segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Comédia da Província (Conto), de Trindade Coelho


Comédia da Província

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I — PRELÚDIOS DE FESTA

Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito — abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se tivesse tempo de o acabar.

— Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que “no seu ano” a “coisa” fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

— Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o Antônio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém falava noutra coisa.

— Então você já sabe?

— Já sei. A cegonha.

— A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...

— O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?

— Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do “Valente Rei Arauto Fiel”.

Enganava-se.

O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves aferidor.

— Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver arder.

O outro não percebeu. “Que se explicasse...”

— Um urso, no arraial queima-se um urso.

— Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves. — Também se lá queima um burro.

Às duas por três, o Antônio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua predileção.

O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por dentro.

— Põe a tranca, se for preciso.

Mas então era cá da rua:

— Ó Sr. Antônio!

E na porta as pancadas ferviam:

— Truz! truz! truz! Sr. Antônio!

— Éna! c'um raio de diabos! — fazia lá de dentro o homem, furioso.

— O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

À janela assomava então o Antônio Fagote, com os óculos na ponta do nariz e a carta do foguetório na mão.

— O camelo? perguntava zangado. — O urso?! Camelos me parecem vocês, ouviram? O que o homem diz é isto.

E lia a carta, rematando:

— Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos. — Irra!

E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o José da Loja.

— Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agourava mal do negócio...

— Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!

— Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal soube.

E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou lendária:

— Como-te a alma se te mexes!

— E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! Comentavam convictos.

Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com 60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força, conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.

— Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira, foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

“Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau como o pintavam.”

— Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o Fagote. Do que ele é capaz sei eu.

Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!

Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz este ano.

— Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz: “entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...”

— Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se “das ideias do seu Antônio.”

— Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual, assim me Deus salve!

— Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

— Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita. — Foi este mindinho. Não falha.

E então desabafou: “que não pensasse o José da Loja, que o havia de levar à parede. Agora levava! A festa há de se fazer, e festa de arromba; “nanja” como a dele que só levava seis anjos, e não sei quantos andores, acho que meia dúzia!”

— Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de ver assim o seu Antônio.

E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava farta de ouvir. “Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao atar das sangrias!”

— Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.

A mulher contraveio: — “dois seriam bastantes...”

— Mau que aí principiamos nós! — E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé no soalho, arreliado. — Três é que hão de ser. Não quero cá dois, porque dois eram os do “outro”, o ano passado.

A esta razão, a mulher calou-se. O Antônio Fagote gostou do silêncio da mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o “outro”.

— Agora não fanfas tu... insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu gosto. Sinal é que tens vergonha. A “outra” também não é mais que a ti.

A “outra” era a mulher do José da Loja, está visto.

— Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.

— Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes de casarem...

— E olha que depois de casada... insinuou a Sra. Luísa, de venta no ar, enfiando a agulha. Cala-te boca.

Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou. Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da Loja. Há de perdoar-me o Antônio Fagote, mas nisto não lhe faço a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas...

— É preciso vermos como há de ser isso da vitela, disse o Antônio Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de vitela assada.

— O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sra. Luísa. Para um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!

— A mim o devem, se cá vem! — disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e 14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.

— Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário...

Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.

— Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

Era a criada da mestra régia, foram abrir.

— A senhor mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sra. Luísa, e este bilhetinho para o Sr. Antônio.

Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antônio Fagote foi acender uma luz.

“Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.”

— Muito calor, começou a Sra. Luísa.

— E então a casa da Sra. mestra que é mesmo um forno, disse por demais a criada.

E antes que a conversa pegasse, avisou a Sra. Luísa, ao ouvido, de que lhe queria uma palavrinha.

Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

— Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sra. Luísa.

— Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe um favor, disse atrapalhada a criada.

— Se estiver na minha mão...

A outra começou: “A Sra. Luísa estava ao fato do que se dizia dela com o criado do inglês. Decerto estava ao fato. Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda mentira.” — Estamos para casar! é o que estamos! “Ele já mandara vir os papéis lá da terra, não podiam tardar”. — Está claro que eu tenho afeição ao rapaz...

— Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sra. Luísa, para dizer alguma coisa.

— Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero chegar.

— Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sra. Luísa. É milagroso nas quartãs. Não se aflija, que isso não há de ser nada. — E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.

— Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via disso que eu lhe quero pedir um favor.

Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:

— Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele estado! inda não há nada que saiu da cama.

— Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa a Sra. Luísa. — Muito longe!

— Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!

Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é que ela não sabia.

— A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu Antônio mais os mordomos. Não ouvi.

— Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sra. Luísa, é que o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta, — suplicou aflita a rapariga.

— Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade a Sra. Luísa. — Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada...

— Era só isto, muito agradecida à senhora.

Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a testa.

— Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sra. mestra que desculpe. Mas enfim que leia como puder.

— Então muita maçada com a festa? inquiriu solícita a rapariga.

— Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

— Chh! fez admirada a rapariga.

— Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma pausa: — Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia uma horta, além no prado.

— Muita gente... disse a rapariga.

— Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro pessoas...

A rapariga benzeu-se!

— Vinte e quatro, pra mais que não pra menos, insistiu o Antônio Fagote. — Olhe: o pregador...

— Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.

— É. Não o há melhor. Missionário... — explicou o juiz. Pois o pregador, um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre, os pequenos, dois, doze.

— A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sra. Luísa.

— Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o Antônio Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze. (“Pausa”). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com mais de vinte e quatro pessoas à mesa. — E a rir-se: Mas há de sobrar muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?

— Isso então é uma praga! exclamou a Sra. Luísa. Até parece que vêm do chão assim... E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. Assim...

Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se. — “Adeusinho! o que havia de estimar é que tudo corresse como desejavam.” — E se for preciso qualquer coisa... ofereceu-se. As minhas fracas posses...

— Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora mestra...

— E que hei de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o Antônio Fagote.

E então explicou à mulher: “Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo”.

— Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.

A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.

— Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera do macaco...

A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o bicho não viesse.

— Tate! fez o Antônio Fagote, batendo uma palmada rija na testa. — Dá cá daí a minha véstia. Manda-se uma “parte” ao homem.

— Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não, aquilo já está fechado, o fio.

— Vai amanhã. “Agradeço favores. Traga macaco sem falta”. Isto. Talvez acrescente: “Não se olha a dinheiro”. Mas é que acrescento, por via das dúvidas.

Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:

— Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.

— Hã? qual pau?

— O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.

Ele riu-se.

— Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...

E como ela ficasse estupefata.

— Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o vinho noutra?

— Ah!...

— Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou, satisfeito:

O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho

***

Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o Antônio Fagote sentiu bater à porta, de rijo.

— Vai lá ver o que será, ó Luísa! — disse da cama o Fagote sobressaltado.

Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

— Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.

— Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.

— Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.

— Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?

— Pior do que isso! resumiu o José Manco.

— Pior do que isso, então não sei...

— Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.

O Antônio Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava chapéu.

— Pronto! cá estou!

— Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.

E rodaram rua acima.

— Diabo! mas então?... ia perguntando o Fagote.

— Aguarde, que já vai saber. Não tarda.

De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.

— Roubaram Nosso Pai, aposto?!

— Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos e veja vossemecê isto, esta porcaria!

E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto: — “Farófia”!

Por um pouco, Antônio Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se, com os olhos fitos no papel.

E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa escamação, aos lábios do Antônio Fagote aflorou apenas um sorriso.

— Hum! resmungou. Bem sei...

— Não tem que saber, — fez o outro.

— O patife do José da Loja...

— Pois está visto.

— Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o Fagote. — Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.

O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que era melhor botar o patife ao desprezo.

— Pois sim, disse o Antônio Fagote, dobrando em quatro o papel e metendo-o na algibeira de dentro. — Pois sim!

Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos arrancados do código penal. “Que não fosse agora pagar por bom semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com ele José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de burro não chegam ao céu”.

— Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto, disse num grande ar de condescendência o Fagote. — E você vá lá regar a horta.

Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada. Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia daquela demora.

— Grande cão! grande cão! monologava.

Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo Antônio Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a porta.

— Ó Sr. José.

— Dirá.

— Venho aqui saber de um caso.

Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé da cara:

— Foi o Sr. José que fez isto?

O outro olhou-o, atônito.

