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6/18/2019

O Berço (Conto), de Pedro Ivo



O Berço
Quem é que, depois de quinze dias de chuva, deixa de aproveitar uma formosa manhã de sol?!...
Ninguém!
Ao cabo de uma semana de rigoroso Inverno, atormentava-me a necessidade de movimento, luz, ar, alegria e vida, e saí, por isso, para a rua, logo às primeiras negaças — que o sol se lembrou de me fazer.
O meu espírito — e, neste ponto, julgo-o de acordo com todos os espíritos — acompanha fielmente o barômetro.
Chove e faz frio?... Veste-sede negro, assume  um ar grave, que lhe não é natural, e torna-se  apto para afrontar os encargos mais fastidiosos.
Nessas disposições, não há tarefa árida que  lhe meta medo; folheia autos, digere o código  civil, executa com facilidade e exatidão as quatro operações aritméticas, e não o assusta a obrigação de ler os papéis velhos, que enchem umas poucas de gavetas, até dar com o recibo de uma conta, que inocentemente se lembram de querer cobrar de mim pela segunda vez.
Sobe o barômetro, e ri o sol lá de cima?... Adeus!... Não há meio de me obrigar a prestar atenção a coisa alguma.
Um "sim" ou um "não", se me forçarem a refletir para o pronunciar, é, naquele estado do meu espírito, a maior das dificuldades.
Eu sei lá se "sim" se "não"!... O que sei é... que o sol está lá fora à minha espera.
O tamanco da aldeã estalando na calçada, o assobio do garoto, o chilrear cínico do pardal — são outras tantas vozes que me chamam, que me anunciam o azul do céu e o calor do sol, e eu não sou homem que resista a tais convites, e saio, e rio, e salto como colegial em férias, e deixo-me guiar pelo acaso, sem destino, para onde as pernas me levam, e só recolho a casa quando o sol me dá as boas-noites — antes é que não!
Depois destas explicações, dizendo eu que andava na rua, já os leitores sabem como o tempo estava.
Era uma destas manhãs de Inverno em que o sol fulge radiante e esplêndido, depois de longa reclusão, como que para convencer os incrédulos de que é dele que nos vem o calor e a luz!
O que eu, porém, ainda não disse, é que apesar de um sem-número de pirraças e traições, creio no sol como na morte!
Quando o feiticeiro me aparece, julgo impossível que me torne a fugir, entrego-me a ele com cega confiança, e, se razão mais prudente do que a minha me aconselha que leve um guarda-sol, indigno-me de que me suponham capaz de repelir um amigo!
O que me tem acontecido mil vezes, graças à minha delicadeza, é ver-me abandonado pelo amigo, quando menos o espero, e acossado pela chuva.
Ora foi isto o que mais uma vez me sucedeu nessa formosa manhã.
Saíra de casa alegre e sem receios e, em meio do caminho, o meu inconstante amigo despediu-se sem cerimônia, puxando para os olhos a gola de um espesso e negro capote de nuvens, e este, que vinha malhado de longa jornada, começou a escorrer sobre a terra.
Passava eu na Rua do Almada, perto do Campo de Santo Ovídio, quando as primeiras gotas começaram a cair.
Não ver o sol e ver a chuva — foi o bastante para se me virar o espírito do avesso.
"Pois apanho-a!... — concluí eu mentalmente. — Onde diabo me hei de eu meter?..."
Mandei os olhos adiante em procura de um portal cômodo, e eles, depois de correrem um pouco, estacaram diante de uma casa, a cuja janela flutuava uma bandeira vermelha com a inscrição em letras brancas: "LEILÃO."
Hesitei antes de entrar; mas entrei.
Vou agora dizer-lhes porque hesitei.
Hesitei, porque as peripécias de um leilão produzem em mim o mesmo efeito que produzem o cheiro da pólvora e o ardor da refrega no ânimo do recruta. À vista do combate, ou, para melhor dizer, teima dos licitantes, animo-me, impaciento-me, encarno-me num dos contendores, sofro e odeio com ele e estou numa tortura, se noto que o objeto da minha simpatia começa a fraquear!
Chegado a este ponto, se o meu homem cede, abafo um rugido de cólera e, lançando um olhar odiento ao que se julga senhor do campo, murmuro por entre dentes:
"Pois não a levas barata... Deixa estar que eu arranjo-te!..."
E aí começo eu então a fazer tolices, a debater-me como um furioso, até que o leiloeiro deixa cair o martelo e me pergunta com irônica amabilidade:
"O nome do senhor?..."
Dado este primeiro passo, se alguém, consciencioso, se lembra de me fazer notar a asneira, desnorteio, vou para diante e... é contar que, no dia seguinte, tenho em casa, por preço fabuloso, uma feira de objetos, a que não tenho destino a dar!
lá veem que um homem assim organizado deve fugir de leilões.
Mas... a chuva caía... entrei, depois de exigir de mim próprio a promessa de não comprar coisa alguma!
Subi.
O leilão ainda não tinha começado.
Não sei se o leitor terá assistido, unicamente como espectador, por não ter que fazer, a um leilão?...
Este, que eu presenciei, por assim dizer, contra vontade, era o da mobília de uma casa de gente rica.
Peguei num catálogo...
Era feito o leilão a requerimento dos credores à massa falida de um homem, que morrera, havia pouco, deixando os seus negócios num estado deplorável.
A casa estava atulhada de gente.
Havia de tudo naquela multidão!
No primeiro plano os adeleiros-raça mal estudada e pouco conhecida — que farejam um espólio, como os corvos, de longe, as exalações do cadáver.
Palavreado cínico, olhos — de cobiça, dedos queimados pelo cigarro, com as unhas orladas de negro, uma espécie de instinto, que, à falta de conhecimentos, lhes faz descobrir o quadro de mestre e rejeitara cópia sem valor, o livro clássico entre os apreciáveis como papel de embrulho — eis, em geral, o adeleiro do Porto.
A par destes, via-se, afetando indiferença, o verdadeiro amador, o que, no fim de vinte anos de fadigas e decepções, encontra o que deseja e vê em cada um dos circunstantes um adversário, um maníaco como ele.
Analisando miudamente, com escrúpulo, cruzavam-se os chefes de família, procurando um móvel que as esposas lhes pedem vai em dois anos, e folgavam com a ideia da agradável surpresa que lhes iam causar.
Consultando os magros haveres, mudando de cor a cada instante, noivo simpático, pássaro ansioso por perder a sua liberdade de solteiro, espera — pois está na quadra em que tudo é esperança! — espera que a sua estrela lhe fará ali encontrar parte do que precisa, para guarnecer um Linho digno dos seus amores.
Juntem a todos esses, e a quantos ali estavam para um ou outro fim, os que entraram para ver, por ócio, para fugir, como eu, da chuva, e farão os leitores ideia da gente que ali encontrei.
Em má hora subi!
Tristemente impressionado pela deserção do sol, o meu espírito enegrecera-se, e começara de analisar aquela gente com olhos de má vontade.
O que via... irritava-me, afligia-me, transtornava-me a harmonia dos nervos, obrigava-me a reparos e reflexões, que até então jamais me lembrara de fazer.
Pouco e pouco apoderou-se de mim profunda melancolia, e acabei por considerar aquela casa um templo e aqueles homens outros tantos profanadores!
E era um templo, era!... e eram profanadores!...
É templo, sim, o lar doméstico, onde sob as vistas de Deus, respeitando o próximo, aplaudido pela sua consciência, o chefe de família com a alma cortada de amarguras, com a mente povoada de cuidados, encontra na virilidade do seu coração o sorriso aprovador, que diz ostensivamente à esposa: "És uma boa mãe!", que alenta os filhos na luta da vida; mas que serve, sobretudo, para encobrir uma prece: "Conservai-me, meu Deus, para esta gente, que só me tem a mim para os amparar!
E eram profanadores aqueles homens que calcavam as alcatifas; que pisavam e avaliavam num segundo o que o mísero juntara ao cabo de longos anos de trabalho!
A minha casa!... Quem há aí que não sinta um dulcíssimo prazer ao proferir estas palavras?!
A minha casa!... O cofre onde encerramos quanto nos torna aprazível a existência!
