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5/09/2019

A garupa (Conto), de Afonso Arinos





A GARUPA


Saímos para o campeio com a fresca da madrugada.

 

Tínhamos de ir longe e de pousar no campo. Eu tomava conta da eguada, ele era vaqueiro. Vizinhos de retiro na fazenda de meu amo, companheiros de muitos anos, não largávamos um do outro. Sempre que havia uma folgazinha, ou ele vinha para o meu rancho, ou eu ia para o rancho dele.

 

Às vezes, quando meu amo queria perguntar por nós aos outros vaqueiros e camaradas, dizia:

 

– Onde estão a corda e a caçamba?

 

– Vancê bem pode imaginar, patrão, que tábua eu não carrego, que dor me não dói bem no fundo do coração, desde aquele triste dia.

 

Como eu lhe ia dizendo, nós saímos com a fresca. Por sinal que, naquele dia, compadre Quinca estava alegre, animado como poucas vezes. Ainda me lembra que o cavalo dele, um castanho estrelo calçado dos quatro pés, a modo que não queria sair do terreiro. Quando nós fomos passando perto do cocho da porta, ou ele viu alguma coisa lá dentro ou que, o diacho do cavalinho virou nos pés.

 

O defunto Joaquim – coitado! Deus lhe dê o céu! juntou o bicho nas esporas, jogou-o para a frente e, num galão, quase ralou a perna no rebuço do telhado de mei’água dos bezerros.

 

Saímos.

 

Quando fomos confrontando com a lagoa da Caiçara ele ganhou o trilho para umas barrocas, lá embaixo, onde diziam que duas novilhas tinham dado cria e que um dos bezerros estava com bicheira no umbigo.

 

Eu torci para o logradouro das éguas, cá para a banda do cerrado de cima.

 

– Está bom. Então, até, compadre!

 

– Se Deus quiser, meu compadre!

 

Não sei o que falou por dentro dele, porque, naquele mesmo suflagrante, ele virou para mim e disse:

 

– Qual, compadre! Vamos juntos. Assim como assim, a gente não pode chegar à casa hoje. Pois então, a gente viageia junto, e da Água Limpa eu torço lá para Fundão, para pegar as novilhas; vancê apanha lá adiante o caminho do logradouro.

 

Eu já ia indo um pedaço, quando dei de rédeas para trás e ajuntei-me outra vez com o compadre. Parece que ele estava adivinhando!

 

E fomos indo, conversa tira conversa, caso puxa caso.

 

Eta, dia grande de meu Deus!

 

Ainda na beira de um corguinho, lá adiante, eu tirei dos alforjes um embornal com farinha, fiz um foguinho e assamos um naco de carne-seca, bem gorda e bem gostosa, louvado seja Deus! Bebemos um gole d’água e tocamos.

 

Aí, já na virada do dia, o compadre me disse:

 

– Compadre, vancê vai andando, que eu vou descer àquele buraco. Pode ter alguma rês ali. A modo que eu vi relampear o lombo daquela novilha chumbadinha, que anda sumida faz muito tempo.

 

Ele foi descendo para o buraco e eu segui meu caminho pelos altos. Com pouca dúvida, ouvi um grito grande e doído:

 

– Aiiii!

 

Acudi logo:

 

– Que é lá, compadre! – e apertei nas esporas o meu queimado.

 

Não lê conto nada, patrãozinho! Quando cheguei lá, o castanho galopava com os arreios e meu compadre estava estendido numa moita de capim, com a cabeça meio para baixo e a mão apertada no peito.

 

– Que é isto, meu compadre? Não há de ser nada, com o favor de Deus!

 

Apalpei o homem, levantei-lhe a cabeça, arrastei-o para um capim, encostei-o ali, chamei por ele, esfreguei-lhe o corpo, corri lá embaixo, num olho-d’água, enchi o chapéu, quis dar-lhe de beber, sacudi-o, virei, mexi: nada!

 

Estava tudo acabado! O compadre morrera de repente; só Deus foi testemunha.

 

E agora, como é, Benedito Pires? Peguei a imaginar como era, como não era: eu sozinho e Deus, ou melhor, abaixo de Deus, o pobre do Benedito Pires; afora eu, o defunto e os dois bichos, o meu cavalo e o dele. Imaginei, imaginei… Dali à casa era um pedaço de chão, umas cinco léguas boas; ao arraial, também cinco léguas. Tanto fazia ir à casa, como ao arraial. Mais perto, nenhum morador, nem sinal de gente!

 

Largar meu compadre, eu não podia: amigo é amigo! Demais, estava ficando tarde. Até eu ir buscar gente e voltar, o corpo ficava entregue aos bichos do mato, onça, ariranha, tatu-peba, tatu-canastra… Nem é bom falar! Levar o corpo para a casa e de lá para o arraial, era andar dez léguas, não contando o tempo de ajuntar gente em casa para carregar a rede. Assim, assentei que o melhor era fazer o que eu fiz. Distância por distância, decidi levar o compadre direito para o arraial onde há igreja e cemitério.

 

Mas, ir como? Aí é que estava a coisa. Pobre do compadre!

 

Banzei um pedacinho e tirei o laço da garupa. Nós, campeiros, não largamos o nosso laço. Antes de ficar duro o defunto, passei o laço embaixo dos braços dele – coitado! – joguei a ponta por cima do galho de um jatobá e suspendi o corpo no ar. Então, montei a cavalo e fiquei bem debaixo dos pés do defunto. Fui descendo o corpo devagarinho, abrindo-lhe as pernas e escarranchando-o na garupa.

 

Quando vi que estava bem engarupado, passei-lhe os braços por baixo dos meus e amarrei-lhe as mãos diante do meu peito. Assim ficou, grudado comigo. O cavalo dele atufou-se no cerrado.

