terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Promessa (Conto), de Humberto de Campos


A Promessa

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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CAPÍTULO I

Foi um alvoroço na vila quando se soube que alguns rapazes do lugar haviam sido sorteados para o Exército. Há meses, andara por lá, tomando nota dos nomes, um capitão, que levara o endereço de todos; e ninguém se lembrava mais dele, nem da sua farda, quando chegou aquela notícia, alarmando as mães, afligindo as noivas, mas entusiasmando, ao mesmo tempo, a mocidade vigorosa da terra, atingida pela convocação.

— No tempo do Paraguai — diziam os velhos, cachimbando monotonamente à sombra fresca das latadas, — o remédio era o mato. Ou, então, passar o facão na mão direita e cortar uns dois dedos para não puxar o gatilho.

E enumeravam-se os que, por esse modo, haviam fugido ao recrutamento:

— Foi assim que escaparam o Bernardo Viúvo, o Joaquim André, o defunto Casimiro, o defunto Rogério e o falecido Manuel Simeão, pai de Sotero Boa-Vista.

A contribuição humana lançada, de chofre, sobre a vila do Araçá, era, porém, de molde a não permitir deserções. Nada menos de oito rapazes tinham sido chamados ao serviço das armas, para o qual todos se apresentaram sem temor ou constrangimento, antes com alegria, com vivacidade arrogante, como se esperassem de há muito aquele apelo ao seu brio patriótico. Para festejar o acontecimento, foi formada, na véspera da partida dos conscritos, uma passeata, que percorreu as quatro ruas do lugarejo, puxada por uma banda de música. Oradores fizeram-se ouvir, concitando aqueles conterrâneos à prática de atos heroicos, elevando o nome da sua vila natal na disciplina dos quartéis e nos campos de batalha. E, na manhã seguinte, metidos na sua melhor roupa de cassineta ou de brim, montando os melhores cavalos do município e acompanhados por numerosos cavaleiros amigos, os rapazes partiram a galope, a fim de tomar o trem dezoito quilômetros adiante, com destino à capital.


CAPÍTULO II

Entre as mães que ficaram chorando, nenhuma, porém, chorava tanto, como a velha Maria Inácia, mãe do João Vicente. Pobre, vivendo menos do trabalho do que do amor daquele filho, era ele tudo na sua vida obscura. Quando o capitão passara pela vila, tomando o nome aos rapazes, tinha ela mais uma filha e um filho. O filho havia morrido e a filha casara-se. E, a partir desse dia, João Vicente, o mais novo, se tornara o seu tesouro e o seu mundo. Era um rapagão forte, claro, vistoso. Alegre e brincalhão, passava as noites em festas e serenatas, fazendo sonhar as moças do lugar. Exímio tocador de violão, não havia noite de lua que ele não a atravessasse acordado, indo cantar e tocar, com outros, companheiros de infância e de mocidade, nas proximidades dos prédios em que havia raparigas bonitas. E os dias, passava-os em casa, ajudando a mãe a tratar da chácara pequena, ou a ensaiar modinhas chorosas para as distrações boêmias da noite. Por isso mesmo, por vê-lo criança, infantil, aos vinte anos, era que a mãe sentia mais a sua falta. Pessoas amigas haviam-lhe dito, que, tratando-se do filho único, lhe seria fácil conseguir a sua dispensa do serviço militar; de tal maneira, porém, o João Vicente se opusera a essa ideia, ameaçando até de a abandonar na sua velhice sem arrimo de coração, que a mísera se viu na contingência de sufocar o choro da alma, deixando-o partir, animoso, galhardo, risonho, entre as palmas das moças, e o soluço comovido das outras mães.


CAPÍTULO III

Seis meses tinham decorrido após a partida do Araçá, quando chegou ao quartel a ordem de aprestar o batalhão. A rebelião no sul havia estalado, assumindo proporções inesperadas pelo governo, e reclamando a remessa, para a região conflagrada, de novas unidades militares. Vários regimentos haviam sido já dizimados, de um lado, e de outro. Os feridos enchiam os hospitais, pondo um forte cheiro de sangue na atmosfera.

