Abel Botelho
Adolfo Coelho
Alberto Braga
Alberto Botelho
Alberto Osório de Vasconcelos
Alberto Pimentel
Alexandre Herculano
Alice Pestana
Álvaro do Carvalhal
Ana de Castro Osório
Andrade Ferreira
Antero de Quental
Antônio de Trueba
Antônio Nobre
Antônio Patrício
Antônio Sardinha
Ataíde Oliveira
Bento Serrano
Brito Camacho
Brito de Barros
Bulhão Pato
Camilo Castelo Branco
Carlos Malheiro Dias
Marta Sandomil
Cláudio Basto
Conde de Arnoso
Conde de Ficalho
Conde de Sabugosa
Consiglieri Pedroso
D. João Câmara
Eça de Queirós - Índice do Autor
Eduardo de Barros Lobo
Eduardo Sequeira
Emília Eduarda
Fernando Pessoa
Fialho de Almeida
Florbela Espanca
Guerra Junqueiro
Guiomar Torresão
Henrique de Vasconcelos
João Grave
Júlio Brandão
Júlio César Machado
Júlio Diniz
Lourenço de Caiola
Lutegarda Guimarães de Caires
Manuela Porto
Manuel Teixeira Gomes
Maria Amália Vaz de Carvalho
Maria O’Neill
Maria Pinto Figueirinhas
Mário de Sá-Carneiro
Padre Antônio Vieira
Pedro Ivo
Pinheiro Chagas
Ramalho Ortigão
Raul Brandão
Rebelo da Silva
Ribeiro de Sá
Rodrigo Paganino
Sebastião de Magalhães
Silva Gaio
Teixeira de Queiroz
Trindade Coelho
Teófilo Braga
Virgínia de Castro e Almeida
Wenceslau de Moraes
---
Autores Anônimos
Mostrando postagens com marcador Autores Portugueses. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Autores Portugueses. Mostrar todas as postagens
10/18/2022
6/18/2019
O Berço (Conto), de Pedro Ivo


O Berço
Quem é que,
depois de quinze dias de chuva, deixa de aproveitar uma formosa manhã de sol?!...
Ninguém!
Ao cabo de
uma semana de rigoroso Inverno, atormentava-me a necessidade de movimento, luz,
ar, alegria e vida, e saí, por isso, para a rua, logo às primeiras negaças — que
o sol se lembrou de me fazer.
O meu
espírito — e, neste ponto, julgo-o de acordo com todos os espíritos — acompanha
fielmente o barômetro.
Chove e faz
frio?... Veste-sede negro, assume um ar
grave, que lhe não é natural, e torna-se apto para afrontar os encargos mais
fastidiosos.
Nessas
disposições, não há tarefa árida que lhe
meta medo; folheia autos, digere o código civil, executa com facilidade e exatidão as
quatro operações aritméticas, e não o assusta a obrigação de ler os papéis
velhos, que enchem umas poucas de gavetas, até dar com o recibo de uma conta,
que inocentemente se lembram de
querer cobrar de mim pela segunda vez.
Sobe o barômetro,
e ri o sol lá de cima?... Adeus!... Não há meio de me obrigar a prestar atenção
a coisa alguma.
Um "sim"
ou um "não", se me forçarem a refletir para o pronunciar, é, naquele
estado do meu espírito, a maior das dificuldades.
Eu sei lá se
"sim" se "não"!... O que sei é... que o sol está lá fora à
minha espera.
O tamanco da
aldeã estalando na calçada, o assobio do garoto, o chilrear cínico do pardal — são
outras tantas vozes que me chamam, que me anunciam o azul do céu e o calor do
sol, e eu não sou homem que resista a tais convites, e saio, e rio, e salto
como colegial em férias, e deixo-me guiar pelo acaso, sem destino, para onde as
pernas me levam, e só recolho a casa quando o sol me dá as boas-noites — antes
é que não!
Depois
destas explicações, dizendo eu que andava na rua, já os leitores sabem como o
tempo estava.
Era uma
destas manhãs de Inverno em que o sol fulge radiante e esplêndido, depois de
longa reclusão, como que para convencer os incrédulos de que é dele que nos vem
o calor e a luz!
O que eu,
porém, ainda não disse, é que apesar de um sem-número de pirraças e traições,
creio no sol como na morte!
Quando o
feiticeiro me aparece, julgo impossível que me torne a fugir, entrego-me a ele
com cega confiança, e, se razão mais prudente do que a minha me aconselha que
leve um guarda-sol, indigno-me de que me suponham capaz de repelir um amigo!
O que me tem
acontecido mil vezes, graças à minha delicadeza, é ver-me abandonado pelo
amigo, quando menos o espero, e acossado pela chuva.
Ora foi isto
o que mais uma vez me sucedeu nessa formosa manhã.
Saíra de
casa alegre e sem receios e, em meio do caminho, o meu inconstante amigo
despediu-se sem cerimônia, puxando para os olhos a gola de um espesso e negro
capote de nuvens, e este, que vinha malhado de longa jornada, começou a
escorrer sobre a terra.
Passava eu
na Rua do Almada, perto do Campo de Santo Ovídio, quando as primeiras gotas
começaram a cair.
Não ver o
sol e ver a chuva — foi o bastante para se me virar o espírito do avesso.
"Pois
apanho-a!... — concluí eu mentalmente. — Onde diabo me hei de eu meter?..."
Mandei os
olhos adiante em procura de um portal cômodo, e eles, depois de correrem um
pouco, estacaram diante de uma casa, a cuja janela flutuava uma bandeira
vermelha com a inscrição em letras brancas: "LEILÃO."
Hesitei
antes de entrar; mas entrei.
Vou agora
dizer-lhes porque hesitei.
Hesitei,
porque as peripécias de um leilão produzem em mim o mesmo efeito que produzem o
cheiro da pólvora e o ardor da refrega no ânimo do recruta. À vista do combate,
ou, para melhor dizer, teima dos licitantes, animo-me, impaciento-me,
encarno-me num dos contendores, sofro e odeio com ele e estou numa tortura, se
noto que o objeto da minha simpatia começa a fraquear!
Chegado a
este ponto, se o meu homem cede, abafo um rugido de cólera e, lançando um olhar
odiento ao que se julga senhor do campo, murmuro por entre dentes:
"Pois
não a levas barata... Deixa estar que eu arranjo-te!..."
E aí começo
eu então a fazer tolices, a debater-me como um furioso, até que o leiloeiro
deixa cair o martelo e me pergunta com irônica amabilidade:
"O nome
do senhor?..."
Dado este
primeiro passo, se alguém, consciencioso, se lembra de me fazer notar a
asneira, desnorteio, vou para diante e... é contar que, no dia seguinte, tenho
em casa, por preço fabuloso, uma feira de objetos, a que não tenho destino a
dar!
lá veem que
um homem assim organizado deve fugir de leilões.
Mas... a
chuva caía... entrei, depois de exigir de mim próprio a promessa de não comprar
coisa alguma!
Subi.
O leilão
ainda não tinha começado.
Não sei se o
leitor terá assistido, unicamente como espectador, por não ter que fazer, a um
leilão?...
Este, que eu
presenciei, por assim dizer, contra vontade, era o da mobília de uma casa de
gente rica.
Peguei num
catálogo...
Era feito o
leilão a requerimento dos credores à massa falida de um homem, que morrera,
havia pouco, deixando os seus negócios num estado deplorável.
A casa
estava atulhada de gente.
Havia de
tudo naquela multidão!
No primeiro
plano os adeleiros-raça mal estudada e pouco conhecida — que farejam um espólio,
como os corvos, de longe, as exalações do cadáver.
Palavreado
cínico, olhos — de cobiça, dedos queimados pelo cigarro, com as unhas orladas
de negro, uma espécie de instinto, que, à falta de conhecimentos, lhes faz
descobrir o quadro de mestre e rejeitara cópia sem valor, o livro clássico
entre os apreciáveis como papel de embrulho — eis, em geral, o adeleiro do
Porto.
A par
destes, via-se, afetando indiferença, o verdadeiro amador, o que, no fim de
vinte anos de fadigas e decepções, encontra o que deseja e vê em cada um dos
circunstantes um adversário, um maníaco como ele.
Analisando
miudamente, com escrúpulo, cruzavam-se os chefes de família, procurando um
móvel que as esposas lhes pedem vai em dois anos, e folgavam com a ideia da
agradável surpresa que lhes iam causar.
Consultando
os magros haveres, mudando de cor a cada instante, noivo simpático, pássaro
ansioso por perder a sua liberdade de solteiro, espera — pois está na quadra em
que tudo é esperança! — espera que a sua estrela lhe fará ali encontrar parte
do que precisa, para guarnecer um Linho digno dos seus amores.