 

– Lá se avenha! – pensei. – Tomara eu tempo para cuidar do pobre do dono!

 

Caminho para o arraial era um modo de falar. Estrada mesmo não havia: mal-mal uns trilhos de gado, uns cortando os outros, trançando-se pelos campos e sumindo-se nos cerradões.

 

Tomei as alturas e corri as esporas no meu queimado, que, louvado Deus, era bicho de fiança; nunca me deixou a pé e andou sempre bem arreadinho.

 

O sol já estava some-não-some atrás dos morros; a barra do céu, cor de açafrão; as jaós cantavam de lá, as perdizes respondiam de cá, tão triste!

 

Quando eu ganhei o espinhaço da serra, lá em cima, as nossas sombras, muito compridas, estendiam as cabeças até ao fundo do boqueirão.

 

Era tempo de escuro. O que ainda me valeu, abaixo de Deus, foi que estava chegando o meio do ano, e nessa ocasião, a estrela do pastor nasce de tarde e alumia pela noite adentro.

 

Enquanto foi dia, ainda que bem; mas, quando a noite fechou deveras e eu não tinha no meio daquele campo outra claridade senão a da estrela, só Noss’enhor sabe por que não acompanhei o compadre para o outro mundo, rodando por alguma perambeira, ou caindo com o seu corpo no fundo de algum grotão.

 

Nos cerradões, ou nos matos, como no da beira do ribeirão, eu não enxergava, às vezes, nem as orelhas do meu queimado, que descia os topes gemendo. O compadre, aí rente. O que vale é que “macho que geme, a carga não teme”, lá diz o ditado.

 

Toquei para diante: sobe morro, desce morro, vara chapada, fura mato, corta cerradão, salta córrego – eu fui andando sempre. O defunto vinha com o chapéu de couro preso no pescoço pela barbela e caído para a carcunda. Quando o queimado trotava um pouco mais depressa, o chapéu fazia pum, pum, pum. O compadre a modo que estava esfriando demais.

 

Não sei se era porque fosse mesmo tempo de frio, eu peguei a sentir nas costas uma coisa que me gelava os ossos e chegava a me esfriar o coração. Jesus! que friúra aquela!

 

A noite ia fechando, fechando. Eu já seguia não sei como, pois tinha de andar só pelo rumo. O queimado, às vezes, refugava aqui, fugia dacolá, cheirava as moitas e bufava. Pelo barulho d’água, eu vi que nós íamos chegando à beira do ribeirão. Tinha aí de atravessar uma mataria braba, por um trilho de gado. Insensivelmente, eu fugia de um galho, negava o corpo a outro, virando na sela campeira. A cabeça do compadre, que, no princípio, batia de lá para cá e, às vezes, escangotava, endureceu, e o queixo dele, com a marcha do animal, me martelava a apá.

 

Fui tocando. Dentro da mataria, passava um ou outro vaga-lume, e havia uma voz triste, grossa, vagarosa, de algum pássaro da noite que eu não conheço e que cantava num tom só, muito compassado, zoando, zoando…

 

Em certa hora parecia que meu cavalo marchava num terreno oco: ao baque das passadas respondia lá no fundo outro baque e o som rolava como um trovão longe. A ramaria estava cerrada por cima de minha cabeça, que nem a coberta do meu rancho. O trilho a modo que ia ficando esconso, porque o queimado não sabia onde pisar; chegou uma horinha em que ele pegou a patinhar para cima, para baixo, de uma banda e de outra, sem adiantar um passo.

 

O bicho parecia que estava ganhando força para fazer alguma.

 

Não levou muito tempo, ele mergulhou aqui para sair lá adiante, descendo ao fundo de um buraco e galgando um tope aos arrancos, escorrega aqui, firma acolá.

 

Nesse vaivém, nesse balanço dos diabos, o corpo do compadre pendia pra lá, pra cá. Uma vez ou outra, ele ia arcando, arcando; a cara dele chegava mais perto da minha e – Deus me perdoe! – pensei até que ele queria me olhar no rosto.

 

Eu ia tocando toda-vida. Mas, aquele frio, ih! aquele frio foi crescendo, foi me descendo para os pés, subindo para os ombros, estendendo-se para os braços e encarangando-me os dedos. Eu já quase não senti as rédeas, nem os estribos.

 

Aí, por Deus! eu não enxergava nem as pontas das orelhas do queimado; a escuridão fechou de todo e o cavalo não pôde romper. Corri-lhe as esporas; o bicho era de espírito, eu bem sabia; mas bufava, bufava, cheirando alguma coisa na frente e refugava… Tanto apertei o bicho nas esporas, que, de repente, ele suspendeu as mãos no ar… O corpo do compadre me puxou para trás, mas eu não perdi o tino. Tinha confiança no cavalo e debrucei-me para a frente… Senti que o casco do queimado batia numa torada de pau atravessada por cima do trilho.

 

E agora, Benedito? Entreguei a alma a Deus e bambeei as rédeas. O cavalo parou, tremendo… Mas, o focinho dele andava de um lado para o outro, cheirando o chão e soprando com força… Com pouca dúvida, ele foi se encostando devagarinho, bem rente do mato; minhas pernas roçavam nos troncos e nas folhas do arvoredo miúdo. Senti um arranco e, com a ajuda de Deus, caí do outro lado, firme nos arreios: o queimado achou jeito de saltar a barreira nalgum lugar favorável.

 

Toquei para diante. Ah! patrão! não gosto de falar no que foi a passagem do ribeirão aquela noite! Não gosto de lembrar a descida do barranco, a correnteza, as pedras roliças do fundo d’água, aquele vau que a gente só passa de dia e com muito jeito, sabendo muito bem os lugares. Basta dizer que a água me chegou quase às borrainas da sela, e do outro lado, cavalo, cavaleiro e defunto – tudo pingava!

