segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A eminente atriz (Conto), de Fialho de Almeida


A eminente atriz
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Caiu o pano entre chamadas ovantes, gente de pé nas cadeiras, debruçada dos camarotes, e em chusma junto às portinhas de saída, acotovelando-se, clamando, bravo! bravo! A geral estava deserta, um grupo ao meio da sala berrava, fora o autor.
E quando ele veio de casaca, agradecer com aquele seu jeito modesto, muito risonho e de rosa amarela na botoeira, a sala aqueceu ainda, houve bravos, e o Moreira das mágicas, enfiando o pardessus, disse para um desenterrado de luneta, com a sua bela ênfase de autor laureado:
— Vai longe, este camelo, sim senhor, vai longe.
— É possível, opinou secamente o desenterrado, e a cabecita em pirâmide, com pelos de rato sobre a testa, pendulava-lhe para um lado e outro, desengonçada sobre o gasnate cor de moka. E puxando amigo Moreira de parte, olho aceso em iras biliosas, o plastron descosido, disse ali que a peça não tinha fundo, que o estilo era rocambolesco, e toda a literatura devia mirar um intuito critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em Portugal o público desprezava literatos, e podia passar sem o que eles exgregavam nas gazetas, a razão era tais literatos serem mais ignorantes, ou menos inteligentes, que a multidão a que se pretendiam impor.
— Que danada língua me saíste! dizia Moreira das mágicas, com pancadinhas de aplauso no ombro do desenterrado. — Baixava a voz para insuflar, que em parte assim era. Todavia excetuava muita gente. Aí está o José Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, tão conceituado lá fora. E este, e aquele...
— Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio desta súcia, por engano, há talento uma ou outra vez. Mas diabo! Não estamos já nos soláos do Serpa, nem no Conde Alarcos do Cunha. Deem alguma coisa mais do que frases ocas, meus senhores! A fórmula literária é apenas veículo da ideia, e não pode tornar-se em preocupação, como aí estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um ponto de vista elevado e filosófico que a domine. Eis o que não há nessas mioleiras, meu filho! Veja-me você o Pimentel, que esses localistas parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe às ventas; vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes! Ocos que nem uma cabaça, imortaloides de redação, sem testa, nem estudo, nem ofício. Que tenho eu que ver com tal romance ou tal drama, com tal fenômeno científico ou tal processo de pintar, se estas coisas me aparecerem abstratamente, sem uma orientação que as filie e correlacione numa dada corrente — não sei se me faço entender?
Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana, estabelecia — que tudo vinha sob dependências e condições, fato moral ou fato físico. Tal livro é efeito do livro anterior, e causa do posterior, como tal estado político ou mental, derivam do estado anterior, e preparam o que depois vier. E desgraçada a geração que por sua anarquia psíquica não sabe fazer progredir um sistema, assimilar um código de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito qualquer ideal em arte.
Às vezes, é o povo que por ignorância repudia a lei nova; cabe aos escritores, aos homens políticos, e aos artistas, uma luta sem tréguas em prol da conversão ao credo ambicionado. Eis o naturalismo expulsando da arte os românticos, em meio das repugnâncias gerais.
Mas acontece — e o desenterrado levou à parede o Moreira das mágicas, enfiando-lhe um dedito sucessivamente pelas diversas casas do colete branco — acontece um belo dia, haver mais ilustração na massa que no grupo dirigente de artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota legitimamente ao desprezo aqueles nigromantes. É o que se está dando entre nós com a política e literatura. A corrupção dos partidos dá de si...
Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma rebanhada de talentos da geração novíssima furou por entre os conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben Johnson, e aquele pobre Molière, coitado! No entanto o teatro esvaziava ao de manso. A ribalta extinguira-se, os da orquestra enfiavam os instrumentos em sacos de chita e erguiam as golas para sair. Aqui e além, nas últimas ordens, um arrastar de cadeiras soava ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto fazia-se na sala, sob a agonia do lustre, e o cinismo do relógio que marcava cinco horas, havia mais de sete anos.
Fora a primeira representação dos Dois Rivais na Corte, quatro atos de capa e espada escorrendo frases feitas num entrecho infantilmente pavoroso, onde as personagens se davam o vós comparando-se ao sistema planetário, e reforçando os lances de efeito, com alusões aos fenômenos atmosféricos e bíblicos mais assustadores... o raio em sua fúria indômita, o dilúvio, pragas do Egito, miséria de Jó... havendo um monologo sobre a capa de José, que os fauteuils tinham mimoseado com surdos bravos de adesão. A peça era estreia de Rogério, Rogério Vasques, primo da Alcina, moço que por tão raro trabalho tomara definitivamente lugar na falange dos nossos mais talentosos escritores, pelo que felicitamos o nosso amigo, diziam os jornais. Um triunfo completo, os Rivais na Corte! Critico Borbas, do Século, tão exigente em coisas de palco, parado no camarim da Veledo, recitara com voz lacrimejante, no fim do ato, aquele bocado da separação — parto, o coração me fica suspenso nestas paredes, testemunhas de tanto perdido amor! Só vós, ó Conegundes de minha alma, conhecereis a fundo este báratro de angústias, que como o universal dilúvio...
Ah, mas como o Taveira dizia aquilo!
Dias antes, toda a literatura em evidência recebera do jovem dramaturgo um amável convite de ceia na sala grande do Central, à hora de acabar a primeira representação. Tinha sido um regozijo fremente. Aquele Vasques, belo moço, que talento maleável, e tão instruído! Com que então Champagne fino? Um pouco prejudicado em preconceitos de escola talvez.
Genial Pirralho, todo cheviote amarelo, bigodeira mefistofélica e o grande ar de Paris, tinha mesmo dito — é um temperamento. E o menu passava de boca em boca.
Deixando Alcina, Rogério não foi mais o bonifrate de província com preocupações de Chiado, ares de saúde campônia, e ingenuidades de primeiro amante. Gastara no convívio de atores, janotas, literatos, cocheiros, e fêmeas avariadas, toda a bruteza sincera e boa que na educação caseira adquirira. E hipotecando as últimas migalhas de herança, dormindo fora, bebendo e jogando às noites, tornava-se pedante, depravado, amarelo e pulha.
O teatro de opereta em que primeiro Alcina estivera escriturada, tinha sido para ambos a melhor escola prática de malandrice e usura. Ali, cada figurante de cena ou frequentador de camarim, dir-se-ia passar os dias na cogitação de explorar quem aparecesse à noite com cara de tolo. Apenas Rogério, tendo a prima por amante, começou de acompanhá-la ao teatro todas as noites, e a fazer na ausência dela, a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma série de ratos de bastidor e polvos de redação — gente faminta, intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscrições, pequenas calúnias de casa de um para casa de outro — que ia girando numa baixeza de inveja à roda dos charutos fumados, das correntes de relógio, impingindo bilhetes de benefício, oferecendo-se para alcovitar, com pormenores de criada sobre as pernas de uma, os amigos de outra, os seios desta e os cabelos daquela... todo o arsenal de canalhice exigido em curso para tão equívoco mister. Desengalfinhado desta tropa à custa de generosidades forçadas, desprezos, empuxões, até socos, Rogério teve de rechaçar depois uma ciganagem de outro gênero, amabilíssima, risonha, com ênfases altivas, articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os dias, e tendo o nome a ouro nos anais das letras e das artes. Eram os grandes atores da cidade, todos os gêneros e teatros, pais nobres, ingênuas, galãs, graciosos — tenores tísicos, barítonos sem voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre nós de conscienciosos ou diseurs, que serve para tudo e goza a estima dos autores, em razão do mérito reles que exibe, de jamais desmanchar o conjunto.
Eram também escritores intermédios, amanuensando das onze às quatro, fazendo jornal das quatro às onze, finórios chouteando na esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui a vaidade dos ministros, além atirando lama às ventas dos adversários, em eternos clamores contra a decadência dos costumes, mas rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com tudo, e exibindo-se em público os ares de grandeza impecável, que Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsai que lhe saíam do ventre. Rogério amou esta camaradagem nova, que nos seus anos de província tanto admirara através das hipérboles dos diários. E por influência de contato, relações, letras assinadas, condescendências de Alcina, jantares, e uma bicharia de assinaturas para publicações que faliam ou não chegavam a ver a luz, acordou também literato certa manhã. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo, debandava para o drama, já tão magra e lombricoide, que não era senhora de engolir uma pílula, sem os jornais a dizerem grávida de cinco meses. Esta ligação de Alcina com o primo durou pouco, vindo a ser truncada apenas apresentaram Rogério à Veledo. Alcina era ciumenta e teimosa; um nadinha infiel além disso! Não resistindo às fúrias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenético, a sua franzina e pobre organização murchava e caía. De manhã estava cor de morta, seios sorvados, olheiras à boca, olhos imbecis, e um ar de prostração assustador, casado com uns reflexos glaucos, que raiando-lhe das fontes, aos cantos das órbitas, iam terminar numa grife de ruga.
E vinte e quatro anos apenas!
— Não bebas, muitas vezes lhe dizia Rogério, vendo-a engolir entre chávenas de café e charutos fortes, uma quantidade de cálices de cognac. Mas ela sempre gostando. Ora adeus! Até punha fortaleza, voz mais alta, o espírito vivo como um pássaro. Depois tão petulante a beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licor esbraseado, revirando aqueles extraordinários olhos pretos, úmidos, audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido cálido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara pequenina!...
— Não é tudo, disse-me Rogério uma ocasião no Aterro. Beber é mau, mas perdoava-lhe, que diabo! Com o cognac porém, vieram os vícios suplementares, que de resto não aprecio nas mulheres, nem estava para subsidiar em proveito dos devassos que iam lá por casa. Entende você?
Escrevia ele folhetins na Gazeta do Sport, crônica da alta-vida segundo a testada, e bastante mal escrita para se crer que assim era. Esses folhetins fizeram-no célebre, secretário de um grêmio de escritores, sucessivamente premiado de Mont-Real e irmão dos terceiros. Centros de literatura amena e crítica austera, livrarias com cavaco e sociedades com bilhar, brindaram por ele. Deitou almanaque com bocadinhos democráticos, e um juízo do ano em que era ameaçado o trono. Lindoso, que era quebrado, e às bancas do Martinho maravilhava localistas míopes e uma quantidade de aspirantes, abraçava-o em público com palavras de pompa. E por dúzias, os álbuns, os semanários e jornalecos de distrito, reclamavam trechos dessa pena hilariante que gotejava sol peninsular, ortografia sônica, e mesmo asneiras, querendo Nosso Senhor. Discutiam-no. Já lhe davam escola e processo de factura. Era um moderado, um jovem eclético, meio romântico, meio positivista, com predileções de assuntos doces e a ambição das finas coisas mundanas, cheio de imagens originais, chispando mordentes graças, vigoroso e probo, tendo os nervos irritáveis de uma mulher. Na frente, como chocas, os jornais iam conclamando uníssonos:
— O talentoso amigo e brilhante escritor...