A minha casa!... O lugar onde, se somos solteiros, temos a certeza de encontrar o conselho de um pai, as carícias de nossa mãe, o ouvido de nossos irmãos atentos às nossas confidências, uns poucos de corações animados por um único desejo-a nossa felicidade!
A minha casa!... O reino onde, se casados, exercemos o poder absoluto, mas baseado no amor; onde a esposa nos exige a sua parte de dor em troca das alegrias que nos dá; onde os anjos louros, em que nos vemos renascer, nos dão um pretexto para vivermos, e enchem, com a voz e com o riso, o lar doméstico de cânticos e luz!
A minha casa! — Não!... Esta frase não é vã para ninguém!
O homem que nunca teve família, o solteirão, vê na sua casa o único refúgio onde está à vontade; onde o seu desculpável egoísmo se sente bem; onde não vem procurá-lo o ruído dos males alheios, a ele que neste mundo só julga dignos de lástima os próprios males!
O solitário, o desgraçado que teve família e a viu desaparecer pouco e pouco, esse mesmo! — só está bem em sua casa!
Não há canto, móvel, livro, quadro, que lhe não conte uma história, que lhe não traga aos olhos uma lágrima, filha de um sorriso de outras eras!
Oh! sim!... Eram profanadores aqueles homens que atiravam a ponta — do — cigarro para cima dos tapetes da sala, onde a esposa sabia, com um sorriso, proibir ao marido que fumasse; que maculavam com os dedos sujos aquelas cortinas, que nunca a lavadeira conseguira trazer de forma a satisfazer a senhora; que faziam gemer as molas do sofá, até então escrupulosamente coberto pela sua capa de lona!
Revoltava-me sobretudo a linguagem deles!
Causavam-me asco os ditos cínicos, os olhares estupidamente maliciosos, inspirados pela vista de certos objetos; mas o que sobretudo me repugnava, era a sua presença no quarto nupcial, onde o retrato da dona da casa, que se haviam esquecido de retirar, parecia contemplar com humilhado assombro toda aquela gente, que assim estava viciando a atmosfera, em que o ser, que representava, vivera até então ali, naquele santuário de virtudes domésticas!
Contristado por estas ideias, ia retirar-me, quando prolongado rumor e duas pancadas me anunciaram que ia começar o leilão.
— Vamos, meus senhores!... Vamos a isto!... Há poucas pechinchas destas!...
Senti uma dolorosa impressão, ouvindo esta primeira amostra do espírito brutal e soez do leiloeiro.
— Já era tempo!... Minha rica filha!... Vamos a ver como isto corre... — disse de repente alguém a meu lado.
Voltei-me.
Era uma mulher de cinquenta anos, aproximadamente.
Trajava de luto. O rosto emoldurado no lenço de seda preta, de sob o qual se escapavam dois ou três anéis de cabelos grisalhos, era uma destas fisionomias enérgicas, resolutas, de feições pronunciadas, que revelam uma alma rijamente temperada.
Há mais destas fisionomias entre as mulheres do povo, e sobretudo do povo das aldeias, do que entre as de outra qualquer posição social.
Almas tais, sejam quais forem as tormentas que lhes agitam o oceano da vida, sobrenadam sempre à superfície.
Sustenta-as uma vontade superior, um fatalismo sublime que não é da terra, que é o fio invisível que as prende ao céu e que tem por divisa: "Deus o quer!... seja feita a sua vontade!..."
Arde-lhes o lar?... Morre-lhes um filho?... Leva-lhes Deus o marido, o guia, o ganha-pão?...
Paciência!... Deus assim o quis!... Seja feita a sua vontade!... Era ele quem trabalhava para os filhos?... Trabalhará ela agora.
E o que se concebeu, assim, no meio da — dor, sem hesitar — põe-se em prática no dia seguinte, naturalmente, sem sacrifício, por devoção ainda mais do que por dever!
E os olhos que até ontem procuravam incertos e receosos os do marido, para saber o que se devia fazer, contemplam confiadamente o futuro e se, por acaso, uma nuvem negra surge no horizonte, cravam-se no céu e a consciência murmura, resignada e quase alegre: "Será o que Deus quiser!... seja feita a sua vontade!..."
Estas almas, repito, resistem a todas as tempestades, porque as escora a crença!
Hoje como ontem, amanhã como hoje, desde o berço até à campa, em tudo, por tudo e para tudo — Deus!
A boa mulher enxugava apressadamente os olhos, quando me voltei ao ouvir-lhe a voz.
— Vossemecê era cá de casa?... — perguntei eu.
— Era e sou... sou criada daquela santa!... — respondeu a velha, apontando para o retrato, e enxugando mais duas lágrimas.
Receoso de aumentar aquela comoção, calei-me.
— Cinco mil e seiscentos!... e seiscentos!... e seiscentos!... Vá, meus senhores!... Mais... vale a pedra!... — dizia nesse instante o leiloeiro.
— O que é que está agora, meu senhor?... — perguntou-me a criada, que em vão tentava, pondo-se em bicos de pés, ver o objeto em praça.
— É o lavatório... — disse eu, depois de verificar.
— Cinco mil e seiscentos!... O lavatório!... corja de tratantes!... — rosnou a velha, chorando.
— Um par de jarras, meus senhores!... Quanto oferecem vossas senhorias por um par de jarras?... Quanto oferecem? — bradou o leiloeiro.
— Ora espera... — acudiu a velha — sempre quero ver por quanto vão as jarras...
— Dez tostões!... — exclamou uma voz de entre a multidão.
Grandessíssimo judeu!... Dez tostões!... — continuou a boa da criada.
— Dez tostões!... Dez tostões!... Há quem dê mais? Dez tostões!... Dez tostões — duas... Dez tostões!... três... Ali ao senhor... Como se chama vossa senhoria?... — perguntou o leiloeiro.
— Costa...
— Ali ao Sr. Costa!...  
— Desalmados!... súcia de marotos!... — murmurou a mulher indignada. — Dez tostões por aquelas jarras!... Olhe que fui eu mesmo que as fui pagar ao João Pinto... Custaram sete mil e duzentos, meu senhor!... cega seja eu, se isto não é verdade!...
— Então... vossemecê que quer, minha santa?... — disse eu, na ideia de a consolar.
— O que quero?... Quero que esta gente tenha mais consciência!... Se assim continua, hão de ser boas as sobras!... Minha querida senhora!... — atalhou a velha.
— Parece-me muito amiga dela... — observei.
— De quem?... Da minha senhora?... Quem lhe havia de querer mais do que eu, se fui eu que a criei, àquela rica filha!... exclamou a triste, indicando-me de novo o retrato.— Desde que ela nasceu, nunca mais a larguei... Não há duas como aquela!... E quem Deus levou... o Sr. Magalhães?... Aquilo é que era um santo!
— E ficaram filhos? — perguntei.
— Um, meu senhor!... Chama-se Zezinho... Meu rico anjinho! A estas horas já tens chamado mais de vinte vezes pela tua Rita!...
— Ah! vossemecê chama-se Rita?...
— Uma sua criada, meu senhor!... O senhor parece-me pessoa de bem; logo engracei com o senhor!... Tenho pena que não conheça o Sr. Zezinho!... Aquilo é que é mesmo uma feitiçaria!... Que, também, se vossa senhoria já o viu alguma vez, decerto se lembra dele!... Ele muito gordinho, com os olhinhos muito azuis, a boquinha muito pequenina, o cabelo... E o cabelo!?... O cabelo muito lourinho, aqui... pelos ombros... todo aos caracóis... Eu nunca vi coisa assim!... E é que, de não estar acostumada a ver-me tanto tempo sem ele, parece-me que já não estou boa cá de dentro!
E os olhos daquela santa criatura choravam e riam a um tempo, fazendo-me a descrição da criança, a quem ela respeitosamente chamava o Sr. Zezinho!
— E então... a sua senhora... o que faz agora?... ficou em más circunstâncias?... — perguntei eu.
