quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O desfecho da "Cartomante" (Conto), de Iba Mendes

“Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.”
Machado de Assis – A Cartomante

Com os olhos acesos de ódio, Vilela mirava os dois cadáveres como se quisesse trazê-los de volta à vida apenas para ter o prazer de matá-los mais uma vez. Andando de um lado para o outro, ainda com o revólver em punho, cogitava mentalmente mil planos para se safar daquele hediondo crime. De repente correu até o canapé onde jazia o corpo de Rita, e ali ficou em pé, imóvel, durante alguns minutos. Desperto daquele lúgubre letargo, abaixou-se para junto do cadáver da mulher e o arrastou para onde se encontrava o corpo de seu amante, colocando-os um junto do outro. Fixou novamente o olhar para os dois mortos, levou as mãos à cabeça e, por um breve instante, foi tomado de um indescritível desespero, deixando-se cair no chão lavado em sangue. Logo, porém, recuperou o máximo que pôde da sua natural lucidez, foi até o quarto e vestiu uma calça às carreiras, voltou e desceu correndo os degraus da casa, quando observou ao longe a figura de um cocheiro com o seu tílburi. Gritou duas vezes para que este se aproximasse, incumbindo-o para que o conduzisse até a antiga Rua dos Barbonos. O pobre homem, entretanto, desculpou-se dizendo que infelizmente não podia levá-lo naquele instante, pois que aguardava um tal senhor chamado Camilo, que ali entrara e que ele muito provavelmente deveria conhecê-lo.
— Oh, sim, deveras, conheço-o, mas ele me pediu para que o dispensasse; irá depois diretamente para o Cemitério São João Batista.
O cocheiro do tílburi ia perguntar se havia morrido alguém, todavia, notando as feições decompostas do outro, teve um leve tremor nervoso, aproximou depressa o cavalo, estalou o chicote e partiu a trote.
À proporção que o carro se ia afastando, Vilela entrou a conjecturar mil hipóteses da esfera jurídica acerca do crime que acabara de praticar, e aventou para si que a melhor alternativa seria legitimar perante os juízes a defesa de sua honra. Tinha ótimos contatos com outras bancas de advocacia e conhecia os melhores advogados; ademais, desde que abriu seu escritório sempre mantivera boas relações com a alta magistratura do Rio de Janeiro, da qual se incluíam os nobres membros da Suprema Corte.