 

Eu já não sentia mais o meu corpo: o meu, o do defunto e o do cavalo misturaram-se num mesmo frio bem frio; eu não sabia mais qual era a minha perna, qual a dele… Eram três corpos num só corpo, três cabeças numa cabeça, porque só a minha pensava… Mas, quem sabe também se o defunto não estava pensando? Quem sabe se não era eu o defunto e se não era ele que me vinha carregando na frente dos arreios?

 

Peguei a imaginar nisso, meu patrão, porque – medo não era, tomo a Deus por testemunha! – eu não sentia mais nada, nem sela, nem rédea, nem estribos. Parecia que eu era o ar, mas um ar muito frio, que andava sutil, sem tocar no chão, ouvindo – porque ouvir eu ouvia – de longe, do alto, as passadas do cavalo, e vendo – eu ainda enxergava também – as sombras do arvoredo no cerrado e, por cima de mim, a boiada das estrelas no pastoreio lá do céu!

 

Só este medo eu tive, meu patrão – de não poder falar.

 

Quis chamar por meu nome, para ver se eu era eu mesmo; quis lembrar alguma coisa desta vida, mas não tive coragem de experimentar…

 

Aí já não posso dizer que marchei para diante: fui levado nessa dúvida, pensando que bem podia ser eu alguma alma perdida naquela noite, zanzando pelos campos e cerrados da terra onde assisti de menino…

 

E quem sabe também se a noite era só noite para meus olhos, olhos vidrados de defunto? Bem podia ser que fosse dia claro…

 

Haverá dia e noite para as almas, ou será o dia das almas essa noite em que vou andando?

 

Essa dúvida, patrão, foi crescendo… E uma hora chegou em que eu não acreditava em mim mesmo, nem punha mais fé no que eu tinha visto antes… Peguei a pensar que era minha alma quem ia acompanhando pela noite fora aqueles três vultos…

 

Minha alma era um vento, um vento frio, avoando como um curiango arriba das nossas cabeças.

 

Daí, patrão, enfim, entendi que aquilo tudo por ali em roda era algum logradouro da gente que já morreu, alguma repartição de Noss’enhor, por onde a gente passa depois da morte. Mas, aquele escuro e aquele frio! Sim, era muito estúrdio aquilo. Ou quem sabe se aquilo era um pouso no caminho do outro mundo? Numa comparação, podia bem ser o estradão assombreado por onde a alma, depois de separada do corpo, caminha para onde Deus é servido.

 

Ah! patrão! o que minh’alma imaginou aquele tempo todo eu não lhe posso contar, não! Sei que fomos embora, aqueles três vultos, um carregando dois e todos três irmanados da mesma escuridão.

 

Tocamos.

 

De repente, peguei a ouvir galo cantar. Uai! Era bem o canto do galo; com pouca dúvida, um cachorro latiu lá adiante. Gente, que é isso? Que trapalhada era essa? Era o compadre que estava ouvindo, ou era eu? Pois, então, Benedito virou de novo Benedito?

 

Ou é que as coisas por lá são tal e qual as nossas de cá, com pouca diferença? Galo e cachorro eu ouvi. Estive assuntando mais e ouvi o mugido de uma vaca e o berro de um bezerro… Com um tiquinho de tempo mais, eu vi, e vi bem, uma casa e outra e outra ainda! Gente, isso é o arraial: olha a igreja ali!

 

Não havia dúvida mais: estávamos no arraial e o queimado batia o casco numa calçadinha da rua.

 

Era eu mesmo, era o meu queimado e o compadre aí rente, na garupa!

 

Toquei para a casa do sacristão e bati. Custou muito a responder, mas uma janela abriu e uma cabeça apareceu a modo muito assustada.

 

– Abre a igreja, que tem defunto aqui!

 

– Cruz, cruz, cruz, Ave Maria! – gritou o sacristão assombrado, e bateu a janela, correndo para dentro da casa.

 

Eu não insisti mais. Toquei para a porta da igreja, de onde correram assustados uns cabritos. Defronte, o cruzeiro abria os braços para nós. Como havia de ser?

 

Quem me podia ajudar a descer aquele corpo?

 

Parei um pedaço, olhando para o tempo.

 

Aí o frio pegou a apertar outra vez, e uma coisa me fazia uma zoeira nos ouvidos, que nem um lote de cigarras num dia de sol quente. Que frio, que frio! Meu queixo pegou a bater feito uma vara de canelas-ruivas. Turrr! turrr! O compadre, atracado na minha carcunda, ficou feito um casco de tatu; quando meu calcanhar batia no pé dele, o baque respondia no corpo todo e o queixo dele me fincava com mais força na apá. A porta da igreja pegou a rodar, principiando muito devagarinho; e o cruzeiro a modo que saía do lugar, vinha para mim, subia lá em cima, descia cá embaixo, como uma gangorra, mal comparando.

 

Peguei a sentir, não sei se na cabeça, não sei mesmo onde, um fogo, que era fogo lá dentro e cá fora, no meu corpo, nas minhas pernas, nas mãos, nos pés, nas costas era uma friúra, que ninguém nunca viu tão grande!…

 

Meu braço não mexia, minhas mãos não mexiam, meus pés não saíam do lugar; e, calado como defunto, eu fiquei ali, de olhos arregalados, olhando a escuridão, ouvidos alertas, ouvindo as coisas caladas!

 

Meu cavalo, entresilhado também de fome, de cansaço e de frio, vendo que a carga não era de cavaleiro, desandou a andar à toa, pra baixo, pra cima, catando aqui-acolá uns fiapos de capim…

 

Quando eu passava por perto da porta de alguma casa, fazia força e podia gritar:

 

– Ô de casa! Gente, vem ajudar um cristão! Vem dar uma demão aqui!