Uma das belas organizações da Península...
Erguiam-no em rival de Lindoso, que a tantos se afigurava um prodígio além de toda a expectativa. Festejado Peres nem dizia sim, nem não. Deixar ver! E o colossal Pirralho advertia que não era bom turibular debutantes, que podiam perder-se de vaidade, imaginando-se deuses.
E numa vocalização enfática:
— É o defeito dos homens do Meio— Dia, onde os temperamentos são cálidos, e os modelos a seguir não abundam. Quando encetamos a nossa publicação crítica, era notória a esterilidade literária em Portugal...
Mas Horácio fazia um passo no grupo, armado dos seus óculos de ferro, nisa curta, um pigarrinho erudito. E cuspilhando:
— Sistematizemos a tese, conforme o proceder do meu Conte!
Os convidados por Rogério tinham ordem de reunir no foier, findo o espetáculo. A peça acabara tarde, duas da noite; e primeiro que a Veledo aparecesse, tiveram de esperar boa hora e meia. Entanto falava-se da peça. Estava o melhor da literatura e da arte. E faziam-se apresentações. Festejado Peres trinta anos de dramas históricos com aplausos frenéticos, raposa velha em coisas cênicas, conforme corria, apresentou a Rogério o grande Aurélio, uma glória da cena, intérprete das suas criações, de quem Doux dissera num atonismo absorto:
C'est un petit prodige, ce marmot là. E a frase ficara célebre. Aquela apresentação penhorara Rogério, que muito comovido, voz mansa agradecia com ar modesto. Além o pensador Horácio que fazia as primeiras carambolas na cervejaria e continuava virgem de contato impuro, definia a arte segundo Conte ao Moreira das mágicas e sainetes, enquanto Pirralho dizia a vida na Comédie Française, o ceremonial de entrada no foier, e como Croizete era a musa dramática moderna. Bulia em volta a ninhada de esperançosos cor de cidrão, ganimedes que se davam ares, corcovando a espinha e rindo alto das facécias do mestre, com o faro na ceia oferecida. E o mestre esfogueteava pela ciência em citações veementes, fuzilando, causticando, vibrando a nota herói-cômica, que na sua prosa fazia o delírio dos discípulos e a admiração do público. Reinava grande cordialidade. Pai nobre Tibúrcio, que desde o desastre da Filha Roubada, não falava ao inflexível Borbas, veio lacrimoso abraçá-lo pelas costas. E em volta acharam bonito, e houve beijos como entre damas. Rogério ia radiante por todos os grupos, abraçado, elogiado, numa efusão de intimidade que lhe punha o coração nas mãos. Não se ouvia à sua passagem senão palavras quentes, bocados de crítica entusiástica: a maior vocação, o mais extraordinário dramaturgo entre os modernos, um dos maiores da Península — e explendidíssimo, cintilantíssimo — e como Sardou, e como Dumas filho, e como o velho Augier... Os famintos tiravam o relógio, chamavam-no de parte, davam-lhe tu, relembrando que tinham andado no mesmo colégio, muito amigos sempre, não te lembras? Mas quem diria! Rogério, o 34, tão enfezadito de cara, cheio de zeros em português, e sair-se agora um escritor daquela alçada! Ele a todos dava uma boa palavra, pedindo opiniões em separado sobre a peça; o que esperava era franqueza, visto não arder nos orgulhos balofos de certas sumidades. Moreira tinha-lhe achado grande fundo histórico, cor local como o diabo — sim senhor — e que pena terem cortado o sarau do terceiro ato! De resto afigurava-se-lhe D. Fagundes o seu tanto herético para uma plateia de damas. No teatro, na escola e no templo, a religião primeiro que tudo: já Garret o escrevera. Bem sabia que o espírito moderno... E muitos parabéns.
Mas festejado Peres, saracoteando a nalga roliça:
— Meu Rogério, disse ele cingindo o dramaturgo, hás de conceder-me, conceder-me, que tenha a ciência do drama histórico... drama histórico... tão descurada pelos rapazes de hoje, rapazes de hoje... Já o fiz saber no prólogo da minha Duquesa de Bragança... de Bragança. Eu cá, escrupulosíssimo no teatro. Será casmurrice, eh! eh! casmurrice... mania de velho; deixá-lo ser!... Hein? deixá-lo ser. Missonier, antes de algum quadro militar... quadro militar... até estudava os botões dos fardamentos... eh! eh! dos fardamentos. Eis onde eu levo o escrúpulo também... E o público dá palmas... dá palmas. Posto isto, e como teu amigo que sou... teu amigo... sempre direi que cometeste um crime de lesa história... eh! eh! lesa história... pondo compota de pêssego no festim de Januario de Mendanha... compota de pêssego. — E de chapéu alto para a nuca, as orelhas despegadas do crânio, o grande homem recordava um desses burros com mitra, arrancados às festas dos doidos, nas catedrais da Idade Média.
— Pelo correr do século quatorze... século quatorze... prosseguiu ele, não era conhecida no reino aquela doçaria, conhecida no reino... que só remonta ao último quartel do século dezesseis, eh! eh! século dezesseis... Consulta Viterbo, fr. Bernardo de Brito, o Abade Castro, Abade Castro... Este pormenor não é fútil, como parece, fútil... porquanto é da compota de pêssego, da compota... que sai a grande cena do terceiro ato, a grande cena... aliás magistral, sem favor, magistral! Linguagem vernácula, linguagem Herculano... lá isso sim, meu velho, isso sim... Falta talvez o fundo histórico, eh! eh! fundo histórico... vacilações na cor local, hein? cor local... Mas és novo, coisas destas só veem na minha idade... na minha idade. E aqui para nós, hein? para nós. Vão sendo horas de manducar uma bucha, manducar.
Rogério ardia por ouvir Borbas, e sobre todos o desenterrado, Lindoso de nome, critico de altos processos, por muitos caluniado de precoce e viridente gênio das raças modernas, o manitanço! Mas sentiu-se umfroufrou de sedas no escadim doirado do foier, e uma voz argentina e alta em que dominava o grave, disse duas vezes ou três, risonhamente:
— Boas noites, boas noites!
Era a Veledo. E atrás dela pelo braço de atores, maridos ou coisa parecida, outras atrizes se mostraram, a Laura, a Elisa, a Maria Freitas... Os trens esperavam à porta do teatro. Falando ao mesmo tempo, numa alegria de boa gente que alarga o coração, essa sociedade foi abandonando o foier. Havia de todos os gêneros, modestos, espirituosos, eruditos, familiares, calemburistas, os de má língua, os de má fama, e trambolhos líricos, gente infeliz ao jogo e fanada de orgia. Aprumado e grandioso, ia Pirralho no meio dos seus discípulos, citando descobertas e ramos de ciência que mais peso causavam no seu caco de homem célebre, pelo arrevezado das designações, forçando os contrastes, e querendo achar a nota original das coisas por um burlesco de encomenda. No alarde de erudição e individualidade que o preocupava, as citações saltavam-lhe aos magotes, desordenadas, ocasionais, num fogo de artifício a duas cores. Às vezes calava-se interdito, circunvagando as lunetas, na desconfiança de haver sido vulgar como a outra gente. Mas rodeavam-no para algum paradoxo aplaudido, farejavam-no os discípulos por todos os lados, inquietos, com a gargalhada prestes, tendo nos olhos piscos o deslumbramento das gravatas do grande homem, os seus sapatorros ingleses, e o largo gesto que parecia ceifar de roda as mediocridades que de longe vinham recolher palavras da sua boca de semideus.
De seu lado, o desenterrado Lindoso abotoava modestamente o casaco de botões recomidos e cotovelos surrados, não tendo ainda coterie; e humilde, olho aceso, faulhava de inveja sobre os que iam de braço com fêmeas, sentindo as primeiras securas do amor vicioso. Então foi um movimento alegre de partida, um burburinho de risos e vozes que já não procuravam entender-se. As senhoras carregavam sobre a fronte os capuzes das sorties-de-bal, rendas de froco, ou simples tules picados de abelhas de ouro; e pela escada, apanhando os vestidos num desleixo provocante, mostravam meias de seda bordadas de lado, e esses primeiros lineamentos da perna, que lembram contornos de jarra etrusca, pela expansão esvazada e alta das curvas. Laura, uma loira redondinha que findava o primeiro amante, borboleteava pelo braço do festejado Peres, cujos sessenta mantinham pretensões ainda de galanteria e elegância. E a cada passo ela deitava-lhe a cabecinha no ombro, mostrando os dentes miúdos. Maria Freitas era uma grande morena, esquelética e muda, a quem davam papéis de velha, para que sempre tivera vocação. Não tinha amor permanente, e como quartos de estalagem, alugava a quem vinha, o seu coração hospitaleiro. Entanto as colegas toleravam-na, porque apesar de tudo era útil, e pelo contraste fazia as outras virtuosas. Declinando nos quarenta e cinco, os olhos de Elisa começavam a turbar-se, cercados de pequeninas rugas nas pálpebras, como os dos papagaios moribundos: e apenas lá longe, nos dias de crise frenética, se incendiam ante colegiais frescos, de ar tímido e riso doce. Era uma gorda pintada de branco, cheia de sinais, grande talento de comédia, e tendo pelas mulheres o desprezo de um homem. E o cortejo ordenava-se, desfilando direito à rua. Rogério deixara-se ficar, na esperança de dar o braço à Veledo, que também aguardava o quer que fosse. E quando ia oferecer-se, viu-a voltar-se contra o brasileiro, pôr-lhe no ombro a mãozinha calçada em luva de canhão mole, a dizer-lhe com a bela voz de cena:
— O meu amigo será bastante bom para me deixar o seu braço?
