrer e então poder livremente dispor desse resto de dinheiro. Alerta Sr. Curador geral dos órfãos. Por onde quer que se olhe este monturo de crimes, que por aí infecciona os ares por todos os lados Camilo Castelo Branco só mostra aspectos repugnantes; ultimamente comprometeu a sorte de Vieira de Castro com a sua defesa; explorou a desgraça do amigo com o drama o Condenado que vendeu a dois indivíduos; e por último lucra ainda com a morte do homem de quem se diz amigo, vendendo para o Brasil por 800.000 reis as cartas que esse desgraçado lhe escreveu da África.
Para Camilo Castelo Branco as palavras honra, dever, amizade, são como as partículas sacrossantas que tivessem caído em poder de um macaco; privado do mínimo vislumbre de senso moral, a moralidade, a vergonha, o pudor são para ele como as cores para um cego de nascença. Ultimamente aspirou a um título de visconde, porque viu alguns negreiros e agiotas ornados com esse distintivo; ele por tanto achava-se com maior direito para se distinguir pelo seu cinismo. Como alguém do paço se opôs a que acabassem de degradar os títulos nobiliárquicos, Camilo começou a insultar a Casa de Bragança. Mas como hoje as suas diatribes sujas produzem o efeito contrário ao que ele mira, e como já ninguém lhe pagava para pôr a sua pena ao serviço da calunia, ligou-se então com um francês devasso chamado Ernesto Chardron, para a publicação de um cano de despejo intitulado Insônias de Camilo Castelo Branco. Este Sr. Chardron é aquele que violou a casa de um seu compatriota, raptando-lhe a mulher, e aquele mesmo que estaria a estas horas na cadeia, se o gerente da antiga casa Moré tivesse selado as portas do estabelecimento quando este aventureiro saiu dali para traficar à vontade. Os dois grilhetas acharam-se dignos um do outro; Chardron é o passador dos latrocínios que o Camilo pratica sobre a honra dos que o desautoraram perante a honestidade. Ora neste opúsculo nº 7 das Insônias de Camilo Castelo Branco, com a sua autoridade de juiz de enxovia, onde já residiu, diz que eu lhe roubei o livro Mosaico, publicando-o contra a sua vontade. Este homem, que tem recebido dinheiro por livros que nunca escreveu, recebeu de nós 14 libras para escrever o Mosaico, e mais 9 libras por outra comedela; quando nos viu com o livro em metade da impressão, julgou ter-nos o pé no pescoço e exigiu mais dinheiro. Recusei-me a este logro e exploração sórdida, e para não perder o que já lhe tinha dado publiquei o livro na altura em que já estava. Camilo fez-me um arresto, mas o Tribunal da Relação em vista dos documentos de letra do próprio Camilo, mandou-me entregar o que era minha propriedade, por Acórdão de 31 de agosto de 1868. O desgraçado pária, porque um Acórdão restabeleceu o meu direito, vem hoje chamar-me ladrão. Não vamos aos tribunais, porque Camilo Castelo Branco manifesta já os primeiros sintomas de demência, e porque um elogio da sua boca seria a maior afronta que podíamos receber. Camilo lembrando-se ainda do tempo em que furtava os brincos às criadas da casa onde morava, está agora com a monomania de que todos o roubam; ei-lo ora nos jornais a acusar um garoto que o servia, ei-lo a restabelecer-lhe os créditos, dando a entender que fora roubado pela amásia e até pelo próprio filho! Ei-lo contando as colheres de prata que pertenceram ao marido da sua vítima. Decididamente os amigos de Camilo têm razão para caracterizar-lhe o estado de demência. Este larápio das livrarias dos fidalgos de província, empulhando-os com livros de hipiátrica, e rindo da sua lorpice, este vendilhão acobertado com o pseudônimo de Jorge Correia, tem a audácia da rameira, para chamar aos outros aquilo que o distingue. Assim como Alexandre Herculano o pôs fora de sua casa, a sociedade devia expungi-lo, ficando à conta do município o recompensar aquele que lhe deitasse a bola.
A nossa vingança está breve: ir-lhe-emos regar a cova com o que ele sabe, e temos a certeza que assim como se guardam os exemplares dos notáveis aleijões, a memória ominosa de Camilo Castelo Branco há de conservar-se por muito tempo na execração pública como uma das grandes aberrações morais da espécie humana.
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ANSELMO DE MORAES
Porto, 22 de julho de 1874.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Camilo Castelo Branco: Fantasia e Realidade (Resenha)


Camilo Castelo Branco: Fantasia e Realidade
Sem se levar da fantasia, que seria levar-se para mundos imaginários, e ele tinha na alma a alma do mundo em que viveu, Camilo possuía um manancial riquíssimo de imaginação!