Juntem a
todos esses, e a quantos ali estavam para um ou outro fim, os que entraram para
ver, por ócio, para fugir, como eu, da chuva, e farão os leitores ideia da
gente que ali encontrei.
Em má hora
subi!
Tristemente
impressionado pela deserção do sol, o meu espírito enegrecera-se, e começara de
analisar aquela gente com olhos de má vontade.
O que via...
irritava-me, afligia-me, transtornava-me a harmonia dos nervos, obrigava-me a
reparos e reflexões, que até então jamais me lembrara de fazer.
Pouco e
pouco apoderou-se de mim profunda melancolia, e acabei por considerar aquela
casa um templo e aqueles homens outros tantos profanadores!
E era um
templo, era!... e eram profanadores!...
É templo,
sim, o lar doméstico, onde sob as vistas de Deus, respeitando o próximo,
aplaudido pela sua consciência, o chefe de família com a alma cortada de
amarguras, com a mente povoada de cuidados, encontra na virilidade do seu
coração o sorriso aprovador, que diz ostensivamente à esposa: "És uma boa mãe!",
que alenta os filhos na luta da vida; mas que serve, sobretudo, para encobrir
uma prece: "Conservai-me, meu Deus, para esta gente, que só me tem a mim
para os amparar!
E eram
profanadores aqueles homens que calcavam as alcatifas; que pisavam e avaliavam
num segundo o que o mísero juntara ao cabo de longos anos de trabalho!
A minha casa!... Quem há aí que não
sinta um dulcíssimo prazer ao proferir estas palavras?!
A minha casa!... O cofre onde encerramos
quanto nos torna aprazível a existência!
A minha casa!... O lugar onde, se somos
solteiros, temos a certeza de encontrar o conselho de um pai, as carícias de
nossa mãe, o ouvido de nossos irmãos atentos às nossas confidências, uns poucos
de corações animados por um único desejo-a nossa felicidade!
A minha casa!... O reino onde, se
casados, exercemos o poder absoluto, mas baseado no amor; onde a esposa nos
exige a sua parte de dor em troca das alegrias que nos dá; onde os anjos
louros, em que nos vemos renascer, nos dão um pretexto para vivermos, e enchem,
com a voz e com o riso, o lar doméstico de cânticos e luz!
A minha casa! — Não!... Esta frase não é
vã para ninguém!
O homem que
nunca teve família, o solteirão, vê na sua casa o único refúgio onde está à
vontade; onde o seu desculpável egoísmo se sente bem; onde não vem procurá-lo o
ruído dos males alheios, a ele que neste mundo só julga dignos de lástima os
próprios males!
O solitário,
o desgraçado que teve família e a viu desaparecer pouco e pouco, esse mesmo! — só
está bem em sua casa!
Não há
canto, móvel, livro, quadro, que lhe não conte uma história, que lhe não traga
aos olhos uma lágrima, filha de um sorriso de outras eras!
Oh! sim!...
Eram profanadores aqueles homens que atiravam a ponta — do — cigarro para cima
dos tapetes da sala, onde a esposa sabia, com um sorriso, proibir ao marido que
fumasse; que maculavam com os dedos sujos aquelas cortinas, que nunca a
lavadeira conseguira trazer de forma a satisfazer a senhora; que faziam gemer
as molas do sofá, até então escrupulosamente coberto pela sua capa de lona!
Revoltava-me
sobretudo a linguagem deles!
Causavam-me
asco os ditos cínicos, os olhares estupidamente maliciosos, inspirados pela
vista de certos objetos; mas o que sobretudo me repugnava, era a sua presença
no quarto nupcial, onde o retrato da dona da casa, que se haviam esquecido de
retirar, parecia contemplar com humilhado assombro toda aquela gente, que assim
estava viciando a atmosfera, em que o ser, que representava, vivera até então
ali, naquele santuário de virtudes domésticas!
Contristado
por estas ideias, ia retirar-me, quando prolongado rumor e duas pancadas me
anunciaram que ia começar o leilão.
— Vamos,
meus senhores!... Vamos a isto!... Há poucas pechinchas destas!...
Senti uma
dolorosa impressão, ouvindo esta primeira amostra do espírito brutal e soez do
leiloeiro.
— Já era
tempo!... Minha rica filha!... Vamos a ver como isto corre... — disse de
repente alguém a meu lado.
Voltei-me.
Era uma
mulher de cinquenta anos, aproximadamente.
Trajava de
luto. O rosto emoldurado no lenço de seda preta, de sob o qual se escapavam
dois ou três anéis de cabelos grisalhos, era uma destas fisionomias enérgicas,
resolutas, de feições pronunciadas, que revelam uma alma rijamente temperada.
Há mais
destas fisionomias entre as mulheres do povo, e sobretudo do povo das aldeias,
do que entre as de outra qualquer posição social.
Almas tais,
sejam quais forem as tormentas que lhes agitam o oceano da vida, sobrenadam
sempre à superfície.
Sustenta-as
uma vontade superior, um fatalismo sublime que não é da terra, que é o fio
invisível que as prende ao céu e que tem por divisa: "Deus o quer!... seja
feita a sua vontade!..."
Arde-lhes o
lar?... Morre-lhes um filho?... Leva-lhes Deus o marido, o guia, o ganha-pão?...
Paciência!...
Deus assim o quis!... Seja feita a sua vontade!... Era ele quem trabalhava para
os filhos?... Trabalhará ela agora.
E o que se
concebeu, assim, no meio da — dor, sem hesitar — põe-se em prática no dia
seguinte, naturalmente, sem sacrifício, por devoção ainda mais do que por
dever!
E os olhos
que até ontem procuravam incertos e receosos os do marido, para saber o que se
devia fazer, contemplam confiadamente o futuro e se, por acaso, uma nuvem negra
surge no horizonte, cravam-se no céu e a consciência murmura, resignada e quase
alegre: "Será o que Deus quiser!... seja feita a sua vontade!..."
Estas almas,
repito, resistem a todas as tempestades, porque as escora a crença!
Hoje como
ontem, amanhã como hoje, desde o berço até à campa, em tudo, por tudo e para
tudo — Deus!
A boa mulher
enxugava apressadamente os olhos, quando me voltei ao ouvir-lhe a voz.
— Vossemecê
era cá de casa?... — perguntei eu.
— Era e sou...
sou criada daquela santa!... — respondeu a velha, apontando para o retrato, e
enxugando mais duas lágrimas.
Receoso de
aumentar aquela comoção, calei-me.
— Cinco mil
e seiscentos!... e seiscentos!... e seiscentos!... Vá, meus senhores!... Mais...
vale a pedra!... — dizia nesse instante o leiloeiro.
— O que é
que está agora, meu senhor?... — perguntou-me a criada, que em vão tentava,
pondo-se em bicos de pés, ver o objeto em praça.
— É o
lavatório... — disse eu, depois de verificar.
— Cinco mil
e seiscentos!... O lavatório!... corja de tratantes!... — rosnou a velha,
chorando.
— Um par de
jarras, meus senhores!... Quanto oferecem vossas senhorias por um par de
jarras?... Quanto oferecem? — bradou o leiloeiro.
— Ora espera...
— acudiu a velha — sempre quero ver por quanto vão as jarras...
— Dez
tostões!... — exclamou uma voz de entre a multidão.
— Grandessíssimo judeu!... Dez tostões!...
— continuou a boa da criada.
— Dez
tostões!... Dez tostões!... Há quem dê mais? Dez tostões!... Dez tostões — duas...
Dez tostões!... três... Ali ao senhor... Como se chama vossa senhoria?... — perguntou
o leiloeiro.
— Costa...
— Ali ao Sr.
Costa!...
— Desalmados!...
súcia de marotos!... — murmurou a mulher indignada. — Dez tostões por aquelas
jarras!... Olhe que fui eu mesmo que as fui pagar ao João Pinto... Custaram
sete mil e duzentos, meu senhor!... cega seja eu, se isto não é verdade!...
— Então...
vossemecê que quer, minha santa?... — disse eu, na ideia de a consolar.
— O que
quero?... Quero que esta gente tenha mais consciência!... Se assim continua,
hão de ser boas as sobras!... Minha querida senhora!... — atalhou a velha.
— Parece-me
muito amiga dela... — observei.
— De quem?...
Da minha senhora?... Quem lhe havia de querer mais do que eu, se fui eu que a
criei, àquela rica filha!... exclamou a triste, indicando-me de novo o retrato.—
Desde que ela nasceu, nunca mais a larguei... Não há duas como aquela!... E
quem Deus levou... o Sr. Magalhães?... Aquilo é que era um santo!
— E ficaram
filhos? — perguntei.
— Um, meu
senhor!... Chama-se Zezinho... Meu rico anjinho! A estas horas já tens chamado
mais de vinte vezes pela tua Rita!...
