segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O anel do Diplomata (Conto), de Maria Amália Vaz de Carvalho


O anel do Diplomata

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Parecia que vendia saúde... tão forte que era!...

— É verdade! quem o havia de dizer!

— Era uma criança ainda, pouco mais tinha de setenta anos, disse outro que, pela figura e pelo andar trôpego e vacilante, denotava ter os seus oitenta, bem puxados.

— E olhe que era um bom homem! Você não viu como a filha chorava quando o pusemos em cima da cama? Cortava o coração, coitadita!

— E honradinho! Eu sei cá! Poucos se topam por aí com tão bons sentimentos e com cara tão limpa...

— Lá isso!...

— Não, que quem saí aos seus não degenera!

— Era muito amigo da pobreza! tartamudeou uma velha.

— Ó Cristo! era o pai da pobreza, é o que vossemecê deve dizer, tia Joaquina.

— E depois olhe que era o melhor letrado destas oito léguas em redondo.

— Aquilo era um selvagem...

Assim falavam alguns indivíduos pertencentes a diversas categorias da pequena sociedade da vila de X… descendo as escadas da casa do advogado Vasconcelos que caíra mortalmente fulminado por uma congestão cerebral, no momento em que defendia calorosamente um indivíduo que numa alucinação brutal de ciúme assassinara a mulher e dois filhitos.

***

O advogado Vasconcelos morrera pobre, sorte de todos os causídicos de província, que logram vencer, quando muito, por mês, o que qualquer dos colegas de Lisboa e Porto dá aos seus agaloados trintenários.

Filho segundo de uma casa de bom nome na província do Minho, cursava cânones e leis na Universidade, no ano de 1828, emigrando nesse mesmo ano, e vindo terminar o curso mais tarde, depois de ter defendido a causa da liberdade, de parceria com outros condiscípulos, que tão assinaladamente se distinguiram depois na política, nas armas e nas letras.

Depois de formado, recolheu-se à sua vila natal, e não podendo contar com a mesada que o seu irmão lhe arbitrara, visto que os rendimentos da casa mal chegavam para a alimentação e sustento do primogênito, abriu banca de advogado, dependurando de um dos lados da estante de pinho, encimada pela pasta verde e encarnada de quintanista, a lata com os seus pergaminhos de bacharel in utroque, e de outro lado a farda impregnada da pólvora de vinte combates e varada pelas balas dos servidores del-rei nosso senhor, no cerco do Porto.

A formosa irlandesa que o acompanhara no exílio, e que lhe foi denodada companheira nas ásperas provações da vida, morreu-lhe pouco tempo depois, deixando-lhe dois filhos, um rapaz e uma menina.

Tanto um como outro eram educados com solicitude e esmero, que para a educação dos dois não se forrava aquele pai amantíssimo nem a despesas nem a trabalhos.

O rapaz foi para Coimbra, e a menina para o convento das Salésias em Lisboa, de onde recolheu quando o irmão entrava para o primeiro ano jurídico.

— E preciso estudar, Antônio, olha que se eu não tivesse aquelas cartas, tinha de andar a cavar nas hortas do meu irmão, ou de esmolar nas escadas ignóbeis das secretarias um lugar de porteiro ou de amanuense, e isto ainda assim, apresentando como documento dos meus serviços aquela farda.

Não eram necessários estes conselhos. Antônio de Vasconcelos foi sempre um sisudo rapaz, estudioso, o que não quer dizer que aquela mocidade fosse bisonha e avessa às ridentes alegrias dos vinte anos.

Pobre da árvore que ao sorrir da primavera se não estreleja de flores, e em cujos ramos folhudos e a reverem seiva não cantam as toutinegras e não assobiam os melros!

***

Recolhia-se à sua casa, em Coimbra, o rapaz estudante, alegre e contente de si por ter correspondido bizarramente, numa sabatina, ao alto conceito em que o curso o tinha, quando lhe entregaram uma parte telegráfica.

Rasgou alvoroçadamente o sobrescrito, leu e empalideceu horrivelmente.

