sábado, 7 de outubro de 2017

Decapitada! (Conto), de Delminda Silveira


Decapitada!

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era linda aquela borboleta azul com suas grandes asas cetinosas, iriadas como conchas de madrepérola!

A trombazinha graciosamente enroscada como um estame de flor, os olhos salientes, amarelos, diáfanos como contas de cristal raiado de ouro.

Pousada sobre o verde, levemente agitando as asas brilhantes, semelhava uma rara flor azul a desabrochar!

Oh! Quanta era linda aquela flor do espaço a repousar na terra!

Por uma tarde estiva, eu a vi a debater-se de encontro aos vidros da minha janela que dá para o jardim. Por cima, a trepadeira em flores estendida pelo telhado, debruçava-se em vergônteas floridas. Sem dúvida a borboleta viera ali atraída pelo aroma das flores. Tentei prendê-la para que não estragasse o maravilhoso tecido daquelas asas ideais, porém, tão desastradamente o fiz, que se desarmando a vidraça, quase decepou a graciosa cabecinha a falena gentil!

Ai! dor!... a pobrezinha caiu moribunda a meus pés!...

Segurei-a... e senti ainda palpitantes aquelas brandas asas tão lindas, — multicores como as conchas de madrepérola; mas as cabecinhas aonde brilhavam os diáfanos olhos de cristal raiado de ouro, prendia, apenas presa por um delgado fio que a brisa para logo quebrou!

Desci ao jardim: ali, sob um arbusto coberto de flores, depositei, em um pequenino jazido, a desventurada borboleta azul, e no plácido recinto, desfolhei rosas e saudades, cercando-o de boas noites, expressivo emblema do meu pesaroso adeus.

O último raio do sol poente foi beijar o tumulozinho da pobre decapitada, e a brisa que dali vinha trazia-me, depois, como um farfalhar suave de finas asas que se debatessem...

Porém o meu coração doído suspirou: — nunca mais!...

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