 

Ninguém respondia!

 

Numa porta em que o cavalo parou mais tempo – porque uma hora meu queimado parecia cavalo de aleijado parando nas portas para receber esmola – apareceu uma cara… E quando eu disse:

 

– “É um defunto…” – a pessoa soltou um grito e correu para dentro esconjurando…

 

Mas, as casas todas pegaram a embalançar outra vez, e eu estava como em cima d’água, boiando, boiando..

 

Parece que o queimado cansou de andar. Lá nos pés do cruzeiro, onde havia um gramado, ele parou…

 

E foi aí que vieram me achar, de manhãzinha, com os olhos arregalados, todo frio, todo encarangado e duro no cavalo, com o compadre à garupa!

 

Ah! patrão! amigo é amigo!

 

Daí para cá eu andei bem doente…

 

Quantos anos já lá se vão, nem eu sei mais.

 

O que eu sei, só o que eu sei, é que nunca mais, nunca mais aquele friúme das costas me largou!

 

Nem chás, nem mezinha, nem fogo, nem nada!

 

E quando eu ando pelo campo, quando eu deito na minha cama, quando eu vou a uma festa, me acompanha sempre, por toda a parte, de dia e de noite, aquele friúme, que não é mais deste mundo!

 

Coitado do compadre! Deus lhe dê o céu!



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes
Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.

Pedro Barqueiro (Conto), de Afonso Arinos



PEDRO BARQUEIRO

— Eu lhe conto — dizia-me o Flor, quase ao chegar à Cruz de Pedra. — Naquele tempo eu era franzinozinho, maneiro de corpo, ligeiro de braços e de pernas. Meu patrão era avalentoado, temido e tinha sempre em casa uns vinte capangas, rapaziada de ponta de dedo. Eu tinha uma meia-légua, trochada de aço, que era meu osso da correia. 

E, consertando o corpo no lombilho, soltou as rédeas à mula ruana, que era boa estradeira. Inclinou-se para o lado, debruçando-se sobre a coxa, e apertou na unha polegar o fogo do cigarro, puxando uma baforada de fumo. 

— Estávamos, um dia, divertindo-nos com os ponteados do Adão, à viola — disse ele. — Eu estava recostado sobre os pelegos do lombilho, estendidos no chão. A rapaziada toda em roda. Pouco tínhamos que fazer e passava-se o tempo assim. 

Eis senão quando entra o patrão, com aqueles modos decididos, e, voltando-se para um moço que o acompanhava, disse: — Para o Pedro Barqueiro bastam estes meninos! — apontando-me e ao Pascoal com o indicador; não preciso bulir nos meus peitos largos. — O Flor e o Pascoal dão-me conta do crioulo aqui, amarrado a sedenho. 

Para que mentir, patrãozinho? O coração me pulou cá dentro, e eu disse comigo — estou na unha! O Pascoal me olhou com o rabo dos olhos. Parece que o patrão queria experimentar. Éramos os mais novos dos camaradas, e nunca tínhamos servido senão no campo, juntando a tropa espalhada, pegando algum burro sumido. Eu tinha ouvido falar sempre no Pedro Barqueiro, que um dia aparecera na cidade sem se saber quem era, nem donde vinha. Cheguei uma vez a conhecê-lo e falamo-nos. Que boa peça, patrãozinho! Crioulo retinto, alto, troncudo, pouco falante e desempenado. Cada tronco de braço, que nem um pedaço de aroeira.

Estou com ele diante dos olhos, com aquela roupa azuleja, tingido no Barro Preto; atravessado à cinta um ferro comprido, afiado, alumiando sempre, maior que um facão e menorzinho do que uma espada. Esse negro metia medo de se ver, mas era bonito. Olhava a gente assim com ar de soberbo, de cima para baixo. Parecia ter certeza de que, em chegando a encostar a mão num cabra, o cabra era defunto. Ninguém bulia com ele, mas ele não mexia com os outros. Vivia quieto, em seu canto. Um dia, pegaram a dizer que ele era negro fugido, escravo de um homem lá das bandas do Carinhanha. Chegou aos ouvidos do patrão esse boato. Para que chegou, meu Deus! O patrão não gostava de ver negro, nem mulato de proa. Queria que lhe tirasse o chapéu e lhe tomassem a bênção. 

Daí, ainda contavam muita valentia do Barqueiro, nome que lhe puseram por ter vindo dos lados do rio São Francisco. Essas histórias esquentavam mais o patrão, que eu estava vendo de uma hora para outra estripado no meio da rua, porque era homem de chegar quando lhe fizessem alguma. 

Tanto eu como Pascoal tínhamos medo de que o patrão topasse Pedro Barqueiro nas ruas da cidade. 

Subiram de ponto esse receio e a ira do patrão, quando soube de uma passagem do Pedro, num batuque, em casa de Maria Nova, na rua da Abadia. 

Chegara uma precatória da Pedra-dos-Anjicos e o Juiz mandou prender a Pedro. Deram cerco à casa onde ele estava na noite do batuque. Ah! Meu patrãozinho! O crioulo mostrou aí que canela de onça não é assobio. Não é dizer que estivesse muito armado, nem por isso só tinha o tal ferro, alumiando sempre; e com esse ferro deu pancas. Quando cercaram a casinha e lhe deram voz de prisão, o negro fechou a cara e ficou feito um jacaré de papo amarelo. Deu frente à porta da rua e encostou-se a uma parede. Maria Nova estava perto e me disse que ele cochichou uma oração, apertando nos dedos um bentinho, que branquejava na pele negra de sua peitaria lustrosa. 

