segunda-feira, 25 de setembro de 2017

É morto Pulcinella!... (Conto), Raul Pompeia


É morto Pulcinella!...

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Canzonetta de Tosti
A ALCEBÍADES FURTADO

Ideal, fleur bleue à coeur d'or, dont les
racines libreuses, mil fois plus déliees
que les tresses de soie des fées, plongent
au Iond de nôtre âme pour en boire la
plus pure substance; fleur douce et amêre!
on ne peut t'arracher sans faire saigner
le coeur, sans que de ce tige brisée suintent
des goutea rouges!

Era tarde.

A gosto, no pegnoir que vestira, alvo de neve, gentilmente enfeitado aos ombros por pequenos laços vermelhos pousados como borboletas, Amélia, a jovem viscondessa, aproximou-se da janela.

Fora, ampliava-se a noite, sem astros, densamente negra. Silêncio de cemitério — um silêncio negro, da cor da noite; distinguia-se a gotejar, em lágrimas pausadas, a linfa escassa de uma fonte perdida nas trevas. Um bico de gás a meia chama, mantinha brando crepúsculo na antecâmara, boudoir da viscondessa. Pulverizava-se a luz em irradiações de pedraria nos cristais do lustre e passava ao jardim pelo vão das cortinas, projetando um triângulo de claridade sobre o arvoredo fronteiro. Dentro do triângulo, aumentada e deformada, a sombra de Amélia.

Depois do casamento, era a primeira vez que se encontravam a sós, Amélia e a sombra, a sua sombra, a discreta confidente dos sonhos idos. Estavam a sós; o visconde era detido a fazer sala a alguns amigos cerimoniosos e renitentes. Que diria ela agora, à querida irmã fantástica? Ali, recostado às árvores, trajando a eterna veste escura de melancolia, olhando-a, mudo, com os invisíveis olhos das aparições, ele queria saber alguma coisa, o amável fantasma. Não lhe havia Amélia contado, outrora, os sobressaltos do seu coração, as esperanças, os desalentos? não lhe havia mostrado misteriosamente uma flor que recebera; a seu lado não decorara a primeira carta inflamada de efusões?... Amélia não achou o que dizer à sombra. Apoiou os cotovelos ao peitoril, e, cobrindo o rosto, sufocou com as mãos uma tempestade de soluços. Dos olhos, por entre os dedos, corriam-lhe as lágrimas candentes.

Na abstração da dor, essa espécie de desmaio em que degenera o pranto violento, doce alívio final que adormece a consciência do desgosto, sem mortificar os sentidos, a jovem senhora percebeu, longe, longe, por cima da massa do arvoredo, além da rua, além da casaria do arrabalde, dispersa na escuridão, fugitivos acordes de piano. Dir-se-ia um prelúdio caprichoso e sentido. Elevava-se a música à distância, contorcendo-se doridamente como essas linhas tênues de fumo que se avistam, de dia, a desfiar-se no horizonte. Pouco depois, igualmente atenuada em surdina, pelo afastamento, casou-se aos sons do piano uma voz de barítono

Signore beile, voi mi dimandate
Qual nuova oggi vi porto?...

Amélia reconheceu a canção de Tosti, a original canção de Tosti, mais vulgarizada que compreendida, a elegia pungente de Pulcinella, crueldade do acaso! exatamente a elegia de Pulcinella que lhe recordava a mais saudosa das ilusões mortas!

Tirou as mãos do rosto; já não chorava. Pôs-se a escutar avidamente. A menor vibração do ar dilacerava o canto. Chegavam as frases indistintas, incompletas, como destroços de uma página rasgada ao vento.

Amélia ouvia com febre, reconstruindo de memória as palavras desfeitas. Aquela voz cantava-lhe do passado; a letra lamentosa era uma queixa irônica das suas recordações

La sapienza del sorriso
Se ne andó da questo mondo
Con quel nom dal negro viso...

Lembrava-se...

Seis meses não eram decorridos.

Moça feita, pensavam em casá-la. O comendador, seu pai, homem despótico e violento, habituado a comandar caixeiros nos armazéns, a levar as fazendas a pontapés, comunicou-lhe sumariamente que acabava de prometê-la em casamento ao visconde de N., um grande partido! Titular e milionário! A moça quis falar. O comendador deu-lhe as costas. Não estava acostumado a ouvir recriminações dos fardos, quando os consignava. Mas, como o casamento ocasionaria separação, aventou-se a ideia de mandar fazer a óleo o retrato de Amélia. O comendador queria muito bem à filha; o retrato seria uma lembrança viva e perene. E, depois, o retrato se havia de exibir com a declaração: por ordem do Sr. comendador...

Escolheram o artista para o trabalho.