— Coitadinha!... Olhe, meu senhor... Ela, quando casou, pouco tinha de seu... Que o pai dela, o Sr. Morais — Deus te tenha lá! — teve sempre a sua casinha muito farta; mas... isto de empregados...  Vossa senhoria bem sabe... afinal, como o outro que diz, se bem o ganham bem o gastam. Ora... — continuou — a velha — o Sr. Magalhães tinha bastante, e ia muito bem com a sua vida; mas... parece que lá uns amigos dele, do Brasil, quebraram... ou fugiram... Eu nunca entendi bem como aquilo foi... O que sei é que ele parece que perdeu muito dinheiro com eles, e foi isso que o matou!... Entrou a apaixonar-se muito... a secar, a secar, a secar... sempre triste  por fim... acamou e... morreu!...
A voz da velha mal se ouvia ao proferir as últimas palavras.
— E onde está agora a viúva?... — indaguei com sentido interesse.
— Está com a irmã, meu senhor!... Mas... coitadinha!... A Sra. D. Amelinha é muito amiga dela, mas... não pode!... O homem está estabelecido há pouco tempo, de maneira que... é muito... é muito peso para eles!... Vontade não lhes falta; mas... Coitados! não podem!... E é isso o que mais mortifica a minha rica filha!... Eles, vai em cinco meses que escreveram para o Brasil, ao Sr. Antoninho, e estamos todos os dias à espera da resposta... A resposta vem... Lá isso vem!... Ele era muito bom menino... e muito, amigo das irmãs, de maneira que, qualquer dia, não deixa de vir por aí carta e mesmo dinheiro... Ah! Lá disso estou eu certa!
Neste meio-tempo fora continuando a venda, sem que a criada e eu lhe prestássemos atenção.
— Mas... vossemecê deve estar aqui a afligir-se muito — observei eu. — Há de, com certeza, ter muita pena de ver ir tudo isto, uma coisa para cada lado?...
— Tenho, tenho, meu senhor!... — respondeu a Sra. Rita, levando de novo o lenço aos olhos.
— Então, por que não vai para casa?... Olhe que, por estar aqui, não vão as coisas mais bem vendidas...
— Isso sei eu, meu senhor... Isso sei eu!... E olhe que tenho bem que fazer em casa... e está lá o Sr. Zezinho sem mim, que é o que mais me custa... É o mesmo!... É mais meia hora!... Quero ver se levo a minha avante! É cá uma coisa... uma lembrança que eu tive...-acrescentou a velha, em resposta à curiosidade que me leu nos olhos.
— Basta!... Olhe que eu não quero saber os seus segredos! — acudi eu, sorrindo.
— Não é segredo... é uma lembrança!... O senhor verá... se se demorar, há de ver o que é...
"Não... embora já eu não vou, sem saber o que te prende aqui"-disse de mim para mim.
E esperei, ralado de impaciência, o momento de descobrir a intenção daquela santa criatura.
Mais de uma hora durou ainda aquele meu martírio.
A delicadeza dizia-me que não devia ser indiscreto, ao passo que a curiosidade me impelia a surpreender o segredo da criada.
Poucos objetos restavam já por vender, e, à medida que o leilão se aproximava do seu termo, os olhos da venda ora brilhavam febris de ansiedade, ora desmaiavam desalentados.
— Um berço de vinhático!... Está em praça o berço!... Quanto oferecem pelo berço?!... — bradou o leiloeiro.
— Ele não vale dez réis!... Está bom para o lume!... — disse uma voz.
— Pois estará... — continuou o leiloeiro. Mas quanto oferecem vossas senhorias pelo berço?... — Ponha lá... dois tostões... — exclamou um adeleiro, depois de breve hesitação.
— Doze vinténs!... — gritou alguém a meu lado.
Era a velha!... O berço era a coisa... a lembrança inspirada pela sublime delicadeza daquele coração de mulher!
Ou porque embirrasse com a voz da criada, ou porque tivesse aplicação a dar ao berço, o adeleiro cobriu a oferta e, animando-se pouco e pouco, transformou o modesto berço em verdadeiro casus belli.
Eram tão francas e pronunciadas as impressões que a cada instante se desenhavam no rosto da boa mulher, que eu lia nela como em livro aberto.
Com a mão direita metida no bolso do vestido, os olhos ansiosos, os lábios trêmulos, via-se que a triste contava, apalpando-o, o dinheiro que tinha reservado para aquela aplicação, ao passo que mentalmente dizia: "Está aqui... está a não chegar!..."
— Dezenove tostões!... — clamou o pregoeiro.
— E um vintém... — disse em voz trêmula a Sr Rita.
— Mil novecentos e vinte!... — confirmou ele.
— Ponha lá... dois mil-réis!... — disse o adeleiro.
— E um vintém... — volveu a mulher.
— Meia libra!... — exclamou, irado, o contendor.
— Meia libra!... meia libra!... Olhe que está em meia libra, minha senhora!... — disse o leiloeiro.
— Meia libra!... uma; meia libra!... duas; meia libra!...
— Três mil-réis!... — exclamei. (Chegara-me o cheiro da pólvora.)
— Três mil-réis!... três mil-réis... Que diz, senhor?... Olhe que são três mil-réis... — insistiu o leiloeiro, voltando-se para o meu antagonista.
— Deixe-o ser!... Que o leve o diabo e leva um bom mono! — respondeu o adeleiro com mau modo.
A velha, apenas o lanço cobrira o valor da soma que trazia, havia-se deixado cair sobre uma cadeira, escondendo o rosto nas mãos.
— A quem devo lançar o berço?... — perguntou o escrevente do leiloeiro.
— Ali à Sra. Rita!... — respondi.
Em vão tentei evitar os agradecimentos da boa mulher.
Ouvindo a minha resposta, ergueu-se de repente e procurou beijar-me as mãos à força.
— Não consinto, meu senhor!... Três mil-réis... é muito!... Eu sou uma pobre... e não me envergonho de receber uma esmola... mas... aceite o senhor a meia libra que eu trazia... bem basta o resto!... Ora receba, meu senhor!
— Deixe-se disso, Sr a Rita!... Deixe-se disso!... — atalhei comovido. — Guarde isso para um saiote!... Tem o berço, não tem?... Vá-se embora, santinha!... Vá-se embora!... Olhe que está o Sr. Zezinho à espera!...
— Está bem, meu senhor!... seja pelo divino amor de Deus!... Se vossa senhoria soubesse!... Aquele bercinho... antes de ser do menino... foi da senhora!... da minha rica filha!... Veja o senhor se eu lhe terei amor!...
E a velha, pondo o berço à cabeça, desceu rindo e chorando a escada daquela casa onde vivera feliz!
Desde então, escondo-me todas as vezes que a vejo, porque me incomodam os francos protestos do seu reconhecimento!
Possa o anjo louro, que hoje ocupa o principal lugar naquele coração, conservar eternamente as asas cândidas e abrigar debaixo delas os derradeiros dias da santa mulher, que o ama como filho!

O Cruzeiro da Via-Sacra (Conto), de Pedro Ivo



O Cruzeiro da Via-Sacra
CAPÍTULO 1
Quem hoje percorrer Portugal, e muito especialmente a nossa província do Minho, poderá presenciar milhares de cenas idênticas à que vamos descrever, se bem que esta há bons vinte anos que se passava numa das aldeias vizinhas de Braga.
Então, como hoje, rara seria a família que não chorasse a ausência de um filho levado ao Brasil pela ambição, ou antes, pela vista dessas casas forradas de azulejos, que hoje se contam por centenas, já orlando as estradas do Minho, já olhando para elas — do alto de uma rua ensaibrada, coberta pela folha verde da viçosa parreira, através das grades de vistoso portão de ferro.
Então, como hoje, no Brasil, nesse país a um tempo Capitólio e Tarpeia, deserto e terra da promissão, mãe e madrasta de tantos felizes, e ainda de maior número de infelizes, filhos desta velha terra portuguesa, então, como hoje, repito, grassava com cruelíssimo furor a febre-amarela, terrível nivelador, que não conhece jerarquias e vai ferindo às cegas.