E nem, pobre dessa faculdade, ele poderia ter sido o romancista que foi.
A obra de Camilo é uma obra de fantasia, que salta em catadupas da sua imaginação opulenta.
Não quer isto dizer, porém, que ele tenha atraiçoado a verdade da vida real.
Camilo possui a rica imaginação do cenário; e este, em tudo que não é o reflexo de uma realidade vivida, é sempre a vida que podia ter sido, quer na cor e no movimento das formas, quer na expressão flagrante das manifestações das almas. Os sucessos que Camilo imagina, quando cria o cenário e efetiva o drama, são tão possíveis sob o céu da nossa terra, tão naturais à luz normal do nosso entendimento, tão ajustados ao sentir, aos modos de existência, à capacidade dos conhecimentos da nossa época, e tão conformes à vida real dos corpos e das almas, que o nosso espírito aceita-os sem discussão, como história fiel de factos gravados na memória de toda a gente...
E é assim que a vida de certos personagens do romance O Esqueleto, trabalhado depois de 1862 em São Miguel de Seide, decorre inteiramente de harmonia com o que é possível na realidade, conquanto a vida que eles levaram fora do romance, tenha sido, como vai ver-se, muitíssimo diferente.
É por isso que, neste sentido, devemos interpretar com cautela uma afirmação feita por Camilo no prefácio do romance A Filha do Doutor Negro.
Escreveu Camilo nesse prefácio:
A razão porque eu esperei vinte anos esta hora, hora de infinita dor, em que princípio a escrever tal romance, é que eu, nesse longo termo de existência, cuidei que, sem intercalar de episódios imaginários a história de Albertina, mal ou de nenhuma maneira lograria dar-lhe vida, interesse, variedade e número, como diria um correto juiz com o Quinteliano em mente. Agora, revirou-se o meu entendimento em coisas desta ordem, como em quase todas as coisas ordenadas ou desordenadas pela gente. Estou apto para trasladar o que vi e vejo, sem pedir emprestado à imaginativa o que a natureza me não dá.
Foi isto escrito no Porto em 1862.
Estou apto para trasladar o que vi e vejo, sem pedir emprestado à imaginativa o que a natureza me não dá.
Esta asserção exprime a verdade no terreno realista em que Camilo sempre se manteve; isto é, na pintura real da alma humana, nos vários aspectos em que a fez viver.
E é mais adiante, no mesmo prefácio, que o pensamento de Camilo fica claro.
Escreveu ele:
Afinal, e muito a tempo, desertei às bandeiras dos mestres franceses, e entendi no melhor modo de descrever os usos e costumes da minha terra, os sentimentos bons e maus como por cá os tenho visto, as paixões como elas são cá, e como creio que elas são em toda a parte, tirante as composturas, artifícios, e maravilhas de linguagem, com que, para maior glória do gênio pestilencial, corruptor das almas, os pintores da sociedade adulteram a verdade das coisas e das pessoas.
Ora são precisamente os usos e costumes da nossa terra, os sentimentos bons e maus como ele por cá os tinha visto, as paixões como elas são cá e como ele cria que elas são em toda a parte, que Camilo traslada, sem pedir emprestado à imaginação o que a natureza lhe não dá. E é exatamente nesta verdade, nesta realidade imperturbável, vivida pelos personagens de Camilo, que reside, quanto a mim, o mais alto valor do maior romancista português.
Quanto aos episódios imaginários de que fala Camilo, não é verdade que se tivesse revirado o seu entendimento em coisas dessa ordem... Nem era, com certeza, referindo-se a isso, que o mestre se declarava apto para trasladar o que via, sem pedir emprestado à imaginativa... Não vá alguém cuidar, diante da palavras escritas pelo mestre a propósito da história de Albertina, que os romances de Camilo são copias da vida realmente vivida pelos seus personagens no Concelho de Valpaços, em Freixo de Espada à cinta ou na rua de Entreparedes!...
A prova de que assim não é, encontra-se, por exemplo, no romance O Esqueleto, escrito muito depois de A Filha do Doutor Negro, e no qual a vida de certos personagens é tecida de episódios imaginários, é filha da fantasia de Camilo.
O que realmente esses personagens foram neste mundo encontrei-o eu nuns preciosos apontamentos, que devo à gentileza do Excelentíssimo Senhor Domingos Sarmento, atual representante da Casa de Faiões, onde reside, e que este Sr. extraiu recentemente de registos e notas existentes na casa e de outras que lhe tinha dado sua sogra — sobrinha e afilhada do Morgado — a qual conheceu intimamente os referidos personagens.