Chegaram a entrar na casa três homens da escolta, e todos três ficaram estendidos. Pedro tinha oração, e muito boa oração contra armas de fogo, porque José Pequeno, caboclinho atarracado, ao entrar, escancarou no negro o pinguelo de um clavinote e fez fogo. Pedro Barqueiro caminhou sobre ele na fumaça da pólvora e, quando clareou a sala, José Pequeno estava escornado no chão como um boi sangrando. 

Dois rapazinhos quiseram chegar ainda assim, mas Pedro Barqueiro descadeirou um e pôs as tripas de fora a outro, que escaparam, é verdade, mas ficaram lá no chão gemendo por muito tempo. 

Daí para cá, Pedro evitava andar pela cidade, onde só aparecia de longe e à noite. Mas todo o mundo tinha medo dele e vivia adulando-o. 

Um dia, como já lhe contei, apareceu lá em casa um moço pedindo auxílio a meu patrão para agarrar o negro. Era mesmo um escravo, o Barqueiro; mas há muitos anos vivia fugido. Já lhe disse que o patrão queria tirar o topete do valentão, e, para isso, escolheu pobre de mim e Pascoal. 

— Que dizes, Flor? — falou o patrão rindo-se. 

— Uai, meu branco, vossemecê mandando, o negro vem mesmo, e no sedenho. 

— Quero ver isso. 

— Vamos embora, Pascoal! 

Quando íamos a sair, o patrão bateu-me no ombro e, voltando-se para o moço, disse muito firme: — "Pode prevenir a escolta para vir buscar o Barqueiro aqui, de tarde. Hão de dar duzentos mil-réis a estes meninos". 

Desci ao quarto dos arreios, passei a mão na meia-légua e no facão e apertei a correia à cinta. 

Pascoal já estava na porta da rua, assobiando. Tinha por costume, nos momentos de aperto, assobiar uma trova, que diz assim: 

Na mata de Josué
Ouvi o mutum gemê;
Ele geme assim:
Ai-rê-uê, hum! airê. 

Quando Pascoal me viu, soltou uma risada. 

— Está doido, rapaz! — gritou-me. 

— Por quê? 

— Queres mesmo enfrentar o Pedro Barqueiro? Ele faz de nós paçoca. A coisa há de se fazer de outro modo. 

Pascoal tinha tento e eu sempre tive fé nele. Era um cabritozinho mitrado. Saía-lhe cada ideia... Mandou-me guardar a meia-légua e o facão. Depois, foi à venda, escolheu anzóis de pesca e veio para casa encastoá-los. Eu, nem bico! Ajudei a acabar o serviço, certo de que Pascoal tinha alguma na mente. 

— Deixa comigo, ajuntava ele. 

Isso ainda era cedo; o sol estava umas três braças de fora, no tempo dos dias grandes. Lá por casa madrugávamos sempre para ir ao pasto e trazer animais de trato. 

— Vamos fazer uma pescaria, disse-me o Pascoal. — Ali para os lados do Batista, há um poço, onde as curumatãs e os piaus são como formigas. O rancho do Pedro Barqueiro fica perto. Ele mora só e eu conheço bem o lugar. Pela astúcia havemos de prendê-lo. Quando eu gritar: "Segura, Flor!" — tu agarras o negro, mas segura rente! 

E fomos. Nessa hora me veio bastante vontade de fugir ao perigo, de ir passear, porque tinha como certo suceder-nos alguma. "Que é lá, Flor!" — disse de mim para mim. "Um homem é para outro". E, depois, o Pascoal não me deixava nas embiras. Quando descemos o Gorgulho e fomos virando para o lado do córrego, fiquei meio sorumbático. Nesse tempo eu andava arrastando asa à Emília, filha do José Carapina. Era uma roxa bonita deveras e não estava muito longe de me querer. Posso dizer mesmo que na véspera olhou muito para mim, ao passar com a saia de chita sarapintada de vermelho, umas chinelas novas e de cordovão amarelo. Ah! Que peitinho de jaó, patrãozinho! Empinado, redondo, macio como um couro de lontra. Com o devido respeito, patrãozinho, eu estava na peia, enrabichado e foi nesse mesmo dia que ela me deu esta cinta de lã, tecida por suas mãos, que guardo até hoje. 

“Ai! Roxa da minha paixão” — pensava eu — como hei de morrer assim fazendo cruz na boca? O diabo da ideia me atarantou pelo caminho e cheguei a dar tremenda topada numa pedra, no meio da estrada. Curvei-me sobre a perna, agarrei o pé com as mãos e estive dançando, sem querer, um pedacinho do tempo. Depois levantei. Pascoal sentara num barranco e encarava para mim, rindo. Levantei a cabeça e olhei para cima, assuntando. No céu galopavam umas nuvens escuras, a modo de um bando de queixadas rodando pelo campo. Um vento áspero passava, arrancando do jenipapeiro as frutas maduras, que esborrachavam no chão assim — prof! — espantando os juritis que nadavam esgaravatando a terra e comendo grãozinhos. Duas seriemas guinchavam, esgoelavam. Depois, vi que estavam brigando — me lembra como de fosse hoje — e uma avançada para outra dando pulinhos, sacudindo as asas, com o cocuruto arrepiado e os olhos em fogo. O coração pareceu dizer-me outra vez — "Olha, Flor, o que vais fazer". Nesse entretanto, o Pascoal, que me encarava sempre do ponto estava sentado, gritou-me: "Esqueceste a cabeça em algum lugar? Vamos embora, que já vai tardando". 

Fiquei desacochado, caí em mim e fui marchando disposto. Daí em diante, fui brincando com o Pascoal, que era muito divertido e tinha sempre um caso a contar. Chegando embaixo, arregaçamos as calças e descemos o córrego, cada um com o seu anzol na vara, ao ombro. 