O tempo parecia espaçado, e ele queria chegar o mais depressa à casa onde supunha que se encontravam os pérfidos amantes. Dona Plácida, a comprovinciana e cúmplice de Rita no seu namoro com o Camilo, era sua antiga conhecida, e já de antanho sabia que o seu ponto fraco era um só: o dinheiro. Oferecer-lhe-ia uns dois contos de réis e ela se poria por inteira à sua disposição, para testemunhar em favor de sua causa perante os tribunais de justiça.
Ao fim de quinze minutos, quando já se aproximava da Rua da Guarda Velha, o tílburi parou bruscamente quase atingindo um menino de três ou quatro anos, que dobrava a esquina desesperado atrás do seu brinquedo. Vilela, que até então estava imerso num turbilhão confuso de pensamentos, saltou num pulo do carro, no mesmo instante em que uma das rodas desprendeu-se do seu eixo fazendo o veículo bater com toda a força na parede de um estabelecimento de secos e molhados.  Com o tombo o cocheiro foi arremessado para longe, porém escapara ileso do acidente. Este ergueu-se resmungando um dito feio e lamentando mais o tamanho do prejuízo do que a extensão do desastre. O passageiro, vendo o desespero do pobre homem, e muito ansioso por se esvair o mais depressa possível daquele lugar, meteu sem demora a mão no bolso, tirou duas notas de duzentos mil-réis e entregou-as ao condutor, que lhe sorriu como se tivesse ganhado na loteria.
Enquanto um grupo de curiosos se aglomerava ao redor do tílburi numa confusão de passos e vozes, Vilela deixou o local rapidamente e seguiu caminhando pela calçada da mesma rua. Um anúncio exibido em frente à Tipografia Nacional, próximo à Secretaria do Império, convidava os passantes para a apresentação de uma ópera lírica francesa, baseada na peça Hamlet de William Shakespeare. Lembrou-se então ele das palavras do criminoso Cláudio, o rei que assassinou o próprio irmão: “Está podre o meu crime; o céu já o sente.” Neste momento um súbito e dolorido remorso pousou como um corvo negro na sua consciência, picando-o por dentro com o bico da culpa, e grasnando bem alto “assassino!... assassino!... Então entrou a recompor mentalmente toda a cena do crime; viu a mulher ajoelhada diante de si a implorar perdão e a suplicar com lágrimas de sangue para que a deixasse viver; contemplou o amigo aterrorizado a olhar o cadáver ensanguentado da amante, e até parecia ouvir o estrondo dos tiros que lhe dera bem no meio da testa. Tudo isso, entretanto, passou rápido pela sua mente. Logo, porém, um sentimento de humilhação apoderou-se dele com toda a força e então redobrou-se de ânimo para persistir no seu intento de provar que só cometera o crime para defender sua honra. Estava na Lei, era assim que deveria ser...
Antes de dobrar a esquina, reparou ao lado, à direita, um sobrado com duas janelas grandes, em cuja porta ele observou com certo interesse um pequeno cartaz de madeira pendurado na porta com os seguintes dizeres: “Dá consultas de magnetismo com sonambulismo e cartomante. Adivinha tudo o que os consultantes desejam saber”.
Desde moço Vilela sempre tivera certa inclinação pelos mistérios de que falou Horácio a Hamlet. Toda sua crença, contudo, tinha por fundamento o simples temor do incógnito, do secreto, do incompreensível... Quando por alguma razão se via diante de um aparente mistério, calava-se apenas por superstição; no âmago, o que ele não queria era provocar a fortuna. Agora, ali sozinho, em frente aquela casa toda imersa numa penumbra de segredos, sentia como que arrastado pelo ímã daquela enigmática sibila. De repente retrocedeu alguns passos e foi caminhando em direção à misteriosa casa. Ao aproximar-se da calçada hesitou, mas já era tarde: uma das janelas abriu-se e apareceu a cabeça de uma mulher:
— A porta está aberta, pode subir!
Mais que depressa enfiou-se ele pelo corredor e subiu a escada. A mulher já o aguardava à porta:
— Entre, entre!
Vilela entrou assustado e olhando para um lado e outro, como que querendo antecipar a decifração de algum enigma.
— Sente-se aqui, disse-lhe a profetisa puxando uma cadeira e observando atentamente as mangas de sua camisa salpicadas de sangue.
Feito isso, dirigiu-se até uma velha cômoda de mogno, puxou dali um lenço vermelho e foi ligeira sentar-se à mesa do lado oposto em que ele estava. Sem tirar os grandes olhos dele, ela abriu a gaveta e puxou um baralho de treze cartas enxovalhadas, que eram as mesmas com as quais se havia utilizado para dar consulta a Rita e a Camilo. À medida que as espalhava sobre a mesa, balbuciava palavras incompreensíveis, que o outro traduzia mentalmente como sendo a sentença fatal do seu destino.
— É a primeira vez que vem a minha casa, não é?
Vilela confirmou que sim com a cabeça.
— Vejamos... As cartas revelam que o senhor está vivendo um terrível drama, correto?
Ele respondeu afirmativamente e acrescentou quase chorando:
— Sim, minha senhora, um terrível drama! 
— As cartas dizem ainda que o senhor teve uma grande perda... Dizem elas a verdade?
— Dizem sim, minha senhora, uma perda irreparável.
Neste momento, Vilela, que tinha as mãos estendidas sobre a mesa, estremeceu quando a outra as apertou firmemente entre as suas.
— Não há nada a temer, meu rapaz... O senhor fez o que acreditava ser justo... Agora precisa dar cabo ao que começou...
A essas palavras da adivinha, um súbito relâmpago atravessou as sombras do espírito do homem, que num profundo desespero saiu correndo da presença dela sem ao menos perguntar-lhe pelo preço da consulta.
Na rua ele continuou correndo ainda durante uns cinco minutos, quando parou esbaforido ao ver um tílburi estacionado em frente a uma chapelaria. O cocheiro, ouvindo-o chamar ao longe, gritou:
— Para onde vamos, patrão?
Nem aproximou o carro, Vilela correu até ele, meteu-se lépido lá dentro e mandou tocar a todo o galope.
Daí a vinte minutos chegava ele em casa. Apeou-se apressado, subiu correndo os seis degraus de pedra, empurrou a porta com toda a força e entrou ofegante. Já dentro correu até a escrivaninha, abriu a gaveta e tirou de lá a mesma arma com que matara a Rita e a Camilo. Em seguida caminhou apressadamente até a saleta onde estavam os dois cadáveres ensanguentados, arrastou os corpos para os lados e meteu-se no meio deles, sentando-se sobre uma poça de sangue coagulado. Não quis pensar em mais nada: enfiou o cano do revólver na boca e disparou.

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