— Ah!
vossemecê chama-se Rita?...
— Uma sua
criada, meu senhor!... O senhor parece-me pessoa de bem; logo engracei com o
senhor!... Tenho pena que não conheça o Sr. Zezinho!... Aquilo é que é mesmo
uma feitiçaria!... Que, também, se vossa senhoria já o viu alguma vez, decerto
se lembra dele!... Ele muito gordinho, com os olhinhos muito azuis, a boquinha
muito pequenina, o cabelo... E o cabelo!?... O cabelo muito lourinho, aqui...
pelos ombros... todo aos caracóis... Eu nunca vi coisa assim!... E é que, de
não estar acostumada a ver-me tanto tempo sem ele, parece-me que já não estou
boa cá de dentro!
E os olhos
daquela santa criatura choravam e riam a um tempo, fazendo-me a descrição da
criança, a quem ela respeitosamente chamava o Sr. Zezinho!
— E então...
a sua senhora... o que faz agora?... ficou em más circunstâncias?... — perguntei
eu.
— Coitadinha!...
Olhe, meu senhor... Ela, quando casou, pouco tinha de seu... Que o pai dela, o
Sr. Morais — Deus te tenha lá! — teve sempre a sua casinha muito farta; mas...
isto de empregados... Vossa senhoria bem
sabe... afinal, como o outro que diz, se bem o ganham bem o gastam. Ora... — continuou
— a velha — o Sr. Magalhães tinha bastante, e ia muito bem com a sua vida; mas...
parece que lá uns amigos dele, do Brasil, quebraram... ou fugiram... Eu nunca
entendi bem como aquilo foi... O que sei é que ele parece que perdeu muito
dinheiro com eles, e foi isso que o matou!... Entrou a apaixonar-se muito... a
secar, a secar, a secar... sempre triste por fim... acamou e... morreu!...
A voz da
velha mal se ouvia ao proferir as últimas palavras.
— E onde
está agora a viúva?... — indaguei com sentido interesse.
— Está com a
irmã, meu senhor!... Mas... coitadinha!... A Sra. D. Amelinha é muito amiga
dela, mas... não pode!... O homem está estabelecido há pouco tempo, de maneira
que... é muito... é muito peso para eles!... Vontade não lhes falta; mas...
Coitados! não podem!... E é isso o que mais mortifica a minha rica filha!...
Eles, vai em cinco meses que escreveram para o Brasil, ao Sr. Antoninho, e
estamos todos os dias à espera da resposta... A resposta vem... Lá isso vem!...
Ele era muito bom menino... e muito, amigo das irmãs, de maneira que, qualquer
dia, não deixa de vir por aí carta e mesmo dinheiro... Ah! Lá disso estou eu
certa!
Neste
meio-tempo fora continuando a venda, sem que a criada e eu lhe prestássemos
atenção.
— Mas...
vossemecê deve estar aqui a afligir-se muito — observei eu. — Há de, com
certeza, ter muita pena de ver ir tudo isto, uma coisa para cada lado?...
— Tenho,
tenho, meu senhor!... — respondeu a Sra. Rita, levando de novo o lenço aos
olhos.
— Então, por
que não vai para casa?... Olhe que, por estar aqui, não vão as coisas mais bem
vendidas...
— Isso sei
eu, meu senhor... Isso sei eu!... E olhe que tenho bem que fazer em casa... e
está lá o Sr. Zezinho sem mim, que é o que mais me custa... É o mesmo!... É
mais meia hora!... Quero ver se levo a minha avante! É cá uma coisa... uma
lembrança que eu tive...-acrescentou a velha, em resposta à curiosidade que me
leu nos olhos.
— Basta!...
Olhe que eu não quero saber os seus segredos! — acudi eu, sorrindo.
— Não é
segredo... é uma lembrança!... O senhor verá... se se demorar, há de ver o que
é...
"Não...
embora já eu não vou, sem saber o que te prende aqui"-disse de mim para
mim.
E esperei,
ralado de impaciência, o momento de descobrir a intenção daquela santa
criatura.
Mais de uma
hora durou ainda aquele meu martírio.
A delicadeza
dizia-me que não devia ser indiscreto, ao passo que a curiosidade me impelia a
surpreender o segredo da criada.
Poucos objetos
restavam já por vender, e, à medida que o leilão se aproximava do seu termo, os
olhos da venda ora brilhavam febris de ansiedade, ora desmaiavam desalentados.
— Um berço
de vinhático!... Está em praça o berço!... Quanto oferecem pelo berço?!... — bradou
o leiloeiro.
— Ele não
vale dez réis!... Está bom para o lume!... — disse uma voz.
— Pois
estará... — continuou o leiloeiro. Mas quanto oferecem vossas senhorias pelo
berço?... — Ponha lá... dois tostões... — exclamou um adeleiro, depois de breve
hesitação.
— Doze
vinténs!... — gritou alguém a meu lado.
Era a velha!...
O berço era a coisa... a lembrança inspirada pela sublime delicadeza daquele
coração de mulher!
Ou porque
embirrasse com a voz da criada, ou porque tivesse aplicação a dar ao berço, o
adeleiro cobriu a oferta e, animando-se pouco e pouco, transformou o modesto
berço em verdadeiro casus belli.
Eram tão
francas e pronunciadas as impressões que a cada instante se desenhavam no rosto
da boa mulher, que eu lia nela como em livro aberto.
Com a mão
direita metida no bolso do vestido, os olhos ansiosos, os lábios trêmulos,
via-se que a triste contava, apalpando-o, o dinheiro que tinha reservado para
aquela aplicação, ao passo que mentalmente dizia: "Está aqui... está a não
chegar!..."
— Dezenove
tostões!... — clamou o pregoeiro.
— E um
vintém... — disse em voz trêmula a Sr Rita.
— Mil
novecentos e vinte!... — confirmou ele.
— Ponha lá...
dois mil-réis!... — disse o adeleiro.
— E um
vintém... — volveu a mulher.
— Meia libra!...
— exclamou, irado, o contendor.
— Meia libra!...
meia libra!... Olhe que está em meia libra, minha senhora!... — disse o
leiloeiro.
— Meia libra!...
uma; meia libra!... duas; meia libra!...
— Três
mil-réis!... — exclamei. (Chegara-me o cheiro da pólvora.)
— Três
mil-réis!... três mil-réis... Que diz, senhor?... Olhe que são três mil-réis...
— insistiu o leiloeiro, voltando-se para o meu antagonista.
— Deixe-o
ser!... Que o leve o diabo e leva um bom mono! — respondeu o adeleiro com mau
modo.
A velha,
apenas o lanço cobrira o valor da soma que trazia, havia-se deixado cair sobre
uma cadeira, escondendo o rosto nas mãos.
— A quem
devo lançar o berço?... — perguntou o escrevente do leiloeiro.
— Ali à Sra.
Rita!... — respondi.
Em vão
tentei evitar os agradecimentos da boa mulher.
Ouvindo a
minha resposta, ergueu-se de repente e procurou beijar-me as mãos à força.
— Não
consinto, meu senhor!... Três mil-réis... é muito!... Eu sou uma pobre... e não
me envergonho de receber uma esmola... mas... aceite o senhor a meia libra que
eu trazia... bem basta o resto!... Ora receba, meu senhor!
— Deixe-se
disso, Sr a Rita!... Deixe-se disso!... — atalhei comovido. — Guarde isso para
um saiote!... Tem o berço, não tem?... Vá-se embora, santinha!... Vá-se embora!...
Olhe que está o Sr. Zezinho à espera!...
— Está bem,
meu senhor!... seja pelo divino amor de Deus!... Se vossa senhoria soubesse!...
Aquele bercinho... antes de ser do menino... foi da senhora!... da minha rica
filha!... Veja o senhor se eu lhe terei amor!...
E a velha,
pondo o berço à cabeça, desceu rindo e chorando a escada daquela casa onde
vivera feliz!
Desde então,
escondo-me todas as vezes que a vejo, porque me incomodam os francos protestos
do seu reconhecimento!
Possa o anjo
louro, que hoje ocupa o principal lugar naquele coração, conservar eternamente
as asas cândidas e abrigar debaixo delas os derradeiros dias da santa mulher,
que o ama como filho!
Marcadores:
Autores Portugueses,
Contos,
EPUB,
Livros,
MOBI,
O Berço (Conto),
PDF,
Pedro Ivo,
Pedro Ivo - O Berço,
Pedro Ivo - O Contador de Histórias,
TXT
O Cruzeiro da Via-Sacra (Conto), de Pedro Ivo


O Cruzeiro da Via-Sacra
CAPÍTULO 1
Quem hoje
percorrer Portugal, e muito especialmente a nossa província do Minho, poderá
presenciar milhares de cenas idênticas à que vamos descrever, se bem que esta
há bons vinte anos que se passava numa das aldeias vizinhas de Braga.