Quem então, como hoje, nos serões de Inverno, colasse o ouvido à porta de qualquer das modestas casas em que se visse brilhar a mortiça luz da candeia, ouviria, depois da coroa, botada pela voz sonora do lavrador e rezada em coro pelo resto da família, uma enfiada de orações por vivos e falecidos, e por "tôdolos que andam por soblas águas do mar", e o que, com toda a certeza, havia de ouvir era a salve-rainha, que a voz do lavrador gradualmente tornada mais trêmula oferecia "à Virgem Mãe Santíssima, para que pedisse ao seu divino e amado Filho que desse vida e saúde"ao Manuel, Pedro, Paulo, Sancho ou Martinho, por quem sangravam os corações ali reunidos. Deixemos, porém, estas divagações e descrevamos o quadro, tal qual nos lembramos de o ter visto.
Estamos em casa de um modesto lavrador. A dona da casa, mulher dos seus quarenta anos, que os cuidados e trabalhos fazem parecer mais velha, tenta, agachada sobre o lar, acender um punhado de carqueja, e sopra inutilmente sobre algumas brasas quase extintas. A carqueja vai ardendo; mas, em vez de chama, apenas produz fumo, que obriga a pobre mulher a enxugar os olhos a miúdo.
Sentado no chão e quase nu, um pequenito de onze meses, que, se não tivesse a carita tão suja, faria lembrar os anjos louros e carnudos de Rubens, ri e baba-se de gosto, puxando os cabelos emaranhados de outro diabrete de nove anos, que, deitado de bruços no chão, em frente dele, lhe está fazendo cócegas nas pernas.
A um canto, numa cadeira, a que serraram os pés, metida entre uma arca enorme e a parede, vê-se uma pobre velha cega e surda. Se não fora um sorriso travesso, filho destes sonhos que iluminam de repente, como tênue raio de sol, o cérebro dos velhos e o das crianças, e veem, de espaço a espaço, refletir-se-lhes no rosto, julgá-la-ia morta.
Via-se que a dona da casa, em que já falamos, além da impaciência que lhe causava a má vontade — do lume, tinha alguma ideia que a afligia.
— Vai ver se teu pai vem, Joaquim — disse ela, erguendo a cabeça, ao ver por fim brotar a chama, e introduzir-se, brincando, por entre a carqueja.
— Já com esta faz quatro vezes! — rosnou o pequeno, levantando-se, pouco satisfeito, de ao pé do irmãozito.
Mal tinha, porém, transposto a porta, voltou-se para dentro, dizendo:
— Ele lá vem, minha mãe!
Viu-se que o primeiro impulso desta foi correr; de repente, porém, parou; em seguida caminhou a passos lentos para a porta e encostou-se à umbreira.
Não é possível descrever as mil sensações que vinham espeolhar-se-lhe no rosto!... Esperança e medo, ansiedade e desânimo, tudo isso traíam à porfia os olhos, que brilhavam para logo se empanarem de lágrimas, as rugas que o medo traçara na fronte e que a esperança desfazia, os lábios, que ora tremiam, ora se cerravam, como que obedecendo a uma resolução tomada mentalmente. Apenas o marido chegou a alcance da voz, bradou-lhe ela:
— Não há nada?
Mas como ela disse aquilo! Não sabia a gente se era pergunta, se dúvida, se afirmativa. Havia de tudo isso na inflexão.
— Há, há, mulher! Descansa; não traz obreia preta! — respondeu-lhe o marido, dissipando desta forma o receio principal que havia tanto tempo os trazia com a morte na alma.
A pobre mãe levou primeiro as mãos ao peito, como que receosa de que o coração lhe estalasse; depois, erguendo-as e cravando no céu olhos de inexcedível gratidão, exclamou:
— Louvado seja o Senhor.
E as lágrimas, esse sangue destilado que mana de uma chaga sempre viva no coração das mães, rolavam-lhe quatro a quatro pelas faces, zombando da ponta do avental com — que ela tentava estancá-las.
A nossa gente do campo é, em geral, para poucas expansões. Sentem bem, mas exprimem mal. Ainda assim, quando o marido chegou à porta, a mulher não teve mão em si que lhe não lançasse os braços em volta do pescoço, dando então livre curso ao pranto.
— Então que é isso... que é lá isso, mulher?... Tens-me andado sempre a animar, e hoje, que a obreia vermelha nos diz que o rapaz está fero e de saúde, pões-te para aí a chorar como uma criança!... Cara alegre, mulher!... Bota-me esse coração ao largo!... Jesus, Senhor!... — continuou ele, tirando-se dos braços da mulher. — Lembrar-me eu que meu pai— Deus te tenha lá! — me não mandou aprender a ler, e que, por isso, trago eu aqui uma carta de meu filho e tanto faz isso como nada, pois, se não fosse o bocadinho da hóstia vermelha, ainda agora estaria para saber se o meu Antônio,é vivo ou morto!... Anda cá, ó Joaquim, anda cá ler esta carta, meu homem!...
Lembrando-se, porém, de repente da ceguinha, chegou-se a ela, tirou o chapéu, e, beijando-lhe a mão, gritou-lhe ao ouvido:
— A sua bênção, minha mãe... Temos aqui uma carta do seu neto, do nosso Antônio!...
— Está bem, está bem... — respondeu a velha, de cujo coração a esponja do tempo tinha apagado todas as imagens.
— Vamos a isto, Joaquim, vamos a isto!exclamou por fim o lavrador, febril de ansiedade.

CAPÍTULO 2
Acabava o feliz pai de dizer isto, quando, do lado da porta, se ouviu uma voz que dizia:
— Ora louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... Dá licença, vizinho?
O lavrador voltou-se, meio contrariado; reconhecendo, porém, o recém-chegado, reprimiu o gesto de impaciência e respondeu:
— É vossemecê, Sr. José? Pode entrar... Trouxe da cidade carta do nosso Antônio, e íamos ver o que ele diz... E o seu Francisco?... Não escreveu?...
— Não — redarguiu o outro com voz sombria.
— Pois então... escute — disse o dono da casa, que compreendeu imediatamente os tormentos que ralavam, naquele instante, o coração do vizinho. — Escute... Os rapazes foram no mesmo navio e recomendados à mesma pessoa, e então... pode ser que o meu Antônio fale no seu Francisco.
A cena que eu vou desenhar, faria a felicidade de um pintor!
No seu cantinho e indiferente a tudo, a cega; sentada numa rasa de medir o milho, curvada para diante, com as mãos apertadas entre os joelhos, toda ouvidos, toda lágrimas e risos, a mãe do ausente; sentada na arca, com as mãos fincadas nas costas de uma cadeira de pinho, pálida de comoção, com os olhos cerrados para esconder o pranto, o lavrador; encostado à umbreira da porta, triste e sombrio, indiferente aos sentimentos dos outros, e quase que acusando o filho do lavrador por não falar do dele, que nem sequer pedira a alguém para lhe escrever, o vizinho; e, formando centro, alvo de todos os olhos, encanto de todos os ouvidos, senhor de distribuir o sol ou a chuva a todos aqueles corações, o pequeno, que, ora só sobre um pé, ora coçando a cabeça, lá vai silabando a preciosa mensageira de boas novas.
Dizia a carta... o que dizem todas as primeiras cartas de uma criança que se vê longe dos seus. Contava que tinha chegado a salvamento; que o Senhor Capitão o tratara muito bem; que tinha sido perfeitamente recebido ~e que o senhor da casa, onde estava, lhe tinha dito que ficava com ele. Acrescentava que estranhara muito as comidas; que não se podia acostumar a ver tantos pretos; e aqui começavam as letras apagadas a denunciar as lágrimas de quem as traçara, porque, logo em seguida, principiava o rosário das saudades e das recordações, os beijos para a mãe e para a avó, o pedido da bênção do pai, as recomendações ao Joaquim para não bater no Pastor, cão de guarda da casa, todas estas pequeninas coisas, em que o coração se deleita, quando a saudade o estorce. Afinal em "post-scriptum" lá vinha que o patrão não sabia como havia de arrumar o Francisco, por ele não saber ler, e acrescentava que este lhe pedira para escrever por ele, mas que não tivera tempo para isso, e, portanto, que dissesse o pai ao Sr. José que o filho estava com saúde e lhe mandava muitas lembranças.
Quando se chegou a este período, o vizinho franziu o sobrolho e disse:
— Teve que fazer!... teve preguiça... é o que foi.
— Pode ser-retorquiu o lavrador, ferido no seu orgulho de pai. — Pode ser, mas... a culpa é sua, Sr. José. Se vossemecê tivesse feito como eu e mandasse o Francisco à lição, já ele não precisava do meu filho.
