sábado, 30 de setembro de 2017

Carlos Magno e o Abade de São Gal (Conto), de Guerra Junqueiro


Carlos Magno e o Abade de São Gal

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de São Gal, preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos e ativos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha mais de um motivo de queixa contra ele.

— Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão solene do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que vossa reverendíssima vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás deixa de ser abade de São Gal, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada para o rabo.

O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores mais famosos pela sua ciência, não lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal aproximava-se; já não faltava senão um mês, já não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O abade, que em outro tempo era gordo e anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite. Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.

— Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?

— Estou, meu caro Felix, estou muito doente.

— Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.

— Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas três perguntas.

— É então latim?

— Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.

— Visto que não é latim, queira vossa reverendíssima dizer-me o que é: minha mãe era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.

Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou com o barrete ao ar, e disse-lhe:

— Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e vossa reverendíssima pode continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu vista o seu hábito.

Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o hábito do abade de São Gal, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.

— Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro? 

— Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só um dinheiro menos.

— Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na realidade não posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há de ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?

— Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro horas.

— Decididamente, vossa reverendíssima é um grande finorio, e desta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à que se responde com suposições. Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.

— Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de São Gal; está enganado, porque eu sou o seu pastor.

— Mas então tu é que deves ser o abade de São Gal, e desde já o ficas sendo.

— Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, peco-lhe outra coisa.

— Não tens mais que falar.

— Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.

Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.

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