sábado, 30 de setembro de 2017

O chapelinho encarnado (Conto), de Guerra Junqueiro


O chapelinho encarnado

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar à neta, deu-lhe um dia um chapéu de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéu novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapelinho encarnado.

A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia légua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:

— Tua avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai levar-lhes tu esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta logo.

— Sim, mamã, respondeu ela, hei de fazer tudo como deseja.

Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.

— Bons dias, chapelinho encarnado.

— Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.

— Onde vais tão cedo?

— A casa da minha avó que está doente.

— E levas-lhe alguma coisa?

— Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe dar forças.

Dize-me onde mora a tua, avó, que também a quero ir ver.

— É perto, aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim há muitas nozes.

— Ah! tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava de te comer. Depois continuou em voz alta: — Olha, que bonitas árvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinais que se encontram!

— O senhor, é com certeza um médico, respondeu a inocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.

— Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta também, e aquela. Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.

— Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.

E pôs-se a correr em direção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.

Quando o lobo chegou à porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?

— É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.

— Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.

Encontrou-a, abriu a porta, engoliu de uma bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.

Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter fechada.

O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrível.

— Ai! avozinha, disse a criança, por que tens tu as orelhas tão grandes?

— É para te ouvir melhor, minha filha.

— E por que estás com uns olhos tão grandes?

— É para te ver melhor.

— E para que estás com os braços tão grandes?

— É para te poder abraçar melhor.

— E Jesus! para que tens hoje uma boca tão grande e uns dentes tão agudos?

— É para te comer melhor. A estas palavras o lobo arremessou-se à pobre pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a ressonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha está com um pesadelo, está pior talvez, vou ver se precisa de alguma coisa. Entra, e vê o lobo estendido na cama.

— Olá, meu menino, diz ele: há muito tempo que te procuro.

Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e saltou para o chão, gritando:

— Ai! que sítio medonho onde eu estive fechada!

A avó saiu também contentíssima por ver outra vez a luz do dia.

O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador meteu-lhe então duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a neta para verem o que se ia passar.

Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e não podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e afogou-se.

O caçador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado prometeu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho proibisse.

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