— Melhor sorte lhe dará Deus!... nem nós lá vamos tão depressa!... — respondeu o outro. — Lá porque o seu Antônio sabe ler, não se segue que o meu Francisco venha a precisar das sopas dele! — insistiu o pai, despeitado, envenenando de propósito o sentido das palavras do vizinho. — E, demais — prosseguiu ele — as mãos não servem só para escrever!... Haja saúde e vontade de trabalhar, que aqui estamos nós, que temos ganho a nossa vida sem ter aprendido a ler!
— Não me torça o bico ao prego, Sr. José!... Vossemecê não seja ruim!... Ninguém lhe disse que o seu Francisco viesse a precisar das sopas do meu Antônio!... Isso é vontade de pegar! — redarguiu o lavrador, reagindo contra a má interpretação do que dissera.
— Está bom, está bom! — atalhou a mulher, assustada pelo aspecto que a conversa ia tomando.
— Não é com essas! — insistiu o vizinho. — Eu bem sei onde vossemecê quer chegar... Tem graça!... Lá porque o menino sabe ler, já aí há de vir para o ano, feito brasileiro, e, quando Deus quer, traz o meu Francisco como criado dele!... Tem graça!
— Bem, bem... Vossemecê tem desculpa... Não teve carta do rapaz... entende que o meu Antônio tinha obrigação de escrever... não dá desconto às coisas... Acabou-se!... Pense lá o que quiser! — replicou o lavrador, encolhendo os ombros, mas visivelmente impaciente.
— Penso, sim senhor! — retorquiu o Sr. José, irritado pela afetada bonomia do vizinho. — Penso que a racha sai a acha!
— Vossemecê que quer dizer? — perguntou o lavrador, apertando convulsivamente a cadeira a que estava fincado.
— Quero dizer, que filho de peixe sabe nadar!
— Mas que quer dizer isso? — perguntou o
lavrador, saltando abaixo da arca.
— Quer dizer que, neste mundo, é preciso saber levar a água ao seu moinho... Ora o meu Francisco... não sabe... não sabe fazer mesuras; só sabe trabalhar... Aí está o que lhe faz falta... mais do que não saber ler nem escrever... Já ao pai lhe tem sucedido o mesmo... O Antônio teve melhor mestre... Lá isso teve! — acrescentou o Sr. José, dirigindo-se para a porta.
— Alto! — bradou o lavrador, estorvando-lhe a passagem. — Vossemecê não sai daqui sem explicar o que quer dizer na sua!
— Quero dizer — replicou o outro, dando largas à bílis — quero dizer que foi vossemecê quem, pela feira de Março, ficou com os bois que eu já tinha apalavrados!
— Sr. José, eu já lhe disse que não sabia que vossemecê queria os bois, e logo então lhos ofereci pelo custo! — exclamou o lavrador, dorido da injustiça.
— Nem que eles fossem de ouro!... — replicou — o Sr. José desdenhosamente. — Eu não preciso das migalhas de ninguém!... Mas é melhor calar-me... — continuou, dirigindo-se para a porta. — Ainda há mais do que isso...
— Então que mais há? — exclamou arrebatadamente o acusado.
— Quem traz hoje de renda o campo da Valeira?... E quem o trazia antes?... Não é vossemecê?... Não era eu? — perguntou, rubro de cólera, o acusador.
— Sr. José — redarguiu o lavrador, exasperado — vossemecê bem sabe que foi pelos dares e tomares que teve com o Antônio da Quinta, que este lhe não tornou a arrendar o campo... Que mal havia em que eu o arrendasse, uma vez que lho não arrendavam a si?... Tenha vergonha!... Não seja invejoso!
— Pois não seja vossemecê intriguista! — replicou o outro violentamente.
— Vossemecê não me faça perder a cabeça! — vociferou o lavrador, agarrando maquinalmente a cadeira e mexendo-a com mão nervosa.
— Perder a cabeça, o quê?... — perguntou o Sr. José, entre irônico e ameaçador. — Esteja quedo com a cadeira, homem!... Olhe que eu nunca morri de medo, nem vossemecê é homem que me meta medo, louvado Deus!
— Saia! — exclamou o dono da casa, brandindo a cadeira.
A mulher agarrou-se-lhe ao braço, sem se importar com as vozes de "deixa-me, mulher! deixa— me!", a que ela respondia pedindo ao marido que se não deitasse a perder.
Neste meio-tempo o outro saíra, e desafiava o vizinho a que fosse, lá fora, dar-lhe com a cadeira. A mulher correu então à porta e fechou-a; mas ficou aterrada, por o vizinho rosnar, ao retirar-se:
— Deixa que tu pagá-las todas juntas!
E assim se anuviaram tantas alegrias!
O lavrador passeava agitado, com a testa franzida e as mãos atrás — das costas; a mulher lidava nos arranjos do jantar, lançando de vez em quando olhares furtivos para o marido, enquanto que o pequeno, que lera a carta, calado e quieto, pela primeira vez na sua vida interrogava alternativamente o rosto do pai e o da mãe, perguntando a si próprio se teria por acaso alguma culpa em tudo aquilo. E, alheios ao que se passava, o pequenito, com um dedo na boca, tentava pôr-se a pé, agarrando-se — com a mão livre à saia da cega, ao passo que esta continuava a perseguir em sonho uma recordação do passado ou visão do futuro, pois o presente nada lhe dizia já.

CAPÍTULO 3
Ao leitor, bondoso e bem-intencionado, deve ter-lhe custado — a compreender que um homem — um pai! — angustiado pela incerteza, pelo receio do flagelo que semeara o luto no seio de tantas famílias, só encontrasse ironias, ouvindo ler uma carta que lhe retirava de sobre o peito o enorme peso da dúvida... Aí vai a explicação:
Se, quando ouvimos uma frase que nos ofende, pudéssemos ler no coração de quem a profere, veríamos muitas vezes lá dentro tanta amargura e tão intenso sofrer, lutas tão tremendas, chagas tão vivas e fundas, tão dolorosas contusões de amor-próprio e mal fechadas cicatrizes de reais ou supostos agravos, que, longe de repelirmos a frase com aspereza, talvez só encontrássemos em nós profunda e sincera compaixão pelo ofensor! E, demais, quem pode prever o alcance da primeira palavra que nos sai dos lábios?!... Haverá quem não conheça o efeito dessa embriaguez da palavra, embriaguez mais poderosa, exaltada e terrível em seus efeitos do que a causada por outro qualquer agente?!... O som da própria voz é uma espécie de aguilhão, que nos excita, que nos arrasta, que nos aplaude, que nos grita aos ouvidos:
"Bem, muito bem! Continua!..."
O mau é soltar a primeira palavra; solta ela, vem a necessidade da justificação, a recordação de todos os pecados velhos, a ânsia da desforra, o choque violento das más paixões, o obscurecimento da razão, e — vai-se sempre mais longe do que se queria ir.
O Sr. José, mestre carpinteiro, não era o que vulgarmente se chama um homem de maus fígados. Não era! tinha apenas essas fumaças de valente, desgraçada mania da nossa gente do Minho, que tanto tem dado que fazer aos cirurgiões e sobretudo aos endireitas.
O pior defeito, porém, do mestre carpinteiro era o espírito de contradição, que quase se poderia dizer que se havia encarnado nele. Em alguém dizendo: "Acolá vai um gato branco", era contar que ele só via um gato preto! E era contar que o gato nunca mais se tornava a lavar e ficava preto para todo o sempre, pois ali estava ele, o Sr. José, pronto para sustentar a murro, a pau e a tiro, entre as paredes de uma cadeia ou pregado numa cruz, que era preto o gato e não branco, como toda a gente dizia. Este desgraçado vício tinha-lhe sido causa de um sem-número de desgostos, o mais severo dos quais vamos contar, por prender diretamente com esta narração.