Então, como
hoje, rara seria a família que não chorasse a ausência de um filho levado ao
Brasil pela ambição, ou antes, pela vista dessas casas forradas de azulejos,
que hoje se contam por centenas, já orlando as estradas do Minho, já olhando
para elas — do alto de uma rua ensaibrada, coberta pela folha verde da viçosa
parreira, através das grades de vistoso portão de ferro.
Então, como
hoje, no Brasil, nesse país a um tempo Capitólio e Tarpeia, deserto e terra da
promissão, mãe e madrasta de tantos felizes, e ainda de maior número de infelizes,
filhos desta velha terra portuguesa, então, como hoje, repito, grassava com
cruelíssimo furor a febre-amarela, terrível nivelador, que não conhece
jerarquias e vai ferindo às cegas.
Quem então,
como hoje, nos serões de Inverno, colasse o ouvido à porta de qualquer das
modestas casas em que se visse brilhar a mortiça luz da candeia, ouviria,
depois da coroa, botada pela voz sonora do lavrador e rezada em coro pelo resto
da família, uma enfiada de orações por vivos e falecidos, e por "tôdolos
que andam por soblas águas do mar", e o que, com toda a certeza, havia de
ouvir era a salve-rainha, que a voz do lavrador gradualmente tornada mais trêmula
oferecia "à Virgem Mãe Santíssima, para que pedisse ao seu divino e amado
Filho que desse vida e saúde"ao Manuel, Pedro, Paulo, Sancho ou Martinho,
por quem sangravam os corações ali reunidos. Deixemos, porém, estas divagações
e descrevamos o quadro, tal qual nos lembramos de o ter visto.
Estamos em
casa de um modesto lavrador. A dona da casa, mulher dos seus quarenta anos, que
os cuidados e trabalhos fazem parecer mais velha, tenta, agachada sobre o lar,
acender um punhado de carqueja, e sopra inutilmente sobre algumas brasas quase
extintas. A carqueja vai ardendo; mas, em vez de chama, apenas produz fumo, que
obriga a pobre mulher a enxugar os olhos a miúdo.
Sentado no
chão e quase nu, um pequenito de onze meses, que, se não tivesse a carita tão
suja, faria lembrar os anjos louros e carnudos de Rubens, ri e baba-se de
gosto, puxando os cabelos emaranhados de outro diabrete de nove anos, que,
deitado de bruços no chão, em frente dele, lhe está fazendo cócegas nas pernas.
A um canto,
numa cadeira, a que serraram os pés, metida entre uma arca enorme e a parede,
vê-se uma pobre velha cega e surda. Se não fora um sorriso travesso, filho
destes sonhos que iluminam de repente, como tênue raio de sol, o cérebro dos
velhos e o das crianças, e veem, de espaço a espaço, refletir-se-lhes no rosto,
julgá-la-ia morta.
Via-se que a
dona da casa, em que já falamos, além da impaciência que lhe causava a má
vontade — do lume, tinha alguma ideia que a afligia.
— Vai ver se
teu pai vem, Joaquim — disse ela, erguendo a cabeça, ao ver por fim brotar a
chama, e introduzir-se, brincando, por entre a carqueja.
— Já com
esta faz quatro vezes! — rosnou o pequeno, levantando-se, pouco satisfeito, de
ao pé do irmãozito.
Mal tinha,
porém, transposto a porta, voltou-se para dentro, dizendo:
— Ele lá
vem, minha mãe!
Viu-se que o
primeiro impulso desta foi correr; de repente, porém, parou; em seguida
caminhou a passos lentos para a porta e encostou-se à umbreira.
Não é
possível descrever as mil sensações que vinham espeolhar-se-lhe no rosto!...
Esperança e medo, ansiedade e desânimo, tudo isso traíam à porfia os olhos, que
brilhavam para logo se empanarem de lágrimas, as rugas que o medo traçara na
fronte e que a esperança desfazia, os lábios, que ora tremiam, ora se cerravam,
como que obedecendo a uma resolução tomada mentalmente. Apenas o marido chegou
a alcance da voz, bradou-lhe ela:
— Não há
nada?
Mas como ela
disse aquilo! Não sabia a gente se era pergunta, se dúvida, se afirmativa.
Havia de tudo isso na inflexão.
— Há, há,
mulher! Descansa; não traz obreia preta! — respondeu-lhe o marido, dissipando
desta forma o receio principal que havia tanto tempo os trazia com a morte na
alma.
A pobre mãe
levou primeiro as mãos ao peito, como que receosa de que o coração lhe
estalasse; depois, erguendo-as e cravando no céu olhos de inexcedível gratidão,
exclamou:
— Louvado
seja o Senhor.
E as
lágrimas, esse sangue destilado que mana de uma chaga sempre viva no coração
das mães, rolavam-lhe quatro a quatro pelas faces, zombando da ponta do avental
com — que ela tentava estancá-las.
A nossa
gente do campo é, em geral, para poucas expansões. Sentem bem, mas exprimem
mal. Ainda assim, quando o marido chegou à porta, a mulher não teve mão em si
que lhe não lançasse os braços em volta do pescoço, dando então livre curso ao
pranto.
— Então que
é isso... que é lá isso, mulher?... Tens-me andado sempre a animar, e hoje, que
a obreia vermelha nos diz que o rapaz está fero e de saúde, pões-te para aí a
chorar como uma criança!... Cara alegre, mulher!... Bota-me esse coração ao
largo!... Jesus, Senhor!... — continuou ele, tirando-se dos braços da mulher. —
Lembrar-me eu que meu pai— Deus te tenha lá! — me não mandou aprender a ler, e
que, por isso, trago eu aqui uma carta de meu filho e tanto faz isso como nada,
pois, se não fosse o bocadinho da hóstia vermelha, ainda agora estaria para
saber se o meu Antônio,é vivo ou morto!... Anda cá, ó Joaquim, anda cá ler esta
carta, meu homem!...
Lembrando-se,
porém, de repente da ceguinha, chegou-se a ela, tirou o chapéu, e, beijando-lhe
a mão, gritou-lhe ao ouvido:
— A sua
bênção, minha mãe... Temos aqui uma carta do seu neto, do nosso Antônio!...
— Está bem,
está bem... — respondeu a velha, de cujo coração a esponja do tempo tinha
apagado todas as imagens.
— Vamos a
isto, Joaquim, vamos a isto!exclamou por fim o lavrador, febril de ansiedade.
CAPÍTULO 2
Acabava o
feliz pai de dizer isto, quando, do lado da porta, se ouviu uma voz que dizia:
— Ora
louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... Dá licença, vizinho?
O lavrador
voltou-se, meio contrariado; reconhecendo, porém, o recém-chegado, reprimiu o
gesto de impaciência e respondeu:
— É
vossemecê, Sr. José? Pode entrar... Trouxe da cidade carta do nosso Antônio, e
íamos ver o que ele diz... E o seu Francisco?... Não escreveu?...
— Não — redarguiu
o outro com voz sombria.
— Pois então...
escute — disse o dono da casa, que compreendeu imediatamente os tormentos que
ralavam, naquele instante, o coração do vizinho. — Escute... Os rapazes foram
no mesmo navio e recomendados à mesma pessoa, e então... pode ser que o meu Antônio
fale no seu Francisco.
A cena que
eu vou desenhar, faria a felicidade de um pintor!
No seu
cantinho e indiferente a tudo, a cega; sentada numa rasa de medir o milho,
curvada para diante, com as mãos apertadas entre os joelhos, toda ouvidos, toda
lágrimas e risos, a mãe do ausente; sentada na arca, com as mãos fincadas nas
costas de uma cadeira de pinho, pálida de comoção, com os olhos cerrados para
esconder o pranto, o lavrador; encostado à umbreira da porta, triste e sombrio,
indiferente aos sentimentos dos outros, e quase que acusando o filho do
lavrador por não falar do dele, que nem sequer pedira a alguém para lhe
escrever, o vizinho; e, formando centro, alvo de todos os olhos, encanto de
todos os ouvidos, senhor de distribuir o sol ou a chuva a todos aqueles
corações, o pequeno, que, ora só sobre um pé, ora coçando a cabeça, lá vai
silabando a preciosa mensageira de boas novas.