Ficou atônito a semelhante desfeita! Quanto por ela tinha feito era sem preço — a ceia, o drama, as toiletes de aparato... E enxotado! Mas jurou ali mesmo uma desforra estrondosa. Quando chegou à rua, já toda a sociedade se estava armazenando nos trens. Elisa abandonara os velhotes que a tinham comboiado escada abaixo, para numa velha tipoia se enroscar entre os seus ricos frangãos da geração moderna, aos empurrões em pai Tibúrcio, e mandando à fava a história brejeira que ele insistia em contar-lhe. Maria Freitas instalou-se nos joelhos de Moreira, num pequeno coupé de aluguer, à direita do festejado Peres, e à esquerda de um revolucionário cor de melão, que insubordinava Alcântara com discursos socialistas. No meio da rua, mordendo o bigode com melancolias de birrento, Rogério procurava companhia de mulher, olhando quem se ajoujava nos trens. Viu Borbas estender os braços de dentro de um carro, e puxar Laura, a quem genial Pirralho, dizendo-se Hamlet, chamava a sua pálida Ofélia. De duas carruagens ou três, vozes chamavam brejeiramente a rapariga; e como doida, ela ria de cabeça para traz entre os desavergonhados, debatendo-se na fúria dos abraços. Hirto como um lacaio, o brasileiro escancarava a portinhola de um belo carro de noite, servido por cavalos claros, e moços de taboa aguardando de pé que ela entrasse. A eminente atriz circunvagava a vista em procura de alguém. Como Rogério se tinha aproximado um pouco, à semelhança destes cães batidos que veem de rastos para o dono, ela, num rir cascalhado, disse-lhe assim:
— Ouvi que não tinha gostado do meu desempenho no segundo ato. Um homem difícil, o senhor. O monologo então, detestável! Mas podia ter-mo ensaiado, com o seu ponto de vista.
— Mas, atalhou o pobre autor balbuciante, eu não disse...
— Se a peça tem música, foi ela dizendo com volubilidade, quem fazia uma criação única, por certo, era a prodigiosa Alcina. Sua prima! E a propósito. Que faz isso agora?
— É cruel o que está a dizer.
— Justiça ao mérito e mais nada. Assim, prejudiquei-lhe o debute... Que infeliz eu tenho sido com os gênios de incubação demorada! Talvez inda arranje um remorsozinho por tanta incapacidade.
— Lá se lhe é agradável fazer-me sofrer...
— Diga à Laura que tem lugar aqui. Ela só— e como ele aventurava desculpas num tom de colegial submisso: — mau! perdemos tempo.
Rogério foi chamar a ingênua, que parou logo de rir, e sem dar boas noites aos que pensavam detê-la, veio lesta anichar-se no carro da Veledo; e foi em surdina uma altercação entre as duas. O brasileiro atirou a portinhola, e rodaram sem fazer caso de Rogério. Quando um pobrezinho gemeu ao pé do dramaturgo:
— E eu? — Era o pensador Horácio tiritando sob a nisa rapada, com olhos de fome e gestos vazios de mãos.
— Que é? perdeu o capote? disse Rogério distraidamente.
— Não acho lugar, meu bom amigo.
— Pois enfie por aí, grande maçador.
— Ponhamos a questão nos devidos termos, ia começando o desgraçado. Enfiar seria... — mas Rogério agarrou-o pelos fundilhos, ergueu-o do chão vigorosamente, e arrumou com ele para a almofada de um cocheiro.
— Nós cá, pronunciou Lindoso dando o braço ao dramaturgo, iremos a pé, há tempo de sobra. E venha de lá um charuto ao seu amigo, venham de lá dois!
— Não me dirás, começou ele, porque razão pousam com tamanha filaucia estas sirigaitas de atrizitas, que segundo parece, fazem a honra de ter por mim o mais tocante desprezo? Que diabo! Antinous não era positivamente meu pai. Mas sinto-me bastante feio para ser simpático a uma mulher; e a língua em que solicito delas algum favor pequenino, pequenino, é um português todo metáforas cor de céu, e com o agridoce das ginjas garrafais. Já digo, é-me odiosa a meia máscara. Mulher completamente honesta, ou então mulher completamente perdida. Nada de meios termos! Contempla agora tu o monstrozinho defecante que se chama a fêmea dos nossos palcos, espécie de tatu dessorado e desjeitoso, que nem arte põe no prazer, nem teve a coragem de se conservar intacta de culpa. Borbas garante, que nunca alguém premiu polpa de atriz lusitana, donde não saísse logo algodão, palha de centeio ou cautchu. Olha que há de ser do clima. — E depois de um silêncio — Dize cá. De que céu artístico choveu esta Veledo, a quem dizem tanta coisa em superlativo? Mas tem o ar de uma maritornes, essa dona, meu filho! Ombros, talvez, não discuto... Mas como artista, é uma trágica de feira. Mulher boa para sofá de um pernambucano. E concedamos-lhe que encha Alpalhão de assombro. Mas daí ao talento, que insondável abismo vai!...
— Eis o que eu digo também, notou Rogério, picado.
— Pois meu filho, o asteroide dispõe do mais quantioso orgulho, que tenho visto fazer teia em cabeça oca de mulher. O modo de receber então. Lembra a rainha Dobrada, esposa de Sua Majestade. Termo tinto, dando beijamão aos aguadeiros. Eu vivo retirado, e não tinha ainda podido escutar tamanho obelisco dramático. A tua peça arrastou-me, não admira, arrastou-me. Pois querido, agradece-lhe, estragou-te a obra, comprometeu-te, achatou-te. Cuidas que és ainda o Vasques? Mas não! Estás feito num pataco macanjo.
E como o outro ria, o desenterrado prosseguiu:
— O segundo ato então, fez-to ela em frangalhos. Que falta de intenção, que gaucherie de piso cênico, que berros e que trejeitos de maritornes! Castelo Picão e Rua das Trinas jouant la duchesse. E todavia há nesse ato um monologo, artificial como reconstituição histórica, porém habilmente instrumentado como crescendo destilo.
— Ah, reparaste? disse o outro animando-se. Estragou-mo ela. Imagina que acaba de me passar uma sarabanda em forma, só de me ver frio no fim do segundo ato. Sabe que me faz doido de desejos, abusa desta fraqueza, e dia por dia, hora por hora, me tortura. Se lhe vou dizer qualquer coisa, é capaz de não representar mais a peça.
— Eu a arranjo, deixa tu estar.
— Diabo! não lhe vás para aí dizer...
— Homem, não ponhas a tua cobiça pela fêmea acima do teu amor pela arte. Ou se é artista ao sacrifício, ou se muda de rumo. Zurzamos esta corja, que há tudo a ganhar com a campanha. Porque enfim! Dirigimos nós ou não dirigimos a opinião? Sendo assim, não te parece crime sem fiança estarmos tolerando a desmoralização que aí se vê por todos os ramos literários? Mas onde vai isto parar? A nossa língua acanalhada de estrangeirismos parvos e inúteis. O belo ideal de Garret, colhido no elemento tradicional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras coligadas pelo reclamo, tolhendo o passo aos talentos validos. Literatura inglória, atravessadiça e sonâmbula. Literatura filha de pais incógnitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado — e animando-se:
— O quadro é flagrante, e não necessita de Taines nem Paulos Bourgets para o tracejar. Basta ver o que se passa. Por toda a parte jovens espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as amantes, e deitar por terra as religiões e as sociedades. Na mascarada dos poetas originais (suponhamos) vão uns com dominó de Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Copée. Saem do colégio já desesperados, blasfemantes, com o fatal amor, as ambições e os cinismos dos caracteres oprimidos pelas ferocidades da vida social, que à nascença lhes houvesse esmigalhado os rompantes. Alguns deitam-se a interrogar a história, filosofias, podridões de sepulcros...
Pensadores que não pensam nada: arqueólogos capazes de reconhecer etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam à porta das escadas — e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esfacelam uns de cachexia, e idiotizam outros na adoração da própria chateza. Necessário por em armas um forte cordão de tropas, que preserve de um tal contágio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me amanhã: os valentes que me sigam! O teatro sobretudo, ergamo-lo da bestificação em que jaz. Se não há quem produza bom, ressuscitemos os velhos, como em França. A Comédie dá Molière, Racine e Corneile duas vezes por semana. O mesmo nas matinées do Odéon. Não prestam os artistas? É derribá-los, reconstruí-los, ou educar artistas novos. Forçados a dezenas de papéis diferentes no espaço de uma season, os atores não profundam papel nenhum. Os nossos escritores de teatro, por outro lado, entretidos a esquissar palhaçadas sem graça nem coerência, estão inaptos para traçar um tipo de fortes linhas e energia contornadora, que o comediante revista e agite com a sua personalidade. E chegamos a isto — Borbas empunhando o cetro da crítica dramática, e o borrachão do Peres arvorado em, galvanizador da história no palco português. A culpa têm-na vocês — distinguindo atores que nem sabem virgular o papel, formando traine nos camarins das estrelas fáceis, indo de rastos para os cômicos lhe representarem as peças: tolerando numa palavra, o jugo dos idiotas coifados de pontífices. Inda mais. O espírito das plateias está grosseiro: pouca vibratilidade, nenhum prazer ante as finuras do diálogo, emoção numa só corda... De onde resulta que aficele mais decrépita, um berro de imprecação, um esgare terrífico no fáscias, qualquer mutação vocal ou passo enfático contra o tirano, alarmam a turba e tocam a rebate no sino grande da ovação. Tudo que for delicado, nervoso, reconditamento irônico, escapa a essa frandulagem d'arrière-boutique. Eis o resultado de trinta ou quarenta anos de arte roubada aos dramalhões da Porte— Saint-Martin, mal traduzida, mal representada, mal criticada; elaboração sezonática de escrevinhadores que não souberam compreender a obra inicial de Garret, e continuá-la, muito menos. Em França, o teatro romântico, brilhante e fecundo, inda agora impera, e está truncando a via ao naturalismo no palco, atenta a persistência do gosto público pelas violências dramáticas, pelo talho geométrico dos atos, e essa rara habilidade no savoir faire que caracterizou sempre a escola, desde Casimiro Delavigne a Feuilet e Dumas pai. Não dá a impressão de um trabalho de gênio, esse teatro, mas é cheio de arte e vigor, e compreende-se a febre que o incende, e lateja-se na incoerência e na fúria que o convulsionam. Sardou e Dumas filho representam a transição, inda dúbia e pálida, para o naturalismo continuador de Molière e Ben Johnson, de onde brotará talvez o jato arterial que avivente a cena, decadente em nossos dias.
— Mas os novos... tornou Rogério afagando na mente o drama que fizera.