É o que eu vou contar...
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Chamava-se o morgado de Faiões, Antônio Alves de Oliveira. Nasceu em 10 de fevereiro de 1806, e era filho do capitão e morgado do mesmo nome, e de D. Maria Joaquina Pinheiro de Moraes Xavier Colmeiro, natural de Vale de Telhas, Concelho de Mirandela.
Ainda muito criança quando lhe morreu o pai, ficou o morgadinho a crescer, senhor de sua vontade e afeito aos deslumbramentos da abundância, entre os carinhos mimosos da mãe e os afetos acariciantes de duas irmãs mais velhas, meninas de tão rara formosura, que traziam em sobressalto o coração dos rapazes de Chaves e terras em redor.
Por este tempo, foi o Mesquita, que não era Nicolau, e se chamava José de Mesquita e Sousa, filho de Francisco Xavier Pereira de Mesquita, de Murça, sentar praça, como voluntário, no regimento de infantaria 12, de Chaves, sendo feito cadete em 1811 e pouco depois promovido a alferes.
Como não via, nas morgadinhas de Faiões e numas primas que elas tinham em Valpaços, menos graça e formosura, do que distinguiam nelas quantos as tinham já feito notarias por vilas e aldeias, o Mesquita conseguiu frequentar os bailes da casa de Faiões e levou em sua companhia dois amigos e camaradas — Paulo Manrite, oficial mais graduado — e o alferes Francisco Vitorino de Vasconcelos, filho do morgado do Buzio, do antigo Concelho de Benfazer, hoje Marco de Canaveses, e também senhor da casa de Sequeiros, hoje dos herdeiros do Conselheiro Alexandre Cabral.
Creio que agora já não é acepipe irresistível; mas ainda não há muito, e mormente no tempo dos bailes de Faiões, era difícil que uma morgadinha não deixasse o coração nos braços de um alferes. Foi o que então sucedeu. Em pouco tempo os três oficiais estavam senhores da conquista, tendo ido os alferes pedir a mão das de Faiões e Manrite uma das primas de Valpaços.
Tinham-se esquecido, porém, os conquistadores, de que, se o seu pé escandescera a cabeça das raparigas, as respectivas mães tinham-na fresca como alface, e só ficaram todas em brasa em face da ousadia dos pretendentes, pelo que recusaram indignadas, o seu consentimento.
Mas como, nesse tempo, parece que havia recurso pronto, ainda para apagar nas ilusões do coração a mancha discordante e opressora do poder paternal, entrincheiraram-se os candidatos na vontade desenvoltamente manifestada pelas três graças de Trás-os-Montes, e pediram ao meirinho o que não tinham logrado alcançar das generosidades do pátrio poder.
E conseguiram-no. As duas irmãs e a prima saíram judicialmente de casa para os pés do altar.
Turvou-se, porem, quase logo o céu de dois noivados, sendo de pouca dura a lua de mel dos esposados de Faiões. Os dois alferes, por muito que lhes custasse a desprender dos braços das noivas, lá tiveram de partir para as refregas da guerra peninsular.
Começaram então as fidalgas uma vida de saudade desoladora e sobressaltada. Sucediam-se os dias indefinidamente, e, por mais que as morgadinhas, em cada crepúsculo de ao pé da noite, tivessem nos horizontes tristes os olhos marejados, ou esperassem a volta triunfante do sol, desde os primeiros clarões da madrugada, ansiosas de notícias, sempre o silêncio as fazia cada vez mais sós entre o céu e a terra, oprimindo-lhes o coração mil receios vagos — fantásticas sombras da imaginação dolorida, que andavam à roda dele, em voluptuosa dança infernal.
Até que um dia, quando elas, já muito aflitas por nada saberem dos maridos, andavam pelos cantos a chorar, perseguindo-as a suspeita de que eles tivessem morrido por lá, uma velha criada, consumida por ver as meninas ao desamparo de notícias, foi ter com elas e disse-lhes que estava pronta a ir saber novas de seus amos, ainda que fosse preciso ir ao cabo do mundo.
As morgadas, ao princípio, não souberam bem que pensar do dito da criada. Esta, porém, mostrou a sua resolução, de novo, com rasgo tão decidido, que elas não tiveram dúvidas e, a rir e a chorar ao mesmo tempo, enternecidas por tanta dedicação, até a abraçaram, e logo lhe disseram que lhe dariam quanto dinheiro ela quisesse para levar ao fim essa viagem arrojada.