Dizia a
carta... o que dizem todas as primeiras cartas de uma criança que se vê longe
dos seus. Contava que tinha chegado a salvamento; que o Senhor Capitão o
tratara muito bem; que tinha sido perfeitamente recebido ~e que o senhor da
casa, onde estava, lhe tinha dito que ficava com ele. Acrescentava que
estranhara muito as comidas; que não se podia acostumar a ver tantos pretos; e
aqui começavam as letras apagadas a denunciar as lágrimas de quem as traçara,
porque, logo em seguida, principiava o rosário das saudades e das recordações,
os beijos para a mãe e para a avó, o pedido da bênção do pai, as recomendações
ao Joaquim para não bater no Pastor, cão de guarda da casa, todas estas
pequeninas coisas, em que o coração se deleita, quando a saudade o estorce.
Afinal em "post-scriptum" lá vinha que o patrão não sabia como havia
de arrumar o Francisco, por ele não saber ler, e acrescentava que este lhe
pedira para escrever por ele, mas que não tivera tempo para isso, e, portanto,
que dissesse o pai ao Sr. José que o filho estava com saúde e lhe mandava
muitas lembranças.
Quando se
chegou a este período, o vizinho franziu o sobrolho e disse:
— Teve que
fazer!... teve preguiça... é o que foi.
— Pode
ser-retorquiu o lavrador, ferido no seu orgulho de pai. — Pode ser, mas... a
culpa é sua, Sr. José. Se vossemecê tivesse feito como eu e mandasse o
Francisco à lição, já ele não precisava do meu filho.
— Melhor
sorte lhe dará Deus!... nem nós lá vamos tão depressa!... — respondeu o outro. —
Lá porque o seu Antônio sabe ler, não se segue que o meu Francisco venha a
precisar das sopas dele! — insistiu o pai, despeitado, envenenando de propósito
o sentido das palavras do vizinho. — E, demais — prosseguiu ele — as mãos não
servem só para escrever!... Haja saúde e vontade de trabalhar, que aqui estamos
nós, que temos ganho a nossa vida sem ter aprendido a ler!
— Não me
torça o bico ao prego, Sr. José!... Vossemecê não seja ruim!... Ninguém lhe
disse que o seu Francisco viesse a precisar das sopas do meu Antônio!... Isso é
vontade de pegar! — redarguiu o lavrador, reagindo contra a má interpretação do
que dissera.
— Está bom,
está bom! — atalhou a mulher, assustada pelo aspecto que a conversa ia tomando.
— Não é com
essas! — insistiu o vizinho. — Eu bem sei onde vossemecê quer chegar... Tem
graça!... Lá porque o menino sabe ler, já aí há de vir para o ano, feito
brasileiro, e, quando Deus quer, traz o meu Francisco como criado dele!... Tem
graça!
— Bem, bem...
Vossemecê tem desculpa... Não teve carta do rapaz... entende que o meu Antônio
tinha obrigação de escrever... não dá desconto às coisas... Acabou-se!... Pense
lá o que quiser! — replicou o lavrador, encolhendo os ombros, mas visivelmente
impaciente.
— Penso, sim
senhor! — retorquiu o Sr. José, irritado pela afetada bonomia do vizinho. — Penso
que a racha sai a acha!
— Vossemecê
que quer dizer? — perguntou o lavrador, apertando convulsivamente a cadeira a
que estava fincado.
— Quero
dizer, que filho de peixe sabe nadar!
— Mas que
quer dizer isso? — perguntou o
lavrador,
saltando abaixo da arca.
— Quer dizer
que, neste mundo, é preciso saber levar a água ao seu moinho... Ora o meu
Francisco... não sabe... não sabe fazer mesuras; só sabe trabalhar... Aí está o
que lhe faz falta... mais do que não saber ler nem escrever... Já ao pai lhe
tem sucedido o mesmo... O Antônio teve melhor mestre... Lá isso teve! — acrescentou
o Sr. José, dirigindo-se para a porta.
— Alto! — bradou
o lavrador, estorvando-lhe a passagem. — Vossemecê não sai daqui sem explicar o
que quer dizer na sua!
— Quero
dizer — replicou o outro, dando largas à bílis — quero dizer que foi vossemecê
quem, pela feira de Março, ficou com os bois que eu já tinha apalavrados!
— Sr. José,
eu já lhe disse que não sabia que vossemecê queria os bois, e logo então lhos
ofereci pelo custo! — exclamou o lavrador, dorido da injustiça.
— Nem que
eles fossem de ouro!... — replicou — o Sr. José desdenhosamente. — Eu não
preciso das migalhas de ninguém!... Mas é melhor calar-me... — continuou,
dirigindo-se para a porta. — Ainda há mais do que isso...
— Então que
mais há? — exclamou arrebatadamente o acusado.
— Quem traz
hoje de renda o campo da Valeira?... E quem o trazia antes?... Não é vossemecê?...
Não era eu? — perguntou, rubro de cólera, o acusador.
— Sr. José —
redarguiu o lavrador, exasperado — vossemecê bem sabe que foi pelos dares e
tomares que teve com o Antônio da Quinta, que este lhe não tornou a arrendar o
campo... Que mal havia em que eu o arrendasse, uma vez que lho não arrendavam a
si?... Tenha vergonha!... Não seja invejoso!
— Pois não
seja vossemecê intriguista! — replicou o outro violentamente.
— Vossemecê
não me faça perder a cabeça! — vociferou o lavrador, agarrando maquinalmente a
cadeira e mexendo-a com mão nervosa.
— Perder a
cabeça, o quê?... — perguntou o Sr. José, entre irônico e ameaçador. — Esteja
quedo com a cadeira, homem!... Olhe que eu nunca morri de medo, nem vossemecê é
homem que me meta medo, louvado Deus!
— Saia! — exclamou
o dono da casa, brandindo a cadeira.
A mulher
agarrou-se-lhe ao braço, sem se importar com as vozes de "deixa-me,
mulher! deixa— me!", a que ela respondia pedindo ao marido que se não
deitasse a perder.
Neste
meio-tempo o outro saíra, e desafiava o vizinho a que fosse, lá fora, dar-lhe
com a cadeira. A mulher correu então à porta e fechou-a; mas ficou aterrada,
por o vizinho rosnar, ao retirar-se:
— Deixa que
tu pagá-las todas juntas!
E assim se
anuviaram tantas alegrias!
O lavrador
passeava agitado, com a testa franzida e as mãos atrás — das costas; a mulher
lidava nos arranjos do jantar, lançando de vez em quando olhares furtivos para
o marido, enquanto que o pequeno, que lera a carta, calado e quieto, pela
primeira vez na sua vida interrogava alternativamente o rosto do pai e o da
mãe, perguntando a si próprio se teria por acaso alguma culpa em tudo aquilo.
E, alheios ao que se passava, o pequenito, com um dedo na boca, tentava pôr-se
a pé, agarrando-se — com a mão livre à saia da cega, ao passo que esta
continuava a perseguir em sonho uma recordação do passado ou visão do futuro,
pois o presente nada lhe dizia já.
CAPÍTULO 3
Ao leitor,
bondoso e bem-intencionado, deve ter-lhe custado — a compreender que um homem —
um pai! — angustiado pela incerteza, pelo receio do flagelo que semeara o luto
no seio de tantas famílias, só encontrasse ironias, ouvindo ler uma carta que
lhe retirava de sobre o peito o enorme peso da dúvida... Aí vai a explicação:
Se, quando
ouvimos uma frase que nos ofende, pudéssemos ler no coração de quem a profere,
veríamos muitas vezes lá dentro tanta amargura e tão intenso sofrer, lutas tão
tremendas, chagas tão vivas e fundas, tão dolorosas contusões de amor-próprio e
mal fechadas cicatrizes de reais ou supostos agravos, que, longe de repelirmos
a frase com aspereza, talvez só encontrássemos em nós profunda e sincera
compaixão pelo ofensor! E, demais, quem pode prever o alcance da primeira
palavra que nos sai dos lábios?!... Haverá quem não conheça o efeito dessa
embriaguez da palavra, embriaguez mais poderosa, exaltada e terrível em seus
efeitos do que a causada por outro qualquer agente?!... O som da própria voz é
uma espécie de aguilhão, que nos excita, que nos arrasta, que nos aplaude, que
nos grita aos ouvidos:
"Bem,
muito bem! Continua!..."
O mau é
soltar a primeira palavra; solta ela, vem a necessidade da justificação, a
recordação de todos os pecados velhos, a ânsia da desforra, o choque violento
das más paixões, o obscurecimento da razão, e — vai-se sempre mais longe do que
se queria ir.
O Sr. José,
mestre carpinteiro, não era o que vulgarmente se chama um homem de maus
fígados. Não era! tinha apenas essas fumaças de valente, desgraçada mania da
nossa gente do Minho, que tanto tem dado que fazer aos cirurgiões e sobretudo
aos endireitas.