E o batalhão partiu.

Doze dias depois, estavam as forças de que era um dos componentes acampadas nas vizinhanças de uma pequena cidade do interior, na zona de guerra, quando o João Vicente recebeu, com a sua companhia, munição de combate. Em torno do corpo, nos bolsos do cinturão forte, os cartuchos punham um peso novo, que, no entanto, pouco o afligia. E eram nove horas da manhã quando o batalhão, após uma pequena marcha de dois quilômetros, teve ordem de desalojar os rebeldes de uma trincheira, entre o serrote e o rio. Sob a fuzilaria do inimigo, e, principalmente, sob o fogo de uma metralhadora mascarada por um monte de pedras, o batalhão investiu, a peito descoberto. Dois companheiros ficaram no chão, feridos. A uma ordem de comando, os soldados deitaram-se, e começou a avançada lenta, morosa, ventre na terra, o queixo arrastando na grama, avançada de répteis, de animais coleantes, cuspindo fogo pelo cano escuro dos fuzis.

Dentes cerrados, olhos ardentes, a mão crispada na arma, carregando-a e descarregando-a continuamente, João Vicente avançava, palmo a palmo, sob o fogo do inimigo. À grande fila que se formara no instante da investida tornava-se cada vez mais curta e mais rala. As balas zuniam sobre a sua cabeça como uma agulha diabólica, que costurasse a atmosfera. Se olhasse para trás, para o caminho percorrido de bruços, desanimaria, talvez, ao ver o campo semeado de corpos, — uns estorcendo-se sob as dores dos ferimentos, outros paralisados, já, pela morte instantânea, os olhos vidrados, a boca escancarada, golfando sangue. João Vicente não sabia, porém, naquele momento, se tinha companheiros, ou se avançava só. A metralhadora estalava na sua frente, como a motocicleta da morte. O seu leque de balas varria tudo. Estava ele, mesmo assim, quase a vinte metros do monte de pedras. Mais dez metros e, se não fosse descoberto, estaria, pela posição, fora do alcance da arma terrível. O suor descia-lhe da testa, cegando-o. Mais cinco metros foram vencidos... Mais três... E outros, ainda. A quatro metros não se conteve mais: abandonando o fuzil, o sabre na mão, deu um salto de tigre, atirando-se, com todo o peso do corpo, como uma bala de canhão, sobre a pilha de granito, que se desmoronou com estrondo para o fosso da trincheira, levando de roldão o assaltante, a metralhadora, e, de mistura, com os blocos de pedra, os dois atiradores que a manejavam!

Calada por essa maneira a arma que mais os hostilizava, os assaltantes, desprezando a fuzilaria, puseram-se de pé e investiram contra a trincheira, rangendo os dentes. E, em breve, após um curto combate à arma branca, em que homens da mesma pátria se retalhavam, se dilaceravam, se estraçalhavam com fúria sanguinária, tomavam os legalistas posse do reduto, onde o sangue coagulado se misturava, repugnante, entre zumbidos de moscas, com dejeções humanas e com a lama da chuva da véspera.

Promovido a cabo, João Vicente tomou, ainda, parte em dois combates e em diversos reconhecimentos. Bravo, calmo, destemido, portara-se sempre, em uns e em outros, a contento do comandante, que lhe havia prometido, já, as fitas de sargento. Não era, porém, mais, aquele rapagão claro das serenatas do Araçá. A barba forte, que raspava toda antigamente, tomava-lhe agora o rosto, envelhecendo-o, dando-lhe os ares daqueles cangaceiros do nordeste, que via passar, às vezes, a cavalo, pela vila, com a faca de um lado, a garrucha de outro, e o clavinote na lua da sela. A vida militar absorvera o boêmio. Era, agora, um soldado.


CAPÍTULO IV

Com a partida dos sorteados, o Araçá era como um organismo que tivesse sofrido uma sangria. Sem as suas festas dos sábados e as suas serenatas das noites de lua, as casas passaram a fechar mais cedo e a abrir mais tarde parecia que aqueles oito rapazolas enchiam, sozinhos, as ruas da vila. Por toda parte reinava uma tristeza de morte.