— Sim! se foi o Sr. José que fez isto?

— Nada, eu não senhor.

— Jura pela boa sorte dos seus filhos?

Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

— Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:

— É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.

— É outro, que outro?! — disse arrogante o José da Loja, num ímpeto, barriga panda sob o casacório de lona.

— Isto! — E foi-lhe uma bofetada para a cara. — E muito caladinho, que eu também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.

Saiu dali e foi “matar o bicho”, tranquilamente, como quem vem de cumprir uma obra de misericórdia.

***

Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

— O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

Por toda a vila passou um longo frêmito de entusiasmo quando se ouviu o foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro, a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria “o Sr. fogueteiro”. Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o que queria para o jantar.

Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila, perguntando a todo o mundo se o que estourara tinha sido efetivamente um foguete.

— Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estouro! Pum!

— Pra que saibam! clamava o Antônio Fagote. E então isto? e punha-se a girar de volta com o braço — o que é fogo do chão? — Mas tinha-se visto em calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O caso tinha estado sério!

Mentia.

— Hein? mas não o enganavam?

— Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da rua:

— Senhor abade! ó senhor abade!

— Que é lá?

— Chegue à janela, faz favor?

— Mas está muito sol, entre você, se quer.

— Só duas palavras:

O abade, um rapaz novo, assomou à janela.

— Que é?

— Chegou o homem!

— O homem! que homem?

— O fogueteiro, quem há de ser?

— Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?

— De cara.

— Faz-me então um favor?

— Dirá.

— Dê-lhe recados meus.

E retirou-se da janela, a rir, enquanto o Antônio Fagote prosseguia no seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se aquilo tinha sido o fogueteiro.

— Grande homem! com seiscentos diabos!

Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao fogueteiro, com fúria.

— Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe “seu amigo, seu grande amigo”.

— Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito solene. — Viva o senhor fogueteiro!

— Viva!

...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores que o Antônio Fagote — chorou!...


II — TIPOS DA TERRA 

Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra, — “a praça.” — Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, com casas em volta, — o que na vila havia de melhor em construções. Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num grande “X” de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do “X”, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo, sem gosto, sem cal. Algumas “pedras de armas” em velhas paredes decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas. Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio, de uma arquitetura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as sete: aquele — “estafermo” — é que não andava nunca direito. De dia ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado, dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava o sol.

Eram as sete. Àquela hora é que os — “figuros” — da terra, quase tudo empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns passeavam, — seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio cavaqueavam, — coletes desabotoados, perna cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pera comprida, no degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente, chamavam-lhe intrujão. Algumas — “madamas” — pelas janelas em volta, nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia outra roda, — uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando cadeiras de pinho. Era a —“roda mais forte”, — quase tudo maiores burocratas: — o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele num rato morto, numa carocha. Aquilo “fazia-lhe nervoso”, enojava-o, ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

— Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não lanço fora.”

E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em tais coisas... De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio, — um poucochinho beato, — diziam-lhe.

— Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno, a arder. Leiam a “Missão Abreviada”, leiam esse rico livro.

E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados, um poucochinho sibiladas nos “ss”.

— Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima, desses fortes.

Declarou que também havia dos “especiais.” Algum senhor queria? Tinham chegado três maços, pra ver. Oito por um vintém.

— Pois guarde-os! — disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um vintém por oito cigarros. — Guarde-os!

“O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.”

— Olha o figurão! — disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito idiota! forte cavalgadura!

O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

— O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos outros.

Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer: — “alguém era servido?”

Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda. — “E vão dois e dois quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os receberia!” — E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados. Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do ofício...

Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao Ernestinho, — um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não há dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, com os diabos! E pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia...

O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o “Água leva o regadinho”. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.

— Estender as pernas, — disse. Quem vem daí?

Todos ficavam, era uma estopada andar pra trás pra diante, naquela sensaboria da praça.

— Até logo. Você aparece no “sítio”, à noite?

— Apareço, vou à desforra.

E cumprimentando em roda:

— Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.

Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.

— Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe diga “bem-haja”...