Antônio, o filho do lavrador, era cerca de um ano mais velho do que Francisco, filho do carpinteiro. Inteligente e estudioso, no fim de um ano de escola, não havia aí livro impresso, nem, o que mais era, sentença manuscrita, que o pequeno não lesse, como se costuma dizer, de fio a pavio. Uma noite em que o carpinteiro estava em casa do lavrador, este, com a santa e respeitável vaidade dos pais, chamou o filho e fê-lo ler meia dúzia de páginas do Catecismo, para o vizinho ouvir. Durante a leitura entrou o Francisco e foi sentar-se ao pé do pai. Quando o rapazito acabou de ler, virou-se o dono da casa para o vizinho e perguntou-lhe:
— Que lhe parece?... Olhe que, a não ser o Senhor Abade e o mestre-escola, não há aí quem leia melhor do que ele!
O Sr. José, por deferência para com a mania querida, esteve quase a dizer que o rapaz não sabia ler; conteve-se, porém, e rosnou um "lê bem"pouco animador. O lavrador, agarrando então uma das orelhas do filho do carpinteiro, perguntou-lhe, gracejando: 
— E tu, meu rapagão, não queres saber ler como o Antônio?... Diz ao teu pai que te mande à lição, meu rapaz... Olha que candeia que vai adiante, alumia duas vezes, e, quanto mais depressa souberes, melhor será para ti.
Aqui entendeu o Sr. José que era chegada a ocasião de satisfazer o seu gostinho, e declarou, portanto, que não havia doutorices, como ele chamava ao saber, que valessem um bom par de braços.
Como é fácil de prever, travou-se a discussão, e tanto se deixou ir o Sr. José atrás da paixão de contradizer que, depois de negar as vantagens da instrução, acabou por declarar que filho seu não aprendia a ler.
E se bem o disse, melhor o executou!...
Executou; mas, como não há argumentos de amor-próprio que destruam a rigorosa lógica da razão, que severa punição lhe era, agora que o filho estava longe, pensar que entre eles não poderia haver segredo em que não tivesse parte um terceiro, carícia que não fosse feita por mão de outrem, abraço que recebesse, a não ser por procuração!
Duro castigo!
Quando regressara da cidade sem carta do filho, todas estas ideias lhe haviam lanceado por tal forma o espírito, que, quando chegara a casa do vizinho, já ele mentalmente o tornava culpado do seu infortúnio, e, ao ouvir ler a carta, cujo post-scriptum afirmava que, por causa do signatário dela, ficava ele sem notícias mais íntimas do filho, operou-se-lhe no cérebro uma revolução singularíssima!
O egoísmo teve traças para o convencer de que em virtude da suposta culpa do pai, o filho do vizinho tinha obrigação de ler e escrever pelo dele. Pertencia-lhe metade daquela aptidão; tinha direito a ela; não compreendia que Antônio se recusasse a satisfazer o desejo de Francisco, sem o lesar na sua metade de saber!
Juntem a isto o caso dos bois, e o do campo, e aí está dada a explicação, que consumiu mais tempo e papel do que merecia.

CAPÍTULO 4
Tinham passado quinze dias depois da ruptura que se dera entre os dois vizinhos. O Sr. José, contra o seu costume, não tinha dado mostras de querer confiar ao marmeleiro, seu advogado usual, a vitória da sua causa, e a mulher do lavrador, a quem as últimas palavras do carpinteiro "deixa que tu pagá-las" tinham feito perder o sono, começava a respirar mais livremente, confiando em Deus, que tudo faria pelo melhor.
Amanheceu afinal um dia formoso, e ela, que até ali, já com um pretexto, já com outro, pudera obrigar o homem a não se afastar da aldeia, não pôde achar razões convincentes para o impedir de ir à cidade. E lá foi ele, mas não sem prometer um bom centro de vezes que não voltaria de noite.
Só quem as tem sentido pode avaliar as angústias de quem espera, com a mente povoada de sinistros pressentimentos, a chegada de um ser estremecido, quando paira sobre ele uma ameaça de perigo!
O assobio, que se ouve ao longe, é dele; os passos, que fazem estalar lá fora as folhas secas, são dele; o mocho que pia no campanário da aldeia, o cão da casa uivando dão-no em perigo!
E ninguém com quem desabafar! De um lado a cega imóvel e indiferente, do outro os filhos sorrindo sem preverem nem o perigo nem o alcance dele! E então vêm as razões com que procuramos conjurar o fantasma do terror, restituindo a tranquilidade à nossa alma:
"Teve que fazer na cidade... O carpinteiro é assomado, mas não é mau... Já lhe passou... A estas horas está ele a cear ou... talvez a dormir..."
E aí se vai à porta pela milésima vez; e a vista perturba-se, tentando penetrar as trevas, e começa a ver assassinos escondidos atrás de cada tronco de árvore; e os ouvidos, cansados da aturada atenção, entram — de obedecer à voz interior e distinguem o som de passos precipitados, vozes irritadas, chegando às vezes a inventar gritos de socorro!
Como sofre quem espera sob a influência do terror!

CAPÍTULO 5
Serão oito horas da noite. O céu está recamado de estrelas, mas os corpos não projetam sombras, porque o luar só aparece às nove horas.  
O sítio incute respeito: é o monte da via-sacra. Se fosse de dia ou o luar brilhasse, poder-se-iam contar as cruzes que a partir da capela, ereta no cimo do outeiro, se erguem pelo monte abaixo, numa distância de vinte passos de umas às outras.
Numa pequena elevação, sobranceira ao caminho, a cerca de trinta passos do primeiro cruzeiro da via-sacra, guiada a vista pelo brilho do lume de um cigarro, acabava-se por distinguir o vulto de um homem, sentado, como pau traçado sobre os joelhos. Era o mestre carpinteiro que esperava ali o vizinho, para lhe provar a justiça da sua causa.
Quem lhe pudesse ler no cérebro acharia isto:
"Muito mal... não... Quinze dias de cama é nada mais... Há de levar a sua dose para não tornar a ter o atrevimento de levantar uma cadeira para mim!"
E tão certo estava de si, que continuava filosoficamente a fumar o cigarro, esperando o lavrador com a pachorra com que um pescador de profissão espera horas até que uma truta se lembre de vir brincar com o anzol.
Por fim, lá lhe pareceu que ouvia ruído de passos, e ergueu-se. Não se enganara: era o lavrador. Subia este a ladeira apressadamente, estimulado pela lembrança do susto com que a mulher o estava esperando, quando o carpinteiro, de um salto, se achou defronte dele. O lavrador reconheceu-o imediatamente, mas não se deu por achado, e perguntou com voz cuja afetada segurança traía o sobressalto interior: — Quem temos por aqui?
O outro, rindo sarcasticamente, respondeu: — Alguém que vem ver-se você é homem para outro!
— É vossemecê, Sr. José? — redarguiu o lavrador, buscando ganhar tempo para achar saída àquele aperto.
— Um seu criado, para o servir com umas asas de pau!... Pode mandar dizer isto ao seu doutor, a ver o que ele de lá responde! — prosseguiu o carpinteiro.
— Ele que há de dizer? — retorquiu o lavrador, tentando levá-lo pelo brio. — Há de dizer que nunca pensou que o Sr. José viesse esperar um homem que nunca lhe fez mal, e que nem sequer traz um pau, como esse, para se defender.
— Pois dirá... dirá, sim senhor, mas... enganou-se!... Não traz pau?... Faz mal, se bem que nessas mãos, de pouco valia!... Mas leva rumor e acabemos com isto, que eu não vim cá para conversar!
E, fincando um pé um pouco mais atrás, ergueu o pau. O lavrador compreendeu que não havia compaixão a esperar, e, confiando com razão no vigor dos próprios músculos, deu um salto para diante, ao tempo que o adversário erguia o terrível marmeleiro, e estreitou-lhe o corpo com os braços. O carpinteiro, vendo-se abraçado, deixou cair o pau, já agora inútil, e arcou com o vizinho, murmurando apenas por entre — os dentes cerrados:
— Ah! cão, que me embaçaste!
Começou então uma luta horrível entre aqueles dois homens, ambos ainda jovens, ambos vigorosos. Depois de alguns minutos de esforços inauditos, para ver qual deles subjugaria o outro, o pé do carpinteiro encontrou uma velha raiz de árvore, que o fez cair de costas, arrastando na queda o seu contrário. Este, aproveitando a vantagem, desprendeu um dos braços e apertou vigorosamente o pescoço do inimigo, que espumava de furor, sem exalar um queixume. Não tardou, porém, que uma ideia horrível viesse paralisar o esforço do lavrador. Pareceu-lhe que o vencido tentava meter a mão no bolso, viu-se esfaqueado, passou-lhe diante dos olhos a imagem da mulher e a orfandade dos filhos, ergueu-se e fugiu.