— Entre nós levaria a palma quem soubesse continuar Garret. Somos um povo sem drama íntimo no presente, um povo cuja vida não tem característicos, e onde os temperamentos falecem de originalidade. Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso teatro terá de viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa sobre a cena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de gênio, pois tem de criar figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres a verdade? Palpei ombros de titã no teu talento, esta noite. Só tu poderás ressuscitar o nosso palco.
Rogério tinha-lhe logo caído nos braços, lacrimoso, dizendo coisas comovidas.
— Mas que trabalho de cem sábios e vinte artistas, se quiseres levar a cabo essa incontestável vocação! Terás de estudar a história pedra a pedra, ruína a ruína, figura a figura, pergaminho a pergaminho; criticá-la, sentir-lhe o lado artístico à luz de uma filosofia profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsação; e ir pelas ruas depois, em busca de comediantes, a arrancá-los de onde eles estiverem, pelas oficinas, pelas prisões, cavando batatas na courela de um padre, ou vendendo agulhas com o pregão de um belfurinheiro. E educá-los por tua conta, à tua vontade, sob o teu ponto de vista e o ciclone da tua inspiração. Para que ao vermos em cena as tuas figuras, rei, conspirador, frade, princesa e pajem, não tenhamos de berrar — bem vos conheço, heróis de tal século! Esse aí é o Miranda, que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do Ferra Moscas; essa altiva rainha esmagando o cofre de pérolas del-rei de Castela, é nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fora, ó reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua peça respira enormíssimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na Exatidão esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para o Alecrim. Leilão amanhã.
Perco tudo, não tem que ver. — Era a roupa branca da mulher, o seu vestidito de sair, coitada!... e xales, um prussiano acabado de fazer... Tudo para pagar remédios de botica. Terrível coisa a miséria! Dias de jantarem café. Se emprestasses quatro libras até amanhã...
A assaltada fora um tanto brusca, pois Rogério parecia lento em esportular a quantia implorada. Então começou o desenterrado uma cantilena gosmada entre o cuspilhar do charuto, que ora se perdia, em divagações líricas, ora habilmente voltava a frisar certos detalhes de intuito prático. E disse as duras precisões do seu lar, essas grandes batalhas tenebrosas da miséria que não pede esmola, e os frenéticos sacrifícios do talento amordaçado pelas conspirações do silêncio. Rogério inda duas vezes fez — homem, é que... homem, é que... — mas engasgava-se, achou-se somitego, considerar-se-ia odioso se recusasse aquela miséria a um amigo; e ao fim de dez minutos tirou a bolsa.
— Quatro é que tu dizes, não?
— Ou cinco... ou seis... ou sete... ia dizendo Lindoso, e Rogério deixava cair cada moeda por sua vez— talento, muito talento expendido a mãos plenas pela tua peça. Lá isso! Selvageria, fúrias shakespearianas, sim! A vertigem da execução prejudica sempre a lucidez do problema. Cinco... seis... É o sonho tenebroso e dantesco, com sobressaltos e recaídas, que sacode pelos ombros os personagens do Hugo. Um positivista, juntava ele num riso pálido de caloteiro, deve proceder com mais sangue frio. Sete... obrigado, salvaste-me.
— Vê se queres mais, menino...
— Não. Outra vez. De todo me tinha esquecido pagar esta insignificância. Deita mais esses meúdos. Os pequenos precisados de botas... Diz que querem ver a tua peça. Oh a infância! E fechou a mão que estendera ao dinheiro.
— Verás o meu artigo. Comparo-te aos mestres, não hás de ter razão de queixa. E subiu à casa de prego, que era na sobreloja, à esquina, com a sua lanterna de três gumes, dizendo: Exatidão, penhores, juro módico, enquanto Rogério esperava mordicando o charuto.
Dias e meses correram, sem que realmente as relações de Rogério com a artista adiantassem muito. O pobre autor sentia-se exausto de cerimonial, perdia tempo em declarações, não largava o camarim com presentes de flores e versos da melhor fábrica; mas fitando a grande Veledo nas pupilas, não via nelas fuzilar essa centelha brusca com que a mulher reclama a intimidade de um homem. E dia a dia, como ela lhe escorregava dos braços, como uma cobra, cada vez mais astuciosa, o desejo dele parecia congestionar-se de infrenes ardores, a cada repulsa sofrida. Ia sendo tempo de se por à vontade com ela, de se conhecerem de perto — Rogério tinha pouco jeito para lunático. O amor platônico era irrisório à sua alma de província, positiva em negócios, e acostumada a satisfazer de pronto os apetites que lhe vinham. Por mais porém que fizesse, para aos frequentadores do camarim parecer na intimidade da artista, não ouvia rosnar em volta, da suposta ligação. Ela via-o chegar como aos outros, apertava-lhe a mão com um pequeno riso, fazendo tilintar os braceletes.
— Bem, meu caro?
E continuava a palestra interrompida. Depois a correção exigida ao penetrar naquele camarim. Vinha-se de cabeça descoberta, cortejá-la com grandes reverências. Os homens não fumavam. Uma palavra familiar, uma graça mais nua, transmutavam na cor as íris da divindade. E nenhuma familiaridade antes de se ter sido apresentado com as fórmulas mais puras do estilo. Porque era de saber que se tratava com uma mulher superior, a primeira atriz portuguesa, astro, deusa, musa do drama, Rachel, Sarah, Mademoiselle Mars, e as mais chapas consagradas neste gênero de apoteoses. Depois, mulher do mundo, espírito de duquesa à Balzac, leituras finas, e seriedade de porte, dizia-se, não vulgar entre lonas pintadas. Era destas mulheres de cena afinal, corrompidas de espírito e gastas de sensibilidade, pelo hábito de fingir, representar ao vivo, e pintar tudo, lábios, cabelos, sentimentos. O abuso de cosméticos, estragando-lhe a epiderme da face, proibira-lhe as transparências do rubor, que na mulher mesmo velha, são a juventude eterna da alma — ao tempo que os papéis violentos, embotando a sua vibratilidade, lhe não deixavam já sentir as coisas originalmente e por si próprias, como se cada sensação sendo um dedilhar de corda eólia, ficasse impossível, estando esta corda partida. Como todo o artista fatigado, a Veledo só obedecia agora aos móveis extremos, o interesse, o orgulho, um vício, um desejo, sentindo desprezos pelo mais. Tudo era nela preparado cientificamente, ensaiado, solene, feito de cor — um papel, um sorriso, uma generosidade, um cumprimento. Aos trinta anos percorrera já tudo na vida, os cimos e baixos fundos torvos, onde as podridões são pitorescas; bambochas de fábrica; mancebias de acaso, em águas furtadas, com estudantes e carpinteiros; fomes de palmo, pantomimas de feira, noites sem leito... todas as escoriações do vício caloteado e baixo. Teve um filho aos quinze, de que já não sabia aos dezoito. E pancadas, figurou no livro das prisões, foi bailarina e criada de hospedaria. Agarrada para povo num dramalhão de aparato, uma noite em que vagueava à busca de homem, entrara a crescer. O ponto levou-a para casa, o ensaiador achou-lhe jeito; dois ou três noticiaristas entraram com referências à novel artista. E engrossou, encheu de ombros, fez-se mulher; e este viver a fora curtindo, ficando-lhe o frio olhar calculista, que farto de se ver explorado e cuspido, tudo agora revertia em proveito próprio. A sua beleza, embrionária aos quinze, efloresceu após o primeiro filho em exuberâncias mimosas e brancas, e delicados tons de face. Aos trinta anos, levando uma existência tranquila, boa mesa, dois cavalos, o palacete da Graça, e brasileiro para argent de poche, Veledo era uma mulher alta, branca, sólida, admiravelmente moldada. Isto dava aos seus grandes gestos de drama, pomposos à força de convencionais, uma soberania e relevo que eram o furor do corpo comercial, brasileiros de volta, províncias e ilhas, todo o país inda rançado em banhas líricas e sentimentais tradições. Nenhuma desse tempo possuía olhos, ombros e braços como a Veledo. Gentes decaídas por idade ou excessos, iam ouvi-la de rainha, princesa disto ou daquilo, Fernanda, Madalena de Vilhena ou Morgadinha, a galvanizarem-se e readquirir tom, pela excitação ou deslumbramento da sua voz dizendo tiradas pomposas, ou dessa extraordinária carne extravasando em maravilhas plásticas. Numa cidade como a nossa, onde as mulheres filiformes e glaucas lembram bichos de seda na muda, aquela magnífica e autentica mulher fazia império e dava cobiça, mesmo assim fria de máscara, e parecendo viver fora de cena a eterna insônia das estátuas. Não era muito talento, mas os gestos salvavam-na, depois de se haverem salvo pelos braços. Os amantes tinham-na feito distinta, linha de princesa, uma graça real a receber os que prometiam, nenhum, titubiamento em tête-à-tête, e esse vestuário esmanchado, cheio de esquisitice, um pouco doido e pitoresco, que as aborrecidas inventam para se distrair.
Sucedia andar às aranhas numa peça, não tendo percebido palavra do papel, gaguejando se o lance queria veemência, rindo se exigia dolorosa gravidade, avançando em vez de recuar, partindo as tiradas, surripiando frases às outras personagens, e comprometendo os colegas, na expectativa de fazer quebrar a empresa.
Apesar do fanatismo pela diva, o público esfriava, torcia-se na plateia com bocejos sonolentos, errando a vista pelos camarotes, com tossinhas de gato, errantes, comunicativas, e esse leve rojar de pés, que perturba de morte os atores, e tem feito o de-profundis de muito drama e comédia. Contra inanição semelhante, era conhecido no palco o eficaz revulsivo. Dos bastidores, o empresário mandava à dona Eulália trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com ele, enquanto o empresário, baixinho, para dentro de cena: — sss... giralda! — Sinal para a Veledo desertar de cena, mesmo cortando a situação, e fazendo falhar o patético do lance. E mesmo ali a grande artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez como qualquer outra. Reduzia-se num cinto aplicado a Bruxelas finas, e servindo nas ocasiões desesperadas, desde que estava eminente o fiasco. Aplicava-se no público como um sedenho ou um cáustico, no intuito de supurar ovações. Apertada nele, a grande Veledo ficava pouco menos de nua, contando bem da cinta para cima. Corpete de fatal origem e lutuosa história! Tinha-o inventado o octogenário marquês das Berlengas, um galante da sociedade do delírio, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos braços dela se sentiu esfriar como burro morto. E indo a vestir-lho, mais animado e banzeiro, caiu com o aneurisma roto, em fralda de camisa, como estava, o desdichado!