Ao chegarem à capital, ao quartel, alguns escreveram. E as cartas, ligeiras e simples, passavam de mão em mão como relíquias, que eram. O coração da vila acompanhava-os; até que uma grande emoção a abalou, meses depois, com a notícia de que o batalhão em que haviam sido incorporados, partira, entre festas da população da cidade, para as campanhas fratricidas do sul.

De quantas almas sangravam no Calvário da Saudade, nenhuma havia, porém, como a da velha Maria Inácia, mãe de João Vicente. Desde o momento em que o filho partiu, acendera ela uma lamparina de azeite em frente ao oratório tosco, forrado de azul, onde a Senhora das Dores chorava, o coração transpassado por uma espada. De joelhos, as mãos juntas, os olhos súplices, postos no rosto consolado da imagem, prometera, no arrebatamento da sua fé e do seu temor:

— Minha Mãe Santíssima! vós, que sois mãe, velai pelo meu filho! Guiai-o através de todos os males, preservando-o da morte e dos perigos do mundo! E eu vos prometo trazer sempre acesa, dia e noite, esta luz aos vossos pés!

E dia e noite não faltou, jamais, aquela chama votiva aos pés da Senhora das Dores. Três, quatro, cinco vezes, nas horas de sono, levantava-se a velhinha, no seu xale preto, para examinar se ainda havia azeite no copo e se a pequena rodela de cera e cortiça daria, ainda, até de manhã. Parecia-lhe ao coração alarmado que aquela chama era a própria vida do seu filho e que, se se apagasse, a sua existência se apagaria com ela. E, nesse delírio, redobrava de cuidado, vigiando a chama tímida como se velasse à cabeceira de um enfermo, sob a ronda traiçoeira da morte.

Até que, uma noite, foi um desespero. Fatigada pelas vigílias contínuas, a velhinha adormeceu mais profundamente na cadeira, ao lado do oratório. Quando despertou, madrugada alta, o quarto estava escuro.

— Meu Deus! meu filho morreu!... gritou, num acesso de terror, os olhos arregalados na treva, as mãos tateando, trêmulas, a caixa de fósforos na mesinha do oratório.

A velha criada que lhe fazia companhia acorreu, tropeçando nos móveis, e, riscando o fósforo, reacendeu a lamparina.

— Luíza, meu filho morreu!... O João morreu, Luíza!... gritou, abraçando-se à velha serviçal.

— Sossegue, "nhá" Nacinha! sossegue: não morreu, não! Tenha fé em Deus! — pedia a outra, procurando tranquilizá-la, tendo embora a alma assustada por aquele prenúncio.

A datar desse dia, a vida de Maria Inácia passou a ser uma agonia contínua, entrecortada de preces, diante do oratório. As promessas multiplicaram-se. Até que, uma noite, em um momento de maior aflição, ofereceu, com toda a sua alma devota:

— Minha Senhora das Dores! trazei meu filho são, e salvo, ainda uma vez, à minha vista, que eu vos dou a minha vida!

E com todo o fervor da contrição, num acesso de choro:

— A minha vida pela dele, minha Mãe Santíssima!... A minha vida pela dele!... Mas que eu ainda veja meu filho!...


CAPÍTULO V

Dois meses depois da promessa, e oito da partida dos sorteados, com as primeiras chuvas do inverno, a vila do Araçá se tornou toda festiva, como nas suas solenidades religiosas. No adro da igreja, com os músicos vestidos de branco, a filarmônica esperava o momento de romper com toda a sonoridade dos metais, quebrando o silêncio dos campos vizinhos com um dos seus "dobrados" retumbantes. As crianças corriam pelo capim espontante, molhando os pés nas gotas de sereno, ou da chuva da noite. Comerciantes, fazendeiros, agricultores, trajando as roupas domingueiras, conversavam à porta dos estabelecimentos. É que voltavam ao Araçá, em gozo de licença, quatro dos oito conscritos do ano, que se haviam portado heroicamente em campanha. E, entre eles, já no posto de sargento, vinha, queimado do sol e com os sinais da fadiga no semblante, o João Vicente, filho de Maria Inácia. De repente, um grito:

— Lá vêm eles!...

