domingo, 1 de outubro de 2017

Dias de chuva (Conto), de Hugo de Carvalho Ramos



Dias de chuva

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Cai a chuva lá fora. Plac! plac! ouço-a cantando em goteiras e cornijas, no cimento molhado da rua e nas vidraças embaçadas do meu quarto. Não sei por que, vendo o borraceiro descer, o espírito embebe-se-me em doce e longínqua rêverie.

Vejo, através duma tela úmida as paisagens distantes de meu torrão natal, e afaz-se-me a que ando viajando, como antigamente, por esses sertões, sentindo sob o pala de viagem a água cirandar forte, cabriolando e verdascando sobre os serros longes, as saraivadas, ou peneirando grosso, em meio o rendilhado sombrio da floresta por onde vou.

Assim, anos lá vão, cavalgava eu por essas estradas ermas da minha terra remota, um macho perrengue de aluguer, ou o lépido alazão Dourado, em férias, rumo do sítio. Dia em meio, casais de araras e bandos de papagaios despregavam dum jenipapeiro qualquer de tapera o seu voo balofo, e passavam alto, em gritaria álacre de contentados; carcarás corriam escrutadores e solertes pelos campos, em surtos rasteiros de carnívoros. O verde das campinas, das orlas de mato longe, quando ganhava a chapada, tinha deslumbramentos intensos de seiva robusta e viva.

E – plac! plac! – arremedando como agora a chuva das goteiras, segue o alazão caminho afora, pelo alagado trilho de argila vermelha, deixando atrás, vincado, o molde de seus cascos ferrados, chapinhando pelo rego das enxurradas, crinas pendidas, cabeça baixa, a resfolegar...

E o aguaceiro molinhando, desce manso e manso, como se uma grande e fantástica mó andasse remoendo cristais pelo céu de cinábrio, e sobre a extensão imensamente esmeralda daqueles desertos rincões. E chupitando a fumaça de minha cigarrilha de palha, sob o pala quente de viageiro, sigo eu, cabeça baixa, desengonçado na sela, num grande descaso da borrasca, ruminando planos futuros.

Às vezes, cantavam galos perto, cacarejavam galinhas-de-angola – cocás, – cães latiam dos currais e porteiras, quando não vinham, esganiçadores e embolados, esfalfar-se até os jarretes do Dourado, em matinadas hostis. Olhava: era um sítio, um morador, por onde passava ao largo. E calculando, pensava: Aí ficam já os Peludos, duas léguas ainda a andar. E agitando as rédeas em abandono no arção, prosseguia, acelerando a andadura do animal.

Dentro em pouco, ficava para trás, escondida nas sombras, no nevoeiro, na folhagem, a silhueta pardacenta dos telhados. A chuvarada continuava aberta, naquele seu grande choro de desconforto, ensopando os campos. Encachoeiravam-se longe, ao fundo, nos plainos baixos, em cujas bordas carreiras viçosas de buritis contornavam capões, as águas marulhentas de regatos perenes. Gaviões, entanguidos, quedavam-se sonolentos e marasmáticos a olhar do cimo desnudo dos galhos secos das encruzilhadas. Nas várzeas umentes de jaraguá, um e outro mestiço zebu passeia pachorrento e indiferente, ao borrifo.

Em torno, silêncio absoluto; muricizeiros abriam-se em flor, nessas primeiras chuvas de outubro, e, com eles, paineiras esgalgadas e pequizeiros copudos dos cerrados.

Numa baixada, transposto o córrego, o caminho internava-se novamente na mata bruta. Aí, a rama superior, densamente fechada, afogava, nulificando-a, o ruído da chuva; apenas um ou outro grosso pingo, escapulindo-se por uma ligeira aberta rasgada no folhedo pelo vento, tombava – poc! poc! – na camada espessa de folhas podres que atapetavam, abafando os passos, o carreiro calmoso. E, indiferente e esquecido do mundo, seguia eu cabisbaixo, numa grande paz e conforto da alma, sob o pala de viagem, ruminando saudades...

Nas beiradas de mato dos barrancos – onde o carreiro se cavava fundo pelo trânsito continuado – marmeladas-de-cachorro ofereciam os seus negros e brilhantes frutos maduros; ingazeiros encapotavam-se no alto; saputás polposos, à beira dos córregos, pendiam, num tom berrante de cores escarlatemente retintas, de frutas sazonadas; e perfumes intensos de baunilha e flores silvestres evolavam-se da mata densa, ao misterioso e secreto entreabrir das corolas medrosas... Um grande ramo pendia às vezes, tomando o passo, emperolado de orvalhada; e o alazão, acaçapando-se, metia a cabeça, atravessando-o a escorrer. E a floresta prosseguia, interminável e profunda, no silêncio eterno da sua solidão.

E, no silêncio eterno da minha solidão, prosseguia, sob o pala, ruminando saudades...

Ah! viagens e passeios antigos, sob a chuva ou a canícula, nos pagos da minha terra! Quão longe e distantes sois!

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