Esse colete, justo atrás por um cordão de seda lasso e cruzado, recordava uma corbeile de onde espumasse a radiosa floração da sua carne, musical e superabundante — e seios turgentes gotejando rubis das mamelas; braços torneados, à Clódion, desde o punho até aos ombros; garganta e espáduas resplendendo essa polida brancura que o frio mármore nunca dá, e vem talvez da circulação juvenil e do azul aponevrótico, coados por uma epiderme vibrátil e sã.
E apenas ela entrava assim eloquente e vil, um rumor corria por toda a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. Já das varandas vinham estalos de língua, e a velhada ia esfregando uns contra os outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a tempestade de bravos ia-se encapelando, aglomerando, contundindo. Havia no ambiente podre revoadas de sss... E a excitação, como uma cheia, afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade humana, e pondo à mostra a torpeza física dos mais graves funcionários. Era então que se viam velhitos da mais austera prudência, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos — juízes, antigos ministros, conspícuos diretores de banco, e chefes de secretaria — furiosos de amor canino, e dando a sua opinião de olho esgazeado. Ela, na cena, parecia uma bela estátua reanimada, tão nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quase nua, corria-lhe na carne um arfar de emoção radiosa. O pescoço era maravilhoso de finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; enquanto a narina num frêmito, dir-se-ia seguir o rolar de olhos reais que ela pela sala deitava. Erguia o braço num movimento afadigado; e viam-se cabelitos na axila, muito pretos. O arco das duas sobrancelhas, quebrado em acento circunflexo, exprimia maravilhosamente o desdém. E suspensa, a sala aguardava que ela falasse.
Senhor! Ousa insultar uma mulher que se não defende? Perigoso me tinham dito que era; cobarde nunca!... — e ao meio da cena, numa cólera de deusa, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrível sacerdotisa:
Saia!
Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.
Precisamente neste remoinho de celebridade e de glória, depois da grande cena do terceiro ato, uma noite, Rogério declarou-se a Veledo, num português que a atriz não usava escutar lá muitas vezes. Fora num escaninho do palco, durante a mutação de cenário.
— Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ela escarnecendo. — Ele compunha uma atitude fatal, como se quisesse magnetizá-la de paixão. E despiam-na, os seus olhos faiscantes de vício.
— Dizer-mo não basta, tornou a eminente atriz. É necessário que mo prove.
— Mas como? disse ele surdamente.
— Isso não é comigo.
E depois de uma pausa:
— Há talvez um meio de principiar. Porque não começa a ter talento?
Rogério não respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pele branca do colo dela, redondo e nu, chamuscavam-na, mordiam-na, apalpavam-na, servindo-a como um gozo arrancado à força. E num desvairamento, agarrou-a pelos dois braços siflando, engasgado de fúria.
— Cala-te estupor, cala-te diabo! — Era numa sombra de pano de fundo, que vinham, de correr. E a Veledo debatia-se, aterrada do escândalo, caída do respeito usual por semelhante violência. Rogério tinha-a cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias de um touro; e aos beijos por toda ela, na boca, na garganta, nas espáduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrível de desejo, deixando-lhe vermelhidões por toda a parte, sinais de dedos crispados, babugens de raiva lúbrica, que no pó de arroz deixavam listrões nojentos de ver. Enxovalhada da brutalidade, a Veledo chorava, gaguejando:
— Infame! Infame!
Despenteara-se na luta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da túnica caíra, violentamente roçado. Rogério ficara a resfolegar num canto. Mas ouviu-se o contrarregra chamar para a cena do jardim; e com a voz musical de quando estava alegre, a Veledo desatou a rir alto entre os bastidores. E mal o galã disse — é ela, conheço-a, o coração mo diz! — entrou em cena radiante e magnífica, monologando para si:
Ele prometeu-me que viria. O seu amor é leal. Virá decerto — e numa expansão de amor: — adoro-o, sim, adoro-o!...
— hás de cá cair, cegonha! fez Rogério esfregando as mãos. E ao outro dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas já entravam a rosnar. Os ganimedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogério de perguntas sobre a tristeza em que o viam, com subtis alusões à atriz. Nos camarins não se falava em outra coisa. Sabia-se que ele hipotecara as últimas propriedades, perdia ao jogo, e mandava à Veledo todos os dias, uma grande corbeile de camélias e rosas confeccionada no Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ela colecionava com paixão, bibelots de Sèvres, pratos e netskés do Japão, aguarelas, bronzes e móveis delicados, pequenas peças vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciência de santo, regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preços escandalosos. Como amador de bric-à-brac, Rogério era uma besta, chegando a pagar por libras monos de loja de chá, falidos de todo o mérito. Veledo encolhia então desdenhosamente os ombros, mirando a bugiganga. E com irônica piedade:
— Decididamente tem o gosto caraíba. Vê-se logo que é da província. Foi do leite. Obrigado. Ou era uma faiança repetida, qualquer peça que ela pedia para lhe comprar, e Rogério já não encontrava no bazar indicado. A atriz impacientava-se então, fazia momo com o seu beicinho vermelho, batia o pé vendo-o chegar de mãos vazias.
— Se ele é um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.
E predileções de momento, ambições por quanto via nos armazéns, e logo tédios pelo que ia adquirindo. Em dias de nervos quebrava, mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que tendo feito das impressões violentas um hábito abusivo, desesperam por fim, se acaso em vão apôs elas correm. Tão raras as horas de bom humor, que Rogério, se alguma surpreendia, dir-se-ia gozá-la como recompensa disputada. Esse homem altivo caía aos pés da sua gata sabia, em pieguices de colegial, deixando-se explorar por prazer. E sobre a posse tão ardentemente implorada, nem rastro de esperança! Se ia beijá-la com mais fúria, se a queria enlaçar pela cinta, ou a respiração cortada nele traía alguma ideia oculta de deleite, ela logo de pé, faiscante e sarcástica, para o repelir com desprezo.
— Olhe que me não esqueci daquela canalhice do teatro, hein? — ou fazendo saltar o lorgnon Regência:
— Ora filhinho! Deixa-te de asneiras. Isto é do brasileiro.
Meses passavam assim. Se por um lado Rogério não adiantava com a atriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferência e familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham começado as relações por uma polidez reservada, que parecia ocultar as mais categóricas antipatias. Depois, aquela crosta de indiferença estalara aqui e além, num cavaco mais vivo, num acordo ou outro de acaso. Rogério sondava os gostos do brasileiro, lisonjeava-lhe os ridículos, punha-se ao lado das suas opiniões, aturava-lhe as estopadas, ou conseguia rir das graçolas dele. Era um pobre homem, limitado e benévolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na mocidade, mal tivera tempo para gostar de uma mulher — e assim conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quase, as íntimas juventudes do seu coração, uma singeleza tímida e crédula, uma espécie de convicção da sua inferioridade, como animal, em face daquela grande rainha da cena, e pequenas atenções balbuciantes para os caprichos dela, torturas sofridas sem revolta, e humilhações inda por cima agradecidas, numa efervescência de lágrimas.
Esse mudo velho de olhar ardente e mãos de cavador, de contínuo enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma gravata de coleira à volta dos colarinhos moles, esse mudo velho, parecia marchar sonâmbulo na sua ideia fixa, dolorosamente algemado à sua paixão como a um cepo de patíbulo, para toda a gente afável, dizendo muito obrigado à criadagem, orgulhoso de ter em casa da Veledo o ar de um intendente, desolando-se em suspiros que a idade já fazia grotescos, desdenhado, repelido, porém fincando sempre nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes. Enquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogério viessem a ter resultado, foi sempre mantendo à vista dele, uma reserva polida, quase fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um asco a desconfiança. Os risos deles, ao toparem-se, no serão da trágica, eram um espremer de beiços secos, com distilo de amargura. Mas breve o nababo concluiu que não viria de Rogério o vento mau de desgraça, que lhe varresse a Veledo, como uma nau dos quintos, do mar banzeiro em que ele a trazia balanceada e represa. Uma mágoa idêntica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem. E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade de um segredo, favorzinhos que se calculam e estão prestes ao primeiro sinal. Por fim deram o braço, trocaram brindes, começaram a simpatizar; e havia quatro meses que o brasileiro já não passava sem Rogério, e Rogério se afizera a procurar todas as tardes o brasileiro. Veledo espiava aqueles manejos, deixava-os consolarem-se um no outro, e ia-os explorando sistematicamente. Era o tempo em que a fortuna de Rogério via o começo do fim, e Lisboa lhe ia notando as primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beiços dele enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e enfastiado, mãos febris, não dava palavra a ninguém. Em volta ao caso ria toda a gente. Apenas o grupo sério de Pirralho, filósofo Horácio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos positivo-publicistas, lia nessa fronte sulcada, nesse olhar fixo e interior, a gestação laboriosa de algum grande livro. Atores, já o tratavam de resto, não o sentindo como outrora, generoso de empréstimos, e tão pródigo de alegres ceias no Gibraltar. A primeira vez que apareceu sem relógio, fumando cigarros de mendigo, quase todos, achando-o pulha, lhe voltaram as costas.
Por esse tempo revelava-se Alcina, que passara da ópera-bufa ao teatro de declamação, prima de Rogério e sua primeira amante. Fora na Suzana do Demi-Mondepapel de prova, cheio de movimento e finura, em que por confronto a Veledo tinha dado um estenderete medonho, e que Alcina fez com distinção surpreendente. Sobre o caso, a crítica fez-se ouvir muito acerba contra a Veledo, mau grado as súplicas do brasileiro e de Rogério, a que fosse poupada a grande sacerdotisa. Em quase toda a linha jornalística, de repente, as hostilidades romperam com violência brutal, bipartindo-se os críticos na hoste dos que bradavam — Veledo! — e na dos que punham Alcina na mais brilhante evidência. A prima de Rogério, por conseguinte, passou a sintetizar a escola nova, como a Veledo era a expressão da antiga arte. Pirralho e o magreirão Lindoso, macacos-pontífices da alta crítica moderna, saudaram a musa nova em rútilos artigos crivados de referências pícaras à antiga primeira atriz portuguesa, na qual tudo, segundo eles, era convencional. A história do corpete fez escândalo de morrer a rir. E dois ou três distintos escritores e nossos amigos estiolavam-se a calcular os anos que ela teria de idade, o que esbanjava em cabelos postiços, e da composição química daqueles seios esculturais...