Era preciso que ninguém desconfiasse do nosso conluio para prendermos o Pedro Barqueiro. 

Aí, quase que tínhamos esquecido o perigoso mandado, tão diferente andava a conversa com as caçoadas do Pascoal. 

Para entrar na história, patrãozinho, achamos Pedro Barqueiro no rancho, que só tinha três divisões: a sala, o quarto dele e a cozinha. 

Quando chegamos, Pedro estava no terreiro debulhando milho, que havia colhido em sua rocinha ali perto. 

— Vocês por aqui, meninos? Olhem! Vão ali naquele poço, para baixo da cocheira. Tem uma laje grande e de cima dela vocês podem fazer bichas com os piaus. 

— Louvado seja Cristo, meu tio! — havia dito o Pascoal, e nisto o imitei. 

— Se quiserem comer uma carne assada ao espeto, tirem um naco; está na fumaça, por cima do fogão, uma boa manta. Olhem a faca aí na sala, se vocês não têm algum caxirenguengue. 

Pascoal entrou, e viu recostado a um canto da parede o ferro alumiando. Pegou nele, saiu pela porta da cozinha e escondeu-o numa restinga, ao fundo. Depois, me assobiou, eu acudi e fui procurar a "lazarina" de Pedro — uma boa arma, de um só cano, é verdade, mas comedeira. 

— Há alguma jaó por aqui, tio Pedro? — perguntou Pascoal. 

— Nem uma, nem duas, um lote delas. Se você quer experimentar minha arma, vá lá dentro e tire-a. Não errando a pontaria, você traz agora mesmo uma jaó. 

— Quero matar um passarinho para fazer isca, meu tio. 

— Pois vá, menino. 

E Pascoal descarregou a arma.

 Pedro tinha se levantado e falava com Pascoal do vão da porta da entrada. 

Era hora. 

Pascoal me fez um sinalzinho, eu dei volta e entrei pela porta do fundo para agarrar o Barqueiro pelas costas. A combinação era essa. Enquanto Pascoal o foi entretendo, eu fui chegando soturno, quando ele gritou: — "Segura!" — eu pulei como uma onça sobre o negro desprevenido. 

Conheci o que era um homem, patrãozinho! Saltando-lhe nas costas, dei-lhe um abraço de tamanduá no pescoço. Mas o negro não pateou, e, mergulhando comigo para dentro da sala, gritou: 

— Nem dez de vocês, meninos! Ah! Se eu soubesse... 

Patrãozinho, eu sei dizer que o negro me sacudiu para cima como um touro bravo sacode uma garrocha. Mas eu via que, se o largasse, estava morto, e arrochei os braços. 

— Chega, Pascoal! — gritei. 

— Eu quero manobrar de fora. Ânimo! Segura bem que nós amarramos o negro. 

Que tirada de tempo! O negro, às vezes, abaixava a cabeça, dando de popa, e minhas pernas dançavam no ar, tocando quase o teto do rancho. Lutamos, lutamos até que Pascoal pôde meter um tolete de pau entre as canelas de Pedro, de modo que ele cambaleou, e caiu de bruços. Nós dois pulamos em riba dele. Eu, triunfante, gritava: "Conheceu crioulo? Negro é homem?" Ele era teimoso, porque dizia ainda: "Nem dez de vocês, meninos! Ah! Se eu soubesse..." Pascoal trazia à bandoleira um embornal para carregar peixe e veio dentro dele escondida uma corda de sedenho, comprida e forte. O Barqueiro estava no chão; e foi preciso ainda fazermos bonito para agarrá-lo. 

— Agora, puxe na frente, seu negro! — gritou-lhe o Pascoal. 

Havíamos juntado os braços dele nas costas e apertamos com vontade. Ficou completamente tolhido. 

Eu ia segurando a ponta do sedenho e levava o negro na frente. Mesmo assim, houve uma hora em que ele me deu um tombo, arrancando a correr. Por seguro, a corda estava-me enrolada na mão e eu não a larguei. Nesse instante Pascoal tinha corrido atrás dele e lhe descarregado na nuca um tremendo murro, que o fez bambear um pouco e me deu tempo de endurecer o corpo e segurar firme a corda. 

O Barqueiro, depois que saiu do rancho, não piou. 

Chegamos à casa de tarde e o negro ia no sedenho. 

— Eu não disse — gritava o patrão muito contente — que só bastavam esses dois meninos para o Barqueiro? Está aí o negro. 

E o povo corria para ver e a frente da casa do patrão estava estivada de gente. 

Recebemos os duzentos mil-réis. 

— Tinha me esquecido de contar-lhe que eu fizera uma promessa à Senhora da Abadia, de levar-lhe ao altar uma vela, se voltasse são e salvo. Cumpri a promessa no dia seguinte para a noite. Queria um pé para estar com a Emília. 

Comprei um trancelim de ouro para aquela roxa de meus pecados e um xale azul. Ela era esquiva. Fez muito momo nessa noite, e não quis dar uma boquinha, com o devido respeito ao patrãozinho. 

Saí da casa de José Mendes, onde dei a festa, quando os galos estavam amiudando.

A estrela-d'alva, no céu escuro, parecia uma garça lavando-se na lagoa. O orvalho das vassouras me molhou as pernas e eu estremeci um bocadinho. Entrei num beco que ia sair na rua de Trás, onde eu então morava. 

Ia meio avexado e peguei a banzar. Emília! Emília do coração! Por que me amofinas com esse pouco caso? E desandei a cantar, bem chorada, esta cantiga: 

Tá trepado no pau
De cabeça para baixo,
Com asas caídas
Gavião de penacho! 

Todo o mundo tem seu bem,
Só pobre de mim não tem!
Ai! Gavião de penacho! 

