segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Tragédia rústica (Conto), de Trindade Coelho


Tragédia rústica

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I

“Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à porta do José Grilo.” 

Truz! truz! truz!

Os de casa acordaram, sobressaltados.

— Schiu! nem pio! — fez o José Grilo para a mulher. — Moita!

— Truz! truz! truz!

Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo pai. — Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria divertir...

Mas logo outra vez na porta:

— Truz! truz!

— Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de alguém que fugia.

— Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir — explicou ele para a mulher.

Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham vindo pôr zorro...

— Ó mulher, queres tu ver que há novidade?

De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do casebre.

— Ele que demônio de embrulho?...

Pegou-lhe com muito jeito. Era efetivamente uma criança, envolta em dois trapinhos muito velhos.

— Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha.

— Grandes cadelas! — E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a gente da casa.

— Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os Bons-dias à gente!

Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada...

— Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do Antônio das Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:

— Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.

Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

— Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de conta... — observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da fêmea.

Ela só redarguiu que “nosso” era um modo de falar. Seria dele, mais de qualquer desavergonhada...

O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e pregou-lhe uma gargalhada.

— Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo.

A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé da criança, afirmando-lhe às risadas que sim, que o pequeno era filho dele.

— O pequeno?... mas é que pode ser cachopa — disse o José Grilo para a mulher. — E certificando-se: — Nada! é rapaz.

Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela sua salvação que “o crianço” era filho do seu homem.

— Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cômica, braços no ar, o balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de sobrepeliz. — Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!

— Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz — disse-lhe de lá o José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança.

Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para ela e disse-lhe muito solene:

— Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.

Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.

— Juras pelas cinco chagas, ó homem?

— Juro pelas cinco chagas.

— Assim te Deus dê saúde, ó José?

— Assim me Deus dê saúde.

— Preto sejas tu como o teu chapéu?

— Preto seja eu como o meu chapéu.

A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia.

Depois desabafou, muito aliviada:

— Ai!

O José Grilo pôs-se a rir. — “O demônio da Joana, com ciúmes!”

— Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo tens tu ciúmes? — perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo diante da mulher desconfiada.

A outra, muito delambida, redarguiu com ironia — “que o seu homem era um santinho...” — O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo, reguingou de alto:

— Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que enjeitou este...

Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:

— Mas quem seria a grande cadela?

Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém, murmurando frases de ódio, moralistas:

— Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo entranhas de lobo.

O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do José Grilo.

— É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar —disse contristado o lavrador.

Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a Ana era a outra, a Doroteia do Antônio das Veredas.

— Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demônio vens tu cá fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer? — E deu um bofetão na filha, “para que soubesse dar o recado”.

A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe mal sair de casa assim cedo...

— Só se lhe queres tu dar de mamar — insistiu ainda o José Grilo, virado para a Doroteia, irreverente pelos seus dezenove anos inda virgens.

A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:

— Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.

— Eu sei lá se não se dizem? — observou o lavrador, muito zangado. — Dá cá daí o pequeno.

Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse bem quente.

— Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço, pra ver isto do ajuste.

A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os farrapos, gritou para a rapariga:

— Ó Doroteia! espera que inda cá ficou isto.

Então pôs-lhe os farrapos ao ombro — uns pedaços miseráveis de velha chita — e a Doroteia partiu onde à irmã.

II

“Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de Antônio Palma, casado com Rufina Maria.”

O Antônio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher, a Rufina, principiava a lavar a louça, quando à grade do quinchoso uma voz chamou:

— Ó Sra. Rufina!

Vieram os pequenos, veio o Antônio Palma, a mulher com as mãos fumegantes. Foi preciso fazer calar o “Farrusco” para se poder ouvir o que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.

— Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.

O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto o Palma e a mulher afetavam procurar ambos um banco, acotovelando-se, com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O “Farrusco” investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou assim:

— Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem veem como eu ando...

Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e a mulher diziam não sei que monossílabos, o “Farrusco” rosnava. A outra prosseguiu:

— Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse... Coitadinho!

Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o Palma e para a mulher.

— Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.

O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo se havia de arranjar, que sossegasse.

— Que a falar os pontos de verdade, Sra. Fortunata, vossemecê é que tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.

Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.

— Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.

Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.

— Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, nem o diabo. Desde que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira. Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.

Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atônitos. Depois continuou:

— Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo saco...

A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O Palma prosseguiu:

— Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal. Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado, sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado. E mais é que bem pode o rapaz dar em doido...

A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo para ele, mal a Sra. Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia? Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe batizasse o filho, dizendo que já tinha nascido.

— No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma. — Anda com ela ferrada que o filho já nasceu.

Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.

Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou.

— Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás. Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já diz “era”, já fala nele como se o pobre tivesse morrido...

Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois, quando já ia para sair, disse em resumo:

— Fique vossemecê então, Sra. Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.

Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota aos cevados, ficou espantado:

— Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sra. Ana!

Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido.

— Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí.

Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe perguntou num sobressalto:

— Vivo ou morto, Sr. Antônio?

O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de fazer.

O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse com a pergunta: “que se há de agora fazer a isto?” ele redarguiu, irado;

— Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há de fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...

A velha ia falar.

— Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer cadela vale mais que vocês duas.

O Palma ia-se pondo amarelo, a Sra. Rufina interveio, aconselhando-o a que saísse.

— Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de véspera até à feira.

Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua.

— Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua.

Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:

— Em estando capaz, rua!

— Daqui a três dias, talvez...

— Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando esses estafermos saírem.

Ora o Antônio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora — com o embrulhinho do neto ao colo...

Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado...

Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do José Grilo.

Madrugada de Fevereiro, nevava...

III

Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo. Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto, faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul anunciava um dia de sol.

A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda daquele lado em contato com o pequenino...

Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.

— Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.

Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu como um eco:

—...Um enjeitadinho.

Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga.

— Sim, um enjeitadinho, deve ser isso... — continuou o moleiro. — E daí... pode ser que não seja...

A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.

— Nada! pode ser que a história seja outra — elucidou o moleiro. — Onde foi que isso foi posto?

— Esta madrugada, à porta do José Grilo.

— Olá! isso então pode ser coisa dele — observou a rir o moleiro. — Esse diabo não é seguro.

Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a explicar à rapariga:

— É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às primeiras, tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo...

— Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há de ter fome.

A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados.

— Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria a desavergonhada?...

— Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.

— Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num falatório pegado. “Que o filho era dele, que se a cabra da mãe teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.” Um arrazoado assim, muito comprido.

Espantada, a Doroteia ia falar.

— Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar.

Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança.

A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão.

— Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a Doroteia. — Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai, coitadinho!

A Sra. Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar compungido:

— Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir!

Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe respondera: — “Para a feira. Vender um gado.”

— Ora vá lá o diabo entender isto! — rematou por fim o moleiro. Um doido a vender gado.

Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora, direita à casa do pai.

— Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto. — E o Paulo correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram todo o enxoval do triste pequenino...

Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda materna.

— Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho, embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem depois os cães e comê-lo.

E espreitando pela fenda estreita do xale:

— Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi?

— Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco.

A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela conhecia gritou ali de perto:

— Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa!

E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.

— É o José Tomás que está doido, — explicou o pastor. — Desde que a mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!

Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa à rapariga.

— Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho! — rugiu ele com voz furiosa.

E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas, impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...

A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente.

E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a rir-se...

— Conheces? perguntou-lhe a rapariga.

No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não respondeu.

— Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.

Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo sobre os calcanhares.

E ria... ria... enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável farrapo, as lágrimas corriam, copiosas...

Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele... A grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao homem!

— Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor. — Ora vês aí um estafermo que precisava que a matassem!

O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.

— Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.

Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve, foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.

Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía mais densa... — ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como no seio imenso de um órgão, o vento sul — gemia...

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