A sorte remenda às vezes como pode o tecido das suas piores tramas. O pintor preferido foi Armando, o nobre artista, laureado na Europa, respeitado na pátria, Armando, o ídolo e o idólatra de Amélia (ignorava-o por certo o comendador), Armando, o bravo trabalhador que contava estar muito breve habilitado no conceito do pai a pretender a mão da filha por algum merecimento menos abstrato que a pura glória do seu nome. Desde crianças conheciam-se os dois. Amavam-se havia alguns anos. A esperança do casamento nutria-lhes um amor tranquilo, de parte a parte, distanciado e discreto. A casa de uns parentes de Amélia, amigos íntimos da família de Armando, era o ponto de encontro. Nessa casa, ouvira uma vez Amélia a composição de Tosti cantada por Armando, com a bela voz de que dispunha, energicamente timbrada. E, daí em diante essa música envolvera o seu amor, como uma espiral de flores.

Oggi é morto il gran poeta
Daí satirico ardimento
Che mescé la goccia lieta
Nelia coppa d'ogni evento.

Para fazer o retrato, Armando vinha regularmente passar algumas horas todos os dias em casa do comendador, cuja estimável senhora, com a solicitude de mãe zelosa, durante as sessões não arredava pé da sala feita atelier.

Amélia acomodava-se a uma poltrona, sobre almofadas para ficar em boa posição. A alguns passos da poltrona Armando erguera o cavalete. Duas vidraças, as únicas abertas da sala, convenientemente veladas, iluminavam a três quartos, por cima, o modelo e a tela. Grande pano de basto veludo azul, suspenso a um cordão que atravessava a sala de parede a parede, servia de fundo, projetando ao rosto da jovem reflexos celestiais. Protegidos, modelo e artista, pela cumplicidade desta cortina de veludo, que os isolava numa solidão relativa, encobrindo-os às vistas da senhora do comendador, deliciosos momentos gozavam eles! Às vezes, Armando deixava cair o pincel e esquecia-se a contemplar o adorado modelo; às vezes, sob pretexto de endireitar a posição, aproximava-se de Amélia, tomava-lhe a mão, beijava-lhe furtivamente os dedos. Amélia consentia. Tudo estava perdido para ela; por que havia de repelir? Ele nada sabia, o pobre; e a Amélia faltava coragem para desiludi-lo. Demais, tão suave era o engano, que ela mesmo se deixava levar pela ebriedade do momento... Estava em vésperas de casar-se... Pois o seu noivo era Armando! E neste sonho, divertiam-se perdidamente os namorados. Permutavam frases de vago sentido, temperadas de paixão. Borboleteavam, a meia voz, sobre os assuntos, artes, pintura, música, segredos do colorido, preferências em matéria de cor: ela preferia o azul, a cor do infinito; ele preferia o vermelho, o vermelho vibrante, a tinta do sangue e da vida!

Egli, il re dell'allegria,
Soffri sempre um brutto male
Un 'orrenda malattia
Ché-si chiama-l'Ideale!

Quanto à pintura, o artista esmerava-se com verdadeiro fervor. Inebriava-o a ideia de se achar ali a imitar o cetim daquelas faces, a profundidade de abismo daquele olhar, o recorte caprichoso dos lábios, encrespados como pétalas de carne. Tinha ímpetos de cair e pintar de joelhos, como Fra-Angélico. E rejubilava de ver com que felicidade ressaltavam, sob o pincel, os encantos da fisionomia do modelo.

— Hoje acabo o retrato! disse Armando, ao entrar um dia, às horas do costume.

— Deve estar contente, observou a mãe de Amélia. Que o senhor tem trabalhado!... Já se vão dez dias! Mas pode abar-se de ter aproveitado o tempo... Não há quem veja, que não ache primoroso...

A última sessão foi triste. Amélia sentia-se possuída de um desespero surdo. Último dia, último dia das suas ilusões! Quisera deitar mão ao sonho que fugia. Baldado esforço! As névoas passavam, tocadas pelo vento. Armando esteve a ponto de gravar na tela uma lágrima que surpreendeu nos olhos da jovem; pintou-a mesmo, por fantasia e apagou depois com uma pincelada de sombra. Estampou, entretanto, com os últimos toques, definitivamente, a expressão de melancolia, a bela tristeza do seu rosto. Preocupado pelo desgosto do próximo fim da deleitosa temporada, pintava sem dizer palavra. A jovem não tinha ânimo de falar. Sentia que, se descerrasse os lábios, o pranto lhe rebentaria dos olhos. Mantinha-se em contensão nervosa, e o via pintar, carinhoso, trêmulo, como se temesse ofender a querida imagem, absorto, como se a alma toda lhe escapasse para a tela pelos fios louros do pincel.

— Pronto! exclamou afinal Armando. Já o dou por pronto!

— Já?! balbuciou Amélia.

E ergueu-se. O torpor da imobilidade lhe deixara os membros pesados. Ela inteiriçou o corpo, espreguiçando-se com um ligeiro frêmito felino e adiantou-se para o cavalete.

