sábado, 8 de outubro de 2016

História de Alibe, persa (Conto), de Fénelon


História de Alibe, persa - Por: Fénelon
Tradução de Frederico dos Reys Coutinho, publicada originalmente no ano de 1944,  pela antiga e extinta Editora Vecchi. A pesquisa, digitalização e atualização ortográfica é de  Iba Mendes (2016)


O Xá Abas, rei da Pérsia, durante uma viagem, distanciou-se de todo o seu séquito a fim de passar pelo campo sem ser reconhecido e para aí apreciar o povo em toda a sua liberdade natural; levou consigo apenas um de seus cortesãos. "Não conheço absolutamente, disse-lhe o soberano, os verdadeiros costumes dos homens; tudo o que de nós se aproxima está disfarçado. É a arte, e não a simples natureza, que se nos apresenta. Quero estudar a vida rústica e ver essa espécie de homens que é tão desprezada, embora sejam o verdadeiro sustentáculo de toda sociedade humana. Estou enfadado de ver palacianos que me observam para me surpreender com lisonjas; preciso ver agricultores e pastores que não me conheçam."


Passou ele, com seu confidente, por muitas aldeias onde havia danças, e maravilhava-se ao encontrar, longe dos palácios, prazeres tranquilos e nada dispendiosos. Fez uma refeição numa cabana, e como estivesse com muita fome, após haver andado mais que de costume, os simples alimentos que aí encontrou souberam-lhe melhor que todas as finas iguarias de sua mesa. Ao passar numa campina matizada, de flores, marginada por límpido regato, avistou um pastorzinho que tocava flauta à sombra de um grande olmo, junto a seus carneiros; aproximou-se dele, observou-o, achou-lhe uma fisionomia agradável, um ar simples e ingênuo, mas nobre e gracioso.