Na extremidade do caminho, longe, levantava-se uma nuvem de poeira. E, momentos depois, penetrava na praça, de roldão, a cavalhada luzidia dos parentes e dos amigos com os quatro soldados à frente, ao mesmo tempo que, tornando mais comunicativo o arrepio de entusiasmo, a banda de música atacava, com toda fúria dos instrumentos, o "dobrado" mais ruidoso do repertório.


CAPÍTULO VI

Aproximava-se o dia do regresso dos rapazes. Todo aquele mês havia sido de festas, de homenagens aos bravos soldados conterrâneos. E à medida que se escoavam as horas, mais se confrangia a alma de Maria Inácia. O seu coração não se saciava de acariciar o filho. As noites, levava-as acordada, passando-lhe as mãos pelos cabelos, cobrindo-o com o lençol, beijando-lhe a cabeça adormecida. Nos primeiros dias, estava certa de que a Senhora das Dores consideraria uma loucura a promessa que lhe fizera, e a perdoaria. Pouco a pouco, porém, a proporção que se aproximava o dia do regresso, foi a su'alma se inquietando. Prometera dar a sua vida pela do filho, se ainda o abraçasse uma vez. Deus o trouxera aos seus braços, ao seu carinho, à sua presença. Devia cumprir o voto? E, se não cumprisse, Deus não a castigaria no coração, arrebatando-o ao mundo, nos novos combates em que tomasse parte?

Esse pensamento afligia-a. Até que, de repente, resolveu:

— Não, eu devo cumprir a promessa. Devo, sim. Antes eu do que meu filho. E eu resistiria, acaso, à dor de perdê-lo, se o perdesse por culpa minha, por falta minha perante Deus?


CAPÍTULO VII

Os dias que antecederam o regresso dos rapazes à sede da guarnição tinham sido de chuvas torrenciais. Na serra, principalmente, havia chovido muito. E, avolumado pelos riachos da montanha, o rio Araçá rolava agora transformado em torrente, arrastando galhos de árvores e moitas de aninga no turbilhão das suas águas escachoantes. Comprimido pelas ribanceiras, que ia lambendo numa volúpia furiosa de sátiro, fazia vertigem vê-lo. De quando em quando, um ruído cavo alarmava os moradores ribeirinhos. Era a queda de um barranco, de uma barreira da margem, que logo se dissolvia em rodopios, na retorta diabólica daquelas águas.

A viagem estava marcada para as nove da manhã seguinte. Amorosa, meiga, solícita, Maria Inácia passou todo o dia ao lado do filho, extremando-se em cuidados, em meiguice, em desvelos. Beijava-o de instante a instante, abraçando-o com toda a força da sua fraqueza, como se quisesse apegar-se a ele, e não o soltar mais.

À noite houve uma festa de despedida em casa de um dos licenciados. Maria Inácia ficou em casa, ajoelhada diante do oratório, rezando. Pela madrugada, o João entrou. Vinha suado, cansado, exausto de dançar.

— Despe-te, meu filho, e dorme, — disse-lhe a velha, abençoando-o.

Os galos amiudavam. Uma brisa fresca sacudia as árvores, fazendo estalar no chão os pingos da chuva acumulados nas folhas. Pé ante pé, o xale ao ombro, Maria Inácia entrou no quarto do João. Ajoelhou-se à sua cabeceira, beijou-lhe a testa, os cabelos, a mão abandonada para fora da cama. Ergueu-se, tomando o rumo da porta, e, de lá, enviando um último olhar ao filho adormecido, saiu como uma sombra.

À margem do rio, parou, olhando a torrente. As águas gorgolejavam sinistramente lá embaixo, no escuro. Ajoelhou-se, persignou-se, e balbuciou, trêmula, a oração dos mortos. Chegou o xale mais para o corpo magro, num arrepio. E, fechando os olhos, deixou-se rolar, como um fardo, pelo declive da ribanceira...

Só dois dias depois, três léguas abaixo da vila, entre duas pedras, foi pescado o cadáver. As mãos, que tanto haviam rezado, tinham sido, já, devoradas pelos peixes.

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