Com o seu ar enfadado de tristeza, os grandes olhos enternecidos pela fadiga da pose, obrigados a fitar numa direção invariável, apertada elegantemente na rica toilette de baile cetim pérola com que se fazia retratar, coberta de rosas, como uma alegoria da primavera, emergindo-lhe a mimosa cabeça de um decote talhado em ângulo agudo para as costas e sobre o colo, os cabelos apanhados com arte mostrando toda a alvura do pescoço, nus os adoráveis braços de virgem, desajeitados como no enleio de sentir a nudez, Amélia deslumbrava. Encontrando-a com o olhar, Armando teve um choque. Não sei se a ilusão da última hora que faz parecer melhor o que se vai perder, não sei se o véu de encanto que lhe vestia a ternura da tristeza, Armando senti uma impressão de novidade. Nunca a vira assim, como naquela última hora da última sessão, nunca o pintor a vira assim divina!

Ao aproximar-se a jovem, ele recuou como aturdido. Evolava-se das flores daquele vestido um perfume de entontecer.

Diante da pintura, de costas para o artista, Amélia parou. Um estremecimento de surpresa, quase de susto, agitou-a toda. Era ela! era ela! Ali estava em busto, perfeita! Os belos olhos pensativos de corça, a cútis branca, o fino traço das sobrancelhas ligeiramente oblíquas, os longos cílios negros sedosos, o corte da boca meio arqueado para os cantos, num sorriso indefinível, o cabelo castanho, seco, transparente, penetrado de luz como uma nuvem, com uns tons de prata que brilhavam, rodeando-lhe as feições, sobre o fundo de azul espesso. Estremeceu de pudor, vendo, ali no pano, a verdade com que o pintor soerguera o começo de seios que o ângulo do decote traia; estavam ali veias em que ela mesmo ainda não fizera reparo. Sentia-se, ao vivo, na tela como num espelho, mais ao vivo ainda; porque um sinalzinho da face esquerda que o espelho mostrava à direita, ela o tinha aí, no lugar exato.

Para apreciar o efeito à distância afastando-se da tela, a moça, sem o ver, chegava-se para Armando. O artista sentiu o sangue subir-lhe às têmporas em vertigem. A posição, junto da janela até onde recuara não permitia livrar-se. Em pouco, Amélia veio tocá-lo com o ombro. Ao contato inesperado, a moça exalou um gritozinho de surpresa. Quis fugir. Armando a prendera.

Rodeava-os a profunda tranquilidade da sesta. Mal se ouvia sibilar a respiração compassada da senhora do comendador, além do pano de veludo, no fundo da sala, dormindo ao sofá curvada sobre si, como um pescador à espera, ou como se continuasse, de longe, a leitura do romance que lhe correra das mãos e que se abria agora no chão derramando inutilmente os seus episódios, entre as escarradeiras, pelo tapete. Tal qual a boa senhora, tudo em torno parecia adormecido, as franjas, as borlas da tapeçaria, à verga das portas, pendendo imóveis, os tinhorões artificiais das cantoneiras, os prismas das arandelas, como dragonas de vidro de marechais fantásticos perfilados, um galgo de faiança, deitado em rodilha, sobre um dunquerque, num leito de felpas chamejantes, dois retratos de família, meio corpo, fidalgos de D. João VI, pasmados nas molduras seculares, de uma pasmaceira de defuntos, contritos, no seu papel inofensivo de múmias a óleo. As vidraças, que interceptavam os pequenos rumores do exterior mostravam muito verdes pendões de vegetação ramalhuda e vivaz; ainda lá fora, as árvores dormiam no ar morno. O próprio sol deixava, sonolento, aos ramos que lhe embalassem a indolência de ouro. Dois grandes espelhos da sala, inclinados, repetiam na profundidade do cristal a imagem de todo aquele repouso, fazendo eco ao silêncio.

Vencido o primeiro movimento de instintiva repulsa, Amélia se deixara enlaçar. Dobrando para trás a cabeça, pousou-a ao ombro de Armando; tomou-lhe o rosto entre as mãos e o comprimiu contra o seu rosto; confundiram-se os lábios, e os cabelos da fronte. A outra Amélia, a do painel, olhava-os, testemunha complacente daquele amor, com a melancolia do seu olhar, colada ao fundo de céu noturno.

Ouviu-se um beijo no silêncio.

Agora, ela era... a viscondessa.

Egli s'era innamorato
Ma sapea che il mondo intero
Scherno sol gli avria serbato
S'ei dicea quel suo mistero

Força viver com aquele homem. Visconde... visconde... Alma verde de azinhavre, como as suas moedas, como os seus brasões comprados! Mas era o esposo; ela era dele. Que fazer?! Dera-lhe em dote os despejos palpitantes das ilusões perdidas. Tudo passara, tudo passara!

Ed ei finse... e rise ancora...
Rise... rise... e non guari!
Invocò la morte allora...
E la morte lo rapi!...

Os sons daquela elegia atravessavam a noite, sob o luto do firmamento, como o funeral dos seus enlevos...

Pobre Pulcinella, morto de amor e de Ideal!

Morrem assim os corações!

E Amélia imaginava quantos, quantos! não trazem no peito o cadáver importuno de um coração que tiveram.

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