Os trapos que o pastor vestia em nada empanavam o brilho de sua beleza. O rei julgou, a princípio, que fosse alguém de nascimento ilustre que se houvesse disfarçado, mas soube pelo pastor que seu pai e sua mãe habitavam uma aldeia próxima e que seu nome era Alibe.
À medida que o soberano o interrogava, ia apreciando nele um espírito firme e sensato. Seus olhos eram vivos e nada possuíam de violento ou selvagem; a voz era doce, insinuante e própria para sensibilizar. O rosto nada possuía de rústico, mas sua beleza não era uma beleza indolente, afeminada. O pastor, de dezesseis anos aproximadamente, não sabia que era assim como os outros o viam; julgava pensar, falar, ser, enfim, como todos os outros pastores de sua aldeia; mas, sem educação, aprendera tudo que a razão ensina àqueles que a ouvem. O soberano, depois de conversar com ele familiarmente, sentiu-se encantado; foi por ele informado das condições dos povos, de tudo que os reis nunca vêm a saber da multidão de bajuladores que os rodeia. De vez em quando se ria da ingenuidade daquela criança que se expressava com absoluta liberdade; era uma grande novidade para o rei, ouvir alguém falar tão espontaneamente. Fez sinal ao cortesão que o acompanhava para não dizer quem ele era; porque temia que Alibe perdesse num instante toda a sua naturalidade e seu encanto, caso soubesse com quem falava.
"Bem vejo, dizia o príncipe ao cortesão, que a natureza não é menos bela nas condições mais humildes que nas mais eminentes. Jamais filho algum de rei me pareceu melhor nascido que este guardador de carneiros; sentir-me-ia muito feliz em ter um filho tão belo, tão sensato, tão amável. Parece-me apto para tudo e, caso se tenha o cuidado de instruí-lo, certamente será algum dia um grande homem; quero que seja educado junto a mim."
O rei levou Alibe, que muito surpreso ficou quando soube a quem havia agradado. Ensinaram-lhe a ler, a escrever, a cantar e deram-lhe depois professores das artes e ciências que adornam o espírito. A princípio ficou um tanto maravilhado com a corte, e a grande modificação do seu destino lhe afetou um tanto o coração. Sua idade e a valia de que desfrutava, reunidas, alteraram um pouco sua sabedoria e sua moderação; ao invés do seu cajado, da sua flauta e do seu traje de pastor, vestiu um traje de púrpura bordado a ouro com um turbante coberto de pedrarias. Sua beleza superou tudo que a corte possuía de mais agradável; ele se tornou apto para os negócios mais sérios e mereceu a confiança de seu senhor que, conhecendo o gosto requintado de Alibe por todas as magnificências de um palácio, acabou dando-lhe um cargo muito importante na Pérsia, qual seja o de guardar tudo que o príncipe possui em pedrarias e em alfaias de valor.
Durante toda a vida do grande xá Abas, a valia de Alibe não cessou de aumentar. À medida que ele ia alcançando idade mais madura, mais se lembrava de sua condição antiga e muitas vezes dela sentia saudade: "Ó belos dias, dizia consigo, dias inocentes, dias em que desfrutei uma alegria pura e sem perigo, dias depois dos quais outros não tive tão aprazíveis, será que não vos tornarei a ver? Aquele que de vós me privou, ao me dar tantas riquezas, privou-me de tudo." Quis rever sua aldeia; comoveu-se em todos os lugares onde outrora dançara, cantara, tocara flauta com seus companheiros. Fez algum bem a todos os seus parentes e amigos; mas almejou-lhes como principal felicidade, que jamais deixassem a vida campestre e nunca experimentassem as desditas da corte.
Tais desditas ele as sentiu, após a morte do seu bom senhor o xá Abas. A este sucedeu o filho, xá Sefi. Cortesãos invejosos e dominados, pela ambição acharam meios e modos de preveni-lo contra Alibe: "Ele abusou, diziam, da confiança do falecido rei; acumulou tesouros imensos e desviou muitas coisas de altíssimo valor, das quais era o depositário." O xá Sefi era jovem e príncipe; tanto não era necessário para ser crédulo, desatento e incauto. Teve a vaidade de querer parecer reformar aquilo que o rei seu pai fizera, e julgar melhor que ele. A fim de ter um pretexto de destituir Alibe de seu cargo, pediu-lhe, a conselho de seus cortesãos invejosos, que lhe levasse uma cimitarra guarnecida de diamantes, de imenso valor, que o rei seu avô costumava cingir nos combates. O xá Abas mandara outrora tirar dessa cimitarra todos os seus belos diamantes e Alibe provou, com boas testemunhas, que tal coisa fora feita por ordem do falecido rei, antes de ser dado o cargo.
Quando os inimigos de Alibe viram que não mais podiam servir-se desse pretexto para perdê-lo, aconselharam ao xá Sefi que lhe pedisse para fazer, dentro de quinze dias, um inventário rigoroso de todas as alfaias preciosas, cuja guarda, lhe incumbia. Ao cabo de quinze dias, pediu para ver pessoalmente todas as coisas. Alibe abriu-lhe todas as portas e mostrou-lhe tudo que ele guardava. Nada faltava: tudo estava limpo, bem arrumado e conservado com muito zelo. O rei, muito surpreso de encontrar por toda parte tanta ordem e cuidado, quase modificara sua disposição a favor de Alibe, quando avistou, na extremidade de uma grande galeria cheia de esplêndidas alfaias, uma porta de ferro, com três enormes fechaduras. "É aí, disseram-lhe ao ouvido os cortesãos invejosos, que Alibe escondeu todas as cousas preciosas que desviou." Logo o rei gritou encolerizado: "Que guardou aí? Mostre-mo!"
A essas palavras Alibe atirou-se a seus pés, suplicando-lhe, em nome de Deus, que, não lhe tirasse o que ele possuía de mais precioso sobre a terra: "não é justo que eu perca num momento o que me resta e que representa meu derradeiro recurso, após haver trabalhado tantos anos junto aio rei seu pai. Tirai, se quiserdes, o restante, mas deixai-me isso."
O rei não teve a menor dúvida de que se tratava de um tesouro mal adquirido que Alibe reunira; falou em tom mais alto e fez absoluta questão de que lhe abrissem a porta. Afinal, Alibe, que estava com a chave, abriu-a pessoalmente. Depararam apenas com o cajado, a flauta e o traje de pastor que Alibe possuíra outrora, e que muitas vezes revia com júbilo, receoso de esquecer sua primitiva condição: "Eis, disse, ó grande rei, os preciosos restos de minha antiga felicidade; nem a fortuna, nem vosso poder, puderam privar-me deles; eis meu tesouro que conservo para me enriquecer, quando me tiverdes tornado pobre. Retomai tudo o mais, deixai-me estas queridas lembranças de meu primeiro estado; ei-los, meus verdadeiros bens, que jamais me faltarão. Ei-los, estes bens singelos, inocentes, sempre caros àqueles que sabem contentar-se com o necessário, porque não se atormentam absolutamente com o supérfluo; ei-los, estes bens que nunca me causaram um instante de dificuldade; ó queridos instrumentos de uma vida simples e feliz! Só a vós amo, convosco é que desejo viver e morrer. Porque foi preciso que outros bens enganadores me viessem iludir e perturbar minha vida! Eu vo-las restituo, grande rei, todas as riquezas que me vierem de vossa liberalidade; conservo apenas as que possuía quando o rei vosso pai, veio, com suas mercês, tornar-me infortunado."
O rei, ao ouvir essas palavras, compreendeu a inocência de Alibe e indignando-se com os cortesãos que o quiseram perder, expulsou-os. Alibe tornou-se o seu principal auxiliar e foi incumbido dos negócios mais reservados. Mas todos os dias tornava a ver seu cajado, sua flauta e seu antigo traje, que conservava sempre prontos em seu tesouro, a fim de retomá-los, mal o destino inconstante perturbasse a sua situação. Morreu, na extrema velhice, sem nunca ter querido, nem mandado punir seus inimigos, nem reunir fortuna alguma, deixando apenas a seus parentes o com que viverem na condição de pastor, que lhe pareceu sempre a mais segura e a mais feliz.

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Fonte:
"Os mais belos contos franceses dos mais famosos autores". Tradutores: Marina Guaspari, Frederico Dos Reys Coutinho, Édison Carneiro e Gilberto Galvão. Editora Vecchi. Rio de Janeiro, 1944.

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