Não se enganara. O carpinteiro lembrara-se, de repente, que trazia uma navalha no bolso, e, cego de furor, parecia-lhe ainda pequena vingança a morte daquele homem, que o estava ali estrangulando. Mal o lavrador largou a fugir, levantou-se também e correu atrás dele com a navalha aberta na mão.
Era horrível aquela corrida, a que um era estimulado pelo medo e o outro pelo ódio. O lavrador, porém, além de se ter ferido num joelho, quando rolara por terra abraçado com o carpinteiro, era também mais pesado do que este.
Ouvindo atrás de si os passos do inimigo e sentindo-se quase impossibilitado — de tomar fôlego, abandonou-o de todo a energia, e, correndo para o primeiro cruzeiro da via-sacra, abraçou-se com ele, e, voltando o rosto para trás, bradou:
— Pela cruz em que morreu Nosso Senhor, não me mate!
— Também nela morreu o mau ladrão, maroto!... — bramiu o carpinteiro, com os lábios quase colados ao ouvido do desgraçado, e comprimindo-o com a mão esquerda contra a cruz, ao passo que, com a direita, buscava cravar a navalha.
***
A mão, que se dispunha a embeber o ferro, caiu inerte, e o lavrador, sentindo afrouxar a presa do contrário, deu um salto para o lado, viu-o dar um passo para trás, cambalear e cair de bruços no chão, como atordoado. Depois — de o contemplar um instante, como quem não compreende, lembrou-se da mulher e, como se tivesse criado novas forças, correu em direção a casa, que ainda ficava a bons vinte minutos dali.

CAPÍTULO 6
Como o honrado lavrador o conta ainda hoje, nunca o caminho até casa lhe pareceu tão longo nem ele o andou em menos tempo! Quando chegou, ia por tal forma impressionado pelas diferentes peripécias, mas sobretudo pelo desfecho da luta, que, mal entrou, fechou instintivamente a porta da rua à chave e deixou-se cair ofegante numa cadeira.
A mulher, pensando naturalmente que alguém o perseguia, esteve quase a gritar por socorro; deteve-a, porém, a reflexão, e ficou extática e trêmula, toda curiosidade e medo, com os olhos cravados no marido, à espera que este se explicasse.
Dominada, por fim, a emoção, correu o lavrador para os filhos, beijando-os freneticamente, e, apertando em seguida a mulher contra o peito, num destes abraços mudos, que tanto dizem, que traem o receio de uma separação eterna, desfeito pelo prazer de tornarmos a ver quem já considerávamos perdido para nós, contou-lhe, afinal, o perigo de que se vira livre por modo tão sobrenatural.
— Olha que foi castigo do Senhor, por ele não respeitar a cruz, quando lhe pediste por ela!... Olha que foi, João!... — exclamou a mulher, ouvindo como o carpinteiro caíra fulminado.
— Foi, mulher... decerto foi... — concordou ele. — E louvado seja Ele, que se lembrou que eu tinha filhos para criar e uma santa, como tu, para me ajudar nesta tarefa!
A mulher, obrigando então o filho mais velho a ajoelhar diante do modesto crucifixo, aos pés do qual ardia a luz — de uma lamparina, elevou a Deus uma destas preces, em ação de graças, mais imponentes na santa singeleza e mudez com que sobem do coração aos lábios, do que o pomposo "Te-Deum" com que a ostentação vaidosa dos grandes costuma julga retribuir qualquer benefício recebido.
Nessa noite, a não ser o pequeno, ninguém tocou na ceia; havia, contudo, o que quer que fosse que embargava a fala dos dois cônjuges e os não deixava erguer da mesa. Conhecia-se que tinham medo de se ir deitar. De tempos a tempos, os olhares de ambos encontravam-se, para logo se esquivarem, como receosos de traírem o que os corações sentiam. Aquele silêncio, porém, aquele constrangimento desusado entre eles, pesava-lhes!
Afinal, a mulher, dando a conhecer o pensamento secreto, balbuciou com voz trêmula:
— Mas por que cairia ele?!... Ó João, e se ele está morto ou... para morrer?!...
o marido, fazendo um violento esforço para sair daquela espécie de adormecimento moral, ergueu-se e entrou de passear silencioso.
Após alguns instantes, a mulher, vencendo a natural timidez, perguntou, hesitando:
— Ó João, e... e se tu fosses pedir conselho ao Senhor Abade?... Ele é tão bom homem!...
— Tiveste a minha ideia, mulher!... Vou lá de caminho! — respondeu o lavrador.
E, pegando na espingarda que estava pendurada a um canto, fora do alcance dos filhos, abriu cautelosamente a porta, sondou com a vista as vizinhanças da casa, e partiu, com pé ligeiro e coração pesado, em direção ao passal.
Seriam dez horas, quando João bateu à porta da casa do abade. Já tudo dormia, de forma que teve de repetir a pancada.
Depois de alguns instantes de espera — os precisos para acender a vela e lançar um capote aos ombros — ergueu-se a meia vidraça da janela e apareceu a cabeça do padre, que perguntava em tom comovido:
— Quem é? Está alguém doente?
— Sou eu, Senhor Abade... e preciso muito falar-lhe... agora mesmo — respondeu o lavrador.
— Pois és tu, João!? — redarguiu o outro com manifesto espanto, reconhecendo a voz do freguês. — Que me queres, homem de Deus?!
— Abra, pelas almas, Senhor Abade! — insistiu João.
— Está bem, filho, está bem... Espera um instantinho que eu vou já abrir-disse o velho, que logo viu — que o assunto era grave.
A porta abriu-se e João entrou. Instantes depois sabia o abade tudo.
Bastava ver o padre uma vez, para se ficar com a certeza de que era um destes justos, que servem para afirmar a existência da virtude na terra, um destes sacerdotes que são uma espécie de bênção para o rebanho confiado ao seu cuidado; não admira, pois, que mulher e marido tivessem tido a mesma ideia. Aquele... era o padre como eu o concebo, e como Deus decerto os ama — pai e juiz, cireneu e confidente.
— Foi a cruz, filho!... Não foi outra coisa! — exclamou ele.— Mas é preciso lá ir, João... Vamos lá ambos... — prosseguiu o velho, a quem assaltara a ideia de que o carpinteiro fora vítima de uma apoplexia causada pela excitação, senão filha da rude carícia da mão do lavrador, quando lhe cingira o pescoço. — Vamos lá, homem... — continuou ele. — Mas, primeiro, põe-me já ali a espingarda naquele canto... Não é precisa...
O abade acabou de vestir-se, e, apoiado a um cajado, pôs-se a caminho, precedido pelo lavrador, a quem entregara um lampião.
Cantavam os galos quando os dois chegaram ao pé do cruzeiro onde caíra — o infeliz adversário do lavrador. Aterrado, e vendando os olhos com a mão esquerda, João estendeu a destra, que sustentava o lampião, para alumiar o sítio fatal, onde devia jazer o carpinteiro.
Oh! que alívio sentiu, quando o abade, depois de olhar, exclamou:
— Cá não está ninguém!... Tu sonhaste, João! Só então se atreveu este a retirar a mão dos olhos e a fitá-los no chão.
Não tardou que o abade, pegando no lampião para observar o solo, se convencesse de que o seu paroquiano não fora vítima de um sonho.
A primeira coisa que lhe feriu a vista, foi uma poça de sangue coagulado, rente ao tosco degrau que servia de base ao mal lavrado pedestal do cruzeiro. No meio do sangue jazia uma pedra.
O padre olhou atentamente para ela, e, erguendo em seguida o lampião, viu que o cruzeiro não era, então, mais do que um enorme T de pedra.
Baixando lentamente o braço, o sacerdote murmurou com voz contrita:
— O dedo de Deus!
E ficou por alguns instantes com a fronte pendida sobre o peito.