Mas a velha Josefa recusou tudo; e, sem mais detenças, vestiu-se o mais andrajosamente que pôde, aproveitando nesse lance à roupa suja e rota que tinha fora de uso, meteu algumas pesetas na algibeira, que atou à cintura por baixo do vestido, guardou com religiosa cautela, no seio, as alianças dos dois casamentos, despediu-se e partiu.
Os olhos das morgadinhas foram com ela até ao mais remoto cotovelo do caminho de Espanha...
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Estava em curso a sexta coalizão dos estados da Europa contra a França, ou melhor, contra Napoleão, dirigida por Alexandre Paulowitz, o imperador da Rússia que revogara o tratado de Tilsit, de 7 de julho de 1807.
Depois dos sucessos da campanha da Alemanha, viu Bonaparte que os seus formidáveis adversários invadiam todas as fronteiras da França ao mesmo tempo. E por mais que subisse a alturas desconcertantes o voo do gênio napoleônico, surgindo em toda a parte, prevendo, adivinhando, prevenindo, batendo, rechaçando, repelindo, de vitória em vitória, de triunfo em triunfo, desde Saint-Dizier e Brienne até Château-Thierry, Vauxchamp, Mery, Soissons e Laon, não pôde evitar a marcha sobre Paris, aberta com a batalha de Arcis-sur-Aube, a linda cidade da Champagne, berço de Danton, que, banhada em sangue, foi reduzida a cinzas!
Só uma esperança luziu ainda no ânimo do imperador: Sublevar na retaguarda dos exércitos comandados pelo russo, as provindas de leste, de forma a apertá-los entre Paris e o seu próprio exército.
Mas na capital falharam as cabeças, e, não obstante a resistência heroica dos raros que acudiram à defesa de seus muros. Paris capitulou antes da chegada de Napoleão a Fontainebleau...
Dez dias depois da rendição da capital francesa, quando já o imperador, vencido pela Europa coligada, se retirava para a ilha de Elba, ainda o seu marechal Soult se batia por ele, numa derradeira e inútil batalha, contra o cerco de Tolosa comandado por Wellington...
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A dedicada Josefa, que tinha partido de Faiões, seguindo o rasto das tropas portuguesas, e atravessara a Espanha, a mendigar tendo sabido que, depois das derrotas de Salamanca e de Vitória, os franceses tinham sido repelidos da Península, entrou em França, seguiu de perto as margens do Garona e foi encontrar os portugueses no cerco de Tolosa...
O primeiro dos dois oficiais com que ela se deparou foi o Mesquita, que, vendo-a coberta de andrajos e tomando-a pelo que parecia, puxou da bolsa para lhe dar esmola. Mas ela recusou, dizendo que não ia ali pedir esmolas de que não precisava, mas sim buscar notícias dele Mesquita e do outro senhor alferes, para as levar às morgadas de Faiões, que já estavam mais mortas que vivas, de tanto esperar por eles...
O Mesquita, posto que fosse para admirar que alguém naquela terra lhe falasse tão acertado de sua esposada, não acreditou logo e chamou o camarada, a quem repetiu as palavras da misteriosa mendiga.
Estavam os dois sem saber que credito dar à velha, quando esta, declinando o seu nome e contando as razões por que se tinha aventurado a tamanha jornada, disfarçada em mendiga, para cobrir as despesas e ir-se informando do caminho que levavam as tropas de Portugal, meteu a mão ao seio e, tirando as duas alianças, entregou-as aos mancebos.
Desvaneceram-se as dúvidas, em face de prova tão irrecusável...
E assim, tendo regressado, passados meses, com o mesmo traje com que fora, pois não aceitou nenhum favor dos oficiais seus amos, apareceu a boa criada em Faiões, com as notícias tão apetecidas, e na algibeira as pesetas com que tinha partido...
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Depois do regresso da criada a Faiões, pouco demoraram os amos. Finda a guerra com a primeira restauração dos Bourbons e o exílio de Napoleão, vieram os dois cunhados para junto das esposas, continuando a fazer serviço no 12 de infantaria.
O Mesquita, para não perder o gosto à lembrança das façanhas por terras gaulesas, trouxe consigo nesta ocasião uma francesa, que conservou oculta nas cercanias de Chaves.
Nada de notável perturbou durante uns anos a pacatez provinciana dos casais de Chaves e Valpaços, a não ser a teimosia de um frade, que não largava a porta da casa de Faiões, levado pelo cheiro do presunto e afeito o paladar ao delicioso vinho da Morgada.