A atriz Alcina, não! Era a mocidade maleável e viva, a inteligência sagaz que tudo penetrava sem esforço, o gênio desprezando artifícios, e dando-se à plateia em relâmpagos — e como mulher, uma ninfa de Clódion, elançada e viva.
— É necessário derribar os falsos deuses, escrevera Lindoso. A arte é constantemente evolucionista. Quem não progride, não a acompanha, e elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...
— Isso é forte, homem...
— Qual forte! Uma velhaca que nem bilhetes manda para o jornal! E daí põe recusas às nossas mais ternas blandícias. Pode-se lá sofrer!
No entanto crescia o desespero da Veledo, que chorava dias e dias acusando o empresário, não querendo estudar os papéis, cobrindo a imprensa de insultos, Rogério e o brasileiro de repelões. Uma manhã, apenas aquele veio, ela resolutamente:
— Essa criatura que elogiam por aí, é sua prima, e foi sua amante, já sei. Porque não acedo ao que o senhor pretende, move-me guerra nos jornais.
Rogério ia protestar. Ela disse — canalha! e mais rápido: — em todo o caso, ouça. Se a peça nova fizer reviramento completo na imprensa, expulso o velho e entrego-me a si. Há uma condição de que não abdico, note bem. Que essa bêbeda seja posta de rastos, fora do teatro em que eu represento. O resto é com o senhor. Aceita?
Ele pôs o chapéu na cabeça, disse:
— Não! — E saiu como doido. 
Chovia, e ele sem guarda-chuva, pisando a lama com sapatos de baile, seguia alagado ao longo dos prédios. Dois ou três amigos chamaram-no de dentro de trens, para que viesse abrigar-se. Olhou-os com ar vazio e foi andando. A sua paixão pela atriz, avolumada pela resistência, obstruía-lhe a livre esfera da deliberação, da ação, e desvairava-o. Que havia de fazer? A pobreza fizera-o mesquinho: e vinha-lhe com teimosia a ideia do dinheiro gasto com essa mulher, sem reserva, sem egoísmo e sem cálculo, numa boa vontade de rapaz. E nem mulher nem dinheiro!... Então recrudescia-lhe o desejo dela, e era uma febre bestial de amor que o espicaçava a todo o instante e lhe fazia delírios. Foi pelas ruas de mãos nas algibeiras, flanando ao acaso na lama. Vendo um antigo freguês, os cocheiros paravam fazendo-lhe sinal — e era uma humilhação para Rogério ter de recusar, ou virar a cabeça fingindo não ver. As ruas surpreendidas por essas primeiras gotas de chuva hibernal, tinham sobressaltos e gritos de vida que procura abrigar-se, a um tempo frenética e contente... mulheres apanhando os vestidos, homens erguendo as calças até à origem das polainas, chamando os trens, ou entrando à pressa nas escadas.
O ar frio dava às epidermes das mulheres um cor de rosa mais pudico. Era a hora do Chiado, e os trens desciam para os armazéns de modas, em cujas vitrines se encontravam já densos estofos, chapéus e capotas do último modelo. Lisboa, que voltava das praias e estações d'águas, procedia à sua instalação, buscava nos livreiros as últimas edições, lia os cartazes dos teatros, escolhendo a sua noite, ditando a suatoilete, familiarizando-se com os aspectos das ruas e o rolar das carruagens. E a cada instante, Rogério tinha de fazer um sinal aos conhecimentos antigos, atrizes dos pequenos teatros, jornalistas, dandies, horizontais; toda a mascarada elegante passeando os primeiros paletós estofados, no giro da evidência e da moda. E intimidades que roçavam pela fadiga do seu casaco um velho dito maldoso, desdéns que lhe acenavam de longe com as pontas das luvas amarelas, piedades vis que o lastimavam, ou pecadoras que lhe riam pela ferida dos beiços pintados, tendo partilhado outrora o luxo dos dias áureos de Rogério. Parece que tinha combinado cruzar com ele ombro a ombro, essa tarde, toda a revoada de doidas sereias avivadas de chic! — Primeiro Laura, a condessa, uma soberba rapariga que explorava um club de velhos, e era gozada por ações. E as mais: Anita, que surpreendendo a primeira sombra na face, ia casar com um judeu capitalista; Hermine, o vampiro, de cujo leito fosforejavam as monstruosidades dos haréns da Ásia; Luíza, alta, morena, sã, com os seus eternos grandes sapatos de homem, e os seus modos decididos de comis-voiageur... E o pobre autor de preocupado, nem reparava no espanto e na comiseração com que o fitavam. Uma patifaria sem nome, quererem voltá-lo contra Alcina, rapariga de talento afinal, cuja carreira difícil ela percorrera toda, sem auxílio nem reclame! Doida, boa, sincera demais, e por isso mesmo enganada sem rebuço. Ei-la aí na celebridade, chegando ruidosamente ao pináculo, musa de um grupo de artistas. Promover-lhe a queda, expulsá-la do primeiro teatro — que negra infâmia pretendia então a outra dele? Chegara ao jornal do Lindoso sem dar por isso. Subiu. Inda não tinham saído das repartições, e a redação estava deserta.
— O senhor Lindoso, disse Rogério para o gerente.
— Primeiro gabinete, à esquerda.
Estava lá. Ora viva! disse Rogério.
— Sei a que vens. Não posso pagar-te inda hoje. Sê benévolo uns dias mais. E volubilmente: — Então sabes? Os constituintes venderam-se. Estou aqui a rachá-los de meio a meio. A que chegamos! E mostrava os linguados escritos — Lisboa vai ver o bom.
— Eu cá, disse Rogério, vinha para outro negócio. Janta hoje comigo. Tenho lá baixo um trem.
— Demônio! pois sim. Ao Central?
— Em minha casa. Descobri uma cozinheira incomparável. Pulquéria se chama. Então a mais acrisolada ciência nos molhos! Tenho um Murilo no quarto, que outro dia, sentindo o olor de um bacalhau confeccionado por ela, saiu à casa de jantar aceso em fome.
— Raio de cozinheira!
— Vens daí?
— Dois minutos para terminar a demolição de um partido político. E como se porta na lebre ensopada, essa tal Pulquéria?
— Nisso então! Imagina um destes acepipes tenros, alpestres, perfumados, estranhos... A pastoral de Beethoven com tubaras de recheio. Homem, no Algarve estava um defunto no esquife; vai ela, chega-lhe às ventas carneiro com batatas — e o morto pega a bailar no meio da casa.
— A caminho, fez o outro espicaçado pela fome de quarenta cães sem dono.
A casa de Rogério era perto, e em dez minutos faziam eles a sua entrada no escritório. Rogério fechou a porta da escada e meteu a chave na algibeira.
— Ah diabo! exclamou Lindoso com uma palmada na testa. De todo me esqueceu falar da tua peça. E que tinha planeado uma coisa magnífica! Artigo para o público, está claro, coisa de arrombar aí tudo. Entre nós, franquezinha. Deves deixar o gênero: o teu drama, aqui para nós, era quase infantil.
Rogério, surpreso, nem falava. Que exuberância de malandro! pensava ele.
— Nem admira, continuou Lindoso. Tu, o que há de mais moderno no estilo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cais agora na monomania de fazer viver sobre a cena os assuntos históricos!? Primeiro, não és um erudito. Segundo, não tens a corda dramática. E olha que influi alguma coisa, a gente não se chamar Walter Sccot ou Shakespeare, menino.
— Sopra-te o vento de outro lado, esta manhã, tornou o dramaturgo com os beiços brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre a Alcina...
— O artigo para amanhã é superior. Vais ver que maravilha de análise e graça humorística. A sagacidade do Taine na forma irisada do Wolf. Ah, meu caro Rogério, meu bem! Ponho a Veledo em picado. Dez anos de luta, e regeneramos o teatro português.
— Trazes o artigo?
— Vou ler-to. Ficas assombrado. — Mas onde foi ele buscar este vigor de linguagem, este conhecimento do assunto, esta chuva de sarcasmo e pedras preciosas? dirás tu. Ah, Rogério! Nasce-se.
Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe sinal para que lesse. O artigo era uma catilinária hábil, gradual, bem deduzida, e feita com esse sarcasmo sereno, quase límpido, de quem não receia lhe tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a evolução rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o destino e o nível filosófico. Caía em seguida sobre os atores, no tom desdenhoso de quem trata subalternos — e uma vez ali, tocava na Veledo. Desde esse instante, uma fúria explosiva no artigo, e as ironias eram um crivar de balas no corpo de um fuzilado. Segundo ele, não era possível mais tolerar sobre a nossa primeira cena, uma atriz cheia de artifícios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e não tendo mais a voz maleável, nem vivaz o gesto, nem a pose esculpida na proporção da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida, tola, velha, quase feia...
E no final, em palavras metálicas, entusiasmadas, relampejando fundos de apoteose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo na arte, subindo tocado de flamas, com a grandeza de uma redenção pronunciada de há muito, pela crítica imparcial...
— Admirável, hein?
— Pois sim, fez Rogério retesando as pernas. Quanto ganhas tu por essa canalhice?
O outro, embasbacado! Quanto ganhava?
— Ora essa! Eu não trafico com o sacerdócio. É convicção.
— Sabido! O artigo de ontem trazia as tuas iniciais. Publica o de hoje com o nome todo; tens dez libras.
— Hein?
— Somente onde estiver Alcina, porás Veledo, e onde Veledo, Alcina.
— Que quer dizer toda essa cantiga?
— Nada de cenas. Entre pulhas, o descaramento é a alma dos negócios. Dez libras para virares de opinião. Recusas? perdes o dinheiro e quebro-te as costelas. Tão certo!...
Lindoso fizera-se verde, queria-se erguer, não podia; e tudo era olhar para a porta, calcular a retirada.
— De maneira que o teu jantar era isto? E a cozinheira Pulquéria... Traste!
Rogério não respondeu.
— Mas tu? a ferro e fogo com a Veledo, porque te voltastes à última hora? Arranjos! A corja que se entende e se harmoniza.
— Faz as emendas que te disse, tornou Rogério docemente.
Mas o desenterrado hesitava.
— Com quem imaginas tu que estás falando? aventurou-se ele a perguntar.
Rogério agarrou-o pelo pescoço, como as cozinheiras fazem aos gatos lambareiros. — Anda! Senão desfaço-te! Senão atiro contigo da janela!