O pior
defeito, porém, do mestre carpinteiro era o espírito de contradição, que quase
se poderia dizer que se havia encarnado nele. Em alguém dizendo: "Acolá
vai um gato branco", era contar que ele só via um gato preto! E era contar
que o gato nunca mais se tornava a lavar e ficava preto para todo o sempre,
pois ali estava ele, o Sr. José, pronto para sustentar a murro, a pau e a tiro,
entre as paredes de uma cadeia ou pregado numa cruz, que era preto o gato e não
branco, como toda a gente dizia. Este desgraçado vício tinha-lhe sido causa de
um sem-número de desgostos, o mais severo dos quais vamos contar, por prender diretamente
com esta narração.
Antônio, o
filho do lavrador, era cerca de um ano mais velho do que Francisco, filho do
carpinteiro. Inteligente e estudioso, no fim de um ano de escola, não havia aí
livro impresso, nem, o que mais era, sentença manuscrita, que o pequeno não
lesse, como se costuma dizer, de fio a pavio. Uma noite em que o carpinteiro
estava em casa do lavrador, este, com a santa e respeitável vaidade dos pais,
chamou o filho e fê-lo ler meia dúzia de páginas do Catecismo, para o vizinho
ouvir. Durante a leitura entrou o Francisco e foi sentar-se ao pé do pai.
Quando o rapazito acabou de ler, virou-se o dono da casa para o vizinho e
perguntou-lhe:
— Que lhe
parece?... Olhe que, a não ser o Senhor Abade e o mestre-escola, não há aí quem
leia melhor do que ele!
O Sr. José,
por deferência para com a mania querida, esteve quase a dizer que o rapaz não
sabia ler; conteve-se, porém, e rosnou um "lê bem"pouco animador. O
lavrador, agarrando então uma das orelhas do filho do carpinteiro,
perguntou-lhe, gracejando:
— E tu, meu
rapagão, não queres saber ler como o Antônio?... Diz ao teu pai que te mande à
lição, meu rapaz... Olha que candeia que vai adiante, alumia duas vezes, e,
quanto mais depressa souberes, melhor será para ti.
Aqui
entendeu o Sr. José que era chegada a ocasião de satisfazer o seu gostinho, e
declarou, portanto, que não havia doutorices,
como ele chamava ao saber, que valessem um bom par de braços.
Como é fácil
de prever, travou-se a discussão, e tanto se deixou ir o Sr. José atrás da
paixão de contradizer que, depois de negar as vantagens da instrução, acabou
por declarar que filho seu não aprendia a ler.
E se bem o
disse, melhor o executou!...
Executou;
mas, como não há argumentos de amor-próprio que destruam a rigorosa lógica da
razão, que severa punição lhe era, agora que o filho estava longe, pensar que
entre eles não poderia haver segredo em que não tivesse parte um terceiro,
carícia que não fosse feita por mão de outrem, abraço que recebesse, a não ser
por procuração!
Duro
castigo!
Quando regressara
da cidade sem carta do filho, todas estas ideias lhe haviam lanceado por tal
forma o espírito, que, quando chegara a casa do vizinho, já ele mentalmente o
tornava culpado do seu infortúnio, e, ao ouvir ler a carta, cujo post-scriptum
afirmava que, por causa do signatário dela, ficava ele sem notícias mais
íntimas do filho, operou-se-lhe no cérebro uma revolução singularíssima!
O egoísmo
teve traças para o convencer de que em virtude da suposta culpa do pai, o filho
do vizinho tinha obrigação de ler e escrever pelo dele. Pertencia-lhe metade
daquela aptidão; tinha direito a ela; não compreendia que Antônio se recusasse
a satisfazer o desejo de Francisco, sem o lesar na sua metade de saber!
Juntem a
isto o caso dos bois, e o do campo, e aí está dada a explicação, que consumiu
mais tempo e papel do que merecia.
CAPÍTULO 4
Tinham
passado quinze dias depois da ruptura que se dera entre os dois vizinhos. O Sr.
José, contra o seu costume, não tinha dado mostras de querer confiar ao
marmeleiro, seu advogado usual, a vitória da sua causa, e a mulher do lavrador,
a quem as últimas palavras do carpinteiro "deixa que tu pagá-las" tinham
feito perder o sono, começava a respirar mais livremente, confiando em Deus,
que tudo faria pelo melhor.
Amanheceu
afinal um dia formoso, e ela, que até ali, já com um pretexto, já com outro,
pudera obrigar o homem a não se afastar da aldeia, não pôde achar razões
convincentes para o impedir de ir à cidade. E lá foi ele, mas não sem prometer
um bom centro de vezes que não voltaria de noite.
Só quem as
tem sentido pode avaliar as angústias de quem espera, com a mente povoada de
sinistros pressentimentos, a chegada de um ser estremecido, quando paira sobre
ele uma ameaça de perigo!
O assobio,
que se ouve ao longe, é dele; os passos, que fazem estalar lá fora as folhas
secas, são dele; o mocho que pia no campanário da aldeia, o cão da casa uivando
dão-no em perigo!
E ninguém
com quem desabafar! De um lado a cega imóvel e indiferente, do outro os filhos
sorrindo sem preverem nem o perigo nem o alcance dele! E então vêm as razões
com que procuramos conjurar o fantasma do terror, restituindo a tranquilidade à
nossa alma:
"Teve
que fazer na cidade... O carpinteiro é assomado, mas não é mau... Já lhe passou...
A estas horas está ele a cear ou... talvez a dormir..."
E aí se vai
à porta pela milésima vez; e a vista perturba-se, tentando penetrar as trevas,
e começa a ver assassinos escondidos atrás de cada tronco de árvore; e os
ouvidos, cansados da aturada atenção, entram — de obedecer à voz interior e
distinguem o som de passos precipitados, vozes irritadas, chegando às vezes a
inventar gritos de socorro!
Como sofre
quem espera sob a influência do terror!
CAPÍTULO 5
Serão oito
horas da noite. O céu está recamado de estrelas, mas os corpos não projetam
sombras, porque o luar só aparece às nove horas.
O sítio
incute respeito: é o monte da via-sacra. Se fosse de dia ou o luar brilhasse,
poder-se-iam contar as cruzes que a partir da capela, ereta no cimo do outeiro,
se erguem pelo monte abaixo, numa distância de vinte passos de umas às outras.
Numa pequena
elevação, sobranceira ao caminho, a cerca de trinta passos do primeiro cruzeiro
da via-sacra, guiada a vista pelo brilho do lume de um cigarro, acabava-se por
distinguir o vulto de um homem, sentado, como pau traçado sobre os joelhos. Era
o mestre carpinteiro que esperava ali o vizinho, para lhe provar a justiça da
sua causa.
Quem lhe
pudesse ler no cérebro acharia isto:
"Muito
mal... não... Quinze dias de cama é nada mais... Há de levar a sua dose para
não tornar a ter o atrevimento de levantar uma cadeira para mim!"
E tão certo
estava de si, que continuava filosoficamente a fumar o cigarro, esperando o
lavrador com a pachorra com que um pescador de profissão espera horas até que
uma truta se lembre de vir brincar com o anzol.
Por fim, lá
lhe pareceu que ouvia ruído de passos, e ergueu-se. Não se enganara: era o
lavrador. Subia este a ladeira apressadamente, estimulado pela lembrança do
susto com que a mulher o estava esperando, quando o carpinteiro, de um salto,
se achou defronte dele. O lavrador reconheceu-o imediatamente, mas não se deu por
achado, e perguntou com voz cuja afetada segurança traía o sobressalto
interior: — Quem temos por aqui?
O outro,
rindo sarcasticamente, respondeu: — Alguém que vem ver-se você é homem para
outro!
— É
vossemecê, Sr. José? — redarguiu o lavrador, buscando ganhar tempo para achar
saída àquele aperto.
— Um seu
criado, para o servir com umas asas de pau!... Pode mandar dizer isto ao seu doutor, a ver o que ele de lá responde! —
prosseguiu o carpinteiro.
— Ele que há
de dizer? — retorquiu o lavrador, tentando levá-lo pelo brio. — Há de dizer que
nunca pensou que o Sr. José viesse esperar um homem que nunca lhe fez mal, e
que nem sequer traz um pau, como esse, para se defender.
— Pois dirá...
dirá, sim senhor, mas... enganou-se!... Não traz pau?... Faz mal, se bem que
nessas mãos, de pouco valia!... Mas leva rumor e acabemos com isto, que eu não
vim cá para conversar!
E, fincando
um pé um pouco mais atrás, ergueu o pau. O lavrador compreendeu que não havia
compaixão a esperar, e, confiando com razão no vigor dos próprios músculos, deu
um salto para diante, ao tempo que o adversário erguia o terrível marmeleiro, e
estreitou-lhe o corpo com os braços. O carpinteiro, vendo-se abraçado, deixou
cair o pau, já agora inútil, e arcou com o vizinho, murmurando apenas por entre
— os dentes cerrados:
— Ah! cão,
que me embaçaste!