Uma noite, chega o Mesquita a casa e dá com o frade sentado à lareira, no clássico escano, entre a sogra e a mulher. Como o alferes era picado do gênio e não tinha lido Descartes nem o filosofo de Koenigsberg, os quais, segundo hoje se diz, fazem nascer nos espíritos o bom senso, como a água e o estrume fazem grelar as batatas, não esteve com meias mesuras, mandou sair dali o frade e, sentando-se no seu lugar, disse-lhe:
— Já vê que eu fico aqui muitíssimo melhor do que Vossa Reverendíssima. Não acha?
Fez-se mais corada a bochecha do frade, mas não deu este, ou fingiu não dar, que é o mais natural, pelo sentido da ação do alferes...
Não, que, se ele se metesse em brios, era quem sofria o prejuízo, porque o fumeiro e a adega não iam consigo!...
Riu-se... chalaceou... pitadeou-se... e o caso passou-se sem coisa de maior.
Passados dias, o Mesquita dá de cara com o frade, precisamente na mesma intimidade de escano, entre a mulher e a sogra.
Desta feita, chamou em altos brados o impedido, e, com grande espanto de todos, mandou-o pôr as correias, carregar a espingarda, calar baioneta, e disse-lhe:
— Ficas de sentinela àquele senhor frade. Se o vires olhar para algum dos lados, fogo!
O frade, aterrado, mal o Mesquita se passou para uma sala contígua, levantou-se, corcovado, e sem se atrever a levantar os olhos ou a proferir uma palavra, fugiu, para nunca mais voltar.
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Tendo-se rompido fogo entre constitucionais e miguelistas, de novo os dois cunhados, desta vez acompanhados pelo primo Manrite, partiram e foram dar ajuda ao cerco do Porto.
O Mesquita, para adoçar as folgas, teve o cuidado de levar consigo a francesa, que se chamava Josefa, hospedando-a nos arredores da cidade.
Depois da Convenção de Évora Monte, regressaram a Chaves, com o seu regimento, o Mesquita, cego de um olho, e o Vasconcelos, surdo de todo. Nestas circunstancias foi-lhes dada baixa no serviço, recolhendo-se o Vasconcelos à Casa de Faiões, onde se conservou até à morte.
Existe dele uma neta casada com o Excelentíssimo Senhor Domingos Sarmento, atual representante da casa.
O Mesquita foi habitar a sua casa de Murça, em frente da lendária Porca e do velho convento das freiras...
Levou consigo a mulher, três filhos que já havia dela, e a francesa, que ele acabou por impor à própria mulher, em casa e pocarinho! Esta imposição, porém, causou tão forte desgosto à esposa, que morreu pouco depois.
O Mesquita era de temperamento muito irascível. Ríspido para a mulher e para os filhos, bateu várias vezes na francesa. Conta-se até, que, indo uma vez de murro feito para ela, bateu numa mesa de tal jeito, que ficou a ver do olho que tinha cegado!
Quando morreu, deixou duas filhas e um filho de nome Basílio de Mesquita de Sousa e Oliveira.
O Paulo Manrite acompanhou o Sr. D. Miguel até não poder mais, regressando depois, cheio de saudade e desolação, para junto da mulher e dos filhos, em Valpaços.
Como todos os bons miguelistas, também ele todas as manhãs, mal se erguia da cama, lançava os olhos na direção do mar, a ver se enxergava ao menos a ponta dos mastros do navio que havia de trazer à Pátria o seu adorado rei...
E continuou, pelo tempo fora, a tratar do cavalo, a limpar a espada e a polir esta legenda, que em letras de ouro tinha gravada no peito da farda que levou para a sepultura:
PAULO MANRITE, TEM POR TIMBRE E DEVER EMPUNHAR SUA ESPADA, PARA MIGUEL DEFENDER.
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— Mas o morgado? — perguntará o leitor — Que foi feito do morgado?
O morgado lá foi crescendo em Faiões, na sua velha casa com portão de seis pirâmides, de cruz ao cimo, e gozo de capela própria, rica de paramentos, tapetes e jarras da índia.
Quando os cunhados partiram para o Porto, tinha o morgado dobrado os vinte e cinco anos. Rapaz elegante e formoso, galanteador de todas as primas e de quantas meninas por ali havia, entusiasmado pelos primos de Valpaços, resolveu alistar-se nos dragões de Chaves, para ir também defender o Senhor D. Miguel.
A mãe, quando de tal soube, sentiu uma grande anciã no coração, e quis demover o filho de semelhante propósito; mas, vendo-o decidido, lá foi tratando de tudo, a chorar.
Vendeu as melhores pratas de casa, principalmente uma bacia e um jarro, para o fardar e armar à altura da sua categoria, e de forma que pudesse botar figura entre os cunhados, sobretudo ao pé do primo Manrite, que era oficial de grande luxo e aparato, a ponto de ter feito parte do estado maior do Infante.