— Meu querido pai! murmurou, e curvado sobre a sua mesa de estudo deixou cair a cabeça nos punhos fechados. Pobre pai! pobre pai! que me não chegou a ver bacharel!

Na manhã do dia seguinte entrava por casa dentro, ao passo que descia as escadas o caixão em que vinha metido o pai.

Quiseram-no afastar, esconder-lhe aquele espetáculo lutuoso, mas ele resistiu, e abraçado ao cadáver do pai chorava como choram os que de repente sentem que o braço amorável que os guiava nesta vida enfraquece e esfria para sempre, deixando-os na mais desconsolada e álgida das solidões.

Amparado nos braços de um amigo da infância, entrou no aposento em que a irmã pálida e desfeita expedia gritos clamorosos e histéricos.
— Sozinha, repetia a misera, sozinha!

— E eu, minha querida Francisca? Não te lembraste do teu irmão? disse o rapaz engolindo as lágrimas, e fazendo-se forte para dar coragem à desgraçada menina.

Assim no alto mar quando o temporal arrepia e enovela as ondas, e o velame bate nos mastros com o ruído molhado das asas de uma ave que se afoga, e a marinhagem assustada grita e pragueja perante a morte próxima e inevitável, o capitão que tem filhos e esposa, longe numa pequena aldeia à beira-mar, dá ordens com voz tranquila, e comanda a manobra com a serenidade de quem vê perto as águas quietas e espelhadas do ancoradouro.

***

Volvidos alguns dias, desceu o estudante ao escritório. Examinou as gavetas e os móveis, a ver se o pai tinha feito as suas últimas disposições. Não encontrou senão minutas, autos, libelos em princípio, considerações jurídicas.

— Parece-me que o estou vendo! A última vez que o vi, estava aqui sentado e perguntou-me a rir se eu sabia o que era um libelo! — disse o rapaz para a irmã, que o acompanhava. — Respondi-lhe, e ele disse:

— Cáspite! Pois olha, que quando deixei Coimbra não o sabia. A minha universidade foi esta banca. Aqui é que se aprende, deixa lá! E depois tu verás!

Mal sabia ele que eu nunca havia de ver isso...

— E por que, Antônio?

— Por quê? porque estamos pobríssimos. O pai morreu honrado, mas sem recursos. O que nos resta, filha, são umas cinquenta moedas, que a nossa velha Joana juntou com as soldadas ganhas no serviço da casa dos nossos avós, e nesta... casa que é hoje dela, porque é ela que nos tem sustentado desde que nos faltou o nosso querido amigo...

Bateram neste momento à porta do escritório, Antônio de Vasconcelos foi abrir. Apareceu no limiar da porta um lavrador que disse, desbarretando-se:

— Queria dar uma palavra ao Sr. doutor...

— O meu pai faleceu esta semana...

— O quê! E eu que o vi ainda há dias tão forte e rijo! Em nome do Padre e do Filho... É o que nós somos neste mundo... Que Deus o tenha na sua glória, que era um homem às direitas... Então queira perdoar.

E saiu enquanto os dois com os olhares atados um no outro, perguntavam naquela muda linguagem, o que seria deles desamparados e sós naquele temporal, que tão a súbitas lhes escurecera o azul sereno da vida.

***

Alguns amigos do advogado e um pároco daquelas circunvizinhanças, reunidos num sagrado pensamento, ajustaram entre si dar uma mensalidade a Antônio de Vasconcelos, que a rogos da irmã aceitou aqueles adiantamentos como uma dívida que satisfaria mais tarde.

Temos o nosso estudante formado e pronto. Logo que se viu senhor dos títulos alcançados pelo seu estudo e aplicação, foi à vila natal agradecer aos que o tinham tão evangelicamente amparado, e, por conselhos de um condiscípulo, dirigiu-se a Lisboa, onde fixou residência, e entrou a frequentar o escritório de um dos advogados de mais renome no foro da capital.