De repente, pulou um vulto diante de mim. Quem havia de ser, patrãozinho? Era o Pedro Barqueiro em carne e osso. Tinha, não sei como, desamarrado as cordas e escapado da escolta, em cujas mãos o patrão o havia entregado. 

O ladrão do negro tinha oração até contra sedenho! 

Sem me dar tempo de nada, o Barqueiro me agarrou pela gola e levantou-me no ar três vezes, de braço teso, e gritou: 

— Pede perdão, cabrito, desavergonhado, do que fizeste ontem, que te vou mandar para o inferno! Pede perdão, já! 

A gente precisa ter um bocado de sangue nas veias, patrãozinho, e um homem é um homem! Eu não lhe disse nem pau nem pedra. Vi que morria, criei ânimo e disse comigo que o negro não havia de pôr o pé no meu pescoço. 

Exigiu-me ele, ainda muitas vezes, que lhe pedisse perdão, mas eu não respondi. Então, ele foi-me levando nos braços até uma pontezinha que atravessava uma perambeira medonha. A boca do buraco estava escura como breu e parecia uma boca de sucuri querendo engolir-me. Suspendeu-me arriba do parapeito da ponte e balançou meu corpo no ar. Nessa hora, subiu-me um frio pelos pés e um como formigueiro me passou pela regueira das costas até a nunca; mas minha boca ficou fechada. Então, o Barqueiro, levantando-me de novo, me pousou no chão, onde eu bati firme. 

O dia estava querendo clarear. O negro olhou para mim muito tempo, depois disse: 

— Vai-te embora, cabritinho, tu és o único homem que tenho encontrado nesta vida!

 Eu olhei para ele, pasmado. 

Aquele pedaço de crioulo cresceu-me diante dos olhos e vi — não sei se era o dia que vinha raiando — mas eu vi uma luz estúrdia na cabeça de Pedro. 

Desempenado, robusto, grande, de braço estendido, me pareceu, mal comparando, o Arcanjo São Miguel expulsando o Maligno. Até claro ele ficou essa hora! Tirei o chapéu e fui andando de costas olhando sempre para ele. 

Veio-me uma coisa na garganta e penso que me ia faltando o ar. 

Insensivelmente, estendi a mão. As lágrimas me saltaram dos olhos, e foi chorando que eu disse: 

— Louvado seja Cristo, tio Pedro! 

Quando caí em mim, ele tinha desaparecido.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes
Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.

12/06/2017

A Cadeirinha (Conto), de Afonso Arinos


A CADEIRINHA

Naquele fundo de sacristia, escondida ou arredada como si fora uma imagem quebrada cuja ausência do altar o decoro do culto exige, encontrei a cadeirinha azul, forrada de damasco cor de ouro velho. Na frente e no fundo, dois pequenos painéis pintados em madeira com traços finos e expressivos. Representava cada qual uma dama do antigo regime. A da frente, vestida de seda branca, contrastava a alvura do vestido e o tênue colorido da pele como negrume dos cabelos repuxados em trunfa alta e o vivo carmim dos lábios; tinha um ar desdenhoso e fatigado de fidalga elegante para quem os requintes da etiqueta e galanteios dos salões são já coisas velhas e comezinhas. A outra, mais antiga ainda, trazia as melenas em cachos artísticos sobre as fontes e as pequeninas orelhas; um leque de marfim semiaberto comprimia-lhe os lábios rebeldes que queriam expandir-se num riso franco; os olhos grandes e negros tinham mais paixão e mais alma. Esta contemporânea de La Vallière, que o artista anônimo perpetuou na madeira da cadeirinha, não se parecia muito com aquela meiga vítima da régia concupiscência; ao contrário, um certo arregaçado das narinas, uma ponta de ironia que lhe voejava na comissura da boca breve e enérgica — tudo isso mostrava estar ali naquele painel representada uma mulher meridional, ardente e vivaz, pronta ao amor apaixonado ou à luta odienta. Aqueles mesmos bicos alvos de renda que, acompanhando a curva do decote, pareciam recortar o moreno jambeado daquele colo de sultana, os mesmos bicos de renda estavam a dizer, sobre o doce palor amorenado do colo, que a dama dos olhos ardentes tinha escondidas no canto dos lábios a doçura da ambrosia e a peçonha da serpente.

 

Sem querer acrescentar mais ao já dito sobre as damas, perguntava de mim para mim si o pintor do século passado, ao traçar com tanta correção e finura os dois retratos de mulher, transmitindo-lhes em cada cabelo do pincel uma chama de vida, não estaria realmente diante de dois espécimes raros de filhos de Eva, de duas heroínas que por serem de comédia ou de ópera nem por isso deixam de o ser da vida real?

 

— Quem sabe se a Fontanges e a Montespan?

 

— Qual! impossível!

 

— Impossível, não! porque a cadeirinha podia perfeitamente ter sido pintada em França e era até mais natural crê-lo; porquanto a finura das tintas e a correção dos traços pareciam indicar um artista das grandes cortes da época.

 

E assim, em tais conjecturas, pus-me a examinar mais detidamente o velho e delicado veículo, relíquia do século passado, sobrevivendo não sei porque na sacristia da igreja de um modesto arraial mineiro. Os varais, conformes à moda bizarra do tempo, terminavam em cabeças de dragões com as fauces abertas e sanguentas e os olhos com uma expressão de ferocidade estúpida. O forro de cima formava um pequeno dossel de trono senhorial; e o ouro velho do damasco que alcatifava também dois assentos fronteiriços não tem igual nas casas de modas de agora.