Começou
então uma luta horrível entre aqueles dois homens, ambos ainda jovens, ambos
vigorosos. Depois de alguns minutos de esforços inauditos, para ver qual deles
subjugaria o outro, o pé do carpinteiro encontrou uma velha raiz de árvore, que
o fez cair de costas, arrastando na queda o seu contrário. Este, aproveitando a
vantagem, desprendeu um dos braços e apertou vigorosamente o pescoço do
inimigo, que espumava de furor, sem exalar um queixume. Não tardou, porém, que
uma ideia horrível viesse paralisar o esforço do lavrador. Pareceu-lhe que o
vencido tentava meter a mão no bolso, viu-se esfaqueado, passou-lhe diante dos
olhos a imagem da mulher e a orfandade dos filhos, ergueu-se e fugiu.
Não se
enganara. O carpinteiro lembrara-se, de repente, que trazia uma navalha no
bolso, e, cego de furor, parecia-lhe ainda pequena vingança a morte daquele
homem, que o estava ali estrangulando. Mal o lavrador largou a fugir,
levantou-se também e correu atrás dele com a navalha aberta na mão.
Era horrível
aquela corrida, a que um era estimulado pelo medo e o outro pelo ódio. O
lavrador, porém, além de se ter ferido num joelho, quando rolara por terra
abraçado com o carpinteiro, era também mais pesado do que este.
Ouvindo
atrás de si os passos do inimigo e sentindo-se quase impossibilitado — de tomar
fôlego, abandonou-o de todo a energia, e, correndo para o primeiro cruzeiro da
via-sacra, abraçou-se com ele, e, voltando o rosto para trás, bradou:
— Pela cruz
em que morreu Nosso Senhor, não me mate!
— Também
nela morreu o mau ladrão, maroto!... — bramiu o carpinteiro, com os lábios
quase colados ao ouvido do desgraçado, e comprimindo-o com a mão esquerda
contra a cruz, ao passo que, com a direita, buscava cravar a navalha.
***
A mão, que
se dispunha a embeber o ferro, caiu inerte, e o lavrador, sentindo afrouxar a
presa do contrário, deu um salto para o lado, viu-o dar um passo para trás,
cambalear e cair de bruços no chão, como atordoado. Depois — de o contemplar um
instante, como quem não compreende, lembrou-se da mulher e, como se tivesse
criado novas forças, correu em direção a casa, que ainda ficava a bons vinte
minutos dali.
CAPÍTULO 6
Como o
honrado lavrador o conta ainda hoje, nunca o caminho até casa lhe pareceu tão
longo nem ele o andou em menos tempo! Quando chegou, ia por tal forma
impressionado pelas diferentes peripécias, mas sobretudo pelo desfecho da luta,
que, mal entrou, fechou instintivamente a porta da rua à chave e deixou-se cair
ofegante numa cadeira.
A mulher,
pensando naturalmente que alguém o perseguia, esteve quase a gritar por
socorro; deteve-a, porém, a reflexão, e ficou extática e trêmula, toda
curiosidade e medo, com os olhos cravados no marido, à espera que este se
explicasse.
Dominada,
por fim, a emoção, correu o lavrador para os filhos, beijando-os
freneticamente, e, apertando em seguida a mulher contra o peito, num destes
abraços mudos, que tanto dizem, que traem o receio de uma separação eterna,
desfeito pelo prazer de tornarmos a ver quem já considerávamos perdido para
nós, contou-lhe, afinal, o perigo de que se vira livre por modo tão
sobrenatural.
— Olha que
foi castigo do Senhor, por ele não respeitar a cruz, quando lhe pediste por ela!...
Olha que foi, João!... — exclamou a mulher, ouvindo como o carpinteiro caíra
fulminado.
— Foi,
mulher... decerto foi... — concordou ele. — E louvado seja Ele, que se lembrou
que eu tinha filhos para criar e uma santa, como tu, para me ajudar nesta
tarefa!
A mulher,
obrigando então o filho mais velho a ajoelhar diante do modesto crucifixo, aos
pés do qual ardia a luz — de uma lamparina, elevou a Deus uma destas preces, em
ação de graças, mais imponentes na santa singeleza e mudez com que sobem do
coração aos lábios, do que o pomposo "Te-Deum" com que a ostentação
vaidosa dos grandes costuma julga retribuir qualquer benefício recebido.
Nessa noite,
a não ser o pequeno, ninguém tocou na ceia; havia, contudo, o que quer que
fosse que embargava a fala dos dois cônjuges e os não deixava erguer da mesa.
Conhecia-se que tinham medo de se ir deitar. De tempos a tempos, os olhares de
ambos encontravam-se, para logo se esquivarem, como receosos de traírem o que
os corações sentiam. Aquele silêncio, porém, aquele constrangimento desusado
entre eles, pesava-lhes!
Afinal, a
mulher, dando a conhecer o pensamento secreto, balbuciou com voz trêmula:
— Mas por que
cairia ele?!... Ó João, e se ele está morto ou... para morrer?!...
o marido,
fazendo um violento esforço para sair daquela espécie de adormecimento moral,
ergueu-se e entrou de passear silencioso.
Após alguns
instantes, a mulher, vencendo a natural timidez, perguntou, hesitando:
— Ó João, e...
e se tu fosses pedir conselho ao Senhor Abade?... Ele é tão bom homem!...
— Tiveste a
minha ideia, mulher!... Vou lá de caminho! — respondeu o lavrador.
E, pegando
na espingarda que estava pendurada a um canto, fora do alcance dos filhos, abriu
cautelosamente a porta, sondou com a vista as vizinhanças da casa, e partiu,
com pé ligeiro e coração pesado, em direção ao passal.
Seriam dez
horas, quando João bateu à porta da casa do abade. Já tudo dormia, de forma que
teve de repetir a pancada.
Depois de
alguns instantes de espera — os precisos para acender a vela e lançar um capote
aos ombros — ergueu-se a meia vidraça da janela e apareceu a cabeça do padre,
que perguntava em tom comovido:
— Quem é?
Está alguém doente?
— Sou eu,
Senhor Abade... e preciso muito falar-lhe... agora mesmo — respondeu o
lavrador.
— Pois és
tu, João!? — redarguiu o outro com manifesto espanto, reconhecendo a voz do
freguês. — Que me queres, homem de Deus?!
— Abra, pelas
almas, Senhor Abade! — insistiu João.
— Está bem,
filho, está bem... Espera um instantinho que eu vou já abrir-disse o velho, que
logo viu — que o assunto era grave.
A porta
abriu-se e João entrou. Instantes depois sabia o abade tudo.
Bastava ver
o padre uma vez, para se ficar com a certeza de que era um destes justos, que
servem para afirmar a existência da virtude na terra, um destes sacerdotes que
são uma espécie de bênção para o rebanho confiado ao seu cuidado; não admira,
pois, que mulher e marido tivessem tido a mesma ideia. Aquele... era o padre
como eu o concebo, e como Deus decerto os ama — pai e juiz, cireneu e
confidente.
— Foi a
cruz, filho!... Não foi outra coisa! — exclamou ele.— Mas é preciso lá ir, João...
Vamos lá ambos... — prosseguiu o velho, a quem assaltara a ideia de que o
carpinteiro fora vítima de uma apoplexia causada pela excitação, senão filha da
rude carícia da mão do lavrador, quando lhe cingira o pescoço. — Vamos lá,
homem... — continuou ele. — Mas, primeiro, põe-me já ali a espingarda naquele
canto... Não é precisa...
O abade
acabou de vestir-se, e, apoiado a um cajado, pôs-se a caminho, precedido pelo
lavrador, a quem entregara um lampião.
Cantavam os
galos quando os dois chegaram ao pé do cruzeiro onde caíra — o infeliz
adversário do lavrador. Aterrado, e vendando os olhos com a mão esquerda, João
estendeu a destra, que sustentava o lampião, para alumiar o sítio fatal, onde
devia jazer o carpinteiro.
Oh! que
alívio sentiu, quando o abade, depois de olhar, exclamou:
— Cá não
está ninguém!... Tu sonhaste, João! Só então se atreveu este a retirar a mão
dos olhos e a fitá-los no chão.
Não tardou
que o abade, pegando no lampião para observar o solo, se convencesse de que o
seu paroquiano não fora vítima de um sonho.
A primeira
coisa que lhe feriu a vista, foi uma poça de sangue coagulado, rente ao tosco degrau
que servia de base ao mal lavrado pedestal do cruzeiro. No meio do sangue jazia
uma pedra.
O padre
olhou atentamente para ela, e, erguendo em seguida o lampião, viu que o
cruzeiro não era, então, mais do que um enorme T de pedra.