Ir para a província trabalhar como um mouro, estudar como um beneditino; para quê? O resultado conhecera-o ele, que o exemplo lhe fora mais que manifesto na própria família. Em Lisboa encontraria campo mais dilatado onde desafogar as suas altas aspirações.

O pior seria o primeiro ano e ainda o segundo, mas depois acudiriam os clientes, e o seu nome adquiriria a gloriosa reputação com que outros de menos talento se ufanavam.

— Ao princípio, Francisca, dizia o rapaz doutor, não correrá tudo à medida dos nossos desejos, mas tu hás de ter muita coragem, não é assim? Quando eu entrar em casa, e vir um sorriso na tua boca, verás como me lanço ao trabalho com vontade e com intrepidez...

Pobre criança!

***

Naquela época chegara a Lisboa um indivíduo que fora o mais perdulário dos leões da Lisboa de há trinta anos, e que presentemente ocupava um elevado lugar diplomático numa corte estrangeira.

Contavam-se deste homem excentricidades que fariam morrer de inveja o mais fastiento e esplenético dos lords. Batera-se vinte vezes e por motivos diversos, por questões de jogo, por questões de mulheres, e por questões de política.

Espirituoso, valente e rico, passou pelo mais bem acabado produto do seu tempo e do seu meio.

Agora velho mas sempre original e taful, era estimado por todos, querido nas salas, temido ainda na imprensa e respeitado pelos políticos a quem asseteava com o acre azedume de quem já mourejou nos bastidores da política, e lhes conhece bem os fumosos mistérios.

Estava Antônio de Vasconcelos no Chiado, conversando com um condiscípulo, quando o diplomata se apeou de um trem, e se deteve a conversar alguns instantes com umas senhoras que iam passando.

— Sabes quem é aquele sujeito? perguntou-lhe o condiscípulo.

— Não.

— É Jorge de Alvim. O velho mais rapaz que passeia nesta cidade sorumbática e sorna...

— Esse nome não me é estranho. Foi condiscípulo do meu pai que o estimava e tinha em grande conta, e até se me não engano, queimei uma larga correspondência travada entre aquele homem e o meu pai. A ele pessoalmente não conhecia, mas é simpático.

— E homem de grande influência política.

Neste momento o cavalheiro F. e o ministro L. que passavam, acercaram-se do diplomata e demoraram-se com ele em palestra em que pareciam enlevados.

— Repara tu como eles o tratam! concluiu o condiscípulo de Vasconcelos ao dar-lhe o aperto de mão de despedida.

***

— Sempre me decido, Francisca.

— Pois vai, Antônio, vai que não desonra pedir trabalho e proteção...

— Receber-me-á ele bem?

— Quem te não há de receber bem, tolo? vai que eu fico a pedir a Deus por ti!

Antônio de Vasconcelos foi e falou com o velho amigo do seu pai, Jorge Alvim. Contou lhe toda a sua vida trabalhosa, as lutas obscuras, as misérias que afrontara, descreveu-lhe a nua e triste água-furtada em que viviam, ele e a irmã, as longas e plúmbeas noites mal dormidas, a costura mal remunerada, a dureza dos senhorios.

E no gabinete cheio de conforto e de luxo aquelas palavras tristes, desesperadas e expirantes soavam lugubremente como um grito de agonia nas alegrias de um noivado...

— Vossa excelência não sabia de uma coisa que lhe vou agora dizer. O seu pai salvou-me da morte uma vez no cerco do Porto, eu salvá-lo-ei custe o que custar das... garras da...

— Miséria, disse o rapaz com o rosto ligeiramente carminado.

— Pois seja assim! Começaremos a combater o monstro hoje mesmo. Para isso é preciso que vossa excelência envergue as armas próprias para combates desta ordem. Em vez do arnês, do broquel, das caneleiras e do elmo, aconselho-lhe que se vista com elegância igual à sua gentileza, porque vai combater a fera no salão da mais elegante senhora de Lisboa, e perante a presença das nossas mais acentuadas celebridades políticas e literárias. Até logo, não é assim? disse o velho estendendo com uma graça adorável a mão a Antônio de Vasconcelos que desceu as escadas enceradas com o coração cheio de sol e de alegria.