Fardado e armado, pois, como quem era, partiu o morgado também para o cerco do Porto...
É provável que não tivesse dado um tiro, porque o forte de suas façanhas era no cerco às damas... E, por isso mesmo, é possível que no Porto tivesse feito frente à francesa do cunhado... É possível...
Mas o que é certo é que nos arquivos da família não corre fama sobre seus feitos na carreira das armas... E, desde a volta ao lar, arrefecidos os entusiasmos bélicos pela causa do Sr. D. Miguel, também não consta paixão notável em campanhas amorosas!...
Que o seu corpo não sofreu fuzilaria de arcabuz na mina de Vidago, não há dúvida também, porque o morgado de Faiões morreu sentado à lareira da sua casa, com uma apoplexia, na noite de 17 de março de 1873.
Da história dos seus amores, apenas existe a seguinte amostra:
Tendo deixado por herdeiros os sobrinhos de Faiões e Murça, apareceram a disputar a herança nada menos de nove filhos ilegítimos, que tinham havido dele várias mulheres do povo!
Desta proveniência existem hoje muitos netos e bisnetos. O principal neto foi o padre Firmino Alves de Oliveira, mestre de capela na Sé de Bragança, com honras de cônego, e que morreu ainda novo, saturado de álcool e de amantes...


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CARLOS BABO
À beira do centenário de Camilo (1920).
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

Reflexões oportunas sobre Camilo Castelo Branco (Resenha)



Reflexões oportunas sobre Camilo Castelo Branco
Quando levantei os olhos dos livros de Camilo, nos quais, durante anos, a minha alma chorou quantas lágrimas neles se desfiam, e vi, projetada já no espaço de mais de duas décadas, decorridas sobre a tragédia de Seide, a sombra gigantesca deste extraordinário espírito, sem uma coluna de granito ao menos, a sobrepujar os horizontes, com o seu nome esculpido a letras de ouro, a refulgir ao sol da nossa terra e a apontá-lo às almas de todas as gerações, senti-me envergonhado da vergonha que pesava sobre a minha Pátria!
Foi no referver dessa revolta contra tanta miséria moral e intelectual desta terra, oficialmente representada por uma fauna de medíocres, onde só raramente tem reflexo o vigor e a claridade mental da raça, escrevi em 1913:
“Para não acamaradarmos com todos os nacionalíssimos parvos e maus, teremos de lavrar um protesto fervoroso contra o indiferentismo indigno e pelintra... É preciso cavar na injustiça inconsciente do maior número, e aplicar a férula aqueles que, apegados no comum de seus ódios e soberbas, pretendem desluzir a grandeza imponente da obra do mestre. É preciso quebrar o silêncio, descondensar o escuro indiferentismo que tombou sobre a campa de Camilo. É preciso que os malévolos não vinguem cobrir de ingrato esquecimento a sua memoria...
Os ossos de Camilo, para deslustre de nós todos, ainda estão num cemitério do Porto, deixados ali p'ra o canto de um jazigo, emprestado à família pela família de Urbino de Freitas!... Camilo Castelo Branco... não tem encontrado nos portugueses, salvo uma ou outra exceção, isolada ou desaparecida, quem se levante a reclamar, por amor da dignidade nacional, o que de justiça pertence ao lustre imarcescível do seu nome.”
Era justificada a minha indignação, tanto referindo-me a Camilo, como a muitos outros, dos grandes, dos maiores!
A nossa história quase que tem em cada página um nome, que, só por si, é uma epopeia.
Pois, excetuando o infante D. Henrique; o Afonso de Albuquerque, que ficou uma espécie de manecas, vestido de Vasco da Gama, no alto da coluna; o Camões, que parece um enjeitado, encouchado nas ombreiras de uma escada; o Eça, que, por exceção, revive em obra perfeita, mas que, por mais pequena que seja, é sempre grande demais para a estreiteza do Quintela; excetuando o Senhor D. Pedro IV e o V (faltou o II), mais o Duque de Saldanha e a Morgadinha de Val Flor, que não se sabe porque pararam assim... em estátuas... pelo mundo... até o que tão prodigamente se dá hoje a qualquer rabiscador de pensamentos livres, tem sido negado ao Herculano, ao Garrett, ao Fernão de Magalhães, a D. João de Castro, ao Antero, ao Padre Antônio Vieira, ao Bernardes, ao Fernão Lopes... a Camilo Castelo Branco!
E, todavia, tinha-se dito e escrito muito a respeito de Camilo, e muito se tem dito e escrito, depois do que eu escrevi em 1913!