Era um parvo. — Era um tolo. — Tinha dívidas nos outros estancos. — Em toda a parte. — Lá em casa a família passava fomes. — Um batoteiro de marca.

Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

— Com que então... “ponha lá ao pé dos outros”? — disseram-lhe, para o lisonjear nos seus despeitos. — Bem bom freguês!

Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto de mártir resignado. E não disse palavra — pra falar daquele tinha de falar também deles...

Mandaram vir limonadas, — três limonadas!

— Aí vão trinta réis!

Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas, — e sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda, onde grandes manjericões floriam:

— Ó Emília! Emilinha!

A mulher assomou, gorducha, muito mole.

— Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.

As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar uma coleção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos grupos. — Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,

“Vai alta a lua na mansão da morte”

com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só tinha uma coisa boa — a caligrafia. — Um talhe de letra bonito, — confessavam. — E as calças, hein? reparem vocês naquelas calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os do estanco, disse-lhes “adeus” com a mão, afável. Corresponderam todos, muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes: — idiota, palerma, pechisbeque...

Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em marcha, contrafeito.

— Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele telhudo? E isto: — e pôs-se a imitar o escrivão.

Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo em acróstico.

— Isso é o Teles! — fez um que vinha da praça. — Aquilo é um intrujão. Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem daquilo que “ferve”?

O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia...

— Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas...

— Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas...

— Ora é isso mesmo, nem mais.

— Bem sei.

Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, pra quê? Achavam caro um tostão...

— Eram aos três para beber uma garrafa...

— Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o “Ervas” uma soda, — objetaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.

— E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que sujava tudo de escuma?

Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com seiscentos diabos!

— Cerveja! — disse o Ernestinho — cerveja! uma coisa que lá pra baixo toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

E com um sorriso de desdém, exclamou:

— O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...

Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a palavra — “pulha” — pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só três. — O que pagava as limonadas exultou: — Homem! nem de propósito! Ficava exatamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela súcia lhe chupava o refresco:

— Tó Ruça! já lá vai esse tempo.

Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja: — Que provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia estar bom...

Beberam de um trago, estava ótima. A senhora Emília tinha dedo para aquelas coisas.

— Obrigado, ó Melo!

— Obrigado, ó menino!

E os dois saíram de rompante, chamando “pato” ao Melo, rindo-se dele e limpando os beiços.

Quando o Melo ia sair, — a ver o que ia na praça, — o Ernestinho, muito cortês, objetou-lhe que faltavam trinta réis: — Se ali não tinha, depois. Isso era o mesmo...

— Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis? — perguntou desconfiado o Melo.

— Do açúcar, foi do refinado, — explicou o Ernestinho. O mascavado acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.

Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no princípio. — E saiu sem dar mais palavra, furioso: — Uma ladroeira! Três vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...

Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se: — que lhe contassem — “o escândalo”.

Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as correspondências na “Voz do Distrito” eram escritas pelo Albano. Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que é casmurro, teimou: — que não acreditava, ainda assim! — Vai o outro chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!

— Mas afinal, quem diabo escreve aquilo? — quis saber o Melo. Aquilo Há de ser escrito por alguém, está claro.

Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam eles...

— Quem, então?

Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.

— Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse nisso. Olha o padre Mendonça, o da “gibreira” de Braga...

Mas o da ideia insistiu, renitente: — havia ali suas coisas que o faziam lembrar, certas facécias, como a de chamar “Frei Asneira” ao Reitor e “Cabeça de Comarca” ao Felisberto.

— Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente como um alarve, mente da primeira linha até à última! — disse firmemente o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.

De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura...

Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.

— Só de pulha! — rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia as correspondências com o pseudônimo de “Aramis”. Vejam vocês aquelas galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?! Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a “marreca”, os fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D. Engrácia, pobre velha...

— A quem? — interrogaram uns poucos. À Dona quê?

— À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã aos missionários é ela. Presumo eu que é ela — fazia o Nunes das correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde deitei.

Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a crônica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser com a D. Joana, a do — “chá de erva-cidreira.” — Outra canalhice! A D. Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, “lazarões e Penicheiros”, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se viu: — que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da correspondência. Por exemplo: — A deusa da festa dizem que recebeu telegramas de... amor. — Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte... Que afinal, quem sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

— Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria...

Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

— Quando digo uma rapariga séria... Mau! Acomodem-se lá com o “banzé”, vocês deixem falar, — tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer... — e procurava a frase, entalado, — por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém, alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer fazer suspeitar.

Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

— Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar franco.

Saltaram-lhe:

— E você jura, ó Nunes? você jura? — perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas.

Não... isso agora... Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar...

— Léria! — disseram todos.

O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então, para ele era tudo uma récua de “santas”? Desenganasse-se, que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

O Nunes observou modesto, quase agradecido:

— Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente. Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que está...

— Vocês é um modo de falar, — emendaram alguns.

— Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondências, — explicou sofisticamente o Nunes.

Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente. Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi cumprimentá-las, submisso.

— Dar o seu passeio, não é verdade? — E apertando-lhes a mão: — Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo. Assim... assim...

Então? que diziam àquele calor?

— Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

— O Brasil tal e qual — reforçou o Nunes.

Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite de truz, aquilo sim!

— Olhe, senhora D. Amélia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi pena! O Abelzito andava constipado.

A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas noitadas. — E em voz mais baixa, quase dolente:

— Depois, veio a “Voz do Distrito”, aquilo chocou-a muito.

— Não há tal! — fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar, senhor Nunes.

E por pouco que não chorava ao dizer isto.

O Nunes afetou um sentimento profundo: — Era melhor não falar nisso, não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma garotada! — resumiu o Nunes. — E em tom confidencial:

— Anda-se na pista do garoto. Ele há de aparecer. E depois... e depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso dar um exemplo, — concluiu terminantemente. Uma severa lição!

Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes — “a parte que tomava no seu desgosto.” — E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem aquele vestido à Amélia.

Não podiam subir, talvez à volta.

— Pois sim, hás de ver o meu bordado a miçanga. O papagaio está quase pronto, que trabalhão!

Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito. Coisas de anjinhos:

— Verás.

Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que vinha do trabalho, da labuta áspera da eira, — homens com malhos, e mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros formavam roda. Todos riam, pediam bis.

— Tu hás de conhecer isto, ó Chico, — dizia o Paula para o Francisco Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás de conhecer isto.

O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo, afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E pedia a rir, boçalmente:

— Ó Paula, aquela do “bate-bate”, canta lá.

E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos. — Se era preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

— É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó Fernando?

— Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes. Olhem que pergunta!

Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

— Então, ó Paula... — suplicava o administrador.

— Está fechado o realejo... Depois.

Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao “sítio”. Ou perder ou ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um “mico”.

— Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a “dama” se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! “gramou” um entalão que se consolou.

— Quatro coroas. — Na véspera tinha ganho um quartinho.

Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

— Quem eu te quero à perna é o “Aramis”... — rosnou o Teles escrivão que embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez. — E ainda ele não sabe tudo... — insinuava perfidamente.

— Pois o resto diga-lho você, diga-lho no “Almanaque de Lembranças”, em verso — fez de um lado o Rodrigues do Real d’água.

O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a analfabetos.

— E eu a brutos, sabe você?

Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício... Ó senhores, lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com o outro. Pelo contrário.

O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava essa importância, essa honra.

O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas tesas.

— Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras portuguesas, — ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real d’Água.

Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

— Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos. — Bem sei que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas não há de ser aquele “négalhé” que o há de dizer. Não o julgo habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o que mando para público sim, o que entrego aos prelos — é meu! — E batia no peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho triunfante. — Não roubo! nunca roubarei! — afirmou mais alto o Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois amigos, conciliadores, o ouvisse. — Repito: não roubo, não faço como ele! — E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria dizer.

— As provas... — e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com ímpeto: — as provas, vê-las aqui estão!

Mostrou no ar a brochura verde do “Almanaque de Lembranças”. — Era do ano que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho tinha entregado ele mesmo.

— Sou testemunha — confirmou do lado não sei quem.

O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos — zás! versalhada para o “Lembranças”...

— Era colaborador — disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de Teles. — Era colaborador.

