sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Juca Guerra (Conto), de João Simões Lopes Neto


Juca Guerra

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Vancê leu ontem no jornal aquele caso do sujeito que atirou-se à água da beira da praia para salvar um fulano que estava-se afogando... quando no aperto chegou um boteiro que levantou os dois… não foi assim?... E o tal ainda ganhou uma medalha do governo, pela grande áfrica!...

‘Stá direito, não digo que não, que afinal ele ao menos sempre se lembrou de acudir a uma criatura de Deus; mas, lá quanto à nombrada, hum!... nem por isso!

Olhe, mais, então, merecia o Juquinha Guerra.

Eu conto, conto; vá assuntando.

O Juca Guerra foi muito meu conhecido, desde guri. Já morreu, coitado, e morreu numa tristura…

Veja vancê!... Um gaúcho daqueles... destorcido, bonzão!...

Aquilo, era pra ficar na coxilha, picado de espada, rachado de lançaços, mas não pra morrer como foi, aperreado em cima da cama, o corpo besuntado de unturas e a garganta entupida de melados e pozinhos dos doutores!…

Pobre de mim!... ‘stou vendo que hei de morrer do mesmo jeito, como um pisa-flores da cidade, como bicho de galinheiro!.

Moreno, alto, delgado; olho preto; nariz, de homem mandador; mãos e pés de moça; tinha força como quatro; bailarino, alegre, campeiraço; e o coração devia ser-lhe mui grande, devia encher-me o peito todo, de bom que era.

Dessa feita houve rodeio na estância do Pavão; a estância era na costa de dois rios; e tem muitos albardões com mato, que eram a querência da gadaria xucra. Mas, pra chegar lá, havia que atravessar um santafezal cerrado, tiririca, atoleiros, juncais; um banhado brabo; lá dentro é que a gadaria alçada vivia misturada com os galheiros e os capinchos e os ratões.

A gritos, a tiro e a cachorro tinha-se conseguido tocar como umas pra mais de três mil reses.

Nem lhe falo nas coisas divertidas do serviço, como rodadas, algum matungo riscado de aspa de brasino, as compadradas da peonada e outras que sempre alegram um campeiro.

E mal que cerrou o rodeio a gente mudou de cavalos, churrasqueou em pé mesmo e começou-se logo a apartar a tourada. E que torunas! Cada bicho pesado, criado na pura grama vermelha, ligeiros como gatos, e malevas, de acompanharem o laço, quase cabresteando!...

Pois, foi um destes, que um moço chamado Tandão Lopes laçou... e laçou mal, de meia espalda: o touro bufou, e depois do tido já se lhe veio em cima…

O moço estava mui bem montado; o pingo era de patas, porém apenas rocim, mui cosquilhoso; os arreios já vinham mal e com o tirão a cincha correu toda pras virilhas...

Virge’ Mãe!...

O bagual agachou-se a velhaquear, e, pra pior ainda, em volta, enredando-se no laço, frouxo; o moço — ginetaço! — fechou as chilenas e meneou o rebenque, de chapéu do lado, numa pabulagem temerária, de guasca que só a Deus, respeita!

Foi nesse apuro, que o touro carregou, e veio, de língua de fora, berrando surdo… e entreparado, baixou a cabeça, retesando o cogote largo e ia a levantar a guampada, quando, meio maneado no laço e ladeado por um sofrenaço de pulso, o bagual planchou-se... e o moço Tandão ficou também aí caído, preso pela perna, exposto, entregue... O touro recuou um pouco, escarvou, meio dançando, retesou os lagartos, numa fúria de força e fez a menção...

A campeirada olhava, parada, vendo a desgraça vir...

Mas nisto, justo, justo quando o touro, balanceando no ar, pareceu dar o pulo da carga, o Juca Guerra esteve-lhe em cima! Em cima!

Foi como o trovão e logo o raio... pois como um raio o gaúcho carregou e atirou a montaria contra o touro!

Oigalê! Pechada macota!

O tostado arrebentou as duas paletas na encontrada e caiu, sacudindo a cola, os olhos chispeando, de beiço enrugado e subido, de dor... Caiu, mas o touro, também.

E tanto que atirou o seu pingaço, de pechada feita — e certo de o escangalhar — contra o touro, escorregou pela garupa, e enquanto os dois brutos se batiam e enovelavam, o Juca já aliviava o companheiro, que apenas livre, pulou para o cupinudo, ainda meio azonzado do trompaço, manoteou-lhe nas aspas e torceu-lhe a cabeça, que cravou no chão, num pronto! O bicho pataleava, puxando a respiração forte, que ondulava, no arredondado da barriga.

Aqueles, sim, eram dois torenas que se valiam!

Só então é que os vedores acudiram… mas foi para aguentarem uma tirana de sotretas! comedores de carne! maulas! vasilhas! capões!... e outros rebencaços de língua, desses que a gente esparrama quando está de marca quente...

E no meio daquele bolo de campeiros, sobre as macegas pisadas, do lado do touro arquejando e do cavalo gemente, os dois homens se abraçaram e beijaram-se, chamando-se irmãos; e assim juntos chegaram-se para o cavalo tostado, quebrado dos encontros... fizeram-lhe umas festas de puro mimo e tristeza… e enquanto o Juca, com a sua própria mão sangrava o seu confiança, o moço Tandão abraçava a cabeça inteligente do flete... Correu o sangue, em borbotão; e quando, esvaido, o tostado afrouxou a força e a respiração e o garbo, e foi descaindo e ia a tombar, de vez, os lado, ampararam-lhe a cabeça… como se fosse uma criança dormilona, deitaram-na brandamente sobre os capins, — pro caso — sobre o pé malmequer branco, ramalhudo, que florejava ali, como num propósito.

Coitado do flete!

Mas como deixá-lo viver, assim, arrebentado? Para vê-lo morrer de dores, inchado, com fome e com sede... e antes disso serem-lhe os olhos vazados pelos urubus... e os buracos deles, ainda vivos, virarem toca das varejas?!... Não! Um gaúcho de alma não abandona assim o seu cavalo: antes mata-o, como amigo que não emporcalha o seu amigo!

Vancê assuntou bem no conto?

Ora, agora, vamos ao fim; o que merecia, de prêmio, o Juca Guerra?

Qual o mais valente? o tal fulano, da beira da praia, ou este da beira... da morte certa?

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