Mas não passava tudo de palavras fugazes, apesar de nos discursos aquecidos se chegar no louvor a exageros condenáveis!
E eu, que sempre tenho sabido respeitar o valor que os vivos me merecem, e considerar e venerar as cinzas dos mortos que deixaram aumentada a grandeza espiritual da nossa terra, com o propósito de arrancar ao abandono desolante o rasto que deixou na terra essa brilhante estrela das letras portuguesas, procurei definir a mim próprio, tendo ouvido e lido quanto se dizia e escrevia, o motivo da homenagem da nação a Camilo Castelo Branco.
As reflexões que, na intimidade do pensamento, apresentei a mim próprio, vou agora dizê-las ao público.
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É feitio dos portugueses, em geral, não se especializarem e, por isso, adejarem, simplesmente, por todos os assuntos, produzindo obra de superficialidade, que se banaliza em si, e causa não poucas perdas e danos, como sementeira de falsas aparências feita na ignorância comum, por se tornar seara bravia, donde toda a gente tira farta colheita de erros.
Por serem superficiais, também os portugueses se lançam de repente, entontecidos, nos entusiasmos exagerados, porque a aragem, soprada pelas primeiras impressões, se torna logo em tumultuoso vendaval. E, como esse tumulto, sem base de raciocínio, sem corpo de crítica mental, é paixão momentânea, que, arrefecido o primeiro impulso, esmorece, passado ele, quedam fatigados, indiferentes, quase arrependidos, a bocejar de tédio, como sucede aos borrachos, delidos os fumos da bebedice.
Ora eu queria que a nação se erguesse em peso, e, numa só voz, como uma enorme potência espiritual, entoasse a sua oração de amor e de glória ao espírito vivo de Camilo. Mas queria que a nação, orando assim no Templo da Pátria, tirasse da própria consciência a força e a luz do seu exaltado louvor!
Já que é impossível, porém, ter o gozo inefável de sentir a harmonia dessa voz excelsa de um povo ascendido a tão alta perfeição, que ao menos aqueles que são, ou pretendem ser, consciência na triste obscuridade da alma do maior número, não ensinem mal os outros, apregoando absurdos motivos de homenagem, nem sejam desleais a todos, a si próprios, e à pureza em que deve manter-se o espírito dessa homenagem, manchando-o com intuitos de deprimir alguém à custa da exaltação de Camilo!
Que saia puro, pelo cérebro e pelo coração, o culto que as nossas almas dão à memória do Mestre.
A pureza pelo coração consiste em conservar no culto a serenidade do sentimento, não lhe pondo mancha de ruim paixão; quer dizer, não escurecendo a luminosidade natural e própria do espírito que se venera, com a intenção de, engrandecendo-o, diminuir a luz própria de outros espíritos.
Cada espírito tem a sua área de ação radia numa determinada esfera; e no circuito em que a sua luz revoluciona, constitui uma personalidade, revela uma grandeza espiritual, una e inconfundível.
Quem fosse, por exemplo, alentar louvores a Camilo, com a preocupação de depreciar a grandeza do Eça, cometeria um erro intelectual tão grande, que só podia ter explicação na cegueira de uma paixão baixa; pois que, nem diminuindo o Eça se aumenta a grandeza de Camilo, nem vice-versa. O Camilo e o Eça são dois grandes espíritos, distintos, inconfundíveis, não precisando, para serem grandes, que nós nos tornemos indignos deles e de nós próprios, procurando, aos olhos dos ignorantes, diminuir um em proveito do outro.
A pureza do cérebro será não ultrapassar os limites da grandeza aonde queremos que ascendam nossos louvores.
Cuidemos de Camilo no que ele foi grande entre os grandes, e, não exorbitando aí da sua grandeza, tenhamos ainda mais cautela em não nos desviarmos da razão, apregoando e sugestionando falsos motivos à homenagem pública!
Se, para interessar a sensibilidade nacional no culto de Camilo, é preciso mentir à nossa consciência e dar mau ensinamento, que fique circunscrita a homenagem, mas não se falte ao respeito devido à Verdade.
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A cada passo se fala e se escreve da dor na vida de Camilo... Chama-se-lhe O Desgraçado... O Torturado... Chegando quase a considerar-se, senão a impor-se, a dor na vida de Camilo, como uma faculdade suprema do seu espírito, como uma manifestação do seu gênio, e, como tal, na orbita formidável da sua grandeza, e objeto da admiração, da adoração, do louvor, da homenagem de uma nação inteira!