 

Qual das matronas de Ouro-Preto, ou das cidades que como esta alcançam mais de um século, não terá visto, ou pelo menos ouvido falar com insistência, quando meninas, nas cadeirinhas conduzidas por lacaios de libré, onde as moçoilas e as damas de outrora se faziam delicadamente transportar?

 

Quem não fará reviver na imaginação uma das cenas galantes da cortesia antiga em que, através da portinhola cortada de caprichosos lavores de talha, passava um rostosinho enrubescido e dois olhos de veludo a pousarem de leve sobre o cavaleiro de espadim com quem a misteriosa dama cruzava na passagem?

 

Também, ó pobre cadeirinha, lá terias o teu dia de caiporismo: havia de chegar a hora em que, em vez dos saltos vermelhos de um sapatinho de cetim calçando um pesinho delicado, teu fundo fosse calçado pela chanca esparramada de alguma cetácea obesa e tabaquista. Como havia de gemer então a alcatifa de damasco cor de ouro velho revoltada contra semelhante profanação: — alguma mulata velha e alentada, apreciadora da mecha ou do rolão, a refocilar-se na cadeirinha, espalhando a toucinheira das nádegas num dos assentas fronteiriços!

 

Nem foram desses os teus piores dias, ó saudosa cadeirinha! Já pelos anos de tua velhice, quando, como agora, sobrevivias ao teu belo tempo passado, quando, perdidos teus antigos donos, alguém se lembrou de carregar-te para a sacristia da igreja, não te davam outro serviço que não o de transportares, como esquife, cadáveres de anjinhos pobres ao cemitério, ou semelhante às maças das ambulâncias militares, o de conduzires ao hospital feridos ou enfermos desvalidos.

 

Que cruel vingança não toma aquela época longínqua por lhe teres sobrevivido! Coisa inteiramente fora da moda, o contraste flagrante que formas com o mundo circundante é uma prova evidente de tua próxima eliminação, ó velha cadeirinha dos tempos mortos!

 

Mas, é assim a vida: as espécies, como os indivíduos, vão desaparecendo ou se transformando em outras espécies e em outros indivíduos mais perfeitos, mais complicados, mais aptos para o meio atual, porém muito menos grandiosos que os passados. Que figura faria o elefante de hoje, resto exótico da fauna terciária, ao lado do megatério? A de um filhote deste. E no entanto, bem cedo, talvez nos nossos dias, desaparecerá o elefante, por já estar em desarmonia com a fauna atual, por constituir já aquele doloroso contraste de que falamos acima e que é o primeiro sintoma da próxima eliminação do grande paquiderme. Parece que o progresso marcha para a dispersão, a desagregação e o formigamento. Um grande organismo tomba e se decompõe e vai formar uma inumerável quantidade de seres ávidos de vida. A morte, essa grande ilusão humana, é o início daquela dispersão, ou antes a fonte de muitas vidas. E que grande consoladora!

 

Lembra-me ter visto, há tempos, um octogenário de passo trôpego e cara rapada passeando em trajes domingueiros a pedir uma carícia ao sol. Dirigi-lhe a palavra e detivemo-nos largo espaço a falar dos costumes, das coisas e dos homens do outro tempo. Nisso surpreendeu-nos um magote de garotos que escaramuçou o velho a vaias. O pobre do ancião já ia seguindo seu caminho quando o abordou a meninada; não apressou o passo nem perdeu aquela serenidade de quem já tinha domado as fúrias das paixões com o vencer os anos. Vi-o ainda voltar-se com o rosto engelhado numa risada tristíssima, a comprida japona abanando ao vento e dizer, em tom de convicção profunda: "Ai dos velhos, se não fosse a morte!" Parecia uma banalidade, mas não era senão o apelo supremo, a prece fervente que esse exilado fazia a Deus para que pusesse termo ao seu exílio, onde ele estava fora dos seus amigos, dos seus costumes, de tudo quanto lhe podia falar ao coração. O próprio aspecto da terra não era o mesmo que no seu tempo, porque também os riachos mudam de leito, as grandes árvores tombam e o solo se rasga em fundos precipícios à ação pertinaz das chuvas.

 

Por que, pois, a pobre cadeirinha, esse mimo de graça, esse traste casquilho, essa fiel companheira da vida de sociedade, da vida palaciana, da vida de corte com seus apuros e suas intrigas, suas vinganças pequeninas, seus amores, para que sobrevive e porque a não pôs em pedaços um braço robusto empunhando um machado benfazejo? Ao menos evitaria esse dolorosíssimo ridículo, essa exposição indecorosa de nudez de velha!

 

Já tiveste dias de glória, cadeirinha de outros tempos! Pois bem: desaparece agora, vai ao fogo e pede que te reduza a cinzas! É mil vezes preferível a essa decadência em que te achas e até mesmo à hipótese mais lisonjeira de te perpetuarem num museu. Deves preferir a paz do aniquilamento à glória de figurares numa coleção de objetos antigos, exposta à curiosidade dos papalvos e às lorpas considerações dos burgueses, mofada e tristonha. Morre, desaparece, que talvez — porque não? — a tua dona mais gentil, aquela para quem tuas alcatifas tinham mais delicada carícia ao receber-lhe o corpinho mimoso, aquela que rescendia um perfume longínquo do roseiro do Chiraz talvez te conduza para alguma região ideal, dourada e fugidia, inaccessível aos homens...

 

Desaparece, aniquila-te, ou foge, cadeirinha! Lá, naquela mansão bem-aventurada, pegarão teus varais, não lacaios de libré, mas alvos mancebos de vestes brilhantes e olhar atrevido. Estes conduzirão através de nuvens a criatura feiticeira que encantou o seu tempo e que deixou impressa no tabuado de teu fundo, ó cadeirinha de outras eras, como uma carícia eterna, a lembrança do contato de um pé-taful, calçadinho de cetim.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes
Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.