***

— Não estejas triste, a casaca fica-te bem, não está muito nova, mas ninguém repara. Põe este botão de rosa na casa. E bonito. Aves mesmo um taful — dizia a irmã de Antônio de Vasconcelos recuando e examinando amoravelmente o rapaz.

Depois, com um gesto impregnado de um misto singular de proteção e de doce autoridade, continuou:

— Proíbo-te que estejas com essa cara desconsolada. Digo-te eu que és o mais bonito que lá aparece. Depois mo contarás.

E conversando e rindo num abandono divino e infantil, aqueles dois camaradas na adversidade, edificavam castelos de ventura, esquecidos de que o padeiro naquele dia recusara fiar-lhes mais pão. Oh mocidade!

***
Jorge de Alvim naquele dia parecia exceder-se a si próprio, tão brilhantes eram as suas respostas, tão finas as suas ironias, tão cheias de sal as anedotas com que encantava os conselheiros, ministros e jornalistas que estavam à mesa da elegante condessa de X….

Falou-se em diamantes. Jorge de Alvim desde logo entrou a historiar casos e anedotas a tal respeito. Narrou as aventuras de diamantes que se tornaram célebres pelas peregrinações em que andaram, e assim precisou com uma erudição graciosa a história do Saney, diamante que foi de Carlos o Temerário, e que das mãos deste passou para as de um Duque de Florença e depois para o poder do Prior do Crato, que o empenhou ao intendente das finanças em França, Harley de Sancy, de onde lhe proveio o nome.

— Ainda aqui não para, minhas senhoras, a odisseia desta pedra. Harley de Sancy quando Henrique IV de França antes de ser reconhecido se achou em grandes apuros de dinheiro, mandou vender esse diamante aos judeus de Metz. O homem encarregado de tão preciosa missão, caindo nas mãos de uma quadrilha de bandidos, e receando que lhe roubassem o tesouro que levava, engolira a pedra...

— Ora essa! disse a dona da casa.

— Verdade pura, minha senhora. O cadáver foi descoberto passados tempos no bosque de Dols, e aberto o ventre, acharam o diamante que foi vendido a Jacques I de Inglaterra, de cujo poder passou para o de Luiz XIV.

— E depois? disse uma das senhoras. Não pode parar aí esse longo peregrinar de que vossa excelência está sendo um Fernão Mendes...

— Minto... pois seja assim. O que posso afiançar a vossa excelência é que esta pedra, depois de várias e encontradas vicissitudes acabou por onde acabou a esposa de Menelau... Foi roubada, e hoje para nas mãos dos Russos.

— Justamente o que mais dia, menos dia sucederá ao seu magnífico anel, Sr. Jorge de Alvim, disse a mesma interruptora, dardejando um olhar guloso e felino à pedra do anel...

— E é verdade que é lindíssimo e de apetite o seu anel; deixa-mo ver, Sr. Alvim? disse uma das senhoras que estava ao lado de Antônio de Vasconcelos.

O anel foi passando de mão em mão crivado de admirações e de quentes cobiças...

A conversação tomara outro rumo; era o momento dos toasts, e então Alvim explicou uma usança que lá fora estava agora muito em moda nos jantares da alta vida, a taça da amizade.

Ia a descrever este costume elegante quando a senhora que estava à esquerda de Vasconcelos soltou um grito.

— Ah!

— Que foi? O que foi? repetiram em roda.

— Tinha aqui o anel e desapareceu-me!

Levantaram-se pratos, arredaram-se cadeiras, houve várias conjeturas.

— Estaria aqui? talvez estivesse ali...

E sempre debalde.

Ergueram-se todos, sem cerimônia turbulentamente, como da mesa de um hotel...

O anel não aparecia.

Um dos convivas, célebre no foro, começou a examinar o rosto de cada criado, como quem tenta descobrir o autor de um crime.