Pois eu, que ouso afirmar, que Camilo, no que foi verdadeiramente grande, no que foi mil vezes maior do que mestre da língua, não pertence a Portugal, porque é da humanidade toda, revolto-me contra a confusão da dor na vida de Camilo com a sua obra enorme — único objetivo das honras nacionais e do culto eterno da Pátria!
Desgraças... torturas... dores!!
Se houvéssemos de erguer um monumento a todos os desgraçados e torturados, tinham de ser tantos, que, perante o manifesto absurdo de tão varia e vasta consagração, acabaríamos por erigir um só monumento à Dor Humana! Mas esse, ninguém o faria mais perfeito que o próprio Camilo; mas esse é a própria obra de Camilo — que foi o estatuário sublime do corpo vivo da Dor!
Mas há mais ainda.
Quando aqueles que chegam à loucura de fazer de Camilo um herói de revólver em punho, desfechando contra a dor própria, julgam que lhe acrescentam à grandeza, confundindo o espírito, que imortalizou, numa obra, a sua humanidade, com o homem vulgar, que se atirou da própria obra abaixo, diminuem-no, amesquinham-no; e quem sabe se o desgraçam ainda mais, se lhe fazem ainda mais torturante a tortura que o atormentou!
Pois quê! Esse espírito, que levou as suas inúmeras criações, a subir os calvários da Dor, e as elevou aos mais altos e acerados picos da mesma Dor, purificando-as, salvando-as na resignação sublime, para lhes abrir, lá no mais alto, o mais belo dos sorrisos sobre asas de anjos a roçar no Céu, é grande por ter sucumbido?!
Onde está a heroicidade, a grandeza do suicida?!
Em renunciar à vida?!
Mas qual é, em definitiva, o fim que almeja o homem nessa renúncia? Porque é que se mata?
Porque lhe falha o entendimento? Por que se lhe perturbam as funções do sistema fisiológico? Por que se torna um anormal? Mas, nesse caso, o suicídio é um ato de loucura, e o homem que se mata é um louco; não é um herói.
Se admitimos no suicida o funcionamento normal do sistema fisiológico, que busca o homem que se mata? Qualquer que seja a sua filosofia ou qualquer que seja a sua crença, enche-lhe o coração a esperança de sofrer menos, matando-se, ou até de não sofrer nada. Foge à dor que está sofrendo, em busca de uma dor menor, ou, e principalmente, em busca da ausência dador, que ele se habituou a localizar no corpo contra o qual atenta! Mas isto não é ser herói; é ser cobarde.
A alma de Camilo fraquejou; e, por isso, sucumbiu a uma adversidade vulgar. E se essa adversidade vulgar tomou aos olhos de si próprio maior vulto, porque ele era dotado de faculdades superiores, maior devia ter sido a resistência...
Quem quer que seja, o suicida é um defectista...
Aquele que, num súbito momento, ao desabar do infortúnio sobre si, se mata, como quem, empurrado, sem contar, à borda de um precipício, se despenha no abismo, tem desculpa perante nós, porque o seu ato não foi senão a consequência de uma perturbação momentânea do sistema de relação, de um estado súbito de loucura.
Mas ninguém lhe poderá chamar herói.
Aquele que premedita a fuga, com intenção de não sofrer os embates da vida, comete uma defecção, perante todas as filosofias do mundo e todas as religiões da terra.
E quanto mais absoluto for o critério materialista que presida ao julgamento do facto, mais ressaltará a cobardia do suicida; porque, segundo esse absurdo critério, o refratário, ao fugir à dor, mais esperança terá em mergulhar na inconsciência, na cinza da personalidade, na ausência do sofrimento, no nada, no sossego eterno!
E é isto heroicidade?! E é isto grandeza?!!
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Deixemos Camilo em paz, no mistério do seu drama, que é, afinal, o mistério do drama humano.
Não pretendamos fazer das fraquezas altos heroicos. Não confundamos a vida do homem com a obra do escritor; porque a grandeza e a excelência desta estão nela própria e não nas circunstancias que levaram Camilo a fugir à dor que o torturava.
De mais a mais, a razão da sua dor estava nele próprio... era a razão da sua vida.
Não ajuntemos, com as nossas leviandades de pensamento e de crítica, maior mal ao mal imenso que ele a si próprio fez!
Não há na literatura portuguesa romancista que, de longe ou de perto, se possa comparar a Camilo!
Camilo é uma das maiores glórias literárias destes últimos séculos!
É quanto basta e é tudo; porque está nisso a sua grandeza, e podemos proclama-la, sem ofensas à Razão, sem prejuízo de ideias, sem dano aos homens e... sem lisonjas à sua memória.
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CARLOS BABO
À beira do centenário de Camilo (1920).
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).