Saindo, afinal, daquele íntimo cogitar, voltou-se para o lavrador, dizendo:
— Vamos embora, João... Tu vais para casa, e eu, — de lá, vou ver se o infeliz precisa de mim.

CAPÍTULO 7
Vejamos agora o que foi feito do carpinteiro.
Quando recuperou os sentidos, não poderia dizer quanto tempo lhe durara o delíquo. O seu  primeiro movimento foi acudir com a mão à cabeça e viu que estava ferido. Sentou-se por terra,  diante da cruz, e começou a coordenar as ideias.  Passaram-lhe então, diante dos olhos, todos os  episódios da briga até ao momento em que intervenção estranha o prostrara por terra. Ecoaram-lhe nos ouvidos as preces de piedade, soltas com voz de indizível agonia pelo seu contendor, e acudiu-lhe à mente o cruel sarcasmo com que lhas abafara. Ao chegar a este ponto, ergueu-se, aterrado, e bradou:
— Foi a cruz!... Estou perdido!
Ninguém imagina os tormentos que abalaram então aquela robusta natureza, enérgica no bem como no mal, fiel na crença de Deus e de um mundo futuro, dividido em dois campos — Céu e Inferno!... E o desgraçado viu-se abismado no último pelo insulto feito ao símbolo que dá entrada no primeiro!... Quis rezar e não pôde! Perseguido por uma ideia fixa, com o cérebro enfraquecido pelo sangue que perdera, pôs-se a caminho para casa, mas uma singular coincidência veio redobrar-lhe o martírio!
Ia alta a Lua a essa hora, de forma que ao longo do caminho que tinha a percorrer até vencer o outeiro da via-sacra, os seus olhos só encontravam cruzes!... Se os erguia... via-as a prumo de vinte em vinte passos; se os baixava... lá estavam traçadas na terra pela projeção da sombra!
O que faz essa outra mais pesada de todas as cruzes — a cruz do remorso!... Que via-sacra!... que horrível subida do Calvário!
Deixara ele, finalmente, atrás de si o outeiro, quando avistou ao longe o lampião dos dois que vinham procurá-lo. Escondeu-se atrás de uma árvore e esperou que passassem.
Que recrudescer de remorso!
O seu adversário, o homem que ele duas horas antes quisera matar, em vez de se fazer acompanhar pelo homem da lei, fora bater à porta do homem de Deus; em vez da vingança — o perdão; em vez do — castigo-a absolvição!
Quando chegou a casa e olhou para dentro de si, teve horror de si próprio e caiu de novo sem acordo. O padre, na volta, foi encontrá-lo a debater-se contra os fantasmas que a febre lhe criava e fazia surgir ante os olhos da alma.

CAPÍTULO 8
Dois meses teriam decorrido, depois destes acontecimentos. O carpinteiro já se erguia da cama, mas ;ainda não saía à rua, e em casa do lavrador reinava a paz. Um domingo, depois da missa, quando João já ia a retirar-se — com a mulher e o filho, assomou o abade à porta da sacristia e disse com risonho semblante:
— Ó João!... Deixa ir a mulher, mas espera tu, pois preciso de te falar.
A mulher foi indo adiante e ele ficou. Saiu, por fim, o padre e, travando-lhe amigavelmente do braço, disse-lhe:
— Mal tu sabes onde eu te vou levar!
— Eu com o Senhor Abade vou até ao... fim do mundo! — respondeu o lavrador, que se conteve a tempo de não acompanhar o padre ao Inferno.
O ancião sorriu com bondosa malícia, por perceber a emenda, e continuou:
— Vá lá! Vou-to dizer!... Nós vamos em romaria à cruz da via-sacra!... Que dizes?
Ao lavrador arrasaram-se-lhe os olhos de água, e por única resposta, apesar da resistência do santo velho, beijou-lhe a mão.
E lá foram os dois.
Imagine, porém, o leitor qual seria a admiração do honrado homem, quando, ao chegar perto do cruzeiro, viu o seu inimigo, o Sr. José em pessoa, de chapéu na mão, contemplando melancolicamente o degrau da cruz onde batera com a cabeça?!...
O rosto pálido e emagrecido mostrava bem os sofrimentos que lhe haviam minado a alma, ainda mais do que o corpo, e o lenço vermelho, que lhe cingia a fronte, indicava que a cicatriz ainda não estava completamente fechada.
João, ao ver o carpinteiro, hesitou, mas a um olhar do padre continuou a andar. Chegados ao teatro da briga, os dois contendores miraram-se em silêncio: da parte do lavrador havia enleio, no carpinteiro percebia-se sincera comoção.
— Então, José!... — disse o padre, dirigindo-se ao último.— Foi para isto que me pediste que trouxesse cá o João?
— Esteja descansado, Senhor Abade... — respondeu o carpinteiro.
E, voltando-se em seguida para o lavrador, disse-lhe: 
— Vizinho, vossemecê é melhor do que eu... Conheço-o, tenho certeza disso... Quem vai buscar este santo homem, em lugar de trazer o regedor, para levantar do chão quem o quis matar, não é capaz de negar a sua mão a quem lhe pede, por esta cruz que o salvou, que lhe perdoe!...
O lavrador precisou de respirar para poder responder, tanto a emoção lhe tolhia a voz. Apenas, porém, pôde falar, estendeu francamente a mão ao arrependido, dizendo-lhe:
— Não falemos mais nisso, vizinho... O que lá vai, lá vai... Está perdoado!... Se o merecia, bem castigado foi!... Não falemos mais nisso, se é meu amigo!
— Fui castigado e ainda o estou a ser!... — redarguiu o outro, que, entregando uma carta ao padre, continuou: — Senhor Abade, faça favor de ler essa carta do meu Francisco outra vez, mas alto...
Dizia a carta que ele, Francisco, tinha tido a febre-amarela, e que, se escapara, o devia aos cuidados do seu amigo Antônio. Acrescentava ainda que este se recusara desta vez a escrever, dando como desculpa não querer fazer elogios a si próprio, sendo por isso escrita por outro companheiro, e terminava por anunciar ao pai que, como se fora pouco o que por ele fizera, o filho do lavrador o andava ensinando a ler.
Terminada a leitura, o carpinteiro, que se tinha sentado no degrau da cruz com o rosto metido entre as mãos, ergueu-se e disse, com as faces úmidas de pranto:
— Já vê, Sr. João, que o castigo continua!... Cada benefício, que me vem de si ou dos seus, torna mais feia a minha má ação!
— Ainda podia ser pior! — interrompeu o padre.
E, apontando para a cruz derrocada, prosseguiu:
— Dá graças àquela, que não quis que tu fosses a esta hora um assassino!

CAPÍTULO 9
O leitor está sentindo lá por dentro um malicioso prazer, imaginando que eu tenho andado a fugir à explicação do mistério — pois é, por enquanto, um mistério a intervenção da cruz na pendência; nem essa intervenção lhe parece ter explicação possível...
Ora enganou-se o leitor!... O verdadeiro, o real explica-se sempre, e este é um conto... que não é um conto: é um fato verdadeiro e acontecido, que o santo abade me explicou com toda a clareza, como vai ver.
A cruz, assente sobre o tosco pedestal, de que já falamos, era formada de três peças: a haste, os braços e o topo.
Em noite de medonho temporal, o fogo do céu baixara  — quem sabe se já intencionalmente!... —  e, lanhando o resto, cortara o topo da cruz em duas metades desiguais, ficando uma destas inclinada para diante, segura apenas pelas garras de vigorosa hera. Quando o carpinteiro comprimia o inimigo contra a cruz e apontava o ferro para lho cravar, o lavrador, por um movimento convulsivo, puxou com as mãos os ramos da hera, e estes, crestados pelo raio e mortos, cederam, estalando e fazendo cair, uma para cada lado, ias duas metades da pedra que formava o topo da cruz. A metade que pendia amparada pelos ramos, como já anteriormente dissemos, veio então bater na cabeça do carpinteiro, quando este proferia ao ouvido do adversário a sua feroz ironia:
— Também nela morreu o mau ladrão!
***
Eu estou — daqui a ver o leitor enleado por não saber dar um nome a esta intervenção da modesta cruz da via-sacra... Faça como o padre... e como eu... chame-lhe:
O DEDO DE DEUS!