— Uma joia tão rica!

— Não está ali por menos de duzentas libras, afirmou um banqueiro.

— Ora, pelo amor de Deus, meus senhores, disse o velho casquilho. O meu anel que julgo não tem ainda por agora aventuras, ouvindo as minhas narrativas de há pouco encheu-se de preceitos, e quis provar aos incrédulos que também lhe estão reservados altos destinos... Vou propor a vossa excelência uma coisa que lhes parecerá excêntrica, mas que me relevarão, já que em Lisboa passo por um ser singular e extraordinário. Aí vai a singular excentricidade que me passou pela cabeça: ao sair desta sala hão de todos deixar-se revistar pelos donos da casa. Rejeitam ou aprovam?

Ouvindo aquela proposta esquisita e quase que ofensiva, alguns sorriram, indignaram se outros, franzindo os sobrolhos, e um pesado silêncio constrangido caiu naquela sala há pouco tão sonora de vozes, de risos e do fino tilintar da prata e dos cristais.

— Peço perdão, mas oponho-me e rejeito essa proposta!

Quem assim falava era Antônio de Vasconcelos. Estava pálido como a morte, tentava sorrir, mas os dentes cerravam-se-lhe nervosamente, e os cabelos empastavam-se-lhe na testa gotejando suor.

— Seria ele? disse a dona da casa baixo, e fitando-o tristemente.

E toda a gente que o ouvira como que por instinto afastou-se do pobre rapaz.

Podia ser, que fosse ele. Era pobre, pois não viam isso claramente?

Os olhos de todas as mulheres que ali estavam começaram então desapiedadamente a analisá-lo por miúdo, e passavam-lhe em revista a casaca coçada, a pouca finura da camisa, a gravata branca ligeiramente encardida, as joelheiras luzidias das calças pretas.

— E não é feio rapaz!

— Pois sim, mas Lacenaire também não era feio, disse outra menos caridosa e mais letrada.

Antônio de Vasconcelos aproximou-se de Jorge de Alvim, e baixo com voz concentrada disse-lhe:

— Uma palavra, Sr. Alvim, desejo dar-lhe uma palavra...

— É melhor mais tarde... depois... replicou desdenhosamente Jorge de Alvim.

Repararam todos na insistência de Antônio de Vasconcelos, e as suspeitas mais e mais se enraizaram no espírito dos convivas.

O pobre rapaz, que conhecia a falsa posição em que se colocara com a sua frase, sentia-se humilhado e como que vendido naquele meio.

Os próprios criados olhavam-no com manifesto desprezo.

Vasconcelos disse ainda ao diplomata:

— Senhor Jorge de Alvim, pela última vez, quer ouvir-me?

— Homem, já sei; é pobre, teve uma fascinação, já li isso não sei aonde... Ah! já sei... num conto de Balzac...

E voltou-lhe as costas.

Nesse instante uma voz entaramelada e rouca ecoou na sala:

— Peço que me escutem! como sou o único pobre que aqui está, e como todas as circunstâncias são no meu desfavor, podem julgar que fui eu que roubei esse anel. Se não consenti na proposta feita pelo Sr. Jorge de Alvim, — e na palidez do seu rosto destacavam-se duas rosas de pejo,— foi porque, se me revistassem, encontravam-me no bolso isto que eu furtei para levar à minha irmã que não come desde ontem... disse o mancebo tirando da algibeira um pão.

***

Houve um grande e profundo silêncio angustioso. A condessa foi a primeira a rompe-lo adiantando se para Vasconcelos.

— Pobre rapaz!...

E com o movimento que fez, um objeto brilhante faiscou nas franjas do seu vestido.

— Permita-me vossa excelência, condessa, disse o banqueiro abaixando-se e desprendendo das franjas o objeto que reluzia e chispava: aqui está o anel.

***

Antônio de Vasconcelos ocupa hoje com geral aplauso e com grandes créditos o lugar de secretário, na embaixada de que é ministro seu amigo e cunhado Jorge de Alvim.

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