— Era quê? — interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da orelha. — Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Na “correspondência” troçavam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não chamava Deus para as letras. Aquele “Serei ousado”? é ele, sei que é ele. Nunca o admitiram.

— Lembro-lhe a “Flor do Campo”, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses versos — insistiu o Antunes.

O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe respondeu. Subiu os três degraus do “pelourinho”, pausadamente, com pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o “Almanaque de Lembranças”, onde trazia um papel, e rompeu: — “Indignidade”.

— Em letras bem graúdas, queiram inspecionar.

E colou ao peito o “Almanaque”, voltando para fora na página onde o seu dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em epígrafe.

Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.

“Os versos intitulados “Flor do Campo”, que viram a luz no “Almanaque de Lembranças” do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria Teles, escrivão.”

— Copiados por mim, uma letra floreada — esclareceu o Fernandinho. — Ele depois assinou — e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma complicada do Teles.

Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:

“Publicamo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois que ele os assinava.”

— E então? — perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.

— “Pura ilusão!” — continuou solenemente o Rodrigues. — “Escreve-nos o mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara do seu volume Lira Matutina.”

Foi uma estupefação! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos comentários:

“Averiguamos, e disso enfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara — por indigno.”

E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene, — vingado!

Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao Rodrigues — e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!... — tinham dado uma sorte de mil demônios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro, por ocasião da festa de Santa Barbara, a “Flor do Campo” que eles tinham mandado imprimir avulso — para lisonjear o Teles que tivera o trabalho de os ensaiar no “Santo Antônio”. Hein? quem diabo havia de dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro ato, e quase disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma insídia, — um logro à boa-fé, à credulidade ingênua de toda a comarca!

E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas, cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e com um “toco” de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser ele a despejar do “óculo” aquela papelada; o Melo da administração, vestido de Frei Antônio, sandálias e grande chinó de calva redonda, feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao “poeta”! ao grande Teles, ensaiador da rapaziada!

Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!

O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha nº 11, que mandava os impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O homem — pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro. Arre! cavalgadura!

E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.

— Mas a bem dizer, tudo isso é nada! — continuou comovido o Antunes. — Ó senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz naquele intervalo do drama para a farsa?...

Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Ele sempre acontece cada uma! E relembravam: — levantara-se o pano quando os ouvintes menos o esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um reboliço pela plateia. Na “galeria dos camarotes” para onde só iam senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos que iam saber “que tal”, perguntar se ia uma pinguinha de licor, um docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo, debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atônito.

— Ele que dianho é? — perguntavam.

De baixo, da plateia, todos faziam “chut”! voltados lá para cima:

— Caluda, sua gentalha!

No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da “Glória”, em que ela subira num cesto vindimo à “região sidérea dos astros”; o pai de Santo Antônio, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como saíra do túmulo; aquela canalha da tropa — todos enfim!

Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo vestido de Santo Antônio e do Proença telegrafista que fazia de Frei Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.

Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião, durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um discurso na bochecha extática do Teles:

“Não era ele o mais competente, decerto, o mais... etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter frases, oratória, porque enfim estava falando a um poeta... — colaborador do “Almanaque de Lembranças” para Portugal e Brasil — acrescentou voltado para o público, esclarecendo. Enfim, finalmente... vinha para aquilo: dar-lhe um abraço em nome de todos... — e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores berravam “apoiados”, dando palmas — “... e para isto” — acrescentou fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.

Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam — “ó Emilinha!” Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules verdes e muita lantejoula a brilhar.

Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da “melodia”, ele fez-lhe com a cabeça “que entrasse”, e a Emilinha rompeu nuns guinchos, cantando a “Flor do Campo”, com música da “Muchagateira” original do Peres do correio.

O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo Antônio e a Frei Inácio: — Era demais, era demais, ele não merecia... — Ora essa! pareciam dizer-lhe os outros — seríamos ingratos se...

A “cantoria” acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas do teto desabassem.

Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estourar a rir. Da boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:

— Alto! suas bestas! Inda não!...

Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a ombro dizia em caracteres amarelos — C'est fini! O pano desceu então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, não tinham percebido... Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:

— “É findo”!

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