Baixando
lentamente o braço, o sacerdote murmurou com voz contrita:
— O dedo de
Deus!
E ficou por
alguns instantes com a fronte pendida sobre o peito.
Saindo,
afinal, daquele íntimo cogitar, voltou-se para o lavrador, dizendo:
— Vamos
embora, João... Tu vais para casa, e eu, — de lá, vou ver se o infeliz precisa
de mim.
CAPÍTULO 7
Vejamos
agora o que foi feito do carpinteiro.
Quando
recuperou os sentidos, não poderia dizer quanto tempo lhe durara o delíquo. O
seu primeiro movimento foi acudir com a
mão à cabeça e viu que estava ferido. Sentou-se por terra, diante da cruz, e começou a coordenar as
ideias. Passaram-lhe então, diante dos
olhos, todos os episódios da briga até
ao momento em que intervenção estranha o prostrara por terra. Ecoaram-lhe nos
ouvidos as preces de piedade, soltas com voz de indizível agonia pelo seu
contendor, e acudiu-lhe à mente o cruel sarcasmo com que lhas abafara. Ao
chegar a este ponto, ergueu-se, aterrado, e bradou:
— Foi a cruz!...
Estou perdido!
Ninguém
imagina os tormentos que abalaram então aquela robusta natureza, enérgica no
bem como no mal, fiel na crença de Deus e de um mundo futuro, dividido em dois
campos — Céu e Inferno!... E o desgraçado viu-se abismado no último pelo
insulto feito ao símbolo que dá entrada no primeiro!... Quis rezar e não pôde!
Perseguido por uma ideia fixa, com o cérebro enfraquecido pelo sangue que
perdera, pôs-se a caminho para casa, mas uma singular coincidência veio
redobrar-lhe o martírio!
Ia alta a
Lua a essa hora, de forma que ao longo do caminho que tinha a percorrer até
vencer o outeiro da via-sacra, os seus olhos só encontravam cruzes!... Se os
erguia... via-as a prumo de vinte em vinte passos; se os baixava... lá estavam
traçadas na terra pela projeção da sombra!
O que faz
essa outra mais pesada de todas as cruzes — a cruz do remorso!... Que via-sacra!...
que horrível subida do Calvário!
Deixara ele,
finalmente, atrás de si o outeiro, quando avistou ao longe o lampião dos dois
que vinham procurá-lo. Escondeu-se atrás de uma árvore e esperou que passassem.
Que
recrudescer de remorso!
O seu
adversário, o homem que ele duas horas antes quisera matar, em vez de se fazer
acompanhar pelo homem da lei, fora bater à porta do homem de Deus; em vez da
vingança — o perdão; em vez do — castigo-a absolvição!
Quando
chegou a casa e olhou para dentro de si, teve horror de si próprio e caiu de
novo sem acordo. O padre, na volta, foi encontrá-lo a debater-se contra os
fantasmas que a febre lhe criava e fazia surgir ante os olhos da alma.
CAPÍTULO 8
Dois meses
teriam decorrido, depois destes acontecimentos. O carpinteiro já se erguia da
cama, mas ;ainda não saía à rua, e em casa do lavrador reinava a paz. Um
domingo, depois da missa, quando João já ia a retirar-se — com a mulher e o
filho, assomou o abade à porta da sacristia e disse com risonho semblante:
— Ó João!...
Deixa ir a mulher, mas espera tu, pois preciso de te falar.
A mulher foi
indo adiante e ele ficou. Saiu, por fim, o padre e, travando-lhe amigavelmente
do braço, disse-lhe:
— Mal tu
sabes onde eu te vou levar!
— Eu com o
Senhor Abade vou até ao... fim do mundo! — respondeu o lavrador, que se conteve
a tempo de não acompanhar o padre ao Inferno.
O ancião
sorriu com bondosa malícia, por perceber a emenda, e continuou:
— Vá lá!
Vou-to dizer!... Nós vamos em romaria à cruz da via-sacra!... Que dizes?
Ao lavrador
arrasaram-se-lhe os olhos de água, e por única resposta, apesar da resistência
do santo velho, beijou-lhe a mão.
E lá foram
os dois.
Imagine,
porém, o leitor qual seria a admiração do honrado homem, quando, ao chegar
perto do cruzeiro, viu o seu inimigo, o Sr. José em pessoa, de chapéu na mão,
contemplando melancolicamente o degrau da cruz onde batera com a cabeça?!...
O rosto
pálido e emagrecido mostrava bem os sofrimentos que lhe haviam minado a alma,
ainda mais do que o corpo, e o lenço vermelho, que lhe cingia a fronte,
indicava que a cicatriz ainda não estava completamente fechada.
João, ao ver
o carpinteiro, hesitou, mas a um olhar do padre continuou a andar. Chegados ao
teatro da briga, os dois contendores miraram-se em silêncio: da parte do
lavrador havia enleio, no carpinteiro percebia-se sincera comoção.
— Então,
José!... — disse o padre, dirigindo-se ao último.— Foi para isto que me pediste
que trouxesse cá o João?
— Esteja
descansado, Senhor Abade... — respondeu o carpinteiro.
E,
voltando-se em seguida para o lavrador, disse-lhe:
— Vizinho,
vossemecê é melhor do que eu... Conheço-o, tenho certeza disso... Quem vai
buscar este santo homem, em lugar de trazer o regedor, para levantar do chão
quem o quis matar, não é capaz de negar a sua mão a quem lhe pede, por esta
cruz que o salvou, que lhe perdoe!...
O lavrador
precisou de respirar para poder responder, tanto a emoção lhe tolhia a voz.
Apenas, porém, pôde falar, estendeu francamente a mão ao arrependido,
dizendo-lhe:
— Não
falemos mais nisso, vizinho... O que lá vai, lá vai... Está perdoado!... Se o
merecia, bem castigado foi!... Não falemos mais nisso, se é meu amigo!
— Fui
castigado e ainda o estou a ser!... — redarguiu o outro, que, entregando uma
carta ao padre, continuou: — Senhor Abade, faça favor de ler essa carta do meu
Francisco outra vez, mas alto...
Dizia a
carta que ele, Francisco, tinha tido a febre-amarela, e que, se escapara, o
devia aos cuidados do seu amigo Antônio. Acrescentava ainda que este se
recusara desta vez a escrever, dando como desculpa não querer fazer elogios a
si próprio, sendo por isso escrita por outro companheiro, e terminava por
anunciar ao pai que, como se fora pouco o que por ele fizera, o filho do
lavrador o andava ensinando a ler.
Terminada a
leitura, o carpinteiro, que se tinha sentado no degrau da cruz com o rosto
metido entre as mãos, ergueu-se e disse, com as faces úmidas de pranto:
— Já vê, Sr.
João, que o castigo continua!... Cada benefício, que me vem de si ou dos seus,
torna mais feia a minha má ação!
— Ainda
podia ser pior! — interrompeu o padre.
E, apontando
para a cruz derrocada, prosseguiu:
— Dá graças
àquela, que não quis que tu fosses a esta hora um assassino!
CAPÍTULO 9
O leitor
está sentindo lá por dentro um malicioso prazer, imaginando que eu tenho andado
a fugir à explicação do mistério — pois é, por enquanto, um mistério a
intervenção da cruz na pendência; nem essa intervenção lhe parece ter
explicação possível...
Ora
enganou-se o leitor!... O verdadeiro, o real explica-se sempre, e este é um
conto... que não é um conto: é um fato verdadeiro e acontecido, que o santo
abade me explicou com toda a clareza, como vai ver.
A cruz,
assente sobre o tosco pedestal, de que já falamos, era formada de três peças: a
haste, os braços e o topo.
Em noite de
medonho temporal, o fogo do céu baixara —
quem sabe se já intencionalmente!... — e,
lanhando o resto, cortara o topo da cruz em duas metades desiguais, ficando uma
destas inclinada para diante, segura apenas pelas garras de vigorosa hera.
Quando o carpinteiro comprimia o inimigo contra a cruz e apontava o ferro para
lho cravar, o lavrador, por um movimento convulsivo, puxou com as mãos os ramos
da hera, e estes, crestados pelo raio e mortos, cederam, estalando e fazendo
cair, uma para cada lado, ias duas metades da pedra que formava o topo da cruz.
A metade que pendia amparada pelos ramos, como já anteriormente dissemos, veio
então bater na cabeça do carpinteiro, quando este proferia ao ouvido do
adversário a sua feroz ironia:
— Também
nela morreu o mau ladrão!
***
Eu estou — daqui
a ver o leitor enleado por não saber dar um nome a esta intervenção da modesta
cruz da via-sacra... Faça como o padre... e como eu... chame-lhe:
O
DEDO DE DEUS!
Assinar:
Postagens (Atom)