— É violência. Protesto! ganiu o desenterrado debatendo-se. Mas a voz de Rogério rebentou num estampido.
— Olha que eu estrangulo-te. Escreve!
Fez-lhe pegar na pena. — Emenda! — E roxo de asfixia, cianosado, humilhado, escorrendo suor, o outro emendava. Rogério agarrou no artigo, leu tudo minuciosamente, e inda apontou um ponto ou outro para Lindoso corrigir — Agora assina!
O miserável em soluços, arquejando horrivelmente, assinou.
— Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogério ria freneticamente.
— Amanhã peça nova, ajuntou ele num sarcasmo tranquilo. Quatro atos de Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina lá vai enrodilhada num papelito quase de comparsa. O melhor papel para a Veledo! Ela que até agora só fazia os pesados centros dramáticos, Joana a doida, a Mulher que deita cartas... entra numa fase nova, quer mostrar que conhece a escola moderna. Eh! Eh! que diz a isto o cintilante Lindoso? O público tê-las-á na mesma noite, as duas, face a face. Ele é imparcial. Julgará.
E enquanto a raiva branca epileptizava o outro — Amanhã os jornais saudarão a eminente atriz, pela pena dos mais festejados escritores. E na noite da peça, enchente à cunha, bilhetes a libra, uma chuva de coroas. Ah, desforra estrondosa! Triunfo como ninguém viu outro! E alcançado por mim. Não que eu admire a Veledo. O que escrevem contra ela é verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de canalhas vendidos, a começar por ti.
— Sim! Ainda ontem a querias derribada, essa Veledo, já hoje lhe advogas a vitória. Quanto paga o brasileiro por esse entusiasmo? És dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver de expedientes. Eu cá fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem pão muita vez, oito dias num quarto alugado, oito em outro, expulso quando não tinha com que pagar, desempregado, mal visto, esbarrando com a antipatia de toda a gente. Queriam no meu porte a nitidez de um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogério, inflexível, chamou o criado.
— Isto ao jornal.
— O jornal não publicará, disse Lindoso.
— O teu não. Mas o meu... Agora vamos a jantar.
— Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta! — Era quase noite.
— Não. Dormes cá hoje, tornou Rogério.
— Vou gritar, nesse caso.
— Hum! Não cairás em semelhante tolice. Ao primeiro berro, amordaço-te, e passas a noite numa camisa de forças.
— Mas isto é inaudito!
— Creio que sim.
— Hei de tirar uma desforra.
— É da ordem.
— Mas quando me deixam sair então?
— Quatro da manhã. Hora em que a tiragem dos jornais está toda feita. E coração ao largo, anda jantar. Conversaremos como bons camaradas. Isto aqui não é agora nenhum cárcere; podes circular pela casa toda. Hein? Não me arreceio das gavetas: vendi as pratas, e não há vintém por cima das mesas.
— E prometia-me dez libras, isto!...
 Quem hasteava a Veledo era um grupo de escritores de pulso (como então se dizia) feito do pai nobre Tibúrcio, critico Borbas, festejado Peres, Rogério, Moreira das mágicas e os inimigos de Alcina. Uma espécie de cenáculo, que receando a decadência da cena, se impusera alumiar o gosto da turba, com a luz dos seus talentos conspícuos quanto experimentados. Esta tropa de maçadores, quase todos carecas, decidira por dique à sedição de Pirralho e Lindoso, criando o Binóculo, semanário que definiria a missão do teatro, pondo em relevo as regalias dos autores, e encarregando-se de catalugar os comediantes pela ordem e gênero dos méritos que patenteassem: quem havia de ser o primeiro, quem havia de ser o segundo...
A convite de Borbas tinha-se o conclave reunido numa botica da rua do Amparo, com pena e tinta para tracejar das resoluções adotadas. E houve logo disputas sobre o título da folha. — O Binóculo, dizia festejado Peres. — Arte de Talma, opinava pai nobre Tibúrcio. — Diabo Verde, era o parecer do Moreira das mágicas. Porém Borbas, um autoritário que tinha o culto das civilizações antigas, disse logo: O Capitólio! Cada qual então pediu a palavra a fim de justificar o seu título. Engalfinharam-se uns nos outros, à descompostura. Como estava vivo de véspera o artigo de Pirralho exaltando Alcina, urgente se tornava fazer sair resposta bem oficial, bem da mestrança, que trancasse as doutrinas da escola avançada. Suspensa a sessão por vinte e quatro horas, cada um foi estudar para casa o que havia de escrever no jornal, com promessa de assembleia no laboratório da botica, ao dia seguinte.
No outro dia, ei-los de volta arrastando as passadas, beiços lívidos, olho morto, tendo perdido a noite sobre os melhores autores. Vários, seguidos de galegos, tinham feito conduzir anos inteiros da Revista dos Dois Mundos. Borbas, em casaca e tira branca, solene, convencido, radiando uma vasta autoridade, apareceu com a sua resma de apontamentos. Aberta a sessão, palavra a um, palavra a outro, combinaram-se notas, organizou-se o plano de ataque... resultado, duas colunas de sandices e a ideia do jornal posta de banda. Foi o momento de Rogério fazer a sua entrada na sala. Inquiriram todos: então? — Era na manhã sequente à detenção de Lindoso.
— Sanou-se tudo, ganhamos, exclamava o dramaturgo num júbilo. Lindoso nosso. Vem o artigo na Gazeta do Sport.
— E viva!
— Quase todos os jornais falam da Veledo em quatro colunas e cinco. Grandes letras, títulos de arromba... Um gênio! A primeira trágica da Europa. Continue progredindo...
Já vinte mãos cresciam ávidas para os jornais que ele trazia.
— Venha de lá isso. Venha de lá.
Estendiam as folhas por cima da mesa, tumultuosamente, vangloriando-se dos artigos como de obra sua, dizendo alto as passagens flamantes. Gritava um:
— Isto soprei eu ao articulista. Outro:
— São as minhas ideias escritas e escarradas.
— Escarradas sobretudo, insinuava um terceiro.
Nenhum deles escrevera uma vírgula, mas procuravam enganar-se, dizendo: — é como se os artigos fossem escritos por nós, visto que demos a substância.
— E pagos por mim, suspirava Rogério arruinado, autor e vítima do triunfo que eles se atribuíam. Mas Borbas, esfregando o nariz como um botão de campainha, rosnava com entonos de leão:
— Tiveram medo. Inda valho alguma coisa.
D. Maria, essa noite, oferecia o mais bizarro e pitoresco aspecto. Uma fúria revolvia a turba na plateia; havia conclaves pelos cantos, palavras altas; gestos doidos saíam dos grupos, acentuando alguma afirmativa audaciosa — e os decididos declaravam que havia de ir tudo raso! Já os informadores de jornal, correndo os olhos pelos camarotes, de carteira aberta, tomavam nota dos nomes e toiletes. Aqui e além, pelas ordens caras, faziam-se ruídos vagos, arrastar de cadeiras, risinhos cantados de senhoras: um bournous desacolchetado no fundo de uma frisa, distraía súbito as palestras, e luminosas espáduas gotejadas de diamantes, vinham à luz do gás espanejar brancuras exóticas de magnólia. Toda a galante guarda de semimundanas, destacava pelos lugares de honra, os seus estapafúrdios couraceiros, todos os tipos, trajos e cores de cabelos. Laura a condessa, em pelúcia verde pavão e rendas pretas, tinta de louro essa noite, punha um boné de penas delicioso. Luíza em escarlate, bordada de vidrilhos, admiravelmente grande e bem feita, dir-se-ia brotar de um cato com a rebeldia de um gênio de volúpia e ruína. Hermine, de damasco branco, decotada até ao ventre e coberta de gerânios pálidos, soberba de carne, divina, afixava o seu riso de bacante, vago, inquietador, sem ponto de mira, como essas estátuas e Egino que riem ceifando cabeças.
O sport era feito de figuras baças, estranhas, espigadas, bonitas algumas, e com um tom de elegância doentia. Uma espécie de figurino geral corrigia os tipos, dava o ritmo dos cumprimentos trocados, parecia decretar do entono da pronuncia, e haver estereotipado das bocas, o mesmo modo de rir altivo e frio. E apontavam-se as figuras salientes — o marquesito de Selmes, imberbe, louro, quase ideal, com vícios perversos e um jeito cínico na boca de querubim: tão predestinado a gomoso, que apenas parido, entrara a pedir cognac e vinte libras, a fim de se abalar chez Tata. Junto dele, o visconde de Palhalvo, de crânio em pêra, com bochechas imensas que lhe esmagavam a boca e o nariz, mostrava nos olhos ternos, gênero carneiro morto, a todas as ricas herdeiras, o seu jovem coração devoluto. Alberto M., poeta insonso, tortulho último da época romântica, muito estimado nos salões, e causador dos mais finos adultérios, debruçava-se todo para uma viuvita loira que vinha de aliviar o luto. E a falange alegre das ceias nos gabinetes do Mata e do Augusto: mulheres fugidas aos maridos, atrizes sem teatros, filhos de banqueiros, vergônteas fidalgas afundando os últimos contos de uma antiga opulência, médicos em voga, personagens alvares vivendo à sombra de um nome de família, janotas pagos por uma velha.
Barão de Murtede tinha-se instalado mais a francesa, numa frisa de boca, mesmo em face da esposa e das filhas, que estavam ouvindo contar ao Alfredinho torto, o Alfredinho dos cotilons, uma cena de sopapo nos corredores de São Carlos, por causa de não sei que bailarina americana. A francesa, muito desengonçada, de olhos pardos, irritante de magreza, quase diáfana, coberta de sinais postiços, ouvia-lhe distraidamente uma tolice qualquer, abrindo e fechando o leque, com as suas mãos cobertas de pele de Suède, que rescendiam heliótropo. A espaços:
Oh, que c'est charmant! Oh, que c'est charmant!... e fitava com provocação a frisa fronteira, de onde a Baronesa de Murtede fazia olhinhos doces sobre um delegado de barba sedosa, um velo vaicharel da Veira, recém-chegado à corte, que a comprometia na plateia, à vista de toda a gente. Em outra frisa, ao fundo da sala, as Simas, mãe e filha, davam audiência, antes de subir o pano, a uma multidão turbulenta e esfaimada de viveurs. De longe, Hermine lhe fazia sinais, afixando à sala a sua familiaridade com senhoras daquelas; enquanto mais circunspeta toda rigorista no seu programa de senhora, Laura, apenas de leve respondia aos cumprimentos que elas de lá lhe mandavam, por entre macaquices de beijos, nas pontas dos dedos. Na frisa das Simas, aquela noite, era uma algazarra de meter medo; tinha-se instalado ali o quartel general da má língua, e o centro expedicionário das frescatas para depois do espetáculo. A mãe, uma gorducha quase nova, com dentes chumbados na frente, e o céu da boca de platina, branca, míope, dando-se um tic de pálpebras muito impertinente, esposa de um general, e sobrinha, dizia-se, do senhor D. Miguel, tinha começado vida na melhor roda lisbonense, entre os esplendores das festas e a convivência das grandes famílias. Hábitos de grande vida, tão funestos às pequenas fortunas, deram-lhe com a casa de bancarrota em bancarrota. Já por fim, elas mesmas faziam a cozinha, e cortavam os seus vestidos de sair, convidando as amizades a um chá, todas as terças-feiras, com piano e castiçais de cristofle, num casebre apalaçado ao Bairro Alto, em cujo rés-do-chão, por sinal que viera instalar-se uma tipografia socialista.
Para vir a casa delas, em princípio, inda era de rigor ser-se apresentado — mais tarde, o general, intercedido, fez concessões, como era bom homem... pedia então sua meia libra, dez, quinze tostões, e a cada conviva, além do chá, revertia o direito de tratar por tu a dona da casa. O general fora rico em solteiro, o jogo porém tinha-lhe comido tudo, e a mulher esbanjara-lhe o resto. Uma filha mais nova, Fernanda, toda mimosa na sua figurinha etérea de Gretchen, inda chegou a ser pedida em casamento, mesmo assim pobre e mal educada, por um guarda-marinha que, a adorava, e depois a repudiou, sabendo a vida crapulosa da mãe e da outra irmã. Desolada, e desconhecendo outro caminho que não fosse o da sua singela honestidade, sem vocação para cocote, e sem coragem para costureira, a pobre pequena atirou consigo ao fundo de uma cisterna que havia no pátio.
Entanto, já a vida as apertava de urgências, dia a dia insaciáveis — o luxo de um lado — do outro lado a penhora — do outro ainda o general... em termos que a mãe, tomando as rédeas da casa, durante o delirium tremens do marido, entrou a dar bailes de máscaras no casebre armoriado, abrindo as suas portas a toda a casta de rodilhões e torpezas. Ali debutaram muitas raparigas na vida galante, costureiritas que os devassos encomendavam à mãe Simas; filhas de pequenos empregados, que entravam no baile em musselina branca, sem brincos, nem colar, acedendo ao apelo de uma amiga de colégio; noivas que vinham ganhar o enxoval de casamento, numa prostituição secreta e cheia de rancores; espanholas retiradas da má vida, por algum amante que as desejasse gozar mais por detalhe... algumas ingênuas, lindas algumas, e outras simplesmente irritantes, pela virgindade física que traziam, esculpida em desejos, mal sazonados ainda, nos meios limões eréteis do peito.
Durante o dia, era frequente encontrar-se a mãe Simas por todas as ruas da cidade, ofegante, enrodilhada no fundo de uma tipoia, fazendo adeusinho aos caixeiros, rindo para os ociosos das tabacarias, apeando-se à porta de todas as escadas sem guarda-portão. Ia em serviço. — Até à noite, até à noite, dizia ela, apanhando as saias a molhe, por baixo de cujas barras, não raro badaleavam penduricalhos de lama imunda. E esquecida da mala por todos os cantos, voltava atrás, esbarrava num taipal, ouvindo sem pestanejar, no seu aplomb de condessa, os apropósitos mais desavergonhados...
Dentro de pouco, a casa foi criando fama, pelo expedito das suas encomendas e gosto fino das suas requisições, criando fama sobretudo na província, no Brasil, e por essas possessões da África, de onde anualmente chegam a Lisboa, os mais tenebrosos, os mais acerbos apetites de homem, recalcados na solidão, e centuplicados de força pelos delírios cor de absinto da abstinência. À crônica da casa mesmo, no livro de ouro dos escândalos mais recônditos, tinham vindo jungir-se muitos nomes da nobreza, sangues de mil castas, fibrina dos Gamas, matéria corante do mestre de Aviz, soro e sais de Nun'Álvares, Miguel de Vasconcelos, ou algum sapateiro da Bairrada — todas as elegantes ociosidades patrícias e dinheirosas, que por Lisboa entretêm o fogo da luxúria, nas saturnais noturnas da cidade baixa. A polícia, tão meticulosa para com outros gineceus de menos alcandorados brasões, guardara sempre ante o alcouce das Simas, um misterioso receio enastrado de deferência, alguma coisa como a proteção da lei aos grandes monopólios. De grandes personagens se dizia, que nas dobras de uma capa andaluza, altas horas, ali vinham beijar, entre duas taças de Champagne extrasseco, veludosas covinhas de barba, divinas de mocidade, surpreendentes de frescura, pacientemente rebuscadas, negociadas, catequizadas, pelas Simas, mãe e filha, durante uma alcovitice de semanas e semanas; através dos viveiros mais bem fornidos de caça, bairros pobres, casas de modista e bastidores. Os melhor informados, frisavam precisamente, as jerarquias e nomes dos grandes fregueses, apontavam os cocheiros de noite, muito em segredo comissionados para este serviço desonesto; e outras histórias lúgubres... gritos de virgindades laceradas, rumores surdos de lutas no sossego trágico da casa, sombras correndo em negro, de cabelos soltos, na brancura dos stores iluminados por dentro... Até de uma vez... enfim, a instituição das Simas, entrada nos hábitos lisboetas, fazia-se agora tão necessária à cidade como os albergues noturnos ou a Escola Politécnica. 
Farejando a sala, o frequentador habituado, teria podido adivinhar uma espécie de plano de campanha na ordenação dos espectadores da plateia, plano sábio traçado por algum grande claquista envelhecido nas barafundas do proscênio. Cada ala de fauteuils tinha o seu chefe. Ao pé da cadeira de um espectador indiferente, viera instalar-se um espectador comprado. Nas primeiras filas, destacando a sua linha temível de luvas brancas e faces terrosas, instalara-se a escola que protegia a Veledo, na pessoa de dez ou doze escritores cambados, e uma tropa de conselheiros e velhotes de bom tempo, por cujos leitos a atriz espargira os perfumes talvez do seu banho matinal. Festejado Peres e Moreira das mágicas, inquietos, encasacados, cavaleiros de Cristo, profusos de adeuses e abraços, tinham-se postado às portinholas da sala como duas fuinhas, passando palavra aos que iam entrando, distribuindo poesias, pedindo aplausos descaradamente. E ao passo que o brasileiro cuidava da ceia, com profusão de flores e filarmônicas, Rogério levara ao Montepio os últimos penhores que pudessem pagar um brinde a essa mulher que o entontecia e deslumbrava. No momento de descer a escada da Veledo, ainda o dramaturgo estava decidido a romper com ela. Porém cá fora, a sua índole cobarde, amolecida de desejo, perdidos uns restos de pudor, tinha concebido possuir a todo o transe aquele belo corpo de espuma e rosa, custasse o que custasse, uma só noite que fosse — e assim organizara a reunião de críticos no laboratório de farmácia, a detenção de Lindoso, o chuveiro de panegíricos em todos os jornais, e enfim a bela enchente daquela noite. A imaginação de Rogério fora de tal ordem e presteza, que Pirralho e os adoradores de Alcina apenas tinham encontrado cadeiras nas últimas filas, e camarotes das últimas ordens. Desterrados para tão longínquas paragens, perdidos por escaninhos tais, fácil seria sufocar a pateada que eles intentassem. Lindoso, desacreditado pelo artigo dessa manhã, não tinha julgado prudente aparecer. Pirralho voltara-lhe as costas, os amigos de Alcina ameaçavam esbofeteá-lo em público. Já o calor aljofrava as calvas susceptíveis, e as asas dos leques, por centenas, faziam no âmbito como um burburinho de pombal.
À hora de subir o pano, o triunfo negociado por Rogério era coisa decidida ou quase; e os ânimos pareciam propensos a vitoriar, mais uma vez, a nossa primeira atriz. A peça, retalhada a diálogos cintilantes, era alguma coisa no gênero Sardou e Dumas filho, estapafúrdia como senso dramático, mas irritante de ironias e perfumada de gentilíssimas graças — um adultério desculpado por teorias de folhetim, em cuja imoralidade ninguém fizera atenção. Nessa comédia, toda sublinhada com uma rara finura, esfuziando os paradoxos por jorros e as mordacidades por turbilhões, sem entrecho quase e profunda não obstante, combinando argúcias de gentil-homem com saídas de garoto, imagine-se o que faria a Veledo, quase gorda, chegada aos quarenta, com gestos atufando-se na plástica sólida dos braços, e não possuindo já a nervosa vida de cena, inspirativa, momentânea, nem já podendo facetar pelos entonos da voz, as mil intenções e sutilezas de diálogo, de uma peça toda intelectual como aquela. Em compensação, as toiletes de rigor, os cetins roçagantes, os pufs destofo adamascado, bordados de flores, plumas, franjas e peitilhos de contas, iam direito à fascinação das burguesas. E apenas ela apareceu, foi na sala um burburinho atufado — sss... sss... — alguns tacões bateram ainda, e houve nas torrinhas um bocejo em voz alta, intencional. Mas estava calculada a reação. De vários pontos, súbito, ao mesmo tempo, saíram palmas destacadas, quatro ou cinco vezes gritando: — bravo! — e uma formidável salva revoou no teatro, louca, ensurdecedora, como nunca se vira. Vibrado o centro emocionável da turba, podia a peça ter corrido como quisesse, bem, mediocremente ou mal; o resultado tinha de ser uma vitória. Foi assim que no segundo ato as chamadas eram já tantas, que Veledo fatigada, resolveu, desmaiar em cena. As flores enchiam completamente o palco e choviam sem conta dos camarotes. De pé nas cadeiras, debruçadas lá cima das torrinhas, centenas de figuras batiam as mãos; e Rogério achando ainda uma centelha dos juvenis entusiasmos de outrora veio à cena oferecer-lhe um volumoso cofre de sândalo.
Disse-lhe rapidamente: — a peça nova fez sucesso. Cumpri a minha promessa. Espero não esquecerá a sua.
— Obrigada, disse ela, estendendo-lhe a mão, e a sua voz comovida, dir-se-ia flutuar num lago cérulo de promessas de amor.

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